duas ou três coisas
notas pouco diárias de Francisco Seixas da Costa
segunda-feira, julho 13, 2026
"Powder room"
Desunião europeia
A União Europeia não consegue entender-se para sancionar as exportações de colonatos ilegais na Cisjordânia. Esta União Europeia, em termos morais, tem a espinha dorsal de uma amiba. Contudo, ouvindo os seus líderes, continua a ter pretensões de ser levada a sério. Que tristeza!
Bom senso e bom gosto
Palavrinha
Uma palavrinha do senhor Presidente da República ao senhor Primeiro Ministro, estranhando que medidas do âmbito do executivo sejam anunciadas por um porta-voz partidário, seria muito bem vinda, a bem da salubridade da vida democrática. E nem precisa de ser divulgada.
Davim
Margarida Davim é uma jornalista bem preparada, corajosa e sem papas-na-língua. Posso imaginar que a sua frontalidade já esteja a ser incómoda para alguns. Estejam atentos.
Dois pesos?
Veremos se o senhor primeiro-ministro virá a jogo defender o seu ministro da Administração Interna, alvo da extrema-direita, com o mesmo afã com que agora protegeu o ministro da Educação, ai-jesus da direita liberal.
O pessoal
Há dias, uma importante figura do PSD, crítica de Montenegro, dizia-me: "Todos sabemos que o PS, quando está no poder, enxameia a Administração Pública de gente amiga. O PSD faz exatamente o mesmo, mas nunca a qualidade média do pessoal escolhido foi tão medíocre como agora".
Ah! Pois é!
Luís Neves, o recém-nomeado ministro da Administração Interna, tem, desde há muito, um discurso político baseado nos factos — e não nas perceções e nos mitos. Isso não agrada à direita radical, na qual se inclui a linha dominante na AD. Está e estará, por isso, sob fogo.
Escolham
Mariano Rajoy, antigo primeiro-ministro espanhol, desencadeou uma tormenta mediática ao escrever num artigo (não se tratou de uma declaração precipitada) que, não obstante a sua qualidade, a seleção de futebol francesa não tinha franceses. Racismo, xenofobia, estupidez. Escolham.
domingo, julho 12, 2026
Um livro e uma mesa (28)
O livro de hoje é "A Fazedora de Reis - a vida de sedução, intriga e poder de Pamela Churchill Harriman", de Sonia Purnell, uma edição Dom Quixote.
O restaurante de hoje é "Puro Azeite", em Outeiro do Lobo, na Estrada Nacional 121, entre Ermidas do Sado e Santiago do Cacém, com o tlf. 965 448 049.
Saber reagir
Há dias, reagindo a uma intervenção minha num debate, um participante, por sinal um amigo, interpelou-me assim: "Ó Francisco! Estou em completo e total desacordo consigo!" Falhei a reação, da minha parte, que devia ter sido: "Isso só confirma que eu disse coisas certas"...
sábado, julho 11, 2026
Portugal no Conselho de Segurança da ONU (2027/2028)
O autocarro soviético
Éramos cerca de trinta pessoas numa excursão à União Soviética, em julho de 1981, ida da Noruega. Tirando nós os dois, todos os restantes participantes eram noruegueses.
A maioria eram casais reformados, gente de província, com um aspeto rural. Percebia-se, na sua atitude, uma certa simpatia pela União Soviética — memória ainda viva do papel do Exército Vermelho na libertação do norte da Noruega.
Nós estávamos ali por razões mais prosaicas: curiosidade e preço. Duas semanas entre Leninegrado, Moscovo e alguns dias de praia em Ialta por uma verba quase inacreditável. Só mais tarde soubemos que a agência organizadora tinha ligações ao pequeno Partido Comunista Norueguês. Mas isso pouco importava.
Além de nós, da guia e de um discreto funcionário público de Oslo, ninguém falava outra língua que não fosse norueguês. Do nosso lado, o vocabulário nessa língua resumia-se a meia dúzia de palavras.
Durante dias, quase sempre juntos com a guia e com o tal funcionário público, limitámo-nos a sorrisos e cumprimentos vagos aos restantes viajantes. O facto de sermos portugueses — e de eu exercer funções diplomáticas — parecia estar a criar com eles uma cerimónia respeitosa, difícil de vencer.
Saídos de Leninegrado, voámos para Simferopol, na Crimeia. Dali seguiríamos de autocarro para Ialta, por uma estrada de montanha. O voo atrasou-se. Quando partimos, já era noite cerrada. O autocarro era velho, com um roncar metálico pouco tranquilizador. Subia devagar, em esforço. Ao fim de meia hora, parou. O motor calou-se. Ficou apenas o silêncio da estrada escura. Sem trânsito, sem luz, muito antes dos telemóveis, a situação não prometia.
A guia trocou algumas palavras com o motorista e voltou com a solução: era preciso empurrar o autocarro. Todos os homens teriam de ajudar. Sendo, de longe, o mais novo do grupo, fui dos primeiros a avançar. O ar era fresco, com cheiro a óleo e a metal quente. Encostei as mãos à traseira do veículo. Ao meu lado, alinharam-se os outros cavalheiros da excursão. À primeira tentativa, nada. À segunda, apenas um rangido. À terceira, o motor pegou, numa explosão de fumo e ruído, arrancando um suspiro coletivo de alívio.
Quando regressámos aos lugares, como por milagre, algo tinha mudado. Talvez tenha sido o ridículo da cena — uma dúzia e meia de homens, que supostamente deviam estar numas férias descansadas, a empurrar um autocarro soviético no meio da noite — que desfez, de repente, o gelo de dias.
O certo é que, dali até Ialta, o ambiente logo se transformou. Os noruegueses começaram a cantar canções populares. Nós acompanhávamos como podíamos, imitando sons, mimando refrões, provocando gargalhadas. A barreira desaparecera.
Nos dias seguintes, a convivência tornou-se fácil, quase natural. Em Ialta, num jantar animado, um dos noruegueses ergueu um brinde “à noite do autocarro”, entre risos e copos de vodka. Entendíamo-nos mais por gestos do que por palavras — mas isso bastava.
Quando regressámos a Oslo, despedimo-nos com abraços e beijos, como velhos conhecidos. Nunca mais voltámos a ver nenhum deles.
Mantivemos apenas contacto com a guia e com o discreto funcionário público que falava algum inglês. Algum tempo depois, num jantar em nossa casa, ele confessou-nos que era membro dos serviços de informação noruegueses e que integrara a excursão nessa qualidade, observando discretamente o grupo durante toda a viagem. Nesse tempo de Guerra Fria, o espião norueguês fora o nosso mais próximo companheiro de viagem.
Passaram entretanto quarenta e cinco anos. A União Soviética desapareceu. A Crimeia tornou-se território disputado e voltou ao centro da guerra.
Hoje, quando oiço falar ou me vejo a falar da Crimeia, além de mapas e conflitos, vem-me muitas vezes à memória um decrépito autocarro soviético, parado no escuro numa estrada de montanha, e um grupo improvável de noruegueses e dois portugueses que, depois de o empurrarem juntos, deixaram de ser estranhos entre si.
sexta-feira, julho 10, 2026
Conselho de Segurança
Diplomacia
De vez em quando...
Acho delicioso o conceito de "guerra esporádica" com que o "Le Monde" de hoje crisma os ataques americanos ao Irão. Está ao nível da histórica qualificação como "drôle de guerre" da situação que se viveu em França antes da Segunda Guerra mundial.
quinta-feira, julho 09, 2026
Escribas
Nas redes sociais, surgem uns fulanos a afirmar que o destino da sua vida é escrever e que a escrita lhes ocupa tanto tempo que praticamente não leem. Alguns não têm pejo em afirmar que a leitura pouco ou nada lhes ensina. Na minha terra, dizia-se: "Quem lhes atasse um arado!"
quarta-feira, julho 08, 2026
terça-feira, julho 07, 2026
Para fechar o assunto
Farage
Justicinha
O juíz que vai presidir ao coletivo que julga José Sócrates não tem, neste momento, sequer quatro anos como magistrado. Comparem com o grau de responsabilidade que é atribuído, em outras profissões, a pessoas com a mesma antiguidade. Andam a brincar com a justiça.
Pulseira de campanha
Marine Le Pen pode concorrer à eleição presidencial com pulseira eletrónica. Ficava-lhe bem uma Bvlgari...
Viva!
segunda-feira, julho 06, 2026
O Mundial de 1982 no "Trópico"
E se...
E se, a pedido de Donald Trump, a FIFA decidisse que Marine Le Pen se pode afinal candidatar às eleições presidenciais francesas?
Perder, ganhar, viver — por Carlos Drummond de Andrade
(Não sou dado a publicar por aqui textos alheios. Mas este é um "textão" imperdível)
Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…
E chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos?
Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado.
A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos (ou adquirimos, na maioria das cabeças) o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres-diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se.
Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano está na segunda metade?
(Carlos Drummond de Andrade, Jornal do Brasil, 07/07/1982)
Por uma vez, belgas
Após uma decisão de arbitragem, feita a expresso pedido do presidente americano, que favorece escandalosamente os EUA no seu próximo jogo, não será de admirar se, na próxima madrugada, meio mundo estiver a apoiar a Bélgica contra "a equipa de Trump".
O choro e o riso
Vivi no Brasil e conheço os brasileiros suficientemente para entender que a sua eliminação, logo nesta fase do Mundial de futebol nos Estados Unidos, constitui um imenso desapontamento, se bem que as dúvidas sobre a real força deste grupo já tivessem surgido há muito na imprensa. O futebol é muito importante para o imaginário brasileiro, é a “pátria em chuteiras”, como escreveu Nelson Rodrigues. Mais do que os clubes, a seleção — o “escrete” — tem um significado profundo numa brasilidade partilhada com fervor por quase todos. O Brasil tem uma história gloriosa no futebol mundial, e o presente contrasta, com frequente nostalgia, com esses dias gloriosos. O país provou, contudo, ser possuidor de um arsenal histórico de esperança, mesmo quando as razões para essa esperança foram ténues. Por isso, embora desiludido e em lágrimas, o Brasil vai reinventar-se. Não seria o Brasil se assim não fosse.
Um livro e uma mesa (27)
O restaurante é "Via 14", por detrás do altar do papa, em Lisboa, com o tlf. 962 526 989.
domingo, julho 05, 2026
Ah! Pois é!
O clima parece apostado em estragar a festa a Donald Trump. Deus que se ponha a pau! Trump assina uma "executive order" e vai ser o bom e o bonito.
sábado, julho 04, 2026
Estados Unidos da América
Com Pedro Adão e Silva e Mário Crespo, estive esta noite na CNN Portugal para analisar o significado dos 250 anos passados sobre a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América.
Tentámos ir um pouco mais além da polémica criada pela tentativa de Donald Trump de se apropriar destas comemorações, saudando o contributo político para o mundo dado pelos "pais fundadores" da América.
Avante, comrades!
Adieu ou au revoir?
Macron faz cada vez mais lembrar Coimbra: tem mais encanto na hora da despedida...
Ironias e coincidências
Há um irónico contraste entre o crescendo de ataques de mísseis da Rússia à Ucrânia e a clara incapacidade de Moscovo de suster as incursões de drones ucranianos por todo o seu território. A ocorrência de uma cimeira da NATO neste tempo de escalada será uma mera coincidência?
Sentimentos
O espetáculo do funeral de Ali Kamenei tem laivos de provocação aos EUA mas, essencialmente, a Israel. Pode imaginar-se a tentação israelita de ir "molhar a sopa" na liderança iraniana ali reunida. As presenças estrangeiras acabam assim por funcionar como um escudo humano.
Et pour cause...
Paul Seixas é a grande esperança dos franceses no Tour deste ano. E da minha família também.
What if?
O que tem de ser
Há pouco mais de nove anos, no dia em que Donald Trump tomou posse pela primeira vez, escrevi este texto na coluna semanal que então tinha no "Jornal de Notícias". No artigo, não falava em Trump, mas nele já transpirava o "otimismo" com que aguardava a sua chegada. Nem nos piores pesadelos, contudo, era expectável o que por aí viria. Repito o artigo neste 4 de julho em que a América assinala o 250° aniversário da sua Declaração de Independência:
Cabo Verde
sexta-feira, julho 03, 2026
Mota-Engil
quinta-feira, julho 02, 2026
Mota
O grupo Mota-Engil comemora este ano os seus 80 anos.
Na sua história de sucesso empresarial, à figura pioneira de Manuel António da Mota veio a suceder o seu filho, António Mota.
António Mota desapareceu no ano passado. Não vai estar nesta festa, como muito teria gostado, ao lado das suas irmãs, dos seus filhos e de muitos outros familiares — desde logo do seu sobrinho, Carlos Mota Santos, que hoje dirige e empresa, tendo o filho de António Mota, Manuel, ao seu lado como vice-CEO.
À festa faltará também uma pessoa que acompanhou António Mota num tempo que trouxe à companhia novas e ambiciosas perspetivas — Jorge Coelho.
A vida é feita destas inevitáveis ausências. Como escreveu um dia Manuel Alegre, são ausências-presentes, que ficarão como eternas referências para o futuro de um grupo que já deu provas de que tem a ambição escrita no seu destino.
Prémio Camões
quarta-feira, julho 01, 2026
Os amigos do Massano
O Tó Zé Massano tem este raro dom de congregar afetos. Moustaki criou o “Les Amis de Georges”, para evocar os companheiros de jornada de Brassens. O Nuno Júdice partiu, sem nos deixar o poema. Mas a Maria do Rosário Pedreira ou o Luís Castro Mendes podiam alinhar uns versos. Quem faz a música para “Os Amigos do Massano”?
Conheci o Massano no final de 1968, na Granfina, em Entrecampos, um café onde então parava ao fim da tarde ou no início da noite. Era por ali que alguns de nós, recém-chegados a Lisboa, íamos criando conhecimentos e fazendo novas amizades. Pelas minhas contas, o Massano será o meu amigo mais antigo em Lisboa. Mais do que isso, é há muito um dos meus amigos mais próximos.
O António é das melhores pessoas que conheço — e conheço magníficas pessoas. Leal e sempre atento aos amigos, com uma disponibilidade e generosidade desarmante, é alguém com quem sabemos poder sempre contar. Positivo por natureza, avesso à intriga, projeta sempre uma boa onda. Com os muitos anos, aprendi que o simples facto de dizer que somos “amigos do Massano” nos faz entrar num clube muito especial.
Beirão, licenciado em Letras, passou pelo jornalismo, traduziu inúmeros livros, foi leitor universitário em Espanha e trabalhou no Instituto Camões. Mas a sua marca profissional maior talvez seja outra: é o mais arguto sabedor da língua portuguesa que conheço. Um livro revisto por ele sai com um selo de qualidade que as melhores editoras portuguesas bem reconhecem. Quantas manhãs acordo com um email do Massano a dizer “tens uma vírgula a mais no post de hoje no blogue” ou “compõe a concordância” na frase tal.
O Massano não tem defeitos? Claro que tem, sendo que o maior é ser benfiquista. Como vingança eterna, recordo que o tive ao meu lado, há 40 anos, no velho estádio José Alvalade, na deliciosa tarde dos 7-1!
O Tó Zé Massano faz hoje 80 anos. Com a Paula e a filha Joana, há muito constituiu uma família feliz. Neste dia, fui dar-lhe um abraço e fazer, no fundo, aquilo que fazemos há muitos anos: conversar, rir e partilhar histórias.
terça-feira, junho 30, 2026
... e mais não digo!
Estou a ver o França - Suécia. Espero que o destino nos poupe a ter estes "bleus" pela frente. E mais não digo!
Um livro e uma mesa (26)
Elogios
segunda-feira, junho 29, 2026
Sebastião
"Vila Galé"
Éramos muitos, na tarde quente de sábado, os que fomos a Sintra dar os parabéns ao Jorge Rebelo de Almeida pelo 40° aniversário do grupo hoteleiro "Vila Galé", que criou e dirige, hoje com o filho Gonçalo a coordenar a parte executiva.
Taludes
Tenho uma amiga que é obcecada por taludes. Nas estradas, passa o tempo a olhar para as zonas laterais e a comentar, com o rigor solene de quem foi iniciada nos altos mistérios da engenharia civil, o modo — cuidado ou desleixado, nunca há meio-termo — como os taludes estão construídos e conservados. É uma vocação. Algumas pessoas encontram deus; ela encontrou os taludes.
Em que ficamos?
domingo, junho 28, 2026
Nota gastronómica
O Whopper estava com a clássica secura no ponto, o tomate da rodela não era, claro, "coração-de-boi", a anémica folha da alface tinha visto os vizinhos mais verdes partir há horas, o molho era "sui generis", o óleo em que as batatas tinham sido fritas nem era mau. A Coca-Cola zero era, pelo fim-de-boca, da colheita 2026. Por € 7.45 queriam mais?
De onde virão?
O "déjà vu" é inevitável, para quem tem a minha idade: ver emergir imensos cursos sobre Inteligência Artificial (os professores "instantâneos" terão sido formados por Inteligência Artificial?) faz lembrar, há uns anos, a explosão de cursos de informática, ao virar de cada esquina.
... e o calor!
Um amigo, em turismo numa grande cidade europeia, diz-me que ficou hoje no hotel, por causa do calor. As opções turísticas são escolhas voláteis. Se se começa a instalar a ideia de que os meses de julho a agosto, em certas zonas turísticas tradicionais, se tornam insuportáveis...
Vergonha
O que mais impressiona na escandalosa discriminação feita pelos EUA à seleção iraniana não é o comportamento miserável da FIFA: é o silêncio cúmplice das outras equipas presentes no Mundial.
Minilateralism
I am not sure of the year, but I still remember the look on my adviser’s face when she came into my office, very upset, and asked: “Did you know that five European ministers met on their own and put out a joint document? Did our minister of the area know about the meeting? Did he say anything against it?”
I don’t know what I answered, especially because I had not yet read the “Europe” bulletin, which had probably already reported something about the fact. I assume that said I didn’t know. The truth is that I already had some suspicions. The area in question — which is not important here — was, at that time, very unstable and polemic. Even so, it was not a good thing that the Secretary of State for European Affairs, which I was at the time, and who was supposed to coordinate the government’s European actions, had not been told by the ministry responsible.
But had the minister of that area told the Prime Minister? I went to find out. Guterres didn’t know. And the Minister of Foreign Affairs? Gama didn’t know either.
I called the minister, a friendly and politically experienced person, who told me that he had heard some “rumours” about the possibility of some of his colleagues meeting separately, but that he had decided to wait and see. The result, in his view, did not seem particularly worrying.
I did not agree. It was a very bad precedent, because of the formality — which seemed to me unusual — of having put out a joint statement. I made it clear in an indirect way (I did not have the political authority to say it directly) that he should have protested. He replied that he would “have a word” with some of his colleagues.
Which countries had met? The “usual suspects”, as Captain Renault would say in Casablanca: France, Germany, the United Kingdom, Italy and Spain. That meeting was also just “the beginning of a beautiful friendship” among those five, to use Rick’s words, a few seconds later, in the same scene of the film.
That apparently small episode already showed a hidden trend inside the European Union: the tendency of some of the bigger and more powerful states to coordinate their positions among themselves outside the official institutions, and then push them into the common decision-making process. What was then an informal exception was starting to become a method.
It was not an isolated case, as time would show. From then on, this kind of “minilateralism” grew and has now become normal practice, without anyone seeming to be bothered anymore. Some states are always part of this “inner group”, while others are brought in when needed. Portugal joins when they think it is useful. Nowadays, quite often, and with London replaced by Warsaw for some time now, this group of five — saying they act for reasons of effectiveness, but actually implying, without saying it openly, that they have the power to do so — meets in small groups, no longer hiding that it wants its conclusions to become guidelines for the others.
What I find more serious is that they bring to these meetings institutions that are supposed to represent the whole Union: the Commission and the presidency of the Council of Ministers.
Coordination in itself is not a problem. It has always existed and will probably not disappear. States with similar interests will naturally tend to align their positions before formal negotiations. It is well known that, at certain moments in European history, small-group initiatives have helped to break deadlocks and move the integration process forward.
It is important, however, to make a difference between political coordination and the creation of an informal leadership group. The first is a normal part of diplomatic life. The second happens when a small group starts to make decisions outside the institutions and then presents its conclusions as solutions that the other states are simply expected to accept. It is in this move from coordination to pre-decision that the real problem is.
The Union’s treaties allow for different forms of integration and enhanced cooperation, but they do so through clear procedures, with a legal basis and, above all, open to the participation of the other Member States. What we see more and more today is different: informal meetings, without any institutional basis, trying to gain a political authority that is too big for what they actually are.
The reason given is almost always the same: the need to act quickly and effectively. That argument has some value. A Union of twenty-seven states can hardly move as fast as a group of five or six. But there is an important difference between preparing solutions and deciding in advance. Effectiveness cannot become an excuse for replacing, in practice, the mechanisms through which the Union makes its decisions legitimate.
It is true that states do not have the same political weight, diplomatic capacity or international influence. This inequality is part of the European reality, and it would be naive to ignore it. Precisely for that reason, the Community’s construction has, from the beginning, been based on a set of rules designed to stop differences in power from automatically becoming differences in political authority.
When these balances are regularly bypassed through informal practices, the risk is not only that smaller states are left out: it is the Community method itself that gets weaker. Decisions continue to be formally taken by the institutions set out in the treaties, but their content starts to be shaped somewhere else, in smaller circles and with less collective oversight.
In the short term, this model may even produce results. In the medium and long term, however, it tends to reduce trust in the system. If people start to believe that there is a permanent core that decides and a periphery that simply follows, the weakening of the Union’s political legitimacy becomes unavoidable.
The European Union has always lived with a delicate balance between effectiveness and legitimacy. These are not opposing values; they depend on each other. Effectiveness without legitimacy may produce faster decisions, but it will hardly produce a stronger Union. And a legitimacy that keeps getting weaker will, sooner or later, also damage the very effectiveness it was supposed to serve.
Nota de um generoso
São duas e quarenta da manhã. Não vi o Portugal - Colômbia. Sou generoso: deixo as emoções (sofrimentos e alegrias) para os outros. Daqui a horas, sabendo que empatámos e jogámos muito mal, vou ver em diferido. E assim não me inquieto mais do que já estou com a seleção. Aprendam!
O minilateralismo
sábado, junho 27, 2026
A nesga
A nesga de Tejo a que tenho direito, olhada da mesa onde estava (porque já não está) um belo bacalhau à Zé do Pipo. Há vistas e vidas piores, lá isso há!
sexta-feira, junho 26, 2026
Um livro e uma mesa (25)
O restaurante de hoje é o "Jockey", em Lisboa, com o tlf. 217 957 521.
"Powder room"
Há minutos, ao ler a biografia de Pamela Harriman — agora publicada em Portugal — deparei-me com um episódio delicioso. Num jantar em casa d...








































