terça-feira, junho 02, 2026

Os saudosos

Observando a triste reação do governo face ao legítimo exercício do direito à greve, só posso concluir aquilo de que sempre suspeitei: um setor importante da direita portuguesa tem saudades. Mas (ainda?) não tem coragem de confessar aquilo de que sente falta. Mas nós sabemos.

Notes on Israel

Israel has a highly effective lobby in the United States, one that covers both political parties. Religion, arms business interests, and geostrategic considerations shape these pressure groups, which are very active in Congress and impossible for any president to ignore. Israel’s security is an American imperative.

What happened in Gaza has affected Israel’s image among a certain segment of American opinion, but it has not shaken the core of the commitment between the two countries. The Jewish lobby, riding the fight against antisemitism, remains strong in the legislature and in the media (as well as on social networks).

With Syria and Iraq blocked and the Gulf countries in a state of anxiety over Iran, Israel dreamed that Trump would turn it into the region’s dominant power of the future. There was, however, the “détail” of the Palestinians—whom many in Israel do not regard as “people,” but whose existence the "Arab street" forcefully reminds them of.

Netanyahu may be unpopular, but his policies toward the Palestinians and Iran are highly popular. That is not where his downfall will come from. The massacre of Palestinians does not morally divide Israeli society. Yet, across the world, after Gaza, the memory of the Shoah no longer carries the same emotional weight.

In the short term, the key question is how Netanyahu will manage to balance his obsessive ambition for a powerful “Greater Israel” with Trump’s desire to strike a deal to end a war far more difficult to win than Netanyahu had promised him.

If Netanyahu were to risk openly defying Trump and causing him to lose face, he would face a problem. All indications suggest, however, that the Israeli prime minister knows how far he can stretch the rope, always “respecting” the megalomaniacal narcissism of his American ally. Lebanon will be a good test.

Israel em seis pontos

Israel tem um lóbi muito eficaz na América, que atravessa ambos os partidos. Religião, negócios de armas e considerações geoestratégicas marcam esses grupos de pressão, muito ativos no Congresso e que nenhum presidente pode ignorar. A segurança de Israel é um imperativo americano.

O que se passou em Gaza afetou a imagem de Israel junto de uma certa América, mas não abalou o essencial do compromisso entre os dois países. O lóbi judaico, cavalgando a luta contra o antisemitismo, segue forte do legislativo e nos mídia (e redes sociais).

Com a Síria e o Iraque bloqueados e os países do Golfo em pânico com o Irão, Israel sonhou que Trump a transformaria na potência regional do futuro. Havia contudo o "detalhe" dos palestinos, que muitos em Israel acham que não é "gente", mas que a "rua árabe" lembra que existe.

Netanyahu será impopular, mas a sua política contra os palestinos e o Irão é altamente popular. Não será por aí que cairá. O massacre dos palestinos não divide moralmente os israelitas. Só que, pelo mundo, depois de Gaza, a memória da Shoa já não tem o mesmo efeito emocional.

A curto prazo, a grande questão está em saber como Netanyahu conseguirá equilibrar a sua obsessiva ambição de um poderoso "grande Israel" com a vontade de Trump de fazer um compromisso para pôr termo a uma guerra bem mais difícil de ganhar do que Netanyahu lhe prometera.

Se Netanyahu vier a arriscar contrariar ostensivamente Trump, fazendo-lhe perder a face, terá um problema. Tudo indica, contudo, que o PM israelita sabe até onde pode esticar a corda, "respeitando" sempre o narcisismo megalómano do amigo americano. O Líbano será um bom teste.

Há 16 anos escrevi aqui isto...


É verdade, este blogue tem mais de 17 anos! 

Portugal iniciava então uma candidatura a membro não-permanente ao Conselho de Segurança da ONU. Seríamos eleitos, exercendo – e bem, como é de regra – um novo mandato. 

Amanhã, dia 3 de junho de 2026, saberemos se Portugal vai ou não ser de novo eleito, numa nova candidatura.

Em 2010 escrevi aqui isto. Relendo agora o que escrevi, perceber-se-á que há muito que já não tem aderência à realidade dos tempos que correm – marcados por uma administração americana hostil à ONU e ao multilateralismo, que teve como consequência o condicionamento absoluto do trabalho de António Guterres, cuja posse coincidiu com o primeiro mandato de Donald Trump. Guterres teve depois de enfrentar a crise da guerra na Ucrânia, que fez com que a Rússia paralizasse o CSNU, e, posteriormente, os conflitos no Médio Oriente. Como é sabido – salvo pelos desatentos e pelos desonestos – a ONU não funciona quando os mais poderosos membros permanentes do seu Conselho de Segurança não o permitem. Culpar disse o Secretário-Geral é uma escapatória fácil.

Mesmo assim, aqui deixo, "à toutes fins utiles", aquele meu texto de há 16 anos, que então subscrevi com gosto e com o qual, no essencial, ainda me identifico:

"Este é um post longo. Como diria alguém, não tenho tempo para ser sintético.

Portugal é candidato a um novo mandato como membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU, no biénio 2011/2012. No passado, exercemos por duas vezes essas funções, sempre com grande eficácia.

Há dias, um amigo perguntava-me por que razão Portugal queria obter, de novo, essa posição, numa eleição que implica gastos e uma mobilização diplomática intensa. A resposta é, de certo modo, simples.

Portugal é um país com uma história e com uma imagem bem firmadas no mundo. Somos um Estado europeu de média dimensão que sempre deu mostras de um forte empenhamento no quadro das relações externas da União, para a definição do qual muito temos contribuído desde a nossa adesão, por vezes numa escala bem superior à de parceiros com um perfil similar.

Estamos no centro de uma Comunidade línguística em crescente projeção internacional, que se forjou por laços culturais e afetivos e que foi ajudada pelo cimento da pertinácia comum em torno da luta pelos direitos de Timor-Leste.

Temos hoje um quadro muito coerente de relações externas, fruto de uma ação séria no seio da comunidade internacional, que nos reconhece como uma entidade dialogante, moderadora, que age na base de princípios e que respeita, em prioridade, a preeminência da ordem multilateral.

Soubemos ultrapassar os tempos traumáticos da conflitualidade colonial e, desde a reimplantação da democracia, somos um dos mais comprometidos parceiros com o mundo africano, tendo sido responsáveis pela iniciativa de duas cimeiras União Europeia-África, momentos únicos na paciente construção de um diálogo institucionalizado entre os dois continentes. Temos sido, além disso, na União Europeia e fora dela, dos mais dedicados promotores de políticas de ajuda ao desenvolvimento e da reflexão sobre os modelos de como elas devem evoluir.

Somos um país exemplar em processos de integração de comunidades estrangeiras, respeito pelas minorias e combate às formas de exploração humana, conduzindo, no quadro da União Europeia e em outras estruturas multilaterais, uma ativa política nesse domínio, fundada em valores humanistas e de solidariedade à escala global. Essa posição, deriva muito do facto de termos vindo a aculturar, após séculos da nossa própria diáspora, atitudes de relação humana e de respeito pela diferença que são hoje uma componente essencial da nossa matriz identitária. 

Não sendo, geograficamente, um país mediterrânico, somos considerados pelos nossos parceiros do Magrebe como um dos Estados europeus que melhor entende as questões desse espaço, do mundo árabe e dos desafios de desenvolvimento e segurança que atravessam toda essa região. No Médio Oriente, a nossa voz é reconhecida como sempre tendo mantido uma grande coerência no tocante à procura de soluções de justiça que, simultaneamente, compatibilizem os direitos do povo palestino e a prestação de garantias a um Estado israelita com fronteiras fixadas à luz das determinantes do Direito internacional.

Na América Latina, para além da muito especial relação com o Brasil, temos um excelente entendimento com todos os países de língua espanhola, fruto de laços antigos e de novas solidariedades, muitas das quais firmadas no quadro íbero-americano e na atenção que sempre demos à promoção dos seus interesses dentro da União Europeia.

Portugal é um país respeitado no seio da Aliança Atlântica, mantendo com os Estados Unidos, o parceiro mais importante nesse contexto, um constante e amigável diálogo. Olhamos para o laço transatlântico como um elemento axial do quadro de segurança em que estamos inseridos. A perspetiva que Portugal tem alimentado vai também no sentido de considerar que uma relação eficaz entre os Estados Unidos e a Europa é uma condição indispensável para a promoção, com sucesso, de alguns dos valores que entendemos dever proteger na ordem internacional. As derivas conjunturais ocorridas do outro lado do Atlântico, a que se somaram patéticos seguidismos pontuais assumidas nesta banda, devem ser levadas à conta de meros interlúdios, projetados num quadro que continuamos a ler como estruturante para a preservação dos nossos interesses estratégicos.

As grandes questões relacionadas com a segurança internacional, nomeadamente nos cenários de tensão pós-11 de setembro, têm, aliás, encontrado em Portugal um parceiro interessado e interveniente. Estamos presentes no esforço para a estabilização do Afeganistão, terreno de operações considerado fundamental para evitar uma catastrófica desregulação da região, com consequente aumento dos riscos de proliferação nuclear e propagação do terrorismo - flagelo a que temos dado a maior atenção nos diversos quadros em que é combatido. Ainda na área da segurança, estamos a preparar a cimeira da Nato, que este ano terá lugar em Lisboa, a qual terá no centro da sua agenda a definição do seu novo conceito estratégico, reformulação essencial para a imperiosa "recriação" da organização, à luz das novas ameaças e das novas áreas geopolíticas de atuação. 

A imagem de Portugal na Ásia, fixada por uma memória histórica muito positiva, é a de um país cujo passado por lá deixou marcas iniludíveis, nas culturas como nas línguas, como saldo de uma excepcional capacidade de relacionamento humano. Soubémos gerir uma eficaz transição em Macau, num exemplar diálogo com a China. Contrariamente ao que muitos esperariam, a nossa coerência na questão timorense garantiu-nos um respeito acrescido na Ásia e em Estados da Oceania, que apreciaram a sabedoria com que retomámos uma construtiva e descomplexada relação com a Indonésia. 

Voltando à Europa, é interessante notar que Portugal teve, desde muito cedo, o mérito de perceber que a abertura do projeto comunitário a novos parceiros era uma exigência, não apenas estratégica mas igualmente ética. A nossa inabalada coerência de atitude face ao conjunto de interesses dos novos Estados membros, do seu desenvolvimento à sua segurança, dá-nos hoje um crédito de reconhecimento que igualmente os ajuda a entender a nossa determinação no aprofundamento do diálogo com a Rússia, bem como o nosso empenhamento na resolução de conflitos e na superação de tensões na importante área de vizinhança da União Europeia a leste, tal como na descoberta de fórmulas mais inclusivas na cooperação com o restante mundo euroasiático.

Portugal trabalha nas instituições multilaterais com "as cartas" sobre a mesa, sem jogos de bastidores, com uma agenda de preocupações que assenta na busca de soluções dialogadas, numa lógica de comportamento que sempre tentamos que seja partilhada pelos nossos parceiros e aliados, situados nos diversos contextos multilaterais ou multinacionais onde nos inserimos e atuamos. Tentamos ser sempre uma voz moderada, que procura até ao limite conseguir soluções fruto do diálogo e do consenso, sem prejuízo do cumprimento das normas internacionais e do corpo de princípios a que aderimos. Sem fundamentalismos nem ilusões, seguimos uma linha que tenta ser coerente nos processos de promoção da democracia, dos direitos humanos e dos valores do Estado de direito. Estamos também crescentemente atentos às temáticas do ambiente e do desenvolvimento sustentável, onde damos, dia-a-dia, um testemunho próprio de envolvimento no uso intensivo das energias alternativas.

Não será também por acaso que nomes portugueses assumem hoje lugares cimeiros no diálogo entre civilizações, nas instituições europeias ou na protecção dos direitos dos refugiados. Para além das razões de natureza pessoal que os recomendaram, não há a menor dúvida que isso decorre também do facto de beneficiarem da imagem projetada pelo país de onde são originários, onde antes apareceram no exercício de outras funções.

Ao longo dos últimos anos, com a nossa intervenção em processos de manutenção de paz - de Moçambique aos Balcãs, de Timor ao Líbano, entre outros cenários de instabilidade -, mostrámos que não éramos apenas produtores de retórica, tendo muitas vezes assumido um perfil de participação superior àquilo de alguns podiam esperar do nosso estatuto e dimensão económica. As Forças Armadas portuguesas têm-se constituído, pela capacidade e equilíbrio revelados na sua ação em cenários externos de tensão, como uma magnífica e moderna imagem do nosso país.

É a globalidade dessa experiência, a que se soma a continuada vontade de darmos a nossa contribuição para a paz e segurança internacionais, que nos leva a querer estar, por direito próprio, no órgão mais operacional da ONU, uma instituição em cujo futuro acreditamos e cujo papel central na regulação dos conflitos continuamos a defender. Somos intransigentemente a favor do princípio da rotação dos Estados que não têm um estatuto permanente no Conselho de Segurança, pelo que somos fortemente contra uma espécie de subliminar "usucapião", através do qual alguns procuram ser mais iguais que os outros... Temos também defendido a urgente necessidade de uma reforma do Conselho, que lhe reforce a democraticidade e representatividade, através de uma abertura a novos membros permanentes provenientes da África, Ásia, América Latina e Europa.

Aqueles que, em Portugal, colocam reticências a este esforço de sustentação do nosso prestígio devem pensar que ser português é também ser o herdeiro desta vocação tradicional de afirmação externa, num tempo em que já não queremos estar "orgulhosamente sós". A imagem de Portugal, a promoção dos nossos legítimos interesses, a abertura de espaços de diálogos de toda a natureza, tudo isso passa pela visibilidade e pelo prestígio que uma presença no Conselho de Segurança proporciona. Não perceber isto, assumir atitudes de autolimitação economicista primária, é ajudar a condenar o nosso país a um destino de irrelevância. Uma irrelevância que, de facto. parece ser o sonho de alguns profetas da desgraça que por aí rondam colunas, blogues e debates televisivos. 

Alguns poderão interrogar-se sobre a natureza deste longo post. Quem me conhece sabe que ele não é um mero exercício de retórica, nem representa nenhum recado oficioso que me tenham encomendado. É, muito simplesmente, aquilo que eu penso."

Um livro e uma mesa (15)


O livro de hoje é "Países Estrangeiros - Memórias e Viagens", de Luís Filipe Castro Mendes, editado pela Guerra e Paz.

O restaurante de hoje é a "Taberna Afonso", em Poiares, entre Ponte de Lima e Barroselas, com o tel. 965 227 956.



segunda-feira, junho 01, 2026

Estão feitos?

A complexidade dos números apresentados nas faturas da água, eletricidade e gás é de propósito, não é? Os reguladores não deveriam fazer um esforço para ajudar à literacia daquela confusão, ou afinal estão feitos com eles? E não funciona a proteção dos consumidores?

Isto

O "Telegraph" lembrou um velho poema inglês para caraterizar a "política externa" de Trump: "“Day after day, day after day, / We stuck, nor breath nor motion; / As idle as a painted ship / Upon a painted ocean.”

Salamaleques

 


Essa é que é essa!

A América Latina, pavlovianamente, entrega-se às mãos de presidentes que têm como prioridade conseguir manter boas relações com "o dono da bola", isto é, com Washington. Ora os EUA trocariam toda essa gente por uma influência forte nos poderes do México e do Brasil.

Um livro e uma mesa (14)


O livro de hoje é "Otelo, o Herético", de Carlos Matos Gomes, uma edição da Tinta da China.

O restaurante é o "Tribeca", em Serra d'El-Rei, com acesso desde a A8, pelo IP6, com o tel. 262 909 461 / 919 396 081.

domingo, maio 31, 2026

A Pousada


A partir de 1954 e até 1971, o forte de S. João Baptista, nas ilhas Berlengas, funcionou como Pousada de Portugal. Atualmente, oferece um alojamento de diferente natureza. Passei por lá hoje. Tinha uma grande curiosidade em conhecer o espaço. Ficou satisfeita essa minha curiosidade.


Um livro e uma mesa (13)



O livro de hoje é "Uma longa viagem com Lídia Jorge", de João Céu e Silva, numa edição da Contraponto.

O restaurante é a "Petiscaria Âncora", na Ericeira, com o tel.  965 039 349.

sábado, maio 30, 2026

Passos

Tem sido interessante acompanhar o derbi Passos - Montenegro e constatar que a hostilidade residual contra Passos (ainda) é tanta que há quem, embora de fora da "família", acabe a ter pena de Montenegro, perante a inusitada assertividade verbal do seu "companheiro" de partido.

Pois é!

Na maioria das vezes, as filas de pessoas que se juntam para acesso a um determinado serviço são difíceis de prever. Esse, contudo, não é o caso do desembarque de passageiros nos aeroportos. Salvo atrasos, sabe-se exatamente o número de pessoas e sua hora de chegada. Pensem nisto

A guerra na Ucrânia


Ver aqui.

quinta-feira, maio 28, 2026

Devoções

Em regra, as siglas dos partidos têm três letras. Entre nós, há um partido que tem apenas duas letras — MP — e que tem a curiosa caraterística de não necessitar de votos para intervir na política. Não precisa de votos, mas precisa de "devotos": a comunicação social.

A gargalhada


No final do estalinismo, houve uma feroz crítica ao "culto da personalidade". No enterro do trumpismo, as gargalhadas cairão sobre o mais ridículo "puxa-saquismo" de sempre. Razão tinha Marx: a História acontece uma vez como tragédia e repete-se como comédia.

Se passar pela feira do livro ...


... e quiser ler pequenas e muitas vezes divertidas histórias da vida diplomática, deixo-lhe esta desinteressada sugestão. 

Pergunte na D. Quixote, onde deve haver exemplares à venda.

Fruta da época

Não havia, por aí, desde há muito tempo, um caso chamado "Tutti Frutti"? Alguém sabe se deu em alguma coisa? Nem sei bem por que razão me lembrei disto hoje...

Viva o 25 de Abril

O 25 de Abril foi o dia em que os militares portugueses conseguiram redimir-se da vilania que, faz hoje precisamente um século, os seus colegas de profissão levaram a cabo, abrindo caminho à mais longa ditadura na Europa ocidental, no século XX.

Villepin

Dominique de Villepin, o político de direita que a esquerda francesa mais aprecia, irá à eleição presidencial de 2027, com hipóteses muito reduzidas. A direita gaullista não gosta dele, a esquerda só o escolheria contra alguém da extrema-direita, se viesse a passar à 2ª volta.

Um livro e uma mesa (12)


O livro é " Valores Europeus - Uma longa história", de Jaime Nogueira Pinto, uma edição D. Quixote. Chegou-me ontem, ainda não o li, esclareço, mas tenho a certeza de que vai valer a pena.

O restaurante é o "Líder", no Porto, com o tel. 225 020 089.



quarta-feira, maio 27, 2026

27 de maio



José Ferreira Fernandes escreve hoje, no "Público", um artigo que só ele poderia escrever. E também o escreve como só ele sabe escrever. Ali fica um extraordinário e corajoso hino à sua terra, numa data – 27 de maio – em que, no ano de 1977, ficou aberta uma ferida eterna na memória de Angola. Também a 27 de maio, há tantos anos como aqueles que eu tenho, nasceu o meu amigo José Ferreira Fernandes, a quem envio um abraço.

Um livro e uma mesa (11)


O livro de hoje é "O novo agora", de Marcelo Rubens Paiva, numa edição Dom Quixote.

O restaurante de hoje é a "Taberna do Adro", em Vila Fernando, perto da A6 e de Elvas, com o tel. 268 661 194.

Ela aí está ...


... a Feira do Livro.

O que posso prometer? Contenção nos gastos e comprar apenas aquilo que sei que vou ler. Mas, na realidade, confio cada vez menos em mim...

Loulé, 6 de junho

 


terça-feira, maio 26, 2026

A ter em atenção

Não é sossegante a deriva bélica da Rússia, a que se vai seguir uma óbvia retaliação ucraniana. Putin não pode admitir ser visto internamente como não estando a ganhar uma guerra que tem custos tão pesados. E, em face do desinteresse dos EUA, pode vir a cometer uma loucura.

Pronto! Já apareceu.

O gozo que vai nas hostes da direita trauliteira, pela polémica que envolve o novo ministro da Administração Interna — um conhecido crítico da "teoria das perceções", um argumentário xenófobo e racista do reacionarismo lusitano. Não se sabia como surgiria, mas estava-se à espera.

Leram aqui primeiro

Com o efeito psicológico da ameaça sobre a Grenolândia, Trump pode vir a provocar o pedido de adesão à União Europeia da Noruega e da Islândia. Tomem nota.

Letras & vitualhas


Para quem se tem por aqui deparado, nos últimos 10 dias, com "Um livro e uma mesa", recordo o que notei no início dessa série: trata-se de deixar notas de livros que li ou reli no último ano e que considero dignos de algum destaque, bem como de restaurantes — algures no país, desde mesas simples a lugares mais afiambrados — de que me ficou uma memória positiva. Serão apontamentos ao acaso, sem qualquer ordem, sempre muito económicos nas palavras. Com um livro, virá um restaurante, sem que um tenha nada a ver com o outro.

Autonomia


Interessante e muito informativo debate foi aquele que a RTP Açores ontem transmitiu, a propósito dos 50 anos da autonomia das Regiões Autónomas. 

A maturação do tempo permite que hoje possa ter lugar uma análise retrospetiva, serena e sem polémica, sobre aquele que é hoje quase unanimemente considerado um dos sucessos do percurso político-constitucional do país.

Sem prejuízo dos contributos dados pelos vários intervenientes no painel, muito bem conduzido pelo jornalista Lopes Araújo, quero destacar, por me parecer da maior justiça, as intervenções de Jaime Gama, que trouxeram uma perspetiva dos primeiros anos das discussões sobre a autonomia, no contexto da Assembleia Constituinte, bem como o seu enquadramento na própria história do país.

Gama não deixou de referir o esforço do governo português, chefiado por António Guterres, para que o Tratado de Amesterdão desse maior consistência jurídica ao estatuto europeu das Regiões Ultraperiféricas, nas quais se incluem os Açores e a Madeira.

segunda-feira, maio 25, 2026

Um livro e uma mesa (10)


O livro de hoje é "Azul da Prússia", de Amadeu Lopes Sabino, uma edição da Guerra e Paz.

O restaurante é em Bragança, o "Geadas", com o tel. 273 324 413.

Biblioteca


Olhar para a prateleira de uma estante de hotel e deparar com isto! Assim, nem dá vontade de levar um livrito...

Maria da Fé


Faz hoje 84 anos. Ontem, houve uma homenagem a Maria da Fé, no "Fama de Alfama", à passagem da meia-noite. Antes, foram-lhe prestados tributos por vários fadistas na nova geração. 

Foi uma bela noite para a dona do "Senhor Vinho", uma das vozes mais relevantes da canção de Lisboa.

Deixo aqui o seu clássico "Valeu a pena", a que ontem também tivemos direito.

domingo, maio 24, 2026

Um livro e uma mesa (9)


O livro de hoje é "A Cultura integral do indivíduo - Conferências e outros escritos", de Bento de Jesus Caraça, numa edição da Gradiva.

O restaurante fica na Ericeira e chama-se Tasca da Fonte Boa dos Nabos, com o tlf. 966 226 690.


Onde o sol é mais azul...


Em meados de Dezembro de 1972, um avião da Pan American, que vinha de Nova Iorque, não pôde aterrar em Lisboa, por virtude do nevoeiro. O destino europeu final do voo era Barcelona. Eu, tal como todos os passageiros que vinham nesse voo, acabei por ir aterrar nesse inesperado destino. 

Durante dois dias, Lisboa não "abriu" e, para irritação de muitos passageiros e indizível gozo de outros, como era o meu caso, que acabei por ter um prolongamento de férias pagas, por ali ficámos, alojados num belo hotel na costa do Mediterrâneo. 

Recordo-me de que, no grupo, vinha uma vedeta da música popular portuguesa, Gabriel Cardoso, intérprete de uma canção então muito "na berra", como na altura se dizia – "Ericeira". O cantor mostrava-se furioso com o imprevisto, que lhe alterava o calendário de espetáculos. Na precária familiaridade que essas circunstâncias às vezes proporcionam, eu e ele acabámos à conversa, no "hall" do hotel.

Três meses depois, fui para Mafra, junto à Ericeira, fazer o meu serviço militar. Obrigatório, bem entendido. Por um imenso bambúrrio, acabei por ter o privilégio de fazer parte de um grupo de "soldados-cadete" que, ao final das tardes, saídos da Escola Prática de Infantaria, ia para a Ericeira. Ocupávamos então a casa do Vasco Bramão Ramos (um abraço para ti, Vasco!), onde jogávamos à roleta e às cartas, além de treinar os testes militares, cujo sucesso dava a possibilidade de sermos autorizados a passar em casa o fim de semana. 

À época, eu era o único membro do grupo que, estranhamente conhecedor do "nacional-cançonetismo", sabia a música e a letra da canção "Ericeira", de Gabriel Cardoso. Ensinei-a aos restantes comparsas – éremos meia dúzia, com o Vasco, o António Franco, o Miguel Lobo Antunes e um Ribeiro de quem me escapa o primeiro nome– e que desde logo passou a ser o "hino" desses nossos momentos de lazer. 

A casa do Vasco tinha um terraço sobre a rua onde se preparavam uns deliciosos grelhados. Lembro-me de dali saudarmos, com distante ironia, os oficiais de Mafra que calhava passarem pela rua e que não podiam evitar que, do alto, nos exibíssemos em trajes civis. Pequenos prazeres desses tempos de "trabalhos forçados"...

Acontece que, no dia de hoje, estou pela Ericeira. Há pouco, acabei de passar ao lado da casa do Vasco. E, para surpresa de quem me acompanhava, dei comigo a trautear, pela rua: "Ericeira, onde o sol é mais azul / das belas belas praias do sul / de doirada e fina areia". Isto de colocar a Ericeira no sul, era bem próprio de alguém que era oriundo das ilhas, como o Gabriel Cardoso, que a sida levou deste mundo, vai para 26 anos. 

O pôr-do-sol do final da tarde de hoje era o da imagem, que foi tirada da vidraça do "Brisa", onde jantei.

sábado, maio 23, 2026

sexta-feira, maio 22, 2026

Escrevia Chirac em 2009

"Je ne suis pas de ceux qui pensent, en Occident, qu'on doit s'interdire tout dialogue avec l'Iran, étant donné la nature du régime. Un régime politique est une chose. L'histoire d'un peuple, de sa culture, de ses traditions, en est une autre, plus importante et determinante. Ma philosophie en la matière est qu'on n'a jamais intérêt, ou rarement, à mettre un pays hors jeu de la communauté internationale. Au lieu de le convaincre de rentrer dans le rang, c'est en général l'éffet inverse qui se produit: una radicalisation sans issue, de part et d'autre. S'agissant, qui plus est, d'une région du monde où tous les problèmes s'entremêlent, aucun d'eux, qu'il s'agisse du conflit israélo-palestinien, de la guerre Irak-Iran ou de la question libanaise, ne saurait être réglé sans tenir compte de toutes parties en présence."

Tradução:

"Não faço parte de quantos, no Ocidente, que pensam que se deve abdicar de qualquer diálogo com o Irão, dada a natureza do regime. Um regime político é uma coisa. A história de um povo, a sua cultura, as suas tradições, são outra, mais importante e determinante. A minha filosofia nesta matéria é que nunca é do nosso interesse, ou raramente, colocar um país fora da comunidade internacional. Em vez de o convencer a alinhar-se, o que geralmente acontece é o efeito inverso: uma radicalização sem saída, de ambas as partes. Tratando-se, além disso, de uma região do mundo onde todos os problemas se entrecruzam, nenhum deles — seja o conflito israelo-palestiniano, a guerra Irão-Iraque ou a questão libanesa — pode ser resolvido sem ter em conta todas as partes envolvidas."

Um livro e uma mesa (7)



O livro de hoje é "A Ucrânia e a Rússia - do Divórcio Incivilizado à Guerra Incivil", de Paul D'Anieri, ed. Relógio de Água, ed (act. 2023).

O restaurante é o "Fogo", na avenida Elias Garcia, 57, em Lisboa, com o tlf. 217 970 052.

"A Arte da Guerra"


Em "A Arte da Guerra", o podcast semanal do "Jornal Económico", converso com António Freitas de Sousa sobre a situação política em Espanha, após as eleições na Andaluzia e o surgimento de suspeitas sobre José Luís Zapatero, fazemos uma avaliação das cimeiras da China com os EUA e a Rússia e, finalmente, abordamos o estado das negociações para um acordo de paz na Ucrânia.

Pode ver aqui.

quinta-feira, maio 21, 2026

Um livro e uma mesa (6)


O livro de hoje é "Algoritmocracia - como a IA está a transformar as nossas Democracias", de Adolfo Mesquita Nunes, numa edição D. Quixote.

O restaurante é o "Noélia", em Cabanas de Tavira, com o tlf. 281 370 649.

quarta-feira, maio 20, 2026

Portimão, 5 de junho

 


Um livro e uma mesa (5)


O livro de hoje é "Irão - A Grande Estratégia . Uma História Política", de Vali Nasr, uma edição Contexto.

O restaurante é a "Casa Queiroz", em Avelãs do Caminho, com o tlf. 911 991 965.

Mesa Dois


A "Mesa Dois" do bar Procópio nunca foi apenas uma mesa. Por décadas, foi um "conceito", como agora dizem nos restaurantes que pretendem armar ao fino. Nos dias de hoje, sobrevive como mesa, mas, ao que se sabe, já não funciona como espaço regular de tertúlia.

Alguns dos antigos frequentadores continuam a frequentar-se. Há dias, organizaram um jantar durante o qual, imaginem!, nunca a expressão "Mesa Dois" foi referida. Aquilo é malta pouco dada a nostalgias.

Sem nostalgias, mas não sem interrogações. Fui agora descobrir que um poeta, que por lá era useiro e vezeiro, mas que se baldou ao tal jantar, se perguntava, há precisamente 20 anos, num "Poema para a Mesa Dois":

Ás vezes pergunto-me: onde estarão os da mesa 1?
Que pensaram todo este tempo, como nos viram viver, passar, jogar e perder?
E a mesa 3, alguém pensou na mesa 3? Aquela mulher de pele dourada, a saia mais curta cada noite, seria ela da mesa 3?
Ah, tudo o que nós perdemos por ser da mesa 2!
Dai-me uma nova mesa cada noite, uma promessa nesse olhar enternecido de whisky e tempo passado, uma palavra peregrina entre mesas e balcões! E então abandonarei o ponto de exclamação.

terça-feira, maio 19, 2026

Um livro e uma mesa (4)


O livro de hoje é "LX 90 – A Lisboa em que tudo é possível", de Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes, da D.Quixote. 

O restaurante é o "Larau", em Estremoz, com o tel. 268 094 904.

Latinos


Quando vivi em Luanda, nos anos 80, num tempo de relações muito frias entre Portugal e Angola, eram raros os membros do executivo do MPLA que privavam com diplomatas portugueses.

Por vezes, essa distância formal — ditada pela conjuntura política — dissolvia-se em jantares em casas de amigos comuns, onde quase sempre acabávamos a falar de coisas de Portugal, país que, no fundo, lhes estava muito mais próximo do que podiam confessar.

Foi assim que, numa certa noite, em casa do advogado Miguel Faria de Bastos — um amigo a quem deixo aqui um abraço saudoso —, acabei por conhecer uma determinada figura do governo angolano, à volta de uma mesa farta e de copos generosos.

Era um africano um pouco mais velho do que eu, que trabalhara algum tempo em Lisboa. Conversámos longamente e, a partir dessa noite, nasceu entre nós uma relação de forte cordialidade, que não ficaria muito distante da amizade e que se iria prolongar pelos anos fora.

Voltei a encontrá-lo várias vezes: de novo em Luanda, depois em Lisboa e em outras cidades do mundo. E, ao contrário da nossa primeira conversa, dominada por Lisboa, passámos a trocar sobretudo memórias de Luanda e de amigos comuns.

Um dia, numa capital europeia, a conversa entre nós, por uma qualquer razão, derivou para Moçambique. 

É um segredo mal guardado que, entre angolanos e moçambicanos, a corrente humana não passava então com facilidade — há várias leituras para o explicar, algumas de natureza histórica, e até é possível que as coisas já não sejam bem assim.

O meu conhecido especulou sobre a influência britânica no modo de ser dos povos urbanos da África oriental, que os tornaria mais fechados e formais — uma tendência que, em Moçambique, a proximidade com a África do Sul teria acentuado. 

Sublinhou, depois, o que considerou ser um contraste evidente com os povos da costa africana atlântica: mais expansivos, mais abertos, de relação humana mais imediata.

E acrescentou, com convicção e cumplicidade, mas sem a menor acrimónia: “Nós, os angolanos, estamos muito mais próximos dos portugueses do que os moçambicanos. Nós e vocês somos latinos. Eles são índicos."

segunda-feira, maio 18, 2026

Um livro e uma mesa (3)


O livro de hoje é "A Mais Bela Maldição – Histórias de Gente Apaixonada por Livros", de Rui Couceiro, uma edição recente da "Porto Editora".

Como restaurante, anoto o "Vallecula", em Valhelhas, não muito longe de Belmonte, com o tll. 962 778 111.

Os saudosos

Observando a triste reação do governo face ao legítimo exercício do direito à greve, só posso concluir aquilo de que sempre suspeitei: um se...