segunda-feira, agosto 08, 2022

Poemas

A propósito da morte da escritora Ana Luísa Amaral, notou-se o cuidado da imprensa em qualificá-la de “poeta” e não de “poetisa”. Acho, em absoluto, ridícula esta tendência recente de fugir ao uso da palavra “poetisa”, como se ela pudesse ofender a qualidade literária de uma mulher que escreve poemas.

domingo, agosto 07, 2022

O meu clube


Sou adepto de um clube que, pelos vistos, só ganha quando deus quiser. Mas deus, sabe-se lá porquê, tem sido avaro, nas últimas décadas, nas divinas graças que nos tem concedido, em termos daquilo que celestialmente importa, isto é, os pontos. Por isso, já dei comigo a pensar que, se calhar, devíamos era ser ateus. Era o que deus merecia, a portar-se como se tem portado. É verdade que, em tempos que já lá vão, nestas contas da bola, já nos chegou a caber a parte de leão. Mas esses foram outros tempos, de que muitos já nem se lembram. Agora, a cada ano que passa, noto que o meu clube (se aos outros isso também acontece, é-me indiferente) tem diversos inícios de época. Às vezes, começa muito bem, abre risonhas esperanças e cava (diz-se assim, não é?) diferenças pontuais. E nós começamos a esfregar as mãos. Outras vezes, vamos andando mais ou menos a par dos nossos dois adversários históricos. (Por muito que, nas últimas décadas, eles olhem mais um para o outro e um pouco menos para nós. Porém, como se tem notado, quando lhes ganhamos, eles irritam-se imenso, o que é ótimo e só mostra que, afinal, as coisas não são bem assim como as pintam). Ao longo do campeonato, quase sempre, a diferença de pontos entre nós e esses tais dois não é, em regra, muito marcada mas, no dia do juízo final, isto é, no final da época, quase sempre constatamos que ficamos com menos pontos do que um ou do que outro. Mesmo de ambos, em anos maus. Às vezes, essa diferença é pequena, por exemplo, apenas dois pontos, mas que são suficientes para não ficarmos à frente deles. Como os dois pontos que hoje perdemos em Braga. É assim o meu clube. Mas, diga eu o que dele disser, não se enganem: não quero outro, principalmente nenhum desses tais dois. Credo!

Bletchley Park


Nesta madrugada, deu-me para ler algumas páginas da biografia de Winston Churchill, de Martin Gilbert. Vi o livro em casa de uns amigos onde fui jantar e pedi-o de empréstimo, para verificar uns factos. (Não obstante ter trazido bastantes livros para férias, não resisti a pedir mais um de empréstimo!)

Na obra, nos capítulos que me interessavam, constatei que surgem várias menções a Bletchley Park, o mítico local onde, durante a Segunda Guerra Mundial, funcionou uma celebrada estrutura de descriptagem das mensagens alemãs, que terá dado um importante contributo para a vitória aliada. O local, dependente do famoso MI5 (serviço de contraespionagem), manteve-se fechado durante décadas.

Um dia de 1994, quando estava colocado na nossa embaixada em Londres, li anunciado, numa discreta notícia num jornal, que, a partir desse fim de semana, Bletchley Park passava a ser visitável. Dias depois, lá fomos nós.

Bletchley Park fica a umas dezenas de quilómetros de Londres, a sul de Milton Keynes. À entrada da propriedade, fomos informados de que o espaço, infelizmente, não era ainda visitável. Dei da conta da minha estranheza: via algumas outras pessoas a entrar e não percebia por que razão nós não podíamos integrar esse grupo. Expliquei que era diplomata português, que vira a notícia da abertura na imprensa e que, precisamente por isso, tínhamos vindo expressamente de Londres.

Notei algum embaraço no pessoal da portaria. Um deles chegou a dizer que a abertura ainda não era para o “público em geral”. Fiquei intrigado e mantive a minha insistência. Depois de minutos de parlamentação e de alguns contactos telefónicos que vi fazerem, autorizaram-nos a entrar, num registo que me pareceu ser de alguma exceção.

Fomos integrados num grupo de menos de duas dezenas de pessoas. Não havia, disseram, qualquer custo de ingresso. Como, em Inglaterra, se paga para entrar em qualquer sítio, tudo aquilo soava a estranho. Mas lá fomos. A visita foi extremamente interessante, com uma guia que nada tinha de profissional de turismo e, claramente, conhecia o assunto da casa em grande profundidade.

Ficou evidente que, tal como a notícia do jornal referia, aquele era, de facto, o primeiro dia, desde a Segunda Guerra, em que o local era visitável. Nós estávamos radiantes por ter tido aquela experiência, tanto mais que, visivelmente, éramos os únicos estrangeiros no grupo.

Tínhamos notado, aliás, da parte dos restantes visitantes, alguma curiosidade a nosso respeito. No caminho da saída, um casal, não resistindo a essa curiosidade, perguntou-nos: "What's your link with the British intelligence community?" Expliquei que não tínhamos a mais leve relação com os serviços de informações britânicos (nem portugueses, já agora!) e expliquei que era apenas um diplomata português colocado no Reino Unido, ali movido por um interesse histórico.

Os nossos interlocutores mostraram então o seu espanto: é que, tanto quanto tinham sido informados, no primeiro mês, o acesso a Bletchley Park estava exclusivamente reservado a membros dos "British special services", e respetivas famílias, como, confessaram, era o seu caso.

Sem o sabermos, pela nossa teimosa insistência, somada à simpatia de quem nos acolheu, tínhamos “infiltrado” um grupo de gente ligada ao MI 5, a contraespionagem britânica. Ele há cada coisa na vida!

Ao ver, às vezes, documentários ou obras de ficção assentes na história do local, vem-me à memória essa visita. Constato que, nos dias de hoje, Bletchley Park é uma atração bem acessível, como se pode ver aqui: https://bletchleypark.org.uk/see-do/explore/

De Cabinda ao Cunene

A vida política angolana dava um filme: dois candidatos e um funeral.

sábado, agosto 06, 2022

“Nazdarovya”

A Rússia teve a sua melhor semana, desde há meses, independentemente da imensa mossa que os Himars começam a fazer no terreno. Mas ver a China de completas cadeias às avessas com os EUA e Erdogan a fazer rapapé a Putin em Sochi justificará ouvir-se ”nazdarovya” no Kremlin.

Orbán

A ida de Orbán à América de Trump revela que ele se está a posicionar para uns EUA de ascendente republicano, no pós-Biden. A Europa, quer queira quer não, vai ter de aturar e de ouvir falar muito do autocrata de Budapeste.

Leiam!

O artigo de Bárbara Reis no Público de hoje, devia ser de leitura obrigatória. O combate ao racismo não se faz com chavões académicos para absolver más consciências históricas, faz-se denunciando atos concretos e reclamando a responsabilização de quem os pratica.

Foi uma bela ideia!


Estávamos na primeira metade de 2000, ao tempo da segunda presidência portuguesa da União Europeia. 

Cabia-me, por essa altura, em substituição de Jaime Gama, chefiar, por parte da União, uma reunião em Bruxelas com uma delegação da Moldova (ou Moldávia, como alguns “tintinólogos” gostam), no quadro do diálogo com aquela antiga República da União Soviética, nos dias de hoje também candidata a uma futura adesão - porque ou há moralidade ou comem todos!

A Moldova é um país política e economicamente frágil, situado entre a Roménia e a Ucrânia. Da Moldova cindiu-se, há muito, a região da Transnístria, um território pró-russo onde existe uma base militar que Moscovo tem encontrado sucessivos pretextos para não abandonar, desde o fim da União Soviética. A Transnístria, que ambiciona ser reconhecida como uma República independente, parece estar à espera de poder um dia ser integrada na Federação Russa - o que poderia acontecer se a “operação militar especial” que Moscovo leva a cabo na Ucrânia conseguisse expandir-se ao ponto de ali chegar. De Odessa à fronteira da Moldova são menos de 60 km! Entre a Moldova e a Transnístria mantem-se um permanente ambiente de tensão política, embora sem afloramentos militares recentes, com a primeira nunca reconciliada com a ideia de perder, em definitivo, o controlo da segunda.

A chefia da delegação moldava a essa reunião era assegurada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Nicolae Tabacaru, um homem muito agradável e cordial, com quem, já não sei bem como, quando e porquê, eu tinha estabelecido uma muito boa relação pessoal anterior.

Semanas antes dessa reunião em Bruxelas, Nicolae Tabacaru contactou-me, fazendo um pedido: gostava que o vinho que viesse a ser servido durante o almoço, aquando desse encontro entre a União Europeia e a Moldova, fosse “da sua colheita familiar”. Era, disse-me, uma forma de demonstrar o seu reconhecimento pela abertura que a União vinha a demonstrar face ao seu país. Ao mesmo tempo, era também um modo de promover “o excelente vinho moldavo”.

A ideia pareceu-me aceitável e, por um mecanismo logístico que se montou já nem sei como, a embaixada da Moldova fez chegar uma partida desse vinho ao edifício Justus Lipsius, onde funciona o Conselho de Ministros da União, a montante da reunião.

Em regra, os almoços na sala do andar de topo do edifício (7° andar, se a memória não me falha) tinham uma qualidade razoável, embora não primassem pela imaginação e diversidade. Para os membros dos governos, que chegavam das capitais, era uma experiência de quando em quando, mas, para os embaixadores dos então Quinze, aquilo devia ser uma imensa “seca”. O vinho servido, às vezes originário do país detentor da presidência rotativa (mas duvido que os finlandeses ousassem ir além da vodka!) era, recordo, quase semprevde uma qualidade bastante razoável, embora nunca deslumbrante, por assumida modéstia orçamental.

Durante a manhã, Tabacaru e eu tínhamos conduzido os trabalhos na forma ritual. Este tipo de encontros obedece a um modelo “standard” e, salvo na ocorrência de questões pontuais, corre com uma suave linearidade. Acabada a reunião, convidei-o a acompanhar-me, pelo elevador, ao local do almoço. Agradeci-lhe o amável gesto de ter oferecido o vinho para a ocasião. Tabacaru estava radiante: ia ser uma oportunidade para a União, através dos seus embaixadores, experimentar o tal “excelente vinho moldavo”, ainda por cima da sua tal “colheita familiar”.

Sentados para o repasto, abri com um brinde, durante o qual, para além das tradicionais palavras sobre a “importância das relações entre a Moldova e a União Europeia”, tenho a certeza de ter destacado o facto do nosso hóspede ter tido a gentileza de nos trazer o vinho do seu país, o que talvez fosse inédito numa ocasião daquele género (ou talvez não).

Ainda tenho na imagem a vistosa entrada dos empregados de mesa - que sempre acho que eram italianos, mas devo estar a caricaturar - avançando, com estilo, para a meia dúzia de mesas espalhadas pela sala, levando na mão garrafas sem rótulo, cujo conteúdo foram deixando nos copos, criando uma imensa expetativa.

Os segundos seguintes, porém, foram mais inesquecíveis: os esgares de desgosto, logo ao primeiro trago, daqueles diplomatas “chevronés”, mirando-se uns aos outros, incrédulos, constituiu um momento único. O vinho era, sejamos claros, uma inenarrável zurrapa! 

Tabacaru, em frente a mim, fitava-me, sorridente, desejoso de recolher a minha opinião. Muitos anos de profissão ensinaram-me a cultivar, para os momentos certos, uma apreciável dose de hipocrisia amável: “C’est un saveur plutôt intéressant. Ce sont des cépages nationales?” 

Enquanto Tabacaru me explicava, em detalhe, a feitura do néctar, com as notas da tradição familiar, eu olhava, em cumplicidade de desespero, o nosso embaixador, Vasco Valente, que já devia estar a antecipar o que o esperaria, quando, no final da refeição, tivesse de aturar os comentários dos colegas, sobre a “brilhante” ideia que eu tivera em deixar trazer aquela pisorga para a a mesa. Basta pensar no que terá dito o francês Pierre de Boissieu! Eu, durante semanas, ainda aturei algumas graças: “Francisco, tu sais où on peut acheter quelques bouteilles de la production de ton ami moldave?”

Contudo, as restantes mesas ainda podiam remediar a tragédia, notando-se uma coreografia apressada pela sala, por forma a garantir o rápido fornecimento de um outro vinho. Na nossa mesa, isso era impossível: até ao final da refeição, sob o olhar deliciado do meu amigo Nicolae Tabacaru, tivemos de manter, com o garbo possível, o gasto, imagino que tão moderado quando a cerimónia o permitia, de alguns copos daquela intragável produção. Quantas garrafas de água Perrier não teremos pedido, para atenuar o nefasto efeito gástrico da mistura…

sexta-feira, agosto 05, 2022

Jô Soares


Para um Portugal que, por muito tempo, em televisão, se tinha habItuado a ter, do humor brasileiro, a imagem de Badaró e pouco mais, ver surgir Jô Soares foi um imenso bálsamo, que nos obrigou mesmo a procurar um conjunto de referências novas sobre o Brasil. Foi, por exemplo, com ele que “vimos”, antes de os ver, os olhos de Bruna Lombardi e que percebemos que, às vezes, “tem pai que é cego”…

Curiosamente, Jô Soares, que parece que morreu hoje, faz parte daquelas figuras que, no passado, já “tinham morrido”, por diversas vezes, na boataria das redes sociais. Foi, por isso, com alguma cautela que aceitei a notícia. 

Jô Soares era uma figura intectualmente curiosa. Tinha, além disso, uma escrita limpa e ritmada, que o levou a ser escolhido para a Academia Brasileira de Letras, saga sobre a qual escreveu um divertido livro. 

Um pouco como aconteceu por cá com Herman José, Jô Soares foi abandonando a escrita de humor e caiu na rotina, menos criativa, dos “talk shows”, com entrevistas mais ou menos interessantes, dependendo do convidado.

Calhou-me na rifa ser um deles. Quando era embaixador no Brasil, convidou-me para ser entrevistado no seu programa, um dos mais vistos de toda a TV brasileira.

A conversa foi bastante simpática, com referências ao amigo comum que era Raul Solnado. Falámos da vida diplomática, do 25 de Abril, de dom João VI e, inevitavelmente, das diferenças entre o português do Brasil e de Portugal. Com notas dele ao nosso "sotaque", claro. E também por lá se falou da sua paixão pela obra de Fernando Pessoa.

Para mim, o momento mais delicado do programa foi quando Jô Soares puxou a conversa para uma velha anedota sobre Salazar e Américo Tomás, hipoteticamente passada no hospital onde o primeiro esteve internado após a sua queda, uma historieta em que supostamente intervem o médico americano que tratou o ditador. Jô Soares procurou a minha ajuda para completar a anedota, a qual, aliás, é algo cruel. Não lhe dei "saída", fingindo que não me lembrava. Certo ou errado, entendi que, como embaixador de Portugal, não me ficava bem colaborar no apoucamento, perante um auditório estrangeiro, de figuras de Estado portuguesas, por mais detestáveis que elas pudessem ter sido, como evidentemente era o caso. E foi assim que, numa entrevista em que se procurou fazer graça, acabei por ficar aquilo que se pode dizer, desta vez com propriedade, um pouco ”sem graça".

Dos fusos


Anda aí uma malta a queixar-se de que, na praia deles, as manhãs acordam muito enevoeiradas. Acontece que, em todos os meus dias de férias, quando me levantei, o sol brilhava a bom brilhar. Pelo que o defeito deve ser meu, que oriento as horas dos dias pelo fuso de Caracas.

quinta-feira, agosto 04, 2022

Contrastes


O Eça dizia, num dos seus raros (e injustos) momentos de modéstia: “Sou um pobre homem da Póvoa de Varzim” (Eça nunca escrevia, como alguns fazem, “do Varzim”). Façamos de conta que, em lugar do nascimento, ele se referia à praia.

Ao passar, há pouco, de raspão, pela Comporta, e para efeitos de férias, pensei: “Sou um pobre homem de Soltróia”. 

Deixo a imagem do final de tarde deste lugar, sem um glamour comparável com aqueloutro, mas onde (não espalhem muito, está bem?) se está muito bem.

“A Arte da Guerra”


Conversa com o jornalista António Freitas de Sousa, no podcast do Jornal Económico, sobre os aspetos mais salientes da guerra na Ucrânia, as repercussões da ida de Nancy Pelosi a Taiwan e o cenário pré-eleitoral na Itália. 

Pode ver clicando aqui.

Da gravata e do seu uso


Começa a ser patente uma crescente desabituação no uso da gravata. Nota-se isso em alguns contextos profissionais onde, há poucos anos, tal era impensável. A indústria do adereço estará mesmo a declinar, um pouco por todo o mundo. Não por minha causa: continuo, ainda que só de quando em quando, a comprar gravatas, a somar às largas (mesmo muito largas) dezenas que há lá por casa (ofereci um número considerável, há tempos, à portaria do Círculo Eça de Queiroz, local onde o uso da gravata continua a ser imperativo - e acho muito bem!) Gosto de usar gravatas, embora, cada vez mais, apenas quando me apetece.

Há mais de duas décadas, em Chipre (e não “no Chipre”, porque também não se diz “na Malta”…), numa conversa com um ministro, ele fez-me uma curiosa revelação. Nos anos 60, depois de independência do país, tinha ali sido introduzida oficialmente a dispensa do uso da gravata. A justificação dada para a adoção dessa moda “levantina” seria o clima local, embora também pudesse haver, por detrás da decisão, a assunção de um subliminar contraste com o formalismo da anterior administração britânica. Mas a nota mais interessante, para justificar o facto de então estarmos a ter essa conversa de fato e gravata, foi a de que tinha sido a posterior generalização do ar condicionado nos escritórios que tinha levado à retoma de um maior formalismo no traje.

Em inícios de 2012, logo após eu ter assumido funções na Unesco, acumulando com a chefia da embaixada em Paris, a ministra que tinha a seu cargo o Ambiente e a Energia, Assunção Cristas, pediu para me ver, por razões de serviço. Dias antes, a imprensa tinha dado grande destaque à instrução da ministra, tida por insólita, de dispensar, nas instalações do seu ministério, o uso da gravata, por razões de poupança energética. Recordo-me de nem me passar pela cabeça não ir de gravata e de lhe ter perguntado, logo à entrada na reunião, a brincar, se “não levava a mal” que eu o fizesse. Ela riu-se, claro.

Há dias, vi a notícia de que o presidente do governo espanhol (é este, por ali, o nome dado ao cargo de primeiro-ministro) tomou a decisão de abolir oficialmente o uso da gravata, não percebi bem em que âmbitos. No fundo, acaba por ser uma vingança póstuma de Pablo Iglesias, antigo líder do Podemos (e, vá lá!, também do desaparecido Tsipras, do Syrisa, grego como os de Nicosia).

O “infamous” governo a que a ministra Assunção Cristas então pertencia pode ter tido todos os defeitos do mundo (se não tinha todos, esteve lá perto!), mas há que creditar-lhe, com justiça, alguma presciência na medida que a ministra então tomou - há mais de uma década, caramba!

Esquadrilha

Quando as coisas começam a descarrilar, vai tudo “a eito”, diz-se na minha terra. É a Ucrânia, reemergem o Kosovo e o Nagorno-Karabakh, Taiwan é o que é. Como se vê, continua válida a sugestiva imagem aeronáutica de Jacques Chirac: "Les emmerdes, ça vole toujours en escadrille..."

quarta-feira, agosto 03, 2022

Black sauce

 


Imagino que possa ser um pouco estranho, para quem aqui me lê regularmente a falar de restaurantes e de academias gastronómicas, ouvir esta singela confissão: não sei estrelar um ovo! A cozinha é uma realidade “que não me assiste”, como alguns dizem, salvo como utente do ”output” de quem por lá opera. Não vou discutir nem elaborar sobre isto, peço apenas que tomem nota, antes de lerem o que vem a seguir.

Há já muitos anos, mas com uma idade em que os anos não eram muitos, numa determinada cidade do mundo onde vivia, num grupo de casais, diplomatas de vários países, surgiu uma ideia: e se as nossas mulheres, em lugar de estarem encafuadas nas cozinhas antes dos jantares, fossem brindadas, uma vez por mês, com uma refeição preparada exclusivamente por nós, pelos maridos? Elas ficariam na sala, bebendo uns copos, que também partilharíamos e, chegada a hora, seriam servidas de um repasto da nossa responsabilidade, a que, claro, nos juntaríamos. Se bem me recordo, os maridos eram quatro: um americano, um norueguês, um francês e eu. Rotativamente, caber-nos-ia uma das quatro funções: preparar bebidas e com elas uns amuse-bouche, uma entrada, o prato principal e a sobremesa. 

A ideia, que já não sei de quem foi, foi acolhida com imenso júbilo. Por todos? Não. Eu, sob o olhar divertido da minha mulher, entrei em pânico e com um sorriso amarelo, avancei com a dúvida de que poderia não estar à altura do desafio. Todos acharam que eu exagerava! Às tantas, até eu! E passou-se a vias de facto, logo se estabelecendo um calendário para os meses seguintes. 

Nos três primeiros meses, num slalom de pretextos, fui adiando a vez em que me competia a execução do prato principal. Sei que, entretanto, me safei bem nas bebidas (era só o que faltava!), inventei um dia uma salada tida por aceitável para entrada (tirada de uns magníficos livros ilustrados da Time-Life que a minha mulher colecionava) e já não recordo o que fiz de sobremesa (conhecendo-me, imagino que uma “laboriosa” salada de frutas). 

Um dia, chegou a vez em que me cabia a execução do “plat de résistence”. Era uma carne, ao que retive. Na véspera, como que para um exame, fechei-me a ler a Maria de Lourdes Modesto, cruzei dados com mais dois ou três livros de cozinha que havia lá por casa e tomei imensos apontamentos.

Aquilo metia batatas, arroz e legumes, numa complexidade cumulativa que me parecia impossível de acompanhar, pela ubiquidade de tarefas que implicava. Era-me dificil entender como se podiam fazer tantas coisas ao mesmo tempo! Pendurado com fita-cola no exaustor, tinha montado um “horário”, de acordo com os ensinamentos do livro, com os minutos exatos para cada procedimento, que tentava seguir com precisão, numa contagem decrescente até à hora de chegada das coisas à mesa. 

Os meus colegas, com as outras tarefas a seu cargo, estavam impedidos de me ajudar, a minha mulher estava refastelada na sala, à conversa com as amigas, imagino que temendo o pior. Eu suava em bica - aprendi então que faz um calor terrível nas cozinhas, coisa de que, até então, só suspeitava, quando por lá passava para ir buscar gelo para o whisky -, estado físico apenas atenuado por um bom tinto, cuja garrafa desviara e cujo consumo, a pouco e pouco, embora me tivesse descontraído, terá acabado por afetar, no rigor, o meu angustiado trabalho. 

“To make a long story short”, no meio de toda aquela azáfama, para mim em absoluto inédita, houve um molho que, quiçá por excesso de tempo de fervura, ficou negro que nem um tição e tinha um travo de leitura gustativa bastante complexa. Recordo, para sempre, que a chegada do produto à mesa foi “saudada” com uma unanimidade de apreciação embaraçante. (A carne parece que estava comestível, dizem).

Durante meses, com estoicismo e fazendo orelhas moucas, senti espalhar-se pelos círculos diplomáticos dessa capital, muito para além do nosso, então já propalado, “grupo dos cozinheiros”, a referência a uma tal “Chico’s black sauce”, de que se diziam “maravilhas”… Felizmente, acabei por ser transfererido de posto diplomático antes de me calhar outra vez a execução de um prato principal. Não sei se teria convivas!

Lembrei-me disto ontem, ao notar a arte com que um outro Chico, emérito fazedor de iguarias, se movimentava, com calma olímpica, entre a cozinha, um grelhador no jardim e a sala onde estávamos, parecendo ter tempo para tudo, produzindo, no final, um magnífico e muito variado jantar para um considerável grupo de pessoas. Ando cá a pensar se, um destes dias, lhe passo ou não a receita da minha “Chico’s black sauce”…

terça-feira, agosto 02, 2022

Mundos & fundos

Não desejo o fim dos fundos europeus. Contribuí bastante para obter e aumentar alguns deles. Contudo, sempre alimentei o sonho de vir a ser cidadão de um país que, um dia, ficasse “descolonizado” dos cíclicos “2020s” e conseguisse finalmente viver por si, sem essas “mesadas”.

Transexuais

O debate recente tem trazido justa evidência à questão dos direitos das pessoas transexuais. É um salto cultural importante na consciência da sociedade portuguesa. Não me pareceu, contudo, que tivesse ficado claro um dado: de que universo quantitativo de pessoas estamos a falar?

Ar mesmo condicionado


Numa destas noites de intenso calor, lembrei-me do episódio, passado em inícios de 1986.

O meu colega Paulo Castilho (esse mesmo, o escritor) e eu tínhamos chegado a Bridgetown, para uma determinada reunião internacional. 

Estávamos então a dar os nossos primeiros passos nas instituições europeias. Competia-nos defender as cores nacionais na capital dos Barbados, num encontro dedicado a questões de comércio e desenvolvimento. 

Arribávamos de Londres, na véspera da reunião plenária. Fomos informados de que só fora possível reservar aposentos num hotel "um pouco fora da cidade". 

Jantámos, bem dispostos, com outras pessoas, num grande (e esgotado, claro!) hotel da cidade, antes de rumarmos ao nosso alojamento. No táxi para lá, começámos a preocupar-nos. O tempo passava. Depois de mais de meia hora viagem, por caminhos estreitos e rurais, chegámos ao destino. 

Era um hotel visivelmente medíocre, na soleira de ser uma espelunca. Já tivera os seus dias, há muitos anos! Olhámos um para o outro, na certeza de que esse facto não iria atenuar as invejas que tínhamos deixado para trás, em Lisboa, ao termos tido o privilégio de ser designados para uma reunião nas Caraíbas. 

Nada podíamos fazer: havia que passar ali três noites. E, em especial, teríamos de madrugar e conseguir transporte para estar a tempo nas reuniões. 

Na receção do hotel, em face do calor húmido da noite caribenha, perguntámos se os quartos tinham ar condicionado. A resposta foi críptica: "Sim, mas tem um pormenor que explicaremos quando chegarmos aos quartos". Estranhei o “pormenor”, mas lá fomos. Sem elevador, claro. O quarto estava ao nível das baixas expetativas que já levávamos. Mas, vá lá!, tinha ar condicionado. 

O pormenor? Bom, o pormenor é que, para que o ar condicionado funcionasse era necessário, de duas em duas horas, meter uma moeda, tipo parquímetro. Coisa simples, está bem de ver!, desde logo para quem pretendia dormir, depois de uma imensa jornada, com “jet lag” à mistura. 

É a vida! Há pior, como sabem.

segunda-feira, agosto 01, 2022

Ucrânia


Kherson, no sul da Ucrânia, foi, com o Donbass, das primeiras regiões ucranianas a serem ocupadas pela Rússia, depois de 24 de fevereiro, dada a sua importância para a Crimeia, nomeadamente para abastecimento de água. Nestes meses, o “oblast” de Kherson atravessou um processo acelerado de “russificação”, falando-se da iminente realização de um referendo, com vista à constituição de uma república, a exemplo do que aconteceu em Donetsk e Luhansk. Processo idêntico poderia vir a suceder em Zaporizhzia, se a Rússia viesse a conseguir controlar essa região, depois de completada a tomada do Donbass. Ora acontece que o ritmo das operações russas no Donbass não parece estar a ter, nos últimos dias, o sucesso que Moscovo previa e, para piorar as coisas, os russos parece estarem a necessitar de trazer tropas dessa sua operação no leste para reforço do esforço de guerra a sul.

A confirmarem-se as notícias de que uma contra-ofensiva ucraniana estará agora a ameaçar a continuidade da presença russa em Kherson, estar-se-á perante um significativo volte-face nesta guerra, ao qual não seria estranha a importância vital da ajuda militar ocidental. Perante este cenário, cabe no domínio da especulação pensar o que Moscovo poderá vir a fazer para tentar “compensar” estes eventuais desaires.

“À suivre”.

Ciao!

A possibilidade da Itália poder vir a ter em breve um governo de direita radical, tem uma implicação externa de monta: a Itália desaparecerá, de um dia para o outro, da “troika” de liderança europeia. E isso não se fará sem consequências para o “saldo” decisório no seio da UE.

Racismo

Portugal é um país racista? Não há países racistas, a menos que a constituição e as leis de um país consagrassem o racismo como política de Estado. O que há é portugueses racistas e, como país, seremos responsáveis se eles puderem exercer esse preconceito sem consequências.

Granel

Espero que, na sequência da saída do primeiro barco de cereais da Ucrânia para o porto de Tripoli, no Líbano, não surja um estagiário qualquer a escrever que os carregamentos estão a caminho da capital da Líbia. É que aquilo, por lá, no dia de hoje, não está muito para cereais…

O último telegrama


Foi numa conversa na Noruega, com o embaixador Fernando Reino, o meu primeiro chefe no exterior, que ouvi falar, também pela primeira vez, dos “valedictory despatches”. Explicou-me ele, nesse longínquo ano de 1979, que era uma tradição dos embaixadores britânicos, no último dia do seu último posto, enviarem para Londres “um bem elaborado telegrama” (aproveito aqui uma fórmula tradicional das Necessidades) em que faziam uma espécie de balanço dos ensinamentos (as “lessons learned”) que tinham retirado dos seus anos de experiência. Outras carreiras diplomáticas tinham seguido o exemplo britânico e, ele próprio tinha a intenção de vir a fazer isso.

Não sei se Fernando Reino o fez ou não, quando saiu de Nova Iorque para o seu pouso final na Azóia, mas recordo ter lido alguns exemplos dessa espécie de “testamentos”, subscritos por alguns embaixadores portugueses, à medida que se iam aposentando. Mas não foram muitos. Alguns tinham qualidade e até graça, outros revelavam apenas desencanto e azedume. Nada que não fosse expectável, à medida do que sabia de cada um.

Devo dizer que, por alguns anos, alimentei intimamente a ideia de, no termo do último posto da minha carreira, preparar um “valedictory despatch”. Com o tempo, contudo, fui perdendo a vontade de o fazer. E já se verá porquê. Disse-o “a Lisboa”, ao meu último ministro, Paulo Portas, na comunicação em que fazia a minha despedida da embaixada em Paris, na véspera de ter atingido o limite de idade para servir no exterior.

Não tenho comigo esse texto (não guardei documentos das minhas quatro décadas de funcionário diplomático), mas tenho uma vaga ideia (quem quiser pode ir conferir) que escrevi qualquer coisa como isto: tinha chegado a pensar em enviar a Lisboa um “valedictory despatch”, mas decidi não o fazer, por duas razões: por um lado, porque não tinha tido tempo para o exercício e, por outro, por ter quase a certeza de que a vida agitada de trabalho “na Secretaria de Estado” (como, no MNE, se chama às Necessidades) dificilmente permitiria que tivessem tempo para o ler Assim, limitei-me a transmitir ao ministro os meus “respeitosos cumprimentos”. Portas retorquiu-me com um “despacho telegráfico” (os telegramas oriundos da capital chamavam-se assim) em que agradecia o meu trabalho ao longo de 38 anos. E assim “encerrámos as contas”, a contento das partes.

Por que refiro isto hoje? Porque trouxe para férias um delicioso livro organizado pelo excelente jornalista que é Matthew Parris, onde ele compila e comenta dezenas de “valedictory despatches” dos arquivos do “Foreign Office”. Muitos são banais, mas sempre curiosos, outros são magníficos de graça, de finura, inteligência, argúcia, sentido de serviço público e outras qualidades que se apuram no melhor serviço diplomático do mundo - o britânico. Já tinha lido páginas do livro, intitulado “Parting Shots”, que uma pessoa amiga me tinha oferecido em 2010. No sábado, à saída de casa, ao vê-lo numa estante, juntei-o à vintena que trouxe (com a esperança vã de, entre eles, conseguir ler quatro ou cinco). E estou a divertir-me imenso. Livros para férias é isto!

domingo, julho 31, 2022

É a vida!

 


Nas últimas horas do mês que ora termina, surgiu, com insistência, nas redes sociais, uma citação sazonal de Quim Barreiros. Somos um país com memória: há datas que se não devem esquecer.

Ai Tito!

Estalou um conflito entre a Sérvia e o Kosovo. Não faço a menor ideia de quem agravou a situação, que se sabe historicamente tensa. De uma coisa tenho absoluta certeza: da forma como a opinião pública se ”balcanizará”. Vive-se o “pavlovianismo” na política.

Maisons

- Isto é um escândalo! O meu bairro está cada vez mais cheio de franceses. Compram tudo! As casas velhas estão todas em obras! Um dia, cansam-se de Lisboa e então vai ser o bom e o bonito! 

- Tens razão! E tu achas que levam as casas com eles?

Justiça

Por princípio, desconfio da justiça exemplar, pela sua frequente instrumentalização. Contudo, acho que a comunicação social deveria continuar a dar todo o relevo ao desfecho do caso da agressão verbal racista e xenófoba na Costa da Caparica. A consciência cívica adquire-se assim.

Adeus, Pereira?


Soltróia é um grande e agradável “bairro” de praia entre Tróia e a Comporta. Não tem o caráter compacto da primeira, nem o glamour “lux” da segunda. Uma certa Lisboa, às vezes com menos pachorra para os Algarves e desejosa de ter areia e mar, sem multidões, à mão de semear, num cenário com bastante qualidade, serenidade q.b. e, garantidamente, sem os alardes “do social”, tem vindo a fazer de Soltróia o seu discreto poiso, desde há décadas (no meu caso, há quase uma década). Soltróia tem uma praia mais ”produzida”, com algum “apoio”, e uma outra um pouco mais selvagem (a minha, claro), mas onde se pode deixar os guarda-sóis e as cadeiras durante a noite, sem qualquer guarda (É verdade! Isto ainda existe!). Para além do mini-mercado e café do senhor Ursino, com a clássica fila para os jornais, e de um restaurante-bar sazonal que se pretende um pouco mais “in”, mas que tem tido altos-e-baixos, o “bairro”, até agora, só tinha, no setor comercial, uma outra unidade, o Pereira. 

O Pereira era dois-em-um: um restaurante que sempre foi um pouco abaixo de assim-assim e uma cafetaria-bar, com uma esplanada “de segunda” (para utilizar uma expressão que era cara ao meu pai), mas que sempre dava para beber uma cervejola e pôr a conversa de praia em dia. O próprio senhor Pereira foi, por muitos e bons tempos, além do mais, uma espécie de agente imobiliário formal ou informal de Soltróia.

Constatei, há horas, algo de que já me tinha chegado um rumor: o Pereira fechou. Sente-se o seu vazio em Soltróia. A culpa é só nossa: habituamo-nos às coisas e não respeitamos a liberdade que elas também têm de poder desaparecer.

sexta-feira, julho 29, 2022

Chamamento


Chama-se (a própria expressão “chama-se” é, em si mesma, sugestiva) a isto amor ao trabalho.

O Brasil é membro dos Brics ou dos bricks?

 


Vam’láver: cada um arruma os tijolos como quer, não é?

Isto não vai estar fácil!

 


Abrunhosa e Olena

O autor e cantor Pedro Abrunhosa, perante uma questão que todos sabemos que fratura a emoção nacional, como é o caso da invasão russa da Ucrânia, disse algumas coisas fortes sobre Vladimir Putin. 

Era só o que faltava que o não pudesse fazer! Vivemos num país livre onde Abrunhosa, estou certo, interpretou o sentimento de uma grande maioria de pessoas, muitas das quais, porventura, talvez não tivessem usado as palavras que Abrunhosa usou, mas as sentiram como merecidas. Repito, Abrunhosa esteve no seu pleno direito de fazer o que fez. 

A embaixada russa, numa reação de virgem ofendida, a cheirar a tentativa de censura, a lembrar outros tempos deles e também nossos, veio ameaçar Abrunhosa com um processo. Nada mais ridículo! O nosso MNE respondeu-lhe à letra. 

Entretanto, Zelensky e a mulher decidiram fazer umas fotografias para a Vogue. Cada um é livre de ler esse gesto da maneira que lhe apetecer e quiser. Continuamos em Portugal, continuamos num país livre. Um país onde Abrunhosa tem o direito de dizer de Putin o que Maomé não diz do toucinho (como o faz imensa gente, na comunicação social e não só) e onde, da mesma forma, quem quiser pode achar o que muito bem lhe apetecer sobre Zelensky, elogiá-lo ou vilipendiá-lo, além de igualmente ter o direito de achar insensata a exposição que o casal fez na revista. Ou entender exatamente o contrário: considerar que essa atitude foi a atitude certa, para a defesa e visibilidade da sua causa, com elegância e beleza fotográfica. 

A mim, confesso, o que mais me custa, porque revelar bem que, no fundo, somos um país pouco livre e bastante seguidista, é não assistir a defensores da causa ucraniana a considerarem que Abrunhosa foi longe demais, ao dizer o que disse de Putin, lamentando, de igual modo, não ver críticos ferozes da liderança de Kiev, quiçá mesmo simpatizantes da causa russa, a terem a independência de espírito para virem a público defender Olena e o marido, na sua legítima opção de serem fotografados pela lente mágica da Leibovitz. 

Infelizmente, o que por aí vimos foi apenas o óbvio: os pró-russos escandalizados com o palavrão de Abrunhosa sobre o ditador russo e os pró-ucranianos a defenderem a opção fotográfica do casal presidencial de Kiev Ora bolas! Isto assim não tem a menor graça.

quinta-feira, julho 28, 2022

António Vaz Pereira (1929-2022)

Ó homem! Eu não sei nem quero saber se a decisão foi sua ou de quem manda em si! A única coisa que eu sei é que isso é uma estupidez, pelo que, enquanto eu aqui for embaixador, não vou cumprir essa instrução”.

António Vaz Pereira dizia isto ao telefone, para Lisboa, para um colaborador de uma elevadíssima personalidade da nossa República. Minutos antes, eu, que era o seu Ministro Conselheiro, o seu “número dois”, na nossa embaixada em Londres, tinha entrado no seu gabinete, mostrando-lhe uma instrução, acabada de receber, para que embaixada fizesse, junto das autoridades britânicas, uma determinada diligência. Eu entendia que aquela determinação era completamente insensata e Vaz Pereira, que logo concordou comigo, tirou-se dos seus cuidados e desancou, pelo telefone, quem tinha de desancar.

Ouvi aquilo deliciado, sentado numa das largas cadeiras de braços, forradas a palhinha, que o embaixador mantinha em frente à sua imensa secretária, no nº 11 de Belgrave Square. Aprendi, naquele instante, de que ter razão e saber afirmá-la com coragem era algo que caraterizava uma atitude de uma chefia confiante.

Ter-me-ei cruzado com o embaixador Vaz Pereira, pela primeira vez, na Noruega, em 1980, numa visita de Estado, quando Ramalho Eanes era presidente. Apenas recordo termos falado sobre a nossa comum ligação a Viana do Castelo, onde ainda então vivia a sua mãe. 

À época, Vaz Pereira era diretor-geral dos Negócios Políticos nas Necessidades. Tinha iniciado a sua carreira no Rio de Janeiro (então capital), passando depois, uma primeira vez, por Londres. Em seguida, foi cônsul-geral em Joanesburgo. Estreou-se como embaixador em Copenhague, seguindo-se Maputo e a delegação junto da NATO. Terminou a carreira na chefia da embaixada em Londres, de 1989 a 1994.

Quando eu ali fui colocado, em 1990, como o seu colaborador mais próximo, interroguei-me intimamente sobre como iria ser a minha relação com ele. Sabia-o um homem bastante conservador, com toques de algum snobismo, um pouco distante, por detrás de um fácies com um esgar sorridente que, vim a perceber, não significava necessariamente satisfação. Tal como acontece com algumas equipas de futebol, no primeiro quarto de hora de jogo, o nosso mês inicial de convívio profissional foi de observação mútua. Mas tudo iria correr às mil maravilhas, daí para a frente, durante quatro anos.

Vaz Pereira era intolerante perante a mediocridade, impaciente em face da estupidez, incapaz de aturar chatos, desprezando, não o escondendo, atitudes “poseur” e de pompa saloia. Como tinha um forte sentido do interesse nacional, caldeado por muitos anos de um capaz exercício da profissão, não se impressionava com o falso “barulho das luzes” das “rising stars” da política, gargalhando e ridicularizando os seus pavoneamentos. Era um homem com sentido da História, culto, vivido, com gosto. Desenhava muito bem, tendo estado ligado, na juventude, ao movimento estético “Távola Redonda”.

O grande hóbi de António Vaz Pereira era a cozinha. Neste domínio, era impiedoso na crítica, na desconstrução dos erros, no sublinhar das coisas que tinha por essenciais. Nos últimos anos, coincidimos como membros dos restritos “trinta”, no seio da Academia Portuguesa de Gastronomia. Ficou por publicar o seu “livro de receitas”, onde estaria a genuína “culinária” portuguesa, ideia que o animou desde sempre. Na última conversa telefónica que tivemos, há meses, disse-lhe do interesse que a nossa Academia seguramente teria em ajudar a essa publicação, que espero sinceramente que alguém promova.

Teria muitas e divertidas histórias a contar do meu convívio com António Vaz Pereira. Um homem que recordarei pela sua inteligência, pelo seu humor, pela sua frontalidade, pela sua sabedoria. Tenho imensa pena em ver desaparecer uma pessoa que admirei, com quem muito aprendi e de quem fiquei amigo. Neste momento de tristeza, quero deixar um abraço de grande solidariedade a Teresa Gouveia, a maior e mais fiel amiga de António Vaz Pereira.

“A Arte da Guerra”


Esta semana, no podcast do “Jornal Económico”, converso com o jornalista António Freitas de Sousa sobre a situação na Ucrânia, a nova ditadura em que Tunísia parece estar prestes a entrar e as ambições de Trump na política americana. Pode ver aqui: https://youtu.be/koDYvHksxEc

Ásia-Pacifico

 


Dia 28 de julho, 9.00 horas

quarta-feira, julho 27, 2022

Kiev News


O casal Zelensky posou para a Vogue. A maioria não avaliará o exercício fotográfico na lógica sensatez/insensatez do gesto, mas apenas na opção simpatia/antipatia face à causa de Kiev. Por mim, sem ir por aí, apenas aprecio a beleza triste da senhora Zelensky. Será que posso?

A suspeita


Era uma figura que recordo pequena, sempre tensa, que levava tão a sério a sua função de responsável pela segurança da personalidade política a quem servia que, não raramente, ultrapassava, no exercício dessa atividade, os limiares do ridículo. Como se sentia ungido de uma autoridade delegada, tornava-se, por vezes, prepotente e desagradável.

Uma noite, em Londres, tive com ele uma troca de palavras, ao telefone, que o levou a queixar-se, superiormente, daquilo que considerou ser a minha impertinência, e que mais não era do que uma ironia que eu não tinha podido evitar perante mais um dos seus manifestos excessos. No dia seguinte, diverti-me imenso com a sua fúria, ao não ver aceite as suas credenciais oficiais, sendo revistado, da cabeça aos pés, pelos seus homólogos da segurança britânica, à entrada para a sala VIP do aeroporto de Heathrow. Cuidei em que lhe não escapasse o meu imenso sorriso de gozo.

Vários diplomatas guardam histórias dos excessos de zelo da personagem. A mais deliciosa, porventura, terá tido lugar em Bruxelas, numa das salas que cabiam a Portugal, na sede antiga do Conselho de Ministros da União Europeia.

A personalidade política estava de costas para uma janela, num intervalo de um Conselho Europeu. De súbito, uma pomba veio colar-se, pelo exterior, ao parapeito da janela, a centímetros do dignitário. 

Do outro lado da sala, o olhar prescrutador, vigilante, do guardião-mor da segurança física da personalidade, fixou a pomba, através do vidro. A certo ponto, a ave abalou dali. Porém, minutos depois, regressou e, ao fazê-lo, bateu ligeiramente com a asa no vidro, o que se notou do interior. 

O nosso homem, em voz baixa, perguntou então ao embaixador português: “Aquela pomba costuma estar por ali?” Não faço ideia da resposta que o zeloso servidor levou, ou talvez tenha levado apenas com uma merecida gargalhada na cara grave que sempre afivelava .

terça-feira, julho 26, 2022

A guerra da Rússia

Os russos voltaram a atacar Odessa. Há dois dias, na CNN, disse que esse cenário era possível. No acordo de Istambul sobre os cereais, a Rússia comprometeu-se a não criar obstáculos à saída destes, mas não assumiu qualquer auto-limitação quanto a não continuar a atingir alvos militares.

Brasil


No Brasil, entrou-se já numa longa reta final para as presidenciais de outubro. Veremos, nos próximos dias, se o recente lançamento, com estrondo, da recandidatura de Jair Bolsonaro, fará reduzir o seu “gap” nas sondagens face a Lula da Silva, o qual, até agora, se mantem elevado, embora longe, pelo menos por ora, de poder prenunciar uma vitória do candidato “petista” à primeira volta. O presidente cessante, que se entregou nos braços de um “centrão” partidário, a quem encheu de benesses financeiras em troca de apoio político, à revelia de tudo quanto tinha anunciado na sua anterior candidatura, entrou num frenesim público que está a ser lido por muitos como uma disposição, “à Trump”, de poder vir a contestar o resultado eleitoral - se este lhe for desfavorável, bem entendido. O patético encontro que organizou com o corpo diplomático estrangeiro em Brasília - o Brasil é um dos países do mundo onde há mais embaixadores estrangeiros residentes -, aos quais transmitiu dúvidas sobre o sistema eleitoral em vigor e sobre a independência do mais alto poder judicial do país, é mais bizarra iniciativa política, com impacto na ordem internacional, que me recordo de alguma vez ter sido titulada por um chefe de Estado de um grande país democrático. Acresce que, em vários setores do mundo ocidental, está instalada uma dúvida sobre se os membros na reserva das forças armadas brasileiras que acompanham Bolsonaro desde antes da sua eleição, e que muitos consideram co-responsáveis por muitas das suas atitudes de cariz anti-democrático, representam o pensamento da hierarquia militar em funções. Esta sombra que Bolsonaro faz pairar sobre a vitalidade da democracia brasileira é talvez o mais nefasto aspeto da sua presidência. E há muito por onde escolher.

Reino Unido


No Reino Unido, a sucessão de Boris Johnson vai desembocar no duelo entre uma “rising star” financeira, Rishi Sunak, e uma cópia “thatcherite” tosca, Elisabeth Truss. As diferenças são mínimas. Ambos subscrevem o politicamente correto face à Ucrânia e divergem em política fiscal e outras questões de intendência doméstica. Sunak pareceria, em termos de competência, em vantagem face a Truss, a quem uma confusão pública entre o Mar Negro e o Mar Báltico não afetou, contudo, a chefia da diplomacia britânica. Mais do que isso: o seu favoritismo parece reforçado, o que diz tudo.

Tunísia


Na Tunísia, parece estar prestes a ser colocada a última pedra sobre a esperança democrática criada pela primeira “primavera árabe”, há mais de uma década. Uma ditadura “catedrática” (onde é que já vimos isto?), agora com apoio referendário, vai tomar conta do jogo, até que os militares, por ora subservientes, se cansem da solução e encetem um novo ciclo. Um “déjà vu”.

domingo, julho 24, 2022

Mediterrâneo


Ainda sou do tempo, que já lá vai, em que a União Europeia tinha uma política para o Mediterrâneo. Começou, com alguma expressão, no Processo de Barcelona, em 1995, e, de certo modo, acabou com a progressiva perda de ânimo da União para o Mediterrâneo, criada no consulado de Sarkozy à frente da União Europeia, em 2008. 

Com outras vizinhanças a reclamarem atenção e a fazerem divergir as prioridades europeias, com a notória falta de vontade dos países do sul do Mediterrâneo de fazerem aquilo que lhes competia nessa parceria, a política mediterrânica da Europa arrasta-se hoje numa diluição prática de objetivos, embora sempre prenhe de retórica autocongratulatória. O desiderato da criação de um grande espaço económico e de um impulso democrático para o Sul, com um desenvolvimento em paz, parece perdido.

Portugal foi, desde sempre, um dos Estados da União que os países do Magrebe e do Mashrek viram como um aliado e que, não raramente, acabou por ter alguma relevância na definição das políticas propostas pela Europa para essa parceria. Somos, com toda a certeza, o mais mediterrânico dos países atlânticos. 

Ao olhar para este pouco comum mapa (clique na imagem para aumentar) dou-me conta de nele figurarem as cidades de Faro, Beja e Portalegre - e até Vila Real! -, numa espécie de Mediterrâneo alargado.

sábado, julho 23, 2022

Liberdade

Estar disponível para discutir a situação internacional, com as ideias próprias, sem ficar minimamente condicionado ou limitado pelos contextos, dá uma imensa sensação de liberdade pessoal. 

Nas próximas semanas, vou ter, uma vez mais, essa experiência em três exercícios privados, bem diversos entre si: no quadro de uma empresa multinacional, numa estrutura do âmbito da NATO e a convite de um partido, aliás situado bem à esquerda no espetro político nacional. 

Além disso, de quando em vez, também vou dizendo o que penso, sobre esses mesmos assuntos, por aqui pelas redes sociais, num canal de televisão, num podcast semanal em vídeo e em artigos de imprensa, quando, às vezes, me apetece escrevê-los.

Nos dias de hoje, sinto que a minha liberdade é também muito isto.

sexta-feira, julho 22, 2022

Um dia estranho

Hoje, foi um dia estranho para a União Europeia.

Desde há muitos anos, fomos habituados a ver surgir a União Europeia em quase todos os cenários que, direta ou indiretamente, se ligassem aos seus interesses geopolíticos.

Como “honest broker” ou como “soft power”, os enviados de Bruxelas tinham sempre uma espécie de lugar cativo em momentos políticos de crise ou de tentativa de resolução de conflitos. Da União esperava-se sempre apoio, intermediação e uma atuação que, sem descurar interesses, carreasse o seu peso político: com afirmação de princípios, com clareza de posições, mas sempre com sentido de compromisso e, em especial, com uma linguagem serena e sem histerismos jingoístas.

Hoje, em Istambul, naquela que é uma tentativa de entendimento, pontual mas muito relevante, entre dois Estados da sua vizinhança, em aberto conflito armado, a União Europeia não teve lugar na sala. Nem como simples observador. Vale a pena perguntar porquê, embora todos saibamos a resposta.

Lembrando o senhor Matos


Por algumas décadas, a portaria do MNE foi dirigida pelo Jaime Matos, que tratávamos como “o senhor Matos”. A sala de que mostro esta fotografia contemporânea era o seu local de trabalho. Ele vislumbrava-nos, pela larga janela, logo à entrada do pátio das Necessidades, lá ao fundo, e vinha cumprimentar-nos junto à gradeada porta de entrada. 

O Matos era demasiado mesureiro, de uma gentileza artificial, dizem os que dele não gostavam. O Matos, para mim, foi sempre um homem educado, disponível, uma figura que sempre tive por agradável, desde o dia em que entrei para a carreira até àquele em que se aposentou. Não tenho dele a menor razão de queixa, antes pelo contrário.

O ministério, por esse tempo, era uma casa quase familiar. Todos ou quase todos nos conhecíamos. Por muitos anos, ao olhar o Anuário, fui capaz de identificar visualmente cada um dos colegas. O Matos, então, era uma espécie de Anuário em pessoa. Seria dificil escapar-lhe alguém.

O Matos era também o mais prestigiado dos "procuradores", essa instituição de que um dia já aqui falei, que todos os diplomatas eram forçados a contratar, de entre o pessoal da baixa hierarquia da casa, e que, na realidade, facilitava muito a nossa vida e permitia resolver uma imensidão de problemas, em especial quando estávamos colocados no quadro externo.

Ter o senhor Matos como procurador era um verdadeiro "must" de prestígio. Enquanto muitos contínuos e motoristas batalhavam para representar os novos diplomatas chegados à casa, o senhor Matos dava-se ao luxo de selecionar aqueles que aceitava como seus representados. Eram os grandes e mais antigos embaixadores aqueles que faziam parte do “portfolio” do Matos. Não raramente, ele "cedia" mesmo alguns diplomatas, por falta de tempo, a colegas dedicados à mesma tarefa.

O senhor Matos tinha a peculiaridade de ir informando os seus representados, que estavam colocados no estrangeiro, por carta, dos rumores que circulavam sobre futuras promoções e nomeações, fosse para embaixadas fosse para lugares de chefia superior na casa. A isso chamava, nas missivas que enviava, "o movimento que se diz que vai haver". Raramente se enganava, tal a qualidade e a "reliability" das fontes de que dispunha.

Com os anos, com a experiência e tendo já ouvido muito, o senhor Matos chegou mesmo ao ponto de ousar ter opinião sobre a própria justeza de certas indigitações. Um dia, ficou famoso um comentário que, por carta, deu a alguns dos seus representados: "Dizem que o senhor doutor Fulano de Tal pode vir a ser o próximo diretor político. Seja o que Deus quiser!..." Noutra ocasião, depois de anunciar uma determinada colocação, acrescentou, eloquente na sua apreciação: "enfim!..."

Estive, há dias, no espaço que sempre qualifiquei como “a sala do Matos”, que é agora uma sala de espera, na entrada das Necessidades. Notei a ironia do nome da revista que ali estava pousada, numa casa em que as viagens são a regra do jogo. No caso desta nota, até de viagens por outros tempos.

“A Arte da Guerra”


O podcast semanal “A Arte da Guerra”, uma conversa com o jornalista António Freitas de Sousa, para o “Jornal Económico”, regressou de três semanas de férias. Nesta edição, falamos da guerra na Ucrânia, da viagem de Joe Biden ao Médio Oriente e da sucessão de Boris Johnson na chefia do governo britânico.

Pode ver clicando aqui.

quinta-feira, julho 21, 2022

A legitimidade política na Europa


Há semanas, assistiu-se a uma romaria das principais lideranças europeias a Kiev. Ainda a montante do segredo de Polichinelo que ia ser a luz verde da Comissão Europeia à admissão do pedido de adesão da Ucrânia à União, as chefias políticas das três mais importantes economias europeias, membros do G7 - França, Alemanha e Itália - quiseram dar um sinal político positivo ao governo de Kiev.

Estava ali uma nova “troika” de poder? Ou tratou-se de um mero seguidismo impotente, face à anterior afirmação de presença da presidente da Comissão Europeia?

Em Kiev, Macron, Scholz e Draghi, antecipando com algum desplante a decisão que aos seus parceiros competia darem no Conselho Europeu, foram dizer à liderança ucraniana que a União entendia que aceitar que, formalmente, o pedido de Kiev constituía para eles um imperativo político.

Mas quem é que estava ali a falar em nome da União? Três países que, nos meses anteriores, também já muito afetados pelos efeitos de reversão das sanções impostas à Rússia, haviam visto as suas economias sob forte pressão, com consequências sociais não despiciendas para a autoridade política das respetivas lideranças.

Macron tinha acabado de perder, no parlamento, a vitória no Eliseu, tendo agora perante si uma penosa navegação à vista. Scholz chefia uma coligação que ainda não deu mostras de ele próprio conseguir liderar, numa Alemanha abalada por uma imposta mas corajosa mudança de rumo, embora com contornos ainda não estabilizados. Draghi, cujo futuro político não é claro no momento em que escrevo, revelou, se necessário fosse, a precariedade de um sistema político em que o caráter cíclico das crises parece fazer parte da respetiva matriz. Os titulares dos três mais importantes poderes europeus, num tempo excecional de crise, são, eles mesmos, afetados por fragilidades que limitam a afirmação do seu poder.

Alguns dirão: mas, nesse cenário, a líder da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deu mostras de afirmar uma chefia da máquina da União que compensa a fragilidade dos Estados.

Nem sempre o que parece é, mesmo em política. A coreografia voluntarista da presidente da Comissão, por muito que possa fazer transparecer força, será sempre um gigante com pés de barro se não tiver por detrás a vontade política constante do Conselho de Ministros, onde se sentam os Estados, cujos governos respondem perante os eleitores.

São esses governos que vão ter de convencer quem neles vota de que conseguem pôr em prática medidas efetivas para combater a carestia de vida, de que as sanções à Rússia fazem parte de uma política “do bem”, que está em sintonia com os seus interesses estratégicos últimos, de que o custo das restrições energéticas é o preço justo a pagar pela libertação de uma dependência nefasta. E que a União, tal como fez durante a pandemia, é o espaço certo para a procura de soluções que vão para além das capacidades dos Estados membros.

A presidente da Comissão Europeia, salvo coisas imponderáveis, não cairá pelo voto democrático do Parlamento Europeu, instituição que, ela própria, vive no conforto de nunca poder ser dissolvida, pelos seus cinco anos de mandato.

Pelo contrário, os titulares dos governos europeus representam o sentimento de quem elegeu os seus parlamentos, em tempos diferentes, com resultados diversos e até contrastantes, estão sujeitos a uma “accountability” poderosa, respondem a quem paga os seus impostos. Não há comparação possível em termos de legitimidade - conceito que está muito para além da eficácia, ao contrário do que sucede nas autocracias.

A Europa não é nem será nunca um país, não terá um governo que responda diretamente perante os eleitores. O Parlamento Europeu tem uma legitimidade limitada, tal como a Comissão. A União é, a cada momento, a conjugação das vontades nacionais que nela decantam a determinação de prosseguir num determinado rumo. Ou de o alterar.

A Comissão Europeia não pode ter uma vontade política própria, independente do sentimento que o Conselho lhe transmitir como sendo a linha a prosseguir. Tendo o poder de iniciativa, não tem legitimidade para impor esse poder os Estados membros.

As coisas não deviam ser assim? Não sei, nem isso importa muito, salvo para os teóricos, a quem deve ser lembrado que, na prática, a teoria é sempre outra. Só sei que as coisas são assim, goste-se ou não de como são.

Esta é a Europa que temos e, olhando para o resto do mundo, com todas as suas insuficiências, não conheço melhor sistema de gestão internacional de vontades, sob um corpo ético-político que pede meças a quem quer que seja.

quarta-feira, julho 20, 2022

De Vila Real


Hoje de manhã, olhei a data, 20 de julho, e fiquei com a sensação de que ela me dizia qualquer coisa. Como nada me ocorreu, pus a ideia à conta do “déjà vu” que a idade sempre promove. Agora, leio que este é o dia de Vila Real.

Comemoram-se hoje 97 anos desde que Vila Real, no republicano ano de 1925, ascendeu de vila a cidade - a localidade tinha tido um foral concedido por dom Dinis, séculos antes.

Vai para um ano, sob o patrocínio da Biblioteca Municipal de Vila Real, publiquei por lá, em livro, um conjunto de textos em que a cidade de era uma referência praticamente comum a todos eles. Em certa medida, eu fazia, com o livro, uma subliminar homenagem à terra onde nasci.

Vivi, continuamente, em Vila Real, até 1966. Desde então, habitei em nove cidades, sendo que Lisboa é, em definitivo, a minha terra adotiva. E Viana do Castelo, onde não vivi mas onde passei inolvidáveis férias, é a minha terra afetiva. E o Porto é uma cidade onde me sinto em casa. Com tantas terras na minha vida, quase sou forçado a concluir que acabo por não ter terra nenhuma. Mas isso não é verdade.

Vila Real é a minha terra. Ando por aquelas ruas, nos dias de hoje, e sinto que as conheço quase a palmo, que tenho episódios passados de cada rua e cada esquina, em que quase todas as personagens dessas histórias há muito que já saíram de cena. Melhor: que praticamente ninguém conhece.

Se acaso hoje cruzo, nas ruas de Vila Real, alguém com cabelos brancos, olho sempre essa pessoa com uma esperança, muitas vezes vã, de poder ter com ela uma cumplicidade geracional. Há meses, um homem já “com uma certa idade” (para mim, expressão que significa com mais de 60 anos), à saída de uma loja, fitou-me, passou por mim, voltou atrás e disse-me: “Eu conheço-o!” Eu não o conhecia. Sorri, meio embaraçado. “Já sei! Vi-o há dias! Foi na CNN, não foi?”.

Espero bem que essa pessoa não esteja a ler este texto. É que, na ocasião, fiquei imensamente desapontado. Pensei que, estando na minha terra, me ia dizer: “É Fulano, não é? É primo de Sicrano, não é? Vi-o há tempos na Gomes (ou no Lameirão ou na Rua Direita ou na Tosta Fina)”. É que ter-me visto “na CNN” podia ter acontecido a alguém em Reguengos de Monsaraz ou em São Brás de Alportel ou em Manteigas. Não teve a menor graça isso ocorrer na minha cidade natal.

“A culpa é tua: devias vir mais vezes à Bila (lê-se por lá assim, à galega)”, dizem-me alguns amigos por lá. Se calhar devia, mas tenho a desculpa de que a vida que tenho não o permite. “Tens essa vida porque queres! Devias era reformar-te e vir viver para cá! Tens casa, não tens?” Tenho e talvez devesse ir, mas não vou. Somos assim, teimosos, os vila-realenses.

10 restaurantes de Lisboa que recomendo: Geographia


O “Geographia” é, dos restaurantes “íveis” (isto é, restaurantes a que se pode ir), o que fica situado mais próximo do local onde vivo. Onde fica? Basta dizer que, da porta do restaurante, se vê a parede lateral do Museu Nacional de Arte Antiga. 

Conheci a casa numa outra encarnação, bastante mais simples. De um sítio singelo (em linguagem de fado) de bairro, com o dono a conhecer pelo nome os clientes, o “Geographia” nasceu um dia, já há alguns anos, com mais ambições e sob um conceito (diz-se assim, não é?) diferente. 

O tal “conceito” foi reproduzir, na oferta apresentada, pratos com reminiscências dos locais por onde os portugueses andaram. (Uma excelente ideia, quanto mais não seja para excitar o de insalubre debate sobre a ”apropriação cultural”). Estas “propostas” (também se usa, não é?) de fusão são feitas com inteligência e muito bom gosto (o bom gosto tem no gosto a sua melhor expressão), sabendo ser criativas, mas nunca entrando pela irresponsabilidade, nesta combinação de sabores.

Os puristas de comida africana, indiana ou brasileira devem ficar um tanto espantados. Eu, que sou tributário de uma herança culinária de simplória mas sólida cozinha portuguesa, sinto-me lindamente com as ousadias praticadas pelo “Geographia “. O que, para muitos, será talvez uma prova indireta de que a ousadia, por ali, não é assim tão ousada como isso.

O espaço não é deslumbrante, mas a decoração é de bom gosto. Uma insonorização mais ficaz apuraria o conforto. O pessoal (diz-se colaboradores, não é) é que, infelizmente (mas isto parece ser pecha do setor), vai e vem. É sempre gente que se percebe ter sido instruída para ser simpática, o que normalmente conseguem ser, mas, em matéria de serviço, há muito concluí que a simpatia está longe de resolver tudo. Também um pouco mais de ambição na variedade de vinhos seria desejável e, em dias de enchente, seria também muito importante não deixar acabar cedo os pratos mais icónicos (esta expressão também se usa muito, não é!) da casa.

Com as críticas atrás feitas, eu recomendo o “Geographia”? Claro que sim! Um local onde nunca comi um prato mal confecionado, com pessoal amável embora muitas vezes inexperiente, com uma cozinha que sai da vulgaridade e ousa a criatividade com bom senso e bom gosto, merece que o apoiemos. E o preço não irrita, o que ajuda. Eu sou cliente e eles já sabem: quando algo me desagrada, digo-lhes. Logo.

Se for de carro, prepare-se para andar às voltas. As reservas são essenciais, pelo 213 960 036. 

(Dou conta, com tristeza, que não consegui utilizar no texto bordões modernaços como “incontornável”, “alavancar” e “viral”. Já o ”diversas geografias” foi dispensável, dado o nome da casa).

Poemas

A propósito da morte da escritora Ana Luísa Amaral, notou-se o cuidado da imprensa em qualificá-la de “poeta” e não de “poetisa”. Acho, em a...