sábado, julho 04, 2026

O Reino Unido que aí virá


Veja a análise em "A Arte da Guerra" aqui

Trump — as atribulações antes da festa


Em "A Arte da Guerra" desta semana, que pode ver aqui.  

América Latina — a onda conservadora


Em "A Arte da Guerra" desta semana. Pode ver aqui.

Avante, comrades!


O comunismo, que estava morto e enterrado na História, surge recuperado como demónio por Donald Trump. Tenho alguns amigos, saudosos dos kolkhozes e quejandos, que lhe devem estar muito gratos.

Adieu ou au revoir?

Macron faz cada vez mais lembrar Coimbra: tem mais encanto na hora da despedida...

Ironias e coincidências

Há um irónico contraste entre o crescendo de ataques de mísseis da Rússia à Ucrânia e a clara incapacidade de Moscovo de suster as incursões de drones ucranianos por todo o seu território. A ocorrência de uma cimeira da NATO neste tempo de escalada será uma mera coincidência?

Sentimentos

O espetáculo do funeral de Ali Kamenei tem laivos de provocação aos EUA mas, essencialmente, a Israel. Pode imaginar-se a tentação israelita de ir "molhar a sopa" na liderança iraniana ali reunida. As presenças estrangeiras acabam assim por funcionar como um escudo humano.

Et pour cause...

Paul Seixas é a grande esperança dos franceses no Tour deste ano. E da minha família também.

What if?


A História não é o que acabou por não ocorrer, mas, por minutos, o Argentina-Cabo Verde podia ter ido a penáltis — e tudo poderia acontecer. Uma derrota da campeã Argentina ficaria nos anais, os plumitivos preguiçosos esgotariam o "tomba-gigantes". Mas a História foi comodista.

O que tem de ser


Há pouco mais de nove anos, no dia em que Donald Trump tomou posse pela primeira vez, escrevi este texto na coluna semanal que então tinha no "Jornal de Notícias". No artigo, não falava em Trump, mas nele já transpirava o "otimismo" com que aguardava a sua chegada. Nem nos piores pesadelos, contudo, era expectável o que por aí viria. Repito o artigo neste 4 de julho em que a América assinala o 250° aniversário da sua Declaração de Independência:

O que tem de ser

Todos somos, um pouco, filhos da América. Da literatura ao cinema, da música ao consumo, da pintura à universidade, somos herdeiros e sujeitos do poderoso soft power que nos chega do outro lado do Atlântico, servido por uma língua que se tornou comum e absorvente. O iPad em que escrevo é, pela certa, feito na China, mas a esmagadora maioria dos conteúdos que nele observo são tributários de fontes a que os Estados Unidos não são alheios.

A América foi o instrumento da esperança que, na Segunda Guerra mundial, ajudou a Europa a libertar-se dos seus demónios. Depois, por aqui ficou, como poder europeu, através da Nato, protegendo o template demo-liberal da ameaça soviética. Pelo mundo, impulsionou uma arquitetura institucional que ainda hoje sobrevive. Contra Moscovo, bipolarizou o mundo, que, por décadas, passou a branco-e-preto. Exauriu depois a União Soviética e ganhou a Guerra Fria. Pelo caminho, demonstrou, não raramente, um descarado cinismo estratégico, colocando os seus interesses à frente da coerência com princípios que apregoava e a que apelava a respeitar. Criou inimigos, mas foi sempre temida – e, no fim de contas, o medo dos outros é fautor de poder próprio.

Marcelo Rebelo de Sousa perdoar-me-á se eu escrever que qualquer presidente americano, de uma certa forma, é também, um pouco, nosso presidente. Porque a atitude internacional dos EUA é sempre relevante, queiramos ou não, para o nosso dia-a-dia. É-o na forma como se relaciona com a Europa, na leitura que promove do multilateralismo, na política comercial, nas opções de segurança. Até o é nas Lajes, na política de vistos ou na gestão dos salvíficos green cards.

Não votamos nas eleições americanas, mas, na realidade, cada votante yankee é um «grande eleitor» de todo um mundo que gostaria de o poder fazer.

Eu não escapo à regra. Com três anos, devo ter estado com Adlai Stevenson contra Eisenhower. E perdi. Não me recordo, porque não tinha idade para isso, de ter então visto o debate em que a sua five o’clock shadow ajudou Nixon a ser derrotado. Mas, com toda a certeza, eu estava ali ao lado de Kennedy. Depois, daí em diante, hesitei com Johnson, apreciei Carter, detestei (e detesto, for the record) Reagan, respeitei Bush pai, acabei convencido por Bill Clinton, desprezei Bush filho e considerei a eleição de Obama uma benesse civilizacional.

E chegámos ao dia de hoje. Bob Dylan, numa das suas canções, conta e canta que, um dia, foi, creio, ao Utah e deu-se conta da estranheza hostil com que o viram sobraçar o The New York Times. Sabia-se que essa América existia, Sarah Palin e o Tea Party prenunciavam-na, mas ninguém acreditava que ela se corporizasse um dia na Casa Branca. Agora? Agora, como diz o bom-senso do óbvio, o que tem de ser tem muita força."

Cabo Verde


Estão a gostar de Cabo Verde? Porque não se decidem a visitar esse país da gente suave e amiga, com paisagens lindíssimas? Ou me engano muito ou vai haver alguns argentinos com essa curiosidade... 

sexta-feira, julho 03, 2026

Mota-Engil


No âmbito das comemorações dos 80 anos da Mota-Engil, teve ontem lugar no Convento do Beato um debate, moderado por Clara de Sousa, sob o tema "Challenges of the Century", com intervenções do ministro Miguel Pinto Luz, de Fernando Medina, de Paulo Portas e de mim próprio.

quinta-feira, julho 02, 2026

Mota


O grupo Mota-Engil comemora este ano os seus 80 anos. 

Na sua história de sucesso empresarial, à figura pioneira de Manuel António da Mota veio a suceder o seu filho, António Mota. 

António Mota desapareceu no ano passado. Não vai estar nesta festa, como muito teria gostado, ao lado das suas irmãs, dos seus filhos e de muitos outros familiares — desde logo do seu sobrinho, Carlos Mota Santos, que hoje dirige e empresa, tendo o filho de António Mota, Manuel, ao seu lado como vice-CEO.

À festa faltará também uma pessoa que acompanhou António Mota num tempo que trouxe à companhia novas e ambiciosas perspetivas — Jorge Coelho. 

A vida é feita destas inevitáveis ausências. Como escreveu um dia Manuel Alegre, são ausências-presentes, que ficarão como eternas referências para o futuro de um grupo que já deu provas de que tem a ambição escrita no seu destino.

Prémio Camões


O Prémio Camões foi atribuído a Lídia Jorge. 

Sinto-me sempre bem quando estou plenamente de acordo com escolhas feitas por júris: fico com a modesta sensação de que acertaram.

quarta-feira, julho 01, 2026

Os amigos do Massano


Há algumas décadas, quando vivia em Londres, convidámos para jantar três casais portugueses que ali estavam de passagem. Não se conheciam entre si. A certa altura da conversa, surgiu um nome: António José Massano. Com alguma surpresa, percebemos que todos eram “amigos do Massano”. Seguiram-se elogios unânimes e acabámos a telefonar-lhe, no meio de uma cacofonia de abraços à distância. Ele ainda hoje se queixa de que o acordámos...

O Tó Zé Massano tem este raro dom de congregar afetos. Moustaki criou o “Les Amis de Georges”, para evocar os companheiros de jornada de Brassens. O Nuno Júdice partiu, sem nos deixar o poema. Mas a Maria do Rosário Pedreira ou o Luís Castro Mendes podiam alinhar uns versos. Quem faz a música para “Os Amigos do Massano”?

Conheci o Massano no final de 1968, na Granfina, em Entrecampos, um café onde então parava ao fim da tarde ou no início da noite. Era por ali que alguns de nós, recém-chegados a Lisboa, íamos criando conhecimentos e fazendo novas amizades. Pelas minhas contas, o Massano será o meu amigo mais antigo em Lisboa. Mais do que isso, é há muito um dos meus amigos mais próximos.

O António é das melhores pessoas que conheço — e conheço magníficas pessoas. Leal e sempre atento aos amigos, com uma disponibilidade e generosidade desarmante, é alguém com quem sabemos poder sempre contar. Positivo por natureza, avesso à intriga, projeta sempre uma boa onda. Com os muitos anos, aprendi que o simples facto de dizer que somos “amigos do Massano” nos faz entrar num clube muito especial.

Beirão, licenciado em Letras, passou pelo jornalismo, traduziu inúmeros livros, foi leitor universitário em Espanha e trabalhou no Instituto Camões. Mas a sua marca profissional maior talvez seja outra: é o mais arguto sabedor da língua portuguesa que conheço. Um livro revisto por ele sai com um selo de qualidade que as melhores editoras portuguesas bem reconhecem. Quantas manhãs acordo com um email do Massano a dizer “tens uma vírgula a mais no post de hoje no blogue” ou “compõe a concordância” na frase tal. 

O Massano não tem defeitos? Claro que tem, sendo que o maior é ser benfiquista. Como vingança eterna, recordo que o tive ao meu lado, há 40 anos, no velho estádio José Alvalade, na deliciosa tarde dos 7-1!

O Tó Zé Massano faz hoje 80 anos. Com a Paula e a filha Joana, há muito constituiu uma família feliz. Neste dia, fui dar-lhe um abraço e fazer, no fundo, aquilo que fazemos há muitos anos: conversar, rir e partilhar histórias.

terça-feira, junho 30, 2026

... e mais não digo!

Estou a ver o França - Suécia. Espero que o destino nos poupe a ter estes "bleus" pela frente. E mais não digo!

Um livro e uma mesa (26)


O livro de hoje é "Para as gerações futuras", de Simone Veil, ed. Casa das Letras.

O restaurante é o "Al Mare", avenida Dom Carlos, Jardim do Passeio Alegre, 8, no Porto, com o tel. 229 768 661.


Elogios

Sou, por inclinação e por feitio, um tímido assumido e só às vezes arrependido. Abordar alguém que apenas conheço de um ecrã é coisa que quase nunca faço. Não gosto de incomodar, e suspeito sempre que as pessoas muito conhecidas passam a vida a ser interrompidas por desconhecidos convencidos de que têm qualquer coisa importante para lhes dizer.

Há dias, porém, fiz uma exceção. Num evento público, cruzei-me com uma figura do humor português. Nunca o tinha visto ao vivo. Sem saber bem porquê, aproximei-me e disse-lhe apenas isto: “Queria agradecer-lhe. Ao longo dos anos, tenho-o visto na televisão e na internet, e o seu humor, simples, sereno e inteligente, tem-me dado momentos de muito boa disposição. Num tempo em que meio país parece andar zangado com a outra metade, isso faz-nos bem a todos. Por isso, pela parte que me toca, muito obrigado.”

A pessoa sorriu, agradeceu e seguimos cada um o seu caminho. A conversa, se assim lhe podemos chamar, durou um minuto, se tanto. (Não, não era nem Herman José, nem Ricardo Araújo Pereira, nem Bruno Nogueira. Para o caso, o nome não importa).

Há minutos, numa área de serviço de uma autoestrada, assisti a uma outra cena. 

Uma senhora dirigiu-se a um cavalheiro, à entrada da cafetaria, e disse qualquer coisa como isto, que eu ouvi sem querer ouvir: “Tenho uma grande admiração por si. O país precisa de muitos homens como o senhor". 

A curiosidade fez-me olhar. O homem estava naturalmente desvanecido com o elogio. 

Como sou o tal tímido assumido, mas também alguém que (quase sempre) procura evitar conflitos inúteis, não disse alto o que me apetecia: "Eu penso exatamente o contrário dessa senhora".

Quem era o cavalheiro? Um conhecido arruaceiro de extrema-direita, negacionista da covid. O nome? Que interessam os nomes?

segunda-feira, junho 29, 2026

Sebastião


Não creio que Sebastião Bugalho tenha alguma coisa a ganhar com a postura de pessoa zangada, somada a uma arrogância natural que não consegue disfarçar — e creio que teria vantagem nisso, se quiser levar a água ao seu moinho. Que não é o meu, bem entendido.

"Vila Galé"


Éramos muitos, na tarde quente de sábado, os que fomos a Sintra dar os parabéns ao Jorge Rebelo de Almeida pelo 40° aniversário do grupo hoteleiro "Vila Galé", que criou e dirige, hoje com o filho Gonçalo a coordenar a parte executiva. 

É uma obra notável, que se espalha por vários países, feita com entusiasmo e rigor — como pessoalmente tenho vindo a comprovar nas visitas que, como simples cliente, faço a hoteis da rede, que regularmente se tem vindo a expandir.

O Jorge, que tenho o gosto de ter há muito como amigo pessoal, é uma figura magnífica de homem entusiasmado com aquilo que faz, um empresário que não assume o estilo queixoso, que sempre olha em frente e tem o vício de ser otimista. 

Reitero o meu forte abraço de parabéns ao Jorge — bem como ao Gonçalo e à sua equipa, onde tenho vindo a conhecer gente magnífica — nestas primeiras quatro décadas do grupo.

Taludes


Tenho uma amiga que é obcecada por taludes. Nas estradas, passa o tempo a olhar para as zonas laterais e a comentar, com o rigor solene de quem foi iniciada nos altos mistérios da engenharia civil, o modo — cuidado ou desleixado, nunca há meio-termo — como os taludes estão construídos e conservados. É uma vocação. Algumas pessoas encontram deus; ela encontrou os taludes.

Em viagens ao estrangeiro — e sou disso testemunha presencial, com as cicatrizes emocionais que isso me deixou —, recorda com prazer mal disfarçado os defeitos dos taludes nacionais e gaba qualquer declive que por lá veja, com o entusiasmo de quem avista uma catedral gótica. Eu próprio já tive de vir a terreiro, convocado por um primário orgulho pátrio que desconhecia possuir, defender a honra ferida dos nossos taludes, ao ouvi-la apreciar manhosas rampas suburbanas alheias como se fossem os jardins suspensos da Babilónia. 

É que ela no fundo pensa, com uma sinceridade que me deixa simultaneamente admirado e preocupado, que o grau de civilização de um país se mede pelo cuidado colocado no arranjo dos seus taludes. Não a educação, não a justiça, não a saúde pública — o que importa são os taludes. O Nobel de Saramago? Que é isso ao pé de um talude bem talhado, com a inclinação certa, a relva, o cimento ou o cascalho a preceito? 

Há não muitas semanas, numa daquelas estradas cinzentas através das quais os nórdicos adubam as suas frígidas angústias existenciais, era vê-la a gabar cada declive, a qualidade do revestimento da rampa e outras grandezas que eu, na minha ignorância crassa, tomaria por simples terra a descer para a berma da estrada. 

Sorte teve ela de a visita ser naquele período do ano em que, com generosa licença poética, esses lapões mais a sul julgam estar já num verão. É que, no seu longo e merecido inverno com neve, todos os taludes passam a ser iguais — brancos, mudos e indiferenciados. Essa é que é essa! 

Vivam os taludes portugueses, pim!

Em que ficamos?


A família do meu querido amigo José Carlos de Vasconcelos terá origens na Grã-Bretanha... ou vice-versa com Henry Kane?

domingo, junho 28, 2026

Nota gastronómica


O Whopper estava com a clássica secura no ponto, o tomate da rodela não era, claro, "coração-de-boi", a anémica folha da alface tinha visto os vizinhos mais verdes partir há horas, o molho era "sui generis", o óleo em que as batatas tinham sido fritas nem era mau. A Coca-Cola zero era, pelo fim-de-boca, da colheita 2026. Por € 7.45 queriam mais? 

De onde virão?

O "déjà vu" é inevitável, para quem tem a minha idade: ver emergir imensos cursos sobre Inteligência Artificial (os professores "instantâneos" terão sido formados por Inteligência Artificial?) faz lembrar, há uns anos, a explosão de cursos de informática, ao virar de cada esquina.

... e o calor!

Um amigo, em turismo numa grande cidade europeia, diz-me que ficou hoje no hotel, por causa do calor. As opções turísticas são escolhas voláteis. Se se começa a instalar a ideia de que os meses de julho a agosto, em certas zonas turísticas tradicionais, se tornam insuportáveis...

Vergonha

O que mais impressiona na escandalosa discriminação feita pelos EUA à seleção iraniana não é o comportamento miserável da FIFA: é o silêncio cúmplice das outras equipas presentes no Mundial. 

Minilateralism

I am not sure of the year, but I still remember the look on my adviser’s face when she came into my office, very upset, and asked: “Did you know that five European ministers met on their own and put out a joint document? Did our minister of the area know about the meeting? Did he say anything against it?”

I don’t know what I answered, especially because I had not yet read the “Europe” bulletin, which had probably already reported something about the fact. I assume that said I didn’t know. The truth is that I already had some suspicions. The area in question — which is not important here — was, at that time, very unstable and polemic. Even so, it was not a good thing that the Secretary of State for European Affairs, which I was at the time, and who was supposed to coordinate the government’s European actions, had not been told by the ministry responsible.

But had the minister of that area told the Prime Minister? I went to find out. Guterres didn’t know. And the Minister of Foreign Affairs? Gama didn’t know either.

I called the minister, a friendly and politically experienced person, who told me that he had heard some “rumours” about the possibility of some of his colleagues meeting separately, but that he had decided to wait and see. The result, in his view, did not seem particularly worrying.

I did not agree. It was a very bad precedent, because of the formality — which seemed to me unusual — of having put out a joint statement. I made it clear in an indirect way (I did not have the political authority to say it directly) that he should have protested. He replied that he would “have a word” with some of his colleagues.

Which countries had met? The “usual suspects”, as Captain Renault would say in Casablanca: France, Germany, the United Kingdom, Italy and Spain. That meeting was also just “the beginning of a beautiful friendship” among those five, to use Rick’s words, a few seconds later, in the same scene of the film.

That apparently small episode already showed a hidden trend inside the European Union: the tendency of some of the bigger and more powerful states to coordinate their positions among themselves outside the official institutions, and then push them into the common decision-making process. What was then an informal exception was starting to become a method.

It was not an isolated case, as time would show. From then on, this kind of “minilateralism” grew and has now become normal practice, without anyone seeming to be bothered anymore. Some states are always part of this “inner group”, while others are brought in when needed. Portugal joins when they think it is useful. Nowadays, quite often, and with London replaced by Warsaw for some time now, this group of five — saying they act for reasons of effectiveness, but actually implying, without saying it openly, that they have the power to do so — meets in small groups, no longer hiding that it wants its conclusions to become guidelines for the others.

What I find more serious is that they bring to these meetings institutions that are supposed to represent the whole Union: the Commission and the presidency of the Council of Ministers.

Coordination in itself is not a problem. It has always existed and will probably not disappear. States with similar interests will naturally tend to align their positions before formal negotiations. It is well known that, at certain moments in European history, small-group initiatives have helped to break deadlocks and move the integration process forward.

It is important, however, to make a difference between political coordination and the creation of an informal leadership group. The first is a normal part of diplomatic life. The second happens when a small group starts to make decisions outside the institutions and then presents its conclusions as solutions that the other states are simply expected to accept. It is in this move from coordination to pre-decision that the real problem is.

The Union’s treaties allow for different forms of integration and enhanced cooperation, but they do so through clear procedures, with a legal basis and, above all, open to the participation of the other Member States. What we see more and more today is different: informal meetings, without any institutional basis, trying to gain a political authority that is too big for what they actually are.

The reason given is almost always the same: the need to act quickly and effectively. That argument has some value. A Union of twenty-seven states can hardly move as fast as a group of five or six. But there is an important difference between preparing solutions and deciding in advance. Effectiveness cannot become an excuse for replacing, in practice, the mechanisms through which the Union makes its decisions legitimate.

It is true that states do not have the same political weight, diplomatic capacity or international influence. This inequality is part of the European reality, and it would be naive to ignore it. Precisely for that reason, the Community’s construction has, from the beginning, been based on a set of rules designed to stop differences in power from automatically becoming differences in political authority.

When these balances are regularly bypassed through informal practices, the risk is not only that smaller states are left out: it is the Community method itself that gets weaker. Decisions continue to be formally taken by the institutions set out in the treaties, but their content starts to be shaped somewhere else, in smaller circles and with less collective oversight.

In the short term, this model may even produce results. In the medium and long term, however, it tends to reduce trust in the system. If people start to believe that there is a permanent core that decides and a periphery that simply follows, the weakening of the Union’s political legitimacy becomes unavoidable.

The European Union has always lived with a delicate balance between effectiveness and legitimacy. These are not opposing values; they depend on each other. Effectiveness without legitimacy may produce faster decisions, but it will hardly produce a stronger Union. And a legitimacy that keeps getting weaker will, sooner or later, also damage the very effectiveness it was supposed to serve.

Nota de um generoso

São duas e quarenta da manhã. Não vi o Portugal - Colômbia. Sou generoso: deixo as emoções (sofrimentos e alegrias) para os outros. Daqui a horas, sabendo que empatámos e jogámos muito mal, vou ver em diferido. E assim não me inquieto mais do que já estou com a seleção. Aprendam!

O minilateralismo

Não tenho a certeza do ano, mas recordo com nitidez a expressão da minha assessora quando entrou pelo meu gabinete, perguntando, escandalizada: “Sabia que cinco ministros europeus da área "tal" se reuniram em separado e publicaram um documento conjunto? O nosso ministro dessa área sabia da reunião? Terá protestado?”

Não sei o que lhe respondi, até porque ainda não tinha lido o boletim "Europe", que já devia contar os bastidores do episódio, pelo que devo ter dito que não sabia. A verdade é que já desconfiava. A área em causa — que não vem aqui ao caso — andava, à época, particularmente agitada e propensa a esse tipo de exercícios. Ainda assim, não deixava de ser pouco simpático que o secretário de Estado dos Assuntos Europeus, que eu então era, e que supostamente devia coordenar a atuação europeia do governo, não tivesse sido informado atempadamente pelo ministério responsável.

Mas teria o ministro informado o primeiro‑ministro? Fui saber. Guterres não sabia. E o ministro dos Negócios Estrangeiros? Gama também desconhecia o assunto.

Liguei ao ministro, pessoa simpática e politicamente experiente, que me disse que, de facto, tinha ouvido uns “zunzuns” sobre a possibilidade de alguns dos seus colegas se reunirem separadamente, mas que decidira esperar para ver. O resultado, segundo ele, não parecia propriamente alarmante.

Não era essa a minha opinião. Tratava‑se de um péssimo precedente, pelo formalismo — que me parecia inédito — de ter havido um comunicado conjunto. Deixei implícito (não tinha autoridade política para o fazer explicitamente) que deveria ter protestado. Ele respondeu que “daria uma palavra” a alguns dos seus colegas.

Que países tinham reunido? Os “suspeitos do costume”, como diria o capitão Renault no "Casablanca": França, Alemanha, Reino Unido, Itália e Espanha. Essa reunião era, aliás, apenas “o princípio de uma grande amizade” entre esses cinco, repetindo a frase de Rick, segundos depois, na mesma cena do filme.

Aquele episódio, aparentemente menor, revelava já uma tendência latente na União Europeia: a propensão de alguns Estados de maior peso político para coordenarem entre si posições fora dos mecanismos institucionais, procurando depois projetá‑las sobre o processo decisório comum. O que então era exceção começava a transformar‑se em método.

Não foi um caso isolado, como o futuro veio a provar. A partir de então, esse "minilateralismo" multiplicou‑se e hoje faz escola, sem que alguém pareça já escandalizar‑se. Alguns Estados estão sempre nesse “núcleo duro”, outros são cooptados "ad hoc". Portugal entra quando calha. Nos dias de hoje, com grande regularidade, e com Londres, desde há algum tempo, substituído por Varsóvia, esse quinteto — alegando agir por razões de eficácia, mas querendo com isso dizer, sem o dizer, que dispõe de força para tal — passa o tempo em "petit comité", cujas conclusões já não esconde que pretende ver transformadas em linhas de orientação para os outros.

O que a meu ver é mais grave é que arrastam consigo, para essas reuniões, entidades que deveriam representar a União como um todo: a Comissão e a presidência do Conselho de Ministros.

Essa articulação não é, em si, censurável. Sempre existiu e dificilmente deixará de existir. Estados com interesses convergentes tenderão naturalmente a concertar posições antes das negociações formais. É sabido que, em certos momentos da história europeia, iniciativas restritas contribuíram para desbloquear impasses e para impulsionar o processo de integração.

Importa, contudo, distinguir entre coordenação política e formação de um diretório informal. A primeira é inerente à vida diplomática. O segundo surge quando um grupo restrito passa a deliberar à margem das instituições, apresentando depois as suas conclusões como soluções que os restantes Estados apenas deverão ratificar. É nessa passagem da concertação para a pré‑decisão que reside o verdadeiro problema.

Os tratados da União admitem formas de integração diferenciada e de cooperação reforçada, mas fazem‑no através de procedimentos transparentes, juridicamente enquadrados e, sobretudo, abertos à participação dos restantes Estados‑Membros. O que hoje se observa com crescente frequência é diferente: formatos informais, sem base institucional própria, que pretendem adquirir uma autoridade política desproporcionada à sua natureza.

A justificação invocada é quase sempre a mesma: a necessidade de agir com rapidez e eficácia. Esse argumento tem o seu peso. Uma União com vinte e sete Estados dificilmente funciona com a agilidade de um grupo de cinco ou seis. Mas há uma diferença fundamental entre preparar soluções e decidir por antecipação. A eficácia não pode transformar‑se num fundamento para substituir, na prática, os mecanismos através dos quais a União legitima as suas decisões.

É certo que os diferentes Estados não dispõem do mesmo peso político, da mesma capacidade diplomática nem da mesma influência internacional. Essa desigualdade faz parte da realidade europeia e seria ingénuo ignorá‑la. Precisamente por isso, a construção comunitária assentou, desde o início, num conjunto de regras destinadas a impedir que as diferenças de poder se convertessem automaticamente em diferenças de autoridade política.

Quando esses equilíbrios são sistematicamente contornados por práticas informais, o risco não consiste apenas na marginalização dos Estados de menor dimensão: é o próprio método comunitário que se fragiliza. As decisões continuam formalmente a ser tomadas pelas instituições previstas nos tratados, mas a sua substância começa a formar‑se noutro lugar, em círculos mais restritos e menos sujeitos ao escrutínio coletivo.

A curto prazo, esse modelo pode até produzir resultados. A médio e longo prazo, porém, tende a corroer a confiança no sistema. Se ganhar corpo a perceção de que existe um núcleo permanente que decide e uma periferia que apenas acompanha, torna‑se inevitável o enfraquecimento da legitimidade política da União.

A União Europeia sempre viveu de um equilíbrio delicado entre eficácia e legitimidade. Não são valores opostos; são condições mutuamente dependentes. A eficácia sem legitimidade pode produzir decisões mais rápidas, mas dificilmente produzirá uma União mais sólida. E uma legitimidade progressivamente esvaziada acaba, mais cedo ou mais tarde, por comprometer também a própria eficácia que pretendia servir.

sábado, junho 27, 2026

A nesga


A nesga de Tejo a que tenho direito, olhada da mesa onde estava (porque já não está) um belo bacalhau à Zé do Pipo. Há vistas e vidas piores, lá isso há!

sexta-feira, junho 26, 2026

Um livro e uma mesa (25)


O livro de hoje é "El Periódico de la Democracia", uma espécie de pequena biografia do diário espanhol "El País", escrita pelo romancista Javier Cercas.

O restaurante de hoje é o "Jockey", em Lisboa, com o tlf. 217 957 521.


Um país sem razão para ter esperança



A Venezuela é um país fortemente desprezado pela sorte. Com imensos recursos naturais, há muito que não consegue gerar um modelo e uma estabilidade política que permitam proporcionar uma vida decente à população.

No passado, chegou a desenhar um arremedo de democracia, uma miragem mantida à custa de uma distribuição de riqueza tão obscena que transformou o país num laboratório de desigualdades, numa América Latina que parece não conseguir escapar a essa sina.

Hugo Chavez corporizou um dia a revolta contra esse estado de coisas, a fúria dos que não tinham nada a perder, mas tudo descambou na tentação populista por um modelo estatizante, que a História já nos ensinou ser um estádio intermédio para o desastre económico.

A caricatural figura do seu sucessor, Nicolás Maduro, que transformou o que restava do Estado numa máquina de sobrevivência pessoal e de vantagens para o poder militar que o suportava, só agravou o sentido crescentemente autocrático da experiência, com milhões de pessoas, sem bens e sem esperança, a ter de partir para os países vizinhos.

E, finalmente, como se tudo o mais não bastasse, chegaram os americanos. Donald Trump, num ato de pilhagem com laivos de pirataria, apoderou-se, de facto, do valioso petróleo do país e exfiltrou Maduro para uma prisão em Nova Iorque, mandando às malvas o Direito Internacional e o respeito mínimo pela soberania da Venezuela.

Atarantada e com um medo danado de desagradar ao senhor de Washington, a União Europeia, esse monumento à ambiguidade principista, fez de conta que o direito não tinha sido violado e assobiou para o lado. Já tinha ensaiado a técnica em Gaza, repetiu-a com método no Irão, aperfeiçoou-a depois na Venezuela. A coerência na falta de vergonha, ao menos, ninguém lha tira.

Agora, veio o terramoto. A Venezuela parece ser um país católico, de gente com fé. Fé em quê?

Reino Unido: o senhor que se segue


Ver aqui.

Quem disse a verdade?

 




Sexta-feira santa


Olhei a agenda eletrónica e nada! Zero. Hoje, 26 de junho de 2026, não tenho rigorosamente nada marcado. 

O último dia útil de semana em que a minha agenda registou semelhante vazio foi em 12 de março. E esse, sejamos honestos, não contava: na véspera tinha feito uma pequena intervenção cirúrgica e estava de pousio forçado.

A notícia do meu dia livre não foi aceite em casa sem algum ceticismo: "Tens a certeza de que não tens nenhum almoço? Uma dessas tuas tertúlias? Uma reunião qualquer? Acabar um texto em atraso?" Eu tinha a certeza. Confirmei, com solenidade, o raro dia vazio. 

Levantou-se-me então uma questão quase filosófica: que fazer com estas 24 horas de inesperada liberdade? 

Em parte, já decidi. Um terço vai ser para dormir — oito horas que, convenhamos, são um luxo a que raramente me permito. 

Mas ainda me sobram dezasseis horas! São horas suficientes para poder concluir que, afinal, desaprendi a viver com tempo livre.

quinta-feira, junho 25, 2026

"Pas mal"...


A vista do meu lugar, na mesa de um almoço hoje, era esta. "Pas mal!"

"Afiliação assimétrica"


O texto só pode ser lido no jornal "Público" (e os jornais não se pirateiam - compram-se), mas acho imperdível o artigo "Afiliação assimétrica", de Elísio Macamo, sobre esse interessante fenómeno que é a simpatia remanescente nas ex-colónias pelos clubes portugueses.

"Delito de Opinião"


Em 5 de janeiro de 2009, nascia o blogue coletivo "Delito de Opinião". 

Reproduzo aqui o seu primeiro post, assinado por aquele que permaneceu, ao longo destes 17 anos de vida da plataforma, o seu principal impulsionador — Pedro Correia.

O "Delito" consagrou-se como um êxito na blogosfera nacional, com textos memoráveis, assinados por autores muito diversos. Foi e é um prestigiado espaço de polémica e debate.

Este meu blogue nasceu menos de um mês depois. Sendo o "Duas ou Três Coisas" coevo do "Delito" — embora ache que a palavra "coevo" já nem se usa — tem uma natureza bastante diferente: é um espaço de um único autor e, desde há uns tempos, por razões que não vêm ao caso, deixou de aceitar comentários. E temos muitas outras diferenças, como bem sabe quem nos lê — e leem-nos muito! 

Com o fim da plataforma de blogues da Sapo, o "Delito" foi agora obrigado a "mudar de freguesia". Passa a existir aqui: https://delitodeopiniao.pt/   . 

Aconselho vivamente os meus leitores a visitarem o renovado "Delito de Opinião". Eu fá-lo-ei com regularidade. 

O "Delito de Opinião" e o "Duas ou Três Coisas" são a prova provada de que os blogues não só não morreram como estão mesmo aqui "para as curvas".

"Puxa-saco"

 

Mark Rutte vai acabar por ficar consagrado como um dos mais consumados sabujos políticos da pequena história contemporânea. O que tem dito sobre Trump, defendendo o indefensável nas ações deste, passa todos os limites. Merece amplamente o prémio internacional "puxa-saco". 

quarta-feira, junho 24, 2026

S. João


Pronto! Já decidi! Para o ano, vou uma vez mais passar o São João no Porto. É que não é justo que seja só aquele pessoal do Norte a gozar um dos melhores espetáculos do país. Era só o que faltava! Até porque também sou do Norte! Ora bem! 

Os da plaquinha na mão


Fica a sensação de que, nos dias de hoje, muitas pessoas já nem olham os espetáculos, parecendo que lhes dá maior prazer fotografá-los ou filmá-los. 

Este mundo que anda pela vida, de manhã à noite, com as plaquinhas na mão é mesmo muito estranho. 

terça-feira, junho 23, 2026

Pensando bem...

Por falar em empresas estratégicas: consta que a primeira operação do anunciado "fundo soberano" poderia ser a compra pelo Estado de uma posição acionista na TAP, aproveitando o facto de o Estado ter aberto ao mercado o capital da companhia.

Quem seria?

É comovente ver o PSD (e o seu "MDP/CDE") a verter lágrimas pela perda do controlo do Estado em empresas estratégicas, o que justificaria a tomada de uma posição acionista através um "fundo soberano". Lembram-se de quem estava no poder quando foi feita a alienação desse capital?

Que ideia!

Uma das mais patuscas cláusulas do MoU entre os EUA e o Irão é o compromisso "to refrain from interfering in each other’s internal affairs". Como se alguma vez a CIA se tivesse imiscuído na política interna de qualquer país estrangeiro! As pessoas lembram-se de cada coisa! 

E então o...?

Estou farto do "whataboutism". Não sabe o que é? É a técnica de fugir a uma crítica recorrendo imediatamente a uma comparação: “O partido X fez isto? Pois, mas o partido Y também já fez!” Em vez de se analisar o problema, desvia-se o assunto. É uma falácia, não um argumento.

Um livro e uma mesa (24)


O livro é "The Triangle of Power - Rebalancing the new Word Order", de Alexander Stubb. O autor é o actual presidente da Finlândia e um velho conhecido desde há mais de 30 anos.

O restaurante é o "Pedra Furada", em Pedra Furada, entre Barcelos e a Póvoa de Varzim, com o tel. 252 951 144.



segunda-feira, junho 22, 2026

Mundos e fundos

Com a idade, podemos confessar sem problemas aquilo que não sabemos. E o que eu não sei é a razão pela qual um país sem recursos de natureza excecional tem razões para criar um fundo soberano. Mas aqui estou para aprender.

Isto vai lindo, vai!

 


Lá vai Starmer

Starmer foi vítima do receio dos deputados trabalhistas de que a declinante popularidade da sua liderança pudesse vir a fazer perigar a suas hipóteses de reeleição em 2029. Escolhem a cara mais popular nas sondagens. Resta saber se vão a tempo de conseguir inverter o mau ciclo.

Ai, Vance...

JD Vance não parece ser ingénuo. E, não o sendo, já deve ter percebido a alhada em que Trump o envolveu, ao passar-lhe a titularidade formal da negociação com o Irão — mas com Witkoff e Kushner à ilharga e com o próprio Trump a "mandar bocas" que condicionam a negociação. 

Cabo Verde

Hoje sentimo-nos todos cabo-verdeanos? Então espero que ninguém se esqueça disso no futuro, tratando, com o respeito que lhes é devido, os membros de uma simpática comunidade estrangeira que aqui trabalha com seriedade e que, desde há muitos anos, assim honra o nome do seu país.

Ñ

A vida política em Espanha está hiper-polarizada. Para os defensores de Sánchez, existe uma cabala que envolve o mundo judicial, em conluio com as direitas mais ou menos radicais. Para os seus detratores, o PSOE é o centro de uma máquina política criminosa. "À suivre"...

Olá, Irão!

O Irão é comandado por um regime sinistro e repressivo, com práticas religiosas e sociais que roçam o medieval. Não obstante, a ilegal agressão israelo-americana acabou por criar à sua volta uma inusitada onda de simpatia. Bom, ter Trump do outro lado também ajuda, claro...

domingo, junho 21, 2026

Carreiras

Sebastião Bugalho, depois ter andado próximo do CDS, entra agora no "core" do poder do PSD. Há anos, Paulo Portas, depois de ter andado pela JSD, derivou para um CDS que limitou a sua afirmação política. Bugalho está longe de ser Portas, mas, por hora, parece ter apostado melhor.

"Casanostra"


Há anos que ando para criar uma lista, a trazer no iPhone, com aqueles restaurantes de que raramente me lembro, ou melhor, de que digo, desconsolado, depois de uma experiência dececionante: "Ora bolas! Afinal podíamos ter ido ao..."

Hoje, através do "The Fork" (recomendo esta utilíssima app), lembrei-me de ir almoçar ao "Casanostra", na esquina da rua da Rosa com a Travessa do Poço da Cidade, no Bairro Alto. Reservei, claro, porque, nos dias de hoje, já quase só vou tomar café sem marcação. Já não tenho tempo, na vida que me sobra, para perder minutos à espera.

À chegada, de fora, vi as janelas abertas e pensei para comigo: ó diabo! Com a cidade a escaldar, temia ir ter um almoço numa sala morna e abafada. Entrámos e estava pouca gente. A temperatura afinal era aguentável, sem esforço, graças àquelas paredes fundas da Lisboa antiga e às sombras do bairro. O serviço foi muito atento, os pratos estavam todos excelentes (e magnificamente apresentados), de uma lista muito equilibrada. Só achei os vinhos estupidamente caros. Contudo, o branco da casa era "suficiente mais", a um preço aceitável.

Lembro-me bem de quando o "Casanostra" abriu, em 1986. Eu tinha chegado de quatro anos em Angola, estávamos a "entrar para a Europa" e também andava feliz pelo facto da direita ter perdido Belém (sou assim, que se há-de fazer!). O "Casanostra" e o Bairro Alto estavam então na moda. Ora eu não sou de modas: sempre me recusei a ir ao "Frágil" – não admito ter a minha admissão a um lugar julgada por alguém que está na porta (é verdade, Margarida!). Mas gosto de bons restaurantes. Ia bastante ao "Pap'Açorda" e a muitos outros poisos gastronómicos, antigos ou recentes, que havia pelo bairro: "Alfaia", "Primavera", "Primeiro de Maio", "Bota Alta", "Baralto", "Tasca do Manel", "Fidalgo", "Farta-Brutos" e alguns mais, às vezes com paragem no "Cocote", o bar do meu amigo Olívio.

O "Casanostra"é sempre, desde então, uma excelente opção. Fui lá bastantes vezes, embora não tantas como deveria. É que o estacionamento "fácil" não me estimula. Mas o restaurante tem algo que está registado na minha memória: nunca lá comi mal. E não há muitos restaurantes de que eu possa dizer isto.

Isto está bonito, está!

 


Afinal...

Dei comigo a pensar que, no fim de contas, o tal "Não é não" acabou por funcionar: foi o que Ventura disse a Montenegro...

Lugar aos novos

 

Está na altura de refrescar a equipa governamental. Há falhas a colmatar: por exemplo, ministro da Qualidade de Vida...

Já faltou mais...

 


Verdades


De quando em vez, acontece-me ter de apresentar um livro. Na maioria dos casos, trata-se de obras de não-ficção, porque romances ou contos (poesia nem pensar!) são terrenos em que nunca me sinto à vontade. 

Falava disto há dias, num jantar, com Fernando Dacosta, um credenciado jornalista também com obra publicada, na ficção e em outras áreas, com quem comentava a aventura que sempre é escolher palavras para, perante um público heterogéneo e que em geral não conhecemos, falar de algo que para eles é completamente novo.

Fernando Dacosta disse-me então uma coisa que me pôs a pensar: "Não se deve preocupar muito. Ao falar sobre um livro, o apresentador está sempre numa posição relativamente fácil. Analisa algo que já leu, perante um público que acaba de adquirir um livro que ainda não leu. É claro que, mais tarde, quando conhecerem o livro, algumas dessas pessoas podem vir a cruzar a sua leitura com o que ouviram na apresentação, mas isso já não tem grande importância..." 

Trata-se de uma grande verdade a que se deve somar uma pergunta irónica que também ouvi recentemente: das pessoas presentes na sessão de apresentação de um livro e que o adquirem, quantas, na realidade, acabarão por lê-lo?

Um dia, na Luanda dos anos 80, onde as lojas eram escassíssimas e algumas nada tinham para vender, vi uma coisa numa montra que me interessou. Entrei e pedi esse produto. Com um sorriso resignado, o empregado disse-me: "Não vendemos. É só para encher montra, camarada!" Às vezes, os livros também são só para encher estante...

Um livro e uma mesa (23)


O livro de hoje é "Le Sherpa - Mémoire d'un diplomate aux avant-postes de l'Histoire", de Philippe Étienne, ed. Tallandier.  Faço um "disclaimer": conheço o autor há muitos anos. Foi embaixador francês nos EUA e na Alemanha e conselheiro diplomático de Macron. 

O restaurante de hoje é o "António", em Leça da Palmeira, com o tel. 939 116 838.



Compulsão legiferante

90% da legislação em vigor é politicamente neutra. Governar é, no essencial, ser capaz de promover a execução eficaz da legislação que está em vigor, não é viver obcecado a encher de novas leis o Diário da República. 

Um doce...

Dá-se um doce a quem conseguir explicar a razão por que não aparece nenhum nome do Chega na longa lista de figuras que, pelos vistos, uma milícia de extrema-direita tinha como alvos potenciais para atentados. É que não se percebe mesmo...

sábado, junho 20, 2026

Mais vale perto...

Lyndon Johnson é citado como tendo dito "It’s probably better to have him inside the tent pissing out, than outside the tent pissing in", quando manteve John Edgar Hoover no FBI. Algumas escolhas de Montenegro para as vice-presidências do PSD trouxeram-me isto à memória...

Exit Starmer

Em 2024, Starmer obteve para o Labour uma notável vitória eleitoral, depois de uma série de lideres conservadores que comprometeram a elegibilidade do partido. Em pouco tempo, desbaratou tudo, com erros grosseiros. Deve sair agora da liderança trabalhista, sem glória nem saudade.

"Mensagem de Lisboa"


A ouvir José Ferreira Fernandes, no Festival de Histórias Verdadeiras, nos 10 anos da "Mensagem de Lisboa", hoje e amanhã, no CCB.

Apareçam! 

Pressa e tempo

Na abertura do congresso, Montenegro atacou em prioridade o PS. Excelente! Leu as sondagens. Mais do que isso: anotou que os eleitores já sabem quem o pode vir a substituir. Agora, calma! Como dizia Saramago: não tenhamos pressa, mas não percamos tempo.

Foi assim

O Chega não esteve ao lado da esquerda na rejeição do pacote laboral. O Chega, simplesmente, percebeu a impopularidade da medida e, como força populista, sem princípios, colocou-se a favor do vento. Tanto podia estar contra como a favor. Desta vez foi assim.

Espírito de equipa

Não estou de acordo com quantos reclamam a saída da ministra do Trabalho. Tal como não defendo a substituição da ministra da Saúde. Nem do líder parlamentar do PSD. Não é prudente tocar nesta equipa.

As contas de Macron

Não é muito claro o que é que o quarteto europeu no G7 terá conseguido de Trump, no tocante à Ucrânia. Sobre o assunto, não nos devemos deixar impressionar pela narrativa autocongratulatória de Macron, que, para não variar, saiu de Évian "aos ombros de si próprio".

Atenção ao jogo Minsk-Kiev

Uma das novidades a Leste, como seu quê de surpreendente, é o ascendente ganho pela Ucrânia face à Bielorrússia. Lukashenko revela publicamente a fragilidade do seu país face ao vizinho do sul, pelo que se deduz que a Rússia deixou de o poder proteger. Quem diria?!

Hezbollah

Há um bom teste para se perceber até que ponto Trump recuou ao assinar o acordo com o Irão: o destino do Hezbollah. Teerão já deixou claro que vai proteger a sua "antena" no Líbano. Mas, curiosamente, há algumas semanas a dissolução do movimento era prioridade na agenda no Líbano

... mas não tenho a certeza...

Há dois candidatos à sucessão de Trump: Vance, de quem já se percebeu que Trump não gosta muito mas tem o MAGA por detrás, e Rubio, apreciado por Trump mas com menos apoio na sua base política. É raro acontecer, mas, nesta circunstância, poderá ser a eficácia em política externa a desempatar.

Não tenho a ambição de ser bruxo ...

... mas escrevi isto no dia 1° de Maio.

O que seria ...


Hoje, alguém me dizia: isto teria muito mais graça se o Trump tivesse, do lado da Europa, um Berlusconi. Estavam bem um para o outro...

Amadeu


Na Bucholz, na apresentação feita por Paulo Sande do novo livro de Amadeu Lopes Sabino, "O Futuro Anterior", editado pela Guerra e Paz, de Manuel S. Fonseca.

Estou seguro

Há alguém que deve estar muito aliviado num dia como o de hoje: António José Seguro.

Next stop: Havana?

Será Cuba a vítima escolhida por Trump para fazer esquecer o fiasco do Irão?

E agora?

Luis Montenegro e a sua gente têm de se convencer, de uma vez por todas, de que o seu governo é minoritário e que não podem passear-se pelo espaço político como se dispusessem de uma maioria absoluta. Um pouco mais de humildade e menos sorrisos arrogantes não lhes fariam mal.

Posso dar o telefone...

O mote queixoso do PSD no pouco oportuno congresso que aí vem vai ser a importância de o país lhe dar uma maioria absoluta. Para quê, perguntará o eleitor que já o coloca em terceiro lugar nas sondagens? Não seria melhor tentar falar com o Rato? Posso dar o telefone...

sexta-feira, junho 19, 2026

Todos sabemos

Todos sabemos que o mundo empresarial português, em geral, teria gostado de ver aprovadas as propostas de alteração da legislação laboral apresentadas pelo PSD — e que, se perguntada, uma parte significativa desses empresários as consideraria mesmo demasiado tímidas e insuficientes.

Todos sabemos que, num setor importante da cultura empresarial portuguesa, prevalece uma leitura fortemente liberal, e que há quem há muito entenda desejável rever o equilíbrio do binómio capital/trabalho, diminuindo o peso sindical e certos direitos adquiridos dos trabalhadores. 

Todos sabemos também que há outros empresários que olham para essa agenda maximalista, ou para os arranjos que o governo agora queria introduzir, como uma “guerra” desnecessária e uma mera obsessão ideológica.

Existem, no entanto, fortes razões para duvidar que a legislação laboral seja o principal entrave à atratividade de Portugal para o investimento estrangeiro. Relatórios publicados pela OCDE e AICEP nas últimas décadas apontam consistentemente para outros fatores como mais limitativos:

• Burocracia e custos ligados ao licenciamento (industrial, ambiental, urbanístico)
• Lentidão da justiça e insegurança regulatória
• Instabilidade legislativa
• Fiscalidade e complexidade tributária
• Falta de mão-de-obra qualificada ou adequada
• Restrições à contratação de trabalhadores estrangeiros e gestão migratória confusa
• Aumento do custo de construção e dos materiais
• Pequena dimensão do mercado interno
• Baixa produtividade da mão-de-obra
• Custos de energia para a indústria e estrangulamentos nas infraestruturas portuária e ferroviária

Por isso, é no mínimo estranho que a agenda prioritária do governo divirja tão fortemente daquela que é afirmada pelo próprio capital estrangeiro — o destinatário declarado dessas reformas. Essa divergência sugere que o motor político da agenda laboral não é, primordialmente, o reforço da competitividade externa, mas antes um objetivo interno: alterar a correlação de forças entre capital e trabalho, usando o argumento da atratividade como um veículo político mais consensual e apresentável.

É assim legítimo inferir que o ataque à atual legislação laboral pode ter por detrás a intenção de afetar o equilíbrio de poder atual, afetando sindicatos e direitos sociais. Em democracia, isto é legítimo. Mas seria mais decente e corajoso que tal fosse afirmado pelo governo sem máscara.

"Entre a Guerra e a Paz"


Deixo o diálogo que tive com Miguel Szymanski sobre as guerras e paz no nosso mundo, dissecando em especial o conflito ucraniano e o mundo euro-atlântico, com a NATO e a União Europeia chamadas à conversa. E Portugal, claro. 

Pode ver e ouvir aqui.

quinta-feira, junho 18, 2026

Tradição & inovação


Foi na tarde de hoje, no Centro de Artes Certificadas, na rua das Flores, no Porto, a minha conversa com Guta Moura Guedes sobre "Tradição & Inovação", em mais uma iniciativa do "Sharing Knowledge", a plataforma de informação e debate animada pelo incansável Jaime Quesado. Dezenas de pessoas e muitas intervenções preencheram a sessão.

Zona de risco

"A sua cara não me é estranha", ouvi do taxista, no início do caminho para Campanhã. "Lá vêm as televisões...", pensei. "Não estava ontem estacionado junto à cooperativa Árvore?". "Não, cheguei hoje de Lisboa". Pausa. "Ia jurar que tinha sido o seu carro que riscou o meu à saída".

Alto e mau som

Aqui no Alfa, há quem nos faça involuntários confidentes dos problemas da família. Não queria meter-me no assunto, mas a senhora atrás de mim devia convencer a Adélia a não ficar na casa da mãe. É: o Pedro não vai gostar, concordo. Se este conselho a calasse, era bom...

Mas tenho a minha opinião, claro!

Contrariamente a muitos dos meus compatriotas não me considero um pouco escutado treinador de bancada que sabe muito bem o que deveria ser feito na equipa e na tática em campo para, no futuro, evitar "aquela desgraça" do jogo com o Congo. Mas tenho a minha opinião, claro.

Deve ser desagradavel

O modo displicente como Montenegro trata José Luís Carneiro tem uma explicação simples: o líder do PS projeta uma imagem de equilíbrio e um sentido de Estado que, a cada dia, deixa claro perante o país onde mora a seriedade e o respeito pela palavra. E isso deve ser desagradável.

O Reino Unido que aí virá

Veja a análise em "A Arte da Guerra" aqui .