domingo, 31 de março de 2019

Indignação

Gerou-se por aí uma indignação “azul” pelo facto de eu ter qualificado o comportamento do treinador do Futebol Clube do Porto, numa reação instantânea no Twitter, com palavras duras e que, com serenidade, reconheço que foram exageradas. Confesso que, de há muito, me desagrada bastante o modo como figuras de relevo do nosso futebol se comportam em público, dando mostra de uma imensa falta de respeito pelos adversários, servindo de exemplos negativos que ajudam à degradação do nosso futebol. A minha reação, neste caso particular, como já aconteceu face a atitudes de pessoas de outros clubes, entre os quais o meu próprio clube, foi a expressão extrema dessa minha indignação. Mas não me custa reconhecer que os termos não terão sido os mais felizes.

Assim, assim...


Fui lá jantar ontem. O serviço é muito agradável, as empregadas são bastante atenciosas. A anterior vez que lá fui não me tinha deixado uma particular impressão. Como gosto muito de restaurantes italianos, cuido sempre em dar um desconto ao “granel” que neles se cria, tentando perceber o que daquilo é mero teatro e o que resulta do endémico culto do improviso “típico”, mais ou menos profissionalmente conseguido. Como teste, por contraponto, à inevitável coreografia “solta” - em Roma, como é sabido, é ela de regra, em Florença parece-nos requintada, em Messina ou Palermo ou Siracusa ou Taormina aprendemos que é só displicente, em Turim é arrogante, em Milão tem dias (em especial, noites), em Trieste sofre dos “blues” balcânicos, em Ancona tem delírios adriáticos, em Bologna rimos, em Ravello a vista cega-nos, em Veneza afogamo-nos na conta, em Génova sonhamos, em Sienna ou San Gemignano esquecemos tudo, em Nápoles - bom, em Nápoles...! - há sempre esse “detalhe” que é a comida, a qual, as mais das vezes, até é bastante boa. Ontem, foi apenas assim-assim - desculpem a minha sinceridade. Um destes dias, porque um dia não são dias, para “re-checkar”, vou regressar ao “Il Matriciano”, o restaurante em frente do nosso parlamento. Repito: ontem, não tendo sido mau, mas olhando o elevado preço que paguei, confesso que estava à espera de um pouco melhor...

O Brasil de Carmen


Ruy Castro, o excelente escritor brasileiro, escreveu a biografia de Carmen Miranda, a vedeta lendária da canção brasileira, que Hollywood acolheu. 

Carmen Miranda nasceu no Marco de Canavezes, a poucos meses da República ser implantada. Os pais de Carmen emigraram para o Brasil em 1909. 

É sobre o Rio de Janeiro desse tempo, que aposto que a esmagadora maioria dos portugueses desconhece (mesmo alguns que por lá vivem), que Ruy Castro escreve hoje, no “Diário de Notícias” (o leitor ainda não compra este excelente semanário? nem sabe o que perde!), um belo artigo de que extraí este pedaço:

”No Rio a que a pequena Carmen chegou, os portugueses dominavam o comércio de azeite, sardinha, bacalhau, cortiça e vinhos, as associações comerciais, o mercado de casas para alugar, os serviços de táxi, as casas de pasto, os secos e molhados, açougues, armarinhos, casas de ferragens e até os teatros, tanto dentro como fora do palco. Estavam também nos serviços de rua, como jardineiros, estivadores, cocheiros. Ao desembarcar do navio na Praça Mauá, todo jovem português já tinha outro a recebê-lo, alojá-lo e até dar-lhe emprego. José Maria, pai de Carmen, tornou-se barbeiro; sua mãe, Maria Emília, lavadeira.

Era normal que um português recém-chegado, ao andar pelas ruas do Rio, reconhecesse não apenas patrícios aos magotes, mas gente de sua aldeia ou freguesia, já aclimatada ou bem posta na vida. O Rio tinha cinco jornais diários portugueses. Vivia-se entre os patrícios como na metrópole. Tudo isso aconteceu com os pais de Carmen. Até aos 5 anos, ela não conheceu outra criança que não fosse filha de portugueses e a única canção que aprendeu a cantarolar foi uma pecinha folclórica da região de seus pais. Os quais, por tudo isso - e como a maioria de seus amigos -, nunca se preocuparam em se naturalizar brasileiros. Não precisavam. Em compensação, de anos em anos, deviam comparecer ao consulado português para renovar seus registos de permanência e atualizar seus endereços particulares e profissionais.”

E esta?

“El País”, Castilla, Iberia...



“Ana Paula Vitorino, hoy ministra del Mar, es hija de António Vitorino, ministro en 1995 y hoy director de la Organización Internacional de las Migraciones en la ONU, dirigida por António Guterres, marido de la concejal de Cultura de Lisboa, Catarina Vaz Pinto”.

(Acho miserável esta imputação! Toda a gente sabe que Ana Paula Vitorino é filha do cantor alentejano Vitorino, o qual, aliás, é também açoreano, por parte da mãe. Foi lá que nasceu o irmão mais velho, o falecido Vitorino Nemésio. Por que outra razão havia Ana Paula Vitorino de ser ministra do Mar, não é?)

sábado, 30 de março de 2019

Por um fio


Já o tentei encontrar no Moledo, sem sucesso. Até pedi ao Francisco José Viegas, que sei que o conhece bem, para tentar que ele me recebesse, para lhe testemunhar em pessoa a minha admiração de leitor atento. Mas ter-se-á esquivado. Quando ainda existia o Ancoradouro, no Moledo, o Alfredo dizia-me que ele vinha por ali sentar-se, de vez em quando, a jantar com a sobrinha. Mas nunca o cruzei naquelas toalhas de quadrados vermelhos e brancos. Há meses, em Caminha, na tabacaria Atenas, disseram-me que tido ido lá buscar jornais nessa manhã. Mas já percebi que o meu destino é nunca o encontrar. 

Falo de António Sousa Homem, um cavalheiro que tem para cima de 90 anos e vive quase recluso no seu mundo, entre Âncora e Cerveira, e que continua a publicar deliciosas crónicas no jornal de Octávio Ribeiro, grande parte das quais a Porto Editora reuniu agora num volume intitulado “O crepúsculo em Moledo”. Comecei a lê-las na esplanada da Bénard e estou já quase a terminar as mais de 400 páginas.

Fixei uma frase que Sousa Homem cita no livro, do seu avô, bem dentro do século XIX: “Estamos por um fio, é o que é”. Ao observar o granel nos Comuns, na tarde de ontem, não pude deixar de pensar como isso é uma grande verdade, mas também, há que dizê-lo, que o fio deve ser de grande qualidade, talvez da Escócia.

sexta-feira, 29 de março de 2019

“Boa Vida”, na TSF


“Aquela voz, a falar sobre bacalhau, era-me conhecida”, disse-me um amigo, ao telefone, há pouco. Era eu, de facto, numa simpática entrevista feita por Augusto Freitas de Sousa, no seu programa “Boa Vida”, a propósito do meu blogue “Ponto Come” e dos restaurantes que por aí vai havendo. A avaliar pelas pessoas que me telefonaram, a TSF é, de facto, muito ouvida.

Quem quiser, pode ouvir aqui.

O senhor PSD


A morte de Zeca Mendonça (assim crismado pelos próximos, numa forma que o país adotou), hoje lamentada em todos os quadrantes políticos, suscita uma reflexão interessante sobre este tipo de personalidades que estão para além da transitoriedade dos líderes de turno e que, no fundo, dão corpo temporal às instituições, enquanto seu esteio de continuidade. 

Conheci muito mal, em termos pessoais, Zeca Mendonça, com quem falei, brevemente, meia dúzia de vezes, em ocasiões circunstanciais. Mas, na realidade, como muitos portugueses, “conhecia-o” bem, da imagem televisiva, daquela sua função de acompanhante, que pensávamos eterno, dos sucessivos presidentes do PSD - e não me tinha dado conta de terem sido 17!

Muitas vezes me perguntava, ao vê-lo ao lado de figuras com tão forte contraste entre si, quem seria, lá no íntimo, o seu líder preferido, naturalmente depois de Sá Carneiro, “benchmark” indiscutível da casa. Tenho as minhas suposições, que não vêm para o caso.

Ficou-me para sempre um seu momento “político”, quando um dia o vi subir ao palco do Coliseu, falando em nome de Cavaco Silva, num momento muito tenso de um Congresso do PSD, apelando à calma coletiva. Não era claramente o “funcionário” que estava ali nesse momento, era o militante empenhado e preocupado. Foi um momento interessante, raro, que um dia tive ocasião de lhe referir.

Não sei se Zeca Mendonça deixou memórias póstumas - e é pena se o não tiver feito. É que a sua experiência de tantos anos, no centro da máquina de um partido estruturante da democracia portuguesa, iria ser, com toda a certeza, um contributo valioso para a nossa história política contemporânea.

Agora, neste momento derradeiro, só nos resta deixar registada a nossa simpatia.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Modelo Tancos


Ouvi, há dias, uma proposta “criativa” para uma “solução portuguesa” destinada à questão da fronteira entre a Irlanda e a Irlanda do Norte, em caso de não acordo entre os 27 e Londres. Seria o modelo Tancos: colocavam-se postos de vigilância, redes já esburacadas e, depois, ninguém via nada. Assim, haveria formalmente uma fronteira e ... não havia controlo nenhum!

Uma cidade inglesa


Eram 19 horas, em Londres, ontem. As votações, nos Comuns, punham Theresa May num sobressalto. Já tinha anunciado que se ia embora, se conseguisse fazer passar o acordo negociado com a União a 27. 

Eram 19 horas, no Porto, ontem. Na sala da Fundação António de Almeida, no Porto, umas largas dezenas de pessoas juntaram-se, a convite do Instituto de Defesa Nacional, para ouvir o professor Teixeira Fernandes, da Universidade do Minho, e eu próprio falarmos sobre o Brexit, sobre o que poderá ser a União sem o Reino Unido e sobre Portugal nesse contexto. No final das nossas intervenções, muitas questões. Duas belas horas de debate.

O Porto sempre foi uma cidade muito inglesa, de que a Feitoria é uma bela amostra.

Interior, Norte


Alguém, no final, notou: se o debate tivesse tido lugar há uns anos atrás, o discurso dos intervenientes teria sido recheado de queixas sobre as acessibilidades, a aplicação dos fundos europeus, a ineficácia congénita do poder central, recados ao “senhor ministro”. Ontem, falou-se muito mais da atitude a ter perante os desafios do desenvolvimento, da escassez de recursos humanos qualificados, dos exemplos de criatividade, das parcerias que por aí brotam, do orgulho na audácia internacional das empresas. E, no que ao Estado toca, pediu-se essencialmente para não “desajudar“.

Foi ontem à tarde, numa iniciativa da Caixa Geral de Depósitos, organizada em Vila Real. O tema era o Interior Norte e a forma de o potenciar. Umas centenas de pessoas perderam/ganharam um par de horas a refletir sobre o que e o como fazer, com vista a dar um empurrão positivo a uma realidade sócio-económica em mutação ainda não suficientemente rápida. 

Foi interessante ouvir discursos pragmáticos, muito pouco “politiqueiros”, apostados na eficácia e entusiasmados com o que foi já feito. Nota-se que muitas pessoas, mesmo aquelas que manifestamente têm origens que pressuporiam uma atitude à partida menos articulada entre si, revelam agora uma matriz comum na ação cada vez mais larga. É, com certeza, um efeito da idade média dos intervenientes, gente com outras experiências, com um quotidiano menos “encostado” ao setor público, parte da qual teve de “dar o litro” e ir à procura de soluções nos mercados externos, nos tempos sombrios da “troika”. Gente que assim se autonomizou já bastante da subsídio-dependência que tinha sido o “modo de vida” de gerações anteriores.

Olhando várias caras naquela plateia, senti pena de não haver a oportunidade de se fazer uma recolha de experiências, de fracassos e sucessos, que fosse possível utilizar como manual de soluções para “dar a volta a isto”. É desta gente, às vezes com um ar simples e despretensioso, que é feito o Portugal das soluções. As suas questões são, em geral, muito práticas e concretas, fruto dos problemas diários que enfrentam e que estão cansados de ver teorizados em complexidades burocráticas que, afinal, parece não respeitarem o seu esforço.

A coragem de quem vive e teima em viver no Interior Norte, de quem ali investe e cria riqueza, é uma fantástica lição para um certo país que ainda existe, feito de quantos estão sempre à espera das ajudas “da Europa”, que têm a queixa por atitude e o outro como culpado de tudo o que de mal lhes acontece.

(Publicado no “Jornal de Notícias”, em 27 de março de 2019)

quarta-feira, 27 de março de 2019

O imigrante do Barroco


O italiano Nicolau Nasoni terá descoberto Portugal em La Valetta, através do grão-mestre da Ordem de Malta, o português António Manuel de Vilhena. O arquiteto viajou depois para o Porto, no início do século XVIII, e, a partir daí, deu à cidade um magnífico “banho” de Barroco, de que todos conhecem a Igreja e a Torre dos Clérigos. E muitas outras magníficas obras.

Pelo Porto casou, duas vezes, por ali teve filhos, ali morreu. Posso estar equivocado, mas acho que a cidade do Porto nunca deu a Nasoni, até no plano de destaque toponímico, a retribuição que este teria merecido.

Em Vila Real, será a “Capela Nova” uma obra de Nasoni, como, com segurança, se sabe ser a ala central do Palácio de Mateus? Para alguns isso é um facto, embora outros se inclinem para que, como à época era normal, tivesse cabido a discípulos seus essa responsabilidade. Eu não sou de intrigas, mas está hoje mais do que provado que o seu principal discípulo se chamava José de Figueiredo ... Seixas!

Acho essa paternidade indiferente. O importante é que a cidade dispõe desta magnífica peça arquitetónica (da escola) de Nasoni.

terça-feira, 26 de março de 2019

João Vasconcelos


Há notícias que são como um murro no estómago. É o caso da morte de João Vasconcelos, aos 43 anos, de que acabo de ter conhecimento. Trata-se uma brilhante figura da nossa nova geração política, que desde cedo me habituei a admirar e respeitar. Era um homem que impressionava porque olhava sempre o país com olhos de futuro, de que o seu papel decisivo no Websummit foi talvez a prova prática mais clara. Fica, como memória, este “selfie” por ele próprio tirada há uns meses, no quadro de um trabalho conjunto em que ambos estávamos envolvidos e em que agora o vamos perder. E, com ele, o seu confiante sorriso. Um abraço saudoso, João.

Brexit


Fora da Caixa


segunda-feira, 25 de março de 2019

Aqui havia uma curva


Foi Ilse Losa, uma escritora que merecia ser revisitada, quem um dia escreveu um pequeno livro intitulado “Aqui havia uma casa”, a propósito de um refugiado da guerra, como ela era, que regressou à sua terra natal, devastada pelo segundo conflito mundial.

Lembrei-me disso agora, sentado na esplanada da “Tosta Fina” das “boxes” (só quem é de Vila Real sabe o que isto é e que também há a Tosta Fina “sede”, a da Senhora da Conceição), a ver os carros passar na Avenida Aureliano Barrigas (um dia conto quem foi), uma artéria que mais não é senão um heterónimo local da Estrada Nacional nº 2.

Por aqui há hoje uma leve curva, que se deteta na imagem, mas, no passado, era bastante diferente: era então muito acentuada, francamente perigosa. A abordagem a esse ponto da estrada, que era estreita, tinha de fazer-se com grande prudência e, claro, sem ultrapassagens.

Esta era então parte do “circuito”, o que também tem a ver com as “boxes” e com Aureliano Barrigas, porque, em Vila Real, “isto anda tudo ligado”, como escreveu o jornalista e poeta Eduardo Guerra Carneiro, que, não por acaso, também era de Vila Real. E, para “compor o ramalhete”, é também por aqui perto que, quando venho a Vila Real, eu próprio “moro”.

Numa noite, que recordo quente, do início dos anos 60, a cidade foi abalada pela notícia: naquela curva, perto da hora do jantar, dois amigos, José Loureiro e António Guedes, duas figuras da cidade bem conhecidas, numa disputa de velocidade, muito típica numa terra onde o circuito foi sempre um chamariz para ousadias de acelerador ao fundo, haviam sido vitimadas num acidente de um automóvel em que seguiam, numa ultrapassagem imprudente, abalroando outra viatura. Não eram uns miúdos: eram homens feitos, casados, com família.

Tenho ainda na memória a consternação que atravessou toda a gente, chocada com a brutalidade do acidente do carro conduzido por José Loureiro, o “filho do Loureiro”, como os nada íntimos, como eu era, chamávamos ao condutor. Os funerais das vítimas marcaram a história da Vila Real de então.

Há meses, ao rever o magnífico “Il Sorpasso”, por cá “A Ultrapassagem”, de Dino Risi, um filme italiano de 1962, onde dois amigos, representados por Vittorio Gassman e Jean-Louis Trintignant, têm um trágico desastre numa ultrapassagem, lembrei-me do acidente do “filho do Loureiro”. Em que ano terá sido este útimo?

Agora, nesta tarde de extraordinário sol primaveril, com a Gomes fechada, sentei-me por esta esplanada a testar a bola de carne (uma eterna “competição” tradicional vila-realense, em que a Gomes costuma ter a medalha de ouro, mas em que, ao almoço de hoje, a que é produzida pela Alice, para consumo caseiro nas refeições no Lameirão, não lhe ficou nada atrás) e lembrei-me de que aqui havia uma curva.

Literacia empresarial


Foi significativa a onda de comentários surgida na imprensa e nas redes sociais, a propósito da entrada de Adolfo Mesquita Nunes para a administração da Galp, com funções não executivas. 

Um pouco de todo o lado – sem surpresa, de áreas da esquerda, mas, curiosamente, também de setores da direita – emergiram críticas à opção tomada pelo jovem advogado, reconhecidamente uma das personalidades mais brilhantes da sua geração política. Se alguns desses comentários relevavam da orfandade que a decisão suscitava no mundo da política em que Mesquita Nunes se movimenta, da grande maioria dessas opiniões emanou apenas um grosseiro viés preconceituoso. 

A ideia central, em alguns desses textos claramente expressa, foi a de que não pode haver nenhuma outra razão, para além do exercício futuro da atividade de lóbi ilegítimo e de tráfico de influências, que justifique que uma empresa contrate para um cargo alguém que haja tido um percurso político anterior. Nessa perspetiva, as empresas são tidas como meras forças interesseiras, determinadas em explorar, à margem da lei e da ética, todos os meios de possível influência. Que “bela” imagem do setor privado português ressalta da nossa comunicação social! 

Que uma perspetiva deste género tivesse surgido na boca dos habituais maluquinhos das teorias da conspiração, dos populistas do “eles são todos iguais!”, dos membros da brigada do “não é por acaso que”, que enchem o Facebook e as caixas adjetivadas de comentários, não seria surpreendente. Mas que esta agressão reputacional, feita de suspeições que descartam quaisquer provas, apareça subscrita pela pena de quem defende os valores da economia de mercado não deixa de ser um pouco bizarro.

E há ainda o outro lado, o dessas pessoas que se dispõem a ir trabalhar para o setor privado. Considerar que essas figuras, frequentemente com um percurso de vida e um comportamento irrepreensível em todas as funções até aí desempenhadas, se transformam, de um momento para o outro, por razões alegadamente venais, nuns títeres dos grupos empresariais - sem ética nem moral nem personalidade -, configura uma perspetiva insultuosa e altamente ofensiva. 

Mas não há e houve casos de gente que se comportou dessa forma? Claro que sim, tal como continua a haver jornalistas a soldo, como existem “ovelhas negras” em todas as áreas de atividade. Para controlar isso existem as leis e os tribunais, único meio legítimo de sancionar, com rigor, depois de devidamente provados, comportamentos incorretos ou ilegais. Mas, sempre, separando o trigo do joio! Arruinar reputações por mera estigmatização preventiva parece relevar mais de uma cultura populista de inveja do que de uma legítima preocupação ética.

A propósito do caso Mesquita Nunes, lembrei-me que talvez fosse útil a imprensa, nomeadamente a que se dedica a temas económicos, prestar alguma atenção ao esclarecimento do papel que o jovem advogado vai exercer na Galp – o de administrador não executivo. Essa seria uma interessante contribuição para a literacia do mundo empresarial.

Tenho notado que é comum o desconhecimento sobre o que essa função representa nas empresas contemporâneas. O surgimento, no seio dos conselhos de administração, de personalidades que estão desligadas do dia-a-dia da gestão é um modelo generalizado pelo mundo. O principal objetivo é garantir que personalidades independentes, com perfis profissionais reconhecidos e prestigiados, muitas vezes oriundas de setores de atividade muito diversos dos das empresas que passam a integrar, possam carrear para esses conselhos, à luz da sua experiência própria, uma leitura distanciada e, desejavelmente, mais independente, ajudando as empresas a absorverem perspetivas do exterior e, ao mesmo tempo, fiscalizando a ação da gestão executiva, num terreno distinto da matriz funcional dos conselhos fiscais. Os salários desses administradores não executivos são sempre muito inferiores aos dos gestores profissionais permanentes, premiando apenas a ocupação pontual do tempo de quem, em geral, exerce outras atividades. É isto que deveria ser explicado, para combater a demagogia e a má informação.

(Publicado no “Jornal de Negócios” em 22 de março de 2019)

domingo, 24 de março de 2019

A nossa direita

Acho muito saudável que a direita portuguesa se reúna, se manifeste, crie partidos, jornais e tudo o que lhe der na real gana. 

Foi (também) para isso que se fez o 25 de Abril, uma Revolução sobre a qual há, pelo menos, uma imensa certeza: não foi a direita que a fez.

MAYXIT


sábado, 23 de março de 2019

Brexit? Um Inferno!


Vejam como uma conversa, tida há meses, se mantém atual.

http://videos.sapo.pt/zZKYZ4Rz4Mnqkt882cSc

Pensar a Europa em Ílhavo


Uma excelente iniciativa de reflexão organizada, este fim de semana, pela delegação da Comissão Europeia em Portugal, num “retiro” em Ílhavo, com vista a colher ideias para o futuro das políticas europeias.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Theresa May


O que ficará de Theresa May na História do Reino Unido? E de David Cameron?

Michel Temer


O que ficará de Temer na História do Brasil?

quinta-feira, 21 de março de 2019

O que é que correu mal?


Tenho na prateleira um livro sobre a civilização árabe que tem o título deste artigo. Lembrei-me dele ao ver, há pouco, nas televisões, a imagem da conferência conjunta de Donald Trump e de Jair Bolsonaro. 

Se, há meia dúzia de anos, alguém me dissesse que este cenário na Casa Branca era possível, teria dado uma gargalhada e, do alto da minha “ciência”, argumentaria, por A mais B, que a ascensão de um milionário megalómano e vaidoso à chefia dos EUA seria sempre travada pelo “establishment” do Partido Republicano e que, no caso da figura brasileira, se tratava de uma personalidade caricatural e risível, alguém cujo primarismo o Brasil nunca iria levar a sério. 

Depois, foi o que foi. O que é que aconteceu? Aconteceu que, por mais previdentes e “conhecedores” que sejamos, nunca conseguimos evitar que os nossos raciocínios acabem por ser conduzidos pelo quadro mental que se nos tornou confortável e que, no fundo, também padece daquilo que, na língua inglesa, se chama “wishful thinking”, que pode ser traduzido por um pensamento marcado por aquilo que, no fundo, desejamos. Tudo o que contrarie as ideias feitas é posto de lado ou tido como de escassa probabilidade.

Tal como no Brexit e nas eleições italianas, nos EUA e no Brasil houve fatores influenciadores do eleitorado que não vimos chegar. Deixámo-nos assim levar pela ideia de que havia uma “impossibilidade” objetiva de ocorrência de certos cenários, porque eles entravam em rotura com aquilo que pensávamos plausível.

Alguns dirão que foram situações excecionais, manipulações comunicacionais, medos induzidos e outros fatores anómalos e conjunturais que produziram esse resultado. Até pode ser verdade, mas o que verdadeiramente aconteceu foi uma expressão democrática de vontades, que teve a consequência que teve. 

A prática da democracia não aponta sempre num sentido democrático, como a História nos ensinou. Mas, para os democratas, a resultante do voto deve permanecer sagrada, salvo se vier a afetar o funcionamento do próprio sistema democrático. Isso não significa que não seja natural continuar a lutar por aquilo em que se acredita, mesmo que isso implique ficar numa posição minoritária e desconfortável.

Trump e Bolsonaro lá estão, graças ao voto popular. Quem deles não gosta deve colocar-se a questão: “O que é que correu mal?” E, se os quiser combater (a eles e aos outros de idêntico jaez), deve começar por “desconstruir” as razões do seu sucesso, refletir sobre os erros cometidos que tornaram possível a sua ascensão. 

quarta-feira, 20 de março de 2019

O "momento zero"


Ontem à noite, num restaurante, lembrei-me do Artur (Kiko) Castro Neves, um amigo que perdi há alguns anos, um homem com uma leitura da vida muito pouco comum, que pensava "fora da caixa" e que cultivava uma modernidade no seu olhar sobre as coisas que eu sempre invejei (e eu gabo-me sempre de nunca ter conhecido o sentimento da inveja). O Kiko era um homem do Porto, mas, na realidade, era um cidadão do mundo, de muitas artes e ideias, que, a espaços, aportava à Mesa Dois do Procópio, onde era sempre uma presença saudada e muito querida. (Quem o quiser conhecer melhor pode ver aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Castro_Neves).

Costumava visitar-me em Paris (também o fez em Brasília), onde tinha estudado e trabalhado e onde, à época, ainda vivia a sua mãe. Um dia, foi por lá com a Isabel e convidou-nos para jantar num restaurante perto do Beaubourg. Era um restaurante americano (!), de que ele gostava, situado numa das ruas que tinham sobrado do desbaste feito na área, depois do fim do mercado Les Halles (que ainda conheci!), no início dos anos 70. Na minha memória restaurativa, a refeição, fosse pela sua qualidade objetiva, fosse pelo facto da conversa com o Kiko me ter feito esquecer o que tive sobre a mesa, não deixou marca impressiva. Recordo que era um local bastante movimentado, ruidoso e animado, de que deixo uma imagem. Mas tudo isso é o menos importante para o que aqui me convoca a escrita.

A refeição já ia avançada quando decidimos mudar de vinho, cansados da opção por um tinto do "novo mundo" que nos tinha sido impingido pelo empregado. Olhámos em volta, tentando "to catch the eye" de um dos fâmulos que, minutos antes, giravam pela sala. Qual quê! Ninguém aparecia!

Foi então que esse meu amigo se saiu com a exclamação: "Estamos no 'momento zero'!" Olhámos para ele, perplexos, desconhecedores do significado do comentário. Esclareceu-nos: "Desde há muitos anos que me convenci que, em todos os restaurantes, há, a certa altura, um 'momento zero'. Trata-se de um vazio momentâneo, que chega a durar minutos, durante o qual os empregados se somem, talvez para fumar um cigarro ou para outras pausas mais básicas, em que o patrão se recolhe por instantes ao escritório, em que o pessoal do balcão, por qualquer razão misteriosa, se eclipsa. Não há ninguém na sala! Ou, se acaso resta alguém, estão recolhidos em espaços inacessíveis, sempre de costas voltadas ou, mesmo se de frente, assumem um olhar vítrio e distante, neutralizados por um cansaço que os torna inoperacionais. É um 'momento' que normalmente acontece quando a refeição já vai adiantada, sem um novo turno de clientes no horizonte, em que se caminha para as derradeiras sobremesas. Ah! E então na altura dos cafés é uma tragédia: é quando geralmente acontecem os grandes 'momentos zero'!"

O tempo que esse amigo demorou a explicar-nos a teoria do "momento zero", que já tinha testado pelos muitos mundos que visitou - o "momento zero" é transversal a todas as civilizações gastronómicas, note-se - e que afirmou com a sabedoria cristalina de quem, como ele, vivia então em frente do palácio de Cristal, acabou por ser suficiente para que um empregado surgisse, finalmente, ao fundo, e, face ao agitar sedento dos nossos braços, nos trouxesse um "pichet" de aceitável "rosso" italiano, para substituir o australiano quer eu caíra na asneira de aceitar no início. O "momento zero" acabara.

Ontem, no Bairro Alto, aqui em Lisboa, num certo restaurante (por sinal excelente, onde já não ia há anos), houve um desses "momentos zero". Por vários minutos, não consegui pedir outra garrafa de um tinto razoável de Arcossó (terra da minha bisavó materna, por sinal).

E, nesse instante, lembrei-me do Kiko. Depois, senti-me culpado por ter sido por um motivo tão fútil que a memória desse excelente amigo me ocorreu. Mas acho que ele não se importaria e que, a propósito do vinho escolhido, teria, com certeza, uma história para contar. Como eu agora tive, ainda graças a ele.

O que é que correu mal?


Pode ler aqui o artigo, sob o título em epígrafe, que publico na edição de hoje do “Jornal de Notícias”

terça-feira, 19 de março de 2019

Piauí


Já por aqui falei, por mais de uma vez, da Piauí, uma excelente revista brasileira, que sempre tive dificuldade de encontrar em Portugal. Há semanas, referi isto a uma pessoa ligada à revista, numa conversa casual em Lisboa.

Como se diz por cá, “meu dito, meu feito”. Já me estou a deliciar com os três últimos números da Piauí e, de futuro, não mais a vou perder de vista.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Concorrência


Chama-se Lagoa Dourada. É uma localidade brasileira, em Minas Gerais, situada a umas dezenas de quilómetros de Tiradentes, na estrada que vem de Belo Horizonte. É a “capital do rocambole”, uma torta enrolada sobre si mesma, com diversos recheios, em especial doces. 

Das várias vezes que por lá passei, fui admirando as lojas que se sucedem pela rua que atravessa a cidade, todas com nomes diferentes, cada uma concorrendo com a outra: o Legítimo Rocambole, o Famoso Rocambole, o Rei do Rocambole, Rocambole & Cia, etc. São quase uma dezena, pelas minhas contas. Sempre achei bizarra aquela concentração.

Um dia, ao tempo em que vivia no Brasil, comentei com alguém aquele “fenómeno” comercial. Essa pessoa não ficou nada impressionada e retorquiu-me: “Você esqueceu a Mealhada?” É verdade. Tinha-me esquecido.

Lembrei-me disto no sábado, quando por lá passei. De facto, a diversidade de oferta comercial é, por ali, bem superior à da Lagoa Dourada: Meta dos Leitões, Pedro dos Leitões, Rei dos Leitões, Floresta dos Leitões, Picnic dos Leitões, etc.

As águas do Quanza


Não me agradou nada ser acordado pela campainha estridente, bem cedo, naquele sábado de manhã. Vivia num dos pequenos apartamentos “de função”, no edifício da embaixada portuguesa em Luanda, onde estava colocado como diplomata, nesse início dos anos 80 do século passado.

Estremunhado com a chamada do porteiro, fui confrontado com a emergência que justificava aquele alarido: a mulher de um alto dignitário do regime angolano necessitava de um visto de entrada em Portugal, no seu passaporte diplomático, para poder embarcar para Lisboa, horas mais tarde. Era, de facto, a mim que competia executar essa tarefa, pelo que, em roupão, avancei para o meu gabinete, no andar imediatamente inferior, para emitir a autorização de entrada, solicitada na nota do Ministério das Relações Exteriores local.

O ato não seria mais do que uma rotina não fosse dar-se o caso do marido da senhora, precisamente na véspera, ter feito um discurso público, com forte eco na Televisão Popular de Angola, onde, por entre acusações várias ao governo português de então, se recomendava vivamente aos cidadãos angolanos que evitassem visitar Portugal nas suas férias, dando mesmo expressamente o nome do Brasil como um “país amigo” que deviam ter como alternativa. Eram assim os tempos de então.

Não sei se a minha irritação com o facto de ter sido acordado cedo me terá impedido de esboçar um sorriso interior com o caricato da contradição que tudo aquilo representava. Imagino que a minha idade de então me não tivesse conferido ainda a sabedoria para poder usufruir, em pleno, aquela ironia. Há juízos que só o tempo amadurece. E quando, há quatro ou cinco anos, me cruzei, na livraria do Apolo 70, em Lisboa, com aquela figura política angolana, confesso que não me senti minimamente tentado a relembrar-lhe o episódio.

Embora muita água tivesse corrido entretanto sob as pontes do Quanza, as relações entre Lisboa e Luanda andavam ainda tremidas, naquele ciclo de incidentes que, em Luanda, alimenta alguma lusofobia recorrente e que, por cá, enquistou numa espécie de superioridade neocolonial, assumida por algumas vestais com lugar cativo na comunicação social. Mas que fique claro: nós, deste lado, não estamos isentos de culpas no processo de tensão que se estabeleceu ao longo de todas estas décadas entre Angola e Portugal.

Lembrei-me disso e de muito mais quando, há dias, assisti à serena entrevista do atual presidente angolano à nossa televisão pública. Dei comigo a pensar naquele meu tempo de Luanda, em outros anos que lhe sucederam e no facto de João Lourenço ser tributário das lições que deles também terá retirado. Pergunto-me, aliás, se cada tempo não tem o seu tempo e se não devemos ter a humildade de pensar que, afinal, para chegar até hoje, foi necessário passar por todas aquelas traumáticas etapas do passado. É à luz desta mesma experiência que, com um voto de confiança e esperança no futuro, devemos ter o realismo de perceber que desse mesmo futuro será sempre a liberdade com que, queiramos ou não, acabará por nos surpreender.

(Artigo publicado no semanário "Jornal Económico", em 15 de março de 2019)

domingo, 17 de março de 2019

Fouquet’s


O Fouquet’s, o conhecido restaurante nos Campos Elísios, em Paris, foi, há horas, pilhado e incendiado pelos “coletes amarelos”. No comments...

O Fouquet’s, onde se come apenas “assim-assim”, para o preço que cobra, é uma “montra” de luxo para uma certa sociedade parisiense, que faz questão de por aí ”refeiçoar”, seja sob o sol da esplanada, seja na zona envidraçada em dias menos cálidos, ou ainda no seu luxuoso e confortável interior. (Por uma razão para mim sempre misteriosa, os franceses pronunciam “fuquétes” e não “fuquê”, mas eles é que sabem, porque deles é a língua).

Para a pequena história política francesa ficou famosa a ceia oferecida a Nicolas Sarkozy no Fouquet’s, em 2007, na noite da sua eleição como presidente, paga por alguns amigos da alta finança. Desde esse dia, e a começar por essa razão, Sarkozy nunca mais se livrou da imagem de ser o presidente ”dos ricos”. Quando, dois anos depois, fui viver para Paris, a associação do restaurante ao presidente surgia regularmente na imprensa. Até hoje (vão ao Google e verifiquem). 

Em 2012, cinco anos passados sobre a data da sua posse, Sarkozy foi de novo a votos, mas os franceses recusaram a sua reeleição e escolheram François Hollande.

Nesse dia, tive uma ideia. Enquanto os apoiantes de Hollande comemoravam, na Bastilha, a eleição de um novo presidente socialista (numa tentativa de “remake” da célebre manifestação de 1981, na chegada de François Mitterrand ao Eliseu), decidi desafiar um grupo de amigos para irmos jantar ao Fouquet’s. Era um grupo politicamente heterogéneo, no qual havia gente satisfeita com a vitória de Hollande e alguma outra algo triste com a derrota de Sarkozy. 

Era um jantar pretendidamente irónico. A curiosidade foi ver, em certas mesas, damas e cavalheiros claramente sarkozistas, que ali tinham reservado mesa com vista a comemorar simbolicamente uma reeleição que não viria a acontecer, de cara muito fechada e já a fazer as contas à vida (e a pensar na vida futura das suas contas bancárias, sob a ameaça dos impostos sobre as fortunas anunciados por Hollande). 

Nós, no nosso grupo, divertimo-nos bastante, devo confessar, em especial até à chegada da conta, que, como se presumia, não foi “leve”. Mas, como se costuma dizer, uma noite não são noites...

“Casas do Bragal”


Sem GPS torna-se um pouco difícil encontrar estas “Casas”, um improvável restaurante perdido no meio de um bairro residencial nos arredores de Coimbra. É uma moradia como muitas outras mas, lá chegados, sentimo-nos verdadeiramente em casa, porque estamos, de facto, numa residência de família. A sala, com muito bom gosto, começa por uma zona de sofás, com livros a toda a volta, indiciando que estamos em terrenos de gente com óbvia dimensão cultural. É separada por um murete da zona de refeições, que são da responsabilidade de Manuela Cerca, uma antiga jornalista, que discretamente nos apoia lá de dentro, da cozinha que dirige. Somos recebidos por Eugénio Martins, uma figura com um singular percurso intelectual, também autor das pinturas que enchem as paredes. É ele que tudo nos vai aconselhar, das bebidas aos pratos. Estes variam muito ao longo da semana, tornando a refeição sempre num “happening”, que acaba numa imperdível mesa de doces. Experimentem e verão que não se arrependem! Eu regresso lá sempre com gosto, como ainda ontem fiz.

sábado, 16 de março de 2019

... até de manhã, de novo


sexta-feira, 15 de março de 2019

Pormenor


É um dos mais reputados fotojornalistas portugueses. Foi ele quem, há dias, me contou este episódio, passado há já algum tempo. Tinha ido, com um amigo, a esse famoso “concílio” da edição que é a Feira do Livro de Frankfurt. Passeava-se entre aquelas magníficas alas de editoras, quando se deparou com um cartaz com a imagem, de corpo inteiro, de um importante escritor português, desaparecido há bastante tempo. O espaço em que a fotografia surgia era da editora alemã que publicava o escritor. O mais curioso é que fora ele quem fizera aquele “boneco”, como se diz na gíria da profissão, utilizado na promoção da edição portuguesa de um dos livros. A surpresa do reencontro com a imagem não ia ficar por aí. Olhando a fotografia com olhos de ver, com a dimensão com que a imagem era ali apresentada, um pormenor, que até então nunca observara, tornava-se, pela primeira vez, muito evidente: o escritor tinha a braguilha aberta!

... à tarde


De manhã...


As águas do Quanza


Na edição de hoje do “Jornal Económico” pode ler o meu artigo, com o título em epígrafe. Aqui.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Brexit


Pode dizer-se que o Brexit é um filho da “mãe de todas as democracias” que é a Inglaterra.

Outro 25 de abril?


Há dias, sentado no palco de um auditório da Gulbenkian, ao lado de três companheiros de um painel organizado pela Associação 25 de Abril, dedicado ao papel que a Revolução teve na identidade do país, olhei para a assistência. A média etária devia rondar os 65 anos, ainda que ajudada por um punhado de jovens arrebanhados por um professor, que, a meio da sessão, zarparam em bando.

Estávamos ali a falar uns para os outros, todos antecipadamente convertidos à importância de se comemorarem, daqui a dias, os 45 anos que passaram sobre a data. Nenhum dos presentes, por um segundo, tinha a menor dúvida sobre a relevância que o 25 de abril teve na História do país e o interesse em não deixar de se referir isso. (No meu caso, sublinhei uma evidência: o impacto brutal que a Revolução provocou na reconfiguração do nossa política externa). Uma questão, no momento, me surgiu: haverá algo mais que se possa fazer, com eficácia, para a fixação do significado da data no imaginário coletivo? Não tenho uma resposta, confesso.

Todos os anos (apetecia-me acrescentar, pela primavera, como escreveu Sttau Monteiro), os militares de abril e alguns companheiros políticos de percurso saem à Avenida da Liberdade que lhes devemos para assinalar a efeméride. Um certo partido traz para o cortejo todos os seus heterónimos, incluindo sindicais, cada um com uma faixa própria, talvez para parecerem muitos. Outros, alguns muito propensos a dar voz a coloridas minorias e a outras causas, fazem daquela arruada um momento coreográfico de mobilização voluntarista. Para sermos rigorosos, está por ali espelhada toda a mobilização que parece ser possível, com algum significado, em torno da data. 

Um pouco mais acima, na casa da democracia, o espetáculo costuma ser algo penoso, com mais ou menos cravos nos peitos. Quase sem exceção (no ano passado tivemos essa exceção, na voz de uma jovem social-democrata), o que por ali se vocaliza, tendo o 25 de abril como pretexto, é apenas o conflito que a conjuntura do momento motiva. Às vezes, o chefe do Estado de turno aproveita para passar uns recados televisionados, que alimentam por horas os exegetas do comentário, mas que têm uma validade inferior aos iogurtes.

Vale a pena comemorar aquela data? Uma pessoa da assistência que estava na Gulbenkian foi otimista e lembrou que, com alguma frequência, se ouve a alguém que está descontente ou indignado como o estado das coisas: “o que nós precisávamos era de outro 25 de abril!” Haverá maior elogio à efeméride?

(Artigo publicado no dia 13 de março de 2018 no “Jornal de Notícias”)

quarta-feira, 13 de março de 2019

Coincidências


Passei por lá ontem. Chama-se O Consulado e vende panquecas. O espaço está muito diferente, naquela esquina da rua de Cedofeita com a rua dos Bragas. Até há não muito tempo, ficava ali o Café Latino.

Em 1968, eu vivia a dois passos, na rua da Torrinha, num lar universitário. O meu café habitual era o Bissau, muito frequentado por gente da faculdade de Engenharia, ali perto. Um dia, vi surgir o Latino. E, claro, a curiosidade levou-me a visitá-lo logo na data da inauguração. Para tentar fidelizar, recordo com que o Latino oferecia, nesse seu primeiro dia, um brandy, a acompanhar o café. Ao contrário do Bissau, tinha amplas janelas e era bem mais moderno. Mas não me recordo de ter ficado cliente, nesse ano em que me mudei para Lisboa.

Passou muito tempo. Numa tarde, numa deslocação ao Porto, passeava em Cedofeita, notei que o Bissau já tinha desaparecido e apeteceu-me entrar no Latino. Estava muito pouca gente. Sentei-me, pedi um café e o empregado disse: “Quer beber uma aguardente? Hoje é por conta da casa”. Ele explicou: “Comemoramos 40 anos de abertura deste café”. Não era possível! A pessoa que ia comigo estava siderada com a coincidência que eu lhe contava.

Eu estava feliz, confesso. Não bebi a aguardente, com toda a certeza, mas estou seguro de que os convenci - ao empregado e ao patrão, que veio ter connosco à mesa - do facto de que tinha estado ali, precisamente, no dia da inauguração do café, 40 anos antes. 

Creio que nunca mais lá voltei. Nos últimos anos, ao passar na rua, notava-se que os melhores anos do Café Latino estavam já bem longe. Agora é O Consulado. A vender panquecas. É a vida!


Outro 25 de abril?


Pode ler aqui o texto do artigo que, sob o título em epígrafe, publico hoje no “Jornal de Notícias “.

terça-feira, 12 de março de 2019

Nortadas



“São do norte, não são?” Estranhámos a pergunta da empregada da loja, no Porto, hoje à tarde. Confirmámos que sim. “Pela pronúncia, não parece serem” (era óbvio que ela estava desatenta à nossa habitual troca dos “v” pelos “b” e à abertura exagerada de algumas vogais, que continuamos a fazer, apesar de vivermos em Lisboa há mais de meio século), “mas, ao falarem comigo como estão a falar, percebi logo que tinham de ser cá de cima. Os lá de baixo, em especial os de Lisboa, não falam assim connosco, são muito mais fechados”. 

Estranho. Nunca tinha refletido nisto. Será verdade? Confesso que nunca tinha pensado que os lisboetas (ou a gente que não é do Norte, em geral) fossem mais “fechados” do que o “pessoal” do Norte. Ando distraído?

segunda-feira, 11 de março de 2019

Regresso aos clássicos


A fotografia é do Antunes, no Bonjardim, ao almoço de hoje. 

Um clássico do Porto, como o são, em registo diferente, o Líder, nas Antas, a Nanda, na rua da Alegria, a Cozinha do Manel, no Heroísmo, a (renovada) Adega de São Nicolau, na Ribeira, o Rápido, em São Bento ou o Aleixo, em Campanhã. E muitos mais! 

Grande Porto!

domingo, 10 de março de 2019

Desconectados


Foi ontem. O almoço era de “cerimónia”? Nem por isso. O traje, no convite, dizia “smart casual”, o que, em linguagem de protocolo, significa, para os homens, levar um blazer sem gravata. Porque era numa casa de campo, os castanhos/verdes dominavam (tenho uma tese, não confirmada, que, se fosse em ambiente de cidade, os azuis/cinzentos dominariam). Sorte das senhoras, cujo leque de opções é sempre imenso. Era, assim, um ambiente “solto”.

À ida para a mesa, um dos convidados, figura bem conhecida da política doméstica, sugeriu: “E se deixássemos os telemóveis na sala de entrada?”. Conhecendo-lhe o hábito de andar sempre de telemóvel na mão, como os adolescentes sem imaginação, fiquei surpreendido. Mas logo agarrei a sugestão. Boa ideia! Assim fiz também, ecoando bem alto a ideia. Outros fizeram o mesmo. Vi que nem todos o seguiram, mas que a sugestão os terá levado a optar pelo “silêncio” técnico.

Não que, a mim, me ocorresse a ideia de vir a atender uma chamada durante o almoço, muito menos de tentar contactar com alguém. Mas, quem sabe, numa pausa, “entre la poire et le fromage”, podia dar-me para olhar as mensagens, ou mostrar uma fotografia, ou ter a tentação de dar a conhecer, ao parceiro do lado, um extrato de um filme no YouTube, “com pilhas de graça”. Desta forma, porém, ficava “blindado” face a qualquer tentação.

(Foi na Áustria, nas reuniões que os países NATO dentro da OSCE faziam numa determinada embaixada, que vi pela primeira vez essa determinação de não levar telemóveis para a sala de reuniões, nesse caso por razões de segurança da confidencialidade das conversas. Depois, vi a prática estender-se: vários governos, por esse mundo fora, obrigam os seus ministros a deixar os aparelhos nuns cacifos, à entrada dos conselhos de ministros. Creio que, por cá, a regra “não pegou”. E, muito menos, nas ocasiões sociais.)

Com essa determinação radical de não poder ter o telemóvel “à mão de semear”, nenhum de nós correu, durante aquele almoço, o risco de assumir esse ato de rasca educação que é usar um telemóvel à mesa de uma refeição, de se fingir atrapalhado por uma inopinada chamada (“desculpem, esqueci-me de desligar isto!”) ou, discretamente, sobre o guardanapo no colo, tentar perceber como vai o resultado de um jogo. Ninguém ousou essa baixeza social.

Sentámo-nos para almoçar às duas da tarde. Saímos da mesa já passava bastante das quatro. A conversa correu fluída, com histórias deliciosas, com análises interessantes (aprendi imenso, sobre vários temas), num ambiente são e descontraído. Sem grande cerimónias, sem telemóveis, sem campaínhas, sem alertas. Afinal, ainda há um mundo civilizado, por detrás do mundo vulgar. É, é essa a palavra.

sábado, 9 de março de 2019

Tentações


Foi há muitos, bastantes anos. O ambiente era fantástico. Uma noite, num belíssimo bar de hotel tropical, à beira-mar, bastantes figuras femininas disponíveis, em quantidade e qualidade, com aquela cultura comportamental de relativa impunidade que algumas reuniões internacionais, em especial se realizadas "a Sul", tendem a proporcionar, em especial a partir do momento em que álcool flui e aflui.

Notei que a pessoa que chefiava a nossa delegação, uma figura pública relativamente conhecida, começava a assumir uma atitude demasiado "solta". Muito em especial, preocupavam-me os olhares distantes que sobre ela já convergiam, embora distraidamente atentos, de alguns dos nossos compatriotas presentes. Longe de mim ser puritano, mas desagradam-me escândalos com impactos de Estado. Como diplomata, quando em funções, sempre achei ter o dever de os prevenir.

A certo passo, pressenti que as coisas se podiam precipitar. O nosso homem, porque era de um homem que se tratava, encaminhava-se lentamente, com uma companhia que, durante a última hora, se estava a tornar insistente a seu lado, para zonas mais recatadas da varanda, num caminho que facilmente podia conduzir aos quartos. Ia num estado de pouco controlada euforia, que já não passava despercebida a muitos dos circunstantes, nomeadamente da nossa delegação, em risota e a comentarem entre si. Dei uma palavra de aviso ao respectivo chefe de gabinete, mas encontrei-o sem vontade de atrapalhar os eventuais planos lúdicos do chefe.

Propositadamente, decidi passar por perto do animado chefe da delegação e da sua companhia. Não havia uma grande confiança entre nós, mas o facto de eu ser "dos Estrangeiros" conferia-me como que uma leve autoridade cosmopolita, de alguma habituação às andanças diplomáticas, que ele manifestamente não tinha. 

Talvez por isso, e ao ver-me fitá-lo, deitou-me, à passagem, com um leve sorriso: "Há algum problema?". Subentendia-se bem o que pretendia significar... Devo ter feito um carão fechado, quando lhe respondi, seco: "Há dois: a Sida e o "Expresso" de sábado. Mas o senhor é que sabe!". E voltei costas.

Senti que tinha ficado inseguro, e seguramente furioso, inquieto talvez mais com o segundo problema do que com o primeiro. A "Gente" do ‘“Expresso” era então uma secção onde se podiam comprar grandes chatices e que havia já feito obituários políticos sumários. Regressei ao bar. Apareceu por lá, só, minutos depois. Não me falou. Já com ar deliberadamente sério, juntou-se a outros membros da nossa delegação e, volvido pouco tempo, deu as boas noites e subiu para o quarto. Julgo que sozinho, até porque a anterior companhia regressou ao "mercado" da noite.

No dia seguinte, no avião de regresso, evitou-me. Já desapareceu da nossa cena. Mas, por anos, nos restaurantes lisboetas, ignorava-me olimpicamente.

Já um dia contei esta história. Hoje, ao adquirir o “Expresso”, lembrei-me dela.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Onde está Portugal no mundo?


A prima de olhos verdes


É uma história de família. Da minha família. 

Era uma vez uma mãe que tinha dois filhos. E uma sobrinha, bonita, de olhos verdes. Ambos os filhos gostavam da prima. A mãe decidiu, porque era muito decidida e ai de quem lhe fizesse frente, que havia de ser o filho mais novo a casar com a prima de olhos verdes. Só que o filho mais novo, que era o “ai jesus!” da mãe, viria a morrer, bem jovem, de forma trágica. A família nunca se recompôs do choque. A mãe e o pai, com o filho mais velho, mudaram-se para uma casa em frente ao cemitério, onde, todos os dias, até morrerem, visitavam o jazigo onde haviam depositado o filho querido. 

Havia o outro filho, claro. E havia a prima. Que gostavam um do outro. Tinham um namoro escondido, um tabu na família, de que a mãe talvez suspeitasse, mas que nunca, em vida dela, se iria transformar em casamento. Foram décadas, acreditem! A mãe, um dia, já bem depois do pai, desapareceu. Os primos, superado o obstáculo, consagrando uma espécie de usucapião romântico, já passada a meia centena de anos de cada um, casaram, logo de seguida, claro. 

Foram felizes? Quero crer que sim, embora uma felicidade bem tardia. Ele morreu, há cerca de três anos. Ela seguiu ontem para o cemitério, já perto dos 80 anos, fechando de vez os seus belos olhos verdes.

Numa tarde chuvosa e espessa, como sempre achei que devem ser os dias dos enterros, deixámo-la lá, no jazigo que havia sido feito expressamente para o primo com quem nunca casaria. Ali mesmo já estavam, desde há muito, os seus sogros, os quais, aliás, nunca chegaram a sê-lo. E também o marido, o primo com quem casou. Esta acabará por ser a primeira noite em que toda a família, finalmente, se reúne. Em paz.

quinta-feira, 7 de março de 2019

O juízo dos juízes


Descobri agora isto que publiquei em 5 de janeiro de 2013 neste blogue:

“Choca-me, com frequência, a ligeireza das decisões de certos juízes, muitos deles seduzidos pelas luzes da ribalta mediática, com contornos a roçar a irresponsabilidade. E mais me choca que, revertida essa decisão por uma outra instância, nenhuma responsabilidade possa ser pedida a quem tomou a primeira - pelos vistos errada, caso contrário não prevaleceria a segunda. Alcandorados na sua "independência", os tais juízes a quem a instância superior tirou o tapete profissional, aí estão prontos para outras, ficando imunes à responsabilização, civil ou outra, pelos efeitos, patrimoniais ou humanos, que a sua anterior decisão acarretou. Não quero particularizar, mas apenas direi que é graças a uma atitude dessa natureza que o túnel do Marão acaba por não estar concluído, já há vários anos, com muitos milhões de euros de prejuízos e incontáveis custos para toda uma região.

A absurda sacralização que paira sobre estes operadores judiciais, armados em impolutos "orgãos de soberania", impede, por exemplo, que um qualquer cidadão possa chamar incompetente a um juíz incompetente, sem o risco de cair na imediata alçada ... de outro juíz! Às vezes, trata-se de uns miudecos acabados de sair das escolas de magistratura, sem experiência da vida e do foro, produtores de decisões absurdas e irresponsáveis, que ganham logo à sua volta uma espécie de temor reverencial, que os protege da denúncia de que "o rei vai nu".

A "importância" que certos juízes se atribuem a si próprios foi sempre ridicularizada pelos seus pares mais responsáveis, pouco satisfeitos com o impacto negativo que esse abuso do conceito de "independência do poder judicial", pode provocar sobre a imagem da classe.

Um dia dos anos 90, essa grande figura que é o magistrado José Matos Fernandes, ao tempo secretário de Estado adjunto e da Justiça, olhou do gabinete do ministro para a rua e, de repente, chamou quem estava na sala: "Olhem! Olhem! Vai ali um órgão de soberania!" Toda a gente arrancou para as vidraças que davam sobre a varanda. Lá em baixo, no terreiro do Paço, havia gente a cruzar a praça. Que queria ele dizer com o "órgão de soberania"?, perguntou alguém? Com aquele sorriso magnífico com que lhe ouvi algumas das mais deliciosas histórias da vida judicial, ele esclareceu: "Então não viram? Ia ali um juiz..." E lá apontou uma dessas figuras para quem a sala de audiências era um mero cenário que intervalava as suas aparições perante as câmaras televisivas.”

Nem sempre nos revemos no que publicámos no passado. Neste caso, fico confortável.

Paulo Roberto de Almeida


Paulo Roberto de Almeida é um embaixador brasileiro. Conheci-o quando por lá chefiei a nossa missão diplomática e ganhou a minha admiração pelo seu empenhado estudo da política externa do seu país. É autor de uma bibliografia impressionante e mantém o blogue “Diplomatizzando”, para mim de consulta diária.

O PT nunca gostou de Paulo Roberto de Almeida. A corrente dominante no Itamaraty, durante os anos de Lula e de Dilma, não apreciava minimamente o seu espírito independente, a sua leitura do que entendia serem os interesses permanentes brasileiros na ordem externa e da postura diplomática que considerava que melhor os defenderia. E ele pagou, em termos de carreira profissional, onde já tinha tido postos muito importantes, um forte preço por isso. A defesa de uma diplomacia não ideológica não caía bem num Itamaraty que, manifestamente, não ia por esse caminho.

Em face da nova situação instalada no Brasil, após as últimas eleições, fiquei curioso sobre qual iria ser o futuro de Paulo Roberto de Almeida. Desde cedo, tive um pressentimento: se, com a esquerda no poder, o Paulo fora adepto de uma diplomacia não sectária e sem viés ideológico, seguramente que o não via a favorecer o enviesamento extremo, mas de sinal contrário, que agora passou a dominar o discurso e a prática da política externa brasileira.

Não me enganei. Paulo Roberto de Almeida, um democrata corajoso e um cidadão que pensa pela sua cabeça, tem uma perspetiva elaborada sobre a postura brasileira na ordem externa, que não passa pela adesão a ondas cíclicas de fervor ideológico. A sua conhecida liberdade e independência de pensamento não parecem compatíveis com a orientação, extremada e radical, a que o Itamaraty está a ser sujeito nos últimos tempos.

O embaixador Paulo Roberto de Almeida acaba de ser demitido pelo governo Bolsonaro do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, horas depois de ter reproduzido no seu blogue, sem comentários, três artigos sobre a atual política externa do Brasil face à Venezuela: um de Rubens Ricupero, uma imensa figura da diplomacia brasileira, outro do antigo presidente Fernando Henrique Cardoso e, finalmente, um outro do atual Ministro das Relações Exteriores. 

Deixo ao Paulo Roberto de Almeida o meu abraço amigo e solidário, num tempo que imagino difícil. Ele sabe bem, contudo, que eu respeito sempre a velha quadra popular portuguesa: “Por me veres em baixo agora / Não me negues a tua estima. / Os alcatruzes da nora / nem sempre andam por cima.”

quarta-feira, 6 de março de 2019

Não como com hashi!


Sou muito pouco dado a comidas “étnicas”. Embora tenha andado um pouco pelo mundo, e tenha vivido ou frequentado algumas cidades (Londres, Nova Iorque, Paris, São Paulo) onde essa diversidade culinária estava muito bem representada, nunca fui um consumidor regular desses sabores. Estranho? Talvez, mas cada um é como é, não é?

Sou também de um tempo em que, por cá, os únicos restaurantes ”estrangeiros” existentes eram os indianos, na altura sem a sofisticação das suas várias declinações regionais - e uma certa Índia ainda era então “portuguesa”, não era? 

Creio que só depois é que abriram uns italianos (destes, as pizzarias foram as últimas, ainda nos anos 70), mais tarde uns auto-proclamados franceses, mas a proximidade de paladar destes com certa cozinha portuguesa faz com que não caibam, em definitivo, no meu conceito de “estrangeiro”, como é também o caso das diversas cozinhas espanholas.

Um pouco mais tarde vieram os chineses e, mais tarde, os japoneses. E, claro, passou também a haver mexicanos e gregos, brasileiros e marroquinos, russos e argentinos, peruanos e libaneses, tibetanos e belgas e moçambicanos, e agora também sírios e paquistaneses, e apenas dos que me lembro.

Serve isto para dizer que, desde o primeiro instante, me recusei a utilizar os “hashi”, os “pauzinhos” com que é suposto manifestarmos a nossa familiaridade com a forma asiática de comer. Admito que haja quem goste do ritual mas, por mim, achei sempre aquilo uma espécie de folclore a que nunca me sujeitei.

Por essa razão, quando confrontado com culinária asiática (e raramente o sou, pelo menos por minha iniciativa, note-se), ou mesmo “de fusão”, num qualquer restaurante, português ou estrangeiro, exijo sempre faca e garfo. Enfrento por essa razão, com toda a naturalidade, os olhares de reprovação que acompanham essa minha deliberada falta de adequação às regras do local. 

Porque refiro agora isto? Porque essa experiência sucedeu-me há muito pouco tempo e vi, comigo entre o divertido e o provocatório, o olhar espantado que as pessoas me dedicavam. E, apenas por isso, tive agora vontade de o escrever. OK?

Paulo Roberto de Almeida


Dedico ao embaixador brasileiro Paulo Roberto de Almeida, um diplomata (anti-lulista, note-se!) “saneado” pelo governo Bolsonaro, o meu artigo hoje no “Jornal de Notícias”, que pode ler aqui.

terça-feira, 5 de março de 2019

Lisboa no Carnaval?


segunda-feira, 4 de março de 2019

Amigos perdidos

Há pouco, por uma qualquer razão, lembrei-me deles. Dos amigos que, entretanto, se foram. Não me refiro aos que morreram, mas aos que, com o tempo, se foram afastando, nos caminhos da vida. Não foram muitos, mas alguns eram mesmo dos “de toda a vida”, como algumas pessoas acham “bem” dizer. Em nenhuma dessa meia-dúzia de separações me pertenceu o gesto, tendo sido eles que tomaram a iniciativa de sair de cena. Às vezes, por razões que me pareceram fúteis, outros por um quid pro quo sem sentido, outros ainda por motivos que, à certa, nunca cheguei a perceber muito bem. Num ou outro caso, pela política, imaginem! Terei tido culpas “no cartório”? Quem sou eu para julgar as razões dos outros, quando, por vezes, nem as minhas consigo avaliar bem! Uma coisa já concluí: esta vida não é suficientemente longa para que tenhamos tempo para nos preocupar e ficar a maturar em tudo o que ela nos traz de menos agradável. O que lá vai lá vai! Olhar em frente, porque o caminho é por aí. É que a vida são dois dias e o Carnaval são três - e um já quase passou!

É isto?

meu bue cenas fixe chaval altamente nice curtir baril top man coche fatela “uma beca estranho” brutal “tás a ver?” “Curtir tótil” bacano cota puto ya conhé “tipo a curtir” “bora lá” fónix pitar tasse bem meu irmao bazar pica superbem guito babado bombar fogo népia chibar

O regresso de Monroe


Um dia, numa conversa em Caracas com Hugo Chávez, Lula da Silva fez-lhe notar que o desequilíbrio da balança comercial entre a Venezuela e o Brasil, em especial em bens de consumo corrente, atingira um tal ponto que, embora o saldo fosse agradável para a economia brasileira, começava a ter uma dimensão com que ele próprio, como amigo da Venezuela, não podia deixar de preocupar-se. Lula aconselhou-o, nesse encontro, a deixar criar unidades produtivas em áreas que pudessem dar resposta a algumas dessas carências mais evidentes, até ali supridas por compras ao exterior, adquiridas com os rendimentos do petróleo. Como me contou um ministro presente à conversa, Chávez retorquiu que estava a pensar criar empresas públicas para esses setores produtivos. O presidente brasileiro terá reagido: era em empresas privadas que estava a pensar, em abertura ao investimento estrangeiro - como o então sucesso da economia brasileira bem o provava. Chávez reagiu: “Privados? Nem pensar!” e a ideia ficou por ali.

O socialismo bolivariano era isso mesmo: uma obsessão estatizante, assente em políticas de distribuição de uma riqueza que não correspondia a um real crescimento do país, conduzindo a um ambiente inflacionário e, no plano político, a uma polarização maniqueísta que, cada vez mais, passou a recorrer ao sufoco das vozes dissonantes, nomeadamente através da domesticação da comunicação social. O facto dos setores conservadores venezuelanos, por mais de uma vez, terem dado mostras de não ter pejo em recorrer ao golpismo armado, para inverterem a legitimidade eleitoral que conduzira Chávez à presidência, conferia a este uma forte autoridade interna e, no plano externo, dava-lhe uma certa aura de um poder que, embora radical no formato, parecia ratificado pelo povo. Com o tempo, o autoritarismo político passou a estar presente no dia-a-dia do país. A Venezuela não era Cuba, não tinha o histórico da ilha de Fidel, mas, para se afirmar, Chávez ia mimetizando algumas das práticas repressivas mais detestáveis do seu parceiro privilegiado na região. O seu carisma continuava a suscitar algum proselitismo militante, mas a prova provada de uma impopularidade que se foi alargando era o facto das forças armadas e policiais se terem convertido na sua indispensável guarda pretoriana – contudo, rodeadas de acusações de implicação em negócios pouco claros.

Maduro não é Chávez, mas ninguém pode garantir que, se este tivesse sobrevivido, a Venezuela estaria hoje muito diferente, porque todos os erros que conduziram à atual situação já estavam nas cartas, ao tempo do antigo presidente. O modelo “bolivariano” era, desde o primeiro momento, um desastre anunciado, num mundo que já não ia por aí. Maduro apenas o conduziu inabilmente, e de uma forma quase caricata, ao impasse em que acabou por cair. O facto de uma guerra civil não ter eclodido é talvez o maior milagre que se produziu na Venezuela, mas nem sequer o podemos creditar à gestão de Maduro.

Depois de Cuba, a Venezuela era, de há muito e à evidência, uma espinha encravada nos humores de Washington na América Latina. Não se tratava de um caso qualquer: estamos a falar de um Estado com reservas imensas de petróleo e outras riquezas, circunstância que é óbvio não ser indiferente a um país que delas tem sido um pouco discreto cliente, na fria “realpolitik” do negócio. No passado recente, a bravata anti-yankee dos dirigentes venezuelanos ia sendo tida à conta de uma realidade incómoda que apenas havia que suportar, tanto mais que o país não era “produtor” de insegurança na sua periferia que justificasse uma ação específica nele focada, salvo o apoio às forças opositoras internas. O que é que mudou, entretanto?

No essencial, foi-se esgotando a complacência da comunidade internacional em face de um regime que, dia após dia, se tinha convertido numa mera caricatura democrática. O descaso oficial perante uma situação humanitária cada vez mais trágica, e o completo fechar de portas por Maduro a um diálogo com setores fora do núcleo político-social do governo, começou a escandalizar o mundo, com a União Europeia a dar sinais de crescente inquietude. A isto se somou, nos últimos meses, o afastamento claro do Brasil, com uma nova administração à qual, por razões de política interna, conveio a diabolização do modelo bolivariano. Este fator não tem sido sublinhado com a importância que julgo que realmente tem, porque tudo indica que o empenhamento americano, na tentativa de um rápido derrube de Maduro, dificilmente se teria processado, pelo menos nos moldes que assumiu, se, da parte de Brasília, como potência sub-regional, fosse presumível a promoção de uma qualquer reação, menos de “proteção” de Maduro e mais de rejeição da intromissão americana.

Verdade seja que, ao forçar agora, com determinação, a mão à Venezuela, os Estados Unidos assumem, num novo ciclo histórico, o seu nunca dispensado “droit de regard” sobre a América Latina, na linha clássica da “doutrina Monroe”. Fazem-no numa causa que sabem ser hoje popular em vários quadrantes, explorando o inédito isolamento em que Maduro se deixou cair. Trump aproveita este tipo de “fogachos” como uma oportunidade para gerar uma fácil unidade interna, que lhe pode render alguns dividendos políticos. Na ordem externa, esta iniciativa pode também garantir aos EUA, aos olhos de alguns, um estatuto de liderança na promoção dos valores democráticos. Além disso, deixando o juízo sobre estas prioridades ao sabor de cada um, trata-se de uma oportunidade soberana para Washington poder assegurar um lugar privilegiado na preservação dos seus próprios interesses económicos na região. Ainda neste jogo de sombras que é a agenda de desígnios, convirá notar um ponto que, com toda a certeza, nunca deixou de estar presente na coreografia geopolítica da América: Cuba. Uma queda de Maduro, com Lula e os seus heterónimos já fora do cenário, levará o regime de Havana a sentir-se cada vez mais fragilizado – e isso não pode deixar de fazer parte das contas de prazer em Washington.

(Artigo publicado na Revista, a convite do "Expresso", em 2 de março de 2019)