quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Michelin


Demorou alguns anos, deu bastante trabalho a algumas pessoas que nisso muito se empenharam, envolveu várias entidades, mas, finalmente, concretiza-se hoje: a Michelin organiza, pela primeira vez em Portugal, o lançamento do seu Guia anual para a península ibérica. Nele figuram todas as relevantes indicações de hotelaria e restauração, organizadas por localidades, com indicações dos principais restaurantes - incluindo aqueles a que a Michelin atribui as famosas “estrelas” ou que destaca com a marca de qualidade de “Bib Gourmand”.

Alguns irão dizer - já os estou a ouvir - que tudo isto tem pouca importância, que o impacto global sobre a nossa indústria de restauração não é significativo, que as “estrelas” da Michelin são irrelevantes. Talvez quem conhece melhor os temas do turismo e da promoção da imagem de Portugal possa falar com maior propriedade sobre os efeitos deste evento. 

Neste dia em que uma ideia se concretiza, deixo um abraço a duas pessoas que foram instrumentais nesta questão. Pessoas que, um dia, ao terem falado entre si, fizeram com que o que hoje acontece acabasse por ser possível. Espero não estar a revelar um segredo ao colocar aqui os seus nomes: Fortunato da Câmara, crítico gastronómico do “Expresso”, e Alberto Laplaine Guimarães, secretário-geral da Câmara Municipal de Lisboa e diretor da Academia Portuguesa de Gastronomia.

Missão impossível


Todas as gerações diplomáticas portuguesas foram habituadas a lidar com a máquina oficial britânica, principal e incontornável parceiro de Portugal nos últimos séculos. Pertenço àquela que assistiu a uma mudança muito significativa, quase diria que histórica: daquilo que chegou a ser uma dependência tutelar quase humilhante até uma forte autonomização da nossa capacidade decisória, derivada da adesão do nosso país às estruturas europeias, com a nossa opção por uma linha integracionista que, a partir de certo momento, passou a estar quase nos antípodas da orientação do parceiro na "velha aliança".

Durante os anos em que trabalhei em Londres, testemunhei momentos muito tensos na relação do Reino Unido com Bruxelas, violentos ataques às posições, tidas por centralistas, tituladas por Jacques Delors, chefe de uma Comissão Europeia que nunca deixou de ser a mais diabolizada das instituições. Vi os britânicos exultantes com o que consideraram ser uma imensa vitória no termo da negociação do Tratado de Maastricht, a sua rejeição da moeda única, o orgulhoso isolamento que a não aceitação de Schengen representou, entre outros "opt out" tidos por sucessos protetores do interesse de Londres.

Lidei com diplomatas e alguns políticos do Reino Unido ao longo de quatro décadas e, em todo esse período, adquiri duas certezas: os britânicos nunca abandonariam a sua condição de parceiro europeu fortemente relutante (afinal, foram mesmo mais longe do que isso), ao mesmo tempo que sempre trouxeram, para dentro da União, cujo funcionamento sustentadamente punham em causa, um profissionalismo de primeira água, ao nível do seu notável "civil service", com uma diplomacia que pedia meças a qualquer outro país. O Reino Unido sempre negociou bem, na sua peculiar perspetiva nacional, nos diferentes tempos da vida europeia, levando quase sempre, no essencial, a água ao seu moinho. Às vezes, é verdade, adotando posições que roçaram a perfídia e uma frieza cínica - talvez um revisitar do "Yes, Prime Minister" possa ser educativo.

Olhando o resultado bem pífio que o Governo britânico agora apresenta, no termo do penoso processo negocial com os "vinte e sete", não posso deixar de ter um pensamento de simpatia para com os diplomatas que nele estiveram envolvidos. Se uma diplomacia tão capaz como a britânica foi incapaz de produzir um resultado razoável, só podemos concluir que se tratava de uma missão impossível.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Observem!

Tem alguma graça olhar o modo como certos operadores mediáticos, criados e mantidos por investimentos puramente ideológicos, ruinosos nas cifras mas que esperam ser recompensados a prazo (cada vez mais longo, pelos vistos...) nas urnas, têm vindo a tratar, “com pinças”, a questão das touradas. Eles sabem bem que os seus aparelhos de proselitismo político caminham, neste domínio específico, por uma linha muito fina e delicada: a que é traçada entre o trauliteirismo ultramontano, aliado neste caso a um marialvismo transversal policrómico, e a imparável frescura mental de uma juventude que nem por se poder sentir conservadora noutros domínios consegue comungar já da simpatia por práticas que sente dizerem respeito a outros tempos, que inevitavelmente olha como meros resíduos de um primitivismo social que só a inércia e o tradicionalismo decadente ainda alimentam, mas que não deixarão, em tempo mais ou menos breve, de passar ao caixote do lixo da História. E como esses “outlets” do conservadorismo da paróquia vivem na angústia de não perder ambos os públicos-alvo, gizam um discurso equívoco, rebuscado na forma e ambíguo na opção de fundo. Que patuscos são! Eles observam, nós topamo-los bem!

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

São Nicolau


É um santo estranho, S. Nicolau, que tanto é o protetor dos guardas-noturnos na Arménia (nunca lhes perguntámos, Luis Castro Mendes, nas nossas noites de trabalho em Yerevan), como serve de inspiração, nas festas Nicolinas, aos estudantes de Guimarães. Hoje, o santo “abençoou-me” uma bela refeição, na sua excelente adega - a “Adega de São Nicolau” - na Ribeira do Porto, onde, na sua nova encarnação, vim pela primeira vez, há bastantes anos, com o meu saudoso amigo “Kiko” Castro Neves. Estou certo que ele teria apreciado as costeletinhas de borrego (gostei que, com profissionalismo, me tivessem dito que as bochechas de porco precisariam de mais meia hora de cozinha) e, no fim, o doce de gila, acompanhado de dois “seminaristas”, coisa a que, na minha terra, se chama “jesuítas” - um “fine-tunning” doceiro em que a província esmaga as metrópoles.

E agora vou trabalhar, porque a boa vida é só para os reformados, e eu não sei o que isso é!

Selassie


O “Diário de Notícias” semanal (está cada vez melhor a edição dominical em papel e, um destes dias, inscrevo-me como assinante pago da edição digital diária) traz ontem esta fotografia do “venerando chefe de Estado”, Américo Tomaz, a receber, na Praça do Comércio, o “negus” da Etiópia, Heile Selassie.

Estava-se em julho de 1959. O governo de Salazar tinha, por essa altura, percebido já que a grande “vitória diplomática” da entrada de Portugal para a ONU, quatro anos antes, estava a “sair-lhe pela culatra”. As Nações Unidas passaram a ser uma espécie de tribunal no qual Portugal era, dia após dia, fustigado perante o mundo pela sua relutância em descolonizar, dando assim lastro aos movimentos independentistas que, em Angola (1961), na Guiné (1963) e Moçambique (1964), viriam a iniciar movimentos de guerrilha que se transformaram nas guerras coloniais que Portugal teve de suportar até 1974.

Trazer o imperador da Etiópia a Portugal, dando-lhe uma receção de Estado com todo o foguetório coreográfico que a ditadura conseguia mobilizar, era uma óbvia operação de “marketing” para tentar cativar um reconhecido líder africano. O tempo viria a provar que o sucesso da iniciativa não iria, contudo, ser muito.

Um “número” quase idêntico havia sido feito à soberana britânica (1957), num tempo em que o regime procurava preservar a tutela protetora do Reino Unido no plano internacional e ainda sonhava que poderia vir a mobilizar a “velha aliança” para as suas pretensões de se manter nas “possessões ultramarinas”.  Anos depois, aquando da invasão de Goa, Damão e Diu (1961) pela União Indiana, Londres deixou claro que não estava disponível para ir nesse caminho. 

Um ignoto e efémero presidente brasileiro, Café Filho (que herdou a presidência por morte de Getúlio Vargas) também já havia tido “restolho” protocolar similar (1955), antecedendo o que mais tarde também seria proporcionado a Juscelino Kubitschek (1960), sempre na tentativa de conservar o Brasil no apoio internacional à política colonial portuguesa. Em vão, como se iria ver, com a ditadura militar brasileira a desprezar as pretensões diplomáticas de Lisboa e a colocar o seu país, de forma permanente, ao lado de quantos, na ONU, se afastavam das políticas do regime salazarista. As duas ditaduras que então monopolizavam o espaço mundial da língua portuguesa nunca se entenderam muito bem.

No plano interno, a legitimidade do regime havia sido, entretanto, fortemente posta em causa nas eleições do verão de 1958, com a candidatura do general Humberto Delgado a provocar um abalo político que demoraria anos a ser digerido. Entre 12 de janeiro e 20 de abril de 1959, o general, temendo ser preso, esteve refugiado na embaixada brasileira em Lisboa, depois de obtido um polémico asilo diplomático. O caso de Delgado, que viria a ser assassinado mais tarde (1965), em Espanha, pela polícia política de Salazar, estava assim ainda muito fresco nesses dias de visita do imperador etíope. 

Nesses dias da visita do “negus” etíope, que a imagem do DN de ontem documenta, alguma imprensa internacional, seguramente adubada por setores oposicionistas portugueses, havia posto em causa a legitimidade de Américo Tomás em poder usar o título de presidente de Portugal, argumentando com a imensa fraude eleitoral que ferira de legalidade o sufrágio. O próprio Humberto Delgado, no Brasil, proclamava então ser o presidente a quem fora usurpado o cargo.

Foi nesse contexto que, aquando da visita do imperador, surgiu então uma anedota, como muitas que, nesses tempos de ditadura, emergiam como uma espécie de resistência “soft”, de denegrimento pelo humor, muito ao jeito do ambiente dos cafés da época. A “história” que se contava é que, ao receber o imperador etíope, no Cais das Colunas, Tomaz se teria apresentado dizendo: “Eu sou Américo Tomaz, presidente de Portugal”. O visitante, segundo a graça, ter-lhe-ia respondido: “Eu Selassié” - soando a “sei lá se é”...

Pequenas historietas de um tempo bem triste da nossa História.

domingo, 18 de novembro de 2018

A Manuel Alegre

Eu também não coloco os animais acima das pessoas, mas coloco o sofrimento dos animais acima do gozo de um espetáculo para pessoas.

sábado, 17 de novembro de 2018

Encontros de Cascais


Um belo debate, numa excelente iniciativa do “Expresso”, com muita gente nova, outros menos, muitas mulheres e uma organização exemplar. Foi assim que “ganhei” o meu sábado.

Loureiro dos Santos


Morreu Loureiro dos Santos, um militar de abril que fez incursões pela política, sem aí nunca ter deixado de ser, essencialmente, um brioso militar. Mais tarde, refletiu e publicou sobre aspetos estratégicos da nossa singularidade geopolítica, abordando também as mutações ocorridas, nas últimas décadas, na condição militar em Portugal.

Loureiro dos Santos foi um democrata, um esteio do “grupo dos nove”, que procurou contrariar a deriva radical da Revolução de abril. Exerceu funções políticas na área da Defesa Nacional, em governos de inspiração presidencial, onde sempre projetou uma perspetiva do modelo de transição que uma figura como Ramalho Eanes, de quem era muito próximo, procurou implementar no processo político-militar português. Loureiro dos Santos viria igualmente a assumir elevadas funções na hierarquia militar.

A falta que fazem personalidades como Loureiro dos Santos é melhor realçada pelo facto de, entretanto, não terem surgido muitas figuras militares a destacar-se na reflexão, com qualidade, sobre as temáticas da Estratégia e da reflexão geopolítica.

Sobre Loureiro dos Santos, leia-se, com vantagem, a excelente biografia que Luísa Meireles sobre ele publicou há poucos meses. É uma das melhores homenagens que lhe podemos fazer.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Às armas?


Uma palavra pode fazer toda a diferença. Há dias, Emmanuel Macron disse o que não poderia ter dito: incluiu os Estados Unidos entre os adversários cuja existência poderia justificar a criação de um exército europeu. Trump reagiu e teve razão em fazê-lo: a França é um parceiro da NATO e, muito embora hoje seja tudo menos claro o que Washington quer fazer da organização que abertamente controla, nenhum cenário, por mais fantasista que seja, pode colocar a América do outro lado de uma qualquer trincheira oposta ao continente europeu. Quanto mais não seja por meridiano realismo, em termos de capacidades militares.

Macron tem no facto de ser um europeísta a sua maior qualidade. As propostas que fez, no sentido de um reforço institucional da governança da zona euro, foram muito ousadas e corajosas. Resta saber se, chegado a vias de facto, teria hipóteses de conseguir “vender” essas ideias a um país que já demonstrou, por mais de uma vez, que tem uma opinião pública e uma classe política bem mais recuada face à Europa do que as suas lideranças - recordo o fracasso da Comunidade Europeia de Defesa e o Tratado Constitucional Europeu, e também que foi por uma unha negra que Maastricht foi ali aceite.

A saída do Reino Unido vai deixar a França numa esplêndida solidão, no quadro integrado do continente, em matéria de capacidade militar, desde logo nuclear, bem como de afirmação política, no seio das Nações Unidas. Macron já percebeu que Paris tem aqui uma oportunidade soberana para se afirmar no centro de gravidade de uma Europa que, como é evidente para todos, pode ter de viver, por muitos e bons anos, bastante alheada do “amigo americano”, com o interesse em reconstruir uma parceria de novo tipo com o Reino Unido e que ainda não sabe o que vai fazer com Moscovo. A necessidade de uma dimensão europeia de defesa, quanto mais não seja “by default”, é algo que parece óbvio - embora me pergunte se falar em “exército europeu” não ajuda a espantar a caça.

Macron não está sozinho. Na terça-feira, Angela Merkel deu, no Parlamento Europeu, um claro sinal de querer ir a jogo. Em Berlim, vê-se Londres a afastar-se. Ecoando a ideia do “exército europeu”, Merkel terá querido dar, pelo menos, três sinais. E um silêncio.

Desde logo, pretendeu demonstrar que a narrativa alemã sobre segurança e defesa já não vive sob os velhos tabus. Isso vai-se sabendo, mas ela quis dizê-lo, uma vez mais. A Alemanha tem consciência de que, para servir de parceiro e contraponto à França, tem de pesar mais na Europa em termos militares. 

A chanceler também sabe que, para apaziguar as preocupações securitárias que adubam a fação mais conservadora do país, precisa de muscular a sua narrativa, quer em termos de defesa, por conta de inquietações internas face à deriva autoritária russa, quer nas questões de proteção da fronteira europeia comum e do sensível tema do asilo. 

Finalmente, Berlim quer deixar claro que partilhará a autoridade europeia com a França, o que é também um recado para os EUA, que começam a perceber que o “ticket” franco-alemão está para durar – e que a atitude de Trump pode a isso ter ajudado. 

Os discursos, porém, se são eloquentes no que dizem, também dão voz forte ao que silenciam: Merkel deixou em branco os apelos de Macron para a regulação da zona euro, nomeadamente o completar da União Bancária.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

De cernelha

Afinal, ficou confirmado que, lá pelo PS, existia, na clandestinidade, um núcleo de peões de brega. Os brasileiros têm a “bancada do boi”; nós tínhamos de subir a parada, criando a “bancada do toiro” (com “i” que é mais fino...) Saíram hoje do seu “burladero” ideológico, estavam afinal bem refugiados em tábuas, até que um citar poético lhes concedeu alguma praça. E aí romperam eles, ao toque de um qualquer inteligente que lhes soprou o passo doble, acolitados por uns moços de forcados, arribados pela direita (de onde havia de ser?), para tentar pegar, não de caras, mas de cernelha, a proposta do IVA. 

No final, aposto!, limpando as mãos à terra da praça, como podiam ter feito à parede, será por lá notado um rabejador qualquer. Mas que faena mais triste!

Indo eu, indo eu...


... a caminho de Viseu, já cheguei, neste belo fim de tarde, à capital portuguesa das rotundas. São 127, dizem! Venho por aqui debater a Grande Guerra, numa iniciativa da Câmara Municipal e da Liga dos Combatentes.

Durante muitos anos, quando as auto-estradas não ainda tinham reduzido o nosso trânsito pelas localidades servidas por estradas nacionais, Viseu foi, para mim, uma passagem obrigatória, nas longas viagens entre Lisboa e Vila Real, em tempos de Natal ou Páscoa. 

Se a jornada estivesse muito atrasada, parava-se para tomar “qualquer coisa” no Monte Branco, um café citadino então muito na moda. Se as horas chegassem, jantava-se no Cortiço (mais tarde, também no Trave Negra), com o Dom Zeferino a insistir para que provássemos uma aguardente “caseira”, o que nos preparava para o resto da jornada. É que, de Viseu a Vila Real era ainda um bom “esticão”, com uma estrada curvosa com frequente nevoeiro, por Castro Daire e dali, pela serra de Montemuro, até começar por descer por Lamego até à Régua. Recordo-me de jornadas noturnas de inverno, a ter de abrir frequentemente a porta do carro, para conseguir perceber o limite sa estrada. Nada que o bagaço do Dom Zeferino, nesses anos complacentes da antiga “Brigada de Trânsito”, não ajudasse a resolver... 

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Derrota pírrica


Quase tudo foi dito sobre as eleições intercalares americanas. Deixo apenas algumas breves notas sobre os resultados, tentando olhar em frente.

Trump foi derrotado. Para quem tinha as duas câmaras do Congresso e perdeu a maioria naquela onde é iniciado o essencial do processo legislativo – a Câmara dos Representantes – é evidente que se tratou de uma derrota. Esse desaire foi, contudo, atenuado: Trump não perdeu o controlo do Senado, onde teve mesmo alguns ganhos marginais e cujos integrantes são eleitos por seis anos (sendo um terço do órgão renovado a cada dois anos), pelo que, ao contrário do que é vulgar acontecer, esta eleição intercalar não resultou no ressurgimento global de uma onda oposicionista. Trump sai enfraquecido mas não tanto como ele próprio temeria e os adversários e comentadores considerariam plausível que pudesse ter acontecido.

Trump reforçou assim bastante as suas possibilidades de ser reeleito em 2020. A América, que pareceu inicialmente aturdida com o seu estilo, não o rejeitou, conferiu-lhe um voto de reticente confiança. Quem elegeu Trump não parece, no essencial, descontente com ele. Eliminada a possibilidade de vir a ser afastado do cargo por um processo de impedimento de funções – dado que o Senado, que continua a dominar, teria sempre a última palavra sobre isso – o presidente pode, contudo, vir agora a ser sujeito a um desgaste político contínuo, se o processo de suspeição sobre as suas relações com a Rússia vier a manter-se.

Percebe-se que Trump vive aqui um dilema. Se optar por afastar o investigador especial que trata do tema, cuja curiosidade se tem alargado a temas para ele tabu, como as contas familiares, o presidente tem consciência de que vai agravar um campo de batalha, que os adversários não deixarão de explorar à saciedade, assumindo-o como uma implícita admissão de culpabilidade. Se o processo de inquirição se prolongar, em termos que sejam credíveis aos olhos dos cidadãos, e se, de facto, começar a ser evidente que há algum fogo por detrás do fumo, a imagem de Trump pode vir a sofrer, com consequências daqui a dois anos.

Mas há uma persistente ilusão que não pode deixar de ser evidenciada. O mundo exterior vive mobilizado contra Trump à luz da atitude de uma América liberal que não representa o país. A CNN, as graças de Stephen Colbert ou os artigos do New York Times ou do Washington Post podem parecer-nos faróis de meridiano bom-senso, mas não espelham um sentimento forte que se vive nos EUA – e que tem tudo menos a ver com isso.

Para esse juízo valorativo, que as eleições refletiram bem, conta essencialmente o sentimento, real ou potencial, de bem-estar económico, adubado por uma retórica de defesa do interesse nacional que cai como sopa no mel em setores de opinião pública que já estão conquistados para a ideia de que o mundo tem sido injusto para com os EUA, de que os estrangeiros ou quem vem de fora são culpados pelos seus problemas de insegurança (pública, de emprego, de competitividade económica) e que olham com esperança para um líder que não tem vergonha de expressar alto os seus pensamentos, por mais primários que estes sejam.

Os EUA saem deste período muito mais divididos do que estavam. Se os democratas vierem a ser culpabilizados, por Trump e no juízo público, por eventuais bloqueios ao funcionamento da administração nos próximos dois anos, através da sua nova posição na Câmara de Representantes, arriscam-se a poder vir a ser penalizados politicamente. Pirro, segundo a História, ganhou uma batalha por um preço tão elevado que, afinal, lhe poderia custar perder a guerra. Resta saber se, a contrario, esta derrota de Trump não pode, no fim de contas, ser o pano de fundo que pode vir a facilitar a sua reeleição.

Falar claro


Sou um radical defensor da democracia representativa, de base parlamentar. Voto em partidos que apresentam programas com os quais me sinto em sintonia, compostos por pessoas que me merecem confiança, que escolhem deputados que geram governos e tomam por mim todas as decisões legislativas. Repito: todas! Não voto em referendos, que acho uma caricatura simplificadora da democracia.

No passado, cheguei a ter um "tropismo" parlamentarista, pensando que o chefe de Estado deveria ser eleito pelo Parlamento. Mas há muito que não tenho essa opinião. O essencial da minha posição de considerar a Assembleia da República o centro do nosso sistema político mantém-se, contudo, inabalável.

Quero com isto dizer que não favoreço qualquer ato que funcione como debilitador da função parlamentar, que não apoio a menor deriva presidencialista, que procuro reagir diariamente ao denegrimento com que se procura atingir ilegitimamente a instituição Assembleia da República, órgão que, aliás, nestes últimos anos, tem vindo a ser dirigido por uma das figuras públicas portuguesas que tenho por mais íntegras e impolutas, em toda a nossa recente história democrática.

Se estivéssemos num país anglo-saxónico, aos parágrafos anteriores seguir-se-ia o tradicional: "Having said that...". E é isso! Dito isto, acho lamentável que a Assembleia da República dê mostras de não querer autoimpor regras de estrito rigor ético e irrepreensível transparência cívica. Não se deve tomar a parte pelo todo? Claro que não! Mas não consigo admitir que, perante o espetáculo que alguns deputados dão (estranhas faltas, moradas falsas, mutismo no plenário, ligações profissionais perigosas, etc.), muitos assumam um ar quase ofendido, como se o seu estatuto os colocasse acima de qualquer crítica, numa prateleira dourada de aristocracia republicana.

A culpa deste estado de coisas é - chamemos as coisas pelos nomes - o compadrio corporativo que faz com que ninguém pareça querer o odioso de impor um extremo rigor na atitude. Os partidos políticos são, como é óbvio, os principais culpados, porque são eles que se inibem de sancionar e afastar quem prevarica, num "porreirismo" que, lá no fundo, assume como praticamente inevitável o que vai acontecendo, na lógica de que "nós, os portugueses, somos assim, que se há de fazer?". Ora os portugueses sabem muito bem o que deveria ser feito e, enquanto os partidos e a AR o não fizerem, vão tendo os nossos deputados na conta em que os têm, a qual, como se sabe, não é lá muito boa.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

O Panteão


Há um ano, no Facebook e no Twitter, coloquei esta interrogação e esta fotografia:

Com o tempo, e com as incertezas da sabedoria que a idade nos traz, inquietamo-nos sobre a eventual justeza de certas opiniões pessoais. Seremos nós quem não está a ver bem as coisas? Aconteceu-me agora. Ajudem-me: acham mesmo normal que o jantar final do Web Summit tenha sido entre os túmulos do Panteão Nacional?”

Foi o bom e o bonito! O país caiu numa polémica bizarra, com o presidente e o primeiro-ministro a terem de se pronunciar. Eu, que tinha lançado, pela madrugada, uma pergunta que era, francamente, bastante inocente, tive rádios e televisões atrás de mim, como se tivessem caído o Carmo e a Trindade - ou, neste caso, Santa Engrácia. As redes sociais são hoje os pirómanos da informação.

Passou um ano, já ninguém se lembra do assunto. O país vive agora entretido com uma senhora que deu como presente um deputado que estava ausente. Ah! E com a prisão, que só peca por tardia, de um energúmeno do futebol. Até surgir um novo escândalo, que abafe o anterior. É assim a vida.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Armistício


Foi hoje, ao final da tarde, na embaixada francesa em Lisboa. Os chefes das missões diplomáticas alemã e francesa organizaram uma interessante comemoração do Armistício que, fez hoje 100 anos, pôs termo à Grande Guerra de 1914 e 1918, que teve como principais protagonistas os seus países.

Há mais de meio século, num das minhas primeiras deslocações a França, fiz questão de ir a Compiègne, onde está a réplica do vagão onde, naquela data, foi assinado o Armistício. Local onde a perfídia hitleriana fez igualmente testemunhar, anos mais tarde, a rendição francesa. Nessa altura, visitei também o cemitério onde estão os mortos do Corpo Expedicionário Português, enviado para essa guerra. Voltei lá várias vezes como embaixador em França e foi, sempre, uma experiência tocante, que recomendo a quem o possa fazer.

As lições das guerras costumam perder-se com a passagem das gerações. Irei, aliás, falar disto, em Viseu, daqui a dias, numa iniciativa da respetiva Câmara Municipal e da Liga dos Combatentes.

Hoje, deixo a fotografia que, à saída da embaixada francesa, tirei dos bonés dos militares que comemoravam esta data.

domingo, 11 de novembro de 2018

Outono


Se não fossem as constipações, o outono era uma grande estação do ano.

sábado, 10 de novembro de 2018

A Rosa das Castanhas


Quem é de Lisboa não entende isto, com certeza. Quem tem raízes na província percebe melhor estas coisas. Vou tentar explicar.

Para um “expatriado” de uma localidade de província, que acabou por ter como destino de vida outras paragens, o episódico regresso às origens acarreta, quase sempre, uma espécie de ronda de “capelinhas”, de pessoas e lugares. É um “olá” que sublinha a manutenção do contacto, que preserva o vínculo essencial.

Vivo fora de Vila Real há mais de meio século. Em todas essas décadas, um regresso à cidade, por alguns dias, significa sempre um percurso de abraços, a familiares ou amigos, neste caso, por vezes, em casas comerciais. No passado, eram o Neves da pastelaria Pompeia, o Carvalho da drogaria da rua Direita (para não confundir com o irmão, que era proprietário de uma drogaria concorrente), o Zé Foquita da Galeria d’Artes, o Eduardo da papelaria, o Chico Alonso da casa de modas Real, o Fernando Choco da tabacaria, o Joaquim Mesquita da farmácia, o dr. Otílio da livraria Setentrião, o João Nascimento oculista, entre vários outros. Algumas pessoas vão mudando, os locais também. Nos tempos atuais, as pessoas e os locais são diferentes, mas o hábito mantém-se. Com imenso gosto, diga-se.

Hoje à tarde, chegado de Lisboa, ao passear pela cidade, neste inverno de S. Martinho, apeteceu-me comer castanhas assadas. Qual quê! Já não há castanhas assadas à venda, em nenhum lugar de Vila Real. Em vésperas de uma festa onde elas são fundamentais, senti essa falta. E foi então que me lembrei da Rosa das Castanhas.

A Rosa era empregada em minha casa quando nasci. Ficou amiga eterna da minha família. Tinha uma pequena casa comercial perto do largo de S. Pedro e, em toda a sua vida, sempre me lembro de passar por lá, quando ia a Vila Real, para cumprimentá-la. A partir de certa altura, quando me sabia na cidade, tinha por hábito mandar-me a casa salpicões, chouriços e alheiras. Para travar estes acessos regulares de escusada generosidade, passei a visitá-la apenas no último dia das minhas passagens pela cidade, avisando-a de que partiria de seguida, o que a deixava desolada. Grande Rosa! 

A Rosa, que morreu já há uns bons anos, tinha uma conhecida conflitualidade com uma cesteira que operava na esquina em frente. Às vezes, passando ali perto, “por dá cá aquela palha”, era possível ouvir as duas senhoras num curioso “diálogo” indireto, nunca falando uma para a outra, mas ambas clamando, em voz bem alta, para serem ouvidas do outro lado, coisas frequentemente pouco amáveis, de que eram mutuamente destinatárias. Parecia um teatro...

Ah! E a Rosa vendia castanhas, pelo que era conhecida, na cidade, como a Rosa das Castanhas. E a verdade é que, amanhã, dia de S. Martinho, não há em Vila Real onde comprá-las, quentes e boas. Essa é que é essa! Também por isso, mas não só por isso, vou sentir falta da Rosa das Castanhas.

(Nota: dedico esta nota a um conterrâneo que hoje cruzei na Tosta Fina e que me revelou ser leitor atento destes escritos sobre Vila Real)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Marcelo

É pena que o país não revele mais orgulho pela excelente imagem que o nosso presidente da República deu ao mundo, na sua intervenção na Websummit. Interrogo-me sobre os Estados em que o respetivo titular seria capaz de ter uma prestação idêntica.

E eu não votei nele, note-se! 

Necessidades


Ontem, vi na net imagens da tomada de posse de vários diplomatas, homens e muitas mulheres, em cargos dirigentes do Ministério dos Negócios Estrangeiros. E fiquei intimamente muito satisfeito por neles ter encontrado diversos profissionais que, no passado, tive o gosto de chefiar, em funções muito diversas. Dá-me prazer pensar que alguma coisa eles terão levado de positivo desses tempos, que às vezes não foram nada fáceis, da mesma forma que eu pude beneficiar do seu trabalho e dedicação.

Quem me conhece - como essas pessoas conhecem - sabe que não sou de alimentar “grupos” ou “discípulos”, que não reuno com “equipas” do passado, que sou avesso a praticar o “networking” profissional, que não ando pelos corredores das Necessidades “à la recherche du temps perdu”. Mas eles também sabem, como meus amigos que todos ficaram, que fico muito agradado com o seu sucesso.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O mundo avança

Há algumas décadas, as sufragistas eram consideradas umas tolinhas por lutarem pelo voto feminino. Há não muitos anos, Ribeiro Telles era visto como um lunático por tentar colocar na agenda política as questões ambientais. Há três anos, muita gente sorriu, condescendente, ao ver o PAN entrar na Assembleia da República. O que dirão no futuro?

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Autobiografia


Correspondendo a um desafio de José Carlos de Vasconcelos, escrevo na edição do “JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias” que hoje foi publicada, uma “autobiografia”.

O convite do diretor do JL tinha anos, mas eu vinha a adiar recorrentemente a ousadia de corresponder-lhe, porque estas aventuras, pelo lado narcísico que forçosamente acarretam, fazem-nos correr riscos de vaidade e, claro, de ridículo. O saldo aí fica, com um abraço ao José Carlos, pela sua simpática persistência.

Pode ler o texto completo aqui.

Tiro aos pombos


Têm ouvido falar do tiro aos pombos? Eu não. É uma prática que morreu de morte natural. Por que será que isso aconteceu? Porque “o mundo pula e avança”...

Pensem nisto!

Uma vergonha


Tancos é uma vergonha. Começa por sê-lo para as Forças Armadas, cujas chefias não foram capazes de assumir as suas responsabilidades. A hierarquia de turno não soube tomar a decisão óbvia - demitir-se –, face a uma flagrante incompetência de gestão, não percebendo que assim colocou em causa a honra e o prestígio, nos planos interno e externo, das nossas Forças Armadas. Estas já provaram que são bem mais capazes do que a imagem que esta sua chefia conjuntural agora projetou. A coreografia disciplinar evidenciada após a revelação do assalto já tinha mostrado uma aliança entre o pior corporativismo e a inépcia, perante a gargalhada e o sorriso amarelo de um país que tem a sua “tropa” em bem melhor conta. O que depois se veio a saber sobre as moscambilhas da Polícia Judiciária Militar excede tudo quanto, de ridículo, se supunha plausível. Ora se as chefias militares não estavam, como era evidente, à altura da situação, o poder político teria feito melhor em tê-las “ajudado”, a tempo e horas, afastando quantos, ao menos por omissão, se revelaram abaixo dos mínimos exigíveis. O poder político - presidente e governo - deveriam ter sabido medir melhor a fronteira que existe entre o “tratar com pinças” os militares, atitude que faz parte da nossa cultura de gestão política no quadro do compromisso constitucional, e o custo público de uma longa e penosa hesitação, que acabou por ter o preço de um ministro da Defesa e que agora coloca o comandante-supremo numa escusada atitude defensiva. Mas este caso é, essencialmente, uma tragédia para a imagem do nosso sistema de justiça. Passa pela cabeça de alguém que um sistema judicial minimamente eficaz esteja, há bem mais de um ano, sem conseguir deslindar por completo uma historieta com meia dúzia de personagens, devidamente identificadas e cujas responsabilidades na tramóia são hoje bastante claras? Aquilo que temos vindo a assistir é um queimar de tempo, que uma comunicação social ávida de lama aproveita para esgravatar com ardor, que começa mesmo a adubar algumas ridículas teorias da conspiração, passe o pleonasmo, dando do funcionamento das instituições uma imagem de opereta. Será preciso ir buscar a “Fox Crime” para pôr tudo isto – mas rapidamente! – em pratos limpos, chamando os bois pelos nomes e atribuindo responsabilidades, doa a quem doer? Ou será que alguém está a apostar em que a comissão parlamentar se prolongue, com desgaste, pelo ano eleitoral - sendo esta agora a quota de “conspiração”a que também tenho direito?

terça-feira, 6 de novembro de 2018

A Europa no “Público”


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Saudades


Não costumo colocar fotografias minhas por aqui. Há pouco, porém, a “net” trouxe-me esta imagem, creio que tirada no Conselho Europeu de Santa Maria da Feira, em junho de 2000, com Joaquim Pina Moura, um excelente amigo que há muito não vejo. Apeteceu-me publicá-la.

domingo, 4 de novembro de 2018

Novelas do Minho - O Ferrugem


sábado, 3 de novembro de 2018

Novelas do Minho - O São Gião


sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Minho


Um destino emergente


Algum Brasil sempre detestou o qualificativo de "país do futuro". E com razão. É um pouco como aqueles letreiros que, por graça, antigamente surgiam em algumas lojas: "Hoje não se fia, amanhã sim". Embora a esperança esteja sempre associada ao dia seguinte, é evidente que não ter uma ambição forte no presente acaba por desresponsabilizar as gerações que o gerem e condenar o país a um destino pouco distante da banalidade. Mas a verdade é que confiar num futuro redentor tem sido, de há muito, a aposta nacional brasileira. E o mundo sempre ironizou um pouco com isso.

O Brasil é um país cujo potencial - o tal futuro - ninguém coloca em causa, mas cuja plena exploração permanece recorrentemente adiada. Numa dimensão quase continental, com imensos e diversificados recursos naturais, dispondo uma curva demográfica favorável, o país deu, nas últimas décadas, saltos fortíssimos na qualificação dos recursos humanos, longe, porém, daquilo que necessitaria para se aproximar das economias e sociedades mais desenvolvidas. Além disso, esses avanços não se deram de modo uniforme. Conseguiram recuperar, pontualmente, algumas situações mais gravosas e, no extremo oposto, criaram “ilhas” de excelência que por lá, significativamente, são designadas como “de primeiro mundo” - em especial na economia, mas também na ciência, no sistema educativo, na saúde, etc. Porque há um imenso Brasil que ficou para trás nessa corrida, a diversidade brasileira continua a traduzir-se em elevados contrastes sociais, com tensões muito fortes que se transmitem negativamente na cultura de convivência cívica.

O atraso brasileiro tem ainda componentes estruturais. O país padece de uma grande debilidade em matéria de infra-estruturas, fruto de erros estratégicos que levaram a ciclos de desinvestimento, conducentes a situações hoje muito difíceis de recuperar. Isso leva a que algumas políticas públicas se ressintam, em permanência, dessas limitações - de que os transportes, as comunicações, a saúde, a educação e a segurança são exemplos gritantes.

Como é óbvio, a estrutura política reflete, condiciona e interage, em permanência, com essa realidade económico-social. O Brasil apostou num modelo constitucional federal similar ao americano, numa tentativa de consagrar, por via institucional, a acomodação entre uma representação estadual de interesses, que em muitos casos ali reflete uma cultura dos tempos do “coronelismo”, com um modelo de gestão central tradicional. Poderá dizer-se que, no essencial, o sistema tem funcionado, sobrevivendo mesmo a ciclos políticos muito contrastantes entre si. Porém, essa aparente resiliência dá sinais de resultar num forte imobilismo na cultura cívica, com vícios muito arraigados que só recentemente têm vindo a merecer atenção e sanção pública. O artificialismo da vida partidária brasileira, que permanece muito dependente de uma obsessiva fulanização, que continua a ser a imagem de marca da sua vida política, teve nas recentes eleições uma expressão notória, com uma fragmentação a nível da representação partidária que pode vir a contribuir para possíveis impasses institucionais.

No plano internacional, o Brasil vive, de há muito, com o sonho de poder ascender a patamares de afirmação institucional mais elevados. A entrada para membro permanente do Conselho de Segurança da ONU é o principal desses objetivos, o que justificou, num passado recente, um esforço de expressão diplomática, em particular junto dos países “do Sul”. A essa finalidade correspondeu também o forte investimento que o país fez no reforço do G20, apostando numa perca de força do G8, aquando da crise financeira.

O mundo, entretanto, mudou. O ciclo de afirmação multilateral está, pelo menos, congelado, nos tempos mais próximos. Além disso, a menos que uma surpresa, que poucos são tentados a prever, venha a acontecer, a nova liderança brasileira vai acarretar para o país um custo reputacional que, uma vez mais, funcionará a contraciclo do legítimo desiderato nacional brasileiro de apressar o futuro.

Da série "Já não é o que era..." - O prédio de Aveiro


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Da série "Já não é o que era...". O hotel


“Já não é o que era!”


A frase é quase sempre dita num tom entre o nostálgico e o sobranceiro - sobre restaurantes, lojas ou hotéis, que o tempo marcou e cujo serviço terá decaído, o que também é ajudado pelo facto dos nossos padrões de referência também se terem alterado. É que, entretanto, surgiram coisas novas, não houve por ali capacidade de adaptação, os locais e os serviços deixaram-se ficar para trás, sem consciência de que era necessário manter uma constante renovação. Algumas vezes, um certo charme decadente ajudou à sobrevivência digna. Algum pessoal, vindo do passado, pode ter sido um fator simpático de fidelização. Mas essa não é a regra e, as mais das vezes, paira por esses locais um ar de cansaço e desânimo. À saída, a realidade torna-nos cruéis e não perdoamos: “já não é o que era!”

Será, com certeza, um efeito colateral da idade, mas acho alguma graça em revisitar esses locais. Como hoje, deliberadamente, vou fazer. É o meu “circuito do já não é o que era”.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Presidente Bolsonaro


Em 1973, um político português cujo nome não vem para o caso, num registo discursivo tido por adequado para quem estava então no exílio, causticou um dia, por escrito, a ditadura militar brasileira.

Veio o 25 de Abril e o político viu-se com responsabilidades no Portugal democrático. Quando se decidiu juntar, numa publicação, alguns dos seus textos do passado, olhou essa referência e, com sentido de prudência, elidiu-a. É que os mesmos generais que, desde 1964, perseguiam, prendiam e mandavam assassinar cidadãos brasileiros eram, afinal, os interlocutores da nova democracia portuguesa, isto é, do governo a que ele pertencia.

Lembrei-me deste episódio ao ver por aí alguns "heróis" a reclamar das nossas autoridades uma "atitude", em face da eleição de Jair Bolsonaro. Li mesmo remoques pelo facto do presidente da República e do primeiro-ministro terem enviado mensagens congratulatórias àquele que será o seu novo contraparte, simultaneamente como chefe de Estado e chefe de governo. Posso perceber que não se goste do novo líder brasileiro (eu também não gosto), mas há que aprender que a boa gestão das questões de Estado não se compadece com humores políticos de conjuntura. E que, comparada com a sinistra ditadura com que a nossa democracia conviveu serenamente por mais de uma década, a legitimidade de Bolsonaro foi assegurada por dezenas de milhões de brasileiros.

Jair Bolsonaro é a figura que, nos próximos quatro anos, presidirá a um governo com o qual teremos de lidar, independentemente da nossa opinião sobre ele. Dirigirá um Brasil onde vivem e trabalham larguíssimos milhares de cidadãos portugueses ou lusodescendentes, cujos direitos e interesses queremos ver respeitados, o que só poderá ser feito num quadro de serena interlocução com as autoridades desse país. O Brasil é, além disso, destino de importantes fluxos de exportações nacionais, por lá há imensas empresas de capital português e ambos os Estados, para além de uma História comum que é um património não despiciendo, partilham hoje importantes ações no quadro da CPLP, bem como na promoção da língua que, tirado o sotaque, passa por ser a mesma.

Este é um momento feliz para Portugal? Sê-lo-á para alguns "bolsonarozinhos" da paróquia, a afiar o dente para uma esperada repressão contra aquilo que, pelo mundo, se habituaram a odiar. Para gente com princípios, a vitória de Bolsonaro só pode ser um tempo triste. Para o Estado português, que a todos representa, tem de ser "business as usual".

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O mistério da capela


Até 1953, existiu, no "promontório" do Pioledo, em Vila Real, a capela de Santo António. 

Santo António continua a ser o padroeiro da cidade.

A capela, que se sabe ter sido erigida por subscrição popular, era de meados do século XVI, tendo, desde então, sido sujeita a várias reformas. Não seria uma obra prima da arquitetura religiosa, mas tinha a sua graça, como a imagem mostra.

Sabe-se que um dia, em 1953, a capela foi derrubada, ao que consta, com o pretexto do seu estado de degradação. As suas pedras terão tido destinos vários. As telas e retábulos foram, ao que parece, para o seminário diocesano.

A desaparição da capela de Santo António sempre me intrigou, desde criança. Conhecia-lhe a imagem e o local e recordo-me de, ao longo dos anos, ter inquirido várias pessoas sobre o assunto. Ninguém sabia de nada! A razão por detrás da decisão de destruição da capela era um mistério. Se, como alguns aventam, havia intenção de a reconstruir noutro local da cidade, então talvez tivesse sido mais barato melhorá-la...

Constato que houve sempre, em Vila Real, uma espécie de tabu em torno da desaparição da capela seiscentista do Pioledo. Posso estar errado, mas sempre tive a sensação de que a destruição da capela foi um ato municipal, de que ninguém queria falar, para evitar "macular" a imagem da figura que tomou a infeliz - e autoritária - decisão. Um "grilo" canta-me isto, mas não posso provar.

Alguém saberá alguma coisa sobre isto? Fica esta fotografia, aa autoria de José Aguilar (pai).

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Ilídio


Em abril, publiquei por aqui uma nota sobre um velho amigo que reencontrei num almoço em Coimbra. A doença marcava-o já visivelmente. Escrevi então isto:

"Ontem, encontrei o Ilídio. Demos conta de que já nos não víamos vai para quatro décadas. Nesse tempo de liceu, ele era uma figura imensa, um bom “gigante”, que sempre revejo embrulhado na capa preta, arruando pelos Primeiros de Dezembro.

O Ilídio era uma fator de ligação entre todos nós, tinha uma grande paciência para os mais novos, em que eu me incluía. Tinha também uma graça infinda, a que a sua figura física ajudava, e disso dava testemunho nos “saraus” estudantis desse primeiro dia do último mês do ano. Para a história académica de Vila Real, ficaram para sempre os seus mano-a-mano com o Zé Amaral, diálogos que, estou certo, o eterno encenador dessas sessões, o Achilles, não conseguia controlar nem disciplinar.

Grande Ilídio! Combinámos encontro para o próximo Primeiro de Dezembro. Etapa a etapa se faz a caminhada, companheiro, por mais dura que ela às vezes vá sendo. Até lá, caro Ilídio!"

Acabo de saber que o Ilídio morreu. Afinal, não nos veremos no 1º de dezembro.

Presidente Bolsonaro


Marcelo Rebelo de Sousa, como manda a regra, enviou as felicitações ao seu homólogo e futuro presidente do Brasil. Porque Jair Bolsonaro será, simultaneamente, chefe de Estado e chefe do governo, António Costa mandou-lhe igualmente uma nota.

Ambos os textos são irrepreensíveis, fruto de uma diplomacia experiente e sabedora da medida das coisas.

Eu, que já saí das "lides" há uns anos, dei-me ao exercício de escrevinhar aquela que poderia ser uma mensagem "alternativa" por parte do nosso presidente, embora reconheça que a sua extensão é menos conforme com as práticas protocolares habituais.

Ela aqui fica, por mera curiosidade:

Senhor Presidente eleito Jair Bolsonaro
Excelência

A inequívoca expressão democrática da vontade do povo brasileiro determinou, no passado domingo, a eleição de Vossa Excelência para a presidência da República Federativa do Brasil. Começo por felicitá-lo por isso, em nome de Portugal.

Os nossos países mantêm entre si, vai para dois séculos, uma relação muito particular, fruto de intensos períodos comuns na História e da partilha de uma Língua universal que nos liga a outros povos, criando, nos dias de hoje, uma Comunidade de culturas e de valores que, estou certo, é desejo de todos podermos continuar a desenvolver e afirmar em conjunto.

Em ciclos políticos de sinais por vezes muito diferentes, e não raramente contrastantes, em ambos os lados do Atlântico, a sabedoria e o pragmatismo acabaram por decantar um bom-senso que ajudou a manter e reforçar o nosso relacionamento, por sobre as ocasionais divergências de opinião dos dirigentes. É que o destino nos condenou, com felicidade, a desenhar uma constante convivência humana, recentemente feita mesmo de diásporas cruzadas.

Nesta hora, em nome do povo português, desejo expressar a Vossa Excelência os votos muito sinceros de que o futuro do Brasil, durante o seu mandato, possa estar à altura das expetativas legítimas que determinaram a sua escolha para a suprema magistratura brasileira - em liberdade, tolerância, paz e progresso, honrando as virtudes democráticas da Constituição brasileira de 1988.

O Brasil pode ter a certeza de que contará sempre com a empenhada vontade de Portugal para continuar a desenvolver os laços bilaterais existentes e com ele continuar a trabalhar, na ordem internacional, nomeadamente no quadro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, para a construção de uma sociedade global respeitadora do património de valores civilizacionais que são hoje comuns aos Estados e povos que têm a Democracia como referente identitário e a Liberdade como princípio inalienável na regulação cívica da vida das suas sociedades.

Com os meus respeitosos cumprimentos

Marcelo Rebelo de Sousa

Presidente da República Portuguesa

domingo, 28 de outubro de 2018

Cai na real, pá!


Um dia, tive de explicar a uma alta figura de Estado portuguesa que havia uma assimetria inescapável entre o modo como alguns portugueses olhavam o Brasil e a notória indiferença com que muitos milhões de brasileiros - cujos avós vieram de Aleppo ou da Pomerânia, e não de Freixo de Espada à Cinta ou de Almodovar - reagiam quando o nome de Portugal vinha à conversa. Para aqueles, Portugal é frequentemente o país em que, com estranho sotaque, “também se fala português”, de onde um dia chegou “seu Cabral”, o país que lhes levou o ouro, trouxe os escravos e deixou os vícios, e que, depois, produziu um patusco rei “fujão” que gostava de pernas de galinha, cujo filho devasso deu no Ipiranga o grito da sua independência, antes de se recolher de vez à tal “terrinha”, de onde ainda haviam de chegar carradas de “manueis” e “joaquins”, que eram em geral padeiros e tinham um jeito estranho de entender o que se lhes contava. Goste-se ou não, Portugal ainda é mais ou menos assim para muitos brasileiros.

Portugal, por seu turno, nunca se “descolonizou” totalmente do Brasil. Historicamente, olhou a grande colónia feita país como uma “jangada de pedra” a afastar-se de si, mas caiu na ilusão de pensar que por ali ficava uma espécie de “filho”, levando à conta da rebeldia adolescente deste alguma lusofobia recorrente. Foi assim que, depois, se espantou com a distância sobranceira com que, muitas vezes, este resistiu ao abraço afetivo, a cordialidade seca com que ia aceitando o gongorismo retórico criado em torno de uma comunidade de língua que era portuguesa e que, por alguma razão, não era brasileira. Por muito tempo, os portugueses acharam que percebiam o Brasil, porque simplificaram que o Brasil era uma espécie de Portugal otimista e descomplexado, com vida fácil e alguma dose de loucura saudável no posto de comando. E foram olhando aquela terra do outro lado, sempre com curiosidade, às vezes com interesse, outras com preconceito.

Nestas eleições, ao que se vê por aí, os portugueses também “votam”. A maioria parece que detesta Bolsonaro, pelo inegável primarismo, quase caricatural, da figura. E dando razão à “síndroma Gorbachev” - quando o exterior gosta mais de um líder do que os nativos - muitos conservam ainda uma imagem positiva da obra de Lula, um presidente que, além disso, deixou a ideia de ter sido simpático para Portugal, ao contrário de Dilma, vista como uma espécie de mestre-escola de esgar cínico. No Portugal que se interessa pelo Brasil – mesmo o que percebeu a tragédia da insegurança, o efeito Venezuela, o cansaço da corrupção -, muitos ainda não entendem por que razão o país se afastou afetivamente de Lula, mostrando agora vontade de se entregar nas mãos de um demagogo populista. Isso talvez aconteça porque, lá no fundo, alguns acham que o patrimonialismo é um vício endémico do sistema público brasileiro e que condenar Lula por tê-lo adubado mais não é do que um exagero com forte viés político.

O Brasil que hoje existe no Brasil parece assim já muito distante do Brasil que alguns portugueses alimentaram no seu imaginário. Só que as coisas são o que são e os portugueses ouvem, cada vez mais, os seus amigos brasileiros - os que estão tristes e os que estão contentes - dizer-lhes: “Cai na real, pá!”.

sábado, 27 de outubro de 2018

O serviço


O nosso homem vinha a guiar desde Porto, na estrada antiga para Vila Real, onde era taxista. Tinha ido levar uns emigrantes a Pedras Rubras, ainda antes do aeroporto ser crismado por uma tragédia. Nesse tempo, mesmo há muito tempo, a viagem era longa, pesada, com os carros de então e o imenso Marão, de estrada curvosa pelo meio, a não ajudarem. E, por falar em curvosa, foi antes de Penafiel que a viu, à beira da estrada. Belíssima, com o sorriso e tudo o resto generoso. Encostou, auscultou o tarifário e o negócio estabeleceu-se por mútuo acordo, sem delongas. Por indicação experiente dela, um pinhal ali perto, com estrada de terra batida, seria o terreno certo para estacionar o carro, cujo amplo banco de trás tinha todas as condições para a conclusão feliz da operação. Nesse tempo, em que os telemóveis eram uns matacões incómodos e caros, ele orgulhava-se de possuir, no “carro de praça”, um rádio ligado à sua casa. Decidiu por ele avisar “a patroa”, lá em Vila Real, de que não estivesse em cuidado, que ia chegar um pouco mais tarde. É que, “por sorte”, tinha-lhe aparecido um outro “serviço”...

Está por esclarecer que patilha do aparelho de rádio terá sido acionada. Fosse ela qual fosse, a verdade é que essa ligação permitiu à esposa do nosso motorista ouvir, em direto e “a cores”, o que se passou naquele carro durante o “serviço“ excecional que tinha surgido na estrada do Porto. A ofendida cônjuge revelou-se uma mulher de armas: quando ele assomou à porta de casa, perto de Vila Real, estava já ela de caçadeira em punho, embora, felizmente, só tenha conseguido disparar um “Ah! Bandido!”, seguido de outros epítetos que este espaço para famílias não pode acolher, porque o filho de ambos lhe travou, no último instante, a sua conjuntural propensão para a viuvez. Depois, sabe-se lá como, tudo acabou por acalmar. Até hoje, ao que parece.

“Shôtôr, que gosto em vê-lo! Vai um cafezinho?”, disse-me ele, há uns anos, com o seu sempre largo sorriso, por detrás do balcão por onde, num fim de tarde, o encontrei lá por Vila Real. Eu, malandro, não resisti, até porque era pura verdade: “Vai, sim senhor! Cheguei agora do Porto e estou cansado, a precisar de um café. Embora a estrada agora já não seja tão cansativa como era, não acha?”. “Sim, sim! Nada que se pareça!” E, já sem me olhar, tirou a bica.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Na rua Direita



Aquele cidadão de Vila Real era um reacionário, um verdadeiro atraso de vida. Estávamos no século passado, depois de abril. A cidade, muito graças à massa crítica proporcionada pela migração qualificada oriunda da África pós-colonial, tinha ali criado um Instituto Politécnico. Mas Vila Real queria mais, queria ter uma universidade. Alguns consideravam um exagero, outros achavam bem. Estes últimos tinham razão: é assim que hoje existe a excelente UTAD.

Num daqueles passeios, em andamento lento, que alguns cavalheiros da cidade, em grupo, costumavam fazer pela Rua Direita, num percurso que ia da União Artística (no inverno, apenas da Esquina da Gomes) ao Cabo da Bila, um deles estugou o passo, a certa altura, e afirmou, solene: “Tenho muitas dúvidas de que seja possível haver por cá uma universidade. Mas não será por falta de professores!”.

Os parceiros da tertúlia andante estranharam aquela última certeza. Então havia em Vila Real professores suficientes? Ele, apontando para a ourivesaria do Sílvio Teixeira, ali em frente, esclareceu: “Dos professores encarrega-se ali o Sílvio!”

Para os caminhantes, subitamente estacados, o mistério adensava-se. O Sílvio, que se via através da montra por detrás do balcão, de barriga descaída, era uma figura curiosa da cidade, bonacheirão e “blagueur”, praticamente o único escriba de uma folha aperiódica, impressa a azul, quase clandestina, chamada “Jornal do Norte”. Mas que podia o Sílvio fazer para gerar professores para a nóvel universidade?

O nosso homem, sobranceiro, sorriu e explicou: “Mas então o Sílvio não é proprietário de uma fábrica de material para oculistas, que fica lá atrás da estação?“ Os outros assentiram. Sim, era verdade, mas que tinha uma coisa a ver com a outra? Generoso, ele concluiu: “Ora essa! Assim, “lentes” já temos!”

A frase ficou nos anais. Diz-se que tão altas foram as gargalhadas então ecoadas pelas paredes da rua que o Luis “Chinês”, não obstante ouvir mal, assomou alarmado à porta, por entre as camisolas e os cachecóis, o meu amigo Eduardo, “Cara-de-Reco”, como saudavelmente gozava quando lho chamavam, saiu disparado de detrás dos livros e blocos, com o farto bigode a espiolhar, o Simões enfermeiro ter-se-á picado na agulha de uma injeção que tinha em curso numa nádega que polia à mão, o Lima encadernador veio à varanda, tresandando a colas, movido por um barulho que achou próximo das confusões da Legião Estrangeira, por onde andara em bons e menos etílicos tempos, e há mesmo quem jure que, no páteo traseiro da tasca do Agostinho, um qualquer calaceiro crónico, de “balde de três” à ilharga, assarapantado com o ruído, falhou uma malha que apontava na “sapa” metálica, numa aposta a bolos-de-bacalhau que até ali estava a ganhar sem espinhas, a qual acabou, imaginem!, por ir parar à rua do Rossio, onde logo apontou ao chapéu pessoano que seguia, como sempre, na cabeça do Honório, logo num dia em que ele ia atrasado para a Escola Normal. Constou-me tudo isto ou, como se diz em Vila Real, “digo eu, “num” sei!”

Sem os “lentes” do Sílvio Teixeira mas depois com outros a sério, a Universidade lá está, desde há muito, para orgulho da cidade.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O maçarico de bico direito


O debate que está aí instalado sobre o impacto ambiental da construção do futuro aeroporto no Montijo, nomeadamente em torno dos potenciais efeitos negativos do tráfego aéreo na circulação migratória das aves que sazonalmente passam por aquela região, fez-me uma “luz” na memória: lembrei-me de uma história que o Nuno Brederode Santos ouvira a Melo Antunes, passada num Conselho de Ministros nos tempos do PREC. Nem o Nuno nem o Ernesto Melo Antunes já estão vivos para fixarem melhor os pormenores do episódio, que o primeiro contava, com a sua graça insuperável, nas grandes noites da “mesa dois” do Procópio. Vou tentar ser fiel àquilo de que me lembro ter ouvido.

Nesse final de 1974, durante o II ou III governo provisório, o tema dos efeitos negativos de certas ações humanas na mudança no habitat que tradicionalmente acolhia a passagem de aves pelo estuário do Tejo foi um dia suscitado pelo subsecretário de Estado Gonçalo Ribeiro Telles. A temática ambiental, por essa época, era um assunto ainda muito pouco mobilizador, tratado mesmo com alguma sobranceria, pela classe política. Ribeiro Telles, que os anos viriam a demonstrar que tivera razão antes do tempo, preocupava-se genuinamente com o assunto, mas, nesses dias de “politique d’abord”, era ainda difícil para ele captar a atenção dos seus pares.

Acresce que esse Conselho de Ministros estava em absoluto concentrado num determinado tema, sobre o qual era fundamental conhecer a posição do PCP, logo, ouvir o ministro sem pasta Álvaro Cunhal. Naquela mesa em forma de ferradura, fechada no fundo, que Marcelo Caetano mandara construir, muito poucos anos antes, numa sala do primeiro andar da residência oficial de S. Bento (ainda por lá me sentei uma meia dúzia de vezes, vinte anos depois), Cunhal tinha um dos lugares imediatamente à esquerda do primeiro-ministro Vasco Gonçalves. À direita, estava Ribeiro Telles.

O tema em discussão no Conselho, que não retive, era de natureza económica. Depois de uma (como habitualmente) longa introdução de Vasco Gonçalves, este abriu o debate e iniciou a “volta à mesa” pela direita, por Ribeiro Telles. À medida que este falava, percebeu-se que tinha aproveitado o ensejo para derivar para uma interpretação das decorrências ambientais do que se pretendia fazer no estuário do Tejo. De certo modo, o raciocínio, típico do mundo do ambiente, era uma versão daquela metáfora científica consagrada de que “o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um tufão no Texas”. Ribeiro Telles explicava as consequências multiplicadoras de uma possível interrupção do pouso no Tejo das aves, no seu ciclo migratório.

Para o que aqui interessa, tratava-se de uma abordagem um tanto “ao lado” daquilo que nesse dia suscitava o interesse prioritário dos restantes ministros, que começaram a revelar a sua impaciência. Eles ansiavam ouvir o que Cunhal tinha para dizer e isso só ocorreria no fim da ronda de intervenções iniciada em Ribeiro Telles e que nele estacara.

Como sempre acontece nestas ocasiões, em que o que os outros dizem deixa de interessar, a sala foi invadida por diversas conversas a dois entre os membros do governo vizinhos de mesa, criando um “bruá” de fundo que indisciplinava o exercício. Vasco Gonçalves, ao contrário dos seus ministros, mostrava-se interessadíssimo naquilo que Ribeiro Telles dizia e, por mais de uma vez, pediu “silêncio” aos impacientes governantes. E, para crescente desespero destes, ia colocando questões ao interventor, inquirindo sobre pormenores que o ministro, com o maior agrado, lhe ia detalhando, alongando assim, perante a impaciência geral, o seu tempo de palavra. Foi numa dessas perguntas que o primeiro-ministro inquiriu: “E que ave seria mais prejudicada, nas suas migrações, por essa possível intervenção?” Ribeiro Telles respondeu-lhe: “O maçarico de bico direito”.

Nessa altura, as conversas na distraída sala estavam a tornar o Conselho já um tanto caótico e Vasco Gonçalves, desagradado, deu então um murro na mesa e, elevando a voz e com cara grave, disse: “Senhores ministros! Peço o favor da vossa atenção! O senhor ministro Ribeiro Telles está a falar sobre o maçarico de bico direito”.

A sala “acordou”, não tanto por um remorso de atenção, mas numa genuína gargalhada coletiva. E, agora já perante as caras sorridentes de todos, Ribeiro Telles lá concluiu a sua explicação sobre os riscos que impendiam sobre o futuro do maçarico de bico direito, se privado de amarar no nosso Tejo e zonas adjacentes. Minutos depois, finalmente, Cunhal teria oportunidade de intervir sobre o tal tema grave que a todos preocupava, quiçá um pouco mais do que o destino da ave que, por instantes, pousara, com inegável graça, nesses dias da Revolução.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A Casa de Saud


O caso do jornalista saudita, barbaramente assassinado no consulado do seu país em Istambul, recorda-nos os extremos impensáveis a que a violência de Estado pode chegar. E convida-nos a refletir sobre o estatuto de impunidade de que certos países têm vindo a usufruir na cena internacional.

É um segredo de Polichinelo o terrível panorama dos Direitos Humanos em algumas monarquias do Golfo, em especial na Arábia Saudita, país a que igualmente a ninguém passa pela cabeça exigir um mínimo de respeito pelas regras básicas de gestão democrática, quanto mais a observância dos preceitos do Estado de direito, como a separação de poderes. O medievalismo institucional que por ali se vive é, de há muito, uma espécie de dado adquirido e praticamente incontestado, salvo quando a pressão mediática obriga a atenção, geralmente em face de algum arbítrio cometido contra cidadãos estrangeiros. Cortar mãos a ladrões, chicotear prisioneiros ou fazê-los desaparecer, bem como outras barbaridades similares, parece serem práticas entendidas como fazendo parte de uma espécie de excecionalidade cultural. Sublinhe-se que nem todos os países do Golfo se comportam da mesma maneira, sendo a Arábia Saudita o caso mais marcante pela negativa.

Com o anunciado recuo físico dos Estados Unidos da região, os sauditas, que vivem num histórico pânico estratégico face ao Irão, só atenuado ao tempo do equilíbrio armado Irão-Iraque, foram levados a concluir que têm de assumir rapidamente a liderança da sua própria defesa e mesmo tomar a ofensiva em zonas de confluência de poderes, como é o caso do Iemen. Barack Obama tinha deixado claros os limites da complacência da América de então, e todos recordamos o ambiente gélido com que saiu, pela última vez, de Riade. Trump, pelo contrário, sem os pruridos do seu antecessor, usou a orfandade saudita para anunciar vendas fabulosas de armamento, sob o aplauso de Israel, objetivamente e de há muito o grande aliado da Arábia Saudita na região.

A “Casa de Saud” tinha, nos últimos tempos, tentado “vender” uma nova imagem, “modernizante” – expressão que no Golfo é usada para aplaudir qualquer mínima abertura no ambiente concentracionário que ali se vive, de discriminação e desrespeito pelas mulheres e minorias. O novo príncipe, designado mediaticamente por uma sigla, passeava-se de jeans e era parceiro dos familiares do presidente americano. Só que, por detrás das aparências, havia a realidade e essa, ao que agora se sabe, é sinistra e violenta. Algum mundo reagiu. Até quando?

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Brasil


Monsanto

Anda por aí uma polémica sobre a cedência, a uma entidade privada, da casa municipal existente no parque de Monsanto, que alguns pensavam ser a "residência oficial" do presidente da Câmara de Lisboa mas que, afinal, era apenas do antigo responsável do parque.

Acho que nos estamos a esquecer do papel desempenhado por aquela residência na História pátria. Foi lá que Dias Loureiro e Santana Lopes prepararam o discurso de posse deste último como primeiro-ministro, uma cena imorredoura para quem teve o privilégio de a observar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Os tempos de Cavaco

Não há, em tese, uma distância temporal mínima para se escreverem memórias. Mas relatar conversas políticas sensíveis, decorridas há menos de três anos, sem a anuência dos interlocutores, parece-me uma manifesta falta de sentido de Estado. Agora posso perceber melhor a expressão “período de nojo”...

O Brasil não é linear


O Brasil é, por estes dias, um país estranho. A divisão esquerda-direita, que faz as delícias da caricatura política pela Europa, não funciona por lá exatamente da mesma forma, no instante do voto. E na memória das pessoas.

Vou contar um episódio passado em Salvador da Bahia, em 2006. Numa reviravolta política que, à época, pareceu surpreendente para muitos, o PT tinha acabado de ganhar, na pessoa de Jacques Wagner, o governo do Estado, simultaneamente com a reeleição de Lula para a presidência da República. O anterior governador, Paulo Souto, fora copiosamente derrotado. Ele era, a nível local, a face mais evidente da força de um grande “cacique” político, António Carlos de Magalhães, conhecido por ACM, que acabara de sofrer talvez a sua maior derrota política.

ACM era uma figura muito polémica. Fora um “filho” da ditadura militar, membro da Arena, o “partido” dos militares, que a democracia viria a converter em PFL e, depois, no DEM, que hoje existe. ACM era tudo isso mas, para nós, fora sempre um amigo de Portugal, fiel em momentos difíceis. E o embaixador português, nesse momento de derrota do velho político, não podia esquecer isso.

Nessa manhã, o novo governador, o “petista” Jacques Wagner, dera-me uma receção de luxo - aliás, portar-se-ia impecavelmente connosco, ao longo do período do seu mandato em que com ele coexisti. No final do encontro no palácio do governo, não longe do aeroporto, onde o fui cumprimentar, escassos dias depois da sua retumbante vitória (eu queria ser o primeiro embaixador a fazê-lo), deixei as coisas bem claras: “Gostava que soubesse que, esta noite, no hotel Convento do Carmo, onde ficarei, vou oferecer um jantar a ACM. Sempre foi um bom amigo de Portugal e nós não esquecemos isso”. Wagner olhou-me, da sua barba quase cubana num perfil sereno de burguês, e comentou: “Faz muito bem, embaixador. O ACM é um político que faz parte da história do Brasil. Teve a gentileza de me ligar na noite das eleições. Eu era amigo do seu filho, o Luiz Carlos, que morreu. Um destes dias, vou encontrar-me com o ACM. Preciso de conversar com ele”.

Nessa noite, a jornalista Maria João Avillez, que por acaso estava na Bahia, testemunharia a confirmação que ACM me fez da amizade e respeito entre o seu filho e Jacques Wagner, por cima da política que os dividia.

Continuei depois a viagem para o hotel, no carro do governo. O motorista era um homem bem disposto, com quem fui trocando impressões sobre a vida, sobre Salvador. A certa altura perguntei-lhe: “Está contente com a vitória do Lula?” O presidente tinha acabado de ser reeleito, com uma forte votação na Bahia. “Muito! O Lula é excelente! É um grande presidente. Vai fazer muito pela Bahia”. Continuávamos pela estrada que nos levava ao centro da cidade, com muita obra de infraestrutura à vista. E não resisti: “E o ACM? O que é que as pessoas, aqui na Bahia, acham do ACM?” A pergunta ia em claro contraciclo do elogio que o homem acaba de fazer a Lula, adversário jurado do político baiano. Mas eu é que estava equivocado, porque, para ele, a resposta era muito simples: “O ACM? Foi ele quem nos deu tudo isto! O ACM foi um grande homem. Devemos-lhe muito!” E continuou a conversa.

Hoje, o “Público” cita um alegado familiar de Francisco da Costa Gomes a dizer: “O que temos devemos aos militares”. Partindo do princípio de que não estava a falar do apelido comum, mas da herança da clique fardada que deu ao país mais de vinte anos de ditadura, só podemos concluir que, em política, o Brasil está longe de ser um país linear.

domingo, 21 de outubro de 2018

A Justiça brasileira e o vento


O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Brasil, que é, em parte, uma secção do Supremo Tribunal Federal (STF) do país, tem em análise uma queixa contra o candidato favorito à eleição presidencial, Jair Bolsonaro, relativa à descoberta do uso abusivo do Whatsapp, financiado com fundos privados, para espalhar notícias falsas sobre o seu rival Fernando Haddad. Em teoria, a ser provado que a sua eleição na primeira volta beneficiou de apoios indevidos que pudessem ter influenciado fortemente o sentimento dos eleitores, Bolsonaro poderia ser afastado da corrida presidencial.

Na segunda metade de Outubro de 2006, viviam-se as três intermináveis semanas que, no Brasil, separam os dois turnos das eleições. Era mais do que evidente que Lula ia ser reeleito, face a Geraldo Alckmin, mas a margem dessa vitória era muito importante. Uma vitória tangencial dar-lhe-ia uma legitimidade reduzida.

Por esse tempo, o escândalo do “Mensalão” - pagamento a deputados para apoiarem o governo, com recurso a fundos ilícitos - tinha-se aproximado muito da figura do presidente. Várias peças do aparelho político à sua volta tinham já sido atingidas e Lula tivera de se separar de alguns dos seus apoios mais importantes. A cada dia, surgiam dados envolvendo mais pessoas e que tornavam implausível que o presidente nada soubesse desse mecanismo de financiamento, que falseara fortemente a vida democrática do país. Contudo, Lula parecia imune, no julgamento popular, a todas essas imputações. Era como se o Brasil “fizesse de conta” de que acreditava na inocência de Lula. A economia ia bem, a sua popularidade era grande, o mundo testemunhava-lhe respeito. Por essa razão, a reeleição continuava garantida.

Num almoço de despedida a um embaixador estrangeiro, em Brasília, em casa de amigos comuns, aproveitei o facto de ser um “buffet” para procurar um lugar junto de um importante juíz do STF. Como embaixador de Portugal, eu conhecia pessoalmente todos os onze integrantes do STF e, com esse que estava presente ao almoço, tinha criado, de há muito, uma relação agradável. Aproveitei para inquirir se ele achava que, não obstante a sua provável reeleição, Lula corria ainda riscos sérios de ser afastado por “impeachment”. O juíz, baixando a voz, disse-me com firmeza: “O que há contra Lula continua a ser muito sério! Muito sério mesmo, embaixador! Mesmo com a reeleição, o “impeachment” tem muitas hipóteses, pode crer. Ninguém fala disto, mas é assim mesmo”.

Ainda deve andar pelos arquivos do MNE o telegrama no qual, no dia seguinte, eu terei informado Lisboa desta conversa - que ia um pouco a contraciclo do ambiente de otimismo que rodeava a possível recandidatura de Lula. Enviar informações contra o pensamento dominante é algo que os embaixadores não gostam de fazer. Mas que devem fazer. E eu sempre assim fiz.

Passaram umas semanas. Lula acabou por ser reeleito com mais de 60% dos votos. Mesmo na imprensa mais hostil, a hipótese de um “impeachment” ao presidente reeleito deixara por completo de ser mencionada. O PSDB, o partido do derrotado Alckmin, parecia ter deixado cair a ideia, que alimentara conjuntamente com o mais conservador PFL (que só mudaria de nome para DEM, meses depois). A informação que eu passara a Lisboa, no meu telegrama “a contraciclo”, não parecia ter já o menor sentido.

O juíz de que atrás falei foi um dia à nossa residência, já não recordo se para um cocktail ou um jantar. Achei curioso testar aquela ideia da plausibilidade do “impeachment”, de que ele me tinha falado, semanas antes. E, muito diretamente, perguntei-lhe se o processo de que me falara ainda tinha “pernas para andar”. A resposta foi exemplar: “Com uma vitória com mais de 60%, Lula garantiu a benção de todas as ‘mães-de-santo’ do Brasil, caro embaixador. Agora, ninguém lhe toca, até ao fim do mandato. A justiça, neste país, só consegue exercer-se se estiver no sentido do vento do sentimento popular”.

Lembrei-me disto hoje, ao ler sobre o processo contra Bolsonaro. A estátua da Justiça, na praça do Três Poderes, lá em Brasília, pode estar vendada, mas sente o vento que sopra. E o sentido do vento popular já colocou Bolsonaro no Planalto. A Justiça, no Brasil, não vai “contra o vento”. Aposto.