quarta-feira, abril 17, 2024

O outro lado do vento


Na passada semana, publiquei na "Visão", a convite da revista, um artigo com o título em epígrafe. 
Agora que já saiu um novo número da "Visão", vou reproduzi-lo aqui, tanto mais que entendo que o não perdeu atualidade.

Estará a guerra prestes a transbordar do cenário russo-ucraniano e a alargar-se a geografias europeias adjacentes? Esta é uma questão que, a cada dia que passa, inquieta, de forma crescente, os cidadãos do continente.

As declarações de responsáveis políticos sobre o ambiente de "pré-guerra" já instalado, o debate aberto sobre o serviço militar obrigatório, a hipótese de colocação de tropas europeias em território ucraniano, as cíclicas referências ao possível uso de armas nucleares - tudo isto está a alarmar as opiniões públicas. E se, neste extremo da Europa, o ambiente é o que é, podemos imaginar como andarão as coisas em países com uma geografia próxima da zona de conflito.

O mundo há muito que começou a perceber que Vladimir Putin, um autocrata com escassos escrúpulos, estava a tentar resgatar, num registo nacionalista, onde lhe fosse possível, a humilhação que o fim do império deixara gravada na memória da gente russa. Sentia-se o tropismo de Moscovo para rearranjar alguns equilíbrios de influência decorrentes da implosão da URSS, mas ainda prevaleceu por muito tempo em alguns o sentimento de que isso não representava um abalo sistémico ao essencial da arquitetura de segurança e defesa no seio da Europa.

No meio de tudo isso, ficava a Ucrânia. O ocidente que conta em termos militares, leia-se, os EUA, sob o aplauso dos vizinhos imediatos da Rússia, tinha há muito entendido que era decisivo trazer a Ucrânia para o seu campo, num registo idêntico ao que havia consagrado o alargamento da NATO a leste. O interesse em fazer desse país, quase subliminarmente, procedendo ao seu intenso e rápido armamento, um membro "informal" da NATO, era uma aposta audaciosa, mas, na perspetiva do interesse estratégico ocidental, ela valia bem o risco.

Com a secessão do Donbass e a da Crimeia, já sem os pró-russos a votar as decisões nacionais, o poder instalado Kiev havia passado a decidir o seu futuro sob uma agenda fortemente nacionalista, confortada com um apoio ocidental que rimava com a sua profunda russofobia.

A Rússia, por seu turno, percebeu que, se deixasse cair a Ucrânia na esfera ocidental, teria ali para sempre uma testa de ponte que abertamente contrariava o modo como pretendia formatar o equilíbrio geopolítico na sua periferia. E, talvez considerando ser aquela a sua última janela de oportunidade, antes que um desequilíbrio se instalasse e fosse irreversível, preferiu, em fevereiro de 2022, romper com o que lhe restava de diálogo negocial com o ocidente. E foi para a guerra.

E agora?

Um dos argumentos recorrentes no discurso que acompanha o apoio político-militar à Ucrânia, assumido quase como uma verdade dogmática, é o de que uma eventual vitória, ainda que parcial, da Rússia, representaria um imenso risco para a Europa e mesmo para a segurança de todo o espaço da NATO. Será isto mesmo assim?

Sem querer chocar quem se sente em choque, gostava de lembrar que nenhuma das razões estratégicas que, segundo a generalidade dos especialistas, estiveram presentes na invasão russa da Ucrânia se aplica, ainda que de forma aproximada, a qualquer dos Estados NATO que agora se afirmam potencialmente ameaçados por Moscovo.

Até hoje, a Rússia nunca deu o menor sinal de querer pôr em risco qualquer fronteira da NATO, muito embora se saiba o desconforto com que viu o alargamento da organização a leste. Não o fez por "bondade" ou boa vontade? Claro que não. Não o fez porque o risco de o fazer seria sempre incomensuravelmente maior do que as suas hipóteses de êxito.

É óbvio que a experiência demonstra que não é possível confiar, ainda que minimamente, na palavra de Putin ou de Moscovo. Não é por aí que vamos. Mas, a menos que consideremos que a irracionalidade é a irreversível linha condutora da política russa - e, nesse caso, de facto, tudo será expectável -, um mínimo de lógica e de avaliação dos recursos militares convencionais russos, mesmo numa perspetiva diacrónica otimista para Moscovo, não aponta para a obtenção de capacidades bélicas que sejam decisivamente ameaçadoras, em termos estratégicos, para o ocidente, salvo no terreno nuclear - mas esse é já outro patamar de jogo, só gerível do outro lado do Atlântico.

Chegado aqui, o leitor perguntará: mas onde é que afinal o texto quer chegar?

A uma conclusão simples: se o conflito na Ucrânia, na constatação da impossibilidade de uma derrota da Rússia que não passe por um conflito global, vier a saldar-se por um compromisso que consagre cedências territoriais ucranianas, de facto ou de jure, isso não parece significar o prenúncio de uma acrescida ameaça para o ocidente.

Esse desfecho, a ter lugar, acabaria por ser a infeliz alternativa, imposta por via violenta, ao modelo de autonomia das populações de maioria russófona que estava previsto nos acordos de Minsk II, subscritos mas não implementados por Kiev e que Moscovo não parecia rejeitar. Poderia a aplicação desses acordos ter preservado a paz? Nunca o saberemos e, atento o posterior discurso oficial russo de desqualificação da identidade nacional ucraniana, subsistem muitas dúvidas de que a Rússia viesse a aceitar placidamente esse modelo. Mas isso não foi tentado.

Posso compreender que muitos considerem que uma solução de cedência territorial seja agora profundamente injusta, desde logo para os ucranianos que, com extraordinário heroísmo, têm lutado por preservar as fronteiras que o direito internacional lhes reconhece desde 1991. Mas essa é uma questão diferente daquilo que aqui contestei: a ideia de que, a vir a ter lugar, essa solução traria novos riscos de segurança para a Europa.

Ratos e homens

"Isso agora já não interessa nada!", expressão clássica de Teresa Guilherme, será utilizada por alguns oportunistas, quando, num dia longínquo, vier a concluir-se que, afinal, no caso "Influencer", a montanha não pariu um rato mas apenas lixou o Rato. Era esse, aliás, o objetivo.

Diplomacia

Conhecendo alguma coisa da diplomacia, sou de opinião de que Pedro Sánchez roçou a deselegância na forma que escolheu para o elogio público a António Costa. E achei perfeitamente adequada e correta a reação de Luís Montenegro. Eu digo o que penso.

terça-feira, abril 16, 2024

Old days


A internet fez desaparecer a ansiedade boa com que, em tempos passados, recolhíamos jornais, nos escaparates dos aeroportos. 

Hoje, tudo parece papel velho.

Rui Calafate


Conheço Rui Calafate há muitos anos. Sempre o vi como uma voz livre, na análise e no comentário político. Nos últimos anos, temo-nos encontrado pelos bastidores da CNN Portugal.

Neste tempo intenso em que a política portuguesa surge frequentemente avaliada de forma enviesada, à luz de muitas agendas e interesses, Rui Calafate tem surpreendido pelo seu rigor e e pela sua independência, o que não é sinónimo de falta de frontalidade e de opiniões firmes, doam a quem doerem.

Estou muito curioso por ler este seu livro, a cujo lançamento, infelizmente, não vou poder estar presente, por ausência de Lisboa na data.

Regra

A única forma de poder avaliar, com honestidade, as culpas e as razões de cada um dos protagonistas, locais ou externos, do conflito no Médio Oriente é fazê-lo sempre sem ter em conta a simpatia ou a antipatia que as partes nos possam merecer.

Manuel Alegre


Tenho muita pena pelo facto de não ter podido estar ontem presente no lançamento do livro de memórias de Manuel Alegre.

Manuel Alegre é, neste ano em que passa meio século depois do 25 de Abril, a figura viva portuguesa que melhor simboliza toda a luta pela nossa liberdade.

Um forte abraço a Manuel Alegre.

segunda-feira, abril 15, 2024

A última vez


O Café New York, em Budapeste, é, provavelmente, o café mais bonito do mundo. 

Escrever isto é uma óbvia e deliberada provocação. Vai aparecer gente a dizer "Ah! E então o Majestic?!", "E o Central ou a Demel, em Viena?", "E a Colombo, no Rio" e por aí adiante. Até alguém de Vila Real: "Atão e a Gomes?"

Ora bem! Tudo isto é só para dizer que, ontem, depois de jantar uma vez mais no New York, tive uma sensação que, com a idade, me acomete cada vez mais: "Esta é a última vez que aqui venho!" E deve ser!

domingo, abril 14, 2024

Autoridade e vergonha

Aqueles que condenaram o ataque de Israel às instalações diplomáticas iranianas na Síria, ato de flagrante desrespeito pelo Direito Internacional, têm autoridade moral para pedir contenção a Teerão na sua retaliação face a essa agressão. Os restantes deviam ter alguma vergonha.

sábado, abril 13, 2024

Pardubice


Em família, quando deparamos com uma localidade com um nome bizarro, temos por brincadeira fazer um teste. Soaria bem perguntarmos?: "Onde é que a menina nasceu?". Para essa menina imaginária nos responder: "Eu nasci em Venda das Raparigas" ou em "Colo do Pito" ou em "Terra da Gaja".

Como soará Pardubice em checo? Se calhar, bem.

Desconfiança

A confiança é um bem que, quando se perde, é muito difícil de reconquistar. Luís Montenegro, um improvável primeiro-ministro que tem necessidade imperativa de conquistar a confiança dos portugueses, mentiu-lhes de forma grosseira. Se não pedir desculpa já, não vai longe.

E agora que está provado, preto no branco, que a promessa de baixar o IRS era uma rotunda mentirola, e depois das tomadas de posição de João Vieira Pereira e Pedro Santos Guerreiro, aguarda-se, com divertida ansiedade, o comentário dos tradicionais louvaminheiros mediáticos do PSD.

quinta-feira, abril 11, 2024

"Eu já fui à América Latina"


Sei que há gente que não tem paciência para ouvir um podcast que dura meia hora. Mas pode haver quem tenha. Neste caso, trata-se de uma conversa minha com a jornalista Raquel Marinho, responsável pela comunicação da Casa da América Latina, numa parceria entre esta instituição e a revista "Sábado".

Foi-me proposto que escolhesse um país da América Latina sobre o qual gostasse de conversar. Sem surpresa, optei pelo Brasil. Falei de diversos aspetos da realidade brasileira e da complexidade daa relações entre Portugal e o Brasil. Deixei também nessa conversa muita da minha genuina afetividade por aquele país.

Aqui fica o link.

quarta-feira, abril 10, 2024

A Europa vai ser arrastada para a guerra ?


Na "Visão" que hoje é posta à venda, respondo à pergunta colocada em título. 

A minha resposta estará longe de ser consensual, mas é a minha opinião. E eu só digo o que penso.

Lembrei-me da tia Zé


Cheguei esta tarde a Praga. Numa conversa telefónica com um amigo, há minutos, quando lhe disse onde estava, ele retorquiu-me: "O que é que estás a fazer em Braga?". Tinha ouvido mal. Com a idade, a começar nele e a acabar em mim, todos ouvimos pior.

A minha tia Zé, uma das irmãs mais velhas do meu pai, ouvia bastante mal. 

Estávamos em torno da televisão, em agosto de 1968, em Viana do Castelo. 

As imagens eram da entrada das tropas soviéticas em Praga, com a subida dos tanques pela praça Venceslau, um arremedo da Avenida dos Aliados, sob protestos populares.

A tia Zé vivia, desde sempre, num mundo diferente, um pouco alheado, distante daquele que nos mobilizava em frente ao televisor. Não era dada a seguir eventos noticiosos, nem sentia estímulo para participar em quaisquer conversas que excedessem o quadro familiar ou das amizades.

Por uma vez, porém, os nossos comentários e exclamações, bem como a notória brutalidade do que observava, tê-la-ão feito compreender que alguma coisa não ia bem, lá pelo mundo exterior.

A certo ponto, numa pausa do noticiário, ao entrar na sala com o tradicional café de saco, de cuja feitura não prescindia, a velha senhora deixou escapar: "As coisas estão mal lá por Braga, não estão?"

terça-feira, abril 09, 2024

O Eugénio disse-nos adeus


Chega-me a notícia da morte do Eugénio Lisboa. E fico com imensa pena por estar fora de Portugal, não podendo estar presente na sua despedida.

Que posso dizer do Eugénio? Porque a originalidade, muitas vezes, toca a irresponsabilidade, vou aqui repetir um escrito que, há anos, elaborei sobre ele. O essencial, no que o Eugénio me toca, está nesse texto:

"Por décadas, li o nome de Eugénio Lisboa em textos críticos sobre literatura portuguesa que me iam passando à frente dos olhos. Como essa era uma “praia”, como agora se diz, que eu apenas tocava pela rama, tinha, acerca dele, alguma, mas não excessiva, curiosidade, apenas potenciada pela raridade do facto de se tratar de um “engenheiro”, qualidade que partilhava com o Jorge de Sena – mas isso num tempo em que os engenheiros ainda não assumiam a importância que, entre nós, viriam a ter… 

A circunstância de ter raízes em Moçambique e de, mais tarde, ter andado por França e pela Suécia, situavam Eugénio Lisboa, no meu imaginário, na prateleira prestigiada dos expatriados da nossa cultura, essas figuras com cujas assinaturas eu tropeçava em livros e artigos e que, de quando em quando, entrevia em colóquios ou na televisão, saídos da sua habitual geografia. Mas eu nunca fui fã de José Régio (o Eugénio não me vai perdoar esta!) e esse era o terreno de estimação do nosso crítico, pelo que não atentava, como seguramente deveria, ao que ele escrevia sobre o poeta – no “Colóquio Letras”, no JL e noutras folhas cultas e de culto.

Um dia, no início dos anos 90, ao ser colocado em Londres, tive oportunidade de pôr finalmente uma fotografia no nome do Eugénio Lisboa. E, simultaneamente, no de Rui Knopfli, com quem ele fazia um singular “par” de conselheiros da coisa escrita – o Lisboa, da cultura, o Knopfli, da imprensa – dentro da nossa Embaixada. Durante mais de quatro anos, convivi diariamente com ambos e, no meu saldo pessoal, julgo neles ter feito dois amigos. Era muito interessante observar a sua complementaridade, o sublinhar das comuns raízes moçambicanas, distintos no trabalhar de certas memórias, sobre figuras do passado frequentado e no modo de viver o presente de então. Porém, onde o Eugénio era uma formiga de trabalho, o Rui era uma cigarra, de cigarros seguidos e outros vícios, onde parecia assentar a alegria residual da sua vida e em que preparava, com uma certeza que íamos visualizando, o caminho apressado para a morte. Por mais de uma vez, fui aliado do Eugénio Lisboa – cuja óbvia ternura pelo Rui sempre mascarava – na tentativa de salvar o poeta de si próprio. E ambos sofríamos, cada um a seu modo, a inglória certeza, a prazo, desse esforço. 

Sou testemunha privilegiada de que, em Londres, Eugénio Lisboa desenvolveu um trabalho notável na promoção da nossa cultura. Para além de animar, frequentemente com a sua presença, muitas iniciativas, dedicava-se, com afinco, à edição de traduções de clássicos da nossa literatura, através da “Carcanet Press”. Com o Helder Macedo e com Michael Collins, seus principais cúmplices em iniciativas a que, com pertinácia, se dedicava, o Eugénio procurou “furar” o complexo mundo do tecido cultural britânico, tendo, a seu lado na Embaixada, a ajuda entusiasta e atenta de Mercês Gibson. Olhando para trás, tenho consciência de que procurei ser útil, à medida do que me era possível, a esse labor, onde frequentemente nos deparávamos com boas vontades – como era o caso da Fundação Calouste Gulbenkian – mas, igualmente, com alguns egos de estimação, às vezes de natureza institucional, bem difíceis de contornar.

Foi pela mão do Eugénio Lisboa que vim a conhecer figuras como o jornalista António de Figueiredo, lendário representante de Humberto Delgado em Londres, o advogado Adrião Rodrigues, nome destacado dos “Democratas de Moçambique”, ou Alexandre Pinheiro Torres, um escritor cuja obra justificaria maior reconhecimento público. Em Londres, o Eugénio funcionava como uma espécie de “placa giratória” por onde passava muito do mundo cultural português, mas onde a África lusófona estava sempre presente. 

Esse “carrefour” londrino nem sempre era tão pacífico como se poderia pensar – mas, com o tempo, habituei-me a perceber que o mundo cultural é um espaço onde, com alguma facilidade, as personalidades se chocam e as palavras podem desencadear grandes fogueiras. Recordo-me de uma polémica, que envolveu o Eugénio Lisboa e o José Saramago, a propósito de um almoço que eu havia oferecido ao escritor, com a presença do Hélder Macedo, da Paula Rego, do Bartolomeu Cid dos Santos, do Luís de Sousa Rebelo e do Rui Knopfli. O modo como Saramago relatou uma cena desse repasto, nos seus “Cadernos de Lanzarote”, criou uma fúria no Eugénio, que zurziu o escritor no JL. A diplomacia não exclui a indignação. 

Devo confessar que tenho alguma saudade das conversas que, aos fins de tarde, mantínhamos no meu gabinete, muitas vezes acompanhados pelo fumo e pela ironia do Rui Knopfli. Ouvia-os então cruzar memórias africanas, referências literárias, leituras pessoais de episódios comuns do passado, tudo envolvido na agudeza crítica que, quando inteligente, não faz mal a ninguém.

Homenagear o Eugénio Lisboa, como grande figura da cultura portuguesa – não esquecendo a imprescindível serenidade da Antonieta, a seu lado –, é um ato mínimo de justiça. E, para mim, é também uma oportunidade para lhe enviar um abraço de sólida amizade."

Repito o abraço, agora já saudoso, ao meu amigo Eugénio Lisboa.

segunda-feira, abril 08, 2024

Sempre!

Não me reconheço no pensamento conservador. Sinto-me alheio àquilo que os liberais pensam. Estou cada vez mais distante daquilo que os conservadores, liberais e alguns outros qualificam de pensamento "woke". Nem imaginam como é agradável viver assim!  Viva o 25 de Abril! Sempre!

O 25 de Abril e a política externa portuguesa


 Ouvir aqui.

Era assim

 



Rir


"Olha lá! Por que é que pões uma cara tão séria na CNN? Não dás um sorriso!". A pergunta foi de um amigo, há minutos. "Porque não tenho vontade de rir quando falo de guerras. Se, neste fim de semana, me tivessem entrevistado sobre futebol, nem imaginas o que eu me tinha rido..." 

Os Estados Unidos e Israel


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sábado, abril 06, 2024

Ser do Sporting

Gosto do Sporting quando o Sporting perde. E não gosto mais do Sporting quando o Sporting ganha. Mas gosto muito que o Sporting ganhe. Ponto.

Ou isso!

Em tempos, nas Necessidades, dizia-se que havia sempre duas razões justificativas para colocar um jovem diplomata na embaixada em Londres: ou porque falava muito bem inglês ou porque falava mal inglês e aí podia aprender. Ao olhar para o CV de alguns membros do novo governo...

Mortos e mortos

Em Gaza, as ações israelitas mataram dezenas de funcionários de agências humanitárias. Essas mortes não parece terem escandalizado muita gente. Agora, levantou-se um escarcéu pela morte de sete desses agentes. Porquê? Porque são estrangeiros. Os outros eram "apenas" palestinos... 

Acentuar

A falha do acordo entre o PSD e o Chega não terá sido suficiente para ensinar que o plural de "acordo" não é "acórdos", com "o" aberto, mas sim "acordos" com "o" fechado. Veremos se a patetice do símbolo do governo é aproveitado para ensinar que é "logótipo" e não "logotipo".

Basics

Depois do patrioteirismo do logo do governo, aguarda- se uma diretiva para que passe a dizer-se OTAN, em lugar do estrangeirado NATO. "Back to basics".

Sismo

Sete mortos é o balanço do maior sismo que, desde há 25 anos, ocorreu agora em Taiwan, onde estes tipo de eventos são frequentes. É extraordinário o nível de prevenção que deve estar montado para ter havido tão poucas vítimas.

sexta-feira, abril 05, 2024

A Ucrânia, a Europa e os Estados Unidos


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Ainda a Turquia


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Palestina - ano zero


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Assim não dá!


Sou, desde há alguns anos, presidente do Clube de Lisboa / Global Challenges, uma organização sem fins lucrativos, criada em 2016, dedicada à discussão dos grandes temas globais, que organiza as bienais "Conferências de Lisboa", outros encontros temáticos internacionais e cursos universitários anuais, bem como diversos debates presenciais chamados "Lisbon Talks" e, por via digital, as "Lisbon Speed Talks', estas com dezenas de edições. 

Somos uma centena de associados, que pagamos as nossas quotas e, claro, trabalhamos "de borla", sem sede nem mordomias, apenas pelo "amor à camisola". Somos oriundos de diversas áreas e sensibilidades, não discutimos política portuguesa, nem sequer a política externa, operamos na preocupação de ajudar a transformar Lisboa num espaço de reflexão sobre temáticas de interesse comum, da energia à segurança, dos mares à sustentabilidade, entre muitas outras. Nas nossas conferências, enchendo a Gulbenkian e outros espaços, tivemos gente de dezenas de países, especialistas em imensas áreas e - não nos perguntem o segredo! - nunca pagámos um centavo de "fee" a ninguém. É verdade!

De que me queixo, então? Essa agora! De nos "roubarem" e usarem a nossa gente, os nossos associados!

Da anterior direção a que presidi, perdi, para o governo que agora sai, a minha vice-presidente, Helena Carreiras, que foi para ministra da Defesa, e o vogal da direção, Bernardo Ivo Cruz, que foi secretário de Estado da Internacionalização. Agora, o novo governo "saca-nos" Ana Isabel Xavier, nova secretária de Estado da Defesa. Acresce que o "uso" dos nossos associados é "escandaloso": foram os antigos ministros da Economia e dos Negócios Estrangeiros, António Costa Silva e João Gomes Cravinho, o consultor do presidente da República, Bernardo Pires de Lima, a consultora da ONU, Mónica Ferro, entre outros! É um fartar! 

Assim, não dá! 

quarta-feira, abril 03, 2024

Habituem-se!

O PSD habituou-se, desde 1987, a governar sempre em maioria. Alguém que lembre agora a Luís Montenegro que este seu governo é minoritário. Por isso, do seu programa, só vai poder aprovar aquilo que a oposição deixar. Em democracia não há bloqueios, há oposições. Habituem-se! 

Uma pela outra

É discutível a atitude de Pedro Nuno Santos, ao faltar à posse do governo. Mas é igualmente discutível se Luís Montenegro deveria ter feito um discurso com aquele tom comicieiro, várias vezes provocatório para o PS, numa ocasião de Estado. Pedro Nuno Santos terá adivinhado? 

terça-feira, abril 02, 2024

É óbvio, não é?

Este governo, qualquer governo, é o governo do nosso país. Desejar-lhe sorte é uma obrigação democrática de todos. Mas não nos peçam para ser hipócritas: não tem a menor lógica que aplaudamos e desejemos sucesso para s implementação de medidas que contrariem aquilo que pensamos.

... ou então o Maigret!


O governo que aí vem quer designar um novo comissário europeu, com uma competência indiscutível, deixando a oposição sem o menor argumento para contestar o seu nome? Ele aqui fica: Jorge Moreira da Silva. Espero que, ao mencioná-lo, não esteja a prejudicá-lo...

"Cherchez la femme"

"US State Department: We have no information about the target and party responsible for the attack on the Iranian consulate in Syria."

Adensam-se as desconfianças em torno de S. Marino.

Tropa

Serviço militar obrigatório "facultativo"? Faz-me lembrar aquele pai que dizia que, quando crescesse, o filho seria bombeiro voluntário, "quer ele queira quer não".

Um mau símbolo

Um governo que inicia a sua ação cedendo à pressão demagógica em torno de um símbolo gráfico, à luz de um argumentário de nacionalismo bacoco, com pretextos culturalmente retrógrados, não anuncia um bom começo. Mas esperemos que ainda possa haver surpresas positivas.

segunda-feira, abril 01, 2024

Ucrânia (2)

Está a causar alguma perplexidade no mundo que apoia a luta do governo ucraniano o facto do Zelensky estar a levar a cabo mudanças, que são vistas como muito substanciais, no aparelho político-militar e no seu círculo próximo de conselheiros. Aventa-se a possibilidade de que o presidente ucraniano pode estar a defrontar-se com vozes que colocam em causa a sua orientação.

Ucrânia

A vida democrática na Ucrânia desde há muito que não está com grande saúde. E o ocidente tem fechado os olhos a muitas arbitrariedades. Mas parece óbvio que não tem qualquer sentido a ideia de realizar eleições presidenciais em ambiente de guerra, com a lei marcial em vigor. 

Dia das mentiras?

Um movimento político disputa eleições prometendo executar determinadas coisas que o governo anterior não teria feito e, em especial, afirmando ter a certeza de que existem meios para as executar. As pessoas acreditam e dão-lhe o poder. Se, lá chegado, as não fizer, isso é burla. 

domingo, março 31, 2024

Comissão de censura europeia

"Eu quero continuar a ler a TASS e ouvir as TVs russas. Nós somos maiores e vacinados, nós não somos crianças para ser tutelados por uma espécie de verdade única gerida pela UE", disse há pouco na CNN Portugal. Pode ver aqui

Israel

Nunca é demais esclarecer que o sentido das fortes manifestações de rua contra Netanyahu, nos últimos meses, é contestar a ineficácia do seu governo em conseguir a libertação dos reféns raptados pelo Hamas, não uma divergência essencial de objetivos de como tratar os palestinos. 

Tropa

Tenho a maior das dúvidas de que seja viável reintroduzir o serviço militar obrigatório. Há coisas que, uma vez alteradas, enfrentariam uma imensa resistência passiva para voltar atrás. Só uma invasão espanhola (e não contam as da Páscoa e "vacaciones"...) emocionaria o país.

Lula e os militares

Lula decidiu não explorar a evocação do golpe de Estado militar de 1964, que a direita radical brasileira qualifica eufemisticamente de "revolução". 

Já agora, convem precisar que o golpe foi no dia 1° de abril e não em 31 de março, como a ditadura sempre pretendeu, fugindo ao "dia das mentiras".

Pode considerar-se, com alguma legitimidade, que ao não aproveitar esta ocasião para sublinhar historicamente o período sinistro e criminoso da ditadura militar, Lula não faz justiça às respetivas vítimas. É verdade, mas Lula terá ponderado que é mais prudente apostar no futuro.

Lula terá entendido que, tendo já conseguido isolar os "militares de Bolsonaro", com a ajuda da atual hierarquia lealista das forças armadas, seria prudente apostar numa conciliação nacional, 60 anos depois do golpe. 

O futuro dirá se esta foi a aposta certa.

sábado, março 30, 2024

Saudades do tio Filipe

O meu pai detestava ver fotografias antigas. Assumia que elas lhe traziam recordações tristes de tempos felizes, de gente que tinha perdido pelos anos. 

Tenho uma atitude em absoluto inversa. Acho imensa graça recordar pessoas que já se foram, imaginá-las nesses momentos, olhá-las na idade que então tinham. Faz-me bem, não sinto a menor nostalgia. Dilui-me mesmo a saudade que, pontualmente, possa ter de algumas delas. Como é o caso do meu tio Filipe.

Nas fotografias de família que, há pouco, encontrei numa caixa, onde tenho tudo convenientemente desordenado, descobri uma meia dúzia onde surge o tio Filipe. 

Quem era o tio Filipe? Era um dos muitos irmãos do meu avô materno. Um homem alto, magro, pálido, com ar de ter maleitas debilitantes. Teve uma vida algo atribulada. Recebeu, por herança da minha bisavó, uma bela quinta, à volta da qual se tinha formado a aldeia de Bornes de Aguiar. Rezam as crónicas familiares, e sabe-se serem esses os factos, que perdeu a quinta ao jogo, no casino das Pedras Salgadas, uma história à época famosa, que já vi retratada num artigo de imprensa. Ficou em situação económica muito difícil, mas nem isso terá impedido que levasse uma vida de estroina, com muitos casos românticos pelo meio.

Há uns anos, um mestre-de-obras que andava a trabalhar na minha casa, em Lisboa, ao saber-me ligado familiarmente a Bornes de Aguiar, revelou-me que o seu sogro era filho ilegítimo de "um tal Filipinho Seixas, que tinha perdido a fortuna no jogo". Nem por esse vago parentesco o senhor Bonifácio me embarateceu a obra!

O tio Filipe nunca casou. Passou, a certa altura, a viver, creio que com alguma modéstia material, com uma senhora que havia estado empregada em casa dos meus avós, de seu nome Aurora. Tiveram várias filhas e creio que um filho, cuja morte trágica, esmagado entre dois vagões de um comboio, tenho bem presente.

As imagens que guardo do tio Filipe são de Bornes, da casa do meu avô, ou das Pedras, do terraço da casa das irmãs da minha avó. A uma delas, a mais doce, a tia Tininha, de seu nome Albertina, o tio Filipe terá andado a arrastar a asa. Outra versão é que a própria tia Tininha teria tido um derriço pelo irmão do cunhado. Constatando ser eu quase o mais velho membro da família, já não tenho a quem perguntar sobre estas coisas, pelo que elas ficam assim imprecisas.

Na minha memória de infância, vejo o tio Filipe a ir à caça, com um chapéu largo, espingarda dobrada no braço, cinturão de cartuchos à banda, a embarcar com outros caçadores, numa camioneta de caixa aberta. Fixo-o também recostado num cadeirão de espaldar alto, na bela varanda em redor do pátio da casa dos meus avós. E também, bem enfarpelado, no casamento da única irmã da minha mãe, em que eu ajudei uma prima a levar as alianças aos noivos.

Recordo o tio Filipe com o seu sorriso triste, um curto bigode, sempre algo isolado. É aliás esse isolamento que ressalta de fotografias de picnics mais antigos, com toda a família sentada no chão, com ele invariavelmente nos extremos.  

É estranho. Numa família tão alegre como a minha sempre foi, pelo bom ambiente criado à volta dos meus avós, a figura do tio Filipe projetava uma postura melancólica, um ar de alguma gravidade, como se se obrigasse a sentir-se à margem desse mundo feliz que o seu irmão e meu avô convocava para os seus. 

Nos dias de hoje, ainda sinto alguma pena pelo destino meu tio Filipe. E, quando deparo com uma sua imagem, associo-a logo à simpatia que a sua postura isolada me suscitava, pelo facto de a ver sempre um pouco alheia ao ambiente familiar em que era chamado a integrar-se.

Estava eu, no final da noite de ontem, a pensar em tudo isto, no vasculhar das fotografias, quando me deu para ir a um registo genealógico que alguém fez, há uns anos, sobre a nossa família. E fui procurar nele as datas relevantes de vida do tio Filipe. E sabem o que descobri? Que o tio Filipe, o tal que me convoca saudades ligadas à minha infância, em Bornes de Aguiar e nas Pedras Salgadas, afinal já teria morrido antes de eu ter nascido...

(Deixo esta memória bizarra, neste sábado de Aleluia, aos meus sete primos direitos, todos mais novos, que conheceram o nosso tio-avô Filipe ainda menos do que eu...)

quinta-feira, março 28, 2024

Fora da História

Seria melhor um governo constituído por alguns nomes que foram aventados nos últimos dias mas que, afinal, acabaram por não integrar as escolhas de Luís Montenegro? Nunca saberemos. A história contra-factual não fica na História.

Recado da mãe

O tornado há horas avistado no Tejo terá sido a primeira reação da mãe natureza quando soube que ia ter por cá um negacionista climático como ministro. 

A natureza, contudo, terá feito mudar de ideias o primeiro-ministro.

Coitados...

Não tendo sido ouvidos nem achados para a conjuntura, ainda assustados com o fantasma do "socialismo", os liberais tentam disfarçar uma realidade: num tempo de onda política de direita, eles estagnaram. Até o CDS "cresceu"... saído do nada em que estava.

Obrigado, António


O dia em que é anunciado um novo governo é a data certa para dizer, alto e bom som, que entendo ter sido um privilégio ter como primeiro-ministro de Portugal, desde 2015, uma figura com a capacidade política, o perfil de estadista e a integridade humana de António Costa.

Notícias da aldeia

Nas aldeias, os cartazes das festas de verão, em honra do santo padroeiro, costumam apodrecer de velhos, chegando até à primavera. O país parece uma imensa aldeia: os cartazes eleitorais, por incúria, descaso e falta de vontade aí continuarão a poluir a paisagem. É a nossa sina.

Chapeau!

O governo que aí vem marcou um ponto a seu favor. Não se soube os nomes "às pinguinhas".

Só para lembrar

Porque estas coisas têm de ser ditas, irritem quem irritarem, quero destacar a serenidade construtiva demonstrada por Pedro Nuno Santos e pelo Partido Socialista, em face de uma balbúrdia parlamentar em que não tiveram a menor responsabilidade.

Deve ser coincidência...

É minha impressão ou a (bem recente) agressividade de alguma comunicação social contra o Chega só surgiu de forma mais evidente a partir do momento em que que o partido de Ventura entrou em aberto conflito com o PSD? Pode ser coincidência, para quem acredite nela...

quarta-feira, março 27, 2024

A tragédia da imprensa


O "Público" de hoje terá fechado a sua primeira página por volta da hora de jantar de ontem. Por essa altura, o novo presidente da Assembleia da República ainda não tinha sido escolhido. Houve assim cuidado com o título. "Falta de acordo (...) atrasa eleição do presidente". 

Pura verdade, mas que dava para tudo. Se, entretanto, a Assembleia da República já tivesse escolhido um nome, esta manhã o jornal, embora não referindo a pessoa, não estaria a mentir: na véspera, como o título dizia, tinha havido um atraso nessa mesma escolha. Como, na realidade, ninguém foi escolhido, o jornal continua a ter "razão", de manhãzinha até, pelo menos, as 12 horas de quarta-feira. O atraso continuava... como o "Público" bem dizia!

Deve ser cada vez mais aliciante (ou desafiante, na linguagem modernaça dos negócios) fazer os títulos da atualidade dos jornais sincrónicos, em papel ou em PDF, cada vez mais esmagados pela diacronia dos sites, das rádios e das televisões, com débito informativo constante. 

Na imprensa, havia o velho dito de que um jornal de véspera já só serve para embrulhar peixe. Hoje, nem isso é verdade: a ASAE não deixa.

Comprar tempo

Com o Chega, não pode haver equívocos, subtilezas, jogos discretos de bastidores. O inimigo principal do Chega é o PSD. O Chega quer acabar com o PSD. Montenegro terá aprendido ontem que, com um potencial carrasco, todo o negócio é uma inútil compra de tempo. 

Mercado de futuros

Aguiar Branco e Francisco Assis eram nomes fortes para presidente da Assembleia da República. Se ambos saírem de cena, o PSD e o PS podem acabar, com alguma "marchandage" à mistura, por acordar num nome (previsivelmente do PSD) de compromisso. Mas dificilmente será alguém à altura do clima parlamentar que aí vem.

Ventura

André Ventura é, simultaneamente, a força e a fraqueza do Chega. A força porque, indiscutivelmente, é um ator talentoso e, até ver, tem na mão 50 deputados. A fraqueza porque a palavra e a fiabilidade são essenciais para a manobra parlamentar. E Ventura já mostrou não ter ambas.

terça-feira, março 26, 2024

Habituem-se!

Andamos anos a assistir a votos e desvotos nos parlamentos inglês, francês, americano ou espanhol - e achamos sempre que é "a democracia a funcionar". Quando se trata da Assembleia da República, para a nossa comunicação social, é logo o "impasse" e o "bloqueio". Habituem-se! 

A nossa vitória


Hoje, tomará posse de um dos lugares de vice-presidente da Assembleia da República alguém que, pela certa, gostaria que ela ainda se chamasse Assembleia Nacional. Mas já não se chama assim e essa é a nossa vitória, não a dele.

Bolsonaro

Está a apertar-se o cerco em torno de Bolsonaro. A acontecer a sua prisão, mesmo que juridicamente bem fundamentada, o Brasil irá mudar de patamar, em termos político-institucionais. Serão "águas nunca dantes navegadas", como dizia o poeta. 

Heranças

O PSD queixava-se do "a culpa é do Passos"? Veremos se agora escapa a usar o argumento da "pesada herança" de António Costa. 

Chega!

A esquerda parece ainda não ter percebido que continuar a falar incessantemente sobre o Chega, vilificando-o e denegrindo os seus dirigentes, acaba por funcionar como uma óbvia promoção da extrema-direita. O Chega gosta que se fale dele, mesmo que mal. 

Comentário

Em matéria de comentário internacional nas televisões, já se percebeu que às pessoas não interessa ouvir quem os faça pensar, confrontando os seus preconceitos. Os comentadores "bons" são os que confortam as suas ideias feitas. Quem sair desse registo está "a soldo" de alguém. 

segunda-feira, março 25, 2024

Momento semântico

No termo da entrevista, esta tarde, na CNN Portugal, com o Pedro Bello Moraes, fiquei com uma sensação estranha. Aqueles seis minutos e tal de conversa, sobre a situação na Rússia, tinham corrido com toda a normalidade, mas, naquilo que eu tinha dito, havia algo que me soava mal. E não sabia o que era.

Fui rever a entrevista e lá estava a razão da estranheza: eu usara, por duas vezes, a palavra "concomunar". Algum problema? Nenhum, exceto que esse vocábulo não existe. Para quem tivesse estado distraído, e dado o contexto da frase, o erro pode ter passado despercebido. Quem estivesse mais atento, contudo, deve ter-se perguntado: onde diabo foi ele desencantar aquela palavra?

O que eu queria significar é que a Rússia, perante o atentado em Moscovo, dava mostras de pretender juntar, como se de uma agressão comum contra si se tratasse, a Ucrânia, tendo esta todo o ocidente por detrás, e os radicais islâmicos. A ideia é que, por uma qualquer forma, havia um conluio (combinação de um ou dois para prejudicar um terceiro), que ambas as partes estavam mancomunadas (em acordo para um ato repreensível). E terá sido do "conluio" com o "mancomunar" que me saiu o "concomunar". 

Até nem desgosto da palavra, só que ela não existe. Não existe? Ora essa! Passou a existir, graças ao meu momento de criatividade semântica. Fica o neologismo e sintam-se à vontade para o utilizar.

Da persistência

Hoje, numa expedição "arqueológica" aos primórdios deste blogue, passei pelos primeiros posts aqui publicados. E vi que, logo nas primeiras semanas de existência deste espaço, tinha agradecido a outros blogues que então saudaram o surgimento do "Duas ou Três Coisas". 

Listei esses 52 blogues e tive a curiosidade de ir verificar quantos, dentre eles, ainda publicam com regularidade. 

Constatei que apenas cinco: "Causa Nossa" (que começou como blogue coletivo e hoje é apenas alimentado por Vital Moreira), "Delito de Opinião" (blogue coletivo, sob a batuta teimosa de Pedro Correia), "Estado Sentido" (blogue coletivo), "Fio de Prumo" (de Helena Sacadura Cabral) e "Memória Virtual" (que entretanto mudou radicalmente de natureza, passando a um registo desportivo). 

Deixo a minha sincera saudação para todos eles, pela sua persistência. Salvo o blogue coletivo "Delito de Opinião", noto, não sem algum orgulho, que nenhum manteve a regularidade diária com que aqui venho desde 2 de fevereiro de 2009.

Dizer que os blogues já tiveram melhores dias (ou noites, porque, no meu caso, quase sempre aqui escrevo à noite) é uma obviedade. O seu auge, em Portugal, parece ter sido a primeira década deste século. Muita gente migrou entretanto para o Facebook, depois para o Twitter (agora X), mais tarde para o Instagram. O Mastodon não parece promissor. A gente mais nova (e outra a fingir que o é) anda pelo TikTok e pelo Tinder.

Apesar de tudo, vivam os blogues! 

Pedro Sánchez e as duas Espanhas


Ver aqui.

Os EUA, mais de 30 mil mortos depois


Ver aqui.

A vitória de Putin (antes do atentado)


Ver aqui.

Uma placa de trânsito...


... trabalhada pelo tempo

Miradouro de S. Pedro de Lobrigos

 


domingo, março 24, 2024

Quinta da Gaivosa

Pollini


Jorge Sampaio ficou deliciado com a possibilidade de ir ouvir o pianista Maurizio Pollini, ao Carnegie Hall, nesse dia de junho de 2001, hipótese que eu lhe sugerira. O problema é que, para o presidente da República poder chegar a tempo de apanhar o avião de regresso a Lisboa, no aeroporto Kennedy, tinha de sair uns minutos mais cedo do que o final do concerto. "Não conseguimos mesmo ficar até ao fim?". Não, assegurou-lhe o embaixador junto da ONU, que na circunstância era eu, que fora o seu anfitrião em três intensos dias na "capital do mundo". E assim foi. Ainda estou a ver Sampaio, de pé, prestes a sair, encostado à parede lateral da sala, a esgotar toda a música que o horário apertado lhe permitiu.

Quatro meses depois, com a cidade na ressaca dos atentados do 11 de setembro, Maurizio Pollini regressou a Nova Iorque. Algo frustrado por não ter terminado o concerto anterior, decidi ir ouvi-lo de novo, nesses tempos convulsos pelos quais a cidade e a América passava. Nesse mesmo dia ou na véspera, os EUA tinham feito o primeiro ataque ao Al-Qaeda, no Afeganistão. O espetáculo, por um qualquer alarme de segurança, começou com meia hora de atraso. Tenho a recordação de que saí desse segundo concerto de Pollini com um bem-estar e serenidade que há muito não sentia.

Maurizio Pollini morreu ontem.

sábado, março 23, 2024

Na Gomes


"Sai uma dose de bola de carne e um fino!"

... e depois há os factos

O atentado de Moscovo, como é da regra destas coisas, leva a que quem já tem as ideias feitas, à luz dos seus desejos e ideologia, corra a adaptar os factos a elas. Isto é tão válido para as acusações à Ucrânia como para as imputações aos serviços secretos russos. É a vida!

"... pero que las hay!"


Fevereiro de 2005. Brasília. Eu tinha chegado, semanas antes, como novo embaixador de Portugal. O conselheiro social da embaixada, Joaquim do Rosário, tinha-nos convidado para jantar, em sua casa, com alguns membros mais representativos da comunidade portuguesa local. 

Feitas as apresentações e as primeiras conversas, passou-se à mesa. Naquela em que fiquei estava sentado um engenheiro que trabalhava, há já muitos anos, em Brasília, na área científica. Perguntei-lhe onde tinha concluído o curso de Engenharia. No Porto, onde tinha nascido, disse-me. Para aligeirar a conversa, contei que, também eu, tinha iniciado o curso de Engenharia Eletrotécnica na universidade do Porto. Sem grande sucesso: tinha feito apenas duas cadeiras. Rimo-nos da coincidência. E passámos adiante.

A conversa lá andou e, aí pela sobremesa, o engenheiro, a propósito de eu ter referido que era de Vila Real, disse-me que, no seu primeiro ano do curso, tinha tido como colega um tipo de Vila Real, com quem chegara a estudar no café Bela Cruz, à chegada ao Castelo do Queijo. Já não se lembrava do nome dele. Tem graça, comentei, por esse tempo eu costumava ir namorar aos fins de semana para o Bela Cruz, com a minha mulher, que ali estava também na mesa, e, curiosamente, eu também por lá tinha estudado com um amigo, cujo nome me tinha passado, que sabia que morava ali perto, na Foz. "Eu morava na Foz", referiu o engenheiro.

Afinámos datas: ambos tínhamos entrado no mesmo ano, para a mesma faculdade. Os nossos professores? Os mesmos: Vasco Teixeira, Arala Chaves, etc. Num instante, por outros pormenores cruzados, concluímos: ele era o meu amigo da Foz, eu era o amigo de Vila Real com quem ele chegara a estudar. Ele estudara um pouco mais do que eu, bem entendido! Exatamente 40 anos depois, tinhamo-nos reencontrado, nessa noite de Brasilia. E, desde essa hora, reatámos uma magnífica amizade, até hoje.

Há dias, na data das eleições, numa aparição no Facebook, lá o descortinei, civicamente ativo, barba branca à maneira, com o sorriso bom de sempre, na mesa de voto de Brasília, ao lado de outros amigos. Mas toma atenção, Manel, tens de fazer uma dietazita! Um imenso e transatlântico abraço para ti.

quinta-feira, março 21, 2024

Foi assim


Outubro de 1999. Na emigração, a arte de José Lello tinha conseguido dar ao PS três deputados, com o PSD a ficar com um, invertendo o que era habitual. Porém, nas contas finais das eleições legislativas, os socialistas só tinham obtido 115 deputados, com outros tantos para toda a oposição somada. Era o empate. A almejada maioria absoluta esfumava-se. Para o primeiro-ministro António Guterres, continuaria a ser necessário recorrer a complicadas negociações para aprovar as leis no parlamento. Como seria o caso de um orçamento, que necessitou do famoso arranjo do "queijo limiano".

Nas hostes socialistas, o ambiente era de alguma desilusão. Depois de uma década de "cavaquismo", em que a esquerda penara a bom penar, refugiada em Macau e em algumas autarquias, já a escassa vitória de Guterres, em minoria, em 1995, se bem que muito saborosa, tinha obrigado a recolher as ambições de moldar algumas políticas públicas ao programa do PS. Esse esforço de contenção de despesas, para conseguir atingir as metas para a entrada no euro, tinha desagradado a muita gente do PS. O resultado da eleição de 1999 ameaçava agora prolongar o "aperto do cinto".

Naquela noite de 1999, o João Paulo Bessa, um arquiteto (ele gosta de "arquitecto", com "c") que vive para o rugby e para as coisas desportivas em geral, entrou, façanhudo, no "Procópio". 

Na "mesa dois", o Nuno Brederode dos Santos filosofava cenários, em frente ao whisky. Recém-reconduzido como secretário de Estado, eu ia alimentando, em voz alta, a narrativa oficial de que, infelizmente, haveria que evitar aumentar o défice, controlando, por essa via, a forte dívida pública. Havia, por isso, a necessidade de continuar a limitar despesas, em algumas áreas, mesmo que incumprindo, aqui ou ali, com algumas promessas eleitorais.

Foi então que a voz do João Paulo, sentado num daqueles bancos aveludados a vermelho, recostado no varandim de madeira, de costas para o bar, explodiu, julgo que desta forma: "Porra, pá! Estivémos dez anos a sofrer as políticas 'dos gajos', sem nada poder fazer. Em 95, lá saiu o Cavaco mas vocês disseram logo: 'Ah! Pois é! Mas não se pode fazer nem isto nem aquilo'. E nós, durante estes quatro anos, a ver o tempo a passar e as coisas a não se fazerem. Agora, o PS continua a governar, mas volta a não ter maioria e, mais uma vez, o teu governo vem dizer que continua a não se poder fazer o que foi prometido. Eh, pá! Explica lá quando é se pode fazer alguma coisa! Primeiro era o Cavaco com as políticas do "Pê-pê-dê", agora é o Guterres com os cuidados para o euro. Porra, pá! Mas, afinal, quando é que se cumpre o programa do PS?" 

Não sei o que respondi ao João Paulo Bessa, comigo feito "situacionista", eu que até nem era do partido, nessa noite de 1999. A minha memória não cobre as conclusões desse debate, tido num lugar onde, como alguns diziam, alguns aculturavam "a via alcoólica para o socialismo". Só sei que, na noite de ontem, na mesma "mesa dois", já com o Nuno ali só em saudade, recordei ao João Paulo aquele episódio. E rimos todos um pouco, embora, para os ocupantes da "dois", o tempo esteja, por estes dias e noites, mais para sorrisos amarelos.

Estranho?

Sou só eu que acho normal que o Presidente da República indigite Luís Montenegro a tempo de ele poder estar presente, usufruindo já dessa qualidade, na reunião do Partido Popular Europeu, que, tal como o homólogo grupo socialista, reune sempre antes dos Conselhos Europeus?

quarta-feira, março 20, 2024

O desastre, visto da Suíça

Foi há já uns bons anos. Lembro-me como se fosse hoje. Noé Monteiro, correspondente da RTP na Suíça, entrevistava um casal de portugueses ali residentes. O tema eram as preferências na programação da própria estação. A certa altura, o jornalista perguntou à filha do casal, uma criança que, recordo, teria menos de 10 anos: "E tu, o que é que gostas mais de ver na televisão?". A miúda não hesitou: "Os desastres". 

Ao ver o resultado da votação dos nossos emigrantes na extrema-direita, na Suíça, lembrei-me que, se calhar, essa (hoje) senhora pode ter votado por lá e deve agora apreciar o desastre a que ajudou por cá.

Augusto Santos Silva


A contraciclo da grunhice dominante nas redes sociais, quero, no dia de hoje, deixar um abraço de reconhecimento a um grande servidor público chamado Augusto Santos Silva, presidente cessante do parlamento, onde sempre defendeu, com coragem e frontalidade, a ordem e a dignidade da nossa República.

terça-feira, março 19, 2024

"Duas ou três coisas..."


Guilherme Oliveira Martins publica, na edição de hoje do "Diário de Notícias", o seguinte artigo, com o título de "Duas ou três coisas..."

"Francisco Seixas da Costa ao escrever Antes Que Me Esqueça – A Diplomacia e a Vida dá-nos um bom conjunto de quadros. Como salienta Jaime Gama, a seleção de textos agora vinda a lume com a chancela da D. Quixote, reflete a pluralidade quase heteronímica do autor, demarcando-se do mero anotador de acontecimentos ou telegramas, sabendo “isolar situações, caracterizar contextos, referenciar protagonistas e situar temas, questões e desafios”. Num tempo dado à superficialidade, encontramos, em cada texto, a preocupação de entender a complexidade do mundo e do género humano – lembrando a História e as mil peripécias que ela nos reserva. O discernimento para nos darmos conta do mundo perigoso que nos cerca obriga a não ficarmos pela superfície que nada esclarece e apenas alimenta a indiferença. De facto, “os seus retratos atestam verve criativa suficiente para deixar antever a alma do escritor que neles se disfarça”. Ao lermos o livro, encontramos uma laboriosa escolha de temas e problemas, que enriquecem aquilo a que estão habituados os leitores dos blogues que o autor anima. E falo no plural, porque não esqueço o finíssimo gourmet que o Francisco é, além de um arguto contador de histórias no seu imperdível blogue Duas ou Três Coisas, que recorda o célebre título do filme de Godard de 1967, protagonizado por Marina Vlady. Não se trata de um livro de memórias. É antes o produto de uma escrita solta, com episódios relatados com humor e ironia, e uma adequada dose de caricatura, evitando a crueldade fácil, incompatível com a experiência de um diplomata rodado e como conhecimento de causa. Daí a cautela em não identificar nomes e pessoas, que em nada reduz o interesse da leitura. Devo dizer que, sendo um fiel leitor da sua escrita, dei por muito bem empregado o que usufrui na leitura deste belo livro.

E lembro o episódio impagável do Senhor Ferreira da Residência do Primeiro-Ministro, antigo funcionário, de simpatia inexcedível, no auge do período revolucionário, a deixar entrar sem qualquer identificação ou diligência de segurança o jovem diplomata, que, espantado, pôde chegar junto dos membros do Governo para a entrega de um documento que era oficial, mas que poderia não o ser. E a justificação do procedimento teve-a com uma simplicidade e candura desarmantes: havia tanta gente, ministros, secretários de Estado, chefes de gabinete, secretários e secretários de secretários, ajudantes vários, que não havia qualquer possibilidade de distinguir, até porque todos eram muito parecidos uns com os outros… Noutra ocasião, ficamos com um sorriso ternurento perante o episódio ocorrido no Gabinete Português de Leitura do Rio, numa cerimónia da máxima solenidade, o Presidente Lula embevecido pela arquitetura imponente e pelas estantes recheadas com quase meio milhão de livros, com luminosidade única, deu-se a acenar levemente para alguém que devia estar num dos varandins superiores. Tratou-se, no entanto, apenas de saudar um grupo de empregadas com bata de trabalho que se haviam colocado lá no alto para verem o seu Presidente. 

Num 1º de abril, o Embaixador em Paris não resistiu a lançar em ambiente adequado uma mentira piedosa, verdadeiro poisson d’avril. Cansado de ouvir histórias sobre as famosas concierges portuguesas, usou da melhor circunspeção para dizer: “Há um segredo que vos quero contar, embora peça a maior discrição. Como devem imaginar, a existência de uma imensidão de concierges portuguesas em muitas casas de Paris não passou despercebida aos nossos serviços secretos. Naturalmente, eles não podiam deixar de aproveitar o potencial que representava a existência de um grupo de cidadãs nacionais colocadas em lugares tão vitais para a obtenção de informações”. A ideia era imaginosa e não pôde deixar de causar preocupação nos circunstantes, que certamente passaram a ver com outros olhos aquelas pacatas senhoras, que deveriam ter de ser vistas com mais cuidado… "

Os bezerros


Pierre Bourguignon foi, ao tempo em que eu era embaixador em França, um dos grandes amigos de Portugal. Deputado à Assembleia Nacional francesa, foi presidente do respetivo Grupo de Amizade com o nosso país. A sua disponibilidade para tudo quanto fosse do interesse português era permanente e algumas vezes abusei dela para superar alguns obtáculos. Ficámos bastante amigos e muitas vezes almoçámos em Paris. Morreu em 2019, com 77 anos.

Pierre era "maire" de Sotteville-lès-Rouen, uma localidade da Normandia, perto de Rouen. Um dia, convidou-me a visitar essa terra a que se dedicava, nas horas que o parlamento lhe deixava livres. A cumulação de mandatos parlamentares e autárquicos era uma regra antiga na política francesa. 

Ao final da visita à sede do município, Pierre tinha organizado uma receção em minha honra, para a qual convidou as "forças vivas" da localidade e, naturalmente, alguns portugueses ligados ao movimento associativo da nossa comunidade.

Nos anos que vivi em França fiz um esforço para me deslocar às localidades onde havia mais portugueses, visitando as respetivas estruturas associativas. Fiz dezenas dessas visitas e, digo-o com sinceridade, ganhei um imenso respeito pela determinação dessas pessoas de se projetarem na sociedade francesa, afirmando sempre a sua identidade portuguesa.

Durante a receção oferecida por Pierre Bourguignon, aproximou-se de mim um dirigente de uma associação portuguesa de uma localidade próxima de Rouen, informando-me de que, dentro de semanas, essa instituição iria comemorar uma data importante, pelo que me convidava para estar presente numa festa que iam realizar. 

Fiquei de confirmar a minha disponibilidade, a qual, no entanto, acabaria por durar muito pouco. Terminou no preciso instante em que esse nosso compatriota me disse: "E pode estar descansado, senhor embaixador, que não encontrará por lá bezerros". Não percebi o que ele queria dizer com isso, mas ele logo esclareceu: "Bezerros, árabes, maomés, essa gente..." A minha cara deve ter traído o desagrado com que ouvi esse qualificativo de desprezo. Fui rápido a libertar-me do meu interlocutor, do seu convite e do seu preconceito. 

Há quem não saiba que, em alguns setores da nossa comunidade em França, como imagino que possa acontecer em outros países, existe uma atitude de profunda rejeição das comunidades árabes e muçulmanas. Recordo-me de, um dia, ter sido pedida a minha intervenção pelo "maire" de Bayonne, Jean Grenet, curiosamente casado com uma portuguesa, para tentar travar a hostilidade crescente entre uma associação portuguesa e uma estrutura similar da comunidade muçulmana, existente na vizinhança. E vale a pena lembrar que o movimento político em torno da família Le Pen comporta, no seu seio, muitos portugueses residentes em França. Ao que me dizem, esses nossos compatriotas usam esse ódio ou desprezo pelos muçulmanos como uma espécie de demonstração de que são "tão bons franceses como os melhores franceses". Se os franceses que detestam os árabes são os melhores franceses, vou ali e já venho.

Por que escrevo isto hoje? Porque acabo de constatar o bom resultado obtido por um partido da extrema-direita portuguesa, nas eleições legislativas, junto de algumas comunidades portuguesas emigradas. É irónico constatar que uma formação política que tem uma agenda racista, xenófoba e discriminatória, em que uma rejeição primária da imigração assume um lugar bem proeminente, acaba por agradar a quem, por muitos esforços que faça, não deixa de ser visto nas terras onde vive como continuando a ser um estrangeiro.

O outro lado do vento

Na passada semana, publiquei na "Visão", a convite da revista, um artigo com o título em epígrafe.  Agora que já saiu um novo núme...