Há uns tempos, falei por aqui do Vicente, um corvo (de que eu tinha algum medo, confesso agora) que, na minha infância, pousava pelo largo de S. Pedro, em frente às lojas do Borrão e do Taboada, junto à escola industrial e à Rosa das castanhas. Na Vila Real de então, o Vicente foi tão popular como o foram Bertelo e o Honório (desista de entender isto quem não for dessa cidade). A Zinha foi das poucas pessoas que, num comentário, aqui recordou comigo essa ave.
A Zinha nasceu na mesma rua que eu, a Avelino Patena, chamada pelos antigos de rua da Travessa e que alguns vila-realenses menos atentos, que não ela, ainda hoje confundem com a rua das Pedrinhas.
Eu era da idade de um irmão da Zinha, o Quim, que o tempo já levou. Mas já não de outro, mais velho, que sabia desenhador de mérito e que, na cidade, rivalizava, na arte da construção dos tapetes de flores, com o Lima do café Imperial. A família da Zinha, a família Claro, teve no passado um lugar bastante importante na história política e social de Vila Real, para quantos não saibam mas ficam agora a saber.
A nossa rua, a rua onde eu e a Zinha nascemos, trazidos ao mundo pelas mãos hábeis da dona Judite, que também era ali nossa vizinha, era, em si mesmo, um mundo!
Ao alto, por debaixo da casa dos imensos Mota e Costa, havia a loja de fazendas do pai do Quim Rato, seguido da do senhor Olívio das bicicletas, cujo filho, com o mesmo nome, foi um dos meus grandes amigos de vida. Em frente, era o João Albardeiro, com os tiques que não são para aqui chamados, o seu inconfundível chapéu de abas e que era o organizador, sem falhas, por esta época, da "queima do Judas", rito que, por um tanto sinistro, nunca apreciei por aí além. Logo após, ficava o armazém do senhor Fernandes, com a casa da família ao lado, cheio de sacos de farinha e milho amontoados, por onde gostávamos de trepar e nos esconder. A barbearia do pai do Augusto (na rua, eu conhecia essencialmente os filhos das pessoas), que, ia jurar!, se situava ao lado da casa dos Claro, era quase em frente da tasca do senhor António (que será feito da filha Lucília?). Logo depois, vivia eu com os meus pais e os meus avós e, a seguir, era a casa de uma tal menina Adelaide, que me lembro de já não ser tão menina como isso, que punha fados na rádio muito alto e aguçava apetites aos meus tios solteiros. Na esquina, em frente à tipografia do senhor Agostinho, viviam o Vítor e o Carlos Almeida. Ali por perto, nas Pedrinhas, por cima do latoeiro, havia o dr. Lisboa com o filho Mário e, um pouco mais acima, depois do armazém do senhor Lito, habitava o imenso "rancho" dos Barreto, seguido da família Teixeiró. Saí com sete anos daquela rua, para ir viver com a minha família para outra, mas, como se pode observar, fui sempre passando por lá e dela fiquei com muitas memórias.
Escrevi isto com a certeza de que a Zinha teria achado alguma graça a esta geografia afetiva dos nossos mútuos lugares da infância, mas com a antecipada tristeza de saber que ela acaba de desaparecer. Vai-se com a Zinha aquela alegria boa com que sempre nos cruzávamos na Gomes, o imenso e permanente sorriso com que nos dava as boas-vindas de regresso à cidade onde ambos nascemos e onde, no dia de hoje, eu estou de chegada e ela de partida definitiva.
