segunda-feira, 23 de novembro de 2020

A Índia e a Europa


Foi há 21 anos, na Finlândia, no final de novembro de 1999.

Eu tinha chegado a Helsínquia, desfeito de cansaço, ido de Seattle, no extremo noroeste dos Estados Unidos, onde tinha chefiado, por alguns dias, a delegação portuguesa à frustrada - e famosa, pelos imensos conflitos de rua - reunião da Organização Mundial de Comércio.

Cabia-me representar Portugal na “troika”, presidida pela presidência finlandesa, que ia ter uma reunião de “diálogo político” com a Índia, em nome da União Europeia.

Semanas antes, numa conversa com Jaime Gama, ministro dos Negócios Estrangeiros, tínhamos comentado a anomalia que era a União Europeia ter estabelecido “parcerias estratégicas” com os EUA, Canadá, Rússia, China e Japão, sem que isso acontecesse com a Índia e o Brasil. Essas “parcerias” são o estádio mais elevado de relação política entre as duas partes, colocando quem as titula no topo das prioridades das relações externas da União.

Já na sala da reunião, no ministério finlandês dos Negócios Estrangeiros, tendo ao meu lado Chris Patten, o comissário para as Relações Exteriores da UE, fomos avisados de que a MNE finlandesa Tarja Halonen tinha ficado retida no parlamento, por algum tempo mais. O diretor político finlandês transmitiu-me o pedido da ministra para que, até à sua chegada, eu iniciasse os trabalhos e chefiasse a ”troika”. Assim fiz.

Apoiado nas “speaking notes” preparadas pelo secretariado-geral do Conselho, que disciplina um pouco o nosso intravável improviso, lá avancei pela agenda da reunião. Num dos pontos, o ministro dos Negócios Estrangeiros indiano, que chefiava a respetiva delegação, referiu quanto a Índia lamentava não dispor ainda de um quadro de diálogo mais estruturado com a UE, como aquele que uma “parceria estratégica” poderia proporcionar.

Veio-me então à ideia a conversa com Jaime Gama. Discretamente, perguntei a Chris Patten, sentado à minha direita, o que é que a Comissão acharia se a presidência portuguesa, que teria início dentro de escassas semanas, lançasse o processo de uma “parceria estratégica” entre a UE e a Índia. Patten garantiu-me que, por parte da Comissão, essa seria uma ideia muito bem vinda. Na resposta ao ministro indiano, assumindo por instantes o “chapéu” de futura presidência, anunciei que, se concordassem, Portugal iria testar junto dos parceiros essa possibilidade. Os indianos ficaram encantados!

Menos encantados terão ficado os finlandeses, que terão visto, no anúncio da nossa iniciativa, uma implícita desvalorização do “diálogo político” (um nível inferior de interlocução) que ali se tinham proposto desenvolver. A cara do diretor político finlandês assim o denunciava.

Minutos depois, Tarja Halonen assumiu a chefia da “troika”. No intervalo para o almoço, informada do ocorrido, disse que teria preferido que eu a tivesse consultado antes de tomar a iniciativa. Expliquei que reagira ao comentário do ministro indiano. E aproveitou para sublinhar que, semanas antes, no Dubai, eu tinha também aproveitado uma reunião por ela presidida, com países do Golfo, para propor a realização, em Bruxelas, sob nossa futura presidência, de uma reunião com a UE com o Conselho de Cooperação do Golfo. Ela não deixava de ter alguma razão...

Mas a questão da Índia não ficava por ali. Para o assunto poder ter “pernas para andar”, era preciso obter um acordo unânime dos parceiros. E, para isso, era necessário Jaime Gama usar todo o seu peso político, desde logo, junto dos “key players” dentro da UE - o Reino Unido, a França e a Alemanha.

Telefonei a Gama, ainda de Helsínquia, dando-lhe conta do que tinha feito. Concordou, em absoluto. Disse-lhe que, agora, se tornava necessário ele conseguir “segurar” a questão, logo na semana seguinte, na reunião do Conselho de Ministros “Assuntos Gerais” (como, à época, essas reuniões se chamavam).

Mas nem tudo ia correr como eu pensava. “Não vou poder ir a Bruxelas a esse Conselho. Você é que vai chefiar a delegação portuguesa”, disse-me Gama. Era a noite face ao dia. Gama tinha, com os seus colegas, uma relação de intimidade e confiança, agregada a um peso político, que não se comparava com a minha, que lidava, em regra, com os secretários de Estado, ao meu nível, num “campeonato” diferente.

Mas lá fui a Bruxelas.

Comecei por abordar Robin Cook, o ministro britânico, que, como eu previa, foi muito aberto. Sempre era um membro da Commonwealth a ter o estatuto de “parceiro estratégico”. E disse-me que Patten já tinha falado com ele do assunto. O profissionalismo da diplomacia britânica era uma evidência.

O francês Hubert Védrine, dos três ministros aquele com quem eu tinha uma melhor relação pessoal, foi mais cauteloso. Não tinha qualquer objeção de fundo, mas o “Quai” tinha de apreciar o assunto, à luz dos vários equilíbrios envolvidos.

Restava Joshksa Fischer, o “verde” MNE alemão. A corrente nunca passou entre nós, desde o início. Foi “dismissive”, vago, pouco interessado, colocou algumas objeções, inventadas no momento. Aqui iríamos ter um problema, pela certa.

Regressei a Lisboa, chamei o embaixador indiano em Portugal e disse-lhe que seria essencial que, na sua capital, fosse feita, com caráter de urgência, uma forte pressão junto dos embaixadores francês e alemão, para facilitarem a aceitação da proposta portuguesa, que dentro de dias seria formalmente apresentada. Aconselhei-o mesmo a que, se possível, também fosse desencadeada, ainda em Nova Delhi, uma ação de sensibilização juntos dos restantes embaixadores europeus.

Assim poderá ter acontecido, ao observar o modo fácil como, nas semanas seguintes, o assunto evoluiu no quadro institucional de Bruxelas. Graças à iniciativa portuguesa, a “parceria estratégica” UE-Índia ficou consagrada para todo o sempre. (Anos de depois, em 2007, uma nossa iniciativa idêntica viria a fixar a parceria UE-Brasil).

Lembrei-me hoje disto, ao ver anunciado que o encontro da “parceria estratégica” entre a União e a Índia será um dos pontos altos da próxima presidência portuguesa, no primeiro semestre de 2021.

Tão divertido!


Nem imaginam como é divertido folhear as expetativas, desenhadas pelo “The Economist”, no final de 2019, para o ano que estamos a viver. É uma espécie de História contrafactual.

domingo, 22 de novembro de 2020

A louça do padre Domingos


Acabo de saber que um dos leitores fiéis deste espaço teve um acidente e partiu a bacia. Nada de grave, que uns tempos de repouso não cure.

Aconteceu o mesmo, um dia, ao padre Domingos, o simpático sacerdote de Bornes de Aguiar, pessoa que, por décadas, batizou, casou e enterrou toda a gente da minha família materna. Já lá vai há muito, o amável padre Domingos.

“A ti, só te batizei, foste o único que não consegui casar”, dizia-me ele, pesaroso perante o ímpio que lhe tinha escapado ao sagrado controlo, registando essa falha no seu currículo. “E até foste já a andar para a pia batismal”, recordava-se ele.

Do que ele se não lembrava, e eu e os meus pais tínhamos a delicadeza de lhe não recordar, é que teria sido a água gelada que utilizou no ato, nessa manhã frígida na capela de S. Martinho de Bornes, no alto das Pedras Salgadas, que terá desencadeado em mim uma seriíssima bronco-pneumonia, que me pôs, por semanas, no limbo da vida e me ia levando desta para melhor. Foi graças à então escassa penicilina, que vinha do Porto para Vila Real, pela mão do recoveiro, que hoje estou aqui a contar isto. Aí terminou, aliás, a minha relação com a igreja.

Como antes disse, o bom do padre Domingos, um dia, sabe-se lá como, num azar, talvez num degrau de altar, partiu a bacia. A paróquia entrou em estado de pena e as ratas de sacristia faziam corrupio para ir saudá-lo, lá a casa.

Numa dessas vezes, cansado da conversa monotemática, perante uma paroquiana que, entre ladaínhas pias, dramatizava o que tinha sucedido ao “senhor padre Domingos”, este, já um pouco irritado, terá retorquido: “Ó mulher! Eu parti a bacia, mas não parti o jarro...”

Observare


Com Luís Tomé e Carlos Gaspar, sob moderação de Pedro Pinto, editámos ontem o quarto programa “Observare”, dedicado à análise da vida internacional, numa cooperação entre a Universidade Autónoma de Lisboa e a TVI. Falou-se do último Conselho Europeu e, nele, do modo como foram tratados temas como o Covid, a condicionalidade democrática das ajudas financeiras, o Brexit e a Turquia. Mas também se abordaram questões como a cooperação económica regional na Ásia, o saldo provisório do conflito entre a Arménia e o Azerbaijão, a questão da defesa europeia e o futuro da Nato. E não só.

Pode ver o programa aqui.

Chover no molhado

Um blogue com poucos ou nenhuns visitantes, onde nenhuma alma caridosa faz o menor comentário, com uma agenda que “não interessa nem ao menino jesus”, continua a produzir por aí incessantes textos. Até aqui, tudo bem: há quem escreva para a gaveta, para o ego e viva feliz assim. O tal blogue tem, porém, ao seu serviço, um fâmulo, com escasso jeito para o manejo da língua portuguesa e com frequentes calinadas na escrita, o qual, não devendo ter mais nada para fazer ou sendo pago para isso, passa os dias a enviar-me essas anónimas peças, em jeito de comentários, sempre a despropósito, aos posts deste espaço, seja qual for o assunto que eu aqui aborde. Às vezes, pelo meio, mete uns insultos, sempre em linguagem rasca. Como também já houve por ali algumas ameaças, decidi que era necessário fazer alguma coisa: fui ver o IP da origem, que nos referencia com muita exatidão a área, tendo já feito a devida participação às relevantes autoridades, as quais, em devido tempo, lá irão bater à porta desse corajoso anónimo. Note-se que esses textos, por aqui, sem uma única exceção, têm sempre como destino imediato o lixo, nem sequer me dando ao trabalho de abrir os links, porque “já sei do que a casa gasta”. Acho interessante o esforço dessa gente, embora debalde, porque nunca, em tempo algum, darei alguma vez acolhimento a tão sulfurosa prosa. Mas podem continuar a mandar: clicar na pequeno sinal, com a imagem de um caixote do lixo, que surge ao lado dos comentários, e que manda aqueles textos para a origem do esgoto de onde nunca deveriam ter saído, não me demora sequer um segundo.

sábado, 21 de novembro de 2020

Observare


Às 21:20, deste sábado, na TVI 24, estarei com Carlos Gaspar e Luís Tomé, no “Observare”, um programa sob a coordenação de Pedro Pinto, a analisar a atualidade internacional.

Tempos de pandemia



Disclaimer: sou um forte adepto do uso das máscaras e da sua obrigatoriedade. Dito isto: detesto andar de máscara, recuso tirar uma fotografia com ela posta, só uso máscaras descartáveis, para não lhes “dar confiança” e não criar a ideia de que elas vieram para ficar nas nossas vidas para todo o sempre.

Disclaimer: concordo em absoluto com as medidas de confinamento em vigor. Dito isto: detesto ver cidades desertas e, ainda mais, num dia de sol como o que Lisboa hoje teve. Este vazio urbano é um retrato da tristeza. Mas é verdade, é assim, o país está triste.



João Flores


Acabo de saber que morreu, em Madrid, João Flores. Era um empresário de sucesso, tendo uma formação académica em economia. Desde há muito que dividia a sua vida entre Portugal e Espanha.

Em 2002, com Raul Capela e Stefano Saviotti, criou uma tertúlia a que foi dado o nome de “Clube Amizade”, constituída por cerca de uma trintena de amigos, com profissões muito variadas, que se juntavam, aperiodicamente, para almoçar, fosse no restaurante “Trattoria”, de que João Flores era proprietário, ou em outros locais, de Lisboa e não só.

Comecei por ser orador convidado de um desses repastos, ao tempo em que vivia em Paris. Quando regressei definitivamente a Lisboa, passei a integrar o Clube, por proposta de Leonardo Mathias.

O João era um homem muito agradável, com um sorriso sempre simpático e acolhedor. Várias vezes, ao longo destes anos, me telefonou de Madrid, para conversas que incluíam a troca de impressões sobre nomes possíveis para serem nossos futuros convidados, nos “episódios” seguintes da tertúlia. Sem ele, sem o seu entusiasmo e empenhamento agregador, creio que. será difícil aquele grupo vir a manter-se. A ver vamos.

O meu sincero pesar à sua família.

Reformados ao café


Há dias, fui jantar ao que julgo ser o último restaurante de Lisboa em que ainda se serve, se pedido, um café feito em balão. Ainda sou do tempo em que, por ali, não havia sequer café “expresso”. 

Em miúdo, na casa dos meus avós, em Vila Real, tenho memória de que se fazia, embora julgo que só episodicamente, café de balão. 

Lembro-me de ver o meu pai com “a mania” de que preparava aquilo melhor do que ninguém, aquecendo previamente e só depois enchendo de água bem quente, o recipiente inferior, olhando a sua subida no tubo, sabendo o tempo certo em que começava a mexer, com uma colher de pau (sempre de pau!), a mistura que se ia criando no topo, da água ascendente com o café que já lá estava (muito importante é a moagem certa da mistura usada), definindo, com rigor laboratorial, o momento exato para a retirada da lamparina, acompanhando depois a coagem, para baixo. De seguida, servia-o, em chávenas sempre escaldadadas (nunca se serve café sem escaldar antes as chávenas, como sabe quem gosta de um bom café). Depois, era a cena do regresso da lamparina, para manter aquecido (mas sem deixar ferver!) o café que sobeja no recipiente de baixo. Uma arte! O café de balão, quando bom, pode ser magnífico. Daqui a umas horas, vou fazer o meu melhor.

Quando saí do restaurante onde bebi aquele belo café de balão, teimei comigo mesmo que ia adquirir uma máquina para mim. Lembro-me de, há meses, não ter aproveitado os saldos de liquidação do Pereira, no Chiado, onde havia montes dessas máquinas. Erros da vida!

Anteontem, andei de ceca para meca, por quatro casas comerciais da especialidade, de Lisboa, sem conseguir descobrir máquinas de balão à venda. À noite, ao telefone, um amigo deu-me uma dica: “Vai ao Chaimite!”. Tratava-se da Pérola do Chaimite, na avenida Duque de Ávila. 

Ontem, liguei para lá: tinham acabado de chegar máquinas de balão! E fui logo, claro, porque já não tenho tempo para perder tempo! Estacionei em frente (vantagens do Covid), comprei a máquina, adquiri uma mistura de robusta com arábica, de S. Tomé e Cabo Verde, respetivamente, e ainda me dei ao luxo de trazer mais uns doces, para provocar um pouco a minha glicémia, que já anda “radiante” com o início do desbaste de mais de meio quilo de chocolate negro, que há dias tinha buscar à Arcádia, no jardim da Parada.

Saí do Chaimite e virei a esquina, para um chá à Versailles, onde agora, feliz e infelizmente, os lugares não faltam. Não sem antes me ter munido do último “Spectator”, numa tabacaria “de luxo”, pela extraordinária variedade, logo ao lado do Chaimite. A revista rimava muito bem com o ambiente.

À minha frente, vi um cavalheiro, muito idoso, a tomar café, sozinho. Há pouco mais de um ano, ele estava ali com uma senhora, também de muita idade, sentados numa mesa ao lado da nossa. Era médico, disse-me, metendo conversa connosco. Ela tinha Alzheimer, contou-me então ele, revelando um carinho imenso pela senhora. A certo ponto, pediu-nos se podíamos olhar por ela, enquanto saía da mesa, por uns minutos. Fizemos isso e, instantes depois, logo tivemos de acalmar a senhora, desestabilizada com a ausência súbita do marido. Agora, ao vê-lo tão só e com ar tão triste, não tive coragem de perguntar-lhe por ela. Se calhar fiz mal.

Lisboa, terra de reformados ao café. Que falta faz o O’Neill!

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Rudy Giuliani


Não, não vou colocar aqui a fotografia do advogado de Trump, Rudy Giuliani, com o suor tingido pela tinta do cabelo, como muita imprensa está hoje a fazer, um pouco por todo o mundo. A baixeza que a utilização dessas imagens representa coloca quem recorre a esse expediente ao nível de Trump e dos seus sequazes, de que Giuliani é um dos expoentes notórios.

Quando, há quase 20 anos, fui viver para Nova Iorque, já conhecia Giuliani de nome, como presidente do município local. Era então notado por ter introduzido um estilo de rigor securitário na cidade, sendo com isso acusado de ter fomentado arbitrários controlos a suspeitos, normalmente negros. Mas, numa lógica de “law and order”, tinha imensos admiradores.

Giuliani era defensor de uma particular teoria com que eu simpatizava (e simpatizo, aplicando-a sempre que posso, na minha vida diária, pessoal ou profissional): a da “broken window”. A ideia é simples. Se uma janela aparece partida, se uma porta fica com ar degradado, se uma lâmpada se funde, se algo surge estragado, deve proceder-se de imediato ao respetivo conserto: a degradação “chama” degradação, banaliza o desleixo, cria um ambiente que favorece quem fomenta o tipo de atitude do “deixa andar”. 
No caso de Nova Iorque, Giuliani atacou e reduziu o vandalismo, criando uma forte consciência pública contra a degradação da cidade. Dizia-me quem vivia em Nova Iorque que a cidade ficou bem melhor para viver no período de Giuliani.

Com Giuliani, que já antes perseguira a máfia e desmantelara o “red light district” que enchia a zona de Times Square (de que eu bem me lembrava, quando visitei a cidade em 1972), o crime urbano baixou drasticamente, embora a doutrina se divida sobre se parte desse mérito não se deverá a fatores demográficos e económicos de outra natureza. Não sei o suficiente para ter opinião nesse debate. 

Numa das primeiras vezes que saí de casa, nesse mês de março de 2001, para dar um passeio pelas redondezas depois do jantar, apercebi-me de que havia um batalhão de viaturas de televisão à volta de uma moradia, situada a escassas centenas de metros do prédio onde ficava o meu apartamento. Se, em lugar no “New York Times” e do “Washington Post”, eu lesse o “Daily Mail” ou o “New York Post”, teria logo percebido o que isso queria significar.

A casa chamava-se Gracie Mansion e era a residência oficial do chefe da municipalidade nova-iorquina, Rudy Giuliani. Mas ele já não vivia lá. O “cerco” mediático devia-se à circunstância da sua mulher “oficial”, com quem tinha rompido pelo facto do marido se exibir publicamente com outra senhora, se recusar a abandonar a casa. Giuliani estava a acabar o seu tempo de “Mayor” mas a sua vida sentimental e respetivo escândalo pública tinham então maior relevo do que os seus feitos no município.

Isso iria mudar radicalmente, meses depois. Com um comportamento exemplar no 11 de setembro, passou a figura venerada e, até, um pouco por todo o mundo, a personificação da cidade agredida barbaramente. A sua ambição política ressurgiu então, embora sempre com limitado sucesso. Este só viria a surgir na sua qualidade de advogado, de que Trump se tem utilizado, no seu esforço patético para se agarrar ao poder.

Ontem, voltámos a vê-lo, na defesa de Trump. Por muito qualificado que Giuliani, como advogado, possa ser, a verdade é que vê-lo titular este combate contrasta um pouco, para pior, com a elegância da figura de James Baker, que, em 2000, na Flórida, tinha conduzido com sucesso a batalha legal que levou à eleição de George W. Bush.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

“The Crown”


A série “The Crown”, de que agora passaram mais dez episódios na Netflix, tem um imenso e perverso defeito. Ao dar um tom de verosimilhança a cenas que mais não são do que um mero produto de ficção, esses filmes podem levar os espetadores incautos a tomarem por verdadeiro o que mais não é do que uma mera suposição, por muito imaginativa que esta seja, sobre o caráter das pessoas ali retratadas, sobre a plausibilidade das cenas e diálogos apresentados. Para quem não possa ter tido acesso a outras fontes de informação, a rainha Isabel II ou o seu marido, o príncipe Carlos ou Margareth Thatcher, a princesa Ana ou Diana Spencer, são “mesmo assim”, comportaram-se “dessa maneira”, tanto mais que os filmes, para credibilizarem os seus argumentos, colam factos verdadeiros com outros totalmente inventados, à luz da criatividade dos escribas do “script”. E, deste modo, na cabeça de milhões de visualizadores da série, tudo isso passa logo a ser “História”. Por muito bem construída que a série esteja, um seu espetador mais atento deve ter sempre a consciência de que aquilo a que está a assistir não é um documentário e que há um elevadíssimo grau de arbítrio interpretativo - e, às vezes, claramente preconceituoso - no modo como a família real britânica e outras figuras surgem caricaturadas. No sentido positivo ou negativo, note-se.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

A Europa é isto



Só quem for ingénuo, ou quiser fazer-se passar por tal, pode dizer-se surpreendido com o bloqueio colocado por dois governos ao acordo que pode permitir um importante, e inédito, desembolso financeiro com origem na União Europeia, com vista a ajudar os Estados membros a enfrentarem o surto pandémico que está a devastar as suas economias.

Os sinais estavam todos aí, desde há muito, de que esses países iriam aproveitar a ocasião para exercerem uma forte e oportunista chantagem junto dos seus parceiros.

O que está em causa, nesta barganha e braço-de-ferro, só mediatamente tem a ver com esses dinheiros europeus. O que esses governos querem significar, com este seu gesto de força, é que a Europa tem, de uma vez por todas, de aceitar a legitimidade da leitura que fazem do que significa o respeito pelo Estado de direito e pela separação de poderes, isto é, a sua peculiar interpretação sobre os deveres que decorrem da subscrição dos tratados.

Esta, como se sabe, não é uma questão nova. É um problema que anda, desde há anos, pelas mesas e corredores da União e – vamos chamar os bois pelos nomes – que a cobardia e a pusilanimidade dos parceiros tem deixado prolongar e, pelos vistos, prosperar, em total impunidade. O constante conforto, feito de sorrisos e de palmadas nas costas, dado aos líderes desses países, em especial por parte dos seus parceiros do PPE (Partido Popular Europeu), mas não só, configura uma atitude obscena e denuncia bem o medo que sempre houve em os confrontar e isolar. A paga aí está agora.

Este não é, também, um problema apenas jurídico, como alguns exegetas dos tratados querem fazer crer. Trata-se de uma questão política de fundo, que vai ao âmago da identidade europeia, isto é, da filosofia comum a que um país se obriga quando entra para o “clube” comunitário.

Trata-se de garantir à totalidade dos cidadãos, cujos Estados estão inseridos no projeto integrador, que, independentemente das respetivas ordens constitucionais, usufruem de um corpo de direitos que lhes advém da sua cidadania europeia e que essas ordens internas não podem derrogar.

Este problema, porém, tem precedentes. Lembremo-nos no fechar de olhos que se verificou quando alguns países bálticos se comportaram miseravelmente face às minorias russas que tinham herdado. À época, porque do outro lado da cerca estava Moscovo, imperou o cinismo da realpolitik.

Nessa altura, alguns não quiseram perceber o precedente que se estava a abrir. Talvez entendam melhor agora.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Gaimusho


Almocei, há pouco, com diplomatas japoneses. Lembrei-me e lembrei-lhes uma história.

Quando entrei para a carreira diplomática, ao ler telegramas da nossa embaixada em Tóquio, comecei a ficar intrigado com um interlocutor regular do nosso embaixador naquela capital, fonte credível de interessantes informações. 

Assim, lia frequentemente nas comunicação que nos chegavam do Japão coisas como "apurei junto de Gaimusho", "a opinião de Gaimusho é", etc. Com a patetice de um caloiro que hesita em perguntar o que teme que deva ser óbvio, terei andado umas semanas até descobrir quem era o tal Gaimusho. 

Um dia, lá resolvi o mistério: Gaimusho era nome pelo qual era conhecido o ministério dos Estrangeiros japonês.

De certo modo, há a tendência de pensar que uma diplomacia que é conhecida pelo nome da sede da sua chancelaria assume, aos olhos das outras carreiras externas, uma dignificação especial, pelo peso histórico que o nome representa. 

Seja assim ao não, um diplomata que se preza sabe que o seu colega de Madrid dirá que “fui ontem a Santa Cruz”, o de Roma reportará que “fiz a diligência solicitada na Farnesina”, o de Londres dirá que foi “ao Foreign Office” (ao apenas, “ao FO”), o de Paris “ao Quai” (se for “maçarico”, dirá “ao Quai d’Orsay”). Na Alemanha, terá que saber interpretar a sigla AA (Auswärtiges Amt), tal como, na Rússia, o MID. Quase tudo o que sair desta lista já é um preciosismo. É que a esmagadora maioria das diplomacias, na realidade, não têm um nome de referência, pelo qual seja internacionalmente conhecida.

O “poder” desse nome é tal que pode “migrar”. É o caso do Brasil: ao falar-se do Itamaraty, toda a gente sabe tratar-se do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, em Brasília. Porém, alguns não saberão que, na realidade, o original Palácio do Itamaraty se situa no Rio de Janeiro e foi, de facto, a sede da diplomacia brasileira antes de se mudar para Brasília. Porém, levou consigo o nome para o novo e belíssimo edifício onde hoje se situa na nova capital.

Também nós, portugueses, temos a tentação de assumir que os diplomatas estrangeiros em Lisboa devem dizer, nas comunicações para as suas capitais "apurei hoje nas Necessidades" e frases do género. A nossa esperança é que nunca traduzam o nome do palácio...

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

A ver se

Quando vivia em Brasília, havia um empregado na residência, o excelente Romário, que tinha por atitude fazer, de imediato, tudo o que se lhe pedia para ser feito. “Ó Romário, quando puder, compre pilhas para os comandos da televisão”, um de nós dizia-lhe. Minutos depois, era certo e sabido, ouvia-se o ruído da carrinha: era o Romário, a caminho da Quadra comercial. E as pilhas lá surgiam. Um dia, perguntei-lhe por que procedia assim: “Para não ficar preocupado com nada, senhor embaixador”. 

Quando, cá por casa, andamos dias para comprar alguma coisa, a frase clássica é: “Se fosse o Romário, já estava feito!”.

Nunca consegui ser assim, como o Romário. Pouca gente consegue, aliás. Na minha família, ouvi sempre uma expressão que traduzia a vontade de só fazer amanhã o que já devia estar feito ontem. Era o “a ver se”. Volta e meia, perante o chiar de uma porta, um de nós dizia: “A ver se se põe um pingo de óleo naquela corda da roupa”. Ou o “a ver se se compram envelopes cá para casa”. O mais clássico é o “a ver se um destes dias telefonamos a... “ Como quase cinco décadas de casal já nos aculturaram mutuamente, estamos bem um para o outro, ambos “a ver se“ esse outro faz as coisas.

O “a ver se” é sempre um voto piedoso que, ao mesmo tempo que nos confere o meritório crédito de ter tido a consciência da existência de um problema, “passa a bola” da respetiva resolução para uma entidade indefinida. Desejavelmente, não nós.

Mas o “a ver se” também tem outra aplicação. Ajuda a procrastinar - um verbo que eu adoro praticar mas que detesto ter de assumir que sigo cada vez mais.

Há horas, o tal Ventura parece que deu uma entrevista à TVI. Não me apeteceu ver em direto. Aliás, não me apeteceu sequer ver hoje. Vou ler o que vai surgir nas redes sociais e na imprensa de amanhã sobre o assunto e, depois, com a calma que ter televisão por cabo permite, talvez amanhã (mas não é garantido) voltarei atrás. 

Um amigo, daqueles que vê telejornais em direto (a maioria vê, eu só por muito raro acaso) telefonou-me, há pouco: “Viste o facho?”. Respondi: “Não, não vi. A ver se amanhã arranjo tempo para isso...”

domingo, 15 de novembro de 2020

Blogue da semana

 


O blogue “Delito de Opinião” é, reconhecidamente, uma referência nacional no mundo da blogosfera. Contemporâneo deste bem mais modesto e artesanal “Duas ou Três Coisas” (ambos nasceram no início de 2009), o “Delito” é um blogue coletivo com larga e sustentada audiência. 

Hoje, o “Delito” teve um gesto de simpatia, pela tecla de Alexandre Guerra (também autor de um interessante blogue dedicado à temática internacional, chamado “O Diplomata”, criado em 2007), para com este espaço. Fico muito grato.

O fim do Navegador


Ao “abrir” (pode dizer-se isto, fazendo referência a uma edição on-line?) o Público de hoje, dei de frente, num texto sentido de Alexandra Prado Coelho, com uma notícia desagradável: a falência de “O Navegador”. 

Era um restaurante situado no topo do Clube Naval do Rio de Janeiro, um lugar que tinha o ar decadente das coisas fora do tempo, um estilo que nos conduz frequentemente à frase nostálgica de “já não é o que era”. O que, no caso, até era gastronomicamente injusto.

Há um Brasil de outros tempos, com arquitetura datada, que sobrevive ainda em muitas da suas cidades. Nada tem a ver com Portugal, para quem esteja à cata de referências saudosistas. Liga-se a períodos da história brasileira contemporânea que, a partir de um certo momento, entraram em dessintonia com o mundo. O Rio tem muito disso, em especial depois que a “cidade maravilhosa” se viu desapossada, por Brasília, do papel político que tinha e, no plano económico, foi suplantada por S. Paulo. O chamado “centro da cidade” do Rio de Janeiro - que, olhando para o mapa, fica tudo menos no centro - é disso um flagrante exemplo.

Fui algumas, poucas, vezes ao “O Navegador”. A única que anotei na memória foi em 2005. Acedia-se ao restaurante por elevadores marcados pelo uso. Não dava tempo para nos preocuparmos... 

Anotei então que espaço era muito agradável, com um toque “rétro”. Creio que o local do almoço foi escolhido pelo Pedro Corrêa do Lago, que, ao tempo, dirigia a Biblioteca Nacional. Estava com a mulher, Bia, e o sogro, que era, nem mais nem menos que Ruben Fonseca, um génio da escrita e uma figura que eu sabia que raramente surgia a público. Não deu para falarmos.

Foi um almoço por ocasião da atribuição do Prémio Camões. O Adriano Jordão, conselheiro cultural da embaixada em Brasília, deve lembrar-se. Fiquei sentado entre a vencedora do prémio desse ano, Lygia Fagundes Telles, e Agustina Bessa Luís. 

Ao final de uma vida em que, por acasos de função, encontrei gente muito interessante - ou outra, que, não o sendo, era relevante por si mesma - dou comigo a pensar que deveria ter tomado muitas notas da interlocução com essa gente. Nunca o fiz. Não tenho o menor apontamento. Depois, pensando melhor: se estivesse preocupado a coligir apontamentos desses instantes, “perdia-os”... Por isso, sobra o que tiver de sobrar. Adiante.

Até esse dia, nunca tinha encontrado Agustina. Era uma mulher com um olhar vivo, perscrutante. Com surpreendente à vontade, ia fazendo comentários, de caraterização caricatural, às vezes cruel, sobre algumas pessoas à mesa. “Não acha que aquela tem ar de ...” Tinha imensa graça mas eu, confesso, estava espantado: não me conhecia de parte alguma, eu estava ali formalmente como embaixador de Portugal, e ela dava-se ao luxo (e dava-me a confiança para me introduzir nessa intimidade) de elaborar, ludicamente, sobre os circunstantes. Sem peias, com toda a liberdade.

Num certo momento, puxei a conversa para Manuel de Oliveira, perguntando-lhe por filmes que este tinha feito com base em romances seus. Quando esperava loas ao parceiro da passagem a filme das suas criações, saiu-me o contrário: críticas ao feitio de Oliveira, que era um “chato”, com quem tinha discussões. “Algumas vezes, deu-me cabo de boas ideias. Tem muitas manias”. Eu estava siderado, mas, pensando bem, acho que Agustina estava a fazer “um número”, a que achava graça.

Nessa mesma noite, no Copacabana Palace, quando Helder Macedo a elogiou, dizendo que “a Agustina é uma mulher feliz, só tem amigos, não tem inimigos”, guardei a réplica rápida: “ Não tenho inimigos? Posso não ter, mas faço-os...”

Volto ainda ao almoço no Navegador. A figura do dia, que eu tinha à minha direita, era Lygia Fagundes Telles. Eu (confesso!) tinha lido poucas coisas dela, mas agarrei aquilo que dela conhecia para ancorar a conversa. (Em voz não muito baixa, minutos antes, Agustina tinha sido franca: “Não gosto muito do que ela escreve!”). Lygia era uma figura pessoalmente muito interessante, com alguma doçura, nos 82 anos que então já tinha. Disse-me coisas simpáticas sobre Portugal e os seus amigos portugueses, que eram muitos. E, nunca mais o esqueci, repetiu uma frase que ouviu um dia ao seu pai, sumariando a sensação que ele tivera, numa viagem de barco a Lisboa: “ir a Portugal é como atravessar a rua para ir visitar um parente”.

O que a notícia sobre a falência de um restaurante nos pode suscitar!

Voto


Não deixa de ter graça comparar os sistemas eleitorais dos dois maiores países das Américas.

O mais rico, os EUA, tem o sistema de apuramento de votos que temos visto - indutor de dúvidas, suspeitas e atrasos.

O Brasil, bem menos rico, também com uma grande população, distribuída por um território imenso e com limitadas infraestruturas, dispõe de um sistema de voto eletrónico fiável, com resultados na hora, como hoje se verá.

sábado, 14 de novembro de 2020

Cozido pandémico


E amanhã, em “take away”, lá virá a casa o clássico cozido à portuguesa do “Faz Figura”. No próximo domingo, será o do “Nobre”. A pandemia combate-se com colesterol. Sempre do bom!

A cidade e a alcatifa



Nem me perguntem para que é que eu queria um pedaço de alcatifa, em Luanda. A verdade é que, tendo sido obrigado, por falta de casa, a ir ocupar um pequeno apartamento que, na altura da independência de Angola, tinha sido acabado por um “pato bravo”, a “mata-cavalos”, com torneiras cimentadas à parede (sem nenhuma canalização por detrás, é verdade!), havia nele partes da sala com um “soalho” de cimento, que só um pedaço de alcatifa disfarçaria. Mas onde comprá-la, nessa Luanda sitiada pela guerra civil, quase sem lojas, no início dos anos 80?

O chanceler da embaixada, Novais Ferreira, que conhecia os escaninhos de Luanda como os dedos das suas mãos, disse-me que, em tempos não muito distantes, um determinado comerciante português tinha tido alcatifas. Não custava nada passar por lá, embora a esperança de que ainda houvesse algo à venda fosse ínfima.

Mas eu, que estava farto daquela nódoa na minha sala, que lhe dava um ar de terraço, nem quis ouvir outra coisa. E partimos para a loja do tal português, Lousada, de seu nome, situada num edifício relativamente novo da zona baixa da cidade, na rua paralela à marginal, à Avenida 4 de Fevereiro.

Era uma sala comprida, com escassíssimos produtos, a maioria dos quais com ar de ali estarem, não para consumo, mas “para encher montra”, como então por ali se dizia muito. Ao fundo, estava um homem na casa dos 60 anos, refastelado numa cadeira, em frente a uma mesa de vidro. Era o tal Lousada, disse-me, baixo, o Novais Ferreira.

O Lousada falava, num tom bem audível e que era para o ser, para uma pessoa que entretanto ia saindo, cruzando-se connosco, dizendo: “Ó homem! Nem as pense! Alcatifa? Por estes tempos, o meu amigo não encontra um metro que seja de alcatifa em Angola. De Cabinda ao Cunene! Tire daí o sentido!”

Que raio de coincidência! Olhei para o meu companheiro de diligência, disposto a acabar logo com a aventura. O Novais Ferreira continuava, contudo, a avançar pela sala, até que chegámos junto do homem. Apresentou-me como um dos diplomatas da embaixada, chegado a Luanda há uns meses. O Lousada não pareceu muito impressionado: estendeu-me a mão, mas não se levantou.

Nesse instante, vislumbrei, debaixo do vidro da mesa, uma fotografia. Era do próprio Lousada, com duas crianças pela mão. Atrás, na imagem, estava a estátua de Carvalho Araújo, na avenida com o mesmo nome, em Vila Real. Arrisquei: “O senhor Lousada tem alguma coisa a ver com Vila Real? É que eu sou de Vila Real.”

O Lousada abriu-se num sorriso, levantou o corpo, que então vi ser pequeno mas pesado, da cadeira onde até aí se tinha mantido sentado, deu a volta à mesa e veio dar-me um abraço. “Eu sou de ...” e disse-me um nome de uma localidade do distrito que tanto podia ser Justes como Alijó ou Murça ou outra por ali; tenho boa memória, mas nem tanto! Voltei a atirar ao alvo: “Por caso, não é parente do senhor Lousada, da tipografia da rua Central?” Algo me sugeriu essa hipótese.

O sorriso do homem aumentou. Era, era de facto irmão daquela figura muito pequena, casado com uma senhora do mesmo porte, que, desde a minha infância, eu via passear, de costas muito estendidas, pela ruas da cidade. Pelos vistos, não eram uma família que se distinguisse pelo grande porte físico. Talvez mesmo pelo inverso.

Com a Minerva, o Vilarealense e o Agostinho da Travessa, a indústria do Lousada fazia parte do quarteto de tipografias locais. Tinha porta aberta entre a tabacaria do Fernando Choco e a sapataria do Julinho, em frente à casa fotográfica do Marius e aos eletrodomésticos do irmão deste, o Dionísio. Inundei o Lousada de Luanda com estes pormenores, para adensar a confiança e a cumplicidade regionalista.

No final deste reconhecimento mútuo, embora ainda sem a menor esperança, adiantei: “Indo agora ao que me trouxe aqui, senhor Lousada. Ando à procura de uns metros de alcatifa, mas, pelo que lhe ouvi dizer ao cliente que ia a sair, não há hipóteses, não é?”

O Lousada olhou para mim, sempre sorridente, pôs-me a mão no braço e disse: “Não faça caso! De que cor quer a alcatifa?”

Pandemia

Para que se não venha a dizer que houve falta de planeamento, não seria de montar, desde já, uma estrutura que estabelecesse uma criteriosa e transparente hierarquia de prioridades na distribuição das futuras vacinas contra a covid? Já existe? Ótimo, então é bom que se saiba.

É a vida!

Almocei, a dois, com uma pessoa. No dia seguinte, essa pessoa sentiu-se menos bem. No outro dia, fez o teste à Covid. Ao quarto dia, chegou o resultado: positivo. Avisou-me. Eu alertei a Saúde 24 e, por duas semanas, segui todos os procedimentos que me indicaram. Nunca tive o menor sintoma, nem fiz qualquer teste. Hoje, ao final da manhã, acabava o meu “recolhimento” em casa. Logo hoje, começa o primeiro dos fins de semana de confinamento obrigatório parcial. Já é azar! Cumpro com gosto cívico, embora com custo pessoal. É a vida!

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Brasil - Portugal


Farei a conferência inaugural do XVII Seminário Brasil Portugal sobre internacionalização de empresas, organizado pelo Instituto Superior de Economia e Gestão, da Universidade de Lisboa, e pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pode saber mais aqui.

O alívio


A vitória de Joe Biden - pedindo desde já desculpa a quem acredita que, qual Elvis Presley, Trump ainda vai voltar - criou uma onda de alívio em todo o mundo.

Se, em 2016, não obstante a estranheza de ver surgir na Casa Branca uma figura com aquele recorte, alguma réstia de expetativa de bom senso ainda podia existir, depois destes quatro anos, a simples possibilidade da renovação do seu mandato era um susto para a sensatez.

Há mais de um século que América é uma potência que determina ou influencia fortemente, pela positiva ou pela negativa, os rumos da vida internacional. Mesmo em cenários onde não se jogam os seus interesses diretos, os Estados Unidos acabam por funcionar sempre como um poder condicionador dos movimentos de terceiros.

Sempre assim tem sido, mas nunca se tinha assistido a uma afirmação tão despudorada da preeminência dos interesses americanos, em detrimento dos interesses dos outros, sem o menor respeito por regras e com total descaso, não apenas dos compromissos, mas igualmente do comportamento que, em todos os casos, se esperaria de um aliado.

O que se passou na atitude de hostilidade que a América de Trump assumiu face à Europa - combatendo a União Europeia, nomeadamente favorecendo o Brexit, criando tensões na Nato e revelando uma imensa falta de atenção por aliados fiéis - ultrapassou tudo o que se supunha possível numa ordem global que, mesmo sob crises, costuma respeitar algumas “liturgias”, que são uma espécie de “boas maneiras” em que se baseia o diálogo e a convivência internacional.

Um mundo em paz é gerido por um misto de interesses e de princípios, com estes a limitarem a expressão crua dos primeiros – assim diferenciando a convivência entre os países de uma selva institucional. A cooperação, a solidariedade e até um certo património histórico de relacionamento fazem parte da matriz dessa convivência.

Ver a maior potência mundial tornar-se no principal fator disruptor dessa ordem, ao assumir-se como um ator egoísta, imprevisível e quase sem baias normativas, foi uma imensa surpresa para os amigos da América.

O alívio de que falei no início do texto foi assim um sentimento comum em várias partes do mundo. Pensar em quem pode estar a lamentar a saída de Trump talvez nos ajude a perceber melhor o que essa saída traz de benéfico.

Tenho para mim que, por muitos que tenham sido os efeitos negativos do consulado de Trump, à escala global – e poderia elencar vários – nenhum teria maior gravidade, se acaso ele tivesse sido reconduzido na Casa Branca, do que a questão climática.

O negacionismo ambiental que levou Trump a abandonar o Acordo de Paris foi uma atitude de uma extrema gravidade, porque todos sabemos o efeito simbólico, para os mais graves poluidores mundiais, que a auto-exclusão americana representa. Só por isso, se mais não houvesse, e há, a vitória de Biden deveria ser amplamente saudada.

A exportação e a pandemia


No número relativo a novembro de 2020, da revista PortugalGlobal, publico, a convite da AICEP, um artigo sobre os efeitos da pandemia no setor exportador português. Pode ser lido aqui.

Square one?


Nos jogos de salão, com dados, há um resultado que obriga ao regresso à primeira “casa”. Há dias, ao ouvir alguns comentários sobre o que se espera do novo presidente americano, em termos da sua atuação na ordem internacional, quase me pareceu que se prenunciava um regresso ao início do “jogo”, ao tempo antes de Trump.

Fazer de conta que Trump não existiu, que é possível voltar ao que muitos acham terem sido os “good old days” de Obama, é pura ilusão. Os países não são jogos. A América depois de Trump será, goste-se ou não, a América pela direção da qual a presidência Trump entretanto passou. E isso deixou marcas. E feridas, lá e nos outros. Mas é natural que algumas das decisões do presidente cessante venham a ser revertidas, embora provavelmente com um afã menor do que ele utilizou para tentar desmantelar o Obama tinha feito.

Vale a pena dizer, para sermos totalmente honestos, algo que, podendo não soar muito bem aos ouvidos de alguns, é uma pura verdade: a herança de Obama, em termos internacionais, é medíocre. A segurança do mundo, no fim dos seus oito anos, não estava em melhor estado do que aquela em que ele a encontrou – e isto, note-se, na sequência do desastre, quase criminoso, que George W. Bush tinha entretanto provocado.

Não tendo conseguido ter tempo para montar a agenda contra a China que tinha em carteira – isto, quase sempre, não é tomado em conta –, por ter ocorrido o 11 de setembro, a administração Bush atuou com toda a legitimidade no Afeganistão, com o apoio não apenas dos aliados como de outros parceiros, estes últimos aturdidos com a condenação esmagadora da barbárie terrorista.

Só que a América, tal como aqueles construtores civis que sempre nos convencem a fazer mais qualquer coisa na obra, na lógica do “já agora!”, achou que tinha de “explorar o sucesso”, como se diz em linguagem militar. Não só começou a entrar em “águas territoriais” russas, na Ásia Central e no Cáucaso, como mexeu no vespeiro do Iraque, tornando-nos a todos usufrutuários do Estado Islâmico, de que foi o involuntário criador. Recuou, ambas as vezes.

Obama herdou essa realidade e, sentindo o tropismo nacional favorável a um recuo do intervencionismo, foi incapaz de montar uma “exit strategy” minimamente eficaz. Lidou pessimamente com as “primaveras árabes”, deu vento ao aventureirismo franco-britânico na Líbia, hesitou no modo como tratar com a Turquia e Israel, revelou-se tíbio na Síria e na Ucrânia, deixou os aliados do Golfo em orfandade e apenas desenhou uma estratégia de contenção económica das ambições chinesas. O seu saldo é pífio e nem sequer com a Europa conseguiu estabelecer um laço sólido e operativo, salvo no acordo nuclear com o Irão.

Alguns dirão: mas, se passamos o tempo a acusar os Estados Unidos de excesso de intervencionismo, que autoridade temos para condenar aqueles que, em seu nome, procuram recuar dessas atitudes intrusivas?

Temos esse direito: é a mesma América que está em ambos os movimentos. A uma potência que se imiscui nos assuntos dos outros, à luz de uma leitura unilateral dos seus interesses, que tenta fazer passar por desideratos do mundo livre, é exigível que os “phasing out” dessas situações sejam feitos de forma responsável e, em especial, sem com isso fazer incorrer a outros, nomeadamente aos seus aliados, riscos que eles não criaram.

O modo como a América de Obama estava a sair da Síria já era irresponsável. Trump seguiu a mesma linha e, como que por “subcontratação”, deixou esse dossiê nas mãos da Rússia, que nunca esteve tão forte e presente na região. E, “para inglês ver”, deixa agora pelo Médio Oriente uma frágil aliança de pânico contra o Irão, em que mistura Israel e os regimes medievais do Golfo. Ao mesmo tempo, anuncia-se um novo caos no Afeganistão, onde a América enterrou muitos milhões de dólares, e os aliados europeus demasiadas vítimas, sem o mínimo resultado.

Esperemos pela política externa de Joe Biden. E que seja nova, não um “remake” de qualquer passado. Não se regressa à “square one”.

No fim do buraco

 


Da notícia, ontem à tarde, só vi o título, que dizia que a Apple ia ficar com as instalações de um restaurante de luxo, no Porto. Fiquei curioso, embora não espantado. A pandemia está a arruinar o setor da restauração e, neste, os espaços de maior luxo, aqueles que são muito impulsionados pelo turismo, estão a ser fortes vítimas. 

Qual era, então, o restaurante “de luxo” que a notícia dizia que ia fechar? Nem o restaurante era de grande luxo, nem sequer ia fechar, sendo transferido para outra área do imenso edifício onde estava instalado, debaixo do Hotel Intercontinental.

Trata-se do Café Astória, uma “marca” consagrada no imaginário portuense. Desde há alguns anos, o antigo café, embora mantendo o mesmo nome, tinha passado a restaurante. Era relativamente sofisticado, tinha um carta interessante, mas não se pode dizer que fosse de luxo. A relação qualidade/preço, com uma simpática decoração a ajudar, era bastante boa.

O Café Astória é um café com alguma história. Situado na esquina do Passeio das Cardosas, no fundo da Praça da Liberdade, a sua entrada dava para a estação ferroviária de S. Bento, que, ao contrário do que hoje acontece, foi, durante muitas décadas, o termo de quase todos os comboios que chegavam à cidade. E um café em frente a uma grande estação tinha então muita importância.

O Astória abria muito cedo. Muito mais cedo do que os vizinhos Imperial, Embaixador ou Brasileira. Lembro-me de aí se poder tomar (o último ou o primeiro, dependendo do freguês) café às seis da manhã, tendo a abertura, mais tarde, passado para as sete, ao que vim a saber. 

Na Baixa do Porto, a casa que encerrava mais tarde era a Stadium, uma espécie de bar na zona sul da rua do Bonjardim. Fechava às cinco. Começava então o “buraco”. 

O “buraco” era a designação que dois notívagos colegas - o Tavares e o Susano -, vagos estudantes de Economia, chamavam à hora que mediava entre o fecho da Stadium e a abertura do Astória. Mais velhos do que eu, tinham-me “adotado” para essas aventuras, às vezes com outros colegas.

Lembro-me de algumas noites começadas a jantar no Ginjal, pouso de algumas horas na Candeia, na rua do Almada, com um salto à Japonezinha, na praça da República, que acabavam inevitavelmente na Stadium. Depois, para “encher o buraco”, passeávamos até à ponte dom Luís. 

Não se bebia muito, nem eu tinha dinheiro para grandes folias, mas eles tinham artes de conseguir “estacionar”, sem gastos, por essas casas da boémia portuense, julgo que graças ao estatuto de universitários e à cumplicidade adquirida dos porteiros. Víamos o que por ali andava, entremeando com conversas interessantes e alguns conhecimentos de ocasião. Às vezes, recordo, essas noites tinham mesmo muita graça, naquilo que foi a minha iniciação à “grande cidade”.

Às seis, acabado o “buraco”, bebíamos um galão e uma torrada no Astória, antes de recolhermos aos lares universitários respetivos, eles na rua do Rosário, eu na Torrinha. 

Não é impunemente que demorei dois anos para fazer duas cadeiras, no meu nunca acabado curso de Engenharia Eletrotécnica. Mas a verdade é que só tive 18 anos uma vez na vida.

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

As meninas da rampa


Quem se lembra? Era a meio da rampa do Calvário, lá por Vila Real, nos tempos em que o fluxo de trânsito era outro.

Os instrutores de condução levavam por ali os instruendos a aprender a fazer “inversão de marcha” - tal como os ensinavam a estacionar entre as árvores, a caminho da Meia Laranja. Os carros eram sempre uns Volkswagen ”carocha”, com dois volantes.

Era então uma delícia ver os atrapalhados alunos a fazer “ponto de embraiagem”, para a frente e para trás, com as mudanças “a arranhar”, fortes gemedeiras do motor, frequentemente a “ir-se abaixo”.

Lembro-me de meninas de pescoço esticado para os retrovisores, bem agarradas ao volante, afogueadas e coradas, pelo esforço que lhes era exigido, somado à “vergonha” pelos nossos olhares e ditos atrevidos. Elas apressadas pelo embaraço, nós sem ter nada para fazer, na cidade chata de então.

E recordo-me bem do olhar feroz do senhor Miguel do Bazar, de cotovelo de fora da janela da porta do carro, a ouvir o Olívio das bicicletas recomendar, da comodidade gozona do passeio: “Ó menina! Meta bem a primeira!”

Ainda Ribeiro Telles


A morte de Ribeiro Telles leva-me a contar, de novo, um episódio que creio que já aqui referi um dia.

É uma história que Nuno Brederode Santos ouviu a Melo Antunes, passada num Conselho de Ministros nos tempos do PREC. Nem o Nuno nem o Ernesto Melo Antunes já estão vivos para fixarem melhor os pormenores do episódio, que o primeiro contava, com a sua graça insuperável, nas grandes noites da “mesa dois” do Procópio. Vou tentar ser fiel àquilo que me lembro de ter ouvido.

Nesse ano de 1974, durante um dos três primeiros governos provisórios, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves decidou levar a conselho de ministros o tema dos efeitos negativos de certas ações humanas na mudança no habitat que tradicionalmente acolhia a passagem de aves pelo estuário do Tejo.

A título excecional, para abordar o tema, decidiu convidar para ir ao conselho, para apresentar o assunto, o subsecretário de Estado Gonçalo Ribeiro Telles.

A temática ambiental, por essa época, era um assunto ainda muito pouco mobilizador, tratado mesmo com alguma sobranceria, pela classe política.

Ribeiro Telles, que os anos viriam a demonstrar que tivera razão antes do tempo, preocupava-se genuinamente com o assunto, mas, nesses dias de “politique d’abord”, era ainda difícil para ele captar a atenção dos seus pares.

Acresce que esse Conselho de Ministros estava estão, em absoluto, concentrado num determinado tema, sobre o qual era fundamental conhecer a posição do PCP, pelo que era importante ouvir o ministro sem pasta Álvaro Cunhal.

Naquela mesa em forma de ferradura, fechada no fundo, que Marcelo Caetano mandara construir, muito poucos anos antes, numa sala do primeiro andar da residência oficial de S. Bento (ainda por lá me sentei uma meia dúzia de vezes, vinte anos depois), Cunhal tinha um dos lugares imediatamente à esquerda do primeiro-ministro Vasco Gonçalves. À sua direita, o primeiro-ministro tinha sentado Ribeiro Telles.

Depois de uma (como habitualmente) longa introdução de Vasco Gonçalves, com que abriu o debate, iniciou a “volta à mesa” pela direita, isto é, por Ribeiro Telles.

À medida que este falava, percebeu-se que tinha aproveitado o ensejo para derivar para uma interpretação profunda das decorrências ambientais do que se pretendia fazer no estuário do Tejo. De certo modo, o raciocínio, típico do mundo do ambiente, era uma versão daquela metáfora científica consagrada de que “o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um tufão no Texas”. Ribeiro Telles explicava as consequências multiplicadoras de uma possível interrupção do pouso no Tejo das aves, no seu ciclo migratório.

Para o que aqui interessa, tratava-se de uma abordagem que, pela sua tecnicidade, suscitava um interesse apenas limitado por parte dos restantes membros do governo presentes. Ao que reza a crónica que me chegou, a maioria começava a revelar a sua impaciência: ansiavam ouvir o que Cunhal tinha para dizer e isso só ocorreria no fim da ronda de intervenções iniciada em Ribeiro Telles e que nele estacara.

Como sempre acontece nestas ocasiões, em que o que os outros dizem começa a interessar menos, a sala foi invadida por diversas conversas a dois entre membros do governo vizinhos de mesa, criando um crescente “bruá” de fundo que indisciplinava o exercício.

Vasco Gonçalves, ao contrário dos seus ministros, mostrava-se interessadíssimo naquilo que Ribeiro Telles dizia e, por mais de uma vez, pediu “silêncio” aos impacientes governantes. E, para crescente desespero destes, ia mesmo colocando questões ao interventor, inquirindo sobre pormenores que Ribeiro Telles, com o maior agrado, lhe ia detalhando, alongando assim, perante a impaciência geral, o seu tempo de palavra.

Foi numa dessas perguntas que o primeiro-ministro inquiriu: “E que ave seria mais prejudicada, nas suas migrações, por essa possível intervenção?” Ribeiro Telles respondeu-lhe: “O maçarico de bico direito”.

Nessa altura, as conversas na distraída sala estavam a tornar o Conselho já um tanto caótico e Vasco Gonçalves, desagradado, deu então um murro na mesa e, elevando a voz e com cara grave, disse: “Senhores ministros! Peço o favor da vossa atenção! O senhor engenheiro Ribeiro Telles está a falar sobre o maçarico de bico direito”.

A sala “acordou”, não tanto por um remorso de atenção, mas numa genuína gargalhada coletiva. E, agora já perante as caras sorridentes de todos, com Vasco Gonçalves furioso, Ribeiro Telles lá concluiu a sua explicação sobre os riscos que impendiam sobre o futuro do maçarico de bico direito, se privado de amarar no nosso Tejo e zonas adjacentes.

Minutos depois, finalmente, Cunhal teria oportunidade de intervir sobre o tal tema grave que a todos preocupava, quiçá, embora injustamente, um pouco mais do que o destino da ave que, por instantes, pousara, com inegável graça, nesses dias da Revolução.

Ribeiro Telles pode ter sido pouco ouvido nessa ocasião. Mas o tempo veio a provar que, afinal, era ele quem tinha razão ao dar voz e razão às questões ambientais que hoje determinam o nosso futuro.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Conversas globais


O jornalista e professor universitário Pedro Pinto conversou na TVI com 27 pessoas, em 2019 e 2020 - sobre globalização, China vs EUA, economia portuguesa, competitividade europeia, robótica e digitalização e, nos últimos tempos, também sobre a pandemia.

O resultado dessas conversas está agora em livro. Por ali estão as ideias de figuras como Paulo Portas ou Mariana Mortágua, Jorge Braga de Macedo ou Fernando Rosas, António Costa Silva ou Carlos Moedas, entre outros. Como foi também o meu caso.

Gonçalo Ribeiro Telles


2020 é um ano sinistro. Com 98 anos, desaparece hoje Gonçalo Ribeiro Telles.

Somos um país com muito poucas unanimidades. Ribeiro Telles fazia parte das escassas figuras, em Portugal, que merecia um generalizado respeito. Isso era devido à sua obra profissional mas, essencialmente, por ter visto, antes de quase todos, a importância das questões ambientais para o nosso futuro coletivo e de ter tido a coragem e o desassombro de nos alertar para elas, num tempo em que fazê-lo era considerado uma bizarria, quase uma ideia ridícula e sem sentido. 

Gonçalo Ribeiro Telles foi um cidadão de bem, cujo empenhamento cívico, sem abandonar a bandeira monárquica que sempre foi a sua, honrou o país e a nossa democracia. 

Deixo aqui um abraço sentido ao seu filho Francisco e, nele, a toda a família enlutada

Paridade


E ninguém faz o favor de notar que, após a sua última recomposição e para os próximos três anos, no Conselho Geral Independente (CGI) da RTP, órgão que escolhe a administração da empresa e vela pelo cumprimento do serviço público, vai passar a haver uma perfeita paridade homens-mulheres (três cada)?

Alguém é capaz de indicar uma outra estrutura em que as coisas se passem desta forma?

Artur Portela


Morreu Artur Portela. Há minutos, um jornalista pediu-me um comentário sobre a sua figura. Tive de dizer-lhe que, embora conhecendo muito bem a sua obra, só o tinha encontrado uma única vez.

Foi há poucos anos, num almoço com amigos comuns, organizado precisamente com esse objetivo. Recordo-me de lhe ter então dito que julgava ter lido todos os seus livros - e não foram tão poucos como isso. “Também os da fase ‘nouveau roman’?”, estranhou. “Claro! O ‘Avenida de Roma’ e o ‘Rama, verdadeiramente’ “, assegurei, para espanto dele.

Mas julgo não lhe ter referido que, então com bastante menos prazer, porque estava à época no outro lado da “barricada”, também recordava os seus (politicamente ácidos) editoriais no “Jornal Novo”, um órgão de combate político por ele dirigido e criado por quem se opunha ao PREC, o que não era o meu caso.

Artur Portela (assinou, por muito tempo, Artur Portela Filho, para não se confundir com o pai, também um grande nome do jornalismo português de outros tempos) dirá pouco às novas gerações. E, no entanto, essa figura consagrada do mundo da publicidade foi uma personalidade muito original na nossa imprensa, devendo-se-lhe também algumas incursões interessantes na literatura e até na história. 

Entre o muito que fez, relevo que Portela trouxe um novo estilo à crónica de atualidade. A leitura da sua coluna “A Funda” - publicada no “Jornal do Fundão” e, depois, no “República” - tornou-se num vício para muita gente, desde logo para mim. Nunca esquecerei ”Os Árabes da Rua do Século”, um texto antológico a gozar a patranha que um grupo de foliões pregou ao jornal “O Século”, tendo como vítimas Roby Amorim e José Mensurado. 

Mas também recordo a dimensão polémica da sua vida de publicista, porque Portela não fugia a ela - e quem é do meu tempo e estava atento a esses meios tem, com certeza, bem presente uma deliciosa e famosa troca de argumentos com Mário Castrim, no “Diário de Lisboa”.

Na língua portuguesa que Portela usou nos seus textos, de forma imensamente criativa, é clara a influência de Eça de Queiroz - de quem teatralizou “A Capital”, o que motivou um artigo crítico meu, no “Comércio do Funchal” (ou seria no “& etc”?), intitulado “Ora Eça, ó Portela!”, creio que em 1972. 

Julgo ter-lhe referido isto, durante a chanfana que partilhámos, servida pelo João “Espetáculo”, na Imperial de Campo de Ourique, onde agora não tenho ido, por precaução contra a Covid. A mesma Covid que, ao que leio, apanhou Artur Portela, aos 83 anos.

O império


Vi por aí uma polémica em torno de um cantor, autor de uma canção com o título de “Império”. Confesso que a minha curiosidade não vai ao ponto de ir ouvi-la.

Mas a polémica lembrou-me o Alberto. O Alberto era o meu cozinheiro em Luanda. Herdei-o do meu antecessor, tal como a lavadeira, a Domingas.

O apartamento em que eu ia ficar instalado, na marginal de Luanda, nesse longínquo ano de 1982, “eclipsou-se”, da noite para o dia, entre a partida desse meu colega e a minha chegada. Parece que foi “requisitado” pela Secretaria de Estado da Habitação local, embora a doutrina se divida sobre o que realmente se passou.

Quando cheguei a Luanda, instalei-me num hotel, num tempo em que a penúria de bens também atingia essas unidades. E aí tive de viver quatro meses, com as minhas mobílias encaixotadas na embaixada, até que arranjei uma nova casa. Foram tempos bastante complicados, mas ser novo ajudava.

O Alberto apresentou-se “ao serviço”, logo no meu primeiro dia de Angola. Por meses, não tive nada para lhe dar que fazer, embora pagando-lhe sempre.

Achei contudo estranho encontrar o Alberto, várias vezes, pelas escadas da embaixada, ao longo desse tempo. “O que anda a fazer por aqui?” (eu nunca consegui tratar um empregado, ou um soldado, por tu). Ele metia os pés pelas mãos, até que alguém me explicou: a embaixada tinha um acordo com uma padaria e o meu antecessor recebia uma partida de pão todos os dias, que era essencial para a alimentação da família do Alberto, que tinha muitos filhos e vivia num musseque junto ao aeroporto. Essa “pontualidade” ao serviço tinha, assim, uma explicação simples...

O Alberto, Resende de apelido, já não devia ser novo, porque tinha passado a idade militar. Tinha uma cara séria, fechada. Com o tempo, tive ocasião de apreciar esse fácies com ar de zangado. É que os problemas só surgiam quando o Alberto sorria: significava que tinha bebido, e isso acontecia bastantes vezes.

Sóbrio, o Alberto era um razoável cozinheiro, não o estando era um trapalhão e era preferível mandá-lo para casa. Quantas vezes, ao abrir-lhe a porta, de manhã, deparando com um sorriso escancarado e um hálito inconfundível, eu lhe dizia: “Vá-se embora, Alberto. Volte amanhã!” E o Alberto rodava os calcanhares e zarpava de volta ao musseque... com o pão do dia, claro.

Para além do resto dos copos de vinho, de toda a gente que tinha estado à mesa, num almoço ou jantar lá em casa, que ele escorropichava da bandeja entre a sala e a cozinha, o Alberto era fã de “caporroto”, uma aguardente cuja fermentação era às vezes acelerada com uso do ácido de pilhas elétricas... A sério! Uma vez provei! Não era mau de todo...

Um dia, fui com o Alberto à Corimba, um subúrbio de Luanda, no meu carro, buscar qualquer coisa para casa. Em Luanda, nesse tempo, passávamos metade do tempo a tentar arranjar coisas para comer e a outra metade a comê-las, em jantaradas com os amigos. Também havia bastante trabalho e tempo para dormir, claro!

Nessa viagem, pela estrada acidentada, a fugir aos buracos, perguntei ao Alberto que diferenças ele achava que havia em Angola, desde a independência, que tinha ocorrido apenas sete anos antes. Vivia-se então em guerra civil, Luanda era uma cidade sitiada, parte do país estava a ferro e fogo.

O Alberto nunca me pareceu ser um grande fã do MPLA. Sempre desconfiei que tinha simpatias pela Unita. Ele era de Sumbe, antigo Novo Redondo, uma localidade que ficava a algumas horas de Luanda, por uma estrada que, com o tempo, veio a tornar-se muito perigosa. Depois da independência, Sumbe chegou a chamar-se Nzunga Cabolo, até a historiografia do MPLA ter descoberto que esse herói tinha tido os seus “podres”. O Alberto, às vezes, enganava-se e falava da sua terra como Nzunga.

Nessa conversa, e via-se que o fazia com naturalidade, sem ser para me agradar, o Alberto disse muito bem do “tempo do colono”, designação muito comum em Angola, para identificar a época local “da outra senhora”. Esse tinha sido um período, segundo ele, em que “os mercados estavam cheios”, as estradas não tinham covas, “as coisas funcionavam”. A certo ponto da conversa, entusiasmou-se e disse mesmo: “Os portugueses deviam regressar”.

Achei aquilo um tanto exagerado e retorqui: “Mas quer que Angola volte a ser colónia de Portugal?” O Alberto olhou-me, com a cara séria que era a sua, e afirmou, com clareza: “Não, não! A independência é nossa, ninguém a leva!”. Tomei nota. O Alberto tinha toda a razão. E hoje é 11 de novembro, dia da independência de Angola.

Ao ouvir falar hoje de “império” lembrei-me desta conversa com o Alberto Resende, meu cozinheiro em Luanda. Que será feito dele?

Declaração para o Fórum Demos

 "Só o tempo nos dará bem a noção do tempo, e dos estragos feitos nesse tempo, que estes quatro anos de Donald Trump fizeram perder ao mundo. No que toca à Europa, de cuja unidade no pós-2ª Guerra Mundial os Estados Unidos foram o grande promotor, a América de Trump revelou-se um aliado hostil, agravando o relacionamento com os parceiros e favorecendo mesmo alguns fatores desagregadores, como o Brexit. A meu ver, a grande distância, contudo, a mais gravosa atitude de Trump foi a sua oposição ao Acordo de Paris, um passo vital para a sobrevivência da humanidade, que o presidente americano tornou refém de interesses económicos de curto prazo. A reversão dessa insensatez foi já anunciada por Joe Biden. Esperam-se também da nova administração, ainda na área multilateral, gestos concretos para recuperar o caos que os EUA induziram na funcionalidade da Organização Mundial de Comércio, bem como na revitalização e credibilização da Organização Mundial de Saúde. E um regresso à Unesco. No plano bilateral, veremos se a sintonia que os democratas têm com os republicamos na questão da China se expressa ou não num discurso diferente. O possível regresso dos EUA ao acordo gizado pela administração Obama, com aliados europeus, para conter as ambições nucleares do Irão é outra das questões a observar. Do mesmo modo, como se comportará a nova América quanto a outros “avanços” entretanto ocorridos no cenário do Médio Oriente. A embaixada dos EUA volta a Tel-Aviv? E as relações com a Rússia? Depois das “cumplicidades” de Trump com Putin, que fará Biden? E a Coreia do Norte? E a Venezuela? E Cuba? E Guantanamo? A prometida “Cimeira das Democracias” pode fazer perigar a inclusividade da ordem internacional, tutelada pelas Nações Unidas, introduzindo uma nova clivagem à escala global? Até ver, António Guterres tem razões para dormir descansado - e razões para crer que o poderá continuar a fazer em Nova Iorque no próximo quinquénio."

Um manifesto de decência


Um texto publicado ontem no “Público”, subscrito por figuras da direita, situadas numa faixa etária que, em média, deve rondar os 40 e poucos anos, assume-se como um separador de águas entre esse grupo de “conservadores, liberais, moderados e reformistas” e uma “direita autoritária”, com uma postura “nacionalista, identitária e tribal”, que por aí anda.

Devo dizer que, independentemente de interpretar a presença de alguns nomes dentre os subscritores como uma reserva de mercado para as suas próprias apostas partidárias, vi esta tomada de posição como a coisa mais saudável que, nos últimos anos, surgiu oriunda daquela área política.

Era tempo da direita democrática, sem a presença ativa da qual o nosso regime constitucional não tem o menor sentido, deixar uma nota explícita de repúdio pela sua frequente amálgama com algumas correntes populistas, com laivos racistas e xenófobos, no limite com contornos fascistas e afins.

A culpa de se ter deixado envolver pela caricatura resultou do silêncio até agora mantido por essa mesma área política, como o surgimento deste texto bem evidencia. Mas esta é também uma bela justificação para os seus adversários, nos quais me incluo, passarem a olhar este setor, sempre e quando a sua postura e ação se afirmar no sentido que agora revelou, como um parceiro na defesa do processo democrático.

Não é uma coincidência que o texto tenha surgido depois do anúncio do compromisso, em termos escritos, entre o Chega e a coligação que agora assume o governo dos Açores. E porque o não é, este manifesto acaba por ser uma manifestação de repúdio daquela obscena aliança.

É muito saudável para a salubridade da nossa vida política ver alguma direita democrática afastar-se de um ato de puro oportunismo, que abre a porta e estende a mão a um partido que traz consigo uma agenda que cavalga medos, preconceitos e sentimentos mesquinhos, indignos de um mundo civilizado e tolerante. E, como bem refere o texto, não é por outros, à esquerda, terem “cedidos a frentismos que anteriormente rejeitavam” que, do outro lado do espetro político, se vão “cooptar radicalismos de sentido contrário”.

Mas o Chega não é um partido legal? Claro que é. Cumpre formalmente os requisitos para se enquadrar na moldura constitucional. Porém, o seu discurso e propostas têm demonstrado que alimenta uma doutrina que o coloca, claramente, fora dos limites da decência política democrática, como os subscritores deste manifesto bem observaram. Coisa que, pelos vistos, o Dr. Rui Rio não terá visto.