quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Dona inflação

Está aí a chegar. Devagar, como quem não se quer fazer sentir de forma súbita. É uma senhora que todos nós conhecemos, de quem muitas vezes nos queixamos, mas que, por muito surpreendente que possa parecer, faz falta aos ciclos da nossa vida. Chama-se dona Inflação.

“A Arte da Guerra”


Esta semana, a minha conversa com António Freitas de Sousa, no “A Arte da Guerra”, o podcast da plataforma audiovisual do “Jornal Económico”, começa por abordar a posição alemã no processo de diálogo europeu com Ancara, bem como as ambições regionais da Turquia, com especial nota para a sua pouco abordada mas muito forte agenda africana. Depois, falamos do crescendo de tensões entre o Reino Unido e Bruxelas, pelo flagrante incumprimento britânico do protocolo que subscreveu sobre a Irlanda do Norte, não obstante recentes gestos de apaziguamento da Comissão Europeia. Na terceira parte do programa, tratamos da exemplaridade do processo democrático em Cabo Verde, demonstrado nas últimas eleições presidenciais. É feito um paralelo com os casos, também muito diferentes entre si, de São Tomé e Príncipe e da Guiné-Bissau.

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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O PS e o seu orçamento

Em 2015, aquando da criação da Geringonça, o potencial efeito negativo pressentido na imagem externa do país, pela associação do PCP e BE à área de poder, viria a ser compensado pela criação de um “firewall” nas questões dos compromissos europeus, da NATO e em tudo quanto aqueles dois partidos tinham de mais desviante face ao que até então fora qualificado como o “arco da governação”.

O facto de um presidente com o perfil de Cavaco Silva, depois de todas as suas cassândricas adivinhações, ter acabado por dar posse ao governo de António Costa, acabou, ironicamente, por conferir a este maior credibilidade do que aquela que derivava da lógica política da solução encontrada. (O recente artigo de Cavaco Silva no “Expresso” é o pedaço de pão com que tenta tirar a espinha que traz encravada na garganta, desde 2015).

A fim de ser entronizado no poder, o PS teve de pagar um preço na reversão de privatizações nos transportes, bem como em algumas outras medidas de sentido idêntico. Fê-lo, contudo, com conta, peso e medida, por forma a não assustar investidores e prejudicar uma primeira impressão que queria criar.

Um terreno em que o PS foi sempre muito cauteloso foram as leis laborais, onde o “risco” Portugal poderia facilmente subir. É que os socialistas sabem que operam sempre num ambiente de potencial suspeição, quando adotem medidas que possam ser lidas, numa União Europeia muito “market-oriented”, como incompatíveis com os níveis nacionais de competitividade e, por isso, como menos sustentáveis na ação dos operadores económicos nacionais. Salvo escassas exceções, algumas apenas conjunturais ou de oportunidade, estes últimos não costumam esbanjar grande simpatia face ao Largo do Rato.

Grande parte da imprensa económica, aliás, é um espelho tão perfeito do preconceito que até se converteu num reflexo caricatural desses mesmos meios. Há também por aí um micro-partido que se esforça, à saciedade, para ser visto como leal súbdito político desses interesses.

À esquerda, o “abraço do urso” do PS aos parceiros acabou por tornar-se algo desconfortável para estes, pelas consequências eleitorais que se conhecem: os votantes tenderam a agradecer ao partido que lidera o governo e acabaram por ser “ingratos” para quem, afinal, terá forçado o PS a certas medidas.

Mas será que “forçou” mesmo? O PS é, gostem alguns ou não, um partido de esquerda e há nele muito boa gente que apreciou vê-lo seguir uma agenda de reversão das loucuras do tempo da Troika, fosse isso feito por pressão à sua esquerda ou por convicção própria. O caso das 35 horas na Função Pública é um caso típico de uma medida que visivelmente agrada às bases de votantes socialistas. No PS, há muito quem pense que, se é para executar políticas de direita, então há outros partidos no mercado. (Não vale a pena tentar conciliar o inconciliável: uns verão sempre as 35 horas como uma medida injusta e sem racionalidade económica, outros considerá-la-ão um passo no caminho certo e um gesto de justiça e de grande alcance).

O PS não o dirá nunca mas há que reconhecer que governou, embora com habilidade, nas margens da sua própria credibilidade política, no modo como esta é vista à esquerda. Na utilização imoderada do perverso mecanismo das cativações, que chega a ser insultuoso face à vontade democrática que antes aprova os orçamentos em sede parlamentar, e no incumprimento objetivo de compromissos assumidos com os parceiros, muitas vezes apenas para fazer “um bonito” na Europa, o PS foi, algumas vezes, longe demais. E está a pagar por isso.

É que os socialistas sabem que o PCP opera sempre com uma agenda “de rua”, seja para compensar a sua fragilidade nas urnas, seja para reforçar o seu poder, quando este ainda não declinara. No dia em que o PCP pressentiu que o custo de apoiar o PS na AR se tornava demasiado, essas “tropas” ficaram muito mais à solta. (Há uma interessante dialética entre o PCP e a CGTP que é uma das chaves da vida política na esquerda portuguesa, coisa que só raramente aconteceu entre o PS e a UGT). Terá chegado o momento do divórcio?

Nas horas que correm, para o PS, a questão é que muitas das medidas que os parceiros exigem para votarem este OGE, a serem aceites, poriam em causa a imagem de rigor que, desde 2015, quis preservar a todo o preço - perante o país e face à Europa. Essa é a fronteira que António Costa sabe que não pode atravessar. Não lhe invejo a tarefa! Mas desejo-lhe muito boa sorte.

domingo, 17 de outubro de 2021

“Hush-hush”


Não, não é um fantasma. É o reflexo no espelho de uma senhora que, desde que saímos de Campanhã, fala incessantemente com uma amiga a quem passa segredos que “peço que não contes a ninguém”. A amiga pode não contar, mas eu estou farto de os saber e também farto de a ouvir. Durará a chamada até Coimbra B?

Um recado a Moedas

O excelente jornal ”Mensagem de Lisboa” ouviu algumas pessoas, a quem pediu uma - e só uma - sugestão para o novo presidente do município de Lisboa, Carlos Moedas. Aqui fica a minha:




Mesas seguras


Tenho a mania de experimentar novos restaurantes. Mas há dias em que me sinto mais conservador e decido ir a locais seguros, sem surpresas, onde sei que não vou ter novidades mas tenho uma garantia segura de qualidade.

Foi o caso de ontem e hoje, nas menos de 24 horas que passei no Porto, onde, esta manhã, vim fazer uma “função” numa universidade.

Ontem, chegado a Campanhã, passei pela “Cozinha do Manel”, onde o Zé António tinha guardada para mim uma mesa, numa noite (felizmente) bem cheia de clientes. É a minha “cantina” preferida no Porto, ao lado de um hotel onde habitualmente me alojo, um ambiente solto, amável, de cozinha portuguesa tradicional. 

Hoje, antes de regressar a Lisboa, apanhando o Alfa Pendular em Campanhã, fui almoçar ao Líder, um pouso igualmente muito seguro perto da praça Velasquez, nas Antas, regido pela simpatia do Manuel Moura. Um restaurante de famílias aos fins de semana, de negócios nos dias úteis. 

As boas mesas nunca passam de moda.



sábado, 16 de outubro de 2021

“Observare”


No “Observare” desta semana, um programa que cumpriu precisamente um ano de existência, desde que surgiu na TVI24 - inicialmente, sob a moderação de Pedro Pinto e, depois, de Filipe Caetano e Pedro Bello Moraes - Luís Tomé, Carlos Gaspar e eu próprio falamos das reticências das instituições polacas face aos compromissos europeus do país, das contradições entre os discursos de Beijing e de Taipé e das tensões entre o Japão e a Rússia em torno das ilhas Curilhas. Pela minha parte, abordo o que parece poder ser o início de alguma “normalização” da Síria por parte dos seus vizinhos, o atentado terrorista na Noruega e o gesto positivo da Comissão Europeia para facilitar uma solução para a Irlanda do Norte, no contexto do Brexit.

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Touros


Acabo de descobrir, no caos das minhas estantes, um livro que há muito já havia perdido de vista.

Creio que foi em 1996, em Estrasburgo, que o Álvaro Guerra me brindou com este “La Corrida du 1er Mai”, de Jean Cocteau, primeira edição, de 1957.

A oferta tem uma história. O Álvaro, como bom vilafranquense, era um grande apreciador de touros e da tauromaquia. Eu, pelo contrário, era e sou um opositor das corridas de touros.

Durante os extraordinários jantares (digo bem, extraordinários, pelo requinte e sofisticação que a Helena colocava nesses ágapes) que o casal Guerra me oferecia na sua residência em Estrasburgo, onde ele era embaixador junto do Conselho da Europa, durante os anos em que dirigi as delegações às reuniões ministeriais da organização, tínhamos constantes mas sempre amigáveis discussões sobre a “legitimidade” das festas de touros no mundo contemporâneo.

O Álvaro desfiava-me então, para além de gente de esquerda, nomes e nomes de pessoas de grande qualidade intelectual, que adoravam espetáculos de touros - de Hemingway a Mailer, a Georges Bataille e a tantos outros. Numa dessas noites, deu-me esta obra admirativa da corrida, escrita por alguém que era um génio que ele sabia que eu apreciava - Jean Cocteau.

Não me convenceu, claro, e eu desafiei-o: “Escreva aí no livro uma dedicatória, para ficar bem registado o seu esforço em fazer-me mudar de convicções”. O Álvaro recusou: “Desculpe, mas não faço isso. Só assino livros meus, nunca livros que ofereço”. E fazia bem. Por isso, neste livro, comprado por ele num “bouquiniste” alsaciano, não consta o seu nome.

Ao encontrá-lo, há pouco, no dia em que, em Portugal, foi anunciada a lei que sobe a idade com que se pode assistir a uma corrida de touros, num óbvio “cerco” progressivo àquele espetáculo, lembrei-me de que este não seria um dia muito feliz para o Álvaro Guerra, um excelente amigo, jornalista e escritor que a vida fez diplomata. Mas isso que importa, se ele já se foi desta vida, há quase 20 anos?

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Partido

Não creio existir, na vida política portuguesa, partido mais autofágico e compulsivo destruidor de líderes do que o PSD. Descontando, claro, o PPD.

Ciro

Ciro Gomes, candidato presidencial brasileiro, é conhecido pelo descontrolo verbal, que sempre o leva a nunca perder uma oportunidade para perder uma oportunidade. A sua inegável inteligência é desservida por uma ambição desmedida. O que disse, de “grosso”, sobre Dilma Rousseff não só passou o limite como foi revelador da sua cumplicidade póstuma com golpes políticos baixos. Ciro conformou assim, a muitos mais, o que bastantes dele já pensavam.

Varela

Declaração de desinteresse: já tentei, mas não consigo interessar-me pelo caso Raquel Varela - seja contra, seja a favor. Mas desejo as maiores felicidades a quem se dedica ao assunto.

CD era…

"Uma direita democrática, liberal, conservadora, de matriz democrata-cristã devia saber que sociedade defende e com que medos e fantasmas se recusa a conviver. Qualquer hesitação baralha os eleitores, legitima discursos dúbios e dilui fronteiras fundamentais". Raquel Vaz Pinto

Ebulição política

Os jornalistas que escrevem sobre o PSD têm algum subsídio especial por estarem sempre a fazer horas extraordinárias? É que a ebulição política laranja obriga a uma cobertura mediática única…

Lei de cernelha?

Se o governo fizer uma lei a determinar que só possam assistir às touradas maiores de 16 anos (era para ser 18, mas não houve coragem?) e, no texto, logo abrir um “buraco” a subterfúgios e interpretações dúbias, não tenho um nome para isso que me evite a suspensão das redes sociais.

Quando um homem quiser?

As primeiras iluminações de Natal em Lisboa não rimam bem com o verão que ainda por aí anda.

BRE


Faço parte de uma geração diplomática para quem os interesses da indústria têxtil portuguesa estiveram sempre na primeira linha das preocupações profissionais. Passei horas, dias, anos a tentar explicar a ouvidos estrangeiros que, por detrás da invejada capacidade competitiva dos nossos têxteis, havia vidas, gente, empregos. Era difícil fazer entender aos nossos interlocutores o que era a tragédia social que se anunciava no Vale do Ave, se o nosso têxtil tivesse dificuldades em ser exportado. Vivi isso, anos seguidos, na União Europeia, no auge de uma globalização que se procurou fazer muito à nossa custa. Mas já me tinha acontecido antes.

As minhas angústias com o têxtil português tinham começado na Noruega, quando fui, como primeiro posto, para a nossa embaixada em Oslo, no final dos anos 70. Ambos os países eram então membros da EFTA. Nesse contexto, Portugal tinha-se obrigado a “auto-limitar”, dentro de rígidos limites quantitativos, aquilo que, em matéria têxtil, exportava para a Noruega. Foi a saga dos BRE, os Boletins de Registo de Exportação, uma espécie de autorização “rara“ que os nossos produtores disputavam junto do Instituto dos Têxteis: quem não obtivesse BRE não exportava e, ano após ano, era-nos exigido que emitíssemos menos, em mais posições pautais.

Numa tarde desses anos, passei pela montra de uma loja de Oslo. Estava à venda uma belíssima camisola tradicional norueguesa, bege, com desenhos em tons de castanho. Era muito cara. “Ficava-te lindamente!”, disse-me a minha mulher. “Não compro têxteis a esta gente! Era só o que faltava! É uma questão de princípio!” E continuámos a passear, pela neve.

Semanas depois, no dia do meu aniversário, acordei com a camisola embrulhada, como presente. Fiz de conta que me zanguei. 

Há dias, na minha terra, em Vila Real, abri uma gaveta e lá estava ela. A bela camisola norueguesa! Ainda gosto dela, mais de quatro décadas depois. Mas olho-a como uma eterna traição ao têxtil português.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Obrigado, JL


O JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, teve a amabilidade de fazer uma nota sobre o meu “A Cidade Imaginária”. Fico muito grato ao JL.

Kongsberg e Vidago


Ontem, a comunicação social falou muito de Kongsberg. Um desvairado, naquela cidade da Noruega, matou e feriu bastante gente, usando um arco e flechas (!!!).

Kongsberg é um terra muito agradável, a umas dezenas de quilómetros de Oslo. Tenho por lá um amigo, Johan Jarnaes. Foi professor de Português na universidade de Oslo e, nos anos 70 do outro século, havia sido contratado pelo embaixador Fernando Reino para ser tradutor na nossa embaixada.

Um dia, ao tempo em que eu também trabalhava na nossa embaixada em Oslo, com ele e com a sua mulher, de nacionalidade checa, que havia abandonado a Checoslováquia depois da invasão de Praga pelas tropas soviéticas, em 1968, passámos um calmo fim de semana em Kongsberg.

Durante esse período, aprendi que a minha vocação não era, decididamente, apanhar cogumelos pelos campos, atividade a que se dedicava toda aquela família, filhos incluídos, que tão amavelmente nos acolhia. Fazia-o com um fervor que não consegui partilhar.

O português da Johan Jarnaes tinha várias limitações, perfeitamente naturais em quem nunca tinha tido oportunidade de viver em Portugal, para exercitá-lo. Semanas antes da minha chegada a Oslo, o modo como traduzira uma palavra, com que um membro do governo trabalhista qualificara politicamente o então primeiro ministro Francisco Sá Carneiro, quase que criou um incidente diplomático: a palavra usada, que já não recordo, tinha em português um significado bem mais duro do que em norueguês. E esse sentido era muito difícil de traduzir.

Na conversa desse fim de semana em Kongsberg, Johan Jarnaes quis aproveitar para resolver um “mistério” que há muito tinha com a nossa língua, relativo ao modo como referimos as localidades. Dizia-se “em Castelo Branco” ou “no Castelo Branco”? Expliquei-lhe, com vários exemplos, que não havia a menor regra fixa, que cada caso era um caso.

Como forma de sublinhar ainda mais essa arbitrariedade, dei-lhe também um outro exemplo que me ocorreu. No caso da localidade de Vidago, perto da minha terra, quem não é da região diz “em Vidago”, quem é das redondezas diz “no Vidago”.

Johan Jarnaes ficou a matutar uns segundos. E, recordo-me como se fosse hoje - e já lá vão mais de 40 anos! -, disse-me: “Kongsberg então é como Vidago. Para ‘em Kongsberg’, tanto se pode dizer ‘på Kongsberg’ como ‘i Kongsberg’ “.

Imagino que nem a malta de Vidago sabe disto!

Espero que o meu amigo Johan Jarnaes e a sua simpática família nada tenham sofrido com a loucura do Guilherme Tell do mal que ontem saiu em rifa à sua cidade.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Essa é que é essa!

 


“A Arte da Guerra”


Na minha conversa com António Freitas de Sousa, no podcast do “ Jornal Económico”, falo esta semana das eleições municipais em Itália, do surgimento de Éric Zemmour na campanha presidencial francesa, da conflitualidade crescente entre a Polónia e a União Europeia, da atitude desta face ao alargamento aos Balcãs Ocidentais e, finalmente, sobre as atribulações da nova liderança do Perú, enquadrada no contexto da América do Sul.

Pode ver aqui : https://fb.watch/8CVa8ANrZ9/

Receitas


São sempre uma ruína para mim os encontros com o António-Pedro Vasconcelos. “Receita-me” livros, com um ar tão imperativo e convincente que acho que os não posso perder. Fiado no seu conselho, compro-os, na esperança de que irei ter tempo para os ler. A verdade é que ele quase sempre acerta.

Hoje à tarde, ao cruzarmo-nos, na “Ler”, em Campo de Ourique, vinguei-me: “Já leste o último Le Carré?”, perguntei-lhe. Ele não tinha lido. Nem eu. Só na manhã de hoje soube da existência do livro, “Silverview”, uma obra póstuma. A “Ler”, que acabara de o receber da D. Quixote, ainda nem sequer tinha o livro na montra.

Comprei o “Silverview”, o António-Pedro também. Não sei se é bom. Logo verei, veremos. Desconfio bastante de obras póstumas. Mas eu não lhe “receitei” o livro. Como ainda tenho alguns outros livros para ler antes (além de que comecei a ler um álbum do Tintin por dia - e tenho ainda para 18 dias), só daqui a uns tempos saberei se vale a pena ou não. Se for mau, o António-Pedro vai “cobrar-me”, pela certa. Mas, “Perdido por cem…”

Seitas



Hoje, tive um almoço de uma das minhas ”seitas”. 

Marcámos “falta” ao José Manuel Galvão Teles, ao Alberto Martins, ao Jorge Strecht, ao Fernando Cruz, ao José Augusto Antunes e ao Américo Madeira Bárbara. 

Fizémos um saudação pela ausência eterna do António Dias, do António Silva e do José Carlos Serras Gago.

Foi um belo almoço. Outros haverá.

“Com a Pide não se brinca!”

No tempo do fascismo, dizia-se: “Com a Pide não se brinca!”. A Pide espiava, perseguia, prendia, torturava e matava. Ser “da Pide” - agente ou informador - era sinónimo supremo de indignidade. 

Sempre tive para mim que ser colaborador anónimo da polícia política do fascismo era bastante pior do que ser seu agente. Este último, ao ter essa profissão, assumia, pelo menos, a coragem de ter o seu nome escrito no “Diário do Governo”. Na minha terra, em Vila Real, as três famílias onde havia pessoas que eram agentes da Pide tiveram de viver com essa nódoa social.

Ser “informador” da Pide foi sempre, na minha perspetiva, o grau mais mais baixo da canalhice a que se pode chegar. Ser pago, ou fazê-lo pro bono, por zelo sectário ou por ódio, para informar, sob anonimato, a propósito de um amigo ou um conhecido, dando à Pide dados que permitiam incriminá-lo por atitudes ou atos de combate à ditadura, era o cúmulo da miséria. Ingressar em grupos políticos que combatiam o fascismo para, do seu interior, ajudar a perseguir e a prender quem se opunha a um regime criminoso era o mais baixo a que se podia descer na escala da indignidade cívica.

Nas últimas horas da sua existência, na rua António Maria Cardoso, no dia 25 de abril de 1974, beneficiando de um atraso no seu desmantelamento, que hoje tem nomes responsáveis que a História acolheu mas não puniu, a Pide destruiu arquivos que permitiriam identificar os verdadeiros nomes por detrás dos pseudónimos dessa matilha de informadores. Muitos escaparam impunes. Outros, felizmente, não. O objetivo não era prendê-los, mas apenas deixá-los como exemplos negativos à sociedade cuja libertação tinham procurado evitar.

Este texto surge a propósito de um caso que tem vindo a provocar uma forte polémica, nos últimos dias. António Valdemar, um nome prestigiado da nossa imprensa, denunciou, nas páginas do “Expresso”, que Pedro da Silveira, um conhecido intelectual açoreano, há muito já falecido, havia sido informador da Pide. Dos arquivos da polícia política constam, de facto, relatórios assinados com esse nome. Mas não era vulgar, era mesmo muito raro, alguém assinar esse tipo de denúncias infamantes com o seu verdadeiro nome. Só este facto deveria levar qualquer investigador a ter o maior cuidado. 

Ora sabe-se que os textos que surgem, nos arquivos da Pide, assinados com esse nome são, afinal, da autoria de uma pessoa com outro nome verdadeiro, já há muito identificada. Esse “Pedro da Silveira” seria, assim, apenas um pseudónimo dessa outra figura. O verdadeiro Pedro da Silveira nada teria a ver com o assunto, pelo que acusá-lo de ser informador da Pide configura um ato da maior gravidade, uma imensa infâmia. 

Aguarda-se, assim, uma rápida retratação de António Valdemar e do “Expresso”, para encerrar, com a possível honra para todas as partes, este triste episódio. É que se “com a Pide não se brinca!”, com o bom nome das pessoas perante essa associação de malfeitores também não.

(Em tempo: António Valdemar e o “Expresso” já se retrataram. Ainda bem!)

terça-feira, 12 de outubro de 2021

E a Diana?

Ontem, numa rede social aqui ao lado, houve gente que se abespinhou pelo facto de alguém ter “anunciado” que a figura de James Bond morre, no final do seu último filme, que acaba de estrear. A pessoa em causa foi insultada e bloqueada por muita gente, porque essa “surpresa” deveria ter sido guardada para o momento de visualização do filme.

Esta é uma questão, de facto, grave. Ainda há dias, vi escrito algures, sem o menor sentido de responsabilidade, que, na próxima temporada do “The Crown”, da Netflix, os autores se preparam para “matar” a princesa Diana. Será verdade? Há mesmo rumores de que a morte será encenada num desastre de automóvel, numa capital europeia. Mas, sobre este ponto, nada parece confirmado.

Uma coisa é certa: é lamentável que, com este tipo de revelações extemporâneas, se quebre o “suspense” de uma série, para assinantes pagos. Eu diria mesmo mais: isto devia ser proibido! Com fortes coimas, claro. No mínimo.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Ucronia


Por alguns anos, existiu na praia do Ourigo, na foz do Douro, um restaurante muito agradável, chamado Shis. A estrutura era em madeira. Um dia, o mar invadiu o espaço e o restaurante teve de fechar. 

A mesma gerência reabriu depois um restaurante com “conceito” parcialmente similar, com o nome de Wish, numa área próxima (para os “iniciados”, no local onde antes ficava o restaurante Oporto). Ainda há dias jantei com o cliente que lhe “inventou” o nome. O Wish é também um excelente restaurante, onde também vou sempre que posso. 

(Já agora, para que se saiba, reabriu há dias, também na mesma zona, redecorado, o Cafeína, a que a pandemia tinha suspendido a atividade. Primeira impressão, deste cliente também de muitos anos: têm de se esforçar um pouco mais e pôr a música mais baixa. É tudo o que quero dizer, por ora. Ah! Em frente ao Cafeína, continua a valer a pena ir ao Terra, que, noutras encarnações, já se chamou Oriental, como muitos se lembrarão).

Há meses, soube-se que o Shis, ou algo com ele parecido, iria renascer no espaço anexo àquele que o mar destruira, agora com uma estrutura de cimento, mais resistente (mas sabe-se lá por quanto tempo!) à fúria dos elementos. A obra acabou embargada.

Olhando hoje, num jornal, a fotografia, entendo melhor a agressão que aquela construção iria representar, pelo que não posso senão concordar com a reposição do “statu quo ante”. 

Mas lá que (egoísta e intimamente) seria muito agradável poder almoçar naquele espaço, num dia de sol, com o mar a bater por perto, lá isso seria! 

Mas não vai. Um novo restaurante não existirá por ali. Esse hipotético almoço não deixará assim de ser uma ucronia, palavra que aprendi há dias - porque nunca somos velhos demais para aprender coisas.

“Observare”


Esta semana, sob a moderação de Pedro Bello Moraes, o trio habitual do “Observare” - Luís Tomé, Carlos Gaspar e eu - discutiu as tensões em torno de Taiwan. No que pessoalmente me tocou, analisei as decisões europeias sobre os Balcãs Ocidentais, o surgimento de Éric Zemmour nas pré-candidaturas às eleições presidenciais francesas de 2022, bem como o funcionamento da alternância política na democracia de S. Tomé e Príncipe.

Pode ver o programa clicando aqui.

Nobel

Por esta altura do ano, aquando da atribuição do Prémio Nobel da Paz, algum jornalismo desatento fala, por sistema, da decisão “da Academia Sueca”. 

É um erro. De facto, todos os restantes Prémios Nobel são dados pela Academia Sueca. Mas a exceção é o da Paz, atribuído pelo Comité Nobel da Noruega.

Travessa da espera


Há médicos que nos fazem esperar eternidades, antes da consulta. Mas, na verdade, nós sabemos ao que vamos. Por isso é que a sala onde nos colocam se chama, sem qualquer disfarce, … de espera!

Onde?

Não deixa de ter alguma graça a preocupação de Nuno Melo de que o congresso do CDS não coincida com o congresso do Chega. Será receio de que alguém tenha o dom da ubiquidade?

CDS

Nestes momentos de crise, em que uns se engalfinham contra os outros, o CDS chega a dar a impressão de que tem por lá muita gente. Infelizmente para a democracia portuguesa - digo isto com a maior sinceridade -, não tem!

IVA

Há dias. A senhora falava ao telefone, dentro do balcão da loja, para uma amiga: “Ai achas que ainda estou ’na casa dos quarenta’? Ó filha, quem me dera! Pois fica sabendo: eu cá tenho 28 mais IVA…”

domingo, 10 de outubro de 2021

Obrigado, Zé!


A doutrina continua a não ser pacífica em torno da origem do cognome de “Bomba”, que lhe é carinhosamente dado pelos amigos. A ideia de que isso possa derivar do recorte físico a que os frequentes ágapes, com o tempo, possam ter conduzido o seu apolíneo perfil, está há muito afastada. Porque sim, pronto!

O meu amigo José Luiz Gomes, é dele que falo, é um dos mais finos espíritos diplomáticos que me foi dado cruzar, nas décadas que passei nos claustros das Necessidades. O facto de ter tido o privilégio de cruzar zonas do mundo muito diversas, de Washington a Moscovo, da Austrália ao Zimbabwe e outros interessantes postos, dotou-o de um quadro interpretativo da realidade internacional, o qual, associado a um espírito nada dogmático e a um sentido autocrítico invejável, lhe permite decantar leituras de extremo bom senso e grande realismo. Não foi seguramente por acaso que Francisco Pinto Balsemão, como primeiro-ministro, o teve como seu indispensável assessor diplomático.

Mas não é do embaixador de excelência que hoje quero falar, mas sim do grande amigo, que acaba de completar os 80 anos, uma idade redonda que um bando heteróclito à sua volta ontem celebrou, num Nobre lugar, com muito e bom barulho, vários e animados brindes, como sempre com muitas “piquenas” por perto, em que esteve em especial destaque a mesa das “bombettes” - um oásis doirado de riso e boa disposição.

O Zé é uma das pessoas mais bem dispostas e divertidas que conheço. Sempre pronto para alinhar numa festarola ou numa conversa bem alimentada e melhor regada, culminada pela inevitável nuvem de fumo com que muitas vezes desafia as regras dos locais, ele é também o persistente mobilizador de um grupo de colegas que, há mais de uma década, se reúne semanalmente - é verdade, semanalmente!, apenas com as pausas a que o calendário, às vezes, obriga - numa almoçarada, sempre com um quorum máximo definido, para não “partir” a conversa à mesa. 

Por ali falamos da vida, às vezes da profissão que nos uniu, do dia-a-dia e até de política, vejam lá! Como episódicos convidados para essas ocasiões, já por lá estiveram antigos presidentes e ministros, vários colegas e outra gente sempre interessante. A nossa ”Chatham House rule” é: não há, por ali, conversas chatas! Também não temos qualquer agenda, só histórias e opiniões, sempre sem o menor radicalismo e com respeito pelas diferenças de perspetiva. É graças ao Zé, o grande maestro da orquestra, que hebdomadariamente nos convoca por SMS e que decide a “venue” em função do tamanho da mesa, que a nossa vida na reforma fica (ainda) mais alegre e divertida. 

Tenho ainda o privilégio de, com o Zé, ser o único membro do grupo a fazer parte de uma outra tertúlia, a da “Mesa Dois” do Procópio (onde a pandemia nos pôs num “lay off” que agora acabou), superiormente gerido pela “Sedona” Alice Pinto Coelho, uma imensa amiga do Zé. Contudo, é no Procópio que uma grande divergência se cava entre mim e o Zé: não coincidimos no destilado escocês que nos enche os balões, como o Luís avisadamente bem sabe. É a vida!

Sei que a amizade não se agradece, mas eu não me contenho e digo: obrigado, Zé! Sem ti, tudo isto tinha muito menos graça.

sábado, 9 de outubro de 2021

Notícias de Alcácer

Aníbal Cavaco Silva revela que vive desconfortável com a ideia de que Pedro Passos Coelho monopoliza o saudosismo sebastianista dentro de um certo PSD.

Todos tão amigos!

Há qualquer coisa de bizarro (mas parece que já ninguém estranha!) na reiterada prática lusitana de se produzirem tempos televisivos, visíveis em todas as estações, em que uns artistas entrevistam outros colegas de profissão, quase sempre para a promoção dos seus espetáculos futuros, todos sempre mostrando-se muito amigos entre si e bastamente elogiosos uns dos outros. Aquilo mais parece um “Time Out” entre amigalhaços, ficando, no entanto, por esclarecer qual será o papel desempenhado nessas aparições (que vão da pimbalhada a coisas mais sérias) pelas agências que gerem a carreira de atores, cantores e “tutti quanti” - e que, como é sabido, não trabalham ”a feijões”…

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Seinfeld


Nunca me tinha apercebido de que os episódios da série Seinfeld eram tão curtos. Agora na Netflix, tenho-os visto “a eito”. Aquilo é de um imenso primarismo de realização, mas é magnífico! Ainda não surgiu o “mau” do Newman, única hipótese de eu me reconciliar com os Correios. Mas o meu personagem de eleição, bem acima de qualquer outro é Kramer.

Nazis

Os nazis deviam ter uma saúde de ferro! A guerra ter terminou em 1945 e ainda andam à procura desse pessoal…

Livro



O meu livro “A Cidade Imaginária”, editado no início de setembro sob a chancela da Biblioteca Municipal de Vila Real, teve uma tiragem limitada - não estando prevista qualquer reedição. A maior parte dos volumes que foram postos à venda foi adquirida na sessão de lançamento e, posteriormente, nas três livrarias onde foi colocado. A Livraria Ler, em Lisboa, já não tem livros para venda. Para quem eventualmente estiver interessado, sou informado de que há ainda alguns exemplares na Livraria Branco (259 322 829) e na Livraria Traga-Mundos (259 103 113), ambas em Vila Real, creio que com eventual possibilidade de envio pelo correio. A Biblioteca Municipal de Vila Real não comercializa o livro.

Crime


Cá em casa, há quem veja imenso a Fox Crime. Quando entro na sala, pergunto quantos mortos já houve no episódio e a resposta é sempre animadora para o negócio das funerárias.

McCann

Fica cada vez mais claro que a morte de Madelaine McCann se transformou num filão inesgotável para a indústria da especulação. É assim como uma espécie de Camarate.

Trotinetes


Vai ser preciso que morram, em acidentes, alguns passeantes de trotinetes elétricas para que soe o alarme de que não é possível continuar a ter gente a circular irresponsavelmente por ruas, passeios e passadeiras, sem seguirem a menor lei, às vezes com penduras e sempre sem capacete.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Racismo


Na diplomacia, no estrangeiro, herdamos relações sociais. À volta das embaixadas, de todas as embaixadas, em todos e de todos os países, pululam figuras que, por uma qualquer razão do passado, fazem parte da chamada “lista social” da casa.

Quando chega um novo embaixador, essas personalidades locais, que tanto podem ser diplomatas reformados como “socialites” da mais variada natureza (há uma quota abundante de “singles”, que dão imenso jeito para compor mesas, em falhas de última hora), quase sempre gente educada, fazem um subtil esforço para renovar os laços com o novo chefe da missão, o que lhes permite garantir convites para os dias nacionais ou a inclusão em jantares e outros eventos da embaixada. São, em geral, pessoas muito agradáveis, mas quase sempre inúteis sob o ponto de vista de préstimos para os interesses práticos da embaixada. Contudo, é indelicado “deixar cair” essas pessoas.

Os embaixadores recém-chegados, nos seus primeiros meses em posto, são, como regra geral, convidados por elas, incluídos em ocasiões sociais em suas casas, muitas vezes organizadas em honra do próprio diplomata. E aí irão conhecer outras pessoas, algumas interessantes, outras menos, o que lhes permite ir alargando um círculo de conhecimentos locais em que também vai assentar a convivência no seu tempo em posto. Quando partem, o sucessor herda essa teia de contactos.

Muitos dos jantares para que os embaixadores são convidados acabam por tornar-se numa inenarrável seca. Outros são-no menos, havendo técnicas de conversa que, em ocasiões-limite, podem ser utilizadas para “sobreviver”. Eu, como todos os meus colegas, fui criando algumas…

Em Paris, numa dessas ocasiões, num jantar em casa de gente muito rica, fiquei em frente a um cavalheiro que, desde o primeiro momento, percebi ter uma conversa um tanto incontrolável. Era um empresário já reformado, que conhecia Portugal, e que começou por me felicitar pela “sorte” de eu ter sido compatriota de Salazar, a quem fez imensos elogios. Em especial, a política africana do ditador merecia-lhe todos os louvores - “Et je connais très bien l’Afrique, monsieur l’ambassadeur!”. Fui tentando desviar a conversa, mas o homem teimava.

A dona da casa, uma senhora simpatiquérrima, também com fortes vínculos conservadores em Portugal, percebeu que as coisas não estavam a ir no caminho certo, e procurava introduzir outros temas. Mas sem sucesso. Estava-lhe a ser impossível isolar da conversa um dos quatro temas tabu clássicos, para ambientes de gente bem educada que não se conhece bem entre si: política, religião, dinheiro e “falatório” sobre pessoas ausentes.

A certo passo, o nosso homem, quiçá animado pelo excelente vinho francês que esta a ser servido, que complementava um extraordinário champanhe que tinha sido provado à entrada, começou a falar das colónias africanas e do papel histórico aí representado pelos países europeus. E saiu-se com esta, a propósito dos africanos: “São uns selvagens! Eu, confesso, sou racista”.

Na mesa, fez-se um súbito silêncio. Os franceses têm uma expressão para caraterizar estes momentos de coletiva paralisia: “un ange passe!”. A dona da casa voltou a tentar uma manobra de diversão, carreando para a conversa outro tema. Mas, qual quê!, o palavroso amigo não desarmava. E eu voltei à ribalta: “Et vous, monsieur l’ambassadeur? Comme tout le monde, vous êtes aussi un peu raciste, non?”.

A mesa olhou para mim. Eu, sem “espaço”, tive uma súbita tentação de arrogante chauvinismo lusitano (embora a expressão seja adequadamente francesa) e, muito sério, respondi: “Moi? Non, monsieur, je suis pas raciste. Je suis portugais”. E olhei-o fixamente, com a cara fechada.

Imagino que ninguém por ali acreditasse, por um instante, que os portugueses não fossem (também) racistas. Nem eu próprio acreditava. O racismo não tem fronteiras e é óbvio que há imenso racismo para cá do Caia. A colonização portuguesa, salvo para alguns líricos ou hipócritas, está imbuída dele até às entranhas do império, com discriminações e todos os vícios de qualquer processo de colonização. (Ah! E desde já aviso que não entro na velha e relha avaliação quantitativa de que os portugueses são menos racistas do que outros povos ou que, no plano qualitativo, de que a nossa colonização foi ”melhor” do que as outras.)

Aquela minha cartada verbal defensiva foi entendida por todos, com naturalidade, como uma benévola manobra para procurar calar o meu impertinente interlocutor. Porém, ao dizer o que disse, naquele ambiente franco-francês bem conservador, eu deixava implicitamente uma nota de que ser francês talvez fosse, em matéria de racismo e (vá lá, de xenofobia) uma coisa bem diferente do que era ser português. Os portugueses que viviam em França sabiam isso bem! Só o excesso do palavroso convidado me tinha dado um alibi para dizer ali uma frase que, não obstante ser curta, era diplomaticamente bem pesada.

A conversa mudou. O homem, tanto quanto me lembro, calou-se e manteve-se, a partir daí, silencioso, pelo menos até à chegada do Armagnac, que terá vindo com o café, que foi servido depois das “profiteroles”.

Por que é que me lembrei disto? Porque me chegou ontem, pela Amazon, o último livro de Éric Zemmour, o surpreendente “cometa” que, nos últimos meses, emergiu na cena política francesa, que as sondagens, de há horas, colocam já à frente de Marine Le Pen e logo abaixo de Emmanuel Macron, para as presidenciais francesas do próximo ano. E Zemmour, esse sim, é claramente racista e xenófobo.

(Já estou a imaginar alguns amigos a perguntar: “Então mandaste vir um livro de uma figura de extrema-direita?”. Comigo a responder: “Eu quase só leio coisas com que não concordo!”)

Boa tarde


Passamos o tempo a dizer ”boa tarde” às pessoas, sem pensarmos que, às vezes, há mesmo boas tardes. Como hoje aconteceu.

Um erro desnecessário

Esteve mal António Costa ao colar-se ao mantra europês sobre o processo de adesão dos países dos Balcãs à União Europeia. E esteve ainda pior ao fazer a avaliação que fez sobre o último grande alargamento, repetindo o discurso simplista de que a União deveria ter sido aprofundada antes de ter procedido ao aumento dos Estados que fazem parte da atual União a 27. Isto é tanto mais surpreendente quanto António Costa não desconhece qual foi o sentido geopolítico que esteve subjacente àquele alargamento.

Um comentador pode dizer o que António Costa disse. Um primeiro-ministro, que se cruza na mesa do Conselho Europeu com os seus colegas que chefiam países que são hoje membros da União graças ao “timing” dos últimos alargamentos, não deve dizer que eles estão por ali por virtude de um erro temporal estratégico. E, no tocante aos Balcãs e ao eventual futuro alargamento da União a essa área europeia, António Costa deveria ter tido o cuidado de guardar os seus comentários para o recato do Conselho Europeu, não para os jornalistas.

Há, no entanto, uma boa notícia, na decorrência do que António Costa disse: é que, se porventura, ele tinha alguma ambição no sentido de vir a ser futuramente presidente do Conselho Europeu, essa hipótese ficou enterrada com a sua declaração de ontem. E isso permite aumentar a possibilidade de ele se manter como primeiro-ministro a partir de 2023 - e isso é uma excelente notícia para o país.

Dito isto, regresso ao que comecei por dizer: com a sua declaração de ontem, António Costa não fez um favor à política externa portuguesa, “to say the least”.

Outono?

 


O outono já não é o que era!

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

“A Arte da Guerra”


Nos meios audiovisuais do “Jornal Económico”, em “A Arte da Guerra”, falo esta semana com António Freitas de Sousa sobre os “leaks“ relativos aos “paraísos fiscais” que estão a agitar a sociedade política internacional, sobre as dificuldades algo inesperadas que Joe Biden está a encontrar no seio do Partido Democrático, sobre as tímidas aberturas democráticas no Qatar e a situação nos restantes Estados do Golfo Arábico, bem como a propósito da questão das provocações militares de Beijing ao regime de Taiwan, com análise ao peculiar estatuto internacional deste território.

Pode ver o programa aqui.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Uma pergunta polémica

O tema é polémico, mas há uma pergunta simples que não vejo formulada: a frequência do surgimento de casos de pedofilia na igreja, para além dos desvios doentios de personalidade, não terá alguma coisa a ver com a manutenção desse instituto anti-natural que é celibato forçado?

É muito feio faltar a um almoço…



segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Abstenção

A elevada taxa de abstenção em Portugal também se deve muito ao facto das listas eleitorais estarem desatualizadas. Não seria de refazer o atual recenseamento, pedindo às pessoas para confirmarem - num processo aberto durante alguns meses - a sua inclusão nas listas?

Futebóis

Devemos ficar muito satisfeitos com a obtenção de título mundial em Futsal. Do mesmo modo, é justo que comemoremos os êxitos obtidos em Futebol de Praia. Mas, a bem da realidade objetiva das coisas, não misturemos estas modalidades com o futebol disputado com 11 jogadores.

domingo, 3 de outubro de 2021

… do meio


Era uma expressão antiga, que, imagino, seja hoje politicamente incorreta mas, nem por isso, menos atual: "Esse tipo já está muito torradinha do meio"…

… e afinal não havia Super!

 


Desagravo da Bordúria


O embaixador Luís Filipe Castro Mendes publicou no Facebook o seguinte texto:

Aos nossos analistas e comentadores internacionais têm escapado completamente os graves conflitos que persistem na fronteira entre a Sildávia e a Bordúria. A paciência de Klow (que sabe que não pode contar com os seus aliados) contrapõe-se a arrogância com que a Bordúria continua a provocar incidentes e a ocupar territórios tradicionalmente sildavos. Francisco Seixas da Costa, de que estás à espera? Até quando esse silêncio cúmplice com o regime dos sucessores de Pleksy-Gladz, que mudaram o Partido Bigodista para Partido Patilhista, sem modificarem os seus métodos autoritários e arbitrários?

Respondi-lhe, naquela mesma prestigiada rede social:

É mesmo muito triste! Tenho uma vida de amizade com Luís Filipe Castro Mendes e nunca dele esperei uma coisa destas! Quando julgamos conhecer uma pessoa e críamos poder ter algumas certezas sobre a sua postura relativamente a grandes temáticas internacionais, somos surpreendidos, de chofre, por uma análise num tom e substância que só podemos qualificar por ligeiro, se não mesmo leviano. Luís Filipe Castro Mendes, ao acusar a Bordúria de atos agressivos contra a Sildávia, prestou-se a ser porta-voz de uma insinuação da maior gravidade. A Bordúria, saiba o embaixador Castro Mendes, é, como sempre foi, um Estado de bem, com uma reputação à prova de bala, como o ilustra o seu magnífico quadro de relações bilaterais, com a óbvia exceção da vizinhança pária que uma geografia madrasta lhe deixou como destino. Ou Luís Filipe Castro Mendes acha que uma entidade internacional com o prestígio da Abcásia, que desde sempre teve uma embaixada em Szohôd, brinca com essas coisas? Que outro país teve a coragem de estabelecer um consulado honorário em Stepanakert, cobrindo também a Transnístria? Quando o Bophuthatswana tentou reconhecimento internacional, foi, por acaso, bater às portas de Klow? É o vais! Que chancelaria foi procurada, como qualificado “honest broker”, dotado de uma diplomacia de fino recorte e provas dadas, para mediar o sangrento conflito entre San Théodoros e Nuevo Rico? Luís Castro Mendes, que firmou um nome na nossa diplomacia, a que seria desejável que se mantivesse fiel, devia evitar ser intoxicado pela nefasta propaganda sildava e, pior do que isso, deveria recusar-se a carrear para um espaço com o rigor e a seriedade do Facebook versões inquinadas de factos incontroversos. Ao que chegámos, meus senhores!

Este texto é ilustrado por uma clássica representação gráfica naïf da cidade de Szohôd, capital da Bordúria.

… e as Serras



Pela primeira vez na qualidade de membro do Conselho Consultivo da Fundação Eça de Queiroz, honrosa função para que fui recentemente convidado pelo respetivo Conselho de Administração, estive ontem em Tormes.

Olhando a paisagem em volta, neste Outono que já começa a merecer o nome, entende-se melhor o fascínio do escritor pelo local.

“Observare”


Sob a moderação de Pedro Bello Moraes, Carlos Gaspar, Luís Tomé e eu falámos, no “Observare” desta semana, do futuro político da Alemanha e do “namoro” entre a Turquia e a Rússia.

No que me toca, lembrei que o antigo presidente francês, Nicolas Sarkozy, foi condenado a prisão efeitiva (do que ainda pode decorrer), o que deixa uma sombra sobre a direita democrática francesa neste tempo que antecede as eleições presidenciais, bem como o facto dos chefes militares americanos terem sido chamados ao Congresso, para uma espécie de “diebriefing” explicativo sobre as razões do colapso da sua missão no Afeganistão.

Como sugestão, lembrei o último filme inspirado na figura de James Bond, que culmina quase seis décadas de um mundo mitico “a preto e branco”, feito de “bons” e de “maus” da fita, que continua a agradar a muita gente (na qual, confesso, me incluo).

Pode ver, clicando aqui.

sábado, 2 de outubro de 2021

“Portugal no Mundo”


O modo como nos olham de fora, o contraste com aquilo que pensamos de nós mesmos ou o confronto com aquilo que é a objetiva realidade dos factos, bem como a forma de a melhorar, tudo isso foi objecto de um debate em que participei na passada quinta-feira, com outros convidados, por sugestão da RTP. Vários estrangeiros deram também a sua visão, neste interessante exercício coordenado por Ana Lourenço, no quadro da série “Fronteiras XXI”, numa parceria com a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Pode ver clicando aqui.

A capa

Uma das duas revistas semanais de informação da nossa praça trouxe ontem uma capa (porque é da capa, e só dela, que falo) sobre Carlos Moedas que é o retrato exato da indignidade em jornalismo.

Tenho bastante pena pela revista, de que sou leitor desde o número um e de que, há muitos anos e em outras encarnações editoriais, cheguei a ser colaborador. 

Conheço por lá gente que me merece consideração pessoal (não obstante eu próprio por ali ser zurzido, de quandoem vez, risco que agora deve aumentar), que lamento ver deslizar no plano inclinado para a mediocridade jornalística.

Espero que não surjam desculpas esfarrapadas, arguindo que, no texto que figura no seu interior, nada do que se escreve é repreensível e que o que se assinala na capa apenas reflete aquilo que a própria figura visada já tinha tornado público!

Não brinquemos! Se a revista finge não perceber a gravidade daquilo que fez - pior, se vier a procurar desculpar-se com “technicalities” e alibis de pacotilha - então apenas confirmará aquilo que muitos suspeitavam e que alguns teimavam em acreditar que não podia ser verdade: que se converteu, irremediavelmente, a uma conhecida e “infamous” escola de “jornalismo”, que, nos dias de hoje, representa o pior daquilo que existe na comunicação social portuguesa - e todos sabemos do que estou a falar!

Mas há uma esperança: a revista ainda vai a tempo de pedir desculpas formais a Carlos Moedas. Terá essa coragem ou assumirá o desplante, num editorial cheio de soberba, no seu próximo número, de achar que tinha consigo a razão? Vai ser um belo teste. Ficamos à espera!

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Expo Dubai


Tive o gosto de integrar, durante alguns anos, o Conselho Consultivo da estrutura que preparou a presença de Portugal na Expo no Dubai, que hoje se inaugura.

Foram bastantes e muito interessantes as reuniões em que um grupo alargado de conselheiros, retribuídos apenas pelo gosto de ajudar o nosso país a marcar uma participação com dignidade no certame (que foi adiado, devido à pandemia, de 2020 para 2021), procurou definir o conceito do nosso pavilhão, dos seus conteúdos e das mensagens que, através dele e de uma multiplicidade de eventos que ali decorrerão nos próximos seis meses, iremos transmitir. Da economia à gastronomia, da música à literatura, da arquitetura à memória histórica, estou confiante de que Portugal vai deixar uma bela marca nesta exposição.

Neste momento em que encerro a minha colaboração, quero deixar uma palavra de gratidão ao Celso Guedes de Carvalho, o primeiro comissário do evento, que me formulou o honroso convite para participar, bem como ao presidente da AICEP e atual comissário, Luís Castro Henriques, e à comissária adjunta, Francisca Guedes de Oliveira. Uma outra palavra, desta vez de saudade, a dois amigos que integravam o Conselho Consultivo mas que, entretanto nos deixaram: João Vasconcelos e António Silva.

Desejo o maior sucesso à nossa “aventura” nacional na Expo Dubai. É bom ver Portugal regressar às grandes exposições internacionais.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

O fenómeno Zemmour


     

Nos anos em que vivi em França, assistia, com regularidade, a um animado e interessante programa televisivo semanal, com entrevistas e debates, intitulado “On n’est pas couché”. Por ali passava tudo quanto “estava na berra”, da política à literatura, do teatro ou cinema à música.  O programa tinha então dois comentadores residentes, que liam e analisavam, de forma muitas vezes cáustica, mas sempre inteligente, os livros que iam saindo, o comportamento das figuras da política, etc. Durante alguns anos, o dueto foi constituído por Éric Naulleau e Éric Zemmour (depois, foram variando). 

Nollau era ensaísta e editor, com uma visão de esquerda, mas frequentemente muito crítica para a própria esquerda. Zemmour era jornalista e autor de vários livros, extremamente conservador e soberanista. Mais tarde, criaram, em outra estação, um programa intitulado “Zemmour & Naulleau”. Eram ambos figuras brilhantes, por muito polémicas que as suas opiniões fossem.

Com o regresso a Portugal, perdi de vista Naulleau, mas cada vez tenho ouvido falar mais de Zemmour, embora nem sempre pelas melhores razões. As suas posições foram-se tornando mais extremadas, algumas foram lidas como xenófobas e mesmo racistas, o que levou a condenações judiciais e ao seu afastamento de vários órgãos de comunicação.

Mais recentemente, Zemmour surgiu na vida política francesa como um possível candidato à presidência da República. Um livro que lançou, “La France n’a pas dit son dernier mot”, na sequência de vários outros que foram imensos êxitos editoriais, está a ser visto como uma possível rampa de lançamento para o Eliseu. Zemmour é hoje um fenómeno de que toda a França fala.

Há sondagens que o creditam com 11-14 % de intenções de voto, já muito próximo da candidata do “Rassemblement National” (antigo “Front National”), Marine Le Pen. Mas o grande embaraço parece estar a atingir o campo político da direita tradicional, o partido “Les Républicans”, antes liderado por Nicolas Sarkozy e, depois, por François Fillon (ambos hoje a braços com a Justiça), atravessado uma luta fratricida para escolher um candidato para o representar nas eleições presidenciais de abril/maio de 2022. O discurso de Zemmour, que chega a reivindicar-se do gaulismo, parece estar a fazer o seu caminho no eleitorado desse setor conservador.

Zemmour é demasiado elaborado para poder ser tido como uma espécie de Trump “à francesa”. Mas a sua postura, chauvinista, abertamente anti-islâmico, tradicionalista e com apelo ao saudosismo identitário, tem um acolhimento potencial que está a baralhar os dados da política interna francesa.

“A Arte da Guerra”


No “ A Arte da Guerra” desta semana, falo com António Freitas da Costa sobre as perspetivas políticas na Alemanha depois das eleições legislativas, os pontos mais salientes dos discursos na Assembleia Geral da ONU e as recentes movimentações político-militares na Coreia do Norte.

Pode ver clicando aqui.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Uma memória do 28 de setembro de 1974


Depois da derrota política sofrida no dia 28 de setembro de 1974, o general António de Spínola, presidente da República, na ressaca dos acontecimentos e das manifestações desse dia que ficou histórico, tinha convocado o Conselho de Estado para 30 de setembro. Foi anunciado que, nessa ocasião, faria uma comunicação ao país pela televisão e rádios, diretamente de Belém.

Eu andava pelo palácio da Cova da Moura, onde era adjunto da Junta de Salvação Nacional, instituição a que Spínola ainda presidia, mas que, tudo o indicava, tinha a sua existência a prazo. Juntámo-nos uns tantos, de tendências político-militares bastante diversas e até antagónicas, em torno de um televisor, para ouvir a intervenção do chefe de Estado.

Os tempos eram muito tensos, o ambiente político era de cortar à faca. Naquela sala estava gente cujo futuro iria ser, a partir desse dia, muito díspar. Lembro-me de que havia por lá um general do Exército, cujo nome não consigo recordar, recém-regressado de uma Angola em convulsão, que sabíamos ser um "spinolista" ferrenho. Estava acolitado por figuras que não conhecia, com cara patibular, de quem tinha ficado do lado dos derrotados nas “batalhas” das vésperas.

Todos antecipávamos as palavras do "velho" (como os "spinolistas" gostavam de chamar à sua figura tutelar). A ideia mais comum era a de que se demitiria em direto das funções, mas outros cenários, nomeadamente de alguma resistência à recente derrota nas ruas dos seus apaniguados, ainda eram plausíveis.

O discurso começou, com a voz rouca de Spínola, naquele registo épico e um pouco teatral que era o seu, a dramatizar, como era de esperar, a situação política, na exata linha das suas anteriores frustradas tentativas de fazer levantar a suposta "maioria silenciosa" do país.

O diagonóstico que saía da sua boca era ácido e impiedoso para os vencedores dessas horas. Todos olhávamos o aparelho de televisão mas, verdadeiramente, policiávamo-nos pelo canto do olho, sabendo que cada um lia as palavras de Spínola de forma diferente. Para mim, como jovem militar "a prazo", que me via do lado vencedor da contenda, o momento era excitante.

A certo passo da intervenção, mas ainda antes do anúncio da demissão do "caco" (como Spínola também era conhecido, por virtude do seu monóculo), um homem da Marinha, Duarte Lima (não, não é esse!), não se conteve e fez ecoar pela sala alguns adjetivos qualificativos, muito pouco abonatórios para o presidente da República e presidente da Junta de Salvação Nacional, a cujos quadros pertencíamos e em cuja sede estávamos.

Praticamente, ninguém o acompanhou na expressão vocal dos sentimentos que o motivavam, os quais, no fundo mas apenas no íntimo, creio que eram partilhados pela maior parte dos presentes. Mas, com os diabos!, Spínola era um derrotado daqueles dias e havia outras maneiras de, como dizem os militares, "explorar o sucesso", tanto mais que "não se dispara sobre ambulâncias". 

Duarte Lima, porém, estava imparável, indignado com os ataques de Spínola ao MFA, e não se calava, nos insultos que ia proferindo, em crescendo. O general chegado de Angola, a alguns metros dele, fervia de raiva, marcada pela impotência que Spínola confessava no seu discurso. Os seus escassos acompanhantes remoíam em silêncio.

Quando tudo terminou, depois de Spínola ter anunciado a sua demissão, todos nos levantámos, ainda um pouco aturdidos com o início de uma nova fase da Revolução que o seu gesto prenunciava. O tal general, lívido, passou pelo Duarte Lima e, num assomo de autoridade, lançou-lhe: "Você devia ter vergonha pelo que disse". A compostura militar impôs-se e Duarte Lima não reagiu. Ou melhor: deixou sair o superior da sala e comentou, para nós: "Estive para o mandar à ....". Mas não mandou. E ainda bem. O general já tinha tido a lição dos factos.

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

“Fronteiras XXI”


Eça agora


Que terei eu dito que levou a esta reação hilariante de Luís Castro Mendes, meu parceiro na palestra sobre ”Eça diplomata e a diplomacia em Eça”, no passado dia 16, no Grémio Literário?

Democracia


A beleza inultrapassável da democracia é colocar na mão dos eleitores, por um dia pessoas iguais umas às outras, no exato momento em que colocam o seu voto na urna, o poder de decidirem quem vai gerir o seu destino coletivo por algum tempo. É essa imprevisibilidade do “humor” dos cidadãos que torna genuíno e legítimo o desfecho do seu exercício de vontade. Para alegria de uns e para tristeza de outros.

Ontem, as cores políticas que são as minhas tiveram algumas vitórias e derrotas. Bastantes mais vitórias do que derrotas. Senti algumas dessas vitórias como muito reconfortantes, mas devo confessar que tive uma derrota que muito me custou. A perda da Câmara de Lisboa para uma coligação que, ideologicamente, está nos meus antípodas, é um momento de tristeza que não posso nem quero esconder. 

Fiz parte da Comissão de Honra do meu amigo Fernando Medina nas duas eleições que disputou. Fi-lo convictamente, porque considero - pelos vistos, ao contrário de uma maioria dos votantes de ontem, nesta minha cidade - que ele foi um excelente presidente da Câmara de Lisboa. É um homem e um político de uma grande seriedade e com um elevado sentido de serviço público. Deu tudo a Lisboa e dedicou-se ao seu trabalho com todo o empenhamento. Os lisboetas tiveram outra leitura das coisas, o que temos de respeitar. Como referi no início deste texto, a liberdade de escolha, a cada instante, é a grande virtualidade da democracia.

Os votantes lisboetas optaram por Carlos Moedas, figura que eu, equivocadamente, julguei ser um erro de “casting”, para o exercício deste cargo em particular. Como sempre afirmei, foi um excelente Comissário Europeu, é uma pessoa de bem e um amigo que prezo. Ele sabe que a sua vitória não me deixou feliz, como também sabe que é com grande sinceridade que, a bem de Lisboa, ao felicitá-lo, lhe desejo as maiores felicidades no seu trabalho nos tempos que terá pela frente.

A vida continua.

domingo, 26 de setembro de 2021

A sério

Sei que irrita muita gente ouvir isto, mas eu repito: quem não vota tem um “capitis diminutio” moral para criticar a ação dos políticos eleitos pelos outros.

Lembrando

“O voto é uma arma do povo”, era o slogan oficial nas primeiras eleições em liberdade, em 1975. 

“Se votas, ficas sem arma…” era uma “boca”, meia anarca, que se via pintada pelas paredes.

A votação foi esmagadora.

Tvês

Por que será que os repórteres que entrevistam os políticos à entrada ou saída de qualquer local se sentem na obrigação de nos repetir, logo de seguida, aquilo que acabámos de ouvir?

Unir as nações


Muitas pessoas se interrogam sobre a razão pela qual, todos os anos, em setembro, chefes de Estado e de governo, ministros e suas comitivas rumam para Nova Iorque, para a Assembleia Geral das Nações Unidas. Sabe-se que alguns, ”de fora”, acham aquilo um espetáculo dispensável, uma “feira de vaidades” sem sentido, uma perda de tempo e dinheiro.

Há pouco, encontrei esta fotografia que ajuda a responder, em parte, à questão. A imagem mostra as divisórias montadas na sede da ONU, para encontros bilaterais, que duram, em média, 20 minutos cada. Cada um daqueles espaços tem uma agenda, com marcação prévia, com a devida antecedência. Dentro estão sofás e cadeiras. Fora estão a segurança e os assessores dispensáveis para a ocasião.

Uma das funções da semana ministerial da AG da ONU é precisamente proporcionar aos responsáveis políticos a possibilidade de se encontrarem frente a frente. São muitas centenas, se não milhares, as reuniões que assim se processam, naqueles dias, no “palácio de vidro”. Em algumas horas, é possível desenvolver um conjunto de contactos que ajudam a resolver uma imensidão de problemas. Desta forma se evitam viagens entre países, perdas de dias de trabalho, e até se limita fortemente a “pegada ecológica” das viagens aéreas entre capitais. 

E não me venham com a história de que, no futuro, tudo se fará à distância, em modelo de conferência Zoom ou similar! Só quem não conhece a realidade da vida internacional pode pensar que alguma vez o contacto pessoal é totalmente substituível.

As nações não estão sempre unidas e a diplomacia existe para tentar lutar contra isso.

Votem!

“Mesmo que não encontres o partido dos teus sonhos para votar, não deixes de votar contra os que causam pesadelos”

sábado, 25 de setembro de 2021

Reflexão

Que os atos públicos de propaganda das campanhas eleitorais sejam suspensos na véspera imediata do sufrágio, vá que não vá! Que, neste dia “de reflexão”, os cidadãos sejam tratados como crianças, sem maturidade para poderem continuar a discutir o sentido do seu voto, é ridículo!

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Vila Real


Por muitos anos, em democracia, o PSD venceu as eleições para a presidência da Câmara Municipal de Vila Real.

Embora essa persistente tendência desagradasse a quem se opunha aos social-democratas, como foi sempre o meu caso, e não fossem muito evidentes as razões objetivas que a justificavam, nada se podia objetar: tratava-se do livre exercício da vontade popular, que nesse sentido se manifestava e assim ia tendo os consequentes resultados. Vila Real tinha o que queria. A democracia é isso mesmo.

A oposição protagonizada pelo Partido Socialista, por esses mesmos anos, mostrou-se sempre incapaz de gerar uma alternativa que convencesse os eleitores. Tentou-o por várias vezes, com vários protagonistas, no seu legítimo direito de mostrar que tinha um melhor projeto. Eu próprio procurei “ajudar”, chefiando, em 1997, como independente, a lista do PS à Assembleia Municipal. E perdi. Assim, por erros próprios ou por mérito de quem estava então no poder - cada um terá a sua interpretação - o domínio do PSD foi-se mantendo. Até 2013.

Nesse ano, Rui Santos, um jovem engenheiro com um percurso profissional e político feito na cidade, liderou uma lista que, finalmente, convenceu os munícipes do concelho de que o Partido Socialista, à época na oposição ao governo do país, tinha as soluções certas para a condução dos destinos do município.

Tive o gosto de ir então a Vila Real apoiar essa candidatura, que me pareceu a solução certa para mudar, com projetos novos, o rumo da autarquia. Uma maioria de vila-realenses pensou da mesma forma e Rui Santos foi eleito presidente, com o PS a reverter por completo o anterior domínio do PSD. Em 2017, a expressão numérica da sua reeleição foi ainda mais forte, o que prova a grande confiança que essa alternativa gerou nos eleitores.

Rui Santos concorre agora a um terceiro - e último, por lei - mandato. Tudo aponta para que, no próximo domingo, se processe a sua segunda reeleição, com números igualmente muito confortáveis. 

Já não voto em Vila Real, como fiz por alguns anos. Se o fizesse, o meu voto, sem a menor hesitação, iria para Rui Santos. Para quem me conhece, não seria necessário afirmar isto, mas quis deixar aqui expresso o meu total apoio à lista que o Partido Socialista apresenta em Vila Real. E enviar a Rui Santos o meu abraço solidário.