duas ou três coisas
notas pouco diárias de Francisco Seixas da Costa
quinta-feira, agosto 06, 2026
O João e as RIAs
Há dias, num daqueles encontros — uma espécie de “amigos de Alex” que vamos repetindo nesta fase da vida —, em que travamos conversas retrospetivas, já cheias de lacunas de memória em que nos compensamos mutuamente, vieram à baila os tempos da vida associativa universitária, antes da Revolução de Abril.
Creio que fui eu quem trouxe à conversa o nome de João Crisóstomo, a propósito das RIAs.
Para quem não saiba, o acrónimo RIA designava, em Portugal, no tempo das lutas académicas, as Reuniões Interassociações — encontros de dirigentes estudantis de várias faculdades, geralmente convocados para discutir “novas formas de luta”, naqueles tempos áureos em que os universitários se uniam em torno de reivindicações que iam muito para além das propinas e das praxes.
João Crisóstomo, que infelizmente já desapareceu há muito, era um dirigente associativo dos anos 1960 e 1970 e uma figura marcante para a minha geração académica. Representava o IES — Instituto de Estudos Sociais, uma escola que nascera no Ministério das Corporações e soubera evoluir até se transformar no ISCTE — que hoje é uma bela universidade que deliciosamente tanto irrita alguma direita da paróquia.
O João tinha um vozeirão tonitruante, que lhe saía da cara emoldurada por um bigode farfalhudo. O seu discurso era sempre pontuado por expressões criativas, que escapavam à linguagem estereotipada dos comícios associativos da época. Ouvi-lo era uma delícia. Ficou célebre — embora seja impublicável — um comentário que lançou durante um sit-in na Alameda da Cidade Universitária.
Lembro-me bem da primeira vez que conheci o João, numa reunião em que procurávamos desenhar uma estratégia comum para as escolas ligadas às Ciências Sociais, creio que em 1970 ou 71. Perante um comentário meu — talvez sugerindo alguma linha de ação —, despachou-me com uma frase definitiva:
— Deixa-te disso! Essa questão já foi discutida no IV Seminário!
A timidez de novato impediu-me de perguntar o que era esse “IV Seminário”. Passei, por isso, alguns dias a tentar perceber do que se tratava, recorrendo a caminhos tortuosos que não expusessem a minha ignorância. Vim finalmente a saber que a referência era ao IV Seminário de Estudos Associativos, que tinha tido lugar meses antes da minha chegada a Lisboa, uma iniciativa cujas conclusões acabaria mais tarde por obter. Deduzo, por pura lógica, que antes dele teriam ocorrido outros três seminários — cujo rasto nunca encontrei e que, confesso, já não tenho grande curiosidade em procurar.
João Crisóstomo era uma verdadeira enciclopédia do associativismo. Falava dos pormenores das lutas académicas anteriores com uma segurança e um conhecimento impressionantes, citando, com inesperada precisão, factos muito antigos a que, naturalmente, não tinha assistido.
Certa madrugada, numa sala de Económicas, no Quelhas, à margem de uma RIA, alguém lhe lançou uma pergunta provocatória:
— Ó João, diz lá uma coisa: afinal, estiveste ou não na greve de 1907, antes da implantação da República?
O João, já de si propenso a reações fortes, “passou-se” de vez, aconselhando o interlocutor a deslocar-se para um destino menos nobre. E por pouco qur não começaram a voar dossiês. Depois, tudo se reconciliou — também com a “ajuda” da polícia, que entretanto cercara a escola e nos obrigou a saltar o muro.
Belos tempos? Ora essa! Os tempos de ditadura podem ter sido excitantes, mas bons não foram. Ou, melhor dizendo: só tinham de bom o facto de sermos muito mais novos.
Os anti-MAGA
Não sei se são uma boa notícia para a América anti-Trump as vitórias de candidatos com uma imagem (eventualmente falsa ou exagerada) radical nos prélios pré-intercalares. Biden provou-o: só uma proposta democrática moderada consegue juntar setores capazes de derrotar o MAGA.
quarta-feira, agosto 05, 2026
Ah! Pois é!
O presidente da República é acusado por alguma direita (parte da qual teve de votar nele "by default") de não exigir a demissão do ministro da Administração Interna.
Pode-se imaginar o chinfrim que por ai iria se acaso ele tivesse forçado a saída do ministro da Educação.
Jogo eletrizante
O jogo era péssimo. O futebol daquele país estava longe de proporcionar grandes espetáculos e a transmissão televisiva, a preto e branco, feita com meios escassos e técnica ainda mais precária, era de uma pobreza confrangedora.
Ceuta e o aléo
Na crise que envolve Ceuta, falou-se da dificuldade de defesa daquele enclave. O problema não é de hoje.
terça-feira, agosto 04, 2026
Uma noite em Bragança
Foi há cerca de uma década. Era agosto e eu andava sozinho por Bragança, a descansar uns dias, com livros em atraso.
segunda-feira, agosto 03, 2026
Volta
Internacional Situacionista
Inteligência alheia
Nada tenho contra as pessoas poderem recorrer à IA para "polir" um seu texto. Já acho bem saloio, tomando-nos por parvos, que se ponham a filosofar com literatices sobre a vida, à boleia de qualquer "inteligência" alheia à sua. Ah! E convém que saibam que isso se descobre logo...
"Influencer 2"
Escrevi aqui uma coisa simples sobre o fenómeno dos "influencers". Ora, pelos vistos, na véspera, figuras dessa estirpe tinham estado num polémico debate televisivo. Não vejo televisão, não sabia! No entanto, recebi várias mensagens a ligarem o meu comentário ao debate. É a vida!
domingo, agosto 02, 2026
Os illuminati
Portugal, no fundo, não passa, como dizia o outro, de uma choldra, recheada de invejosos, de incapazes e de gente menor, tutelada por políticos incompetentes, que não estão à altura dos seus melhores — isto é, deles. Sentenciam com regularidade que a pátria a que, com desgosto, acabaram por ter de aportar (talvez porque ninguém lhes tenha dado atenção lá fora), afinal podia ser uma terra rica (como eles desesperadamente querem ser), não fosse a falta de ambição (que a eles não falta, claro) e a endémica relutância em absorver o salvífico receituário liberal — essa bíblia da verdade económica que, por uma incompreensível e endémica teimosia nacional, ainda não é hoje uma doutrina com a devida consagração constitucional.
Há um pormenor que os denuncia sempre: falam de economia com o mesmo sotaque com que, outrora, os adolescentes imitavam os primos emigrados. Um leve arrastar de vogais, uma pausa estratégica antes do inevitável termo técnico em inglês, como quem verifica se o auditório os está a conseguir acompanhar. Não é bilinguismo — é blindagem. Se dissessem o mesmo em português, a magia desaparecia, arriscavam ser compreendidos, e pior ainda, ser contestados.
Alguns, tendo passado uns anos em Londres, no INSEAD ou em Boston, regressaram convertidos, não em economistas, mas em missionários. E como todo o missionário, não vem discutir — vem revelar a verdade a quem, coitado, nunca teve acesso a ela. Para estes conversos, Portugal não é um país — é uma sala de espera onde o resto de nós aguarda, resignado, que alguém venha finalmente aplicar o que “lá fora” já se sabe. A palavra “lá fora” funciona como selo de autenticidade: não importa o quê, se veio de lá fora é evidência; se nasceu ou se pensou cá dentro, é opinião, quando muito.
A ironia mais deliciosa é que este discurso raramente é apresentado como o que é — uma posição ideológica entre várias outras — mas como diagnóstico técnico, quase clínico. “A economia manda”, dizem, como se a economia fosse uma força da natureza e não um conjunto de escolhas políticas com vencedores e vencidos bem identificados. E os vencidos, convenientemente, nunca são eles.
No fim, o retrato mais fiel destes repatriados (uma espécie de retornados de uma colonização estrangeira) não é o do blazer nem o do sotaque — é o da certeza. A certeza de que existe uma resposta única, já testada algures, que só falta um país inteiro ter o bom senso de aplicar. Falta-lhes, a eles, a humildade de perguntar por que motivo, apesar de décadas de conselhos idênticos vindos de gente igualmente convicta, o receituário continua por aprovar, no referendo permanente que é a vida democrática de um país que é livre para discordar.
Hora bem!
Muito bem!
Luís Montenegro e Paulo Rangel estiveram muito bem ao decidirem não juntar o nome de Portugal a uma carta subscrita por um conjunto de países europeus, reveladora de uma triste falta de solidariedade com a emergência migratória que atingiu a Espanha.
"Influencer"
Imagino que não seja muito popular estar a dizer isto, mas quero afirmar, alto e bom som, que detesto o conceito de "influencer" e que tenho a maior pena (e isto é um "understatement") por quem se deixa "influenciar" por aquelas pessoas. Mas, pronto!, cada um sabe de si.
sábado, agosto 01, 2026
Discriminação ibérica
Por que será que o ódio obsessivo da direita portuguesa a Pedro Sánchez, uma vez mais disciplinadamente ao lado do PP e do Vox na crise de Ceuta, parece não ter o menor contraponto em qualquer atitude da esquerda espanhola, que dá ideia de nem saber o nome de Luís Montenegro?
Graça Morais
Alexandre Pomar escreveu isto que eu, se soubesse escrever o que ele escreveu, gostaria de ter escrito.
É isto mesmo!
Um beijo, Graça.
FIFA
Infantino foi forçado a desistir do projeto de privatização da FIFA. Agora, resta saber se o desgaste que a ideia provocou na sua imagem será suficiente para vir a afastá-lo da liderança da FIFA. "À suivre".
sexta-feira, julho 31, 2026
Na montra
O caráter (ou a falta dele) de certas pessoas revela-se bem pelo modo como, em lugar de afirmarem solidariedade, procuram retirar efeitos políticos da emergência migratória que a Espanha atravessa em Ceuta.
quinta-feira, julho 30, 2026
Foi penalti?
Tenho dado por mim a pensar que as senhoras que, nas televisões, comentam os jogos de futebol e discutem o tema em debates devem ser extremamente qualificadas. É que, se acaso o não fossem, no ambiente machista que se vive no futebol, a sua vida não devia ser fácil.
Tudo está bem...
Que chatice, não é?
É minha impressão ou há muita gente à direita que tinha a esperança de se ver livre de Luís Neves e que agora parece desapontada pelo facto de, aparentemente, ele ter conseguido desarmadilhar o imbróglio em que se tinha deixado cair?
Geração 40
Jean Quatremer
Quem tenha passado algum tempo pelos corredores de Bruxelas conhece Jean Quatremer. Durante décadas, foi o correspondente do "Libération" junto das instituições europeias. Num meio relativamente pequeno, onde os jornalistas especializados nos assuntos comunitários acabam por formar uma espécie de tribo, Quatremer era uma figura incontornável. Tinha informação, conhecia os mecanismos, percebia os jogos de influência e escrevia com autoridade. Tinha um estilo muito próprio, muito vivo e um "boyish look" que era uma imagem de marca que nem o tempo apagou em definitivo.
quarta-feira, julho 29, 2026
"A Arte da Guerra"
Se tiver interesse, pode ver aqui.
Se não lhe apetecer, amigos como dantes, com votos de que tenha muito boas férias.
terça-feira, julho 28, 2026
A dignidade da República
O incidente na sala de um partido na Assembleia da República não é um "fait-divers". Sem a menor ironia, acho aquilo gravíssimo.
Se o secretismo de uma força política foi violado, dentro da casa da democracia, tratou-se de um atentado à República.
Se acaso foi uma encenação, o país político não pode deixar de retirar consequências.
Acabar tudo "em águas de bacalhau" é que não! Se tal viesse a acontecer, isso significaria que as instituições já não se levavam a sério.
segunda-feira, julho 27, 2026
O 1° governo constitucional fez meio século
domingo, julho 26, 2026
sábado, julho 25, 2026
Jornalismos
A conversa, moderada por Maria Flor Pedroso, reuniu no Clube dos Jornalistas três profissionais da área do jornalismo, ao final da tarde da passada quinta‑feira. O encontro, que vem na sequência de outros, revelou‑se interessante: profissionais a refletirem, com candura e frontalidade, à luz da sua diversa experiência, sobre o modo como as mutações tecnológicas e culturais estão a reconfigurar o seu ofício.
sexta-feira, julho 24, 2026
Comemorações nacionais?
Serei eu quem está enganado ou seria natural que a posse da pessoa encarregada das comemorações nacionais da datas fundacionais do país fosse uma cerimónia com uma alargada presença política? Olhando a assistência, fica a ideia de uma quase "conversa em família". Não foi bonito.
É só uma sugestão...
Houve algum MAI reconhecidamente exemplar? Houve. Assim, acho que tudo recomenda a que venha a ser testado num lugar um pouco mais acima.
Domingos Simões Pereira
Não faço parte de quantos têm uma endémica compulsão — que sempre achei uma forma de paternalismo pós-colonial — que os leva a estar sempre a "mandar bitaites" sobre a vida política interna das antigas colónias portuguesas, mesmo que por razões alegadamente afetivas, salvo naquilo que o nosso relacionamento bilateral torne imperativo.
A alegria das tascas
No Reino Unido, Andy Burnham decidiu baixar os custos fiscais que impendem sobre os "pubs". Não deve tardar muito até que, por cá, um conhecido líder do pessoal da conversa de tasca venha a emulá-lo com uma proposta idêntica, para dar um bónus etílico ao seu eleitorado.
Fragilidade
Para uma população como a da Rússia, que sempre olhou o poder político à luz da capacidade de proteção perante o exterior, as flagelações diárias por drones ucranianos devem estar a induzir uma estranha sensação de fragilidade, com seguro impacto na imagem de Putin.
quinta-feira, julho 23, 2026
Hortaliças de Estado
Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, secretário de Estado dos Assuntos Europeus, alto representante da União Europeia para a Bósnia-Herzegovina, deputado europeu. Chefiou o grupo que viria a ficar conhecido pelo seu nome — o “grupo Westendorp” —, criado em 1995 para preparar propostas de alteração ao Tratado de Maastricht. Foi também embaixador de Espanha em Washington e junto das instituições europeias. Uma carreira cheia e prestigiada.
quarta-feira, julho 22, 2026
Tempus fugit
Condecorações
Tal como sucedeu nos nomes escolhidos para o Conselho de Estado, António José Seguro revelou excelente equilíbrio e sentido de Estado nas nomeações que fez para os Conselhos das Ordens Honoríficas portuguesas. Os nomes de Guilherme d’Oliveira Martins, Nunes Liberato e Graça Freitas são a garantia de juízos ponderados e responsáveis nas propostas de atribuição das distinções pelo chefe do Estado.
Luís Represas
Carol
terça-feira, julho 21, 2026
Seguro segura-se?
É interessante constatar como a crise que envolve dois ministros funciona como um teste ao presidente da República, para avaliar o grau de crítica pública que ele está disposto a assumir. Depois do surpreendente intervencionismo nas intempéries, Seguro será agora mais timorato?
Jorge Martins
Foi há um quarto de século que conheci pessoalmente Jorge Martins, um pintor cuja obra ja admirava. Com o meu colega José Guilherme Stichini Vilela, fui ao atelier em Campo de Ourique ver um óleo seu que o MNE ia adquirir para a residência da nossa missão na ONU, onde eu iria viver dias depois. À distância, já não me recordo se tive alguma palavra a dizer quanto ao quadro que foi escolhido, mas julgo que sim, sem o que não teria sentido a minha deslocação. Tinha-me voluntariado para levar a pintura no transporte da minha bagagem para Nova Iorque. Instalei-a quando ali cheguei e ficou lindamente na principal sala, onde creio que permanece.
A magnífica pintura de Jorge Martins respira hoje muito bem no torreão da Cordoaria, onde convivem tempos distintos do seu percurso artístico. Aconselho vivamente uma visita. Estará por lá todo o mês de agosto.
segunda-feira, julho 20, 2026
O momento Sanjo
Remate final
Num Mundial de futebol cheio de polémica, aliás justificada, é muito positivo que o vencedor, a uma clara distância, tenha sido a melhor equipa na final. A Espanha foi um justo vencedor. Trump não deve ter gostado.
Do diálogo democrático
domingo, julho 19, 2026
Portas
Folheei-o duas ou três vezes. Depois arrumei-o tão criteriosamente na estante que nunca mais lhe pus a vista em cima — um talento que fui aperfeiçoando ao longo dos anos: esconder livros de mim próprio com uma eficácia que faria inveja a qualquer serviço secreto.
Hoje, ao olhar para esta fotografia que há pouco tirei numa rua de Lisboa, apeteceu-me relê-lo. Tenho a sensação de que teria muito a dizer sobre esta porta, que parece ter desistido de guardar segredos e resolvido abrir-se ao mundo da forma mais dramática possível.
Procurei o livro e não apareceu.
Sendo assim, vou ver a bola. Há portas que não se abrem e livros que não se encontram. O futebol, esse, começa à hora marcada.
Alerta
Mas não é que têm razão? Há pouco, descobri esta subliminar infiltração do Bloco numa caixa de ventilação.
Cuidado! Eles estão em toda a parte!
Bola podre
A aparente quase unanimidade que parece existir em torno da reeleição do atual presidente da FIFA — depois do seu vergonhoso comportamento durante o Mundial — revela bem afinal o que é o mundo do futebol internacional. Quase que se podia dizer: volta, Blatter, estás perdoado!
Geografia de chuteiras
Dizer-se ao mundo que a final do Mundial de futebol teve lugar em Nova Iorque, quando na realidade teve lugar em Nova Jersei, é mais uma daquelas pequenas vigaricezinhas da FIFA.
Comentários
Recordo que, desde há vários meses, este blogue deixou de acolher comentários.
Contudo, continua a ser possível consultar os comentários inseridos desde 2009. Eles fazem parte integrante da história do "Duas ou Três Coisas".
O lado certo da droga
sábado, julho 18, 2026
Poluição
O Presidente da República impõe a ausência de telemóveis em determinadas reuniões no Palácio de Belém. Ora aqui está uma bela medida no combate a um certo tipo de poluição.
Guerra Civil
Liturgias cidadãs
É positivo que as pessoas sigam o hábito de se levantarem à chegada do Presidente da República a uma cerimónia pública. As liturgias da República são um gesto de respeito pela coletividade, ali simbolizada pelo Chefe do Estado.

































