terça-feira, 3 de agosto de 2021

A hora da máscara

 


Há ocasiões em que todos os protocolos recomendam o uso de máscara protetora. Este é um deles.

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Adeus, Coutinho



Gostava de estar em Viana no dia de hoje.

Um abraço a José Maria Costa.

O assalto


Os adidos de embaixada, categoria que os ingressados na carreira diplomática têm durante os primeiros anos de serviço, frequentam, por alguns meses, um curso profissional, em que são docentes diplomatas mais velhos, em serviço ou já fora dele.

Aqui há já muitos anos, os novos adidos assistiam a uma palestra de um velho embaixador. Era um homem com uma carreira mediana, bem falante, bom contador das coisas da vida, que ilustrava as suas décadas de trabalho com o relato de episódios que entendia exemplares e dignos de nota. 

Os adidos ouviam com atenção e apreço o seu discurso ameno, seduzidos pela coreografia verbal com que o velho diplomata envolvia as suas experiências pelo mundo, tidas como dignas de registo, para adubar a inexperiência dos auditores. 

Era um mundo de pequenas aventuras, com cenários muito diversos daqueles que a sua vida até aí lhes proporcionara. Embora os tempos fossem naturalmente outros, não deixava de ser interessante ter acesso àquelas histórias, cujo somatório acaba por tecer uma cultura corporativa comum.

Naquele dia, o diplomata relatava um episódio passado na residência que, em tempos idos, ocupara numa capital africana, quando aí era encarregado de negócios, nos anos 60. 

Explicava ele que se tratava de edifício isolado, com escassa segurança, na periferia da capital, rodeado de um amplo jardim,. Os riscos não eram muito elevados, porque a criminalidade local era então escassa, mas, apesar disso, já por mais de uma vez, houvera indícios de que a casa fora rondada por potenciais assaltantes.

Uma madrugada - contava ele - ouviu, distintamente, ruídos provindos do outro lado da casa, onde habitava sozinho. Pôs-se à escuta e percebeu uma sussurada conversa, no exterior do prédio, entre pessoas que, claramente, estavam já a tentar forçar uma porta ou uma janela. 

A situação revelava-se complexa. Os empregados viviam noutro edifício, mais distante, e, claramente, não tinham ouvido chegar os assaltantes. Embora houvesse quem, em tempos, lhe tivesse recomendado que comprasse uma arma, o bom-senso do diplomata levara-o a não ir por esse perigoso caminho. Naquele instante, porém, perguntava-se sobre que opção tomar.

O relato tinha foros quase fílmicos. Os adidos olhavam, atentos, para o velho embaixador, que, para ilustrar a história, vagueava pela sala, frente a eles, de gesto largo e fácies grave. 

A certo passo, estacou e inquiriu: "Alguém tem uma ideia do que eu fiz, na ocasião?". Fez-se um silêncio, apenas entrecortado por uns declinantes murmúrios, com opções de ação tão pouco ousadas ou imaginativas que não chegaram a ser formuladas em voz alta.

É, nesse instante, que, com um sorriso, o embaixador revelou a sua "defesa":

- Caros colegas, é muito fácil. Fui à casa de banho!

A sala estacou de espanto. À casa de banho?! Para quê?

- Meus amigos. É elementar! Puxei a autoclismo. Em África, no silêncio profundo da selva, o fragor de um autoclismo a descarregar tem a força explosiva do tiro de um canhão!

A sala escangalhou-se em gargalhadas e a história passou a fazer parte dos anais divertidos das Necessidades.

domingo, 1 de agosto de 2021

É assim, somos assim!

 


Leiam este texto de Pedro Marta Santos, na “Sábado” desta semana.

Um incidente diplomático


O texto é relativamente longo. Relata um incidente político ocorrido em novembro de 1981, em Maputo, de que foram protagonistas Samora Machel, então presidente de Moçambique, e André Gonçalves Pereira, que era ministro dos Negócios Estrangeiros do governo chefiado por Francisco Pinto Balsemão. O episódio é conhecido mas nem por isso deixa de ser interessante revisitá-lo.

Não se sabe quem é o autor deste relato, que foi republicado no jornal moçambicano “Savana”. A pedido de um amigo, fiz várias diligências para tentar colocar um nome junto ao texto. Todas as diligências se revelaram infrutíferas. Por isso, não estimulo “bitaites” a este respeito, mas agradecia muiti se alguém tivesse certezas a revelar.

Aqui fica o artigo, com a introdução do jornal e o texto: 

Quando Samora zangou com Gonçalves Pereira

Escrito por Delsio 

Sexta, 27 Julho 2012 16:47

Mão amiga fez-nos chegar o texto que hoje reproduzimos, no que poderia ser um “caso de estudo” nas academias de Relações Internacionais do nosso país, como o poderia ser o famoso abraço de Samora e Ronald Reagan junto à lareira do Salão Oval da Casa Branca e que mudou radicalmente o relacionamento entre os dois países, ou ainda o longo passeio pelos jardins presidenciais de Bucareste com Elena Ceacescu de que resultou o megalómano projecto dos 400 mil hectares.

Infelizmente as academias (salvo raras e honrosas excepções) não estudam estes “casos”porque continuam presas às verdades oficiais que falam mais alto que a investigação e a integridade académica, como aliás nos tem sido mostrado na versão que querem que acreditemos dos 50 anos do movimento pelo libertação de Moçambique e para a qual têm sido cooptados todos e tudo.

O texto, escrito à altura por um jovem diplomata luso, devidamente identificado pelo jornal, reflecte claramente as clivagens que se viviam na altura entre Moçambique e Portugal, quando por exemplo se questionava se um presidente de Lisboa devia ou não depositar uma coroa de flores na Praça dos Heróis e quando as redacções mais incorformistas continuavam – acima das razões de Estado – a apelidar Eanes de “fascista” e a fazer a colagem da sua imagem de óculos escuros com o tristemente célebre general Augusto Pinochet. O título original do texto é “O Exorcismo” pelo que a presente titulagem e subtítulos são da responsabilidade do jornal, assim como as notas avulsas.

“Caminhámos lentamente pela alameda do Palácio da Ponta Vermelha.

Levaram-nos para o vasto salão de reuniões. Era o primeiro encontro das duas delegações, encontro alargado (25 de Novembro de 1981). Seríamos uns cinquenta de cada lado. No centro da longa mesa, face ao Presidente de Portugal, Samora resplandecia, os olhos redondos e muito abertos, percorriam e prescutavam os circunstantes, com um brilho alegre. A contrastar com esta exuberância, a seu lado, sentava-se com ar distante e frio, Chissano, no seu modo e configuração de príncipe.

Samora, sempre a sorrir, deixou cair o silêncio que impôs pelos olhos e fitando Ramalho Eanes interpelou-o em tom jovial: “cá, como em Portugal, quando se encontra um amigo, pergunta-se, então como está tudo lá por casa?”

O General, na sua maneira sizuda, fez uma exposição sucinta e incisiva da situação portuguesa. Quando se calou Samora abanou de vagar a cabeça.

“Pois a mim parece-me que as coisas por lá não andam nada bem, mesmo nada bem. Os Partidos não se entendem entre si, dentro dos Partidos reinam as maiores desavenças e ninguém respeita o Presidente da República. Eu quando ando por aí a viajar e me perguntam “como vão as coisas lá por casa do teu patrão? “não tenho outro remédio senão dizer que andam mal, mesmo muito mal. E não me agrada nada ter que confessar isso porque, sabe Senhor Presidente, sempre se faz gosto na casa do patrão ....”

Não se ficou por aqui. Durante meia hora desenvolveu o tema.

Eu que detesto escândalos públicos comecei a sentir cólicas, receoso que o ministro dos Negócios Estrangeiros, mais visado por representar ali o Governo AD, se levantasse e saísse.

O Presidente no seu feitio ponderado, na sua maneira de reagir lenta, matreiramente não interrompeu as diatribes inconvenientes de Samora. Só muito mais tarde, no final das conversações, disse a Machel que escutara com muita atenção os comentários sobre Portugal. Que da boca de outro Chefe de Estado seriam inaceitáveis, uma interferência aberta nos assuntos internos portugueses, mas que tais palavras vindas dum Presidente de Moçambique só quereriam por certo significar fraternidade e reflectir as relações muito íntimas entre os dois Países. Além disso e para futuro, ficávamos nós livres para falar com idêntica franqueza das questões internas moçambicanas. Mas isto só foi dito muito mais tarde. Por ora, Machel falava, falava, desancava os políticos como que a justificar, a contrário, a bondade do regime da Frelimo. Dizia muitas verdades mas ultrapassava as conveniências. E o André Gonçalves Pereira, combativo, temperamental, agitava-se, remexia-se cada vez mais impaciente.

A dada altura não se conteve e interrompeu Machel, “Mas porque não vem o Senhor Presidente a Portugal ver com os seus próprios olhos, ver como a realidade é diferente do que pensa?”

Oh sacrilégio! Como ousava um simples Ministro cortar a palavra a um Chefe de Estado, ao “grande-chefe”? “Aquele monhé, vai pagar-mas” terá pensado Machel.

Não o mostrou porém naquele momento, guardou para mais tarde a punição. Por ora ignorou, distraiu a assistência, entornando propositadamente um copo de água. Acorreram, solícitos, vários Ministros moçambicanos que limparam a água derramada, substituíram o copo e garrafa enquanto Samora conversava para o lado com Chissano. Novo silêncio, e Machel circula à vista pela assistência suspensa daqueles olhos brilhantes. Devagar, a mostrar os dentes brancos num grande sorriso, afirma “vocês, portugueses, devem-me muito dinheiro! ...”

Pânico nos corações! Que mais teríamos nós que ouvir?

Mas o histrião, após saborear por uns momentos a expectativa levantada, explica que nas visitas que se seguiriam, Zâmbia, Tanzânia, nos haviam de perguntar, logo à saída do avião, onde estava o vinho do Samora.

“É o vosso vinho, fui eu que os ensinei a apreciá-lo!” Conclui.

“Sim, sim, ainda me lembra quando levei a primeira caixa de Rosé ao Nyerere. Imaginem pôs-se-me a bebê-lo por um copo de plástico! Fui logo comprar-lhe um serviço de copos de cristal Laroche e estive a explicar-lhe para que servia cada um, explicitou Machel, levantando um dedo e baixando-o, numa forma crescente de domínio sobre todos nós, magia e fascínio.

“Até que o Nyerere, acabada a lição me perguntou - Oh Samora, tu antes da guerra eras cozinheiro? - Oh Nyerere, eu não, porque me perguntas isso? - Oh Samora, se não eras cozinheiro, como sabes tu todas estas coisas? - Então, Nyerere, foram os portugueses que me ensinaram! - Ah, os portugueses ensinaram-te coisas dessas, Oh Samora? A nós os ingleses nunca ensinaram nada da vida deles ! ... “

Era a viragem do Cabo, Machel tornava-se mais vivo, mais intenso, batia com a ponta do dedo bem esticado na mesa, enquanto nos lembrava a obra gigantesca, cultural e humana, que deixámos em África. Parecia dizer-nos “então já se esqueceram?” E recordáva-nos que éramos um cimento, que éramos responsáveis pela herança que também deixáramos em Moçambique, língua, sentimentos, maneira de ser. Que tínhamos tanta ou mais obrigação do que os moçambicanos de defender esse património. “Isto aqui é uma ilha de português num oceano de países de língua inglesa, mas eu, eu não os deixo falar inglês da fronteira para cá, sou uma sentinela a defender os valores que são os Vossos!” E por tanto tempo quanto antes nos achincalhara, Machel exaltou as nossas virtudes, a nossa História com verve e talento. Gonçalves Pereira tinha o queixo encostado à mão, fitava-o intensamente, dominado pela qualidade única capaz de o submeter, a inteligência.

Mas logo nessa noite Machel haveria de começar a tirar desforra da ousadia do Ministro português. No decurso do banquete de Estado chamou o Aquino Bragança, responsável pela Cultura(nr:Aquino era um assessor informal do presidente mas nunca desempenhou qualquer cargo ligado à Cultura), que parecia desempenhar também junto dele as funções de bufão. O homem pequenino, gordo, despenteado foi plantado por detrás da cadeira do presidente e obrigado a contar aquela história do preto que colocado perante o dilema e a necessidade de eliminar uma cobra(capelo) ou um monhé, matou este último.

E goês é o Aquino Bragança como assim o é Gonçalves Pereira.

O programa da visita foi-se desdobrando, a monumentalidade de Cahora Bassa, a magia da Ilha de Moçambique, e com ela se acelerou o ritmo interior de Machel.

No último dia Eanes entregou-lhe a espada de Marechal. Foi no grande salão da Ponta Vermelha. Uma banda fez evoluções militares em frente de Samora e dos Ministros que são Coronéis e envergavam uniformes de gala verdes, com muitos galões, com muitos dourados e tricórnios emplumados. Os Ministros brancos sugeriam personagens de opereta, sobretudo quando se juntaram ao coral que Samora liderava, entoando Kanimambo, Kanimanbo, tão africano, tão natural na boca dos pretos, tão artificial nos Ministros brancos e indianos.

Saboreei o maquiavélico Veloso naqueles trajes de aparato. Vinha-me à ideia o encontro da Isabel Gaivão, mulher dele, quando na praia, num desafio gratuito e demagógico, apresentou a sogra a um primo, sublinhando “a mãe de meu marido, que é uma camponesa de Mangualde”. E logo o primo que entendeu a agressão - “que engraçado até rimava se você acrescentasse que a sua Avó é a Condessa de Mangualde...”

Bebeu-se champanhe nos jardins. Samora bebeu muito, no entusiasmo de celebrar aquele acontecimento cheio de simbolismo. Portugal entregava-lhe a espada. Era como o coroamento da vitória!

O banquete de retribuição de Eanes teve lugar no Hotel Polana. Trezentos convidados alinhavam-se nos braços que se estendiam perpendiculares à mesa presidêncial.

Samora voltou a beber, desta vez, do tal Rosé. Quando se levantou para responder ao discurso do Presidente português estava em plena euforia, pôs de lado o texto que lhe haviam metido nas mãos e lançou-se à desfilada no meandro de ideias e sentimentos, que o agitavam.

Voltou a fustigar os políticos portugueses para exaltar os militares, disse a Eanes que eles, sim, eles é que se amavam porque tinham sofrido a lutar uns com os outros na gloriosa batalha que conduziu à independência de Moçambique e à queda do fascismo.” E que faziam então os políticos, esses que agora estão em posições de destaque, que faziam então durante os anos de fascismo, enquanto nós lutávamos, sofríamos e morríamos? Pois é, alguns eram porta-vozes do Governo de Lisboa nas Nações Unidas!” (nr: Gonçalves Pereira tinha estado como jovem advogado na Missão Portuguesa em Nova Iorque no consulado de Salazar).

E ei-lo que pára e se debruça para mirar o Gonçalves Pereira, sentado umas cadeiras adiante. “E outros fugiram para Inglaterra e refugiaram-se em confortáveis cátedras universitárias.” De novo se detém, procura na assistência o Embaixador de Portugal e fita longamente José Cutileiro. “E outros, os diplomatas a roçar as calças pelas cadeiras de Embaixadas longínquas e confortáveis.”Desta feita busca e fita com vagar António Vaz Pereira, ex-Embaixador no Maputo e agora Director Geral dos Negócios Políticos do MNE. Fala depois em leis “Dura lex, como é o resto oh Senhor Professor? “pergunta, todo inclinado, ao Gonçalves Pereira, numa voz cortante e atrevida. O Ministro de novo fascinado pelo exercício de retórica, suspende a observação e responde irónico mas obediente “sed lex”. À medida que Samora ia cada vez mais longe, descia na sala um silêncio mortal, cobertura da indignação dos portugueses e do embaraço dos moçambicanos que empalidecidos, cabeças baixas se iam enfiando debaixo da mesa.

Reagiu o Gomes, o Senhor Gomes dos Estaleiros de Viana do Castelo, poderoso armador. Vinha como um dos convidados especiais do Eanes, por certo apoiante generoso da CNARPE e simultaneamente activo empresário ansioso por estabelecer cooperação com Maputo no ramo das pescas. Já me chamara a atenção entre a massa parda da comitiva. Haviam-me divertido os seus constantes salamaleques, os seus extremosos cuidados com a Presidenta, apreciara a vivacidade constante na forma de abordar e requestar, todo ele mesuras e simpatia para os moçambicanos, num jeito de exemplar caixeiro viajante. Atarracado e rude nos seus fatos dum castanho indeciso, a contrastar com gravatas vermelhas lavradas e brilhantes, o Senhor Gomes exibia nos gestos, no sotaque, na exuberância, todo o casticismo minhoto.

No banquete, assim como crescia a diatribe de Samora, assim aumentavam os sinais de inquietação do Senhor Gomes. Ao contrário da pose petrificada dos outros todos, a sua cabeça girava em todas as direcções, as suas mãos encrespavam-se, sentia o insulto, temia pelos negócios tão auspiciosamente encetados. Ei-lo que explode, o bom minhoto. Em carregado sotaque tripeiro, no colorido linguajar da Ribeira exclama alto e a bom som “O filha da puta do preto está-nos a foder a vida!” Só o sector longínquo em que sentava o ouviu mas ninguém tugiu nem mugiu.

Samora não escutou o protesto. Depois dumas valentes pancadas nas costas de Manuela Eanes, que lhe estremeceram o penteado armado, - “ E tu, Manuela, espelho das virtudes das bravas Mulheres portuguesas” Machel encerrou o discurso.

Foi numa atmosfera de gelo que se levantaram e passaram ao salão onde se servia o café. Eu quedei-me no átrio, a digerir a indignação.

Lá dentro Samora voltou a implicar com o André Gonçalves Pereira que calmamente lhe disse que não viera para dar lições mas também não estava ali para os receber.

“Eu prendo-o” exaltou-se Samora e num repelão em grandes passadas foi-se para o canto oposto do salão.

A Presidenta, quebradas que estavam todas as barreiras, à beira do desespero, invocava lastimosa o socorro do marido — “António, António, vem cá!” —. Mas já Machel voltava conciliador da outra ponta do salão.

“Oh, Doutor, eu não o prendo, Moçambique é um país livre, não se prendem os que discordam, eu até não o considero um fascista, senão nem lhe falava, nem o tinha querido cá!“ — Gonçalves Pereira ainda lhe disse a rematar “Eu até ficaria muito grato se o Senhor Presidente me prendesse seria uma forma de me imortalizar na história dos Ministérios dos Negócios Estrangeiros!”

A atmosfera tornava-se insuportável. Os Presidentes atravessaram os salões do Polana até ao átrio, seguidos pela multidão dos convidados num silêncio pesado. Já no pórtico do Hotel enquanto se aguardavam os carros e a chuva caía lenta e grossa, Samora com o mesmo tom sempre timbrado de energia pôs-se a chamar pelo nosso Embaixador - “Cutileiro, Cutileiro, onde estás tu? “ — “ Aqui, Senhor Presidente, respondeu-lhe ele, lá duma das pontas do grupo — “Aposto que não gostastes do que eu disse” — “O Senhor Presidente diz o que melhor lhe parece “— “Mas tu, Cutileiro, dizes mentiras de Moçambique para Portugal!...”

Foi uma noite de vigília. Gonçalves Pereira e os outros Ministros telefonavam para o Francisco Balsemão e discutiam o encerramento da viagem. Faria de Oliveira dava conselhos de tecnocrata a quem o destino vestira o jaquetão do Governo, Nandim de Carvalho mostrava o ventre rotundo e disparava graças·pesadas, o Gomes de Pinho filosofava suavemente. O Gonçalves Pereira estava só, ele mais essa arte que é a Política.

Eanes deixou-os sofrer, nem uma palavra até alta madrugada quando mandou recado a avisar que estava a contactar Machel no sentido de que fossem pedidas desculpas pelos incidentes da véspera.

De manhã cedo começaram a aparecer, um após outro, emissários de Samora, progressivamente de grau mais elevado, a apresentar desculpas pelo sucedido. A todos respondeu Gonçalves Pereira que não o haviam ofendido logo que não tinham desculpas a pedir-lhe nem ele a dar-lhas.

Eram já 9 horas da manhã quando Samora se decidiu pedir ele mesmo desculpas, mas o encontro seria na casa em que se hospedava Eanes. Ninguém assistiu ao “tête-à-tête” entre o nosso Ministro e o Presidente de Moçambique.

Estávamos cá em baixo no hall quando os vimos descer a escada de braço dado.

Propositadamente Samora deteve-se no meio do nosso grupo e fez o seu número, no momento exacto com a mesma maestria, o mesmo calor com que ofendera. Ali a bom som, no seu grande sorriso afirmou a Gonçalves Pereira que o considerava um talentoso Ministro dos Negócios Estrangeiros, que Sá Carneiro fora um dos mais brilhantes homens de Estado desta geração; que ficava à espera, para muito breve, duma visita do Primeiro Ministro Balsemão.

Assistira a um dos mais originais episódios possíveis em relações internacionais. Mas é que não fora apenas um acontecimento próprio das relações entre Estados. Fora sim, e sobretudo um ritual de exorcismo dos demónios do passado, que se agitavam tanto em nós como nos moçambicanos.

Samora fora o sacerdote dos passes mágicos. Eles magoaram, beiraram o insulto e a humilhação mas ao partirmos não eram esses os sentimentos que levávamos. Era como a estranha sensação de se ter atravessado uma borrasca para se chegar à manhã límpida e calma. Os recalques estavam lavados, a desconfiança banida, os sentimentos purificados e os fantasmas expulsos.

Foi exorcismo, umbanda, macumba porque atravessámos o fogo e não nos queimámos. Não ficou nem a vergonha da humilhação, nem a dor do insulto. Trouxemos; antes nos corações o orgulho de como uma Nação grande e jovem estava para sempre ligada a nós e por nós fora construída!”

O que de bom se pode encontrar numa casa alugada de praia

 


Galvão de Melo


Carlos Galvão de Melo faria 100 anos, no dia 4 de agosto. Muita gente já não se recordará dele, mas eu lembraria que foi um coronel da Força Aérea que os capitães foram buscar à reserva para integrar a Junta de Salvação Nacional, no dia 25 de abril de 1974, promovendo-o a general.

Viria a revelar-se o mais conservador de todos os membros da Junta, Spínola incluído. Foi afastado daquele órgão depois dos acontecimentos de 28 de setembro de 1974. Anti-comunista assumido, veio a ser deputado pelo CDS e foi mesmo candidato à presidência da República.

Os seus discursos contra os comunistas, de que ficou marca um que fez em Rio Maior, no auge do “verão quente” de 1975, ficaram no património afetivo de uma certa direita portuguesa. A qual, seguramente, também se recordará dos “bodyguards” ciganos de que Galvão de Melo se rodeava nas suas campanhas políticas.

Foi no fundo da rampa que dava acesso à antiga RTP, para quem vinha da Alameda das Linhas de Torres, que me “encontrei” pela primeira vez com Galvão de Melo. Eu fazia parte da pequena força militar da EPAM, chefiada pelo tenente João Pinto Bessa, que ali aguardava a Junta de Salvação Nacional, ao fim do dia 25 de Abril.

Os elementos da Junta (salvo Diogo Neto, que estava em Moçambique) chegaram em vários carros (vinham da Pontinha, como a História depois nos ensinou), desembarcando junto à bomba de gasolina que ali existia. Só Spínola e Costa Gomes eram caras nossas conhecidas. Todos começaram a subir a rampa, a caminho do estúdio onde iriam fazer a célebre comunicação ao país, e nós, cumprindo instruções, procurámos evitar que fossem seguidos por outras pessoas, nomeadamente jornalistas, que também queriam ir para as instalações da RTP. Um cavalheiro de sobretudo claro, com ar descontraído, procurou então aproximar-se de Spínola. Barrei o seu andamento com a minha metralhadora. Ele sorriu, complacente, e disse: “Eu também sou membro da Junta”. Eu retribuí o sorriso, mas em amarelo…

Passaram pouco mais de dois meses e, por uma irónica coincidência, acabei por ir parar, como adjunto, ao gabinete de Galvão de Melo, aí destacado pela Comissão de Extinção da PIDE/DGS, que ele tinha sob a sua tutela. Nesse mês de julho de 1974, fui trabalhar para o Palácio da Cova da Moura (20 anos depois, iria conhecer bem melhor aquele palácio, noutras funções), pela mão de José Manuel Costa Neves, então major, hoje general da Força Aérea. E por ali fiquei, até que Galvão de Melo foi forçado a sair da Junta, no final de setembro.

Éramos muito poucas pessoas, no gabinete de Galvão de Melo: uma simpática, e que recordo como muito eficiente, secretária que ele tinha trazido da Petrofina, onde era presidente, Costa Neves e eu. A agenda de atividades e audiências de Galvão de Melo, contudo, escapava-nos quase por completo. O nosso quotidiano passou a estar cheio de questões ligadas à subsistência das famílias dos antigos agentes da PIDE detidos e à gestão dos problemas da respetiva Comissão de Extinção, com visitas regulares de Conceição Silva e Alfredo Caldeira, que dela eram responsáveis.

Para o escritório de Galvão de Melo, em frente àquele que eu partilhava com o José Manuel Costa Neves, viamos, dia após dia, rumar um mundo das pessoas que tinham ficado de cabeça perdida com o 25 de Abril. A “reação” ia passando por ali, mesmo ao nosso lado. Era uma diária romaria de roceiros santomenses em fúria, de latifundiários em desespero, de generais “com contas no cartório”, em vias de serem saneados, tentando ainda “deitar o barro à parede”, para tentar evitar o inevitável. Galvão de Melo era, na Junta, o grande “muro das lamentações” contra o novo estado de coisas. Mas nada disso transpirava para a nossa sala, onde vivíamos mergulhados em intendência. Como o tempo viria a provar, o escritório do general acabou por ser um dos locais onde foi preparada a frustrada manifestação da “maioria silenciosa”, em 28 de setembro.

Pessoalmente, Galvão de Melo era uma pessoa agradável e educada, sem ser excessivamente simpática. Tinha uma expressão enfática e um pouco gongórica na conversa, projetava a imagem de um ex-galã, de um ator “canastrão” de Hollywood. Desportista, não perdia os seus momentos lúdicos, do ténis à equitação. Era formal na atitude mas percebia-se que tinha um forte sentido político das coisas. O futuro, em que mostrou algumas ambições nesse domínio, viria a confirmar essa perceção.

Um dia, numa das raras conversas a dois que tivemos, no seu gabinete, disse-lhe que tinha ficado surpreendido pelo facto de Álvaro Cunhal o ter citado, anos antes, no livro “Rumo à Vitória”, a propósito de uma reclamação que ele proferira contra o estado das Forças Armadas, atitude que, aparentemente, tinha levado ao seu afastamento da Força Aérea. “ Ah! Você leu isso! Nem imagina a popularidade que essa frase me tem trazido!” E deu uma gargalhada.

Galvão de Melo morreu em 2008, com 86 anos.

sábado, 31 de julho de 2021

Não, afinal estava assim...


 

Estará assim, daqui a pouco?

 


Marcelo sabe muito



O maluquinho

Há um maluquinho que, todos os dias, insiste em tentar colocar coisas neste blogue. Faz links para um blogue racista e negacionista, cheio de teorias conspiratórias, que tem a curiosidade de não ter visitantes. O maluquinho assina, imaginem!, uihggkj . Deve achar “o máximo” esse heterónimo que disfarça a sua doença mental. Pelo IP, já se sabe de onde vem. Um dia, vai ter uma surpresa.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Ida pela volta

 


Caixa forte


Fui hoje à Caixa. À agência do meu bairro. Aparentemente, estava fechada. A porta tem imensa papelada afixada. No meio, um horário. Pelos vistos, só se pode ir livremente de manhã. À tarde, e só até às três, apenas por marcação. Eram duas da tarde. Pelos vidros, não se via vivalma. Mas havia luzes. Toquei à campaínha. Uma senhora, lá de dentro, pelo telefone, repetiu-me as horas de expediente. E explicou-me que, à hora a que eu ia, “só por marcação”. Perguntou-me para quando eu queria marcar. Eu disse: “Marque para agora, por favor!…” Abriu-me a porta, simpática. Fui muito bem atendido. Aquilo que eu pretendia resolver só o poderia fazer presencialmente. Os bancos transformaram-se em entidades totalmente impessoais. Com simpatia “à la carte”. Não gosto. Deve ser da idade, admito.

Uma “Lezíria” perto de casa


Ontem, não nos apetecia jantar em casa, mas igualmente não queríamos ir muito longe. Recorri ao “Fork”, uma “app” muito útil, que efetua reservas sem termos de negociar nada telefonicamente: escolhemos o restaurante, escrevemos o número de pessoas e a hora desejada. Se houver lugar, recebe-se, quase sempre de imediato, um email a confirmar.

O “Fork”, que infelizmente não é adotado por muitos restaurantes, tem também a vantagem de nos indicar, com o número de metros, os restaurantes mais próximos do local onde estamos.

Surgiu-nos então o “Lezíria”, um nome que era acompanhado da sugestiva indicação: “casa de petiscos”. A menos de 10 minutos de casa. Lá fomos, com alguma curiosidade. É na Rua S. João da Mata, 46 (912 790 387), muito perto do Largo de Santos.

É uma sala não muito grande, com uma decoração “arejada” e muito cuidada. Não chegam a 20 pessoas os comensais possíveis. Só uma pessoa serve às mesas: educada, atenta, com sugestões úteis. E o serviço é competente e foi rápido.

O menu eram petiscos, como o nome indicava. Abrimos com uma salada de polvo e gambas salteadas. Depois, fomos para uns ovos mexidos com farinheira e uns peixinhos da horta. Uma mousse de requeijão com doce de abóbora e crocante de noz fechou o percurso culinário. As doses tinham o tamanho adequado. Estava tudo - sem exceção! - excelente! Uma sangria ajudou a que, mesmo com couvert, o preço apontasse para o início da casa dos 30 euros, para duas pessoas. Mas havia uma curta lista de vinhos, a preços muito aceitáveis.

Atenção! A lista estava muito longe de se resumir ao que comemos. Havia por ali outras propostas a que, em ocasião próxima, não deixarei de ser tentado: bacalhau com compota de tomate, mexilhões de cebolada, ovos no forno com cebola e chouriço, cogumelos gratinados e várias coisas mais. Tudo simples, tudo bom.

E assim, “sem saber ler nem escrever”, como se dizia na minha terra para aquilo que é fruto do acaso, descobri um pouso de amesendação leve perto de casa. Ganhei a noite!

Olavo

   


Desde há dois dias, a RTP 2 está a transmitir uma série que aborda a saga da família real norueguesa durante a segunda Guerra Mundial. As figuras centrais são o então príncipe herdeiro Olavo e sua mulher Marta Sofia, com esta a ter um destaque a História não lhe tinha dedicado. 

Olavo chegaria ao trono, como Olavo V, em 1957, por morte do seu pai, Haakon VII. Olavo V morreu em 1991, sendo sucedido pelo atual rei, o seu filho Harald, que surge já representado na série. 

A imagem que ilustra este texto mostra Haakon VII e o então príncipe Olavo, refugiados na zona de Tromsø, bem a norte do círculo polar ártico, antes da ida dos dois para Londres.

Quando fui viver para a Noruega, em 1979, o culto do rei era particularmente acentuado nas gerações mais idosas, pela memória dos tempos da guerra e da ocupação alemã. A polémica decisão do Haakon VII de se exilar em Londres, com o príncipe, acabou por se revelar acertada, tendo salvaguardado a soberania norueguesa e, de caminho, a própria coroa.

Ainda nos anos 70, Olavo V foi visto a viajar de elétrico na cidade de Oslo. Perguntado sobre os riscos em que incorria, o rei disse que tinha “quatro milhões de guarda-costas”, o total da população norueguesa. As preocupações com a sua segurança acabariam por se impor, mas Olavo V continuou a insistir em conduzir o seu automóvel, embora sempre com um polícia à paisana, ao seu lado.

Fui testemunha, um dia, de uma curiosa cena. 

Ia a pé numa rua de Oslo quando vi o imenso carro do rei (creio que era um Packard), com ele próprio ao volante. Recordo a curiosidade do rei ir de chapéu preto dentro do carro. Atrás, com uma antena reveladora, seguia uma viatura normal, com segurança. O carro do rei parou numa passadeira, para deixar uma senhora muito idosa, que caminhava lentamente e com dificuldade, atravessar a rua. A certo momento, ela olhou para o carro e, de repente, abriu-se num imenso sorriso, ao descortinar o seu rei como condutor. Este retribuiu com outro sorriso, tirou o chapéu, fazendo uma saudação à senhora. Foi então curioso vê-la a caminhar o resto da passadeira, sempre olhando o rei, em contínuas vénias, até chegar ao passeio. Deve ter ganhado o dia!

A Noruega permanece, nos dias de hoje, um país solidamente monárquico. Todos os anos, um partido suscita, no parlamento, um voto sobre a continuidade da monarquia. E perde, por expressiva margem, embora os analistas digam que um referendo, não pondo nunca em causa a continuidade do regime, teria uma expressão menos pronunciada.

Mas que ninguém se iluda: a regra é que países que tenham deixado de ser monarquias não voltam a ter um rei. A singular exceção foi a Espanha. Até ver.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Pedro Tamen (1934-2021)



             

 

O mar é longe


O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

“A Arte da Guerra”


Esta semana, a minha conversa com o jornalista António Freitas de Sousa, no “A Arte da Guerra”, no site do Jornal Económico, analisa os efeitos do escândalo do sistema de espionagem eletrónico Pegasus, os desafios que o governo de Mario Draghi enfrenta na Itália e o acordo entre os Estados Unidos e a Alemanha que permite a conclusão do gasoluto Nordstream 2.

Pode ver aqui.

terça-feira, 27 de julho de 2021

Há 51 anos


 
Morreu no dia 27 de julho. Algo me diz que também não teria apreciado o 25 de abril.

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Viva o 25 de Abril! Sempre!




Um dia, em inícios de 1983, o João Sobral Costa, um amigo já desaparecido, um gigante de bondade que, como capitão da Força Aérea, havia feito parte do grupo ocupante do Rádio Clube Português, na noite de 25 de Abril, e que trabalhava então em Luanda, onde eu estava colocado na embaixada, telefonou-me: “Queres ir beber um copo com o Otelo, ao Hotel Panorama? Está cá de passagem, vindo de Maputo”. Claro que queria.

Eu tinha uma grande simpatia por Otelo Saraiva de Carvalho. Não faço ideia de quando o conheci, naqueles tempos convulsos do 25 de Abril. Sei que só me recordo de mim a tratá-lo sempre por tu, porque, seguramente, ele terá dado abertura para isso ao jovem miliciano que, em 1974 e 1975, andava por aqueles corredores da Junta de Salvação Nacional e do MFA. Era uma figura cativante, sempre com um sorriso e uma palavra acolhedora, quebrando distâncias.

Em 1976, nas primeiras eleições presidenciais, eu tinha votado naturalmente Otelo, como muito boa gente, como Jorge Sampaio e muitos dos meus amigos. Era óbvio que ele não ganharia. Mas Eanes (e alguns que então o apoiavam) não me agradava (hoje, admirador do retidão do general, dou a mão à palmatória pela avaliação negativa que fazia da sua personalidade) e nenhum outro candidato me dizia nada politicamente. Confesso que não me revia no projeto de “poder popular” de Otelo, mas aquela era a candidatura de que me sentia afetivamente mais próximo. E não só não me arrependo desse voto, como faço questão de o não esconder nunca. Nós somos também as nossas circunstâncias.

“Então estás cá na embaixada?! Não te sabia diplomata!”, disse-me Otelo, no abraço no bar do Panorama, sobre a baía de Luanda. No fim da conversa, ao perceber que, no dia seguinte, ele e a sua mulher tinham uma hora de refeição livre, perguntei-lhe se queriam ir almoçar a minha casa. Quando lhe disse que vivia num pequeno apartamento no “compound” da embaixada de Portugal, no mesmo edifício onde ficava a chancelaria e o consulado-geral, notei alguma reticência da sua parte. Mas com o João já a favor da ideia, lá aceitou. Sugeri então que se nos juntasse o Arlindo Ferreira, outro capitão de Abril, que estava em Luanda para outras "guerras" (e que também já faleceu). Por aquelas "makas" (uso aqui uma expressão angolana) em que a família de Abril é useira e vezeira, não se reuniu consenso para o Arlindo se nos juntar. O Otelo torceu o nariz à ideia. Politiquices, deduzi.

No dia do almoço, vim à porta da embaixada receber Otelo, que chegou acompanhado da mulher. O edificio da Embaixada era na então rua Karl Marx, que antes fora chamada de Vasco da Gama e que, hoje em dia, é avenida de Portugal (evolução toponímica que daria para um mestrado...).

A grande maioria dos funcionários da nossa missão diplomática em Luanda era constituída por antigos quadros da administração colonial, que tinham visto o percurso da sua vida perturbado pelo 25 de Abril e pela independência do país. Em geral, sofriam a Revolução bem mais do que a celebravam. Não era, assim, legítimo pedir-lhes que entoassem loas à chegada do estratega da Pontinha. 

Um deles, boquiaberto, reconhecendo Otelo de fotografia, perguntou-me: "É o...?", sem ousar dizer o nome. Era, confirmei-lhe com um sorriso, e, nesse segundo, devo ter caído uns furos na sua escala de consideração, bem como na de outros a quem ele terá corrido a contar a inconveniente frequentação social do jovem diplomata que eu então era. Esse era, contudo, como perceberão, o lado para onde eu dormia melhor.

O almoço com Otelo foi uma ocasião que recordo como bastante divertida. Ele e o João Sobral Costa (Alzira, lembras-te da conversa?) que haviam sido vedetas operacionais de um filme onde eu só tinha feito umas "pontas" como figurante, conflituaram versões sobre alguma autoria do "documento do COPCON" (demoraria muito explicar aqui o que isso foi) e outras cenas desses tempos movimentados. Eu, que nunca tinha andado próximo da linha de ambos, no verão quente de 1975, era apenas espetador da discussão sobre os conciliábulos havidos no Alto do Duque. 

Recordo-me de ter então lido a Otelo extratos de um livro que ele não conhecia, escrito por um certo militar, onde se criticava o "silêncio" de Otelo durante a célebre "assembleia selvagem" (como alguns gostam de chamar-lhe) do MFA, em 11 de março de 1975. Rimo-nos todos, porque, ali, eu e o João podíamos atestar, como testemunhas presenciais, que Otelo, de facto, não tinha então falado, porque... não havia estado presente nessa tão badalada reunião!

Perdi Otelo Saraiva de Carvalho de vista. Fui sabendo pelos jornais das aventuras político-partidárias radicais em que se envolvia, da sua prisão, das acusações que sobre ele impenderam, seguidas das batalhas judiciais. Nunca tive a mais leve opinião sobre o assunto, só podendo esperar que a justiça se fizesse, fosse para que lado fosse. E, depois de toda a água que correu sob as pontes, também não tenho opinião sobre se a justiça se fez ou não.

Otelo, de quando em vez, ia sendo estimulado a fazer algumas declarações públicas à imprensa que me entristeciam: parecia procurar frases com impacto, para provocar polémica. Nada que ajudasse a preservar a parte da sua biografia que nós admirávamos.

Bem mais de três décadas passaram. Uma noite, em Viana do Castelo, sendo eu, nesse ano, presidente da Comissão de Honra das Festas de Nossa Senhora da Agonia (É verdade! Também fui isso!), chegado à Festa do Traje, deparei com Otelo e a sua mulher sentados nas cadeiras da plateia. Fui dar-lhe um abraço e convidei-o a vir juntar-se-nos à frente. Modestamente recusou. Mais um ano decorreu e demos mais um abraço numa ante-estreia de um filme do António Pedro de Vasconcelos. A derradeira vez que nos vimos foi na Associação 25 de Abril, há cerca de dois anos, na apresentação do livro que reproduz o que se passou nessa célebre assembleia do MFA, de 11 de Março de 1975. No final, eu disse-lhe: “Finalmente, ficaram reproduzidas em livro as intervenções que não fizeste naquela noite!”. O Otelo deu uma gargalhada e deu-me um último abraço. O Otelo deu-me a minha liberdade, eu apenas lhe dei alguns abraços. Fico a dever-lhe muito.

Para quem, como eu, tem o culto do 25 de Abril, a morte de Otelo Saraiva de Carvalho é um momento muito triste, é uma parte da minha memória afetiva que desaparece. E estimula-me a dizer, o que sempre digo e sempre direi com eterna convicção: Viva o 25 de Abril! Sempre!

domingo, 25 de julho de 2021

Otelo

 


Obrigado pelo que a minha liberdade que te deve!

sábado, 24 de julho de 2021

Vista do Alentejo

 


Vista do Tejo

 


5G

Os reguladores são independentes e, pelos vistos, intocáveis. Mas também podem ser incompetentes e, por essa via, insuportáveis para o país. O que se passa com o 5G é um escândalo e uma vergonha, revelando também a perversidade do labirinto jurídico em que Portugal se deixou cair.

Todes

O novo Museu da Língua Portuguesa, em S. Paulo, na sua apresentação digital, usa a palavra “todes” para o escapar ao grave dilema do politicamente correto entre o “todos” ou “todas”. Por mim, com toda a convicção, compro a polémica que quiserem e digo: são parves!

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Romaria



É uma romaria já com tradição. Nem a pandemia tem travado a realização do evento, sem quebra mínima de regras - até porque só se vive uma vez e, ao que creio saber, esta é a última. Trata-se dos festejos anuais de Nossa Senhora do Folguedo de Cima, de cujo miradouro a imagem mostra o que deve. De algumas zonas do país, num fim de semana de julho, para ali rumam os romeiros, no cumprimento fervoroso dos eventos agendados, que têm lugar à volta de uma mesa e de sofás por onde se espojam as conversas e a amizade coletiva. O programa de festas não é extenso: inclui belas vitualhas e bons líquidos a condizer. Lá iremos, daqui a pouco.

As histórias e a vida

Foi anteontem. Um bom amigo telefonou-me, apenas para saber como eu andava. Tenho desses amigos, felizmente. No meio da conversa, deixou cair: “Lá te tenho lido! É pá! Tu ainda tens muitas histórias para contar?” Respondi que sim, que tinha muito boa memória e que, além disso, a vida me dava, todos os dias, pretextos para episódios novos, que “tratava” depois por aqui. E que enquanto houvesse gente, como ele, disposta a ler-me, “a luta continua”. O que o Zé Vera Jardim talvez não estivesse à espera é que aquele seu telefonema também fosse motivo para um texto.

“A Arte da Guerra”


Esta semana, no “Jornal Económico”, regressam as minhas conversas com o jornalista António Freitas de Sousa sobre temas internacionais.

Desta vez, abordamos a instabilidade em Cuba e na África do Sul, analisando também as repercussões internacionais da política britânica em matéria de pandemia.

Pode ver esse programa clicando aqui.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

A outra Noruega


Foi há dez anos. Um militante de extrema-direita colocou uma bomba que matou oito pessoas em Oslo e daí partiu para uma ilha próxima, onde jovens do Partido Trabalhista realizavam um encontro. Liquidou então a tiro, um a um, 69 dentre eles. 

Não se confirmou que o assassino estivesse ligado a alguma rede, ao contrário do que ele próprio afirmava. Aparentemente, o ato teve com objetivo manifestar a sua oposição ao que entendia ser a “islamização” crescente da Europa e a cumplicidade dos “marxistas” nessa deriva. Nada muito diferente do que alguma gente pensa por aí, ligada a agendas de ódio, embora sem se dispor a chegar a “vias de facto”.

Vivi três anos na Noruega, a partir de 1979. Vinha de um Portugal ainda em convulsão, depois do período revolucionário. Encontrei uma sociedade que me surpreendeu pela serenidade e civilidade do debate político. Os trabalhistas, partido histórico do poder, estavam já então sob algum desgaste político. Em eleições que ocorreram quando por lá vivia, a direita chegou ao poder.

Na noite do sufrágio, depois de apurados os resultados que levaram os conservadores ao governo, um jornalista português destacado por “O Jornal” para cobrir o evento, Fernando Dacosta, pediu-me que o levasse a ver as manifestações nas ruas, pela mudança ocorrida, que alteravam fortemente o “statu quo”. Quando chegámos ao centro da cidade, sem vivalma, cerca da meia-noite, ambos constatámos que ali se vivia numa “galáxia” política diferente da nossa. Por essa altura, cansado de alguma balbúrdia lusa, cheguei a perguntar-me se aquele civilizado modelo político (tirando o rei do tabuleiro institucional), idêntico ao praticado noutras sociedades nórdicas, não seria, afinal, a democracia ideal. 

É sempre muito redutor e caricatural afirmar, sobre um determinado país que apenas conhecemos conjunturalmente, que as coisas são “assim” ou “assado”. A sociedade calma e tolerante, criada pela social-democracia norueguesa, que a direita ascendente alterou apenas em alguns aspetos menores, era incompatível com o nacionalismo irracional que emergiu no dia 22 de julho de 2011? Não sei responder. À época, parecia ser. A tolerância, a moderação e um sólido património de consenso face a certos valores e alguns adquiridos, parecia fazer parte de um contrato social com larga base de apoio. A riqueza recente do país, contrastante com a memória de tempos de pobreza e de guerra, dava a ideia de colocar a Noruega ao abrigo de derivas totalitárias.

A Noruega, nesse tempo em que por lá andei, era um país acolhedor para refugiados políticos de várias origens e financiava agendas de grande generosidade no mundo em desenvolvimento. Mas, em abono da verdade, também por ali observei alguns sinais de xenofobia e mesmo de racismo. Nunca esqueci o olhos molhados de um caboverdeano, que tinha adquirido nacionalidade norueguesa, a contar-me que um dia, num serviço público, alguém lhe disse, de forma arrogante: “Você mudou de passaporte, mas não mudou de pele”. E era um pouco irritante ouvir, sempre que havia um roubo, ou um distúrbio à ordem social, o comentário rotineiro: “Deve ter sido um estrangeiro”. Nesse tempo, não havia redes sociais ou caixas de comentários onde detetar o outro país. 

Nenhuma sociedade está imune a evoluir negativamente face à diferença, como nós próprios bem sabemos. Nada disso, porém, apontava no sentido de vir ali a ser gerado um monstro como aquele que, naquele mesmo dia de há dez anos, fez 77 vítimas totalmente inocentes, num ato de terrorismo indiscriminado. A História mostra-nos que nunca devemos subestimar a capacidade de uma sociedade gerar, no seu seio, os piores monstros. E que, no dia a dia, devemos manter-nos alerta e pensar que tudo é possível em toda a parte.

Terei mesmo escrito isto?


Há coisas que, embora com um tema muito apelativo, e tendo-me sido atribuídas, não consigo ter “lata” para colocar na minha bibliografia…

Que anos estes!

O médico, à saida: “Venha cá daqui a meia dúzia de meses, lá para janeiro”. Caramba! Ainda não vivemos nada deste 2021 e já estamos a falar de 2022!

Quem me manda a mim…

Balcão da Livraria da Travessa, há minutos. Alguém pede um livro, soletrando o apelido: “B, dois E, V, O, R”. Interrompo: “Desculpe, mas não é com dois E, é com E seguido de A”. Agradecimento e saio. Chego à rua, vou ao Google. Por que não estive calado?

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Os amigos de Aristides


Depois de muitos anos de esquecimento, em especial por parte da diplomacia portuguesa (no tempo da ditadura, mas não só), o nome de Aristides de Sousa Mendes, o cônsul rebelde às instruções desumanas de Salazar, tem vindo a grangear um destaque internacional e nacional merecido. A colocação dos seus restos mortais no Panteão Nacional, no próximo dia 5 de Outubro, consagrá-lo-á, em definitivo, entre nós.

Revelar e manter viva a memória das ações de Sousa Mendes foi uma tarefa em que, ao longo dos anos, se empenhou muita gente, em iniciativas frequentemente esparsas, às vezes competitivas entre si, outras vezes subordinadas a algumas agendas e até mesmo a certos egos. Mas tudo parece ir terminar agora da melhor forma.

Neste contexto, gostava hoje de deixar anotado o nome de três cidadãos portugueses que, no estrangeiro, pude testemunhar - em três postos diplomáticos em que servi - como extremamente empenhados, ao longo de vários anos, em relevar a ação meritória de Sousa Mendes. Constatei que o fizeram, ou fazem, sem o menor interesse, por uma mera questão de justiça que decidiram assumir como sua.

Começo por falar de João Crisóstomo, um português que vive em Nova Iorque. Além de muitas outras iniciativas que fui acompanhando, recordo-me de que, há precisamente 20 anos, ele organizou, com a ajuda do então ICEP, uma exposição que tive o gosto de inaugurar e que, mais tarde, se conseguiu viesse a ser apresentada na Argentina, com o empenhamento do embaixador José Augusto Seabra, então em Buenos Aires.

Deixo também uma palavra à memória do jornalista Paulo Martins, já desaparecido, figura que, no Brasil, desenvolveu um trabalho muito interessante para divulgar Aristides de Sousa Mendes. Foi com ele que montei, no Instituto Camões, em Brasília, uma conferência onde se destacava a ação o antigo cônsul português.

Finalmente, falo de Manuel Vaz Dias. A partir de Bordéus, tem revelado uma extrema dedicação à memória de Aristides de Sousa Mendes. Durante o meu tempo como embaixador em França, pude apreciar e apoiar o seu esforçado labor organizativo, nomeadamente com eventos desenvolvidos em Bordéus e em Paris.

Estou certo que outros cidadãos portugueses, por esse mundo fora, terão sido sensíveis à necessidade de preservar a memória de Aristides de Sousa Mendes. Mas estes três foram aqueles cujo trabalho pude apreciar de perto. Aqui fica esta nota que lhes é devida, “for the record”.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Vera Lagoa

Saiu hoje uma biografia de Vera Lagoa. Estou a “passarinhar” pelas páginas (a leitura fica para férias). 

Descobri, entretanto, uma passagem do livro em que Vera Lagoa é citada a reagir a quantos acusavam a sua coluna ”Bisbilhotices”, no “Diário Popular”, de se arrogar a fazer apreciações críticas sobre peças de teatro, filmes, pintura ou outras dimensões artísticas ou literárias. Lagoa defendia-se dizendo que essa era apenas a sua opinião e que não tinha culpa de que muitos a lessem (e muitos, mesmo muitos, a liam, como é sabido) e, por essa via, ficassem influenciados.

Sem o saber, Vera Lagoa, já então feita ”tudóloga”, antecipava as atuais redes sociais, um mundo em que mesmo quem não perceba rigorosamente nada sobre um assunto tem hoje todo o espaço para ”botar” a sua opinião, lado a lado com quem possa ser o maior especialista naquilo de que está a falar.

“A Arte da Guerra”


Amanhã, quarta-feira, dia 21 de junho, pelas 19 horas, no site do “Jornal Económico”, regressam as conversas semanais com o jornalista António Freitas de Sousa, em “A Arte da Guerra”, um espaço de análise sobre temas internacionais. 

A situação política em Cuba e na África do Sul, bem como as dimensões diplomáticas da singularidade britânica na gestão da pandemia serão os três temas em foco.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Da fornada de Wilton Park


Foi no primeiro semestre de 1986. Portugal tinha acabado de entrar para as então chamadas Comunidades Europeias. Recém-chegado de Luanda, eu estava colocado na Direção-Geral que, entre nós, se ocupava das questões das ditas.

Um dia, o sub-diretor geral, Paulo Castilho, perguntou-me se eu queria ir fazer um curso sobre assuntos europeus a Wilton Park. Tratava-se de uma instituição dependente do Foreign Office, situada perto de Brighton, onde se têm lugar interessantes seminários residenciais sobre temáticas internacionais. Para essa ocasião, além de diplomatas, académicos e jornalistas britânicos, o governo do Reino Unido convidava um diplomata de cada um dos outros 11 países das Comunidades Europeias.

Mal eu sabia que, nessa semana de “colégio interno”, com debates de manhã à noite (mesmo à noite, porque havia quase sempre um convidado para uma palestra “au coin du feu”), iria conhecer gente, ligada aos assuntos europeus, que fui depois encontrando pela vida fora, alguns dos quais guardei como amigos. 

Foi uma semana de extrema utilidade formativa e uma ocasião muito divertida, no belo ambiente de grupo que se gerou. Ao final da tarde, jogava-se “croquet” no jardim ou sentavamo-nos, a ler ou a conversar, nas várias salas ou na biblioteca da mansão, nesse tempo em que ninguém pensava se havia ou não wifi...

O “pub” dentro de Wilton Park fechava muito cedo. Uma noite, eu e o colega espanhol, convidando alguns outros, em três táxis, organizámos uma romagem a Brighton, para completar a jornada. A direção de Wilton Park não pareceu ter ficado excessivamente agradada com a iniciativa ibérica. Em anos seguintes, no entanto, tive o gosto de regressar algumas vezes à magnífica mansão de Wilton Park, como orador convidado.

Hoje de manhã, aqui pelo Twitter, a mais brilhante das cabeças jurídicas que alguma vez encontrei na área europeia, Jean-Claude Piris, sublinhava o facto de um nosso comum amigo, Tom de Bruijn, ter sido nomeado ministro do Desenvolvimento e do Comércio Externo dos Países Baixos. 

Foi precisamente naquela jornada de Wilton Park, há 35 anos, que eu conheci Tom de Bruijn. Na sua carreira, Tom iria ser um brilhante diplomata, diretor-geral dos Assuntos Europeus e embaixador junto da União Europeia, tendo ainda vasta experiência académica. Era um bom negociador, como testemunhei nos debates para a fixação dos tratados de Amesterdão e de Nice, onde ele foi o “deputy” de Michael Patijn, demonstrando um conhecimento notável da realidade europeia. Só me resta desejar-lhe felicidades nas novas funções.

As redes sociais continuam a ser o meio privilegiado para se saber por onde andam os amigos.

Javier Cercas



Há dias, numa determinada circunstância social, ouvi alguém dizer “e ali o Javier Cercas…” Voltei-me para o escritor e editor Francisco José Viegas, que estava ao meu lado e, em voz baixa, perguntei-lhe: “Qual é o Javier Cercas?” O Francisco, com o sorriso que é o dele, apontou, de forma discreta, para a pessoa que estava precisamente junto de mim…

Acabada a função a que assistíamos, dirigi-me a quem me tinha sido indicado como sendo Javier Cercas e disse-lhe que pretendia cumprimentá-lo e felicitá-lo por livros que dele tinha lido e que me haviam dado um imenso prazer. Fi-lo porque senti, naquele momento, um dever de gratidão pelo gosto que havia tido em ler o “Anatomia de um Instante”, um relato extraordinário e muito esclarecedor sobre a tentativa de golpe militar que ocorreu em Espanha em 23 de fevereiro de 1981, e pelo fascinante “O Impostor”, a descrição de uma personagem real, que ficcionou uma sua biografia heróica, na Espanha pós-Franco.

E estava eu, perante um Javier Cercas naturalmente sorridente e agradado com o que eu lhe dizia no meu “portuñol”, a prestar-lhe uma modesta homenagem, quando a minha mulher se aproximou e eu fiz as apresentações. “Javier Cercas? O autor dos “Os Soldados de Salamina”? Esse livro foi como que um ‘murro no estômago’, para mim”, foi a reação dela, lembrando um pequeno grande livro de Cercas que a tinha impressionado muito.

Javier Cercas agradeceu, com grande simplicidade e simpatia, aquilo que lhe tínhamos dito, talvez curioso por ter ali encontrado, por mero acaso, duas pessoas que, não apenas apreciavam o que escrevia, mas que, vencida a barreira da timidez (falo por mim), tinham-se tirado dos seus cuidados e haviam querido dizer-lhe o bem que pensavam da sua obra. Imagino que, para um escritor, esse reconhecimento seja sempre agradável.

Por mim, devo dizer, fiquei muito satisfeito pela oportunidade. Às vezes, dizemos coisas simpáticas de alguém, seja por dever de ofício, seja por obrigação de circunstância. Algumas dessas vezes, até exageramos no elogio. Desta vez, contudo, num impulso mil por cento genuíno (tão genuíno que até tinha tido eco num casal!), eu tinha tido o gosto de dizer a um escritor, cara a cara, o quanto apreciava o que ele escrevera. Nunca o tinha feito antes a ninguém, noto agora. Com toda a certeza, muita gente já devia ter dito coisas similares a Javier Cercas. Mas há algo que tenho por seguro: ninguém lho disse nunca de uma forma mais sincera.

A “roleta britânica”

Começa hoje a “roleta russa” britânica, suspendendo a maioria das precauções públicas no tocante à pandemia. Estarão certos? Prouvera que sim!

domingo, 18 de julho de 2021

Nã conhecia!


Dirão: um restaurante tipicamente alentejano, no Alentejo? Isso é novidade? Não é, de facto. Mas este, de que falo aqui, tem duas caraterísticas que, conjugadas, são únicas: é bom (o que também acontece com outros, é verdade) e fui lá almoçar hoje (o que não aconteceu com mais nenhum outro restaurante em todo o mundo).

Afinal, está tudo calmo por aqui...

 


sábado, 17 de julho de 2021

José Carlos Serras Gago


Era uma voz débil. Da cama do hospital. Quis falar com amigos, pressentindo, com certeza, que seria a última vez que o fazia. Foi há poucos dias.

Fico sempre sem saber o que dizer nestas situações e, invariavelmente, saem-me expressões tontas, pouco ajustadas ao momento. Uma vez mais, foi isso que aconteceu.

Conheci o José Carlos Serras Gago em Paris, há quase meio século. Ele vivia na Casa do Líbano, na Cidade Universitária. 

Foi-me apresentado pelo Joaquim Pais de Brito e, logo nessa noite, num jantar num "bistrot", trocámos notas sobre os muitos amigos que tínhamos, em comum, em Lisboa. E, como era natural nesse pequeno mundo em que nos tinhamos movido, das Avenidas Novas a algum Chiado, tínhamos estado em "cenas" (à época, o termo não se utilizava) comuns: "O quê?! Também estiveste naquela Assembleia Geral da Livrelco? E foste para o Canas, fugido à polícia, no enterro do António Sérgio?"

Depois, em alguns dias de turismo livresco e intelectual, andei com o José Carlos pela universidade de Vincennes, onde me levou a uma aula do Nicos Poulantzas e me foi introduzindo a outras vedetas do esquerdismo em moda. Eu, intimamente, prestes a fardar-me de verde em Mafra, sem lho dizer, invejava-lhe aquela jornada parisiense.

Depois do regresso do José Carlos a Portugal, após Abril, tentámos fazer um livro a duas mãos. O projeto morreu, e guardo a minha quota de culpa nisso, depois de três reuniões numa casa no Alto da Barra. O José Carlos passou a andar pela Sociologia, eu passei a andar por fora.

Um dia, coincidimos no MNE. Ele na OCDE, outra vez em Paris, eu por Lisboa. Encontrávamo-nos a espaços. Lembro-me de que tivemos algumas discussões, em regra pela avaliação diferente que fazíamos de algumas figuras políticas em voga. Mas navegávamos nas mesmas águas.

Isso ficou muito mais patente nos últimos anos, quando uma das mais ruidosas e animadas tertúlias almoçantes lisboetas nos reunia com alguma regularidade. O José Carlos, numa regra sempre confirmada, era o último a chegar à mesa. E trazia sempre um sorriso aberto, uma graça na ponta da língua, uma história divertida - e sempre inteligente e culta - para contar. Às vezes, não poucas, a sua cara traduzia uma saúde frágil, mas ficava a ideia de que o regresso ao grupo o animava, lhe dava um sopro de vida. Um dia, mais pálido, confessou-me: "Vim do hospital para aqui".

Nos longos meses da pandemia, suspensas as refeições do grupo, falámo-nos, de quando em quando, para saber como estávamos a aguentar a chatice coletiva. Nunca o vi esmorecer, mas, sem grandes pormenores, pressenti que as coisas se estavam a agravar, para os lados da saúde dele.

Naquela nossa última conversa, pelo telefone, a uma frase de ânimo, da minha parte, respondeu de uma forma que me deixou entrever o que aí vinha: "Não sei se vou ter força para aguentar isto". Não teve.

Manuel Alberto Valente


Foi uma cerimónia simples, mas com forte significado. 

Manuel Alberto Valente, uma das grandes figuras do mundo editorial português, recebeu na quinta-feira, na embaixada de Espanha em Lisboa, das mãos da respetiva embaixadora, a Comenda da Ordem de Isabel a Católica.

Ao longo da sua longa e excecional carreira editorial, Manuel Alberto Valente teve um papel da maior importância na divulgação da literatura espanhola entre nós. O Estado espanhol quis, com este seu gesto, manifestar-lhe o um reconhecimento e prestar-lhe uma homenagem. E os escritores e intelectuais espanhóis presentes sublinham isso mesmo.

Fomos bastantes - e mais seríamos se a pandemia não nos andasse a rondar os dias e obrigasse a limitar as presenças - os amigos que quiseram associar-se a este momento. Um belo fim de tarde, nos jardins de Palhavã.

Um forte abraço, Manel, extensivo naturalmente à Rosário.

A tristeza de Cuba




A partir dos anos 60 do século passado, os Estados Unidos, que até então tinham vivido felizes e contentes com o regime ditatorial que Fulgencio Baptista mantinha em Cuba, convertida num bordel americano, abespinharam-se quando um grupo de guerrilheiros tomou conta do poder, com amplo apoio popular, naquela que os EUA sempre consideraram ser uma sua zona indisputada de influência. E enfureceram-se bastante mais quando o novo regime caiu nos braços da União Soviética e instalou um modelo de comunismo tropical às portas da Florida.

O desfecho da chamada “crise dos mísseis” provou que as potências que lideravam as duas trincheiras da Guerra Fria implicitamente acabavam por aceitar o conceito de “soberania limitada”, para Estados situados na sua proximidade estratégica, cuja liberdade de afirmação política ficava dependente das condicionantes de segurança determinadas pela potência prevalecente na área. Do outro lado do espelho político, isso já era claro: a Finlândia, por décadas, teve essa experiência e a Ucrânia ou a Geórgia sentem isso na pele, nos dias que correm.

Na atitude americana, seria uma falsa ingenuidade acreditar em pruridos ético-democráticos, como forma de explicar o bloqueio constante imposto ao país de Fidel de Castro. Não só Washington tinha vivido muito confortável com Baptista como, na década que se seguiu ao seu derrube, sob o pretexto da luta anti-comunista, viria a apoiar ou mesmo a encorajar alguns sinistros regimes ditatoriais na região, todos eles, aliás, bem mais sanguinários do que o modelo entretanto criado pelos barbudos saídos da Sierra Maestra.

O bloqueio americano a Cuba, sendo uma afirmação arbitrária e arrogante de poder, com fortes e duradouros efeitos detrimentais na vida da população cubana, viria a convocar uma romântica comoção internacional de apoio a Fidel e aos seus homens, estimulada pelo orgulhoso sentimento de nacionalismo patriótico que, à época, atravessava a população cubana.

À esquerda democrática europeia, embalada num endémico anti-americanismo, que outros cenários estratégicos, como o Vietnam, então favoreciam, nem por um momento terá passado pela cabeça interrogar-se por que razão era necessária uma ditadura de partido único, sem liberdades, para enfrentar a agressão “yankee”. Fidel estava “absolvido” dessa deriva, mesmo antes da História o poder vir a julgar nesse sentido, como ele proclamava.

E de regime libertador dos cubanos, a Cuba de Castro viria ainda a autoerigir-se num "exportador" de revoluções pelo mundo, aliás sem grande sucesso. O "dois, três, muitos Vietnam" da retórica de Che Guevara (o qual, se fosse vivo, talvez não gostasse de ver aquilo em que o Vietnam se transformou) acabou por ser um imenso fracasso.

Pressentido como executor de um "outsourcing" ditado por Moscovo, que durante décadas pagava as faturas de uma economia abafada pelo embargo, o regime de Fidel de Castro, que identificava a menor dissidência interna com uma traição pró-yankee, acabou por se converter num dos atores centrais da Guerra Fria. Mas, curiosamente, embora de forma progressivamente mais penosa, tem conseguido sobreviver-lhe.

Os refugiados cubanos nos EUA transformaram-se, entretanto, num forte lóbi, pugnando por uma política de dureza face ao regime de Havana. As sanções, de que nunca desistiram, acabaram ironicamente por dar a Cuba um motivo constante para rigidificar a sua posição e prolongar o regime ditatorial.

Obama tentou um gesto de descrispação, num tempo de transição endogâmica na liderança cubana, mas Trump fez gorar esse esforço. Joe Biden não tem, por ora, suficiente legitimidade para poder recuar a História ao tempo de Obama.

A aventura política, cada vez mais solitária, de Cuba, a que a pandemia retirou entretando os réditos essenciais da indústria turística, deixou de ter o menor élan ideológico e vive dias muito complexos e, essencialmente, cada vez mais tristes. E a tristeza não rima com os cubanos.