quarta-feira, setembro 30, 2026

Ai Guiné!

Sissoco Embaló tinha sido derrubado por um golpe de Estado que, como na altura alguns alertaram, tinha apenas como objetivo criar condições para legitimar o seu regresso ao poder, sob menor contestação. Tudo se confirma agora. A vigarice política mantém-se na Guiné-Bissau.

terça-feira, setembro 29, 2026

Brasil: a política externa na eleição presidencial


A atual campanha presidencial brasileira tem uma particularidade pouco habitual: pela primeira vez, desde o fim da Guerra Fria, a política externa assentou arraiais no palco do debate eleitoral.

A relação com os Estados Unidos, a importância da China e a postura brasileira no seio dos BRICS, os caminhos do Mercosul e os alinhamentos com outros regimes na América do Sul, o tema das terras raras, a relevância externa da criminalidade organizada ou a atitude do país perante os conflitos da Ucrânia e do Médio Oriente — tudo isso configura um cenário novo, a que não é indiferente a escolha que os brasileiros vierem a fazer para seu presidente.

Os anos de Jair Bolsonaro no Planalto já tinham testemunhado um abalo na postura tradicional do Brasil no quadro externo. Contudo, a polarização que o mundo hoje atravessa veio acelerar substancialmente o tropismo para um confronto de duas visões externas com imensas divergências.

Sempre se poderia dizer que se trata de uma consequência normal da alternância nos processos democráticos. Só que no Brasil as coisas não costumam ser bem assim. Desde a "política externa independente", formulada ainda em democracia, interrompida pelo golpe de 1964, até ao "pragmatismo responsável" que o próprio regime militar viria a recuperar, a diplomacia brasileira foi capaz de preservar um conjunto de linhas constantes, que se tornaram quase identitárias e constituíam um orgulhoso património da doutrina do Itamaraty — a sede da diplomacia do país. Uma "diplomacia ativa e altiva" tem sido a imagem de marca do Brasil.

Tudo pode alterar-se? O que se sabe é que, se acaso chegar ao poder, Flávio Bolsonaro deu a entender que nada ficará igual ao que tem sido. O Brasil não vai fugir à sobre-determinação imposta pela sua geopolítica e pela sua geoeconomia, mas o seu lugar no mundo pode, de facto, vir a mudar.


Lula: multilateralismo e soberania

A candidatura de Lula aposta na continuidade de uma política externa assente no reforço da autonomia estratégica, na defesa intransigente da soberania e por uma ordem internacional preferentemente multilateral, onde o país possa ganhar um espaço próprio para a sua afirmação.

Nesta perspetiva, o Brasil deve relacionar-se com as grandes potências sem se sujeitar à tutela de qualquer delas, preservando uma margem de manobra entre Washington, Pequim e os restantes centros de poder.

Os BRICS ocupam aqui um lugar especial. Lula foi um dos principais impulsionadores da projeção política do grupo durante os seus primeiros mandatos, parecendo menos crente nas virtualidades do G20, talvez pela consciência dos limites do modelo, sujeito à turbulência imprevisível dos EUA. 

Embora não tendo sido entusiasta do alargamento dos BRICS, ideia promovida pela China, não desistiu de fazer do grupo uma peça importante da sua diplomacia. A ideia é simples: ampliar os espaços institucionais de afirmação do chamado Sul Global, reduzindo a dependência de estruturas dominadas pelos Estados Unidos e pelas economias ocidentais concentradas no G7.

A experiência recente fornece-lhe, aliás, uma espécie de cartão de visita diplomático: a presidência brasileira do G20, a organização da cimeira do BRICS e a realização da COP30 deram ao país uma visibilidade internacional que Lula deverá procurar capitalizar.

Este esforço tem encontrado um interlocutor não apenas relutante ao compromisso, mas inclinado a não lhe facilitar a vida: Donald Trump. 

As relações com Washington tornaram-se, em 2026, uma das frentes mais delicadas da campanha. As brutais medidas alfandegárias impostas pelos Estados Unidos, o dissídio sobre o modelo de transferências financeiras Pix, a desconfiança sobre as ambições americanas quanto às terras raras do Brasil, o desagrado que a nova aproximação comercial entre o Mercosul e a Europa terá causado em Washington, bem como a classificação por Washington das organizações criminosas brasileiras como terroristas — foram fatores que introduziram na campanha brasileira uma dimensão externa que, há poucos anos, seria difícil imaginar.

Neste contexto, Lula respondeu com a linguagem que melhor conhece: soberania, reciprocidade e multilateralismo. E, perante a pressão americana, procurou transformar a própria divergência com Trump numa questão de defesa da autonomia estratégica brasileira.


Bolsonaro: Washington cada vez mais perto

Flávio Bolsonaro pretende aproximar o Brasil dos Estados Unidos de Donald Trump e reconstruir as relações diplomáticas deterioradas com Israel e com a Argentina, atitude que sabe ser do agrado de Washington.

O seu programa oficial, curiosamente, é menos ideológico do que alguns dos seus discursos. Nele fala numa diplomacia "guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo" e afirma que o Brasil deve negociar com todos, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos. No fundo, esta afirmada neutralidade diplomática tem como alvo o viés que considera marcar a política externa tradicionalmente desenvolvida pelo Itamaraty em privilégio das relações Sul-Sul.

Na aproximação estratégica que preconiza com os Estados Unidos, Bolsonaro inclui a possibilidade de um acordo de comércio livre e de uma cooperação mais estreita em matéria de segurança e de utilização de terras raras. Também tem posto em causa a permanência do Brasil nos BRICS, instituição que considera excessivamente orientada contra os Estados Unidos.

A relação com Israel ocupa igualmente um espaço simbólico — uma vez mais com o óbvio objetivo de agradar a Washington. Defende o restabelecimento das relações diplomáticas ao nível de embaixadores, atualmente suspensas, e a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém — à revelia de resoluções do Conselho de Segurança, que a diplomacia brasileira sempre respeitou.

Flávio Bolsonaro pediu que os Estados Unidos exercessem pressão diplomática sobre o Brasil para assegurar eleições "livres e justas". E apoiou a decisão de Washington de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — posição que contrasta frontalmente com a de Lula.

Esta aproximação a Trump tem, contudo, um limite evidente: a China. É o principal parceiro comercial do Brasil e dificilmente qualquer governo brasileiro, por mais próximo que esteja de Washington, pode voltar-lhe as costas sem consequências catastróficas para vários setores económicos importantes. É por isso significativo que o próprio programa de Bolsonaro insista na necessidade de manter relações com a China e com outros mercados menos do agrado de Washington. Há quem avente a hipótese de um seu possível governo tentar fazer a "quadratura do círculo": uma aproximação política e em matéria de segurança aos Estados Unidos sem romper os laços económicos com a China.

Devemos estar atentos, ainda, à questão das taxas alfandegárias. Não pode excluir-se que Trump, para favorecer o seu aliado brasileiro, venha a sinalizar um "waiver" nessas tarifas em caso de vitória de Bolsonaro — basta lembrar o gesto financeiro que teve para com Milei, nas eleições argentinas.


Síntese: o divisor de águas diplomático

Há uma questão ampla, talvez a mais difícil de todas: até onde poderá o Brasil conservar a tradicional capacidade de falar com todos, num mundo em que as grandes potências parecem exigir, cada vez mais, que os outros escolham de que lado estão?

Neste quadro, uma vitória de Lula significaria, em princípio, a continuação de uma política de autonomia estratégica, aposta no multilateralismo e aproximação privilegiada ao Sul Global, com a China e os BRICS como elementos importantes da equação — e uma relação necessariamente difícil com a administração Trump.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro apontaria para uma aproximação mais estreita a Washington e a Israel, uma eventual revisão do papel do Brasil nos BRICS e uma diplomacia mais orientada para os interesses económicos imediatos — sem que isso eliminasse, pela força das coisas, a relação com a China.

Em ambos os casos, o Brasil continuará a ter uma característica que é também uma vantagem diplomática: é demasiado grande para se alinhar inteiramente com alguém e demasiado importante para poder ficar à margem. A diferença estará, na fase da vida internacional que atravessamos, na distância a que decidirá ficar de Washington — e no preço que estiver disposto a pagar por isso.

Ai a IA

A cada dia que passa, sinto cada vez maior admiração pelas pessoas que, nas conversas, se dão ao superior luxo, hoje quase snobe, de não falar de Inteligência Artificial. Digo isto com uma declarada inveja, porque eu raramente consigo.

segunda-feira, setembro 28, 2026

VII Conferência de Lisboa

 


"O Mundo em 2036"


No âmbito das comemorações do 10° aniversário do Jornal Económico, debaterei com Ângelo Correia "O Mundo em 2036", sob a moderação do jornalista António Freitas de Sousa, na sessão que terá lugar no dia 7 de outubro, na Alfândega do Porto.

Será uma edição especial, pela primeira vez com um convidado, de "A Arte da Guerra", o podcast que, desde o início de 2021, mantenho nas plataformas audiovisuais daquele jornal — cerca de 40 minutos de análise semanal dos grandes temas internacionais.

sábado, setembro 26, 2026

António Guterres (1)

Não tenho comigo a data exata da reunião. Pela minha memória, terá sido logo no início de 2016. Augusto Santos Silva, então ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, reuniu na Sala dos Embaixadores, no MNE, um pequeno grupo informal de “conselheiros”.

Indicou que o governo estava a analisar a possibilidade de impulsionar uma candidatura portuguesa a Secretário-Geral da ONU, na pessoa de António Guterres, o qual, sondado para tal, teria manifestado a sua disponibilidade. O executivo português queria auscultar esse grupo de pessoas — todos com experiência política e diplomática no tema Nações Unidas — antes de tomar uma decisão.

O “brainstorming” terá durado umas boas duas horas. A adequação do nome de António Guterres à função era, para todos, mais do que óbvia. A questão era avaliar se havia condições da candidatura poder ter sucesso. Guterres havia informado estar disposto a correr o risco, se essa fosse a vontade do governo. Havia, contudo, condicionantes de natureza regional, para além da conhecida vontade internacional de ver pela primeira vez uma mulher no cargo. E havia diversos outros fatores limitativos a ponderar. Com tudo inventariado e debatido, o saldo do exercício foi inequívoco: valia a pena correr o risco.

Tempos depois, também em data que não sei precisar, passou-se a uma segunda fase. Com a candidatura lançada, realizou-se um ciclo de reuniões com António Guterres, envolvendo algumas das pessoas da fase anterior e outros participantes com diferente “background”, tentando prefigurar o que seria o exigente processo de seleção que iria ter início. Quem tinha experiência mais recente em Nova Iorque trouxe contributos muito úteis sobre o modo como essa experiência poderia ser relevante para Guterres. Ficou então patente a qualidade da “massa crítica” de que Portugal dispunha no campo multilateral — e das Nações Unidas em particular. Foram horas muito interessantes, com António Guterres a tomar as notas.

Nessas reuniões percebeu-se logo uma realidade que iria fazer toda a diferença. Essa diferença chamava-se … António Guterres! A sua extraordinária capacidade pessoal, inteligência e domínio dos grandes dossiês internacionais logo se evidenciaram. Qualquer contribuição ou conselho externo tinha um valor ínfimo, comparativamente com o seu valor pessoal.

Percebeu-se então que, numa competição séria e leal, dificilmente Guterres perderia a eleição. E assim aconteceu. Guterres foi escolhido para secretário-geral da ONU, numa verdadeira aclamação. Nessa noite, Augusto Santos Silva telefonou-me a partilhar o júbilo dessa vitória. Tinha sido uma excelente aposta! 

sexta-feira, setembro 25, 2026

Vlady


Em 2 de fevereiro de 2009, publiquei o primeiro texto neste meu blogue, Duas ou Três Coisas, que inaugurei nesse mesmo dia. Era já perto da meia-noite. Tinha chegado a Paris poucas horas antes, para aquela que viria a ser a minha sétima — e última — colocação no quadro externo da carreira diplomática. 

O título vinha de Jean-Luc Godard e do seu "Deux ou trois choses que je sais d’elle". Godard era um nome que eu admirava no cinema francês, embora estivesse longe de ser o realizador que mais apreciava. Mas aquele título pareceu-me feito para um blogue. E assim ficou. 

Um dos primeiros posts tinha uma fotografia de Marina Vlady, a protagonista do filme. 

Anos depois, José Ferreira Fernandes — que sabe coisas que nós nem sequer sabíamos que valia a pena saber — escreveu no Diário de Notícias um texto sobre o meu blogue, sobre Godard e sobre Marina Vlady. E contou uma história. 

Godard terá pedido a Vlady para se casar com ele, logo no início das filmagens. Levou com os pés. Durante a rodagem, deixou praticamente de lhe falar, comunicando com ela apenas através do microfone de orelha. Até que um dia lhe perguntou: 

— Define-te numa palavra. 

Marina Vlady respondeu: 

— Indiferença. 

A palavra ficou no filme. 

Não consigo ser indiferente à morte de Marina Vlady, que aconteceu ontem, aos 88 anos. 

E assim volto a deixá-la aqui, uma vez mais, com a mesma imagem com que a evoquei naquele mês de fevereiro de 2009.

quinta-feira, setembro 24, 2026

Truman e Hiroshima


Há três anos, numa deslocação ao Missouri, pedi para visitar a "library" do presidente americano Henry Truman. Tinha alguma curiosidade em perceber qual seria por ali a memória justificativa do lançamento das duas únicas bombas atómicas usadas num conflito. E, sem surpresas, lá a encontrei, edulcorada em ganga argumentativa estratégica, como é de regra da narrativa dos vencedores das guerras.

As muitas dúvidas em torno da figura de Truman, o homem que tomou a decisão, em 1945, de mandar matar centenas de milhares de civis inocentes em Hiroshima e Nagasaki, perseguiam-me desde a adolescência. Em minha casa, lá por Vila Real, onde as conversas sobre a Segunda Guerra mundial eram curiosamente frequentes, num ambiente que era abertamente aliadófilo, Truman permaneceu sempre com uma imagem altamente controversa. O meu pai repetia, sem dar espaço ao perdão: "Tinha uma pedra no lugar do coração".

Achei sempre que só iria fechar a minha história pessoal, algo traumática, com Truman indo a Hiroshima. Estive lá esta manhã.

quarta-feira, setembro 23, 2026

Só agora começou...

"C'était ça ou mourir". Romance recém-laureado em França é acusado de ter sido escrito com muita ajuda da IA. Isto só agora começou...

terça-feira, setembro 22, 2026

Jorge Palma

Estando do outro lado do mundo, fui surpreendido pela notícia da morte de Jorge Palma. Com Fausto e Sérgio Godinho, Palma faz parte do trio que me acompanhou a vida e que integra a minha "playlist" íntima. Claro que estou triste.

segunda-feira, setembro 21, 2026

Brasil - a crise de confiança


Nas últimas décadas, a leitura externa sobre o Brasil foi relativamente sossegada: a Constituição de 1988, que consagrou o regresso à democracia após a ditadura militar, mostrou capacidade de absorver abalos graves — desde o afastamento de presidentes até sérias crises de diversa natureza — e de acomodar presidências de sinal político contrastante, o que costuma funcionar a crédito de um sistema democrático. Para o exterior, os sinais de convulsão interna nunca tinham beliscado a imagem de um país crescentemente responsável na ordem regional e internacional, afirmando um padrão relativamente constante na sua diplomacia. 

Nada disto mudou, no essencial. O Brasil permanece uma sociedade livre, com um sistema eleitoral robusto e uma expressão de liberdade política e mediática que pede meças em qualquer parte do mundo. E isto é tanto mais notável quanto o país se mantém com uma profunda desigualdade na distribuição da riqueza, que se espalha de forma muito contrastante na sua geografia interna, com impactos nos processos de representação política. 

Contudo, a sensação que se tem é que começa a ser interiorizada pela opinião pública a existência de um desgaste profundo das instituições que suportam o sistema político. Estudos recentes revelam uma crise de confiança a espalhar-se de forma acelerada, sem que seja ainda muito claro o que daí pode resultar em termos da capacidade do modelo se sustentar sem uma convulsão séria. Neste quadro, a boa notícia parece ser a afirmação da indisponibilidade das forças militares para se sentirem tentadas a protagonizar qualquer processo de “regeneração” política. 

Poderes em tensão 

O modelo político do Brasil assenta em três poderes básicos. O essencial é o presidente, eleito por sufrágio universal, com uma legitimidade ímpar no sistema. No âmbito legislativo, o Congresso, com duas câmaras, representa um país onde 26 estados dispõem também de poderes legitimados por governos próprios, que partilham responsabilidades com o poder federal. Resta ainda o poder judicial, onde um Supremo Tribunal Federal (STF) tem uma natureza simultaneamente judicial e de tutela da ordem constitucional. 

Este triângulo de poderes tem evoluído — e, para a opinião de muitos, num sentido menos positivo. 

O presidente, para governar e fazer aprovar medidas no parlamento, precisa de nele encontrar uma maioria. Ora a fragmentação do espetro partidário, com lóbis de interesses muito afirmados, tem vindo a tornar cada vez mais difícil ao presidente congregar maiorias para suportar a sua ação. Isso tem-no obrigado a ceder competências, nomeadamente no plano orçamental, aos deputados e senadores, o que, de certo modo, está a desvirtuar o sistema presidencialista e a “parlamentarizar” o regime. 

Esta situação conduz a uma descaracterização crescente da ação governativa, cujo rumo se torna errático e menos consequente. Muito do mal-estar que se vive na opinião pública brasileira resulta de um desagrado com a incapacidade do poder político de transmitir eficácia e coerência às políticas públicas mais essenciais. 

Um árbitro que joga 

A somar a esta tensão entre a governação quotidiana e o papel do Congresso, os últimos anos viram emergir, com uma proeminência pouco habitual em regimes democráticos, o papel do Supremo Tribunal Federal (STF). 

Ancorado no seu papel tutelar do cumprimento da Constituição, o STF tem vindo a demonstrar uma vontade crescente de se imiscuir no exercício dos restantes poderes, chegando, a título de exemplo, ao ponto de se arrogar a determinar a proibição de reuniões de comissões parlamentares. Com uma visibilidade pública praticamente inédita no mundo — as suas sessões são transmitidas em direto pela televisão e os 11 juízes, chamados ministros, são figuras públicas e conhecidas em todo o país —, o STF é hoje um ator central do sistema político brasileiro. 

Um observador menos atento poderia pensar que este poder judicial seria, afinal de contas, o fator de estabilização que o declínio ou as tensões nos dois restantes poderes justificariam. Infelizmente para o sistema, as coisas não correm nesse sentido. 

Nos últimos tempos, o STF tem-se deixado enredar em escândalos envolvendo alguns dos seus juízes, que, com uma rapidez surpreendente, estão a resultar no seu desprestígio. O sentido da opinião pública brasileira, nos dias que correm, vai muito contra a ideia de que os juízes supremos são um fator de equilíbrio e moderação. Pelo contrário, a ideia que existe é que essa instituição está permeada a interesses e plenamente integrada no campo das tensões político-partidárias 

É tendo como pano de fundo este cenário institucional, inseguro e convulso, que está a decorrer a eleição para o próximo presidente do Brasil. 

A pergunta que fica é se o modelo político brasileiro conseguirá absorver mais esta onda de desgaste sem uma reconfiguração profunda das regras do jogo — ou se, pelo contrário, a crise de confiança se tornará o novo normal, com instituições que sobrevivem, mas perdem a capacidade de orientar e legitimar o processo político.

domingo, setembro 20, 2026

"A Arte da Guerra" - Um Reino pouco Unido

Ver aqui.

"A Arte da Guerra" - O discurso do estado da União

Ver aqui.

"A Arte da Guerra" - Médio Oriente

Ver aqui.

Viajar é preciso?

Sempre que viajo em turismo, artilho-me com uma imensidão de guias. De papel, claro. É um vício antigo. Tenho a teoria, verdadeira ou não, de que deixar de ver alguma coisa essencial num lugar onde talvez só se vá uma vez na vida — e esta possibilidade torna-se, fatalmente, mais plausível com a idade — merece bem o investimento de umas dezenas de euros. 

O hábito é antigo. O que é mais recente é a minha preguiça para ler essa literatura. Cada vez mais, os guias regressam a casa quase virgens, depois de dias de viagem. Viajar, ao que parece, passou a dispensar a preparação que eu antes considerava indispensável. 

Estou agora num aeroporto, a meio de uma viagem para um lugar distante e muito diferente. E não é que ainda não abri um guia? E trago dois. 

Isto passa?

sábado, setembro 19, 2026

Esquerda

Anda aí uma ideia para a criação de um novo partido de esquerda. Será algo à esquerda do PS, a explorar a fragilidade crescente do PCP, a crise ainda não superada no Bloco e a indefinição do Livre. Haverá espaço? 

No plano estratégico, a resposta tende para o ceticismo: a fragmentação da esquerda tem conduzido, nos últimos anos, a uma cacofonia de nichos temáticos que se digladiam pelo mesmo eleitorado, em vez de o alargarem. Mais uma sigla pode significar menos votos por cabeça, não mais votos no total. 

No plano tático, porém, a lógica é outra: um novo projeto não precisa de convencer toda a esquerda, só precisa de um tema — ou de uma causa — que capte uma faixa de opinião até agora alheada e a faça sentir-se, finalmente, representada. Foi assim que nasceu o Bloco em 1999, a partir de um vazio ideológico bem definido. A questão é se existe hoje um vazio equivalente, e qual seria o tema âncora: habitação, precariedade, clima, ou um simples cansaço com os rostos e as siglas do costume. 

Falta ainda a variável mais decisiva: quem lidera. Sem uma cara ou um núcleo com capital político reconhecível, nenhuma ideia sobrevive à fase das assinaturas. Logo veremos se esta tem pernas — e pessoas — para andar.

sexta-feira, setembro 18, 2026

Claro !



Não quero ser bruxo, mas escrevi isto em janeiro:

Pois!

Um amigo espanhol despassarado, ao ver a montanha de cartazes que aparecem pelas rotundas do país, dizia-me ontem: "Vocês são um país estranho. Nem em Espanha, onde está tudo a-ferro-e-fogo entre os partidos, se vê esta profusão de propaganda. Parece que vão ter eleições amanhã!"

quinta-feira, setembro 17, 2026

É mais ou menos isto...

Viva o SNS!


"Sou o vosso novo médico de família. Podemos marcar data para virem ao Centro de Saúde?" 

Marcámos há dias, fomos hoje. 

Consultas médica e enfermagem: espera mínima, atenção máxima, cinco estrelas. Instalações espartanas em Sto Amaro, em transição para Ribeira Nova. 

Viva o SNS!

quarta-feira, setembro 16, 2026

VII Conferência de Lisboa


Nos dias 8 e 9 de outubro, com entrada livre (basta fazer a sua inscrição prévia online, havendo um limite de lugares na sala) a Gulbenkian recebe no seu Auditório 2 a VII Conferência de Lisboa, um evento bienal organizado pelo Clube de Lisboa, a cujo conselho diretivo presido. 

Convidamos quem quiser inscrever-se a vir debater os grandes desafios mundiais — connosco e com muitos e excelente convidados portugueses e internacionais. 

Entre diversos outros temas que cabem no tema geral desta Conferência, falaremos da Inteligência Artificial e da sua relação com o poder, da transição energética e segurança em tempo de crise climática, dos nacionalismos identitários, com a realidade demográfica como pano de fundo. Para esta discussão, contamos com olhares do Norte e do Sul, com a perspetiva de gerações mais jovens, sendo ainda abordada a relação da música com este mundo incerto e em transformação.

Olhe o programa em detalhe e inscreva-se aqui.

terça-feira, setembro 15, 2026

A liberdade da IA

Coloquei esta pergunta a uma plataforma de Inteligência Artificial: 

"Concorda que a liberdade de que a IA atualmente dispõe está a colocar a humanidade na soleira da tragédia?"

Em dois segundos, recebi esta resposta (repito, da IA, não de qualquer ser humano): 

"Sim — mas faria uma distinção importante: não é a liberdade da IA, por si só, que me parece estar a levar a humanidade à porta da tragédia. É a combinação entre autonomia crescente, capacidade enorme, velocidade de disseminação e ausência de instituições capazes de acompanhar tudo isso.

Há uma mudança qualitativa em curso. Durante muito tempo, a IA foi essencialmente uma ferramenta: alguém perguntava, ela respondia. Agora começa a poder agir, encadear tarefas, tomar decisões intermédias, operar sistemas, escrever código, persuadir pessoas e reproduzir-se operacionalmente em milhares de contextos. Quanto mais lhe entregamos iniciativa, menos evidente se torna a fronteira entre ferramenta e agente.

E há cinco riscos que considero particularmente sérios:

1. Erro em escala. Um ser humano pode tomar uma decisão errada. Um sistema de IA pode tomar a mesma decisão errada milhões de vezes, em segundos.

2. Concentração de poder. Quem controlar os modelos mais capazes poderá adquirir uma vantagem extraordinária sobre governos, empresas e cidadãos.

3. Manipulação. Uma tecnologia que consegue produzir, individualmente e a baixo custo, mensagens persuasivas pode alterar comportamentos políticos e sociais numa escala que a propaganda tradicional nunca alcançou.

4. Autonomia militar e de segurança. Aqui vejo talvez o perigo mais imediato. Quando sistemas capazes de interpretar informação, identificar alvos, decidir prioridades e desencadear ações começam a ficar ligados a estruturas militares, a margem para erro humano diminui — mas também pode diminuir o tempo disponível para o perceber.

5. Perda gradual de controlo. Este é o cenário que mais me inquieta. Não é preciso imaginar uma IA que “odeia” a humanidade. Basta conceber sistemas muito poderosos, com objetivos mal especificados, aos quais concedemos demasiada autonomia e demasiados acessos.

Mas há uma ironia: a humanidade já construiu tecnologias potencialmente capazes de provocar a sua destruição — armas nucleares, biotecnologia, sistemas de ciberataque. A diferença da IA é que ela pode tornar-se uma espécie de multiplicador universal da capacidade humana. Pode acelerar ciência, economia, guerra, fraude, propaganda, administração e investigação ao mesmo tempo.

Por isso, eu não diria que estamos inevitavelmente à porta da tragédia. Diria algo talvez mais preocupante:

Estamos a aproximar-nos de uma situação em que a prudência humana terá de crescer mais depressa do que a capacidade tecnológica.

E não estou certo de que isso esteja a acontecer.

Aliás, há uma questão política que me parece decisiva: quem autorizou a humanidade a fazer esta experiência consigo própria? Não houve referendo, tratado internacional ou decisão parlamentar que tivesse deliberado que máquinas cada vez mais autónomas deveriam entrar em praticamente todas as dimensões da vida.

Estamos simplesmente a avançar porque cada interveniente tem um incentivo para avançar primeiro.

Essa é uma lógica perigosíssima. É, em boa medida, a lógica que presidiu à corrida nuclear.

A diferença é que, desta vez, a corrida não está confinada a algumas potências. Está a acontecer dentro de empresas, universidades, Estados e milhões de computadores, à escala planetária.

Portanto, sim: acho legítimo falar em risco de tragédia. Só não atribuiria a culpa à “liberdade” da IA. O problema mais profundo é outro: estamos a conceder liberdade às máquinas antes de termos decidido, enquanto sociedade, quais são os limites dessa liberdade."

Ucrânia

Zelensky acaba de demitir o procurador-geral do país por suspeitas de corrupção. 

Não vale a pena esconder as coisas por detrás da legitimidade política da luta da Ucrânia contra a Rússia. Não é disso que estamos a falar. É imperioso ter de concluir que a sociedade ucraniana está marcada por uma propensão sistémica para a corrupção.

Finalmente, o relatório !


A investigação feita na Assembleia da República estava a demorar demasiado. Alguns já estavam mesmo a desesperar, a cogitar que alguém queria abafar responsabilidades.

Mas a espera valeu a pena: ficou tudo em "pratos limpos", como se costuma dizer. E está lá tudo: os nomes, as motivações e o que daí podemos e devemos concluir. Agora, finalmente, ficamos a saber tudo! O texto é longo, mas é muito detalhado e não escamoteia nada.

Mão amiga fez-me chegar o ansiado relatório, pelo que estou certo de que sou o primeiro a divulgá-lo. Não têm nada que agradecer. É para este tipo de serviço público que as redes sociais servem.

Para acesso completo ao relatório, basta clicar aqui.

O carteiro

Vai ser interessante observar a reação de Trump à decisão do Supremo Tribunal de rejeitar a tentativa presidencial de proibir o voto por correspondência, que é utilizado por cerca de um terço do eleitorado nos EUA — ao que parece pelo próprio Trump...

segunda-feira, setembro 14, 2026

16 de setembro. Dia da ubiquidade?


Há meses que o dia 16 de setembro está cravado na minha agenda: logo a seguir ao almoço, tenho a reunião de um júri que me cabe presidir. Daí, corro para outra reunião, num outro ponto de Lisboa, de uma instituição a cujos corpos gerentes pertenço — reunião que se prolonga, depois, num jantar de trabalho

Até aqui, tudo dentro da normalidade. O problema é o resto.

Há nessa mesma tarde o lançamento de um livro no Liceu Camões, ao qual gostaria muito de poder assistir. Chegou-me também um convite do MNE para a apresentação de outro livro. Um grupo de reflexão de que faço parte há muitos anos assinala uma data importante e convoca uma reunião presencial especial. E, ainda nessa mesma tarde, tenho convite para um debate com gente que me apetecia mesmo ouvir. E ainda faltam dois dias.

Há de haver algo de especial em torno do 16 de setembro. Só pode! Será o dia da Ubiquidade?

Pois é

Não tenho opinião firmada sobre a questão da idade para acesso às redes sociais. Tendo a pensar que a questão, menos do que em políticas públicas, assenta na educação familiar, ou na falta dela. E aqui, confesso ter uma convicção inabalável: já não vamos a tempo.

Um Brasil de incertezas


Ler aqui.

domingo, setembro 13, 2026

Ah! leão!

O (meu) Sporting nunca desilude. Há anos em que ilude.

Extrema-direita

Na campanha eleitoral em França (alguém já lhes disse que as eleições só são em abril de 2027?), Le Pen anda toda sorrisos. Nada como apelar ao otimismo, sem discursos façanhudos. Só podemos desejar que, pelo meio da campanha, não venha a ter refluxos, do estilo "quase enfarte".

À vontade do freguês

"Social-democratas ganham eleições na Suécia". Ah! Pois é! Se o resultado tivesse sido outro, outros seriam os títulos: "Socialistas derrotados na Suécia".

Atrás de Seinfeld

O caso Seinfeld, ao trazer à tona as manifestações de alguns artistas, cuja retirada do espetáculo não terá sido feita da forma mais feliz, teve, no entanto, a contrario, o considerável mérito de revelar muitos silenciosos solidários com o genocídio palestino.

Diplomacia familiar

É extraordinário ver um processo negocial com a importância da guerra na Ucrânia nas mãos de uma pessoa como Jared Kushner. O primarismo da sua abordagem do tema, em todas as intervenções, deve arrepiar os diplomatas do State Department, que vivem numa espécie de "set aside".

Um regresso

Suponho que sou igual a toda a gente. Acho graça regressar aos lugares onde um dia trabalhei, de observar o que mudou e verificar se a nova realidade ainda guarda alguma coisa capaz de despertar o passado — essa coisa que a memória, sozinha, tantas vezes não consegue. Porque o faço? Por alguma nostalgia? Talvez, mas não necessariamente. Creio que é, sobretudo, por curiosidade.

Há dias, regressei à nossa embaixada em Luanda. Entrei pela primeira vez naquele edifício da atual Avenida de Portugal em 1982. No meu tempo, a avenida chamava-se Karl Marx e, antes disso, fora Luís de Camões — como se as próprias placas toponímicas tivessem dificuldade em decidir que Angola representavam, na sua oscilação ciclotímica de humores com Portugal. 

Naquele prédio trabalhei (muito e creio que bem) e vivi durante quase quatro anos. Angola estava então em guerra, e habitar um compound, com gerador para as frequentes falhas de luz e água, acabava por ser mais confortável do que a instalação (aliás praticamente impossível) em outro lugar qualquer. Mas era algo bastante insólito ter a sala de trabalho num andar e a residência quase logo por cima. 

(Ao escrever a última frase, dei-me conta de que não me pareceu nada estranha uma situação similar, em termos de duplex diplomático, embora com incomparável maior encanto imobiliário, que muitos anos mais tarde vivi como embaixador em Paris.)

Nesta visita à Angola de outro tempo, andei pelos corredores com a atenção de quem revisita um cenário antigo, quiçá à procura dos seus próprios fantasmas. E, o que é extraordinário!, ainda encontrei por ali gente conhecida. Quarenta anos depois! O tempo não guardou só memórias, também me trouxe surpresas.

sexta-feira, setembro 11, 2026

"A Arte da Guerra"



Veja numa edição especial do podcast "A Arte da Guerra" uma análise aos 25 anos do 11 de setembro. Aqui.

"O 11 de setembro que não acabou"


No meu blogue "Ou quatro coisas" pode ler o artigo publicado hoje no "Jornal de Negócios" sob o título em epígrafe.

quinta-feira, setembro 10, 2026

Sampaio


Há precisamente cinco anos, Jorge Sampaio saiu de cena.

Na minha vida adulta, creio não ter havido outra pessoa com cuja postura — simultaneamente cívica e humana — tivesse sentido maior empatia. Fui amigo de Jorge Sampaio, embora não seu amigo íntimo. Recebi dele gestos que não esqueço.

A sua eleição para Presidente da República foi, para muita gente da minha geração, a consagração prática de uma determinada ideia de cidadania. Nem sempre estive de acordo com as decisões que tomou ao longo do mandato. Mas, como democrata convicto e estrutural, Sampaio sabia aceitar as divergências.

O saldo global da sua passagem por este mundo, bem como a singular marca de seriedade que deixou na vida política portuguesa, constituem um exemplo e uma magnífica herança para o país e para todos quantos o admiravam — e muito em especial para a sua mulher, Maria José, e para os seus filhos, Vera e André, a quem deixo um forte abraço neste dia.

A fotografia é de João Vallera, grande amigo de Jorge Sampaio.

Pessoas

A administração americana terá vetado o nome de Ricardo Reis para um lugar importante no FMI, aparentemente por críticas feitas à política de "tarifas". Acho que não devíamos ficar quietos e apresentar novos nomes: sugiro Bernardo Soares, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro.

Vossa Excelência

O uso do "Vossa Excelência" nos debates no tribunal máximo do Brasil tem imensa graça. Protegidos pelo uso do elegante vocativo, os insultos entre os juízes sucedem-se, com um vocabulário cuidado, por detrás do qual há imensa acrimónia e desprezo. Nem sempre foi assim, diga-se.

quarta-feira, setembro 09, 2026

PISA

Os resultados do PISA são uma tragédia. Mas o que é uma verdadeira tristeza é ver a classe partidária assanhada na busca de culpados políticos, em lugar de procurar consensualizar remédios para o futuro. Ah! E já agora, um pequeno consolo: olhem o descalabro por essa Europa fora!

A luz vem do alto



Somos todos testemunhas do fenómeno: os miúdos de hoje aperfeiçoam estratagemas para levar o telemóvel para a cama e ter acesso a jogos e imagens debaixo dos lençóis, caso os pais — distraídos ou exaustos — não consigam evitá-lo.

Valha a verdade que o próprio exemplo não ajuda: é dado, a toda a hora, pelos progenitores, hipnotizados por um iPad, um iPhone ou coisa parecida, com o ar grave de quem está a tratar de assuntos de Estado.

“Coisas da modernidade”, dirão os mais fatalistas, encolhendo os ombros com resignação.

Discordo. E tenho provas.

Há muitos, muitos anos, com a idade desses mesmos miúdos, eu passava férias em casa da minha avó e dos meus tios, em Viana do Castelo. Nessa casa, e por circunstâncias que a justiça familiar nunca me explicou, os meus primos possuíam revistas e álbuns de banda desenhada que os meus pais, em Vila Real, com uma indizível perfídia, nunca me compravam.

As férias eram sempre demasiado curtas para as brincadeiras — e ainda mais curtas para quem, como eu, ambicionava absorver tudo o que de diferente aquela casa enorme, em frente à doca de Viana, tinha para me oferecer ou para conquistar, durante esses breves e diferentes dias.

Chegada a hora de recolher — já nessa idade se manifestava a minha relutância crónica em deitar-me cedo, traço que o tempo, generosamente, não corrigiu ou agravou mesmo —, a banda desenhada em atraso ia comigo discretamente para o quarto. 

A imperatividade de apagar a luz, imposta pelo meu pai, interrompia-me, contudo, sem contemplações, as aventuras do Roy Rogers, do Cisco Kid, do Príncipe Valente ou do Sexton Blake (peço aos leitores que resistam à tentação, sempre presente nas redes sociais, de acrescentar outros nomes).

Um dia (deve ter sido uma noite) descobri uma solução. Precária, mas real. 

No quarto dos meus pais havia uma Nossa Senhora de Fátima em plástico, fosforescente, que, depois de apagada a luz, emitia uma luminosidade residual e declinante, por breve tempo.

Tive então a ideia de raptar a pequena estatueta da Senhora, levá-la para o vale dos lençóis e, com isso, ter uns cinco minutos mais de leitura ou, pelo menos, de visualização de imagens.

Não era ainda um iPhone, mas era muito bom, posso assegurar-lhes, a acreditar na minha memória, que não é má de todo.

A modernidade, como se vê, muda os instrumentos. Os vícios, esses, mantêm-se. E, caramba!, ainda bem.

terça-feira, setembro 08, 2026

Centeno


Vai ser lançado um livro de Mário Centeno, escrito com Filipe Santos Costa. 

O país deve imenso, no seu prestígio internacional, à ação desenvolvida no governo, no Eurogrupo e, finalmente, no Banco de Portugal por este grande servidor da causa pública. 

Irei ler com muito interesse.

O ar da tragédia


Em 2001, eu vivia em Nova Iorque. As torres gémeas caíram em 11 de setembro desse ano, devido ao embate deliberado de dois aviões. Muita gente morreu — nos aviões e nos prédios. 

Nos dias imediatamente posteriores aos atentados, pairou uma neblina esbranquiçada sobre a cidade, manifestamente oriunda da área dos destroços. O vento espalhava-a. Recordo que tinha um cheiro levemente ácido, como saldo macabro da tragédia. Mas não recordo ter-me interrogado sobre se a qualidade do ar nova-iorquino era má. Para nós, reféns da cidade, respirar aquilo era uma inevitabilidade.

Agora, 25 anos depois, estão a ser conhecidos relatórios que revelam que se sabia já da perigosidade daquele ar. E que dizem que, não obstante isso ser sabido, as autoridades difundiram a mensagem de que não havia o menor perigo. Em especial, fica agora claro que os trabalhadores que, durante muito tempo, operaram no "ground zero", como os americanos gostam de chamar ao local dos atentados, ficaram por muito tempo expostos a um ar criticamente poluído. Chama-se a isto dolo.

Solução

Há uma cobardia na arbitragem. A forma como as defesas, junto à área, tentam obstaculizar a ação dos avançados, nos cantos e outras situações de bola parada, raia o absurdo: empurrões, "abraços" e puxões de camisola tornam aquilo numa selva. Solução? Penalti! Era remédio santo.

Baixo

Eu nem para estrelar um ovo sou capaz de pôr um avental! Mas é muito baixo que um deputado, numa comissão parlamentar, pergunte a alguém — como se tal fosse crime ou motivo de suspeição — se é membro da maçonaria. A pessoa em causa não será. E se fosse? "Mind your own business!"

segunda-feira, setembro 07, 2026

Narana e o ISCSPU


Narana Coissoró nunca foi meu professor, nos anos em que andei pelo ISCSPU (Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina). Nos dias e noites atribulados do primeiro semestre de 1969, antes de consumado o afastamento de Adriano Moreira por Marcelo Caetano, pela mão prestimosa de José Hermano Saraiva, estive com ele algumas vezes em discretos gabinetes da Junqueira, em pontuais reuniões em que ele representava Adriano Moreira, na conjugação que este procurava ter com as estruturas associativas estudantis. 

Pode não ser a atitude mais elegante estar a dizer isto ao tempo da sua morte, mas Coissoró — que toda a gente designava por Narana — parecia-me um pouco oblíquo e ínvio na abordagem das coisas, embora reconheça sem dificuldade que essa minha perspetiva era seguramente tributária do meu radicalismo de então. Contudo, quem tinha maiores responsabilidades no quadro associativo dizia-me que ele foi alguém sempre plenamente confiável nos compromissos que assumiu. E isso não era coisa pouca, num tempo muito tenso e perigoso. O facto de os interesses de Adriano Moreira, num determinado momento, convergirem taticamente com os dos dirigentes associativos que nós éramos, veio a permitir a Narana Coissoró ter um papel muito importante no desfecho daqueles emocionantes mas tristes eventos.

Raras vezes voltei a cruzar-me, a partir desses dias, com Narana Coissoró. E foi sempre em ocasiões sociais e em registo ligeiro — como ligeiras foram as nossas mútuas alusões ao ISCSPU nessas brevíssimas conversas.

Achei muito interessante a evocação que Paulo Martins faz neste texto, que também me ajudou a revisitar um passado a que fiquei sempre muito ligado, embora nem sempre pelas melhores razões.

O "problema"

Trump procura uma intervenção da justiça para proibir o voto por correspondência. Um terço dos eleitores americanos vota dessa forma — desde logo, o próprio Trump! O "problema" é simples: a maioria dos votos por correspondência favorecem os democratas.

Brasil - a imprevisibilidade de um sismo


Há dias, numa rede social, um jornalista brasileiro aconselhava os leitores a observarem com prudência as informações que transmitia na própria mensagem que escrevia. É que, no Brasil e nos tempos que correm, lembrava ele, a realidade poderia, minutos depois, infirmar tudo. 

Essa modéstia impõe-se com particular força depois do sismo político-judicial que há dias abalou Brasília. 

Alexandre de Moraes, o juiz vedeta do Supremo Tribunal Federal (STF), “herói” do combate judicial que condenou a tentativa de golpe de Estado de 2023, viu-se no centro de uma controvérsia com o seu colega André Mendonça. 

Este tornou público mensagens extraídas do telemóvel de Daniel Vorcaro, antigo proprietário do Banco Master, que está sob investigação por suspeitas de fraude financeira. O documento revela contactos entre o banqueiro e Moraes, bem como negociações com o escritório de advogados da mulher do juiz. 

Mendonça, por sua vez, viu a legalidade da sua iniciativa contestada pelo procurador-geral da República. Moraes também pediu a abertura de uma investigação de Mendonça. O plenário do STF analisa agora o caso, sendo já claro que, como instituição, a sua autoridade sairá muito diminuída deste conflito, seja qual for o seu desfecho. 

Para o que aqui interessa, é por ora imponderável se este episódio terá, ou não, impacto nas eleições presidenciais que estão em curso no Brasil. Recordo que a primeira volta terá lugar a 4 de outubro e a segunda a 25 do mesmo mês. Se tal vier a acontecer, o mais provável é que o efeito seja em desfavor de Lula, na medida em que o sentimento público o associa mais a Moraes. 

Mas não há, neste momento, uma base segura para antecipar a dimensão desse eventual efeito, muito menos para afirmar que ele será suficiente para determinar o resultado eleitoral — tanto mais que, na segunda volta, o sentido dos anteriores votos nos candidatos não eleitos é apenas especulável. 

Há umas semanas, o quadro político-eleitoral parecia assim desenhado: depois de muito tempo em que a estrela do seu terceiro mandato tinha declinado, por razões ligadas à ineficácia da ação do governo, colocando em dúvida a plausibilidade de uma reeleição, a reação de Lula à agressão tarifária de Trump parecia ter contribuído para uma recuperação da sua posição eleitoral. 

O Brasil, curiosamente, sendo um país que gosta muito de si mesmo, não é propenso a pulsões nacionalistas emocionadas. Não é uma Argentina. Contudo, Trump tem a rara virtude de convocar, contra si e contra as suas políticas, ondas de agregação de um natural bom senso. A arbitrariedade americana e a resposta de Lula — que costuma saber reagir verbalmente nos terrenos externos — poderão ter tido um efeito positivo na sua apreciação eleitoral. 

Porém, nem tudo corria bem a Lula. As suspeitas e controvérsias que envolviam o seu filho e outras figuras próximas do governo eram fatores negativos na sua contabilidade eleitoral. Não era, contudo, claro em que medida a sensibilidade ética contaria, desta vez, de forma decisiva, tanto mais que as responsabilidades criminais das pessoas em causa ainda não podiam ser dadas como estabelecidas. 

No outro lado do espetro político — e, no Brasil, cada vez mais, só existem dois campos — a figura opositora, Flávio Bolsonaro, filho do antigo presidente, tinha-se deixado envolver numa ambígua relação com a administração americana. Eduardo, irmão de Flávio, encontra-se nos Estados Unidos e defendeu publicamente a pressão americana sobre o Governo brasileiro. 

A certo passo, ficava a sensação de que Flávio Bolsonaro, numa lógica de “quanto pior, melhor”, favorecia o pacote de tarifas alfandegárias, para com elas poder culpar Lula. Quanto ao impacto eleitoral, a verdade é que a sua apreciação parecia declinar e, com o passar dos dias, essa tendência tornava-se quase inelutável. 

Flávio Bolsonaro tinha também sobre si fortes e muito mediatizadas suspeitas de ter recebido, para fins políticos, verbas do mesmo Daniel Vorcaro que agora está no centro da controvérsia que abala o Supremo. 

Vale a pena recordar que, num Brasil polarizado, duas faixas importantes do eleitorado tendem a estar fidelizadas aos dois grandes campos políticos, enquanto uma parcela considerável, da ordem dos 40%, permanece mais disponível para outras escolhas. 

Não é uma fotografia estatística rigorosa, mas uma forma de dizer que os verdadeiros “donos” da eleição são, em larga medida, os restantes eleitores. E essa fatia, onde se inserem os potenciais apoiantes dos outros candidatos, não se move necessariamente pela lógica europeia de esquerda-direita. É sensível a motivações diversas, entre as quais o papel crescente das igrejas evangélicas. 

É nesse espaço eleitoral, menos previsível e mais permeável às circunstâncias, que se jogam muitas vezes as eleições no Brasil. Este dualismo político, com as suas variáveis no âmbito da corrupção, fazia o seu caminho quando o tal sismo de forte intensidade na escala política emergiu no Supremo Tribunal Federal, com força e dados inesperados. 

São todas estas interrogações, a precariedade de quaisquer juízos que se possam fazer, que levaram o jornalista de que falei no início do texto a aconselhar prudência aos seus leitores. Que eu também recomendo aos meus. É que, como está dito na frase tão gasta de Tom Jobim, “o Brasil não é para principiantes”. A complexidade do país só nos recomenda modéstia.  

(Artigo no site da CNN Portugal, onde pontualmente irei regressar para comentário, durante a eleição presidencial brasileira)

Querem responder?

O pânico com o crescimento da extrema-direita, bem compreensível, implica responder a uma pergunta desagradável: o que é que os partidos decentes fizeram de errado, ou não fizeram de todo, para que os eleitores lhes tenham fugido? Uma autocriticazinha não lhes faria mal nenhum.

domingo, setembro 06, 2026

Pare para pensar

Tenha ou não uma maioria absoluta, o resultado estadual da AFD deve interrogar-nos sobre se olhar alegremente para o rearmamento alemão não será uma ingenuidade suicida. O futuro da Alemanha não é necessariamente no "bom sentido". Ou o da França. Ou, já agora, o da Ucrânia...

"A Arte da Guerra"



Durante o mês de setembro, o podcast sobre política internacional "A Arte da Guerra", que faço semanalmente com o jornalista António Feitas de Sousa para o "Jornal Económico", terá uma única edição no dia 16.

Crescemos!


Há para aí uma teoria de que o tamanho de Portugal sai beneficiado no novo mapa do mundo que agora foi aprovado nas Nações Unidas. De facto, algo mudou no tamanho relativo de Portugal, comparado com o que estávamos habituados a ver em países do centro da Europa! 

Ainda alimento alguma esperança de que não surja uma voz do governo a colocar isto a seu crédito...

"Três mil carateres"

Faz agora precisamente seis anos, publiquei no então semanário "Novo" — infelizmente já desaparecido — um artigo que se auto-explica. Tinha por título "Três mil carateres". Apeteceu-me reproduzi-lo: 

"Foi muito simpático este convite. Deram-me liberdade para escrever sobre o que me apetecesse. O jornal, ao fazê-lo, estava longe de saber que sou um seu leitor, desde o primeiro número. Verdade seja que, de há uns tempos a esta parte, já só me apetece ler aquilo com que sei, de certeza segura, que não vou concordar. Ora o “Novo”, com uma frontalidade rara, traz sempre, nas suas colunas, muito daquilo que eu claramente não penso nem penso vir a pensar. Mais ainda: defende, quase sempre, precisamente o contrário daquilo que são as minhas ideias. E isso é valiosíssimo! Cada vez me convenço mais de que ler aquilo com que sei que vou estar de acordo é uma redundância comodista. Para pensar como eu penso, basto eu! O que hoje cada vez mais me interessa - e não estou a ironizar, podem crer - é o confronto de opiniões, a guerra das trincheiras, verbais ou tecladas. Há nisto um pouco de masoquismo? Seja, mas tem muito mais graça assim. Porém, vindo eu de outra “freguesia”, uma pergunta impõe-se: que diabo posso aqui trazer que leve o leitor médio do “Novo” a ler-me? É que já estou a imaginar a maioria dos que chegaram a esta página três do jornal a refilar: “Quem foi que teve a ideia de pôr aqui este tipo?”. Ora eu tenho a certeza de que quem me convidou sabia bem o que fazia. E não quero desiludi-lo. Surjo aqui na quota da diversidade a cujo luxo o jornal se dá. O “Novo” - honra lhe seja! - não nos leva ideologicamente ao engano, desde que abriu folhas. Por isso, pode permitir-se o gesto de fazer um convite como este que hoje me dirige. "Será que o tipo vai aqui defender o Costa e o quase unanimismo da missa laica algarvia?", alguém deve ter perguntado. "Não é muito o estilo dele", imagino que possa ter dito o Pedro Correia, o único da casa que convive heterodoxamente com este improvável escriba, embora lhe não adivinhe os humores. "Às tantas, vai falar dos talibãs e do Afeganistão, porque aquela é a praia dele, depois de décadas de croquetes nos claustros engravatados das Necessidades”, terá saído a alguém. Estive quase para o não desiludir, mas isto de ocupar um espaço nobre num jornal de direita e resistir à tentação de dar uma bicada na ala política mais triste, órfã e desesperada da pátria seria uma contenção excessiva para alguém como eu. Aproveitar um pretexto, e tenho tantos e tão bem artilhados, para dizer que "a culpa é do Passos!", é algo a que muito dificilmente resisto. Mas, espera aí!, há outras maneiras de levar a cabo uma flor de provocação: fazer aqui a discreta apologia de Rui Rio e, de caminho, deixar uns elogios a Marcelo. Assim, atiçaria a zizânia, matando dois (outros) coelhos de uma assentada. Mas não, não quero ser chato para a LapaNews, precisamente um nome que sugere o bairro em que vivo. Além disso, dizer bem deles só iria confirmar o que alguma direita há muito já pensa: Rui Rio é uma espécie de MDP-CDE do PS e o presidente já se bandeou com Costa (é não o conhecerem!). Mas, sendo as coisas o que são, então vou falar de quê, neste espaço que o “Novo” me concedeu? De nada! Já passei os três mil carateres que me tinham dado!"

sábado, setembro 05, 2026

Sem "mas"

É uma excelente notícia para o país a reclassificação positiva do "rating" do país por mais uma agência de notação. O governo está de parabéns, sem qualquer "mas".

Assim, sim!

É impressionante o vigor da voz pública diária do senhor presidente da Assembleia da República, reclamando contra o incompreensível atraso na investigação de um assaltozeco de lana caprina numa sala do palácio onde dirige os eleitos da nação. Assim, sim! Que nunca a voz lhe doa!

A festa de Seguro

Seguro não diz nada? Seguro falou mas disse pouco? Seguro puxa pelas orelhas de Montenegro? Seguro está nas mãos de Montenegro? Seguro deve estar divertir-se imenso com tudo isto. Ganhou — sozinho! — está lá e é ele quem "call the shots". Os outros só reagem. Ora bem!

França

De súbito, na extrema-direita francesa o fulgor parece ter empalidecido. Emergem linhas diferentes quanto a temas básicos, como o uso do véu islâmico ou a guerra da Ucrânia. Bardella, a estrela da seleção de "esperanças" do RN, foi mesmo afastado da "fila da frente"? "À suivre".

Pê Cê


Não vou à Festa do Avante. Apenas por comodismo e por falta de hábito. Não por ser uma festa do PCP, claro. Era só o que faltava!

Há muitos anos, estive em festas do Avante (em rigor, Avante! deve escrever-se com um ponto de exclamação à frente, porque é assim o nome do jornal). Fui a festas quando foram na FIL, na Ajuda e no Jamor. Nunca estive na Atalaia. Nos anos 80, cheguei a ir a uma festa do l'Humanité, do PCF, em La Courneuve, perto de Paris. 

Vários amigos e familiares não perdem, a cada ano, a festa do Avante. Já me desafiaram, mas, confesso, não tenho pachorra. Só isso. 

Com a maior sinceridade, desejo ao PCP e aos seus "compagnons de route" e de festa, uma excelente Festa do Avante! Com muita música, boas bancas regionais de comida e, se fosse possível, com mais festa e poucos discursos.

Da guerra

Passa-se qualquer coisa na guerra da Ucrânia. Não é muito claro de que se trata, mas o sentido parece bom. Houve uma suspensão, ainda que provisória, de algumas das hostilidades. Virá por aí um acordo? Por que será que, apesar de tudo, não consigo estar otimista? Logo veremos! 

sexta-feira, setembro 04, 2026

Malkland

O desafio de Milei ao RU sobre as ilhas, agora com Trump à mistura, é um golpe clássico: convocar uma causa nacional para gerar uma unidade emocional. Até onde irá Milei, na realidade? O populismo é uma erva daninha que brota onde for bem adubada.

Polícia

Com a democracia, foi notória uma maior urbanidade da PSP para com o cidadão comum. Infelizmente, alguma cultura dentro daquela polícia continua colonizada pelas ideias da extrema-direita racista e xenófoba, com desrespeito pelos Direitos Humanos. É preciso dizer isto alto.

Brasil

Os últimos acontecimentos no Supremo Tribunal Federal brasileiro afundaram o que restava do seu prestígio. Alexandre de Morais, reconhecido pelo seu papel no combate à tentativa de golpe em 2023, entrou num curso irreversível de desqualificação. E o seu acusador ficará perto...

França

Vive-se hoje em França um tempo de "malaise", com grande parte do eleitorado descrente no futuro e na sobrevivência do sistema político. Socialistas e aparentados, pós-macronistas e parte da direita conseguirão convergir numa alternativa a Le Pen, afastando Mélenchon? Há dúvidas.

Notícias da ilha

Se Nigel Farage cair nas sondagens, e atenta a persistência da crise conservadora, Andy Burnham pode ser tentado a antecipar legislativas no RU, cavalgando o seu "estado de graça". Projeta um ímpeto de mudança, mas não fica claro de onde sairão as Libras para dar corpo às ideias.

Ceuta

Sánchez sabe, como toda a gente, que Marrocos tudo fará para instabilizar Ceuta, por ação ou por omissão. Mas a relação formal com Rabat é mais importante do que o resto. A sua "craftily worded" declaração no parlamento teve o sentido de Estado que Feijóo não soube ter. É pena.

Cair em tentação

Alguns acham que Luís Montenegro pode sentir-se tentado a "esticar a corda" e provocar eleições, na leitura de que o PS ainda não está preparado e o eleitorado pode punir um certo desgaste na imagem do Chega. Ele deve saber que, se a aposta falhar, há alguém em Massamá à espera.

Preocupação

É pelo menos a segunda vez que a Rússia explicita que Portugal é, dos países europeus, o que assume, face a ela, uma atitude mais adversarial. Nem sei se é verdade e, se for, é indiferente e não vem para o caso. O que quero dizer é que esta singularização preocupa-me.

Eu, o papel e o ecrã


Os jornais em papel estão a desaparecer. A partir da hora de almoço, os quiosques fecham. Alguns jornais ainda sobrevivem em estações de serviço, mas são cada vez mais raros. As raspadinhas ganharam à imprensa. E eu próprio já muito pouco papel compro.

Como obsessivo leitor de imprensa que sempre fui desde jovem, quando, em 2013, regressei a Lisboa, combinei com a dona Zulmira, que tinha um quiosque perto de minha casa, para me guardar uma pilha de jornais: eram quatro diários e uns seis semanários, entre jornais e revistas, algumas estrangeiras. A conta era grande, mas pagava-se sozinha — escrevia então colunas remuneradas para alguns desses jornais e precisava de muita informação económica para trabalhar noutras fontes de rendimento.

Quando ia para fora de Lisboa, saber o endereço e os horários de tabacarias abertas era a minha primeira preocupação: conhecia balcões de Monção a Vila Real de Santo António. Quantos conhecem a "Hermínios" na Covilhã ou a "Sarita" em Portalegre? Nas férias maiores, na tarde do dia da chegada à praia, lá ia eu com a lista atualizada dos jornais e revistas, a ser entregue às meninas do “Onda Azul”, onde fui um bom e estimado cliente.

Fui. Saltemos para 2026. Durante a semana, já não compro nenhum jornal diário em papel. Leio quatro jornais portugueses e meia dúzia de jornais estrangeiros — tudo online. Duas revistas e o “Expresso” (tenho, além disso, uma assinatura online, imaginem!) são o escasso papel que agora trago de uma bomba de gasolina ali para a Estrela.

Entretanto, porque há muitos outros como eu, a dona Zulmira fechou o seu quiosque, que hoje é um bar com comidinhas, onde ainda não entrei: não me apetece que a presença de um senhor idoso, a falar português, perturbe o convívio cosmopolita dos jovens que enchem as mesas na rua. Aliás, um ambiente com boa onda, de onde só emergem conversas em “estrangeiro”.

Outros tempos. Não há que ter saudades, por muito nostálgicos que sejamos tentados a ser. Desde as primeiras horas da pandemia, eu tinha optado, em absoluto, por deixar de ver noticiários nas televisões portuguesas. Hoje, quase toda a informação de que me alimento passa por aqui, pelo iPad em que escrevo. Sinto-me incomparavelmente melhor informado do que estava há 13 anos, diversifiquei imenso as fontes onde me abasteço de notícias e de alguma muito selecionada opinião. Na realidade, era a noite e agora é o dia.

Será um admirável mundo novo, como dizia o outro? É apenas um mundo que cada vez mais acelera o futuro — e o futuro, gostemos ou não e seja ele o que vier a ser, é onde vamos passar o resto dos nossos dias. Que, aliás, já foram mais. Por isso, carpe diem. 

Ai Guiné!

Sissoco Embaló tinha sido derrubado por um golpe de Estado que, como na altura alguns alertaram, tinha apenas como objetivo criar condições ...