sexta-feira, 14 de maio de 2021

Na vizinhança



A bem dizer, o “Geographia” é o restaurante mais próximo de minha casa. E, injustamente, poucas vezes me lembro de lá ir. Fi-lo ontem, para jantar. E, como sempre - sempre, repito - aconteceu, saí imensamente satisfeito. 

O “Geographia” justifica que, por uma vez, eu use a irritante palavra “conceito”, aplicável a uma casa onde se vai para comer e beber. O “Geographia” é um “conceito” muito original no nosso país: apresenta pratos dos várias regiões e culturas que Portugal, na sua aventura imperial, cruzou pelo mundo, da Ásia à América e à África. Fá-lo com um extremo cuidado na apresentação, sem “sublinhar” em excesso certos sabores específicos, adequando o equilíbrio culinário ao gosto português médio, mas sempre de uma forma elegante e até sofisticada.

O “Geographia”, que fica na parte elevada de um largo junto ao Museu Nacional de Arte Antiga, tem um serviço de mesas jovem, bem disposto e muito atento. Com os devidos cuidados a que a “saison” sanitária obriga, ontem foi reconfortante ver por ali uma casa com razoável número de clientes. 

Porque acho que o património em matéria de diversidade gastronómica é uma riqueza nacional que nos compete preservar, devemos apoiar o esforço que os restaurantes fizeram neste tempo de pandemia e recompensá-los com a nossa frequência.

Ao leitor de Lisboa que não conhece o “Geographia”, recomendo francamente uma visita. E isto é muito sincero, pode crer! Aceito reclamações.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

O silêncio dos Borges


Há pouco, li uma citação de Jorge Luís Borges: “No hables a menos que puedas mejorar el silencio”. E ao ver o nome Borges associado à palavra silêncio, vieram-me à memória duas figuras que faziam parte do meu cenário de infância e juventude, em Vila Real: os “Borginhos”.

Eram dois irmãos, gémeos, franzinos, de estatura pequena, de uma família relevante na cidade. Ambos eram engenheiros técnicos, ambos trabalhavam na Junta Autónoma de Estradas. 

Lembro-me deles sempre vestidos de escuro, muitas vezes pelos corredores do Club de Vila Real. Muito discretos e reservados, eram pessoas bastante consideradas. Eu, confesso, não distinguia um do outro. Como tinha uma parte da minha família na mesma área profissional dos “Borginhos”, falava-se bastante deles lá por casa. Sempre bem, diga-se.

Há tempos, dei-me conta de que um dos “Borginhos”, Filipe (o outro chamava-se José Manuel), tinha sido um excelente fotógrafo amador. Uma nota do Museu do Som e da Imagem da cidade dá-os a ambos envolvidos na “fundação do Sport Clube e do Circuito de Vila Real, dividiram o interesse pelo coleccionismo, pelas artes, pela arquitectura, pela heráldica, pelos desportos motorizados”.

Ao que se dizia, o pai desses dois irmãos, o senhor Borges, era uma pessoa muito parcimoniosa nas palavras ou, para utilizar linguagem comum, um homem de poucas falas. O silêncio seria cultivado entre ele e os filhos, sendo frequentemente vistos os três a passear pela cidade, sem falarem entre si. É talvez um mero mito, mas dele nasceu uma inocente historieta que sempre ouvi.

Um dia, na viragem entre os séculos XIX e XX, o senhor Borges e os seus dois filhos teriam ido passear para o Jardim da Carreira, então um muito frequentado local de lazer de Vila Real.

À entrada no portão, um dos “Borginhos” terá comentado: “Quer-me parecer que hoje vai chover!”. Sem que esta afirmação tivesse desencadeado qualquer conversa, o trio terá continuado, silencioso, a percorrer as duas centenas de metros que vão até à fonte no fundo do jardim. 

Lá chegados, o outro gémeo terá dito: “Não vai chover! Vai estar sol todo o dia.” A esta frase, que, no fundo, contestava a que o irmão tinha dito minutos antes, voltou a suceder-se um silêncio. Silêncio que se prolongou no regresso, até ao portão, que viriam a atravessar minutos mais tarde. 

Terá sido então nesse instante de chegada à rua que o pai Borges terá dito: “Os meninos já sabem que eu não quero ouvir discussões entre vocês!”. E, dado o raspanete, lá seguiram, até casa. Em silêncio. No silêncio dos Borges.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

“A Arte da Guerra”


No programa “A Arte da Guerra”, falei hoje com António Freitas de Sousa sobre o saldo da Cimeira Social europeia no Porto, sobre as movimentações diplomáticas da Arábia Saudita junto de Estados com os quais mantinha contenciosos e, finalmente, sobre o estado da liderança de Boris Johnson no Reino Unido - refletindo sobre o saldo do Brexit e o que é expectável nas relações futuras de Londres com Bruxelas, Washington e Pequim.

Pode ver aqui.

Mito

A história de que o Sporting passa muito tempo sem ganhar títulos é um dos grandes mitos nacionais. Olhem! Ainda ontem ganhámos um!

terça-feira, 11 de maio de 2021

Do Sporting


Por que é que sou do Sporting? Sou do Sporting porque não sou do Benfica, poderia responder. 

Quando a opção clubística se me terá colocado, nos anos 50, o país dividia-se entre os dois clubes. O Porto tinha uma expressão acentuadamente regional e só a Académica, em especial para quem tinha passado por Coimbra, e o Belenenses, que funcionava como uma terceira, sofisticada e quase aristocrática terceira opção lisboeta, convocavam alguns adeptos e juntavam fiéis. 

Sporting e Benfica disputavam então, quase taco a taco, a liderança nacional, com o Porto ainda a uma imensa distância. Depois era quase o deserto. Nem o Braga nem o Boavista, que, décadas depois, viriam a dar um ocasional ar da sua graça, tinham uma existência relevante no panorama do futebol nacional.

Pela província, havia, claro, preferências locais, mas não havia nenhum adepto dessas agremiações que não tivesse um clube “grande” como referência da sua afetividade nacional. Eu “era” do Sport Clube de Vila Real, o meu pai era adepto do Vianense. O rival do meu clube local era o Desportivo de Chaves, o meu pai não gostava do Braga. Mas éramos ambos do Sporting.

Em Vila Real, onde vivíamos, os benfiquistas estavam em maioria, mas havia imensos adeptos do Sporting. Os portistas eram então muito poucos. Passei a ser “do” Sporting, imagino, porque aconteceu o meu pai ser, desde a juventude, adepto do Sporting. Estou em crer que, acaso ele fosse do Benfica, talvez eu tivesse ido por aí. 

Aqui chegados, o que significa continuar a ser, décadas depois, adepto (e associado, como é o meu caso) do Sporting? 

Da sua rivalidade a par do Benfica, nesses meus primeiros tempos de adepto, o Sporting veio a entrar num inegável declínio, a nível de títulos, deixando-se “atrasar”, a nível nacional, face ao Benfica, com este a somar ainda alguns êxitos externos muito significativos. 

O Porto, entretanto, começou a crescer e, com o passar dos anos, veio a afirmar-se como uma força, não apenas nacional, mas mesmo com êxitos internacionais hoje sem igual em Portugal. O Porto chegou, sem a menor dúvida, à liderança do futebol nacional e, na nossa história interna, ganhou uma evidente primazia face ao Benfica - mas não me quero meter na “guerra” entre os dois clubes, que não é a minha.

Como sportinguista, aproveito para dizer, nunca tive o Porto como um clube rival. A única rivalidade que verdadeiramente sempre senti foi com o Benfica. Talvez isto tenha a ver com a idade, com o “histórico” da minha pertença afetiva ao clube e ao seu adversário clássico. Mas, devo confessar, talvez por isso, as Antas ou o Dragão nunca fizeram parte do meu imaginário competitivo. Por isso, as vitórias ou derrotas do Porto, não me deixando indiferente, marcam-me muito pouco. 

Alguns amigos sportinguistas estarão a pensar, chegados a este ponto do texto, que subestimo aqui o incomparável ecletismo desportivo do Sporting, área em que o clube nunca perdeu a liderança nacional. Numa imensidão de modalidades, no passado como no presente, o Sporting tem um palmarés que é único e incontestável. Mas, deixemo-nos de “diversões”: para o que na verdade conta, na expressão relativa de força dos clubes nacionais, é do futebol sénior que falamos.

Os sportinguistas da minha geração, com os anos, desabituaram-se, a certa altura, de ganhar títulos com regularidade. Íamos sendo campeões a espaços, com um êxito aqui ou ali. A regra era não ganhar, a vitória passou a ser uma exceção. 

Se, para essa minha geração, ainda havia um passado forte em vitórias lá no fundo, para os mais novos, a realidade era e é bem menos brilhante. Devo dizer que, por isso mesmo, tenho uma profunda admiração pelas gerações mais novas de sportinguistas, que hoje se prendem afetivamente a um emblema que só episodicamente lhes dá as alegrias que outros têm com maior frequência. Acho tocante que preservem essa fé na ocorrência de uma vitória com sabor forte, que o tempo lhes provou ir sendo apenas a espaços.

Foi nesse cenário de vitórias episódicas que fui ganhando, sem qualquer “teatro” da minha parte, aquilo que é o meu orgulhoso sportinguismo. Ao longo destes muitos anos “de casa”, confesso que, embora não me agradando, consegui viver sempre, sem excessivo sofrimento, a saída desse tempo de vitórias regulares para o surgimento de um outro tempo em que, de quando em quando, surge um saboroso êxito. 

Cada um é adepto à sua maneira. Conheço sportinguistas que são muito diferentes de mim: na emoção, na competitividade, na garra. Eu sou como sou. Gosto imenso que o Sporting ganhe, fico muito contente por um título poder ser obtido no meio desta quase insuportável pandemia. Em especial, satisfaz-me ver hoje tantos miúdos vestidos de verde, cor da esperança que põem na hipótese do Sporting voltar à liderança desportiva no país. As vitórias do Sporting são-lhes dedicadas. Estou assim com eles nesta felicidade conjuntural, embora uma vida como sportinguista me tenha moldado as emoções a um “possibilismo” que, evitando arrastar-me para o sofrimento, convoca em mim uma alegria ainda maior e mais saborosa quando as vitórias acontecem. Vivo muito bem assim, não trocaria esta minha forma de afetividade pelo Sporting por nenhuma outra. 

Sporting sempre!

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Mitterrand e a moda


Caramba! Passaram já 40 anos! Lembro bem a noite de 10 de maio de 1981, dia da vitória de François Mitterrand nas eleições presidenciais francesas.

Vivia então na Noruega e organizámos um jantar em casa para acompanhar as notícias, que nos iam chegar pela rádio de ondas curtas e pelas televisões norueguesa e sueca, as únicas que nos eram acessíveis. Convidei amigos que nos podiam ajudar a "decifrar" os noticiários naquelas línguas, além de outros que o acaso juntou nessa noite nórdica.

A esmagadora maioria dos nossos convivas, onde se contavam alguns diplomatas estrangeiros, muitos temerosos da anunciada chegada dos comunistas ao poder, acabava por alinhar num "giscardianismo" de oportunidade. Tudo menos Mitterrand! 

Nada de estranho, se pensarmos que a Guerra Fria estava ainda muito presente na vida internacional e que a experiência francesa assustava então muita gente. Estas coisas hoje parecem ridículas, mas, à época, havia quem falasse, sem rir, na possibilidade de tanques russos não tardarem na place de la Concorde.

Quando as notícias da vitória de François Mitterrand se confirmaram, esse núcleo de amigos conservadores entrou numa aberta depressão. As teses sobre o que iria suceder em França eram catastróficas: de desordens públicas a um conjunto de malfeitorias que a nova maioria, que forçosamente sairia das eleições legislativas subsequentes, seguramente iria desencadear, tudo era de esperar da "révanche" da chegada da esquerda ao poder.

Num certo casal estrangeiro, em que ela era bastante mais nova, notei que o marido, que trabalhava num banco, estava a ser carinhosamente consolado pela mulher, solidária na conjuntural desventura política do cônjuge. Mas era por demais evidente que ela tinha muito pouca consciência da complexidade do que estava a ocorrer. O marido, com a gravidade expressa no rosto fechado, disse, a certa altura: "Isto vai provocar uma desvalorização fortíssima do franco, vai ser gravíssimo!".

Eu não me continha e lançava umas piadas, em jeito de provocação. A certa altura, saiu-me esta: "Bom, há que perceber as vantagens de uma desvalorização do franco. Por exemplo, a roupa que se vende em França vai ficar muito mais acessível, a moda francesa vai embaratecer, agora é que vai valer a pena ir a Paris, às compras".

O que eu fui dizer! Mal eu tinha acabado de falar, vejo os olhos da jovem brilharem, a cara abrir-se-lhe num esgar de felicidade, como que por uma súbita descoberta das virtualidades da vitória da esquerda. Voltou-se então para o marido e, numa voz bastante audível, tanto mais que ele era meio surdo, disse-lhe: "Ouviste? É verdade que os vestidos vão ficar mais baratos? Não podíamos ir agora a França?".

Parte da sala sorriu. O meu amigo ignorou-a, olimpicamente, e fuzilou-me com o olhar. 

Eu ria, abertamente, feliz da vida com o resultado, olhando na televisão a place de la Bastille apinhada de gente. Com imensa pena de lá não estar!

O ar do tempo

Há um país que se sente mal neste país. Há um país que acha que o país o não segue ou, quando acaso episodicamente o faz, nunca consegue pôr o país a seu jeito. Há um país com uma infindável raiva, que acha que o país o não compreende, que vive num mal-estar endémico, em “blues” eternos. Há um país que acha que tem uma ideia salvífica para o país, a mezinha mágica para pôr isto direito, mas que o país, pateta, não consegue nunca entender. Há um país sobranceiro, arrogante, feito de gente que, afinal, apenas gostava que o país fosse aquilo que eles acham que o país devia ser. E que, talvez não por acaso, não é.

Esse país, que agora por aí anda com a bílis à solta, não gosta do país que tem, não gosta afinal do país que lhe deu a liberdade de não gostar do país. É o país tremendista do “nós” e do “eles”, em que estes últimos são o sujeito de todos os males, que só não são curados porque a “nós” não é dada a possibilidade de os corrigir. Esse país que agora anda muito vocal, mas que nunca fez nada pelo país, é filho incógnito daqueles a quem, em todas as épocas da nossa História, sempre desagradou o país que tinham. Para esses melancólicos iluminados pelas luzes da outra verdade, isto sempre foi uma “choldra”, uma “seca” feita país, a que urge abrir as portas e as janelas, deixando entrar o ar do tempo. O deles.

No passado, esse país indisposto com o país, era então o estrangeirado. Lá fora estavam todas as soluções, só era necessário importá-las para que a modernidade das ideias, afinal tão óbvia, pudesse aqui frutificar e dar-lhes, finalmente, a glória dos profetas. Com Abril, desembarcaram em Santa Apolónia, com livros e ambições de reconhecimento. O país, que tem da generosidade o sentido da medida, deu-lhes o que era devido. Não mais.

Mas a semente, qual OGM, mudou de qualidade, transmutou-se. O país do despeito transitou entretanto de geração, ilustrou-se nas Américas, leu Popper e, enterrando o latino, anglo-saxonizou o seu projeto. Andou os últimos anos a fazer livrinhos, acolhido em universidades de receita segura, colunizando-se pelas plataformas da moda. Nos partidos, onde se muda a política com a legitimidade das vontades expressas, entram e saem, nervosos, à medida das ambições, falhos de votos e reconhecimento. Cavalgando as inseguranças de muitos, as dúvidas de uns tantos, os temores de alguns, ei-los agora a adubar de populismo os seus discursos, tentando que os dias do país se confundam com os da sua raça.

Quem os topava bem era o O’Neill, que os citava, definitivos e, no entanto, tão tristemente provisórios: “Não, não é para mim este país!”. E era também um poeta, imaginem!, de Portalegre, Régio de seu nome mas republicano de gema, quem lhes respondia, quem lhes responde, em nome do país: “Não vou por aí!”

(Publiquei este texto aqui, vai para dois anos. Depois de ler uma entrevista a um semanário, no passado fim de semana, lembrei-me dele)

domingo, 9 de maio de 2021

Realmente

Acho que a Meghan e Harry, para completarem o ciclo habitual das vedetas do “star system” anglo-saxónico, em que tão esforçadamente se envolveram, já quase só falta uma estrondosa separação. Até lá, vão faturando.

As têvês

Houve um tempo em que tínhamos menos de meia dúzia de canais televisivos, pela qual pagávamos uma coisa simbólica, a qual, custeando também uma rádio pública sem publicidade e assegurando coisas como as RTP/RDP Internacional e África, era das mais baixas da Europa. Tudo bem!

Fomos então convencidos a passar para o cabo, que já não era tão barato quanto isso. Mas os “pacotes” vinham embrulhado com a net, os telefones, numa geometria variável de opções que, como é da regra destas coisas, induz um deliberado embaraço na escolha.

Mas, com os diabos!, passámos a ter “centenas” de canais disponíveis! Que bom! Só que depois, vendo bem, além de pagarmos o cabo e o tal preço simbólico dos canais tradicionais, cada vez é preciso desembolsar mais para abrir muitas dessas tais “centenas” de canais “disponíveis”, os Netflix, a SportTV e imensas coisas assim.

E os canais televisivos tradicionais, concessionários de licença pública, que originalmente víamos pagando a “taxa”, que já têm o dobro da publicidade da televisão pública, criam, eles próprios, como agora se (não) vê com a Opto, sistemas de acesso fechados. E para ver o melhor desses canais, temos de pagar mais...

After Eight


Creio que foi já nos anos 70 que o “After Eight” entrou em Portugal. A certa altura, não havia jantar social em que, com o café, não fossem servidos aqueles retângulos de chocolate com uma pasta de mentol dentro.

As donas de casa, ou os empregados, quando existiam, traziam aquilo aos convidados, numas caixas verdes de papel que, até lá, se colocavam nas prateleiras do frigorífico. 

Com os anos e os calores de época, todos tivemos a experiência de ser servidos de “After Eight” moles e pegajosos, difíceis de tirar do “saco” de papel, visivelmente reciclados da sua frescura antiga, que dava uma imensa e atrapalhada trabalheira deitar fora, quando estávamos em casa alheia. Graças a mim, várias plantas em vasos floresceram a cheirar a mentol.

Há um belo restaurante lisboeta que manteve, desde sempre, a tradição de servir um “After Eight” com o café. A quem acertar no nome da casa estou em condições de prometer que, quando lá forem, irão ter direito a um “After Eight”. E podem dizer que vão da minha parte.

Notícias do foguetão

A prova provada de que o meu sentido cívico está em franco declínio é o facto de me não conseguir interessar minimamente pela magna questão do foguetão chinês que vai cair por aí. Vou mesmo dormir sem pensar no assunto, o que me coloca numa posição político-social insustentável.

sábado, 8 de maio de 2021

Uma tasca histórica


Na fotografia estão pai, mãe e filho, a “troika do bem” que rege a “Imperial de Campo de Ourique”, uma das minhas mesas de estimação.

(Tenho ido pouco por lá - tenho ido pouco a toda a parte! Assumo que faço parte do grupo dos “cobardes” da pandemia: até tomar a segunda dose da vacina, não almoço ou janto em grupo, nem mesmo em família. Os meus amigos queixam-se imenso e sou brindado com epítetos qualificativos que nem me atrevo a revelar. Tenho para mim, contudo, que só se vive uma vez e, ao que me consta, esta é a última. Por isso, acho que todo o cuidado é pouco, faltando escassos dias para que possamos usufruir de maior liberdade. Mas percebo que este meu entendimento não seja o de outros.)

Hoje, fui almoçar à “tasca do João”, como também é conhecida a “Imperial de Campo de Ourique” (no 67 da rua Correia Teles. Mas só abre para almoços!). Tenho por hábito ir lá, aos sábados, para o bacalhau à minhota que a dona Adelaide prepara e que o Nuno me traz, sabendo bem de que tipo de posta eu gosto mais. Mas hoje havia também um cabrito. Abriu-se a refeição com um queijo amanteigado, simpático, cuja origem não cuidei em saber. O novo vinho da casa deu um imenso salto positivo, evitando mesmo o recurso ao “Rafeiro”, um alentejano razoável (no palato e no preço) que, por lá, nos últimos tempos, se bebe muito. Belas laranjas da Chamusca fecharam o menu, resistindo ao arroz doce, marca da casa.

No final tomei um café. Normalmente tomo dois. O João traz logo duas chávenas, ao mesmo tempo. Há uns meses, a curiosidade da minha parceira de mesa foi ao ponto de espreitar para dentro das chávenas, dando-se então conta que a cor do “café”, na segunda, era ligeiramente diversa da outra. Foi ver: era “Jameson”. E assim ficou prejudicado um truque que, por meses, eu e o João tínhamos montado, com sucesso...

O João quer agora que a sua casa passe a “Loja com História”. Eu acho que sim. Se também é frequentador e acha o mesmo, escreva a dizer isso para distincao.lojashistoria@cm-lisboa.pt .

Brasil

Desejo o melhor para o Brasil, mas, no auge de uma pandemia onde a morte é levada, por flagrantes erros oficiais, a dar “prioridade” aos mais pobres, uma ação repressiva “cega” como a que está a ocorrer no Rio pode ajudar criar uma “bomba relógio”, naquele país de desigualdades.

PPUE 2021




Lá para as dez e tal da noite de um dia do primeiro semestre de 2000, durante a segunda presidência portuguesa da União Europeia, em que tínhamos passado o dia dentro do edifício Justus Lipsius, em Bruxelas, desde as oito e tal da manhã, em sucessivas reuniões de trabalho, de janelas fechadas, respirando ar “artificial”, imensamente cansado, voltei-me para Jaime Gama, no carro de regresso ao hotel, e comentei: “O dia hoje correu muito bem!“. 

Gama respondeu-me com uma pergunta e uma resposta: ”Sabe por que correu bem? Porque já andamos por aqui há muito tempo! Olhe à volta daquela mesa: com as sucessivas mudanças de governos, nós somos dos mais antigos. Conhecemo-los a todos, desde o pessoal do secretariado do Conselho até à gente da Comissão, sabem bem quem somos e como somos. Torna tudo mais fácil!”.

Era bem verdade! Pensei nisto, há pouco, ao olhar a ”coreografia” da presidência portuguesa da União Europeia, no Palácio de Cristal, no Porto. 

A nossa equipa “política” está mais do que rodada: António Costa, que já foi vice-presidente do Parlamento Europeu, é dos mais “seniores” de entre os primeiros-ministros, o que é muito importante para quem vem de um país da nossa dimensão.

O MNE Santos Silva leva mais de um mandato no cargo, depois de ter sido ministro, creio, de quatro outras pastas. 

A secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Ana Paula Zacarias, acumula a sua experiência política nacional com o cargo anterior de embaixadora da União Europeia em vários países.

Na frente diplomática, dispomos de uma equipa rodada e verdadeiramente “de luxo”. Em Bruxelas, os embaixadores Nuno Brito e Pedro Lourtie. Em Lisboa, os seus colegas Rui Vinhas e Madalena Fischer. Tudo gente do melhor que o MNE tem “produzido“. Todos com anos de experiência, o que lhes confere uma grande autoridade como interlocutores negociais.

A presidência portuguesa de 2021 está a correr bastante melhor do que eu tinha julgado poder ser possível, atendendo ao constrangente circunstancialismo criado pela pandemia. Com a qualidade da equipa que colocou no terreno, em condições normais de trabalho, estou em crer que os resultados seriam ainda mais relevantes do que têm sido.

Portugal confirmou, uma vez mais, aquilo que a Europa há muito já sabe: sob a liderança portuguesa, as presidências semestrais são conduzidas com forte sentido de responsabilidade e são sempre muito bem sucedidas. 

Em todos os quatro momentos em que, nos últimos 35 anos, isso sucedeu, em ciclos políticos nem sempre idênticos, constatou-se igualmente que o facto de Portugal dispor de equipas políticas e diplomáticas rodadas para o exercício dos cargos acabou por ser um fator determinante para esses sucessos.

Barreto

A entrevista que de António Barreto hoje dá a um semanário é um auto-retrato demasiado cruel que acaba por fazer de si mesmo. Tenho pena que Barreto se furte a ponderar, ao dizer algumas das coisas que diz, entre algumas outras sensatas, na ajuda que assim presta a notórios setores anti-democráticos.

Moedas

Carlos Moedas, um homem sério, cordato e competente, que honrou Portugal num cargo de comissário europeu, que ele próprio teve o mérito de “construir” e onde se (e nos) prestigiou, deve perceber que um discurso “caceteiro” pode atenuar-lhe a derrota mas afetar-lhe a (boa) imagem.

AO


No “Expresso”, Henrique Monteiro disse tudo o que é preciso dizer, sempre com uma gargalhada à mão.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

“Observare”


Este sábado, o “Observare” será naturalmente dedicado à Europa, em especial à reunião magna do Porto.

Sob a coordenação de Filipe Caetano, Carlos Gaspar, Luís Tomé e eu, estaremos em direto, a partir das 15:00 horas, na TVI 24.

Em terras de Sá Carneiro

O candidato do PSD à Câmara do Porto, que é Feliz de nome, tal como o são as coincidências, disse que fará “das tripas coração”. Se o disse por graça, “chapeau” para a “trouvaille”. Se foi por acaso, merece o resultado que vai ter.

Depois, digam que não avisámos!


 

Embrulhem!


Há ainda por aí quem se não sinta orgulhoso, como português, ao ler isto, no editorial da “Sábado”, sobre a atitude da nossa população e dos trabalhadores imigrantes, que operam nas estufas alentejanas?

À dúzia!


O Estrela da Amadora ganhou 2-1 ao União de Leiria. Durante alguns segundos (leram bem!), ao minuto 83, o Estrela, por uma confusão aquando de uma substituição, teve momentaneamente 12 jogadores em campo. O árbitro deu rapidamente conta do sucedido, a situação foi corrigida e o jogo prosseguiu. No final, o Leiria anunciou ir protestar o jogo. (Claro! Só faltou aos seus dirigentes dizerem: “Se tivéssemos ganhado, protestávamos na mesma...”. Nós sabemos!)

Há uns bons anos, vai para quase meio século, uma seleção portuguesa foi a Goiânia, no Brasil, para um jogo com o “escrete canarinho”, para inauguração de um estádio. Era selecionador nacional José Maria Pedroto. 

Num certo momento do jogo, também por uma confusão, aquando de uma lesão de um jogador (que foi logo substituído, mas que, não tendo notado isso, regressou ao campo), Portugal passou a jogar, por alguns minutos, com 12 jogadores. 

Das bancadas começaram a ouvir-se fortes protestos. No banco português, que não tinha dado conta do lapso, estranhando o que entendeu ser um deselegante bruá anti-luso, tanto mais tratando-se de um jogo “amistoso” (entre nós, “amigável”), o selecionador enfureceu-se e ameaçou que a equipa nacional interromperia o jogo e recolheria ao balneário. 

Ao que parece, teve de vir da tribuna até ao banco o chefe da delegação portuguesa, para convencer Pedroto, sob o olhar preocupado do embaixador português, Vasco Futscher Pereira. 

Foi graças à intervenção desse vice-presidente da Federação Portuguesa de Futebol que o assunto se resolveu. Deixo aqui o nome desse dirigente futebolístico, que ali ganhou o seu lugar no memorial nacional, para que conste: Marcelo Rebelo de Sousa.

Eduardo Cabrita



Escrevi, há tempos, um texto em que dizia isto sobre Eduardo Cabrita. Em tempos de “assédio” ao ministro, por parte da oposição, aqui repito:

“Há muito que se notou que Cabrita é um mal-amado da comunicação social, que nunca pareceu simpatizar com o estilo do ministro, que admito possa ser lido como algo pomposo, quiçá arrogante. Cabrita não promove a captura charmosa dos média, mostrando-se sempre muito afirmativo e distante, projetando a ideia de que tem poucas dúvidas nos caminhos que segue. Acresce que as ironias políticas, que às vezes ensaia publicamente, não parece fazerem parte sua especialidade, embora se diga que, em privado, é um homem com sentido de humor.

Porque governa em minoria, mas também por estilo próprio, António Costa rodeia-se de pessoas sobre as quais possa exercer forte autoridade política e, em muitos casos, em quem tem grande confiança pessoal. É sabido que Cabrita faz parte, há muito, do círculo próximo do primeiro-ministro. No plano operativo, é o que os anglo-saxónicos chamam um "trouble shooter", em português corrente, um "carregador de pianos", disponível para tarefas difíceis. Quem o conhece sabe que é um político com elevado sentido de serviço público, de uma integridade à prova de bala.”

Deixo aqui um abraço solidário ao Eduardo Cabrita.

Precedências


Quem fica à frente de quem numa cerimónia pode parecer uma questão bizantina para um observador comum, mas não o é para quem conhece as questões institucionais. 

A ordem de precedências repercute a hierarquia de poderes. Por alguma razão, por muitos anos, depois do 25 de abril, a lista de precedências das autoridades do Estado esteve “congelada”: a ausência de consenso em matérias que metiam presidência de tribunais superiores, chefias militares e um certo tipo de governantes, por exemplo, criou muitas dificuldades. 

Pelo caminho, ficavam outras questões polémicas, como o lugar das autoridades religiosas ou o gesto, que alguns consideram dever ser feito, ao familiar em linha direta da última família que titulou a monarquia. Mas lá se chegou a um consenso relativo, com alguns restos de ambiguidade pelo meio.

Se, ao nível nacional, as coisas têm esta delicadeza, no plano externo o tema assume uma imensa complexidade, porque pode significar desigualizar os países. Mas é também uma questão sensível no âmbito das organizações internacionais.

Há semanas, assistimos à cena da presidente da Comissão Europeia, na Turquia, ter sido privada de um lugar equivalente, em precedência, ao do seu colega presidente do Conselho Europeu, com este último a assumir o “faux pas” de deixar que a cena se passasse como se passou. O famigerado Tratado de Lisboa é um dos culpados de isto acontecer, para além de outras coisas más, entre as poucas boas, que trouxe à vida europeia.

Passaram mais de duas décadas anos, pelo que acho que já posso contar uma história ocorrida no Conselho Europeu de Lisboa, em março de 2000, bem antes daquele tratado.

Depois de um almoço do Conselho Europeu, com os primeiros-ministros, iam reunir os ministros dos Negócios Estrangeiros dos então “quinze”. 

A certa altura, no caminho para a reunião, naquele espaço junto à Junqueira, senti que alguém me metia o braço: era Javier Solana, desde há meses Secretário-Geral do Conselho e Alto-Representante para a Política Externa e de Segurança Comum. 

Eu sabia que ele não andava muito bem disposto. Na noite anterior, tinha tido um dissídio com o nosso Diretor-Geral de Política Externa, o embaixador João Salgueiro, que me tinha obrigado a sair de casa, cerca da uma da manhã, para ajudar superar o problema - uma questão que, a esta distância, já esqueci qual era.

Javier também vinha desagradado com o lugar que lhe tinha sido dado à mesa do almoço. Reagi, bem humorado: “Hombre! Te quedaste a mi lado!” O problema dele era o facto de estar “menos bem” colocado do que Chris Patten, o comissário que tinha a seu cargo as Relações Externas: o eterno problema Conselho vs Comissão. E perguntou: “Agora, na reunião, fico à direita ou à esquerda do Jaime (Gama)?”. Disse-lhe, francamente, que não sabia. 

Chegámos à sala, fui para o lugar de Portugal (era Jaime Gama quem presidia à reunião, pelo que eu chefiava a nossa delegação). Vi o “sitting arrangement” da cabeceira do Conselho e constatei que Patten se sentava à direita de Gama. Olhei para o outro lado e lá estava Solana. Cruzou o olhar comigo, à distância, e levantou os braços ao céu, como que a exclamar: “Estás a ver isto?!”. Eu fiz um gesto com as mãos, de que nada podia fazer. E lá se fez a reunião dos chefes da diplomacia europeia. 

Acabou tudo em bem, creio eu!

quinta-feira, 6 de maio de 2021

 


Verdes, na Escócia


Era um domingo. Creio que foi em 1993. Perto de Glasgow. Numa bomba de gasolina, numa localidade pequena.

Atestei o depósito, entrei na loja, levei, de uma prateleira, o “Sunday Times Scotland” e fui pagar. Ao balcão, uma senhora, na casa dos (então meus também) quarenta, com uns olhos verdes. Deslumbrantes.

Chegado à porta, voltei atrás e disse à senhora, sem grande jeito para estas coisas: “Não vai levar a mal se eu lhe disser uma coisa? Tem uns olhos lindíssimos! É só isso que queria dizer-lhe!”.

Ela sorriu, levemente, e disse “Thank you!”

A minha dúvida é se ela tomou nota da matrícula, do nome no cartão de crédito, se isto pode ser considerado assédio e se o crime terá prescrito, não obstante eu poder invocar imunidade diplomática. Estou a brincar? Não, já não sei se estou a brincar!

“A Arte da Guerra”


Falamos da reunião entre a União Europeia e a Índia, das atribulações de Emmanuel Macron com os militares franceses e, finalmente, do modo como o papa Francisco está a gerir a transparência financeira do Vaticano.

Pode ver aqui.

Ser “benfiquista”!


Há muitos anos, num corredor das instalações do serviço do MNE que tratava da Europa comunitária, ali pela Visconde de Valmor, revelei que ia nessa noite à Luz ver um jogo internacional em que intervinha o Benfica. E saiu-me a frase: “Vamos lá ver se ajudamos os lampiões a passarem esta eliminatória!”. 

Vi então um jovem colega, o José Menezes Rosa, franzir o sobrolho e, sorridente, lançar com ar definitivo: “Um sportinguista nunca quer que o Benfica ganhe, em nenhuma circunstância!”

Anotei a doutrina. Não sei por onde anda no mundo, nos dias que correm, o meu bem mais jovem colega José Menezes Rosa. Mas gostava de saber. Apenas para lhe perguntar se, na tarde de hoje, no jogo entre o  clube da Luz e uma equipa do norte cujo nome agora me escapa, ele não vai ser um fervoroso “benfiquista”. Eu até as “papoilas saltitantes” vou cantar!

Sancho


Aqui por Lisboa, há alguns, poucos, restaurantes em que a moda quase não toca. Muitos dirão: e ainda bem! Um deles é o "Sancho", na Travessa da Glória. bem junto aos Restauradores. É um restaurante que conheço há várias décadas, que não aparece com frequência nos guias, que não anda nas bocas da crítica, mas onde, desde há muito, se pode encontrar uma cozinha sólida, sã, com uma qualidade constante que, não lhe conferindo um espaço de destaque nos Michelin & Cia, lhe garante um lugar na simpatia de muita gente que o frequenta, alguns com persistente e leal regularidade. Voltei lá, não há muito tempo, para um almoço de trabalho, com um amigo. Cheguei antes dele. Disse o seu nome e logo alguém ordenou: “Leva o senhor embaixador à mesa do senhor doutor...”. Como já lá não ia há uns tempos, tive de fazer “de conta” de que não fiquei surpreendido por me terem identificado (ou teria sido o meu amigo que alertou, como hipótese mais modesta). O almoço foi agradável e, a aquilatar pela lista que no início consultei, os preços estão numa escala de razoabilidade. Não posso dizer que saí esmagado de luxúria gastronómica, mas - com a franqueza com que digo sempre aquilo que penso dos locais que visito - posso dizer que fiquei satisfeito. Uma cozinha de restaurante para uso regular é aquilo mesmo: qualidade sustentada, serviço atencioso, cuidado com os clientes, tudo coisas que, nos tempos que correm, fico sempre contente por encontrar em Lisboa. Não sei quando vou voltar ao Sancho, mas, da próxima vez que andar pelo pelo fundo da Avenida da Liberdade, vou-me lembrar deste restaurante onde, pela primeira vez, nos anos 60, um tio que já lá vai há muito me levou a almoçar, numa primeira aprendizagem das mesas de uma Lisboa que, felizmente, ainda conseguimos reencontrar nos dias de hoje.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Pensem nisto!


O futuro e a nossa segurança passam por aqui.

Nunca interromper!


Por muitos anos, em Campo de Ourique, havia dois restaurantes cuja clientela se dividia bastante, ideologicamente. 

Os socialistas iam muito ao “Tachinho” (nada de graças, está bem?) e os social-democratas enchiam o “Comilão” (aqui, se quiserem fazer humor, façam favor!)

Talvez porque sou “do contra”, sempre fui um frequentador deste último e só raramente passava pelo primeiro. 

O “Comilão” é talvez o restaurante português a que o PSD pode chamar mais “a nossa casa”. Uma das suas paredes está cheia de fotografias de figuras gradas da constelação histórica social-democrata. Mas não só!

Um dia, recomendei a um amigo que fosse lá almoçar. Quando lhe perguntei que tal tinha sido a refeição disse-me: “Entrei cheio de apetite mas perdi-o logo, ao olhar a parede...”

Passos Coelho, que vivia perto, além de um grande amigo da casa, foi um seu frequentador regular. Mas encontrei por lá, ao longo dos muitos anos de cliente que também sou, uma miríade de gente do PSD. Não sendo dessa “freguesia” política, devo dizer que fui sempre muito bem tratado no “Comilão”, porque aquela é uma casa em que, no que toca a clientes, não há sectarismos!

Há mais de duas décadas, no meus anos de passagem pela política, gostava muitas vezes de almoçar por lá sozinho, com uma montanha de jornais e papelada para ler. Ia tarde, quando a maioria dos clientes já tinha zarpado. Os meus amigos Cardoso e Nelson (o primeiro, um sportinguista de raça, o segundo um lampião de carteirinha) arranjavam- me então duas mesas anexas, onde eu podia estender todo o meu “material”.

Numa dessas vezes, quiseram-me colocar junto de uma mesa onde estavam, num evidente “tête-à-tête” de conspiração, duas figuras muito importantes e muito conhecidas, ambos antigos e futuros ministros, do PSD. Na altura, o líder do PSD era o chefe da oposição ao governo de que eu fazia parte e sabia-se que a sua condução das hostes social-democratas estava longe de fazer a unanimidade (um velho hábito no PSD, como é sabido). A coreografia da conversa apontava para estarem a “cortar na casaca” do seu líder...

À entrada, eu tinha cumprimentado essas pessoas, que naturalmente conhecia, e procurava uma mesa adequada aos meus propósitos de leitura. O Cardoso, simpático, apontou-me um lugar, o qual, porém, logo notei que estava a “hearing distance” dos dois interlocutores da oposição. 

Eles, simpáticos e urbanos, sorriram, sem reagir, à ideia de me irem ter ali ao lado, preparando-se, pela certa, para terem de baixar o tom da conversa ou serem obrigados a modulá-la à luz do novo circunstancialismo. 

Eu tomei então a iniciativa de recusar o espaço que me era oferecido e, por forma a ser ouvido pelas duas figuras políticas, disse: “Muito obrigado, mas nessa mesa não pode ser. Não se estraga nunca uma boa conspiração contra um adversário...” Ambos riram e eu lá fui, para mais longe. 

Daqui a dias, tenciono regressar ao “Comilão”. Desta vez, espero poder comemorar uma coisa com o meu amigo Cardoso e receber os parabéns do meu amigo Nelson.

terça-feira, 4 de maio de 2021

País sem censo

Como já se previa, lá mudou a data para resposta ao Censo! Por que razão, neste país, quem cumpre os prazos vive sempre sobre pressão mas o lóbi dos incumpridores - por desleixo, por descaso, por se estarem “nas tintas” - consegue sempre uma boleia da vontade oficial?

Que medo! Vem aí o comunismo!


Este ano, em que celebra o seu centenário, está a ser de indiscutível glória para o PCP.

Uma paranóia bizarra de alguma direita anda por aí a relançar o "espetro" do comunismo. Podemos imaginar o que isto deve fazer rir, na sua tumba em Highgate, o velho Marx, o qual, curiosamente, comemoraria amanhã o dia em que veio ao mundo, lá por Trier ou Trèves, conforme queiram chamar à terra. Aliás, ele e o seu compincha Engels já tinham falado de como esse espantalho sempre assustava alguns, logo no primeiro parágrafo do seu célebre Manifesto.

O que é mais ridículo é que o tema, que se pensava que tinha caído fragorosamente com o muro, há uns anos, lá por Berlim, ressurja agora de forma caricata - apontando-se como modelos “de referência” o maluquinho dos mísseis da Coreia do Norte, o patético genérico de Chávez que, em fato de treino, atazana os venezuelanos ou os herdeiros empobrecidos dos reformados da Sierra Maestra, a quem o bloqueio americano ofereceu décadas de caribenho alento patriótico. Se o perigo vem dali...

Bem dizia o velho Karl que a História surge uma primeira vez como tragédia e uma segunda como farsa. O anti-comunismo, ao que se vê, também: andou em outros tempos pelo “Diário da Manhã” e pelo “Novidades” para acabar hoje no “ Observador”. Que maldade! Não se faz!

Alentejo desencantado

Há um país hipócrita que nasceu agora para a realidade das condições de vida miseráveis dos trabalhadores estrangeiros que trabalham nas estufas alentejanas. É escandaloso alguém vir manifestar surpresa perante uma questão que já nos envergonha há muitos anos.

O sal da vida

Gosto que o Sporting ganhe. Fico feliz pelo facto do meu clube ter conquistado um título internacional em futsal. Mas confesso que o futsal é uma modalidade que não me entusiasma minimamente. E também acho que não tenho de pedir desculpa por isso.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Então, nada?

“Então não publicas nada no teu blogue, hoje?”.

Já estava à espera disto, confesso. As novas tecnologias dão-nos uma vida impossível: três horas de Zoom de manhã, almoço a correr, gravação de um programa via Spype, uma reunião empresarial via Teams, ida à garagem (“a estimativa do conserto aponta para cerca de mil euros)”, duas horas a dar uma aula via Zoom, jantar à pressa e, agora, ir a uma reunião do outro lado da cidade servem de desculpa?

domingo, 2 de maio de 2021

Justiça

Nas redes sociais, houve uma acusação grave contra uma pessoa publicamente conhecida. Hoje, essa pessoa anunciou ter recorrido à Justiça, contestando a imputação que lhe foi feita. Num Estado de direito, uma acusação não é uma condenação. Deixemos que a Justiça decida.

Mãe

Alguém me fez notar, há tempos, algo que já me tinha ocorrido: naquilo que escrevo, refiro muitas vezes o meu pai e, muito raramente, a minha mãe. 

É uma verdade. Posso presumir que isso se deva ao facto de o meu pai ter sido uma pessoa com uma postura mais singular, mais afirmativa, mais “vocal” (no sentido anglo-saxónico), às vezes até mais cortante, na linha da tradição familiar que vinha da ala da família que era a sua. Lembro-me dos qualificativos que ele dava a algumas tipologias de comportamento, que nos ajudavam tão bem a perceber logo como alguém era. Como sobreviveu, por uns anos, à minha mãe, tendemos a concentrar ainda mais nele, e nas suas atitudes e ditos, a nossa atenção.

Não me recordo de ouvir algo de similar à minha mãe, a qual, no entanto, não deixava de ser uma personalidade bem forte e com imensa influência no curso de “funcionamento” da família, muito em especial junto do meu pai. Por isso, porque era mais dado a utilizar essas expressões - “isso é muito dos Costas”, ria-se a minha mãe -, ficaram-me, do meu pai, essas “citações”, que, às vezes, tendo a recriar no meu próprio estilo. 

Dela, da minha mãe, ficaram-me coisas essenciais, atitudes eternas de vida, ternuras que guardo, coisas que nem se escrevem. 

Hoje, dizem, é o dia das mães. Lembrei-me da minha, como me lembro todos os dias - e já lá vão 20 anos.

Deixo, como sua lembrança, e uma vez mais, este poema de Eugénio de Andrade que, quando o li, há uns poucos anos, me pareceu que lhe era dedicado:

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte. 

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Turismo de família


Tenho uns familiares que estão a pensar comprar uma propriedade, algures no Alentejo, para aí instalar um “turismo rural”. O entusiasmo da família com o empreendimento está a ser tal que todos já prometem ir lá passar uns dias. 

Temo que venha a passar-se o que, nos anos 20, do século passado, aconteceu com umas tias, irmãs da minha avó materna, que, aproveitando o que tinham recebido de uma herança, instalaram, nas Pedras Salgadas, o “Hotel Colonial”, num tempo em que ir “para as águas” estava na moda. 

Ao que consta, toda a imensa a família se aprontou logo a lá ir passar férias - na época “alta”, claro. Não faço ideia que preços “especiais” foram praticados. Só sei que o empreendimento acabaria por se revelar um desastre, como negócio...

“Observare”


Aí está o “Observare” desta semana. Neste programa da TVI, sob a moderação de Pedro Bello Morais, com Carlos Gaspar e Luís Tomé, fazemos um bosquejo das questões do mundo, desde o “estado da arte” da presidência portuguesa da União Europeia ao discurso de Joe Biden, ao final dos primeiro 100 dias da sua presidência, abordando igualmente a questão de Cabo Delgado. Pela minha conta, sublinho as controvérsias que envolvem o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, bem com saúdo a decisão do Parlamento Europeu de suspender a imunidade diplomática a um criminoso grego, que se escudava por detrás de um partido neo-nazi.

Pode ver aqui.

Avisem-me, está bem?


Queria pedir o favor de me avisarem quando a ponte suspensa de Arouca deixar de ter visitantes. Nessa altura, quando puder passar por lá (aproveitarei, já agora, para ir almoçar ao “Parlamento” e encontrar, pela cidade, a nossa amiga Josefina e, se calhar, o Joaquim Brandão, como me aconteceu da última vez), gostaria de ter essa experiência. Mas não antes!

Faço parte de uma “raça”, por mania própria, que faz questão de “não ir” às novidades. 

Todos os anos, faço uma deliberada abstinência às aparições fílmicas. Quando surgem películas que estão escaladas para ou já tiveram Óscares, a minha reação automática é não as ver. Deixo passar - a sério! - um ano ou dois. Passo quase vergonhas nos “dinêrs en ville”, quando toda a gente já comenta um filme e eu, olimpicamente distante, digo: “Ainda não vi!”. Já olhei muitas caras espantadas a mirar-me de pasmo. A minha mulher vive menos bem com isto, porque há muito percebeu (ter começado a namorar comigo há 56 anos, dá para me conhecer já um pouquinho) que eu faço isto deliberadamente. E começa a irritar-se! Por este andar, daqui a vinte e tal anos, há uma crise no casamento!

Com a ficção literária, atuo da mesma forma. “O Nome da Rosa”, do Umberto Eco, é a minha coroa de glória. O filme, com o Sean Connery, saiu mesmo antes de eu ter lido o livro. Mesmo os que não tinham lido o livro já o comentavam, sempre comigo a deixar cair: “Já sei que é bom. Um destes dias leio!”. Um dia, li. Desde que a Elena Ferrante entrou na moda, eu coloquei-me à distância. Cá em casa, já passaram todos - mas todos! - os volumes e eu... nada! Já me tinha acontecido o mesmo com o “Memorial do Convento”: deixei passar dois anos sobre a edição, antes de o ler. Com os policiais nórdicos, foi a mesma coisa: eu ainda andava pelo Ellery Queen e pelo Dennis McShade e o pessoal cheio de ler sobre neve salpicada de sangue lá no cimo da Europa. Até na não-ficção isso se passa: o tempo que eu andei para ler o “Diplomacy”, do Kissinger! E ainda tenho em atraso, claro, todo o António Damásio. E tantas coisas mais!

Ultimamente, como quase deixei de ver televisão, a “snobeira” mudou de registo: só no dia 29 de abril li o (excecional!) discurso do presidente da República no 25 de abril (repito, um extraordinário discurso!). E tenho assim perdido, pelo menos no “timing” dito adequado, algumas outras coisas “imperdíveis”. Há um amigo, que me telefona quase todos os dias, que até hoje não entende como é que eu, com todas estas “falhas”, ainda consigo escrever nas redes sociais e na imprensa! 

Mas sou assim, que se há-de fazer! 

Há lá maior prazer do que encontrar um “finaço” do Porto e, perante a pergunta “O que é que achaste do Euskalduna?”, poder responder (a quem tem a ideia de que eu conheço ali desde a Badalhoca aos estrelados Michelin), com deliberada indiferença: “Nunca lá fui! Vale a pena?”

Há muitos anos, arrependi-me bastante desta atitude. Vivia no estrangeiro e, no Dona Maria, exibia-se o “Passa por mim no Rossio”. Eu adorava teatro de revista, como gosto imenso de fado (desde o chungoso ao aristocrático, com exceção do “Avenidas Novas” - um dia explico isto). Quando vinha a Lisboa, nunca havia bilhetes. Como não meto cunhas (quem alguma vez tiver recebido uma cunha minha pode escrever isso, em caixa alta, nos comentários), e aquilo continuava “na moda”, fui deixando passar a oportunidade. Até que a revista saiu de cena. Um dia contei isto ao José Bouza Serrano, que chefiava um gabinete de um governante com autoridade na noite lisboeta. Escandalizou-se: “Ó Francisco, podias ter dito! Arranjava-te, com gosto, dois bilhetes!”. Não pedi, perdi a revista. Dessa, não me perdoei!

Pronto(s)! Não gosto de ir às novidades! Era só isto que queria dizer. Ah! E pedir que me avisem quando aquilo em Arouca estiver “sem povo”!

sábado, 1 de maio de 2021

Notícias do fim do mundo

Um grande amigo contou-me que costumava dizer aos seus conhecidos estrangeiros que, se um dia se anunciasse o fim do mundo, uma maneira de se protegerem era virem viver para Portugal: cá, tudo chegava com dez anos de atraso! Hoje, ao ler algumas “ondas” que por aí andam, podemos concluir que o tempo de espera de certos ciclos se encurtou: as coisas chegam cá mais rapidamente. Só que o estilo de abordagem lusa do tema é como o bife, é “à moda da casa”.

Sociologia empírica


Há pouco, deu-me para olhar para as estatísticas de visitantes deste blogue, oferecidas pelo próprio sistema. Não resisti a fazer alguma breve interpretação do números, sempre tendo presente que visitas não equivalem necessariamente a leitores. Por exemplo, não acredito ter leitores nos 176 países de onde houve visitas registadas ao blogue. Por isso, valendo o que vale, aqui fica essa análise.

O blogue começou a ser publicado em fevereiro de 2009, quando era embaixador em Paris, lugar que ocupei até janeiro de 2013. O estilo dos textos, dadas as funções institucionais que desempenhava, era relativamente contido e politicamente neutral, naturalmente sem incursões pelas questiúnculas que então dividiam o país. Os índices de leitura do blogue foram crescendo, de forma sustentada, à medida que ele se tornava conhecido.

De 2013 a 2015, tendo deixado de ter funções oficiais, o blogue mudou de registo. Passei a poder tomar posições sobre temas que, no passado, me estavam vedados. E, com naturalidade, os textos passaram a fazer transparecer a minha aberta oposição ao governo que estava então em funções, em especial em artigos que escrevia para jornais. Os níveis de leitura aumentaram bastante. Até ao período do início da “geringonça”, o número de visitantes mensais chegou quase aos 100 mil.

Quando, a partir daí, passei a apoiar a nova solução de governo, o número de visitantes declinou: ser “da situação” não só não acarreta popularidade como afasta quem é hostil...

Os “boosts” que se notam, com súbitos altos e baixos, que passam a ocorrer entre um certo momento de 2016 e o início de 2018 têm uma razão muito especial: houve ali “mão” de uma empresa que, um dia, me informou querer “potenciar” mecanicamente as visitas ao blogue, com vista a poder propor-me, com a inclusão de publicidade, a sua exploração comercial (isto “fabrica-se”, sabiam?). Como acabei por não me mostrar interessado em retirar qualquer rendimento comercial do blogue (que poderia chegar aos dois mil euros/mês, ao que fui informado), a partir de janeiro de 2018 as “máquinas” desligaram-se e o blogue regressou aos seus “verdadeiros” visitantes. Confesso que foi um sossego, porque, nesse período “eufórico” de números, eu não percebia exatamente quantas pessoas me liam e qual era o “acréscimo” artificial que essas “máquinas” faziam.

Desde o início de 2018, passou então a registar-se uma descida de visitas, até cerca de 30 mil visitantes/mês, em inícios de 2019. Pensei que esse “trend” estivesse a ditar o declínio inexorável do blogue. Porém, a partir de inícios de 2020, houve uma sensível recuperação de leitores, que ultimamente não têm baixado dos 50 mil/mês. Convém notar que, a partir de 2013, grande parte dos textos passou a ser publicada, quase simultaneamente, no Facebook, pelo que muitos dos antigos leitores do blogue se deslocaram para esta nova plataforma, onde há hoje mais de 17 mil seguidores.

Há dois fatores que, verifico, influenciam bastante os “picos” ocasionais de leitura. Por um lado, o número de textos publicados (em 2020, aumentei bastante o número de posts, porque passei a reproduzir ali alguns dos textos curtos que publico no Twitter), com o número de leitores a acompanhar esse volume crescente de produção, mês após mês. O segundo - e, verdadeiramente, o mais decisivo - é quando algo publicado no blogue suscita alguma polémica pública, com consequente procura do Google. Esses textos passam a ter uma leitura excecional e as visitas ao blogue disparam logo.

Mas há uma realidade que creio inescapável: os blogues desta natureza, isto é, de ideias e sem objetivo comercial, estão a ficar fora de moda. Além disso, os blogues individuais dão muito trabalho a alimentar e começam(os) a ser raros os que se sustentam no “mercado”. As pessoas deslocam-se, cada vez mais, para outras plataformas nas redes sociais, até porque escasseia a paciência para ler textos longos, como os que por aqui frequentemente publico. Porém, até eu um dia me cansar, este blogue vai continuando.

Quanto às estatísticas, como as que aqui trago, confesso que elas me são quase indiferentes. Às vezes, passo meses sem as olhar. Não que o número dos meus leitores seja irrelevante, longe disso!, mas porque este exercício de escrita simplória é, pelo menos no meu caso, feito muito “para mim”, para registo pessoal de opiniões e de memórias. Porém, hoje, na madrugada do dia do trabalhador, deu-me para fazer, em modo impressionista, este “trabalho de casa”, que achei curioso, em especial para uso de quantos ainda se dão ao simpático cuidado de me lerem.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

A geografia da vida


O inferno das máscaras retira a naturalidade às relações humanas e, em especial, à alegria dos encontros fortuitos. (Claro que sei que tem que ser assim! - e isto é um aviso para quantos tresleem tudo o que se escreve!). Damos de frente (ia dizer “de caras”, mas, afinal, é só “meia” cara) com pessoas que julgamos conhecer e, a menos que um de nós arrisque identificar-se (mas é um tanto ridículo se, afinal, a pessoa acaba por não ser quem julgamos), ficamos a olhar-nos de modo estranho, até que desistimos desse consumar esse potencial “descobrimento” aventuroso.

Há poucas horas, numa cerimónia oficial a que funções, também oficiais (é verdade, ainda as tenho, mas não são pagas, para que conste), me levaram, fiquei ao lado de uma senhora idosa (a senhora em causa, como já irão notar, tem mais 23 anos do que eu, o que me permite esgueirar-me com alguma “juventude” relativa por esta historieta). 

Fizemos um cumprimento leve com a cabeça e coloquei a minha própria a pensar: quem poderá ser esta senhora? Ela estava ali em funções similares às minhas. Aquele cabelo! A cerimónia ainda não tinha começado. 

Só um minuto depois, é que se me fez luz. 

Aquela senhora tinha sido minha professora de Geografia, na faculdade, em 1968/69. Era a professora catedrática Raquel Soeiro de Brito, discípula de Orlando Ribeiro e, sem contestação, uma das figuras mais marcantes daquela especialidade académica a nível nacional. 

Há cinco anos, num tempo em que ainda não andávamos neste baile pandémico de máscaras e num dia em que ambos tínhamos tomado posse das funções que ainda hoje ocupamos, a professora Raquel Soeiro de Brito tinha tido a gentileza de atravessar uma sala do Palácio de Belém para vir ter com este seu antigo aluno, a quem saudou com generosa simpatia. Fiquei encantado com o seu gesto!

Falámos então desses tempos antigos no Palácio Burnay, na Junqueira, numa escola onde preponderava Adriano Moreira, tendo ela lembrado que, no seio do corpo docente, eu tinha uma imagem de “revolucionário” (era dirigente estudantil e tive por ali alguns conflitos, mas, na realidade, eu era um “paz de alma”, ao lado de outros). 

A professora Raquel Soeiro de Brito é hoje uma senhora de 96 anos, com um aberto e agradável sorriso (lembro-me bem dele, do tempo sem máscaras e a fotografia prova-o). Na ocasião, devo dizer que não consegui ter coragem de dizer-lhe que, como professora, há mais de meio século, ela projetava, com aquele seu ar quase nórdico, uma imagem um pouco intimidante e que dela recordava umas graças cortantes, das quais alguns colegas eram frequente alvo. 

Há pouco, quando pensei relembrar-lhe quem eu era, para o que me preparava para tirar a minha máscara por um instante, o “dono da casa” entrou no espaço onde estávamos, a cerimónia teve início e eu perdi assim o ensejo de saudar, como devia, a minha antiga professora de Geografia.

É que gostaria de lhe ter dito que, se no exame que fiz no fim das aulas teóricas não passei então de um mísero e justo 13, eu viria, afinal, a ter o privilégio de uma imensidão de “aulas práticas”, na muita geografia de algum mundo por onde a vida me fez andar.

Palermice

Já estava a estranhar que uma coisa tão óbvia como o Censo, feito a cada dez anos, para se perceber o país em que vivemos, não viesse a ser contestado por acusações palermas de "orwellianismo". A demagogia tomou conta da praça pública, com a redes sociais a ajudar.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

“O Mundo não tem de ser assim”


Ela aí está, com o belo título de “O Mundo não tem de ser assim”, uma biografia muito completa de António Guterres.

Um dia, já há uns bons anos, um dos autores, Filipe Domingues, disse-me ter tido a ideia, com um amigo, de fazerem uma obra sobre a vida do secretário-geral da ONU e antigo primeiro-ministro. Na altura, lembro-me de lhe ter comentado que o único trabalho sobre Guterres que existia, além de datado, ficava muito aquém do que era devido ao cidadão português que mais longe fora no mundo internacional, pelo que uma boa biografia de Guterres claramente que se impunha. E que, antes que alguém, lá por fora, avançasse com isso, era muito bom que se colocassem em movimento.

Para tal, disse-lhes, era vital que eles conhecessem o embaixador João Lima Pimentel, um grande amigo de juventude e que também havia sido colaborador próximo de António Guterres, o qual tinha uma imensidão de histórias sobre o amigo e que, além disso, poderia ser a chave para muitas portas se abrirem, a principal das quais era o próprio potencial biografado, o qual, à época, estaria ainda longe do projeto.

Com os autores, o João Lima Pimentel e eu tivemos uma longa conversa, durante um simpático jantar onde eu conheci aquele que seria o outro autor, Pedro Latoeiro, e em que ambos conheceram João Lima Pimentel. Esse foi, ao que recordo, o meu único contacto com os autores da obra, durante toda a sua feitura. Às vezes, ao longo dos anos que se passaram entretanto, perguntava ao Filipe Domingues como iam as coisas, que sempre teriam de demorar o tempo que este tipo de obras sempre leva.

Fico muito satisfeito por ver agora surgir o fruto daquele que deve ter sido um intensíssimo trabalho. Porque a vida não dá para tudo quando queremos, ainda só tive tempo de passar os olhos por alguns capítulos daquelas quase 700 páginas, densas de um tempo de Guterres que acompanhei, grande parte dele à distância mas, desde cedo, com atenção. Numa outra parte, relativamente curta, com alguma proximidade. Agora, mesmo sem ter lido o livro todo, não quero deixar de saudar um empreendimento que sei ter sido feito com grande rigor e entusiasmo. Como António Guterres merecia, aliás.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

“A Arte da Guerra”



Da importância a nível nacional espanhol das eleições regionais em Madrid à crise política e às dependências externas da Geórgia, passando por uma reflexão sobre a primeira cimeira da NATO com Biden. 

Veja aqui

Se Conceição


A Se Conceição era mãe da Arménia. Ditas as coisas assim desta forma, as coisas ficam pouco compreensíveis. “Se” Conceição era o nome que eu e os meus primos dávamos a uma empregada da minha avó paterna, na nossa infância, lá por Viana do Castelo: abreviatura de Senhora Conceição. 

Tinha uma filha com um estranho nome, que me começou a “causar espécie”, como se dizia nesse tempo, quando aprendi alguma geografia: Arménia. Voltei a encontrar a Arménia, lá por Viana, nas ocasiões onde é costume cruzar pessoas conhecidas, de quando em vez: em alguns funerais. Nunca me lembro de ter falado com ela (era pouco mais velha do que eu, recordo-me) sobre o seu nome com topónimo de uma república do Cáucaso, que às vezes surge nas notícias e quase sempre não pelas melhores razões.

A mãe da Arménia, a Se Conceição, era uma mulher serena, que recordo silenciosa, de sorriso um pouco triste, com o cabelo apanhado em carrapito, de cujos dotes culinários não tenho a menor memória. Apenas me lembro do cheiro do café que ela fazia e que eu apanhava no ar quando ela o trazia pelo longo corredor que ia da cozinha à sala de jantar.

Nesse tempo, os pacotes de café (ou seria de cevada?) traziam dentro brindes, em forma de pequenas colheres, feitas num alumínio manhoso, que eu achava o máximo ajudar a descobrir quando se abria cada novo pacote. (A lógica era a mesma que está subjacente à graça que se ouvia, quando os conflitos de trânsito se passavam de forma educada: “Saiu-te a carta na Farinha Amparo!”)

Porque é que me lembrei hoje da Se Conceição? Sei lá! Talvez pelo azul do céu desta fotografia da bela estação da cidade.

Na morte de Mara Abrantes


Por muitos anos, no mundo das artes performativas, não havia muitos brasileiros que vivessem em Portugal e que fossem bastante conhecidos. Ou melhor, havia dois: Mara Abrantes, uma cantora mulata (não sei se isto hoje ainda se pode dizer assim, mas eu digo), e Badaró, um cómico que por cá ficou, depois de um tempo em que algumas “revistas” brasileiras andaram, com um sucesso proporcional à poupança de tecido nos trajes das respetivas artistas, por palcos divertidos de Lisboa e Porto.

Badaró já tinha partido há muito. Hoje foi Mara Abrantes. É um certo Brasil dos palcos portugueses, bem de outros tempos, que assim acaba.

Nos dias de hoje, há muitos outros brasis que vivem entre nós. E ainda bem! Gosto de ser cidadão de um país onde convive - já sei, também com problemas, claro - muita gente nascida em outros lugares onde também se fala português, tributária das suas diferentes culturas. Muitos teimam em não entender a riqueza, que não se mede só em cifrões, que isto traz a Portugal.

Biden

Estou muito longe de ser um incondicional da orientação da política externa de Joe Biden - e isto é um “understatement”. Biden foi a resultante hábil de uma tática construção democrática para afastar Trump. Em condições normais, como ainda há dias li algures, nunca teria chegado à Casa Branca. Contudo, se tivermos em conta a globalidade da ação que até aqui desenvolveu como presidente, pode dizer-se, sem favor, que se está a sair bastante “melhor do que a encomenda”.

Decidam-se!

A boa notícia é que estão aí a ser publicados muitos novos livros. A má notícia é que não há tempo (nem dinheiro) para conseguir ler muitos deles. Esta malta encontra sempre razões para andar insatisfeita, direi eu, depois de dizer o que disse! Decidam-se, por uma vez!

Linguareiros

O presidente da República chama os partidos e troca ideias, com cada um em particular. Alguns partidos saem da reunião, a qual, não terá sido por acaso, teve lugar à porta fechada, e logo contam aos jornalistas o que o presidente lhes disse. É assim a nossa democracia. É à moda da casa.

Conversa de sala de espera

O facto do nome da vacina que cada um de nós toma ter tomado conta das conversas é a prova do estado muito básico da cultura de convivência que assentou por aqui

terça-feira, 27 de abril de 2021

Calamidade!

Há coisas em que a língua portuguesa nos traz grandes surpresas. O presidente da República decretou o fim do Estado de emergência. Ufh! Que alívio! Sabem o que aí vem (formalmente, pelos vistos, mais suave e descansativo)?: o “Estado de calamidade”! É nele que vamos entrar...

José Fernandes Fafe


“Famalicão e Cacém seguem amanhã”. Era o texto de um curto telex, do meu colega Tavares de Carvalho, que estava na nossa embaixada em S. Tomé, enviado para mim, colocado na de Luanda, algures em 1985.

A nossa mensagem cifrada era em “ostensivo”, como se dizia nas Necessidades, para gozar com a “secreta” angolana, porque havia a suspeita de que ela lia a nossa “telegrafia”. 

No caso, era irrelevante, mas a mensagem significava que o embaixador itinerante para as questões culturais, José Fernandes Fafe (daí o “Famalicão”) e o professor Lindley Cintra (daí o “Cacém”), viriam no bissemanal voo da TAAG, de S. Tomé para Luanda, que chegaria no dia seguinte. Foi nesse dia que os conheci a ambos, pela primeira vez.

No passado dia 25 de Abril, o presidente do município de Cascais, Carlos Carreiras, nas palavras que proferiu, aquando do encerramento do marco que atribui a José Fernandes Fafe o nome de uma rotunda na vila, evocou, imagino que perante o desconhecimento de muitos que por ali estavam, a associação do homenageado à “Esquerda Liberal”. 

“Chapeau!”, pensei para comigo! Como é que alguém se lembrou disso, que está nos arcanos da memória político-cultural portuguesa?! Pressenti uma leve reação de surpresa e (só imaginei, por causa da máscara) um sorriso na cara do meu amigo Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, ali presente como amigo de Fernandes Fafe.

Achei graça porque, numa das belas noites de conversa que tivemos com Fafe e Cintra em Luanda, nesse ano de 1985, recordo-me de lhe ter manifestado a minha estranheza pelo facto de o ter visto surgir ligado a um grupo de antigos militantes da extrema-esquerda que, com um clube com esse nome, prosseguido depois com a revista “Risco” (onde o leque ideológico se alargou muito), iniciavam então o seu “luto” da aventura que os tinha levado pelas catacumbas dos diversos estalinismos. 

Fernandes Fafe, que eu sabia ligado a outra bem diferente tradição política, dera a sua prestigiada “bênção” a esse grupo (Pacheco Pereira, João Carlos Espada, Villaverde Cabral) e, julgando conhecer as suas ideias, isso surpreendera-me. E disse-lho.

Nessa noite, Fernandes Fafe explicou-me, com um detalhe teórico que eu, posso imaginar hoje, só por educação terei fingido acompanhar, por que me não revia minimamente nas ideias da tal Esquerda Liberal, o mérito dessa iniciativa. Recordo bem ele ter feito um enfático elogio à qualidade intelectual dessas figuras, no que concordei, em absoluto. Mas só nisso! 

Verdade seja que essa Esquerda Liberal viria a cair, então, inteiramente nos braços do “soarismo” que haveria de chegar a Belém, para depois alguns se afastarem até chegarem ao “cavaquismo”. Não foi esse, claro!, o percurso de Fernande Fafe.

Para uma pessoa para quem, desde há muito, a palavra “liberal” só soa bem quando é dita por um americano e com o sentido que por lá tem (na tropa, eu “insultava” o meu amigo e posterior colega embaixador António Franco, chamando-lhe “liberalóide”), tendo lido muito do que Fernandes Fafe publicou, até ao final da sua vida, permito-me crer que, nos dias de hoje, ele se sentisse menos confortável com uma proximidade à ideia “liberal”. Mas isto sou só eu a especular!

E como já não tenho já comigo, para tirar teimas, o meu amigo António Silva, uma das pessoas que venerava Fernandes Fafe, e que, há anos, editou uma muito interessante conversa com ele, só me posso ficar por estas conjeturas, hoje suscitadas por aquele episódio, que durou escassos segundos, na mais do que merecida homenagem a esse grande embaixador da Cultura que o Palácio das Necessidades teve.

Parabéns, José Paulo Fernandes Fafe, por esta justíssima homenagem ao seu pai. E agradeço-lhe muito o ter sido convidado a nela participar.