domingo, abril 19, 2026

Verde



Mesmo ficando em casa, continuo equipado de verde.

O que eu não disse

A graça da vida é o improviso. 

Na sexta-feira passada, fui convidado para falar sobre o tema "Liberdade e Democracia em desordem", num evento na biblioteca municipal de Tavira. (Que belo edifício de Carrilho da Graça!).

Sou um tradicional descuidado nestas coisas: não cuidei em saber o formato do evento. Ao longo da vida, concluí sempre que a melhor forma de intervir em público é deixar que as coisas fluam com espontaneidade. É auto-confiança? Talvez, mas nunca me arrependi.

Sabia que ia ter um interlocutor, Eduardo Campos Martins, uma pessoa que conheço há muito. Desconhecia, contudo, se a conversa se iniciaria com uma primeira intervenção minha ou se passaríamos, de imediato, ao modelo de pergunta-resposta. E nem me lembrei de perguntar. Mas, pelo sim pelo não, preparei um guião. Não é exatamente o que diria se tivesse de falar os usuais 15/20 minutos, mas seria uma orientação para o que podia dizer sobre o tema.

Chegado ao local, o Eduardo disse-me que entraríamos, de imediato, num diálogo. Disse-lheque me tinha preparado para outro cenário, se fosse necessário. E acabou por ser tudo muito diferente - e ainda bem, creio eu! Foi bem mais interessante.

Aqui deixo aquilo o que poderia ter dito:

"Fala-se muito, por estes tempos, da crise da democracia liberal. Detesto a expressão democracia liberal.A democracia é democracia, ponto. Falar em democracia liberal oferece um estatuto de dignificação a um conceito completamente contraditório — o de "democracia iliberal". 

A democracia, que está manifestamente doente, não morreu — em muitos países foi sendo esvaziada. Foi um processo feito de pequenas cedências institucionais, normalizadas uma a uma, que se tornam difíceis de reverter precisamente porque nenhuma delas, isolada, parece suficientemente grave para justificar um alarme. É é este o perigo: não houve um golpe de rua, mas a erosão.

Esta erosão tem hoje um acelerador que as gerações anteriores não conheceram. A tecnologia digital permite que governos - e muitos atores políticos - operem hoje com menos transparência, que as campanhas eleitorais contornem os canais tradicionais de escrutínio e que as mensagens políticas cheguem diretamente a milhões de pessoas sem passar por qualquer filtro. 

O resultado mais visível deste processo é uma espécie de autoritarismo 2.0. Essa força anti- democrática não vem para a rua de armas na mão. Chega com eleições, com discursos e com aplausos. Líderes como Donald Trump, Bolsonaro ou Viktor Orbán mostram que é possível invocar legitimidade democrática e, ao mesmo tempo, conseguir desmontar, passo a passo, as regras da legitimidade real. A forma mantém-se, mas o conteúdo esvazia-se.

O veículo preferido deste autoritarismo é o populismo — não como ideologia, mas como técnica. Divide o mundo em dois campos aparentemente irreconciliáveis: o “povo puro” contra a “elite corrupta”. Não propõe soluções, apresenta uma caricatura de soluções, falsas obviedades, respostas fáceis — e, essencialmente, alimenta ressentimentos. A técnica é explorar mal-estares (não sei se a palavra existe), vindos de todos os lados. 

Curiosamente, o popululismo adapta-se à direita e à esquerda, mas tem sido a extrema-direita europeia - e agora a extrema-direita dos EUA - a utilizá-lo com mais consistência e eficácia. As crescentes desigualdades e as migrações fornecem os factos que esta narrativa transforma em combustível político. 

Neste quadro - e esse é o principal problema - as instituições tornam-se o inimigo. Chamam-lhes o "sistema". Quando alguém afirma que só ele (o "eu" tem aqui um papel central) representa “o verdadeiro povo”, está a afirmar que os tribunais, a comunicação social, os organismos de regulação e os parlamentos se configuram como obstáculos ilegítimos à vontade popular. No passado, se recordarmos, era o anarquismo que tinha esta abordagem radical. Hoje é o populismo. Olhando os casos mais paradigmáticos, esta lógica, quase niilista, que antecede sempre a concentração de poder, prepara o terreno para governar sem limitações reais.

O primeiro alvo concreto do populismo é, quase sempre, a imprensa livre. Não para a calar de imediato — isso seria demasiado visível, embora às vezes aconteça, como foi o caso da Rússia. Ou, em escala diferente, a Hungria. O objetivo é desacreditá-la, sistematicamente, até que os cidadãos deixem de confiar nela. A erosão da confiança precede a limitação formal. E num ambiente em que conteúdos fabricados circulam mais depressa do que as notícias verificadas, esta tarefa ficou muito mais fácil. 

É claro que, ao lado da imprensa livre, mais plural, existe uma espécie de comunicação social (em especial, televisões) que, ela própria, é uma plataforma do populismo - porque o populismo vende, dá audiências.  Dar voz ao vocalistas do escândalo, aos arautos da luta contra "o estado a que isto chegou", cavalgar um ambiente subliminar e muitas vezes artificial de insegurança, de criminalidade, de dúvida sobre a capacidade e real vontade dos poderes de atuarem em função dos reais interesses dos cidadaos, é um serviço feito ao populismo - e nós vemos todos os dias essa tarefa a que se prestam muitos media. E aí estão os títulos redutores dos tablóides, para ajudar à perceçâo: pode não ser mentira, é um "digest" enviesado da verdade. Porque, quase sempre, a mentira vem embrulhada em alguma verdade. 

Neste ambiente, os populistas acusam as “fake news”, os “media manipulados”, os “jornalistas ao serviço de interesses”. Os EUA estão a ser, neste campo e neste tempo, um belo exemplo. Os ataque de Trump à CNN ou ao NYT, a humilhação e apoucamento dos (principalmente das) jornalistas, tudo isso se destina a descredibilizar a informação independente - ou mesmo aquela que é meramente desviante face à narrativa do poder. (Falar de Tucker Carlson e do Truth Social). 

Estas acusacoes têm como objetivo envenenar o ambiente. Quando são repetidas com frequência e por vozes com suficiente audiência, tornam qualquer facto contestável e qualquer investigação suspeita de viés. O cidadão, chegado a certo ponto, não sabe em quem confiar — e é precisamente esse o efeito pretendido. 

Sem uma imprensa livre, desaparece aquilo de que a democracia mais precisa: um conjunto de factos concretos com base nos quais seja possível debater e decidir. Sem esse chão comum, a política deixa de ser uma deliberação e torna-se um mero confronto de narrativas, de "achismos". Cada grupo vive na sua própria realidade informativa, na sua bolha, alimentada por fontes que confirmam exatamente aquilo em que ele já antecipadamente acredita. O espaço comum, necessário à democracia, fragmenta-se — e com ele, a possibilidade de encontrar soluções coletivas. 

As redes sociais sao muitas vezes acusadas de serem as culpadas desta deriva. Elas não foram as criadoras deste problema, mas amplificaram-no de forma exponencial. Os seus algoritmos não foram desenhados para informar — foram desenhados para maximizar o tempo que passamos ligados a estas plataformas. E, nao tenhamos ilusoes: aquilo que mais nos prende ao ecrã não é a informação equilibrada, é a indignação, o escândalo, a confirmação de que o outro lado é mau. A polarização não é um efeito secundário deste modelo — é o seu produto natural. 

Do contrário daquilo que pensamos, chega-nos sempre o mais radical. É a forma de potenciar a nossa indignação. O nosso oposto não é mau - é sempre péssimo! E isso só ajuda a alimentar ainda mais os nossos preconceitos.

Neste quadro, o clickbait é a expressão mais visível deste modelo de negócio. Não é um problema de má qualidade jornalística — é uma escolha económica, embora deontologicamente muito duvidosa, num mercado em que a atenção humana é o recurso mais escasso e disputado. 

Na prática, o clickbait promete algo muito chamativo para despertar curiosidade, mas o conteúdo, o mais das vezes, não corresponde ao que o título sugere. O objetivo costuma ser gerar mais tráfego, visualizações e, claro, receita publicitária. 

Quem capta a atenção, captura a agenda. E a agenda capturada desta forma não é a que serve a democracia — é a que serve o conflito, é o que degrada o debate, é a que polariza e fecha as pontes de um mínimo de consenso. 

O efeito acumulado de tudo isto é o que se pode chamar o reino das perceções. O que parece verdade tornou-se mais poderoso do que o que é realmente verdade. A comunicação política já não procura convencer com argumentos — procura criar imagens, associações, emoções. Na verdade, não é nova a ideia de que a política tem uma dimensão de sedução, de emoção. O que é novo, nestes dias, é a escala, é a precisão e a velocidade com que hoje se pode operar sobre as perceções de milhões de pessoas. 

Neste contexto, a desinformação não precisa sequer de convencer, basta confundir. Um cidadão que não sabe o que é verdade e o que é mentira, que não sabe em que fonte confiar, que vê contradição em tudo — esse cidadão está desarmado. As teorias da conspiração funcionam exatamente assim: não precisam que todos acreditem, basta que instalem a dúvida e tornem tudo igualmente incerto.

Sobre este terreno de incerteza e desconfiança, as agendas do medo crescem com facilidade. O medo é a ferramenta mais antiga da política e continua a ser a mais eficaz: insegurança nas ruas, invasão de estrangeiros, colapso económico, fim do modo de vida que conhecemos. 

As crises climáticas e as migrações são realidades verificáveis e complexas — mas são sistematicamente apresentadas não como problemas que exigem uma resposta racional, mas como catástrofes iminentes que exigem líderes capazes de agir sem demoras nem discussões. 

Quando tudo parece ameaça e o futuro parece incontrolável, a procura de segurança sobrepõe-se à proteção e preocupação com os direitos. É assim que as democracias cedem voluntariamente. O cidadão não abre mão da liberdade de forma consciente — abre mão dela em troca de uma promessa de ordem, de segurança perante o que pode estar a seguir à curva. E essa troca raramente é anunciada com clareza: acontece por acumulação, mesmo por cansaço. 

O cansaço é, aliás, o fator central. A desorientação dos cidadãos não é apenas um efeito colateral de tudo o que foi descrito — é, muitas vezes, um objetivo deliberado. Cidadãos exaustos pela sobrecarga de informação contraditória, confusos sobre aquilo que é real, que estão desiludidos com a política, tendem a afastar-se, a tornar-se indiferentes. E o afastamento cívico é extremamente conveniente para quem quer governar sem escrutínio e sem ter de prestar contas. 

A abstenção é a forma mais visível deste afastamento — e é importante percebê-la e combatê-la. Não votar não é uma posição neutra. É uma escolha com consequências concretas: beneficia sempre quem quer menos fiscalização e quem tem menos a ganhar com uma participação alargada. Quando a maioria se abstém, quem decide são as minorias mais organizadas e mais motivadas — e são frequentemente as dos extremos. 

Perante a escassa sedução que as agendas moderadas trazem — porque são os que nada mudam, nada querem mudar, andam nisto 'há 50 anos", como entre nós dizem os demagogos  — o cidadão confuso e sem referências, ou se torna um cético da vida cívica ("eles sao todos iguais, nao saímos disto!") ou deriva para as perspetivas radicais: "O que é preciso é deitar abaixo isto: depois, logo se vê,". É uma atitude em que convem saber separar o que é ideologia e o que é sentimento. Muitas vezes nada disso é qualificável rigorosamente em esquerda e direita. 

Perante tudo isto - e volto ao que comecei por dizer - a tentação de concluir que a democracia está condenada é compreensível. Essa é uma perspetiva derrotista que não devemos aceitar. 

A democracia, em muitos lugares, está doente, mas não morreu. As democracias têm instrumentos para resistir a estas pressões: eleições transparentes e escrutinadas, uma justiça independente, imprensa livre e financeiramente sustentável, uma sociedade civil ativa e com acesso real à esfera pública. Isso ainda existe e devemos apoiá-lo.O problema não é a falta de instrumentos — é a erosão progressiva das condições que permitem que esses instrumentos funcionem. 

A legitimidade democrática não se decreta — constrói-se, continuamente, através de processos que os cidadãos reconheçam como justos e de instituições que resistam à pressão, sem se dobrar. O avanço da extrema-direita em França, na Alemanha ou na Itália - mas também no RU e nos EUA - não é um acidente histórico nem uma anomalia passageira: é o resultado acumulado de desigualdades não resolvidas, de medos não respondidos e de uma prática política que durante demasiado tempo falou sobre os cidadãos em vez de falar com eles. 

A juventude é o nó central desta questão. Não porque lhes sejam indiferentes as questões da liberdade. Mas porque lhe comeca a ser indiferente uma democracia que não resolve os seus problemas concretos imediatos: habitação inacessível, emprego precário, futuro incerto. Se a democracia não souber responder a estas questões com propostas credíveis, outros responderão — com supostas soluções simples para problemas complexos, mas com uma capacidade de mobilização emocional que a política tradicional raramente consegue igualar. Pelo menos até se mostrar, pela prática, que aqueles que falam nas soluções miraculosas afinal nao resolvem os problemas. Foi a economia que derrotou Orbán. Mas, para tal, foi necessário que as sociedades experimentassem a extrema-direita no poder.

Dar razões aos jovens para defender a democracia não é pedir-lhes que sejam gratos por uma herança que não escolheram. É mostrar-lhes, com factos e com exemplos concretos, que as alternativas já foram testadas — e que o preço foi sempre pago pelos mais vulneráveis, pelos que tinham menos poder para se proteger. E é mostrar-lhes também que a democracia, quando funciona, é o único sistema que permite corrigir os seus próprios erros sem recorrer à violência. E essa não é uma sua virtude menor. 

A desordem em que vivemos, nos dias de hoje não é o fim da democracia. É, contudo, o seu teste mais sério desde a Segunda Guerra Mundial. E nós, os democratas, somos responsaveis por provar que a resposta não virá de líderes providenciais — esses fazem parte do problema, não da solução. Virá da reconstrução paciente das condições que tornam a democracia possível: instituições que funcionam, informação verificável, eleições em cujos resultados se pode confiar e cidadãos que recusam, mesmo quando estão cansados, abdicar de pensar. 

Termino com seis razões para não desistir, que me parecem óbvias:

1. As instituições, embora pressionadas, continuam a funcionar em grande parte das democracias consolidadas. Tribunais constitucionais em vários países europeus têm travado os abusos de poder e têm mantido o Estado de Direito a funcionar, mesmo contra a vontade dos governos em exercício. A pressão autoritária existe — mas a resistência democrática também. 

2. A alternância de poder pode acontecer, mesmo em contextos de forte polarização. Viu-se na Polónia e na Hungria: governos perderam eleições e entregaram o poder. A democracia resistiu onde muitos duvidavam que resistisse — e isso não é pouco. 

3. Há uma nova geração politicamente consciente, ainda que desconfiada das formas tradicionais de participação. Os jovens mostram níveis de envolvimento acima da média em causas como a transparência governamental e a regulação das grandes plataformas tecnológicas. Não estão ausentes — estão noutras áreas, com outras linguagens. Mas têm de ser os jovens a falar entre eles. O paternalismo geracional já deu o que tinha a dar. O futuro é deles, o futuro é o lugar onde eles vão passar o resto dos seus dias - e nós não... 

4. O jornalismo mantém ainda uma boa capacidade de expor abusos. A informação verificada ainda tem poder — e ainda incomoda quem tem algo a esconder. Resta tentar evitar que aquilo que a informacao verdadeira expoe seja raptada por agendas extremistas. As redes sociais não são apenas um espaço para a mentira, podem ser um instrumento para a verdade e para a denúncia da mentira. E devem ser usadas também para isso.

5. A sociedade civil reage quando algo de essencial está verdadeiramente em causa. Em vários países europeus, muitas propostas que ameaçavam a independência dos tribunais foram travadas ou alteradas,  em resultado de mobilização cívica organizada — petições, manifestações, pressão pública sustentada. A cidadania ativa não desapareceu. E tem de ser alimentada.

6. A história recente mostra que retrocessos democráticos podem ser revertidos. Há Trump? Claro que sim, mas há mais vida para além de Trump. E o mundo, acreditem, já passou por momentos muito mais dramáticos. E nós cá estamos, cá continuamos, a dizer o que muito bem entendemos."

sexta-feira, abril 17, 2026

"A Arte da Guerra"


Com António Freitas de Sousa, em "A Arte da Guerra", continuamos naturalmente a falar do conflito no Golfo, mas também damos atenção à crise no Líbano, à polémica entre Trump e o papa e às mudanças no governo da Hungria.

Pode ver aqui.

quinta-feira, abril 16, 2026

Tavira, dia 17, sexta-feira

 


Excelentes escolhas

São excelentes as escolhas feitas por António José Seguro para o Conselho de Estado. Um conjunto muito equilibrado e com figuras de grande qualidade. O presidente da República começa muito bem.

quarta-feira, abril 15, 2026

Grande Vicente!


Isto de haver gente amiga atenta é muito bom. António Pedro Faria, que conduziu meio mundo luso em Nova Iorque e deixou esse memória num livro, teve agora a amabilidade de me enviar a minha imagem com o grande Vicente, com a Cruz de Cristo do seu Belenenses ao peito, uma fotografia que eu tinha perdido, como referi em outro post. 

Vicente


Sou um desorganizado. Não sei onde tenho uma fotografia que tenho com Vicente Lucas, que morreu ontem.

Um dia de 2005, fui de Nova Iorque, onde então trabalhava, a Newark, entre outras coisas para assistir a parte de um jogo de futebol onde intervinham, numa das equipas, velhas glórias (outros nem tanto) do futebol português. Só recordo dois nomes que ali estavam, ambos defesas. 

Um deles era Cruz, antigo lateral esquerdo do Benfica. Não tive então coragem de lhe perguntar se era verídica a resposta que teria dado, durante um Portugal-Espanha no Jamor, ao selecionador nacional Manuel da Luz Afonso, quando este o repreendeu por estar a deixar passar, com excessiva facilidade, o "ponta direita" espanhol, o extraordinário Amancio. Cruz, que era mais "sarrafeiro" do que tecnicista, razão porque não veio a evitar que Hilário se eternizasse no lugar, teria respondido: "Amanse-o o senhor ..."

O outro era o Vicente, irmão de Matateu, esteio da defesa dos "magriços" da equipa de 1966, ao lado de José Carlos. Encarregado de marcar Pélé, cumpriu com imensa eficácia e "fair play" essa função, como o próprio "rei" reconheceu. E não foi ele - foi Morais - quem, tristemente, ajudou a dar cabo do joelho de Pélé, nesse jogo em que ganhámos por 3-1.

Nessa tarde, ainda antes do jogo, pedi para tirar uma fotografia com o Vicente — logo eu, que sou pouco dado ao cultivo desse tipo de "instantâneos" com figuras. Anos antes, Vicente tinha perdido uma vista, num acidente de viação. Era uma figura muito simpática, modesta, como constatei quando lhe disse a grande admiração que tinha por ele.

E agora não sei onde anda a fotografia. Ora bolas!

terça-feira, abril 14, 2026

Sarko


O antigo presidente francês Nicolas Sarkozy prossegue o seu longo calvário nos tribunais. Embora já condenado em termos definitivos em diversos processos, tem outros em curso — e alguns podem agravar em muito a sua situação penal. Já passou uns dias na Santé (a clássica prisão de nome irónico) e não é impossível que lá regresse. O caminho que o espera é o das pedras.

Nos últimos dias, Sarkozy colocou-se, em tribunal, contra Claude Guéant, aquele que foi o seu mais íntimo colaborador — desde o Eliseu, de que foi secretário-geral, até ao (em França) muito poderoso cargo de ministro do Interior. Guéant está gravemente doente, com problemas cardíacos sérios, e não pode comparecer às audiências. Contudo, no dia de hoje, deixou por escrito uma resposta dura a insinuações, que me pareceram muito baixas, do ex-presidente. Tudo isto a propósito de alegados financiamentos da Líbia de Kadhafi para efeitos eleitorais.

Destruído politicamente, derrotado pela justiça francesa, sem hipóteses de qualquer retorno, Sarkozy mantém viva uma imagem positiva junto de muita gente no seu país. Muitas pessoas da direita francesa têm saudades dele — o que também é alimentado pela atual má gestão do património político que deixou, entretanto bastante absorvido por Macron e por Le Pen, cada um à sua maneira.

Mas as decisões da justiça não apagam certas lealdades. Há não muito tempo, num jantar em Lisboa, fiquei sentado ao lado de uma senhora francesa. Falou-se da política do seu país e, como é natural, não tardou a surgir o nome de Sarkozy, cuja prisão efetiva, por alguns dias, tinha tido lugar semanas antes. Eu disse que conhecia muito bem o pensamento político dele, que tinha lido todos os livros de Sarkozy, com exceção do último, em que ele relatava precisamente a sua breve experiência na prisão. A cara animou-se-lhe: por ser leitor, julgava-me fã do político.

A senhora, curiosamente, de Sarkozy, só tinha lido esse tal livro. E disse-me: “Devia ler. É muito bom.” Expliquei que não tinha curiosidade e que me parecia uma obra um tanto oportunista. Ela percebeu que se tinha enganado a meu respeito e escandalizou-se: “Oportunista? Mas ele está completamente inocente, como toda a gente sabe…” Aí fui eu quem reagiu: “Mas se toda a gente sabe, por que é que ele tem vindo a ser condenado, processo atrás de processo?” Ela foi perentória: “É uma invenção dos juízes!” 

Não resisti, e até porque a senhora tem residência em Portugal, conhece nossa língua e foi casada com um cidadão português, inquiri: “E Sócrates? Qual é a sua opinião? Também está inocente? Se a justiça o condenar será um erro judiciário? Ao contrário de Sarkozy, Sócrates ainda não foi condenado por nada, em nenhum processo.” 

Tergiversou na resposta — o que me fez pressupor que a minha companheira de mesa tinha mais fé na assertividade da justiça portuguesa do que na do seu próprio país. Mudámos de conversa.

Casa dos Açores



Foi ontem, na Casa dos Açores em Lisboa, com casa cheia. Uma palestra sobre a situação internacional, em que tive o agradável e informado contraponto de Henrique Monteiro. 

O debate que se seguiu foi muito animado. Queijo da ilha e um "Pico de Honra" fecharam a sessão, quase duas horas e meia depois do seu início. E eu tive de sair cedo, por ter outro compromisso.

Debate

O problema do debate de Pacheco Pereira é só um: soube que foi ali dada uma oportunidade de ouro, em prime time, ao argumentário anti-democrático e ao branqueamento do fascismo, que só reforçou os "factos alternativos" na cabeça de quem já lá só tem o que sabemos. Não se brinca estas coisas! E brincou.

Porto

 


segunda-feira, abril 13, 2026

TACO

"Iran controls the Strait of Hormuz and it is open for us", diz um porta-voz oficial chinês.

Aceito apostas em como, neste caso e uma vez mais, vai funcionar a doutrina TACO ("Trump always chickens out" equivalente a "Trump recua sempre").

E as ogivas de Leão?

Ao olhar a diatribe de Trump contra o papa Leão, não pude deixar de lembrar uma história, verdadeira ou falsa, com mais de 90 anos. 

Stalin recebia o fascista francês Pierre Laval, então ministro dos Estrangeiros, que, uma década depois, viria a ser fuzilado por colaboracionismo com os nazis, ao tempo em que foi primeiro-ministro do governo de Vichy.  

Laval ter-lhe-á dito que o papa Pio XI havia criticado as perseguições aos cristãos na URSS. A resposta desdenhosa de Stalin ficou nos anais: “E quantas divisões é que tem o papa?”

Não deve tardar muito até que Trump reaja às críticas do Vaticano com um: "Quantas ogivas tem o papa?"

Este homem não está bem!

 


Isto não é falso!


Esta é uma imagem colocada por Donald Trump, sob a sua responsabilidade pessoal, na página que tem na rede social Truth Social. Acho que qualquer comentário é dispensável. Repito: isto não é "fake".

"The right thing"

Churchill dizia que "Americans can always be trusted to do the right thing, once all other possibilities have been exhausted". Com Trump, a possibilidade de alguma vez vir a fazer a "right thing" parece muito remota, porque o seu portfolio de asneiras parece inesgotável.

Não quero parecer bruxo...


... mas apetece-me pedir-lhes que leiam este post que coloquei no blogue vai para uma década.

domingo, abril 12, 2026

Da democracia na Hungria

A grande notícia que decorre da derrota de Viktor Orbán é o facto da democracia na Hungria, que esteve ameaçada nos últimos 15 anos por várias práticas autoritárias do até agora presidente, ter revelado estar afinal de boa saúde, permitindo uma serena alternância por via do voto.

A voz húngara


Há cerca de seis anos, fui convidado pela fundação alemã Bertelsmann para representar Portugal como perito num estudo independente dedicado tema "Europe’s Coherence Gap in External Crisis and Conflict Management'', um trabalho ao qual associei, em co-autoria, Patrícia Magalhães Ferreira, e que foi posteriormente editado em livro.

A regra era esses trabalhos não terem um caráter oficioso. Era dada aos peritos a oportunidade de fazer uma apreciação independente da ação do seu Estado, de natureza crítica, com total distância face aos poderes políticos nacionais. O estudo sobre Portugal não passou pelo crivo de nenhum ministério.

Quando, numa das últimas reuniões em Bruxelas, que tinham lugar no Centre for European Policy Studies, entidade associada à iniciativa, foi abordada a questão da liberdade que reivindicávamos para cada um de nós, o nosso colega húngaro, a pessoa que a Bertelsmann tinha convidado para escrever o relatório sobre o seu país, afirmou mais ou menos isto: "Gostava que soubessem que não me posso comprometer a entregar o meu texto sem antes o fazer passar pelo crivo das minhas autoridades. As coisas são assim na Hungria. Não tenho, infelizmente, a margem de manobra que, pelos vistos, todos vocês têm. Vou ter de submeter o meu texto ao governo húngaro, antes de preparar a versão final do capítulo sobre a Hungria".

Fez-se um silêncio embaraçado na sala. Todos ali percebemos bem, nesse instante, que a Hungria tinha um regime político que, não obstante usufruísse de um estatuto formalmente idêntico ao dos restantes Estados-membros, vivia sob condicionantes muito próprias em matéria de liberdades.

Na noite de hoje, com Orbán fora do poder, quero crer que o nosso amigo Gyorgy Tatar deve estar a comemorar.

Takes

1. Os EUA acabam de anunciar que vão bloquear as entradas e as saídas do estreito de Ormuz, o qual, recordo, estava totalmente aberto à circulação antes do ataque israelo-americano ao Irão. Ao assim procederem, os EUA infringem regras do Direito do Mar, prejudicando muitos aliados.

2. Estou com alguma curiosidade em conhecer a nacionalidade dos países que irão ajudar os EUA a bloquear o estreito de Ormuz, como Trump diz que irá acontecer, numa publicação há pouco na TruthSocial. Qual será o sentimento dos profissionais do "State Department"?

3. Trump pregou uma rasteira ao seu vice-presidente — que foi uma imposição do MAGA — ao enviá-lo para uma "negociação" que sabia que não iria resultar. Vance não podia recusar e voltou com "uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma", como diria Irene Lisboa.

4. Os iranianos desrespeitaram as leis internacionais ao bloquearem o estreito de Ormuz. É verdade. Os Estados Unidos anunciaram que vão bloquear o estreito de Ormuz. Quid juris?

5. Não se admirem se alguns soit-disant líderes europeus acabarem por ceder à chantagem de Trump e vierem a alinhar numa operação militar no Golfo — onde, recordo, o estreito de Ormuz estava aberto à circulação antes de Israel, com os EUA à arreata, atacarem o Irão.

6. É minha impressão ou o que Trump disse em relação à China pode ser "a bridge too far"? 

7. Há dias, fui a Mirandela buscar alheiras. Para lá chegar, tive de atravessar Golfeiras. Nem o Irão é Mirandela, nem o petróleo são alheiras, nem o Golfo é Golfeiras, nem há bloqueio.

sábado, abril 11, 2026

Dislate


Eu sei que, nos fins de semana, as redações têm mais estagiários. Mas devia haver um "adulto na sala" que impedisse este tipo de dislates jornalísticos.

Maria Emília Brederode Santos


Um dia, escrevi aqui sobre as "giocondas" — as mulheres de sorriso enigmático que, ao entrarem numa sala, deixam um rasto de serenidade, ao mesmo tempo intrigante e elegante. Confesso que tinha na ideia duas amigas: Teresa Gouveia e Maria Emília Brederode Santos.

A Maria Emília morreu hoje, com 84 anos. Foi uma mulher de coragem, ao lado do grande amor da sua vida, José Medeiros Ferreira. Acompanhou-o no exílio e foi precisamente desse destino partilhado que a Maria Emília trouxe ao Congresso Republicano de Aveiro, em 1973, a comunicação em que Medeiros Ferreira, com inteligência premonitória, desenhou o quadro político-militar que iria “resolver” o 25 de Abril.

Mas a Maria Emília era muito mais do que a mulher do José Medeiros Ferreira. Tinha uma vida profissional e intelectual própria, centrada na educação, área onde assumiu responsabilidades singulares. Valerá também a pena recordar os seus excelentes programas na RTP.

Era irmã do Nuno Brederode — cuja obra quase completa ambos ajudámos a apresentar, há anos, numa bela sessão na Câmara de Lisboa. Espelhava, em tudo o que dizia, uma forte densidade. O seu humor, culto e preciso, tinha um registo deliberadamente diferente daquele em que o irmão mais novo era imbatível. Nas muitas e belas noites da tertúlia da “mesa dois” do Procópio, lembro-me de que tinha sempre uma palavra certa e delicada para todos.

Vimo-nos pela última vez há já algum tempo, numa boleia que lhe dei, depois de um almoço qualquer. Ela seguia para um evento público do PS a que eu disse que não tinha vontade de ir. Estranhou essa minha atitude: "Tem de me explicar um dia esse seu estado de espírito face ao PS". Deixei-a à porta.

Há meses, a propósito de um livro do Nuno Brederode Santos que jaz, sem préstimo, nos armazéns de uma editora — ah, pois é! Deixo a novidade — prometi a alguém falar com a Maria Emília. Ela talvez pudesse ajudar a desbloquear o impasse que está a impedir a saída do livro. 

Hoje, abri o “A fazer” no meu telemóvel e lá estava a nota, o nome dela, ao lado de outras dezenas de lembretes sem sequência útil. A procrastinação é um defeito que, com o tempo, tenho vindo a aperfeiçoar de uma forma que pede meças.

O Zé Medeiros partiu há muito. O Nuno também. E agora sai de cena a Maria Emília. Resta aceitar as leis da vida — estranha expressão que usamos para nomear o imperativo da morte.

Adeus, Maria Emília.

E então?

Que o Irão não possa ter acesso a um programa de enriquecimento nuclear com a mínima hipótese de vir a ser convertido para finalidades militares é algo indiscutível. Já acho mais estranho que ninguém se interrogue sobre as 90 ogivas nucleares que Israel possui. Não são um perigo?

"A Arte da Guerra"


Esta semana, em "A Arte da Guerra", António Freitas de Sousa e eu havíamos de falar de quê? 

Ver aqui.

José Matos Fernandes


Com imensa pena, acabo de saber da morte de José Matos Fernandes, aos 85 anos. Era pai de João Pedro Matos Fernandes, que foi ministro do Ambiente e a quem envio um abraço amigo de sentido pesar.

Fui colega de governo de José Matos Fernandes. Coincidimos no primeiro executivo de António Guterres, que tomou posse em outubro de 1995, em que ele foi secretário de Estado da Justiça, até 1999. Era o decano dos secretários de Estado — sete anos mais velho do que eu, que já não era propriamente um miúdo. 

Com um humor fantástico, histórias divertidíssimas e, dizem-me, uma imensa competência jurídica, era um companheiro magnífico. Recordo uma viagem em que ambos acompanhámos o Presidente Jorge Sampaio à Polónia e as horas deliciosas que passámos a rir. Ao pé dele, toda a gente se sentia feliz.

Matos Fernandes, Guilherme Oliveira Martins e eu éramos conhecidos como os “chatos” das reuniões semanais de secretários de Estado, presididas pelo ministro da Presidência António Vitorino. Os três partilhávamos o saudável — e para alguns irritante — vício de passar a pente fino, na véspera, todos os projetos de diplomas legislativos que chegavam de outros ministérios.

Terminada a apresentação de um projeto pelo secretário de Estado do pelouro, e aberta a discussão, quase sempre um de nós três pedia a palavra e, sob o olhar progressivamente sombrio do colega proponente, começava a inventariar os defeitos detetados no texto.

Lembro-me de uma cena em que Matos Fernandes arrancou mais ou menos assim: “O projeto de decreto, cuja bondade de propósitos é uma evidência, e que só posso saudar, não me merece objeções de fundo. Diria mesmo que estaria aberto a deixá-lo seguir silenciosamente para Conselho de Ministros não fora dar-se o caso, no meu juízo, que admito discutível, de haver oito incongruências dentro do articulado e, além disso, se me oferecerem 37 pequenas observações de forma, felizmente sanáveis por correção semântica e ortográfica que passo a anotar, a bem da desejável qualidade da produção legislativa da República.”

O Conselho ouvia o seu verbo com ar deliciado e risonho. O colega proponente, esse, tinha muitas vezes a  a expressão de quem tinha engolido um limão. E lá alinhava o Matos Fernandes, com a sua solenidade de juiz do Supremo, “a vírgula em falta”, a “concordanciazinha indispensável”, a reformulação formal para “maior elegância do português”, “até para reforçar o insofismável mérito do legislador e facilitar a tarefa do intérprete futuro da lei”. Eram momentos únicos, como se lembrará quem por lá passou.

Que saudades sinto agora de José Matos Fernandes — daquela voz cava inconfundível, da bonomia de bom homem do Norte, onde também era um fervoroso apoiante e dirigente de uma conhecida agremiação futebolística que não vem agora ao caso.

sexta-feira, abril 10, 2026

Good news!

Kamala Harris admite candidatar-se de novo. Finalmente, Donald Trump recebe uma boa notícia! 

Fico

Se Orbán perder as eleições, o único líder europeu com uma postura mais anti-ucraniana e "russian friendly" é o primeiro-ministro da Eslováquia Robert Fico. Se assim acontecer, no domingo dirá para si mesmo: "Fico só eu..."

Ordem dos Economistas, Porto

 


Universidade Fernando Pessoa, Porto

UFP promove IV Congresso Internacional de Ciência Política e Relações Internacionais 

20 de abril • Salão Nobre



Biblioteca Municipal de Tavira, sexta-feira, 17 de abril

 



Casa dos Açores, Lisboa

 


Catarro


Na minha terra, perante uma coisa como esta, costuma dizer-se: "já a formiga tem catarro"


For once?

With his acolyte Mark Rutte at his side — Secretary General of a NATO that should safeguard collective North Atlantic security, rather than follow Washington’s global ambition— Donald Trump has issued an ultimatum to a Europe he knows is held hostage by its own security anxieties. 

If there were a modicum of dignity on this side of the Atlantic — and there are growing reasons to doubt there is much left — someone should be saying, loud and clear, to Trump that it is for the United States to extricate itself from the quagmire into which it has slipped in the Gulf, in tow with Israel. 

It was Washington’s choices, not Europe’s, that triggered the tensions now threatening to spread. Europe cannot be asked to foot the bill for adventures in which it was not even consulted. It is obscene to hear the United States claim it is acting in defence of the interests of those it repeatedly despises and insults. Those interests were, for example, clearly reflected in the nuclear agreement signed with Iran — an agreement Trump abandoned. 

It is, of course, recognised that there are now very concrete interests at stake. Iranian oil is needed, energy routes matter, and stability in the Gulf has a real impact on European economies. But the short-term logic of interests cannot become a licence for strategic irresponsibility. Europeans cannot be dragged along into a region where, at any moment, they could be caught in a new cycle of war — a cycle Israel makes no secret of being keen to restart. 

And this is where indignation cannot be restrained by any calculation of convenience. After the outrage of recent hours in Lebanon. After Gaza — the systematic destruction of a population, documented, filmed, and counted in tens of thousands of deaths. After the West Bank, where settlement continues with the slow, relentless method of those who know the world is looking the other way. In the face of all this, either Europe is able to take a firm stance towards Israel — and let it be clear: much of Israel’s military equipment is still supplied by European states, making Europe objectively complicit in the crimes committed with it — or it loses, definitively, what remains of its former moral authority, on which its civilisational project was built. Not the authority proclaimed in summit after summit, but that which is built on coherence between words and actions, between declared values and the destination of the weapons that are sold. 

A pragmatic objection will be anticipated: a firm position would irritate Trump. It could lead him to try to divide the continent, playing capitals against one another, as was done so effectively in the Iraq war, when Rumsfeld separated “old” Europe from “new”. 

Of course that risk exists, and it would be naïve to deny it. But what more can Trump do? More tariffs? Withdraw his troops from Europe? The Americans are not in Europe for our “beautiful eyes”; they are here, as at Lajes, because it forms part of their security project — to protect their interests, which until now have also aligned with ours. 

The alternative — complicit silence, quiet submission, anticipatory alignment — has a name Europe was once thought to have learned to detest: appeasement. And appeasement cannot be a vice only when directed eastwards, as dominant rhetoric often suggests. It is equally degrading — and equally dangerous — when practised towards those who, from Washington or Tel Aviv, expect Europe to accept, head bowed, that its values are negotiable and its principles merely decorative. 

These are the moments when Europe has an obligation to remember that it is a democratic entity, that it has public opinions to which its governments are accountable, and that it stands for a project with a moral foundation — the same one that led almost everyone to condemn when they heard Trump threaten that “an entire civilisation” would perish if it did not do as he wished. 

European citizens deserve leaders who do not confuse prudence with capitulation. To see their governments falling in line like lambs behind Trump would not only be a betrayal of the values they proclaim — it would be an abdication that history rarely forgives. 

Looking at how the world has reacted in recent days to the drama in the Gulf, it seems clear that taking a stand against Trump, without hostility but with calm firmness, would strike a chord with large sections of European public opinion. Indeed, one might say: for once, in a long time, Europe would become popular with its own citizens. If only there were the courage to do so.

Por uma vez?

Com o seu acólito Mark Rutte à ilharga — secretário-geral de uma NATO que deveria servir a segurança norte-atlântica coletiva e não os caprichos de Washington pelo mundo —, Donald Trump lançou um ultimato a uma Europa que ele sabe estar refém dos seus próprios medos em matéria de segurança.

Se houvesse um módico de dignidade deste lado do Atlântico — e há razões crescentes para duvidar que reste muito —, deveria ser dito, alto e bom som, a Trump que compete aos Estados Unidos desenvencilharem-se do atoleiro em que, a reboque de Israel, se deixaram cair no Golfo. 

Foram as opções de Washington, e não as da Europa, que deflagraram as tensões que agora ameaçam alastrar. A Europa não pode ser convocada a pagar a conta de aventuras em que não foi sequer consultada. É obsceno ouvir os EUA dizerem que atuam na defesa dos interesses daqueles que desprezam e constantemente ofendem. Esses interesses estavam, por exemplo, bem representados no acordo nuclear assinado com o Irão, que Trump abandonou.

Reconhece-se, naturalmente, que há agora interesses muito concretos em jogo. O petróleo iraniano faz falta, as rotas energéticas importam, a estabilidade do Golfo tem um peso real nas economias europeias. Mas a lógica imediatista dos interesses não pode servir de passaporte para a irresponsabilidade estratégica. Os europeus não podem ir a reboque para uma zona onde, num instante, poderão ser apanhados num novo ciclo de guerra — um ciclo que Israel não esconde estar desejoso de recomeçar.

E é aqui que a indignação não pode ser contida por um qualquer cálculo de conveniência. Depois da infâmia das últimas horas no Líbano. Depois de Gaza — a destruição sistemática de uma população, documentada, filmada, contabilizada em dezenas de milhares de mortos. Depois da Cisjordânia, onde a colonização avança com a metodologia lenta e implacável de quem sabe que o mundo olha para outro lado. Perante tudo isto, ou a Europa é capaz de tomar uma atitude firme face a Israel — e que fique claro: muito do material militar israelita continua a ser fornecido por Estados europeus, tornando a Europa cúmplice objetiva dos crimes com ele praticados—, ou perde, definitivamente, o pouco que lhe resta da antiga autoridade moral em que assentou o seu projeto civilizacional. Não a autoridade que se proclama em declarações cimeira após cimeira, mas aquela que se constrói na coerência entre o que se diz e o que se faz, entre os valores que se invocam e o destino das armas que se vendem.

Antecipar-se-á a objeção pragmática: uma posição firme irritaria Trump. Poderia levá-lo a tentar dividir o continente, a jogar as capitais umas contra as outras, como foi feito com tanta eficácia no caso do Iraque, quando Rumsfeld separou a “velha” Europa da “nova”. Claro que sim. Esse risco existe e seria ingénuo negá-lo. Que pode Trump fazer mais? Mais "tarifas"? Tirar as suas tropas da Europa? Os americanos não estão na Europa pelos nossos "lindos olhos", estão cá, como nas Lajes, porque isso faz parte do seu projeto de segurança, para proteção dos seus interesses, que até agora coincidiam com os nossos.

A alternativa — o silêncio cúmplice, a submissão discreta, o alinhamento por antecipação — tem um nome que se julgava que a Europa tinha aprendido a detestar: apaziguamento. E o apaziguamento não pode ser um vício apenas em direção ao Leste, como a retórica dominante insiste em repetir. É igualmente degradante — e igualmente perigoso — quando praticado em direção a quem, de Washington ou de Telavive, exige da Europa que aceite, de cabeça baixa, que os seus valores são negociáveis e que os seus princípios são ornamentais.

É nestes momentos que a Europa tem obrigação de lembrar-se de que é uma entidade democrática, que tem opiniões públicas perante as quais os seus governos respondem, que afirma um projeto com uma base moral — a mesma que levou quase toda a gente a indignar-se quando ouviu Trump ameaçar que “uma civilização inteira” morreria se não fizesse o que ele queria. 

Os cidadãos europeus merecem dirigentes que não confundam prudência com capitulação. Ver os seus governos alinhar como cordeiros atrás desse mesmo Trump seria não apenas uma traição aos valores que proclamam — seria uma abdicação que a história não costuma perdoar. 

Olhando para o modo como o mundo reagiu nos últimos dias perante o drama do Golfo, parece claro que a opção por enfrentar Trump, sem a menor hostilidade mas com uma serena firmeza, seria uma atitude que arrastaria consigo largos setores da opinião pública europeia. Eu diria mesmo: por uma vez, desde há muito, a Europa tornar-se-ia popular aos olhos dos seus cidadãos. Houvesse coragem para isso.

Oportunidade


Dada a popularidade de que Trump dispõe hoje pelo mundo, é capaz de não ser uma grande ajuda para Viktor Orbán este "endorsement".

quinta-feira, abril 09, 2026

A vingança

Como era expectável, Israel vinga-se no Líbano daquilo que não obteve no Irão. Estejamos atentos a Gaza e à Cisjordânia.

Coluna


Passei a tarde de ontem à volta de caixotes com livros. Estou a selecionar mais algumas largas dezenas que, no final desta semana, irão engrossar o fundo bibliográfico que, desde há uns anos, vou alimentando na Biblioteca Municipal da minha terra, Vila Real. 

Abrir caixotes e carregar livros (deixo de parte alguns que espero vir a reler e outros que tenciono ler ainda pela primeira vez) é uma tarefa pesada, que obriga a posturas físicas com as naturais consequências lombares. Saí um pouco moído daquelas mais de duas horas de forçado exercício. E, naturalmente, com a minha coluna a queixar-se, num silêncio doloroso. 

A um amigo que entretanto me telefonou contei isso mesmo. Respondeu-me: "Viste o que o Rutte disse à CNN, depois do encontro com o Trump? Aquele tipo é que tem sorte! Não tem coluna vertebral". 

Não vi a entrevista de Mark Rutte à CNN. Não me apetece deparar com o sorriso plástico daquele regular bajulador de Trump, uma das figuras mais deprimentes da vida política transatlântica. Que a NATO tenha escolhido uma figura daquele jaez para seu secretário-geral diz bastante do estado a que chegou a organização. 

O meu amigo tem razão: Rutte não tem coluna vertebral. E Trump sabe isso bem.

quarta-feira, abril 08, 2026

O Gemini e o acordo de cessar-fogo

Perguntei ao Gemini quem ganhou e quem perdeu nesta fase da guerra EUA-Irão. Eis a resposta:

A análise estratégica do cessar-fogo de 8 de abril de 2026 revela um cenário de "vitórias declaradas" por ambos os lados, mas com nuances complexas que favorecem diferentes atores em campos distintos. Após 40 dias de conflito, a trégua de duas semanas mediada pelo Paquistão e influenciada pela China interrompe uma escalada que ameaçava a economia global.

Aqui está o balanço estratégico de quem ganhou e quem perdeu:

1. Os "Vencedores" Estratégicos

• Paquistão e China (Os Mediadores): * Paquistão: Emergiu como o mediador improvável e eficaz, elevando seu status diplomático global ao conseguir o que potências ocidentais não conseguiram.

• China: Consolidou-se como o garantidor da estabilidade energética. Com 90% do petróleo iraniano indo para Pequim, a reabertura do Estreito de Ormuz é uma vitória direta para sua segurança industrial.

• Donald Trump (Narrativa Política): * Ao utilizar sua marca de "art of the deal", Trump evita uma guerra terrestre prolongada em ano eleitoral, apresentando-se como o pacificador que evitou o colapso econômico (o preço do petróleo caiu de US$ 110 para US$ 94 logo após o anúncio).

• Irão (Sobrevivência do Regime): * Apesar da destruição de grande parte de sua marinha e da eliminação de lideranças militares, o regime de Teerã provou-se resiliente. O fato de os EUA aceitarem negociar sem a rendição total e a discussão sobre o levantamento de sanções e reconstrução é visto internamente como uma vitória da resistência.

2. Os "Perdedores" Estratégicos

• Israel (Segurança Regional): * Embora tenha participado ativamente da campanha aérea, o governo de Benjamin Netanyahu manifestou descontentamento, pois o acordo não inclui o Líbano (Hezbollah). Para Israel, uma trégua que deixa as capacidades de mísseis do Irã e seus proxies intactas é vista como uma oportunidade perdida de resolver a ameaça existencial.

• A População Civil (Irão e Região): * O custo humano foi altíssimo em apenas 40 dias. O Irão enfrenta infraestruturas destruídas, apagões de internet e repressão interna, enquanto países vizinhos sofreram baixas e instabilidade econômica severa.

• A Ordem Internacional "Tradicional": * A marginalização das instituições europeias e da ONU na mediação final, substituídas por uma coalizão liderada pelo Paquistão com apoio chinês, marca um deslocamento do eixo de influência global.

O Perplexity e o acordo de cessar-fogo

Perguntei ao Perplexity quem ganhou e quem perdeu nesta fase da guerra EUA-Irão. Eis a resposta:


Os EUA, sob Trump, ganharam a vantagem estratégica principal no acordo de trégua com o Irã.
Forçaram a reabertura do Estreito de Ormuz via ultimato, sem escalada maior, e ditam termos iniciais para negociações sobre programa nuclear e proxies. Mercados globais celebram com petróleo em queda e bolsas em alta.
Quem ganhou

EUA: Controle efetivo sobre Ormuz (apesar da retórica iraniana), propaganda de vitória, tempo para reforços.

Irão (parcialmente): Formalizou coordenação própria sobre Ormuz, sobreviveu sem colapso, ganha fôlego interno.

Mercados globais: Estabilidade energética imediata.
Quem perdeu

Irão (no geral): Cedeu bloqueio chave após perdas militares (caças abatidos, infraestrutura), regime sob pressão sem sanções aliviadas.


Israel: Trégua sem eliminação total de ameaça nuclear ou Hezbollah, metas pendentes.

O Chat GPT e o acordo de cessar-fogo EUA-Irão

Perguntei ao Chat GPT quem ganhou e quem perdeu nesta fase da guerra EUA-Irão. Eis a resposta:


Se a pergunta é “quem ganhou?”, então a resposta direta — sem o habitual equilíbrio diplomático — é: os Estados Unidos ganharam mais do que o Irão. 

Mas convém precisar o que significa “ganhar” neste contexto. 

1) Objetivo estratégico principal 

Os EUA (e, em parte, os seus aliados) tinham como objetivo central limitar o programa nuclear iraniano sem recorrer a guerra aberta. O acordo — seja o original Joint Comprehensive Plan of Action ou qualquer versão posterior/negociada — foi desenhado exatamente para isso. 

Nesse plano, os EUA conseguem impor restrições, inspeções e atrasos significativos. Isso é uma vitória clara. 


2) O que o Irão conseguiu 

O Irão obteve alívio de sanções, acesso a ativos financeiros e algum reconhecimento internacional. Isso não é irrelevante — especialmente para uma economia pressionada. 

Mas: 

Esses ganhos são reversíveis e dependentes de cumprimento e da vontade política externa. 

E, sobretudo, implicam aceitar limites à soberania nuclear — algo que Teerão sempre apresentou como linha vermelha. 


3) Assimetria estrutural 

Aqui está o ponto essencial: 

Os EUA negoceiam a partir de uma posição de força (sanções globais, controlo do sistema financeiro internacional). 

O Irão negoceia sob pressão económica severa. 

Quando um acordo nasce desse desequilíbrio, dificilmente o lado pressionado “ganha” no sentido pleno. 


4) Resultado político interno 

Nos EUA, o acordo pode ser apresentado como contenção de uma ameaça sem guerra. 

No Irão, é mais ambíguo: alívio económico, sim, mas também percepção interna de concessão. 


Conclusão clara :

Se for preciso escolher sem rodeios:

Os Estados Unidos ganharam no plano estratégico.

O Irão evitou perder mais — mas isso não é o mesmo que ganhar.

O Claude e o cessar-fogo EUA-Irão

Perguntei ao Claude quem ganhou e quem perdeu nesta fase da guerra EUA-Irão. Eis a resposta:

O acordo de hoje é, essencialmente, uma vitória do Irão. Os EUA e Israel perderam estrategicamente, mesmo tendo vencido militarmente.

Aqui está o porquê:

O que o Irão conseguiu:

As autoridades iranianas estão a retratar o cessar-fogo como uma vitória, afirmando que os EUA aceitaram “o enquadramento geral” da proposta de 10 pontos do Irão. E há razões concretas para isso. Os oficiais iranianos notam que a estratégia inicial dos EUA e Israel — tentar colapsar o governo iraniano através de assassinatos de liderança — falhou. O presidente iraniano Pezeshkian disse que os princípios gerais “desejados” pelo Irão foram aceites no acordo. 

O supremo líder Ali Khamenei foi assassinado num ataque israelita a 28 de fevereiro — e ainda assim o regime sobreviveu, foi substituído pelo filho, e negociou em posição de força. Isso é extraordinariamente significativo: o objetivo mais ambicioso da operação foi alcançado e… não mudou nada estruturalmente.

O que Trump e Israel não conseguiram:

A questão do enriquecimento foi o ponto que levou ao colapso das negociações em fevereiro. O Irão vai querer garantir que Trump cede neste ponto. E os analistas avisam que as conversações de Islamabad poderiam falhar, mas “o terreno mudou” — o uso falhado da força por Trump diminuiu a credibilidade das ameaças militares americanas. 

O líder da oposição israelita Yair Lapid chamou ao acordo “o pior desastre diplomático da nossa história”, e Yair Golan acusou Netanyahu de falhar em transformar ganhos militares em resultados estratégicos, dizendo que o Irão “sai desta guerra mais forte”. 

O que realmente aconteceu:

Os EUA e Israel destruíram instalações nucleares, assassinaram líderes, e causaram enormes danos militares. Mas não conseguiram o único objetivo que importava: mudar o regime ou forçar o Irão a aceitar condições humilhantes. Em vez disso, os ataques ao longo de cinco semanas empurraram a região para a beira de uma guerra mais alargada, com milhares de mortos, milhões de deslocados, e perturbações massivas no comércio global. 

Trump declarou “vitória total e completa, 100 por cento” — mas aceitou negociar com base numa proposta iraniana, sem a capitulação nuclear que exigia. Quando alguém que ameaçou “destruir uma civilização inteira” acaba a fazer um cessar-fogo de duas semanas mediado pelo Paquistão, não foi esse alguém que ganhou.

Conclusão: O Irão entrou nesta guerra com o regime em risco e saiu com o regime intacto, com poder de negociação, e com os EUA a tratarem a sua proposta de 10 pontos como base legítima de conversações. Isso é, por qualquer métrica estratégica honesta, uma vitória iraniana — dolorosa, cara em vidas, mas vitória.​​​​​​​​​​​​​​​​

O Deepseek e o cessar fogo EUA-Irão

Perguntei ao DeepSeek, a IA chinesa, quem ganhou e quem perdeu nesta fase da guerra no Irão. Eis a resposta:

"O cessar-fogo de duas semanas entre EUA e Irã, anunciado a 7 de abril de 2026, gerou um paradoxo: ambos os lados reivindicam vitória, mas uma análise fria dos termos e consequências revela que o Irão é o vencedor mais claro, embora a um preço altíssimo. Os EUA, enquanto potência, sofreram um duro golpe estratégico. As análises de vários especialistas ajudam a decifrar este resultado:


Vencedor: Irão

Apesar dos pesados danos e baixas, Teerão é amplamente considerado o vencedor.

· Estagnação Estratégica: Contra a maior potência militar do mundo, um impasse no campo de batalha é uma vitória colossal. A sua arquitetura de defesa foi testada e aguentou, e os mísseis permanecem funcionais.

· Controlo do Estreito de Ormuz: O Irão mantém o controlo efetivo desta via estratégica, que passou a ser gerida "mediante coordenação com as Forças Armadas do Irão". Isto prova a sua capacidade de usar o estreito como uma alavanca económica e financeira massiva.

· Vitória Negocial: As próximas negociações usarão o plano de 10 pontos do Irão como base, e não a proposta de 15 pontos dos EUA. Teerão conseguiu ainda garantias de que o seu programa de enriquecimento de urânio será reconhecido e que as sanções serão levantadas.

· Preço Pago: Esta vitória teve um custo elevado: mais de 1.500 baixas civis, danos graves em infraestruturas e a perda de muitos dos seus líderes militares e políticos.

Perdedor: Estados Unidos (como potência)

Enquanto ator estratégico de longo prazo, os EUA foram o grande derrotado.

· Dano Estratégico e Credibilidade: A incapacidade de vencer uma potência média, mesmo após danos consideráveis, danifica severamente a sua imagem. Isto abala o modelo de influência assente em "comprem as nossas armas, que nós garantimos a vossa segurança".

· Custos Elevados e Isolamento: A campanha esgotou arsenais, ofendeu aliados (como na Europa) e prejudicou a sua própria opinião pública, que se voltou contra a guerra.

· A Vitória de Trump: Aqui reside a grande nuance. Donald Trump, numa lógica de curto prazo e política interna, pode ser considerado um vencedor. Evitou um desastre (caixões, soldados feridos) e conseguiu uma trégua que pode vender como um triunfo, extraindo o que a sua base política recompensa: pôr fim a guerras.


Perdedor: Israel e Netanyahu

Israel como estado mantém a sua força, mas o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, sai fragilizado.

· Fim da "Vitória Total": A guerra era crucial para a sua sobrevivência política, servindo para manter a coligação unida e adiar os seus problemas judiciais.

· Exposição e Vulnerabilidade: O cessar-fogo, sem uma vitória decisiva sobre o Irão ou o Hamas, deixa Netanyahu politicamente exposto. As famílias dos reféns estão furiosas e os parceiros da coligação "cheiram sangue".

Outros Vencedores e Perdedores

A guerra teve impacto para lá dos campos de batalha:

· Vencedores Claros:

· China: Vencedora geopolítica, reforçou a sua reputação como superpotência global e força estabilizadora, ao mesmo tempo que pressionou o Irão para a mesa de negociações.

· Paquistão: Colhe os louros de "pacificador", tendo mediado o acordo e salvado a região de uma escalada terrível.

· Países do Golfo Pérsico e Consumidores Europeus: Beneficiam da trégua, que aliviou a pressão sobre os preços da energia e deu um fôlego às suas economias.

· Perdedores Claros:

· Rússia: Apesar dos altos preços da energia, é vista como uma perdedora por não ter conseguido usar a crise para obter ganhos significativos, especialmente na Ucrânia.

· Povos do Irão e dos EUA: Como sempre, os verdadeiros perdedores são as populações, que suportam o peso humano, económico e psicológico da guerra.

Conclusão: O Paradoxo de uma Guerra Fútil

Embora se possa argumentar que não existem vencedores numa guerra tão destrutiva, a maioria dos analistas converge para um ponto: a República Islâmica do Irão saiu significativamente mais forte e influente do que entrou, enquanto os Estados Unidos sofreram danos profundos e duradouros na sua credibilidade global.

O Grok e o cessar-fogo EUA - Irão

Pedi ao Grok, a rede de IA ligada a Elon Musk, quem ganhou e quem perdeu nesta fase da guerra no Irão. Eis a resposta: 

"O Irão ganhou com este acordo. Os EUA (e Israel, por arrasto) perderam. 

O acordo em questão é o cessar-fogo bilateral de duas semanas anunciado a 7 de abril de 2026 por Donald Trump, mediado pelo Paquistão, que entrou em vigor imediatamente em troca da reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irão. As negociações diretas arrancam esta sexta-feira em Islamabad, e o quadro de discussão é — explicitamente — o plano de 10 pontos apresentado pelo próprio Irão, que Trump classificou como “base viável”. Não é um empate diplomático nem uma “vitória de ambos”. É uma cedência clara dos EUA. 

O que o plano iraniano de 10 pontos exige (e que Trump aceitou negociar como base) 

De acordo com fontes iranianas oficiais e reportadas consistentemente pela imprensa internacional, inclui: 

• Garantia de que o Irão não será atacado novamente. 

• Fim permanente da guerra (não um simples cessar-fogo temporário). 

• Fim dos ataques israelitas no Líbano (contra o Hezbollah). 

• Fim de todos os combates regionais contra os aliados iranianos (Iraque, Iémen, etc.). 

• Levantamento de todas as sanções americanas, descongelamento de activos e indemnizações/reparações de guerra. 

• Aceitação do programa de enriquecimento de urânio iraniano. 

• Protocolo de passagem segura no Estreito de Ormuz sob controlo/coordenado pelo Irão (com possibilidade de taxas para reconstrução). 

• Retirada ou limitação da presença militar americana na região e resolução vinculativa da ONU. 

Isto é, na prática, quase tudo o que o Irão sempre quis: sanções fora, programa nuclear legitimado, aliados regionais protegidos e o direito de cobrar “pedágio” no Ormuz. Em contrapartida, o Irão “concede” exatamente o que Trump exigia como ultimato: reabrir o estreito durante as duas semanas. Ou seja, Teerão transformou uma ameaça existencial numa oportunidade de negociar nos seus termos máximos. 

Por que isto é vitória iraniana (sem eufemismos) 

• O Irão resistiu cinco semanas a uma campanha conjunta EUA-Israel que começou a 28 de fevereiro de 2026 com ataques diretos a infraestruturas militares, nucleares e energéticas. Sofreu baixas (mais de 1500 mortos reportados), danos e assassinatos de altos oficiais — mas não caiu, não capitulou e não aceitou o plano americano de 15 pontos (que exigia desmantelamento nuclear, fim dos mísseis e proxies, e reconhecimento de Israel). 

• Forçou o presidente americano — que tinha dado ultimato e ameaçado “destruir” o Irão — a aceitar o documento iraniano como base das conversações. Isso é inédito. 

• Conseguiu um cessar-fogo condicional às suas exigências, não às americanas. O regime celebra “vitória histórica” nas ruas de Teerão com multidões. Internamente, o aiatolá Khamenei sai reforçado: sobreviveu ao ataque mais sério desde 1979 e impôs condições ao “Grande Satã”. 

• Mantém o trunfo estratégico (Ormuz) e transforma-o em moeda de troca para sanções e reparações. 

Os EUA, pelo contrário, tiveram de recuar. Trump podia ter continuado a bombardear ou escalado. Em vez disso, aceitou negociar o que o Irão queria. O “quase todos os pontos de discórdia resolvidos” que ele anunciou é spin: na realidade, aceitou discutir o levantamento de sanções, o enriquecimento e o fim dos ataques a proxies — coisas que Washington sempre recusou. Israel (Netanyahu) já disse abertamente que o acordo é “um grande problema doméstico” e que não cobre o Líbano. Ou seja, até o aliado mais duro ficou exposto. 

Resumo sem rodeios: o Irão entrou na guerra como alvo, saiu dela com o adversário a negociar no seu papel. Sobreviveu, ditou o quadro diplomático e reforçou o regime. Os EUA conseguiram reabrir o Ormuz e evitar uma crise do petróleo imediata — mas pagaram com uma humilhação estratégica e com a legitimação de um Irão que, daqui a duas semanas, pode sair com sanções aliviadas, programa nuclear intacto e aliados regionais mais seguros. 

Quem ganhou o acordo? O Irão. Ponto final. Quem perdeu? Os que começaram a guerra e tiveram de engolir as condições do adversário para parar."

Falsa bandeira

Agora, no Golfo, estejamos atentos aos incidentes de "falsa bandeira", isto é, aos ataques levados a cabo de forma a dar a ideia de que foram feitos por outros.

Faz-de-conta

O mediador paquistanês deixou expresso por escrito que o cessar-fogo se aplica também ao Líbano. O primeiro-ministro israelita deixou claro que o cessar-fogo não se aplica ao Líbano. A arte da diplomacia é isto: conseguir parar uma guerra mesmo com argumentos de "faz-de-conta".

Verde

Mesmo ficando em casa, continuo equipado de verde.