sábado, setembro 30, 2023

A Espanha cada vez mais dividida



Pode ver aqui.

Depois queixem-se!

Com a "vox populi" a encaminhar-se, dia após dia, para a atribuição das culpas aos estrangeiros residentes pela falta de casas, está-se a criar por aí, devagar, devagarinho, uma espécie de xenofobia 2.0. Depois queixem-se!

E agora, como será?

Depois da condescendência perante o ato das meninas da tinta verde, iremos também assistir a uma complacência face aos atos de destruição que tiveram lugar na manifestação pela habitação? Aguarda-se um repúdio desse vandalismo, idêntico ao que a presença do Chega suscitou.

O custo da guerra na Ucrânia e as hesitaçôes internacionais


Pode ver aqui.

Toponímia política

Quem se dedica às questões internacionais sabia que a capital do Nagorno-Karabakh se chamava Stepanakert. Convém que se desabituem: os azéris, novos donos da casa, chamar-lhe-ão Khankendi. Tal como os russos sonham poder chamar eternamente Artmovsk a Bakhmut.

Fernando Alves


Não conheço pessoalmente Fernando Alves, mas ouvia com muito agrado a sua rubrica. A certeza de que tudo tem um fim não nos deve inibir de dizer que, às vezes, é pena que assim seja.

sexta-feira, setembro 29, 2023

Passando a coisas sérias...


 ... gostava de dizer que fui hoje almoçar, com um amigo, a um excelente - e, para mim, até agora, desconhecido - restaurante em Algueirão (rua dr. João de Barros, 88), na linha de Sintra. Por feliz indicação de um outro amigo, pessoa que tem o país escrutinado em matéria gastronómica, descobri o restaurante "A Oliveira", onde comi um soberbo arroz de lingueirão, antecedido de umas ameijoas à Bulhão Pato de se lhes tirar o chapéu. O preço foi "em conta". É uma casa muito pequena, com um serviço delicado e sabedor, com necessidade imperiosa de reserva (211 978 591). Um alerta: nas próximas duas ou três semanas, por razões dos mares, não haverá por ali lingueirão, mas o resto da lista é muito apelativo. Experimentem e não se arrependerão! 

quinta-feira, setembro 28, 2023

Transnístria

Não nos devemos admirar se, um destes dias, viermos a assistir a uma ação militar da Moldova na Transnístria, seguindo o exemplo do Azerbaijão no Nagorno-Karabakh. A crescente retórica do governo moldavo pode indiciar esse caminho. E os EUA e a UE apoiariam essa ação, pela certa.

Antes que esqueçamos...

Para a história, fica a frase antológica de Luís Montenegro: "O PSD, nem na Madeira nem no país, fará um acordo com o Chega, porque não vai precisar”. A primeira parte da frase é de uma rejeição prenhe de valores! A segunda parte é só inqualificável: "porque não vai precisar"...

quarta-feira, setembro 27, 2023

O clima, por exemplo

A História prova que certas causas com forte impacto social, que convocam emoções mediatizadas, utilizam métodos cada vez mais radicais e transgressores, mesmo à margem das leis, que esperam ser tolerados, por alegarem pureza de motivos e a genuinidade dos prosélitos envolvidos.

E o HLPG, senhores?!


Imagino que o título deste post cause estranheza a quase todos os que o leem.

O mundo acordou, nos últimos dias, para a tragédia que atravessa o Nagorno-Karabakh, um território do Cáucaso do Sul cuja soberania, desde o final da União Soviética, tem sido disputado pelo Azerbaijão e pela comunidade arménia que lá vive. Esta última chegou a reivindicar a criação de um Estado, designado Artsakh, que nunca obteve reconhecimento internacional. 

Nas últimas décadas, vários sangrentos ciclos de guerra ocorreram no território, entre as forças armadas do Azerbaijão e da Arménia, sempre com tardias tentativas de apaziguamento feitas pela Rússia, que ali mantinha uma pouco eficaz "operação de paz". 

O crescente apoio da Turquia às pretensões azeris, a fragilidade conjuntural da Rússia e a incapacidade militar da Arménia para conseguir acorrer aos cidadãos com essa origem que vivem no Nagorno-Karabakh terão estimulado o Azerbaijão a executar agora um derradeiro golpe de mão para se apossar da totalidade do território. Uma tragédia humanitária é expectável.

Quando, em 2002, fui para Viena chefiar a nossa representação junto da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), durante a presidência portuguesa da organização, o tema estava bem presente na nossa agenda. 

A questão vinha a ser tratada, desde 1994, pelo chamado "grupo de Minsk", uma entidade criada no seio da OSCE para mediar o conflito, composta por 11 países (que Portugal, curiosamente, integrava), cujo trabalho negocial não tinha dado resultados visíveis, "to say the least". 

Em Viena, dependente politicamente do "grupo de Minsk" e funcionalmente da OSCE, existia uma estrutura militar, o HLPG (High Level Planning Group). Devo dizer que, até aterrar na Áustria, eu nunca ouvira falar do HLPG.

Tempos depois da minha assunção de funções, o diplomata português que seguia o dossiê na nossa presidência, José Manuel Carneiro Mendes, transmitiu-me o convite do chefe do HLPG para que eu visitasse essa estrutura. 

Fui então simpaticamente acolhido num andar central de Viena por um grupo multinacional de dez oficiais (idealmente seriam 13, mas havia países que estavam em atraso no envio dos seus oficiais), secretariados por uma simpática senhora, que me fizeram um "briefing" sobre a situação no terreno, a qual nada diferia das informações que o "Conflict Prevention Centre" da OSCE me transmitira. 

Mas, afinal, para que servia o HLPG? O objetivo da estrutura era estar preparado para montar uma operação de "peacekeeping", logo após o estabelecimento de um acordo entre as partes, eventualmente a ser obtido pelo "grupo de Minsk". 

Com exceção de algumas missões de observação no terreno, quando as partes assim o consentiam, o grupo vivia encerrado há oito anos naquele andar, com mapas desatualizados, sem um serviço mínimo de "intelligence" que o abastecesse de dados relevantes, sendo as "missões" da OSCE na Arménia e no Azerbaijão os seus escassos suportes informativos. Assim era desde 1994...

O ambiente, naquele escritório, era algo estranho. Entre um chá e um bolo que nos foi oferecido pela senhora, pressentia-se um sentimento de inutilidade por parte daqueles militares. No final, para coroar a minha visita, o militar que chefiava a entidade, um oficial suíço, ofereceu-me um canivete do seu país... 

Na ingenuidade de que a razão podia prevalecer, nas semanas seguintes sondei discretamente os "major players" da OSCE, bem como as duas partes diretamente interessadas, com vista a tentar perceber se não seria possível fazer "destroçar" a tropa acantonada naquele dispendioso andar da capital austríaca. A minha ideia era fazê-los regressar aos respetivos países, reconstituindo-se o HLPG se e quando uma hipótese remota de acordo viesse a ser viável. A poupança orçamental seria significativa, fosse para os cofres da OSCE (200 mil euros/ano, à época), fosse para os países de onde os militares (de várias patentes) eram "seconded".

O que eu fui dizer! Com maior ou menor ênfase, não houve um só dos meus interlocutores que desse a menor abertura a essa minha "bizarra" ideia, a começar pela Arménia e pelo Azerbaijão. Para todos eles, se levada à prática, a minha proposta indiciaria um menor empenhamento internacional na resolução do conflito. E assim fracassou a minha inocente ideia. E por ali foi ficando o HLPG, desde há 29 anos...

Por estas horas, em que a hipótese de uma operação de paz no Nagorno-Karabakh deixou de poder sequer conjeturar-se, imagino que o "vigilante" HLPG possa estar em processo de "destroçar", como se diz na tropa. Ou, se calhar, ainda é cedo, porque encerrar uma estrutura institucional, em regra, demora bastante mais tempo do que criá-la...

Quando ouço falar nas "gorduras do Estado" e de gastos supérfulos, lembro-me tantas vezes do HLPG...

terça-feira, setembro 26, 2023

Russofobia

A triste cena ocorrida no parlamento do Canadá, onde um equívoco histórico pôs toda a gente a saudar entusiasticamente um combatente pró-nazi, só foi possível pelo ignorante ambiente de russofobia, incapaz de separar o regime de Putin da heróica luta da URSS contra o nazismo.

Olé!

Sei que isto vai enfurecer alguns, mas quero dizer que, se há uma coisa que um futuro governo Sánchez, com todo o seu radicalismo e "political correctness", deveria fazer era pôr um imenso ponto final nas touradas. Eu, do lado de cá do Caia, aplaudiria.

segunda-feira, setembro 25, 2023

Outono

Não se consegue arranjar uma fotografia decente para ilustrar um tweet sobre o Outono. Só aparecem folhas e jardins com neblinas. Que falta de imaginação!

Macron

A entrevista de hoje de Emmanuel Macron à televisão francesa foi um repositório enfático de auto-propaganda, muito ao estilo do "o que preocupa os franceses é...", um velho truque demagógico para só dar como resposta o que se quer fazer passar. Macron é hoje uma carta esgotada. 

Ainda a tempo...

A alguém passou por um segundo pela cabeça que o líder regional da Madeira se iria demitir? Só contado p'ra você, como dizem os brasileiros.

A caça às bruxas

Pelo Twitter, vive-se alguma agitação em torno das prestações de certos comentadores televisivos sobre a guerra da Ucrânia. Pelos vistos, há gente que entende que só tem direito a falar quem diz o que essa mesma gente pensa.

A França que se foi...

Ouvir Macron falar do papel atual da França em África ou do quensignifica, em termos efetivos, o seu apoio à Arménia foi um espetáculo penoso, na entrevista televisiva de ontem. Custa ver um poder europeu em evidente declínio. E, no que me toca, custa-me mais, por ser a França.

Muita atenção a isto!

A pedido da Alemanha e da França, um grupo de especialistas elaborou um documento com propostas institucionais e de incidência nas políticas comunitárias destinadas a "preparar" a União Europeia para futuros alargamentos. 

São propostas com sérias consequências, que seria vital discutir muito bem.

... ou isto!

Percebe-se o afã de Luís Montenegro de partilhar o (razoavelmente) bom resultado do PSD Madeira. Mas é legítima uma leitura menos simpática: foi preciso que Luís Montenegro chegasse a líder nacional do partido para que o PSD Madeira perdesse a sua histórica maioria absoluta...

domingo, setembro 24, 2023

Seria um ato de coragem. Será?

Marques Mendes disse hoje, na televisão, uma coisa imensamente sensata: é preciso, com urgência, proibir as raspadinhas.

Giorgio Napolitano


Morreu Giorgio Napolitano. Tinha 98 anos.

Em 1953, Napolitano foi deputado pela primeira vez, pelo Partido Comunista Italiano. Muitos anos depois, já como membro dos Democratas de Esquerda, foi presidente da Câmara dos Deputados, ministro do Interior, senador vitalício e presidente da República italiana, neste caso por nove anos.

Foi através de Piero Fassino, que foi presidente da Câmara de Turim e ministro da Justiça (grande amigo do antigo secretário de Estado português, Victor Neto, ao tempo do exílio deste em Itália), que conheci Napolitano.

Eu havia criado com Fassino uma forte relação, que se mantem até hoje, desde o tempo em que tivemos responsabilidades similares nos nossos respetivos governos. Napolitano e Fassino, ambos oriundos do Partido Comunista Italiano, tinham colaborado no "aggiornamento" de Berlinguer e faziam parte de quantos, mais tarde, com d'Alema, haviam trazido o velho PCI de Togliatti (e de "Peppone", claro) para o "mainstream" da política italiana, também muito graças ao "compromisso histórico" que pode ter custado a vida a Aldo Moro.

Em inícios de 1997, Fassino telefonou-me para Lisboa, perguntando se eu estaria disponível para ter uma conversa com Giorgio Napolitano, à época ministro do Interior, durante uma deslocação que, na semana seguinte, eu iria fazer a Roma, já não recordo bem para quê. Acedi de imediato.

Em Portugal, por esse tempo, cabia ao secretário de Estado dos Assuntos Europeus a gestão do dossiê do Acordo de Schengen, o que era um expediente para superar a rivalidade entre os ministérios da Administração Interna e da Justiça no tratamento do tema. Assim, no ano de 1997, iria competir-me a titularidade da presidência daquele acordo, que Portugal ia assumir por regra rotativa.

A Itália tinha subscrito o acordo em 1991 (Portugal apenas em 1992), mas só veio a aplicá-lo em fins de 1997 (com Portugal a pô-lo em vigor em inícios de 1995). As principais razões do atraso da Itália prendiam-se com a falta de confiança dos parceiros na sua capacidade de controlo das fronteiras externas.

Napolitano recebeu-me no seu soberbo gabinete do ministério do Interior, em Roma. Tinha 71 anos e já parecia ter muitos mais. Os seus movimentos eram lentos, as palavras também, mas o seu raciocínio era muito ágil. Recordo sempre o comentário do meu então chefe de gabinete, Miguel de Almeida e Sousa, no final da reunião: "O velho é muito vivo!"

A nossa conversa começou em torno dos melhores chás pretos, que ambos apreciávamos e tínhamos pedido, com ele a tomar nota, com um lápis, num pequeno pedaço de papel, de uma marca inglesa que então lhe recomendei. O tempo, naquele ambiente antigo, parecia suspenso. Pelas caras de quem ia comigo, a começar pelo nosso embaixador em Roma, percebi que o ritmo da audiência poderia vir a contaminar outros encontros e reuniões que eu ainda teria nesse dia. Não tenho ideia se isso veio a acontecer.

Napolitano, numa voz cava e pausada, que mantinha num registo baixo, foi direito ao assunto: a Itália precisava de garantir, na reunião ministerial a que eu presidiria, em Lisboa, meses depois, o seu lugar de pleno direito em Schengen. Um país fundador das comunidades europeias não podia ficar fora do sistema.

Eu trazia a lição estudada. Lembrei as medidas técnicas que a Itália se comprometera a aceitar, em matéria de portos e aeroportos - que outros parceiros consideravam ainda muito incompletas, num processo de decisão que funcionava a unanimidade. Ao contrário de Fassino, que fazia esgares e se mexia na cadeira, ao ouvir, com alguma contratiedade, aquilo que eu ia dizendo, Napolitano mantinha uma atitude impassível, mesmo ao explicitar o seu contra-argumentário.

Com toda a simpatia, que era real, pela posição italiana, disse-lhe que faria o meu melhor na ministerial de Lisboa. Mas não prometi nada, a não ser a melhor boa vontade.

A reunião de Lisboa foi muito difícil, e não apenas por causa da Itália. Só consegui fazer vingar um compromisso final... pela fome! Prolonguei a reunião por horas, com sucessivos "drafts", até conseguir o resultado pretendido. O almoço oferecido aos delegados, no CCB, só começou quase às quatro horas da tarde, com alguns a perderem aviões.

Conseguimos, no final, depois de muitas horas em que isso pareceu impossível, que fosse aceite um compromisso que, segundo recordo, consagrava a plena e automática aplicação de Schengen à Itália, desde que esse país fosse ultrapassando, com sucesso, nos meses seguintes, uma lista calendarizada de exigências técnicas ainda em falta. Se assim acontecesse, mas sem necessitar de uma nova e penosa ratificação política pelos governos, o país teria o seu lugar de pleno direito no acordo. Assim sucederia, meses mais tarde. Napolitano pôde então anunciar que os ministros de Schengen tinham dado o seu acordo político para a aplicação do sistema à Itália, que apenas teria de colmatar alguns pontos técnicos residuais.

Nessa tarde no CCB, com todos nós esgotados pela longa jornada, que tivera início num jantar na véspera nas Necessidades, Giorgio Napolitano ficou tão contente com a fórmula que havíamos conseguido, que, no termo da reunião, me pregou dois repenicados beijos na cara.

Passaram, entretanto, mais de dois anos.

Em janeiro de 2000, Portugal defrontava-se com dificuldade em obter o "avis conforme" do Parlamento Europeu para poder arrancar com a Conferência Intergovernamental que iria rever o Tratado de Amesterdão. Tratava-se de superar uma exigência, suscitada por alguns e rejeitada por outros Estados, de incluir na agenda negocial um determinado ponto. Napolitano era o presidente da poderosa Comissão Institucional, por onde tudo teria de passar. Portugal tinha uma fórmula a propor, mas necessitava de ajuda para garantir que ela seria aceite.

Fui ver Giogio Napolitano ao seu gabinete em Estrasburgo. Mal eu tinha acabado de lhe expor as dificuldades com que nos confrontávamos, sempre com aquele seu fácies só aparentemente impassível, retorquiu-me: "Francisco. Nunca esqueci a ajuda preciosa que me deste em Lisboa. Agora, farei tudo o que puder para te ajudar." E fê-lo, com grande empenhamento, auxiliando-nos num momento particularmente delicado. Eu também não esqueci isso.

A Eslováquia na guerra dos cereais

Ver aqui.

sexta-feira, setembro 22, 2023

Tudo pelo melhor

Em tempos que há muito já lá vão, tive uma tia avó que, ao falar-nos de como ia a vida dos filhos e dos respetivos netos, só relatava insuperáveis venturas. Quando, uma vez por outra, passávamos a visitá-la, na cidade distante onde vivia, para um chá e uma conversa a matar saudades, as notícias eram invariavelmente gongóricas. Os casamentos ou os namoros iam sempre lindamente, com gente do melhor, de famílias simpaticíssimas (mais do que simpatiquíssimas, portanto), os empregos ou os negócios de cada um eram só sucessos, cada qual melhor do que o outro.

Depois, com a passagem dos meses e anos, ia-nos chegando a realidade. Os tais laços românticos tinham redundado, algumas vezes, em separações ou em divórcios, conflitos pessoais insanáveis tinham emergido, tinha ocorrido o desemprego de algum, a falência de outro, às vezes a forçada emigração de outro ainda. Nada que fosse incomum à generalidade das famílias, só que, ironicamente, acabavam por ser factos contrastantes com o quadro idílico que tínhamos ouvido, nas anteriores narrativas daquela senhora. E, às vezes, chegava a ser penoso, ao revê-la, encontrá-la teimosamente afirmativa, nunca querendo dar parte de fraca, embora esforçada no adaptar do discurso, já com os exageros de esperança a esconderem as verdades da vida.

A senhora minha tia não falava inglês. Por essa razão, mesmo que quiséssemos (e não queríamos) nunca lhe poderíamos explicar que os anglo-saxónicos têm a expressão "wishful thinking" para designar pensamentos e mitos auto-sossegantes, desenhados apenas pelos desejos, que frequentemente tropeçam na realidade.

Ontem, ao ouvir alguns comentários sobre os resultados da ida de Zelensky aos Estados Unidos, lembrei-me muito daquela minha tia.

Diferenças


Um tribunal emitiu uma providência cautelar para, segundo a comunicação social, suspender a "transladação" dos restos mortais de Eça de Queiroz para o Panteão. Eu estaria preocupado se tivesse sido proibida a trasladação. Sendo a tal "transladação", não há o menor problema.

Desisti!


Há algumas coisas de que, ao final de alguns anos, acabamos por desistir. Um exemplo? Saber de cor, sem enganos nem hesitações, a ordem e o caráter longitudinal ou transversal de todas as ruas de Campo de Ourique.

quinta-feira, setembro 21, 2023

E assim acontece...


Há muito que tenho duas teses sobre como ver ou não jogos do (meu) Sporting. 

A primeira é que, comigo lá em Alvalade, o Sporting nunca perdeu no seu estádio. Desde 1965! Vou lá pouco, é verdade... mas a estatística fica e é pura verdade. 

A segunda é que, das raras vezes que observo um jogo do clube pela televisão, quase sempre vejo o Sporting sofrer um golo. Em minha casa, esta última circunstância é sobejamente conhecida. 

Hoje, liguei a televisão e lá estava o Sporting a jogar com um clube austríaco qualquer. A minha mulher (que não é do Sporting, mas é solidária com as minhas tristezas desportivas) alertou-me: "Muda de canal! Não dizes que te dá azar?". Um minuto depois, o Sporting sofria um golo. Mudei de canal, pronto. Continuava, contudo, curioso sobre o andamento do resultado, mas fui resistindo à tentação. É que, do lado, ouvia: "Não vás ver, porque te vais aborrecer". Não fui. O Sporting ganhou.

quarta-feira, setembro 20, 2023

O pirata


A década de 80 estava a terminar, por esses tempos. 

Torci um pouco o nariz quando aquele membro do governo, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, me chamou e pediu que recebesse um determinado jornalista. A ideia era que eu pudesse transmitir-lhe, "off the record", a perspetiva oficial portuguesa sobre uma determinada questão de política externa. Como é de regra nestas coisas, o homem poderia usar essa conversa para refletir no texto a nossa posição, mas não ficaria autorizado a revelar a fonte. 

Acontecia que eu, uns tempos antes, eu tinha tido uma má experiência, num contexto similar, em que esse anonimato não fora respeitado, pelo que estava de pé um pouco atrás para levar a cabo o exercício.

A minha reserva tinha, além disso, uma outra razão cumulativa. A figura da imprensa com a qual me era pedido que falasse merecia-me as maiores reservas. Era um nome bem conhecido na praça, mas desse reconhecimento fazia também parte um historial de tropelias e de atitudes de duvidoso rigor deontológico. Contudo, a insistência da pessoa que me formulava o pedido fez com que eu aceitasse receber o homem.

No dia seguinte, lá se apresentou ele no meu gabinete. Histriónico, de gesto largo, dava-se ares de facilidade no manejo da temática que determinava a nossa conversa. Mas tudo correu bem.

Uns dias antes, aquele mesmo membro do governo tinha pedido que eu lhe apresentasse uma proposta com a lista dos ministros que poderia ser útil que o chefe do governo levasse consigo, numa visita que ia fazer a um importante país de expressão portuguesa, prevista para ter lugar semanas depois. 

Eu tinha colocado essa proposta numa "informação de serviço" mas, por qualquer razão, não a tinha ainda entregue. Esse papel estava em cima da minha secretária, no topo de uma pilha de outros, durante a conversa que tive com o jornalista. Tinha, no entanto, voltado as suas folhas ao contrário. 

Por uns escassos minutos, durante esse encontro, tive de me ausentar da sala. Quando regressei, fiquei com a sensação de que os papéis estavam numa posição ligeiramente diferente. Mas logo esqueci o assunto.

Passaram dois ou três dias. O membro do governo chamou-me. Quando entrei no seu gabinete, estava sorridente, tendo na mão o semanário em que o tal jornalista trabalhava: "Já leu o artigo? Está impecável. O homem sabe da poda. E você desconfiava dele, achava-o sem ética. Confesse lá: foi preconceituoso! Outra coisa: vem também aqui no jornal uma notícia um pouco estranha, com uma lista dos membros do governo que devem acompanhar o primeiro-ministro na ida a África. Lembra-se que este foi precisamente o assunto sobre o qual eu lhe tinha pedido uma proposta?"

Sem dizer palavra, passei-lhe para as mãos o texto da minha "informação de serviço". Num segundo, ele percebeu que as listas coincidiam, em absoluto. Olhou para mim, com um ar desagradado: "Você deu esta informação ao jornalista?". Respondi: "Não dei, como é óbvio. O que aconteceu é que, enquanto saí da sala, por uns minutos, ele "pirateou" esse documento. Pelos vistos, deixou a ética à porta do meu gabinete. Percebe agora melhor as dúvidas que eu tinha?"

Ontem, num almoço de amigos, falou-se do homem, sobre quem saltaram para a mesa várias histórias, nem todas edificantes. Guardei esta para hoje. 

terça-feira, setembro 19, 2023

Direitas


Hoje foi um dia luminoso na revelação do estado da direita em Portugal. Sem surpresas, a direita radical, populista e a-social, ficou de mão dada com a extrema direita, racista e xenófoba. A direita democrática, infelizmente, não quis separar as águas e ficou a meio da ponte.

O chefe Artur


Em 2003, na manhã cálida de 20 de julho, dia da cidade de Vila Real, o chefe Artur, o mais conhecido bombeiro da urbe, foi homenageado com a Medalha do município.

Duas outras pessoas - o médico António Passos Coelho (pai da pessoa em que estão a pensar) e eu próprio - recebemos, na ocasião, galardões similares. Em nome dos três, coube-me agradecer ao município, na pessoa do presidente de então, Manuel Martins, a distinção por todos recebida. 

No final, o chefe Artur, que era uma pessoa que eu conhecia "de toda a vida", como diriam as "piquenas" da Linha, veio ter comigo, para um abraço, e disse-me: "Ó doutor! Quem havia de dizer que nós os dois, que, há uns anos, andámos, de madrugada, a tirar com o guincho o carro do "Foquita" de um lameiro, em Parada de Cunhos, íamos estar aqui a receber juntos esta medalha!" 

Era bem verdade! Numa noite do final dos anos 60 ou início de 70, depois do meu grande amigo Zé "Foquita" nos ter conduzido inabilmente, com seu Mini, por uma ribanceira, junto à Toca do Lobo, felizmente sem consequências para além da chapa, tinha sido eu quem fora acordar o Artur à sua casa nos "bombeiros de cima", lá para as cinco da manhã, para "desenrascar" os efeitos do acidente. Terá sido a única ocasião em que o vi mal disposto.

É que o chefe Artur era, como sempre o recordo, um homem extremamente cordial, com um permanente sorriso, quando nos cruzávamos pelas ruas, ele no modo rápido e inclinado de caminhar que lhe era bem caraterístico. Estava, já há muito tempo, reformado das lides dos fogos, continuando a ser uma figura muito popular e querida na cidade. Ao que soube, morreu agora, com a bela idade de 93 anos. Fica o meu pesar e a sua fotografia (da autoria de Duarte Carvalho) com a medalha que ambos partilhamos.

segunda-feira, setembro 18, 2023

Portugal au Congo



Ao que constava nas últimas horas, estaria a acontecer um golpe de Estado na República do Congo. 

Para deixar as coisas claras, e para benefício dos leitores, existem dois Congos: este, cuja capital é Brazzaville, pelo que vulgarmente é designado por Congo-Brazza, e o país do outro lado do rio Congo ou Zaire (pelo qual, já agora!, andou e deixou padrões, no século XV, o meu conterrâneo vila-realense Diogo Cão), a República Democrática do Congo, também chamada de Zaire, que tem por capital Kinshasa, e que já teve como líderes figuras do jaez de um Mobutu ou de um Laurent Kabila, como talvez se lembrem.

No poder, no Congo-Brazza, esteve, pelo menos até ontem, Denis Sassou Nguesso. Agora, tinha-se deslocado a Nova Iorque. para intervir na Assembleia Geral da ONU e, por uma vez, poderia ter-se-lhe aplicado a fórmula que eu ouço desde a infância: "quem vai ao mar, perde o lugar". Logo se verá!

Nguesso tem uma grande experiência do lugar de presidente: esteve nesse cargo de 1979 a 1992 e, depois de um interregno, de 1997 até agora. É fazer as contas! São 39 anos. E teve uma filha que foi casada com o líder do vizinho Gabão, Omar Bongo, homem já desaparecido há uns anos, que também tinha alguma experiência do poder: foi presidente por 42 anos. O filho de Omar Bongo, Ali, de seu nome, foi à vida, há semanas, por um "movimento das forças armadas" qualquer.

Creio (mas posso estar enganado) que Portugal nunca teve uma embaixada em Brazaville. Mas tivemos, por lá, por muitos anos, uma figura extraordinária como cônsul honorário, o José Fernandes. Fernandes era um verdadeiro português dos trópicos: influente, com excelente "trânsito", cordial e conhecedor da terra como ninguém.

De uma das vezes que estive em Brazaville, além de algumas cenas que para sempre não poderei contar, assisti a duas extraordinárias manifestações da rara influência do José Fernandes, que era, aliás, figura com acesso fácil a Nguesso, como vim a confirmar por outras fontes. 

Numa delas, perante o interesse manifestado pelo chefe da nossa delegação de se encontrar com um determinado ministro, que sugeriu poder ir visitar no seu gabinete, o José Fernandes reagiu: "Essa agora! Não vai nada ao gabinete dele. Eu chamo o ministro a minha casa e encontram-se lá". E chamou...

A segunda foi também de mestre. Por uma qualquer razão, chegámos demasiado cedo ao aeroporto, onde íamos apanhar um voo para Paris. A sala VIP, dado o adiantado da hora, estava fechada. O embaraço coletivo durou um segundo: com um sorriso, o José Fernandes sacou da chave que tinha de acesso à sala. E logo partiu para o bar, servindo os integrantes da nossa delegação. 

Tenho saudades do José Fernandes, um homem simpático, já desaparecido há uns anos, que voltei a reencontrar, tempos mais tarde, num jantar, em que me recordo que estava também o meu colega e amigo, embaixador Leonardo Mathias, que creio teve lugar em Linda-a-Velha. Na ocasião, o José Fernandes disse-me: "Nunca me esqueci de uma coisa que o doutor me contou em Brazza, numa noite: que há um "José Fernandes", uma figura importante, num livro de um escritor português. Pode dizer-me o nome do livro?"

Não sei se o José Fernandes chegou a ler "A Cidade e as Serras", onde um seu homónimo é uma espécie de "compère" do Jacinto, de Paris a Tormes, com comboios, favas e primas pelo meio. Mas o "nosso" José Fernandes de Brazzaville, embora, que eu saiba, não esteja ainda retratado na nossa literatura, tinha, incomparavelmente, mais graça como figura do que o homem de Guiães.

domingo, setembro 17, 2023

O "Coffee Club"


O alteração - só se fala em alargamento, mas isso não esgota as soluções - do número de países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, cuja Assembleia Geral anual agora de inicia, é e promete continuar a ser debate eterno.

Os atuais cinco membros são os Estados que a História, pela força das armas e dos compromissos que delas resultaram, consagrou como vencedores da Segunda Guerra Mundial, embora a China que por ali esteve, de 1945 a 1972, fosse o regime que hoje procura sobreviver em Taiwan. 

À luz das realidades do mundo de hoje, a composição do Conselho não tem a menor racionalidade, pelo que só os ingénuos podem pensar que será uma decisão consensual a alterar o "statu quo". Todos sabemos de que países se fala como putativos novos membros: Brasil, Alemanha, Índia, Japão e um eterno "país africano" que ninguém ousa designar, porque os ventos se dividem entre o Egito, a África do Sul e a Nigéria.

Mas já ouviram falar do "Coffee Club"? Em 1995, a Itália, sob o impulso do ativo embaixador Francesco Fulci, decidiu avançar com uma iniciativa intitulada "Uniting for Consensus", que punha em causa o direito "natural" daqueles quatro países de serem os destinatários dos futuros novos lugares. 

O nome de "Coffee Club" ficou popularmente ligado à ideia, que logo mobilizou o México, o Paquistão e o Egito. Essa frente da "dor de cotovelo" logo alargou-se depois à Argentina, o Canadá, a Turquia e até a Espanha. Mas a vocação para essa "segunda divisão" é imensa, da Austrália à Coreia do Sul, da Polónia à Indonésia e por aí adiante, com a Arábia Saudita e Angola a não poderem ser excluídos.

Ironizando com a constante presença da Alemanha e do Japão nas sugestões para o alargamento do Conselho de Segurança, sem que a sua Itália aí fosse mencionada, o embaixador Fulci teve um dia uma tirada que ficou célebre: "Nós também perdemos a guerra!"

Lembram-se dos Acordos de Oslo?

 

Pode ver aqui.

sábado, setembro 16, 2023

Cuba e o G77


Nos últimos dois dias, falou-se bastante do G77, que teve uma reunião em Cuba, onde estiveram presentes António Guterres e Lula da Silva. Muitos se interrogaram sobre que diabo era isso do G77.
Vou contar uma história a propósito.
Em 2001, poucos meses depois de chegar a Nova Iorque para representar Portugal na ONU, e de ter sido eleito para a vice-presidência do Conselho Económico e Social (ECOSOC), fui aproximado pelo meu colega do Reino Unido, que ia deter dentro em breve a presidência do Conselho de Segurança, pedindo a minha ajuda para se organizar uma ação conjunta entre esse órgão e o ECOSOC.
Seria uma jornada de um dia, já não recordo sob que temática, que se me afigurava relativamente neutral e até interessante. Eu estava encarregado de desenvolver um conjunto de ações para dar visibilidade ao trabalho do ECOSOC e uma ideia dessas vinha mesmo a calhar.
Perguntei-lhe se a China estava de acordo, porque o peso do G77 (grupo de países do Sul, onde a voz de Pequim era influente) era essencial. Garantiu-me que sim, que todos os cinco membros permanentes não criariam dificuldades. Achei "fruta a mais", mas falei com o colega camaronês que presidia ao ECOSOC e obtive luz verde para avançar.
As primeiras sondagens tornaram-me otimista. Procurei o colega iraniano, que tinha considerável poder de mobilização para um potencial bloqueio no G77, que, sem mostrar grande entusiasmo, disse que, por ele, não objetaria. Mas advertiu-me: "Não faças nada sem falar com o Bruno!" E lá fui à procura do simpático embaixador cubano na ONU. Na semana anterior, tivera-o a jantar em casa com a mulher. Achei que estava "no papo". Pois isso!
Bruno Rodriguez foi encantador, como sempre, começando por me dizer, com aquela memória de elefante que se cria no mundo multilateral: "Sabes que essa ideia já não é nova?" Eu não sabia. "Mas tens alguma coisa contra a iniciativa?", perguntei-lhe. Expliquei que a temática me parecia inóqua, que os restantes membros permanentes não pareciam ir criar dificuldades, que alguns "key players" do Sul que já tinha contactado também não objetariam. Porém, a influência de Cuba no G77 era grande, pelo que precisava do seu apoio.
Bruno olhou para mim, para a minha "naïveté", e disse-me: "Tens de perceber que não é o tema a tratar que interessa, porque o que importa é quem o propõe. Se essa iniciativa vem dos britânicos é porque interessa "a los yankees" e, Francisco, se a ideia interessa a Washington não nos interessa a nós. E posso assegurar-te uma coisa: os americanos fariam o mesmo, se fôssemos nós a ter a iniciativa. Só que nós nunca o faríamos, porque consideramos importante que o ECOSOC fique imune às iniciativas do Conselho de Segurança, em especial se vindas de certos países. Por isso, tenho muita pena, mas não podes contar com o meu apoio". E a ideia foi "por água abaixo". Quando expliquei, com pena, ao meu colega inglês que não pudera ser-lhe útil, fiquei com a sensação de que não estava à espera de outra coisa...
O Bruno Rodriguez de quem falo nesta história é hoje, nem mais nem menos, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba. O mundo é pequeno.

Tentei explicar na CNN Portugal o que é o G77. Pode ver aqui

Cimeira do G20 - Os presentes e os ausentes

 

Pode ver aqui.

A guerra na Ucrânia e a deslocação do líder norte-coreano à Rússia


Pode ver aqui.

Botero e o presidente


Em alguns países da América Latina, a assunção de funções de governo por um substituto, na ausência do titular efetivo do posto, tem uma consagração formal muito expressiva. Se um ministro sai para o exterior, por uma qualquer razão, a pessoa que fica responsável pelo seu cargo passa, de imediato, a ser designada por "ministro interino" e, como tal, a ser qualificada obrigatoriamente em cerimónias e na imprensa. Diga-se que, de certo modo, isso lhe confere um suplemento de autoridade e dá aos seus atos um significado diferente, como que colmatando o que poderia ser um vazio político.

No Brasil, o caso mais flagrante prende-se com as ocasionais ausências simultâneas do presidente e do vice-presidente da República. Neste caso, assume o cargo o presidente da Câmara dos Deputados. Se este estiver ausente, essa titularidade passa, sucessivamente, ao presidente do Senado e ao presidente do Supremo Tribunal Federal. Em alguns casos, estes titulares interinos fazem questão de assumir a plenitude dos direitos do cargo e mudam-se - nem que seja por escassos dias! - para o gabinete presidencial e recebem em audiência nesse cenário, com abundância de fotografias oficiais. Para a história divertida ficou mesmo o caso de quem, no precário exercício dessa fortuita e ocasional função, foi bem longe no usufruto das benesses logísticas a que a mesma dava lugar, requisitou um avião oficial e, com um grupo de amigos, foi visitar o Estado de onde era originário...

A prática europeia, pelo menos nos casos que conheço, parece ser bastante menos formal. Em Portugal, a um secretário de Estado que fica a chefiar um ministério na ausência do ministro não lhe passaria nunca pela cabeça intitular-se "ministro interino", do mesmo modo que - como uma exceção histórica que só confirma a regra - um presidente da Assembleia da República jamais seria tentado a mudar-se para Belém, durante a ausência do país do presidente da República. Cada terra com seu uso...

Vem isto a propósito de uma conversa que, há mais de 20 anos, um grupo de embaixadores na ONU (em rigor, deve dizer-se de "representantes permanentes", designação para os chefes de missões diplomáticas junto de organizações internacionais) estava a ter em casa do meu querido amigo e colega espanhol Inocencio ("Chencho") Arias, à volta de um almoço. Por qualquer razão, veio então à baila esta prática latino-americana. Alguns comentaram, de forma irónica, a profusão de "presidentes interinos" a que a mesma pode conduzir. Nem todos, porém, comungaram dessa visão ligeira.

Um dos colegas latino-americanos, aliás um dos mais qualificados entre todos os colegas que cruzei em Nova Iorque, pediu a nossa indulgência e, um tanto embaraçado, revelou: "Também eu, um dia, assumi por três dias as funções de presidente da República. Era o ministro mais antigo e coube-me ocupar o cargo. E, devo confessar-vos, não resisti: coloquei a faixa presidencial e, com a família, tirei fotografia oficial, com constituição na mão e bandeira por detrás. Com os diabos: aquilo só acontece uma vez na vida!".

O quadro do artista colombiano Fernando Botero, que ontem morreu, que tem o título de "El Presidente", é talvez cruel de mais, mas não resisti a utilizá-lo a ilustrar este post.

sexta-feira, setembro 15, 2023

Honra

Os liberais votaram hoje na Assembleia da República contra o voto de saudação a Graça Freitas por quatro décadas de dedicação ao serviço público na área da Saúde. Este voto foi maior honra que podia ter sido feita à Dra. Graça Freitas.

Obscenidades

Tenho encontrado, pelas rotundas deste país, obras de "arte autárquica" bem mais obscenas (no sentido estético) do que a estátua que um grupo de ilustres portuenses (entre os quais vários amigos meus) quer retirar da cena pública. Acho este caminho muito perigoso.

Repito

Tenho consciência de que sou suspeito ao dizer isto, mas entendo que, em especial no ambiente emocional que a guerra na Ucrânia instalou entre nós, a diversidade opinativa apresentada pela CNN Portugal continua a constituir uma imensa mais valia.

"O que se leva desta vida..."


Conhecia Domingos Bucho como historiador. Encontrámo-nos, pela primeira vez, há mais de 11 anos, em São Petersburgo, onde, com sucesso, trabalhámos para colocar Elvas no Património Mundial da UNESCO.

Desconhecia a vocação gastronómica de Domingos Bucho. E ela aqui está, num livro interessantíssimo, com o nome que coloquei em título e um subtítulo que diz tudo: "Selecção de cozinhados tradicionais de Portalegre e do Sul de Portugal com alguns empréstimos de além-fronteiras". 

São mais de 300 páginas, num volume graficamente apelativo, onde as notas pessoais se cruzam com os apontamentos cultos do historiador, um passeio pelas zonas de eleição de Domingos Bucho, que basta folhear para que o apetite se nos abra.

Depois da nossa comum "batalha de Leninegrado", reencontrar Domingos Bucho nesta sua excelente aventura de divulgação culinária foi uma bela surpresa. Deixo-lhe um abraço de amizade e de admiração.

quinta-feira, setembro 14, 2023

Vale uma aposta?

O BCE aumentou a taxa de juro. Quem é que, por cá, vai pagar, politicamente, por esta decisão? 

O "pasodoble" da traição


(Vamos lá ver se consigo escrever isto escapando às pedradas morais do politicamente correto. Duvido, mas vou tentar).

Era um casal que recordo na casa dos 50 anos. Julgo que o marido teria uma qualquer ligação à minha família paterna, em Viana do Castelo. Em vida da minha avó, e ela morreu na primeira metade dos anos 60, eles iam visitá-la, algumas vezes ao ano, deslocando-se da localidade próxima onde habitavam.

A vida desse casal tinha, num passado já longínquo, atravessado uma crise. À senhora tinha-lhe fugido um dia o pé, e o resto, para uma traiçãozita romântica, de algumas sérias proporções, que terá abalado o matrimónio, embora não o arruinando em definitivo. Era precisamente o facto de constar que o marido tinha acomodado, talvez com exagerada complacência, o deslize da senhora que motivava algumas graçolas na ala masculina da nossa família.

Recordo que estamos a falar do final dos anos 50 e início dos 60, de uma cidade de província, onde, como em todo o país de então, prevalecia uma cultura predominantemente machista. Uma "traição" feminina era uma "desonra", uma "aventura" masculina era, pelo contrário, uma "ousadia". As coisas eram assim, goste-se ou não de as olhar hoje com outros olhos. Um marido traído era, para poupar palavras, um "corno", uma mulher enganada era apenas uma "coitada". Repito: era assim e não vale a pena "chover no molhado".

Eu era miúdo, ia a Viana com os meus pais umas três vezes por ano e, em algumas dessas ocasiões, acontecia o tal casal passar lá por casa. Com a idade que tinha, não fazia a menor ideia da historieta, nem os tais pecadilhos, se os conhecesse, seriam por mim entendidos. Contudo, a certa altura, comecei a notar que uma pessoa da nossa família, figura brincalhona por natureza, sempre que era anunciada a chegada daquele casal, começava a trautear, baixinho, uma certa música, que, mais tarde, vim a saber tratar-se de um conhecido "pasodoble", que era (e imagino que ainda seja) muito tocado nas touradas. Observei então que quase toda a gente sorria, ao ouvir aqueles acordes. E também que o trauteio era suspenso no instante da entrada do casal na sala, o qual, curiosamente, era assim recebido sempre num ambiente muito risonho, que os visitantes seguramente atribuiam ao regozijo provocado pela sua aparição. Por mim, um dia, perdida a inocência, lá cheguei à explicação de tudo.

Com os anos, na minha família paterna, o trautear desse "pasodoble" passou para sempre a ser usado como referência implícita a qualquer história de traição feminina (nunca masculina, machismo oblige). E esta referência foi-se espalhando risonhamente pela minha geração e dos meus primos (a geração seguinte não irá prolongar esta memória, porque ninguém lha transmitiu, podem ficar sossegados as/os puristas). E, ainda hoje, se alguém, entre nós, é ouvido a trautear a melodia, é certo e sabido que vem aí a caminho alguma historieta de "gossip" picante...

Há umas semanas, passei pelo que resta da praça de touros de Viana do Castelo, na Argaçosa, junto às Azenhas do Dom Prior. Está agora revestida de uma estrutura, julgo que metálica, para a preparar para um qualquer destino desportivo. E como a todos nos acontece em certas alturas, perante um determinado estímulo de memória, dei comigo a assobiar uma música. Adivinharam: era esse "pasodoble". E lembrei-me então desta história. Isto é como as cerejas.

quarta-feira, setembro 13, 2023

... e o Itamaraty sabe isso!

A ideia, surgida no seio do governo brasileiro, do país poder vir a rever a sua pertença ao Tribunal Penal Internacional é de uma imensa insensatez. Se essa decisão fosse por diante, o país iria enterrar, em definitivo, o seu sonho de poder vir a integrar em permanência o CSNU.

Dia de Natália

Artur Boal

Eu tinha acabado de me mudar para Lisboa, nesse final dos anos 60. Uma noite, um amigo e colega de faculdade, Daniel Polónio, levou-me a um bar, situado numa cave, perto do mercado de Campo de Ourique, julgo que em frente à igreja, um local que nunca mais consegui localizar com exatidão. (Se algum olisipógrafo da noite tiver a amabilidade de lembrar o nome, que podia ser "Candeeiro" ou uma coisa assim, ficava muito grato). Nele tocava então Denis Cintra, filho de Lindley Cintra, no tempo em que as baladas "de protesto" estavam na moda.

A certa altura, com algum espavento, Natália Correia entrou na sala fumarenta. Era inconfundível pela sua postura, cabeça atirada para trás, ar desafiante, voz forte. Vinha com Ary dos Santos e um pequeno séquito. O espaço estava "à pinha". Recordo que se juntaram à nossa mesa, onde talvez houvesse amigos comuns. Por pouco mais de uma hora, estiveram por ali, ouvindo Cintra e alguns espontâneos, naquela espécie de baladeirismo vadio que à época se fazia. Partiram depois, imagino, para outras noites. Não recordo ter trocado qualquer palavra com Natália Correia.

Passaram uns anos. Natália era a proprietária daquele que foi um dos bares "políticos" mais famosos da noite lisboeta, o Botequim. Embora encontrasse quase sempre por lá alguns conhecidos, aquela nunca foi a minha praia. Mas não deixava, de quando em quando, de ir ali beber um copo, quase que por curiosidade antropológica, pela imensa graça que aquele local na Graça tinha em termos de frequência.

Numa noite dessas noites, depois de um jantar, creio que na transição dos anos 70 para 80, com umas eleições à porta, fomos lá com um amigo, o Luís Gomes de Abreu. A certa altura, na conversa, ele anunciou, em voz audível em outras mesas, que tencionava abster-se no sufrágio que teria lugar dias depois. 

O que ele foi dizer! A Natália e a sua boquilha avançaram logo para nós. Indignada, abancou na nossa mesa, encetando uma homérica discussão com o Luís, connosco a assistir, divertidos, à cena. A certa altura, o Luís, defensivo, atirou para a Natália: “Mas nós até estamos de acordo na política! Este meu amigo é que é de esquerda!” Desastre! De repente, passei a alvo de Natália Correia, com o Luís aliviado e o meu argumentário já um pouco debilitado pelo consumo líquido da noite. Já nem sei como aquilo acabou, lá para as três da manhã! Até o Dórdio Guimarães a veio chamar várias vezes!

A nossa vida foi andando, a morte apanhou, entretanto a Natália. Há não muito tempo, à volta de uma mesa de jantar, num local bem amável para copos e petiscos, ali pela Sé, do dono, Manuel Murteira, nosso amigo e amigo da Natália, ouvimos histórias deliciosas sobre ela e sobre o ambiente do Botequim. 

Recordou aquele inconfundível porteiro de cor cadavérica, o Bento, o empregado Bandola, bem como o Carlinhos do piano. Falou-se de Isabel Meirelles, a artista plástica surrealista, sócia de Natália Correia, que encontrei várias vezes em Paris, onde tive o gosto de a condecorar, figura que atribuiu o nome ao famoso "bife à Fritz", que era por servido no Botequim. E até veio à baila a história de um cliente dos Açores, que sempre chegava ao bar depois de jantar no Gambrinus, e que, sendo homossexual, revelou um dia que, quando vinha ao continente, tinha uma "dificuldade", porque só aceitava parceiros açoreanos e isso nem sempre era fácil em Lisboa...

Logo depois dessa conversa, deu-me uma de nostalgia e passei pelo Botequim. "Passei" é a expressão exata. Nos breves segundos que estive no bar senti-me como no fado da Amália. É que, de facto, "está tudo tão mudado" que "não vi nada, nada, nada, que fizesse recordar" a Natália Correia. Embora o ambiente parecesse animado, a onda não era, definitivamente, a nossa. (Outra vez!). Abalámos e fomos "dar de beber à dor" a um pouso mais ao nosso jeito. 

Natália Correia voltou entretanto a "aparecer-me", há poucos anos, quando uma editora me pediu que, na FNAC Chiado, ao lado de Manuela Eanes, de quem era amiga, apresentasse a reedição do seu livro "Descobri que era europeia". Foi uma oportunidade para visitá-la de novo.

No dia de hoje, se fosse viva, Natália Correia faria precisamente 100 anos. Devo confessar que não sou um fã incondicional da sua escrita, como nunca o fui de nenhuma das suas opções políticas em democracia, mas reconheço a Natália Correia uma intensidade única, uma presença que foi ímpar na sociedade portuguesa, onde sempre teve a coragem de dizer, em voz bem alta, o que pensava, mesmo que tal não estivesse a favor do vento que soprava. Concedo que é uma imensa banalidade e um lugar comum de trazer por casa, mas apetece-me dizer que fazem hoje falta figuras como Natália Correia. Quase que se imagina o que ela diria, nos tempos que correm...

Aos catastrofistas

 


segunda-feira, setembro 11, 2023

Memória de onzes de setembro


11 de setembro de 2001. Nova Iorque. A voz, pelo telefone, era de José Rodrigues dos Santos. Era o jornal da 13 horas da RTP, para o qual eu entrava em direto, sem imagem. Era embaixador português nas Nações Unidas, nesse dia trágico em que as Torres Gémeas tinham acabado de cair, por ação da barbárie. Dei conta, nessa curta intervenção, do trauma em que todos estávamos, na missão portuguesa, naquela cidade em compreensível estado de sítio, depois de uma louca manhã.

A certa altura, quase a concluir a conversa (logo depois, as ligações telefónicas com Lisboa iriam ficar interrompidas, por cerca de dois dias), Rodrigues dos Santos perguntou-me qualquer coisa como isto: "Embaixador, imagino que a data de 11 de setembro, a partir de hoje, vá ficar marcada na sua vida". Saiu-me algo assim: "Já estava. O 11 de setembro de 1973, data do golpe fascista de Pinochet no Chile, já fazia parte das minhas memórias trágicas". Pela troca de olhares, percebi que as duas pessoas que, no meu gabinete, assistiam à conversa, não pareciam muito concordantes com a oportunidade desta minha evocação. Dias depois, ouvidos de Lisboa, outros amigos também foram da mesma opinião. Eu, contudo, nunca me arrependi.

Passou, entretanto, uma semana. Entre as estantes da Barnes & Nobel da 3rd Avenue, dei de frente com Jose Miguel Insulza, ministro do Interior do Chile. Em 1998, ao tempo em que ele era ministro das Relações Exteriores, eu tinha sido o membro do nosso governo escolhido para o acolher em Lisboa, à frente da delegação do seu país à Expo 98. Dois anos depois, em Santiago, numa visita oficial que fiz ao Chile, ele tinha-me recebido calorosamente no Palácio de La Moneda, como presidente da República interino que então era. Nessa ocasião, que ocorreu logo depois de eu ter ido colocar cravos vermelhos no mausoléu de Allende, ele tinha notado que eu estava bastante emocionado, ao caminhar pelos corredores daquele palácio. No encontro na livraria em Nova Iorque, Insulza disse-me: "Os americanos acabam de ter o seu trágico 11 de setembro. Mas nós já tínhamos tido o nosso".

11 de setembro de 1973, faz hoje 50 anos. Lisboa, Lumiar, Escola Prática de Administração Militar. Ao final da tarde, um pequeno grupo de soldados-cadetes, de "Ação Psicológica" e "Licenciados em Direito", fazia formatura para sair da unidade. Um desses cadetes disse: "Já sabem as novidades do Chile? Ouvi na rádio que o regime de Allende está a ser derrubado por um golpe de estado militar. Convido todos a virem beber uma taça de champanhe a minha casa. Temos de comemorar!" Era a brincar, mas mesmo assim...

A maioria daquele grupo era bastante conservadora e, se bem me lembro, havia por ali algum regozijo com a notícia. O António Franco, o Miguel Lobo Antunes e eu (não sei se mais alguém) rugimos algumas imprecações. O António foi mais longe e disse, irónico, em voz alta: "Vocês, seus "fachos", estão com muita sorte. É que já entreguei no armeiro a minha G3..." Recordo que o 25 de Abril só chegaria no ano seguinte.

Mistérios

Um dos mistérios da atividade russa nos territórios que "nacionalizou" na Ucrânia é a sua persistência na realização de referendos e eleições. Moscovo deve saber que ninguém, em nenhum lado, aceita esses exercícios como minimamente credíveis e, no entanto, persiste em fazê-los, vá-se lá saber para quê.

domingo, setembro 10, 2023

Teodora Cardoso

Teodora Cardoso não era uma voz cómoda. Nem se importava de o não ser. Economista de créditos firmados, tinha ideias muito próprias e fazia questão de as afirmar. Algumas vezes, assisti à irritação de certas pessoas, com elevadas responsabilidades, por virtude das suas tomadas de posição. Mas nunca vi ninguém contestar a sua seriedade ou acusá-la de ter uma "agenda" que ultrapassasse o seu interesse em colocar os seus argumentos. Recordo um debate que fiz com ela, há 25 anos, na Ordem dos Economistas. E a sua gentileza no modo como expôs as suas divergências comigo. Tinha um grande respeito por Teodora Cardoso, que acaba de nos deixar.

quinta-feira, setembro 07, 2023

"A Arte da Guerra"


Em "A Arte da Guerra", o podcast semanal do "Jornal Económico" sobre temas internacionais, uma conversa minha com o jornalista António Freitas de Sousa, é abordada a situação na Ucrânia (a evolução da guerra no terreno e a demissão do ministro da Defesa), o estado da arte das movimentações pré-presidenciais nos EUA (desde as atribulações de Trump às fragilidades de Biden) e o declínio crescente do papel da França em África. 

Pode ver aqui.

Honrar Eça de Queiroz


Há uns anos, quando vivia em Paris, levei Luís Santos Ferro, um imenso queirosiano, infelizmente já desaparecido, a passar pela primeira casa que Eça de Queiroz tinha habitado, quando para ali fora como representante consular de Portugal. O Luís tinha-me sugerido essa iniciativa, bem como a necessidade de renovação da memória que assinala o local da última morada de Eça de Queiroz. Explicava-lhe eu as peripécias por que então estava a passar, para conseguir colocar uma placa evocativa nesse primeiro edifício, porque os franceses levam essas iniciativas muito a sério, quando recebi do Luís a seguinte reação: “O Francisco devia tentar promover que, em Portugal, os restos mortais do grande Eça fossem para o Panteão!”

Não era coisa em que eu já não tivesse pensado, mas, confesso, à época, nem sequer conhecia bem os mecanismos necessários para dar honras de Panteão Nacional a uma personalidade. E que podia eu fazer para isso? Limitei-me então a alertar, num texto no meu blogue pessoal, para o interesse que haveria em lançar um movimento nacional de apoio à ideia, que me parecia altamente meritória. O meu sucesso imediato foi escasso, mas aprendi na vida que há coisas que precisam de tempo para maturar o seu caminho.

Vale a pena dizer que, por muitos anos, e ao contrário do que sucede em outros países, não foi muito forte, em Portugal, a consciência da importância de uma figura nacional ter os seus restos mortais depositados no Panteão de Santa Engrácia. O atraso da conclusão das obras do edifício também não ajudou a dignificar a simbologia do local, circunstância que foi pretexto para uma graça que atravessou gerações. Decisões discutíveis, na seleção de personalidades a homenagear, não facilitaram igualmente a consensualização do processo. Mas, com o tempo, o regresso de um maior critério e alguma serenidade no debate, o prestígio do monumento foi-se reforçando.

Eça de Queiroz é a única das grandes e indiscutíveis figuras portuguesas que não está no Panteão Nacional? A resposta é não. De facto, como todos sabemos, há grandes personalidades da nossa História e cultura que não estão depositadas naquele espaço. Mas, se refletirmos um pouco, chegaremos facilmente à conclusão de que, na totalidade dos casos para quem essa glória seria, em geral, incontroversa, os seus túmulos estão hoje em lugares com dimensão arquitetónica e simbólica relevante.

Esse não era, até agora, o caso de Eça de Queiroz. Na vida, fui uma única vez ao cemitério de Santa Cruz do Douro, prestar homenagem àquele que considero o maior escritor de sempre da literatura portuguesa. O cemitério é um local com dignidade, tal como o é a sepultura de família em que o escritor se encontra depositado.

Mas há que convir, e creio que dificilmente isso pode ser contestado, que a projeção de uma figura com a dimensão de Eça de Queiroz ganhará imenso em ser destacada num local como o nosso Panteão. O gesto de proceder à mudança dos seus restos mortais para um lugar com forte destaque nacional é um ato que dignificará a memória do escritor, mas que igualmente honrará a generosidade da terra que foi a sua sepultura por todos estes anos.

Eça nasceu na Póvoa de Varzim e morreu em Neuilly, às portas de Paris. O que dele resta esteve acolhido, ao longo de todos estes anos, numa geografia a que uma parte da sua obra ficou para sempre ligada. Ninguém que aprecie Eça de Queiroz esquecerá alguma vez Tormes! As pessoas continuarão a visitar, cada vez mais, o lugar eterno de “A Cidade e as Serras”. Ali pararão com vontade de comer “umas favas”, como as que “rescendiam” noutros tempos. Alguns, mais curiosos, descerão mesmo à estação, à cata da sombra literária do Silvério. Eu, por mim, continuarei a fazê-lo, sempre que puder!

E a grande maioria dos que ainda não tiverem tido o ensejo de ir por ali - portugueses e estrangeiros, crianças das escolas e simples turistas -, quando o circuito da capital os conduzir ao Panteão Nacional, ir-se-ão lembrar, através da presença do grande escritor naquele monumento, que existe uma belíssima aldeia no Douro onde ele soube desenhar, para sempre, com palavras únicas, uma paisagem que é hoje uma visita obrigatória em Portugal.

Apraz-me registar que a excelente iniciativa de trasladar os restos mortais de Eça de Queiroz para o Panteão Nacional, assumida pelo escritor e familiar de Eça, Afonso dos Reis Cabral, presidente da Fundação Eça de Queiroz, tenha sido proposta na Assembleia da República, com completo acordo parlamentar, por José Luís Carneiro, responsável político, parlamentar, antigo governante e autarca de Baião, a terra que acolhe a Fundação e que, para sempre, se manterá, no país, como o lugar de culto da memória do escritor.

(Texto que elaborei em 2021, com destino ao boletim da Fundação Eça de Queiroz, de cujo Conselho Cultural faço parte. Agora que a data da trasladação se aproxima, não sem que uma polemicazita se tenha gerado, como é de bom tom na nossa paróquia político-literária, resolvi deixá-lo transcrito aqui. Leio entretanto que o Círculo Eça de Queiroz se manifestou contra a trasladação (não se escreva transladação, por favor!). Que fique bem claro que este sócio de categoria A desse mesmo Círculo Eça de Queiroz, que o é também do não menos queirosiano Grémio Literário, não acompanha minimamente esta posição institucional do seu clube.)

quarta-feira, setembro 06, 2023

Conselhos

"O Conselho de Estado é o órgão político de consulta do Presidente". Além da dissolução da AR, demissão do governo e coisas de guerra e paz, cabe-lhe "aconselhar o Presidente da República no exercício das suas funções, quando este lho solicitar". E só. "For the record".

Outra gente


Há dias em que percebemos que as coisas têm sempre um outro lado. E que nesse lado, acredite-se ou não, vive gente.

Separações

Nunca tive a menor simpatia pelas causas separatistas em Espanha, mas detesto o discurso radical, com adjetivação indignada e quase insultuosa, utilizado por alguma direita portuguesa sobre Puigdemont e similares. "Mind your own business!"

Ele não vai lá estar

Pelas minhas contas, foi há cerca de 15 anos. Eu ia a um médico, ao Estoril, ao final da tarde. A consulta estava atrasada, pelo fui beber um chá à Garrett, que ficava perto. A certa altura, vejo entrar na sala o meu amigo Caetano da Cunha Reis. Estava de passagem por ali, por qualquer razão. Abraços e tomámos chá juntos. 

O leitor perguntar-se-á: e que é que temos nós a ver com isso? Logo verão. Anoto apenas que o Caetano morava então perto da avenida Álvares Cabral, em Lisboa. 

Passaram mais seis ou sete anos. Marquei consulta no mesmo médico. Ao fixar a hora, que então era de manhã cedo, a senhora do consultório disse-me: "Sabe que a nossa morada mudou?". Não sabia. Estavam então em Lisboa, numas torres longe do centro. Tomei nota. 

No dia da consulta, porque conhecia mal a nova zona, fui com algum tempo, cheguei cedo, estacionei o carro e procurei um café próximo. Era muito pequeno, com poucas mesas. Entrei e, numa delas, quem é que estava? Não me digam que acham normal que o Caetano estivesse, precisamente, àquela hora, naquele esconso café, a dezenas de quilómetros do outro local? A beber um chá. Mas estava.

Daqui a horas, regresso ao mesmo médico. O sítio do consultório, de novo no Estoril, informaram-me, é agora outro. Vou cedo, para descobrir a morada certa. 

Palavra de honra que não vou resistir a entrar no café que estiver mais próximo do consultório. Embora não saiba bem para quê. É que tenho a certeza de que não vou encontrar por lá o meu amigo Caetano da Cunha Reis - com o seu sorriso, a sua barba e a sua amizade. O Caetano deixou-nos, a todos, vai para dois anos. E, podendo haver coincidências, infelizmente milagres não há.

Vice

Vive-se um tempo de discussão de nomes para vice-presidente dos EUA. Nesse cargo, de contornos funcionais indefinidos, houve gente muito com...