sexta-feira, 22 de março de 2019

Theresa May


O que ficará de Theresa May na História do Reino Unido? E de David Cameron?

Michel Temer


O que ficará de Temer na História do Brasil?

quinta-feira, 21 de março de 2019

O que é que correu mal?


Tenho na prateleira um livro sobre a civilização árabe que tem o título deste artigo. Lembrei-me dele ao ver, há pouco, nas televisões, a imagem da conferência conjunta de Donald Trump e de Jair Bolsonaro. 

Se, há meia dúzia de anos, alguém me dissesse que este cenário na Casa Branca era possível, teria dado uma gargalhada e, do alto da minha “ciência”, argumentaria, por A mais B, que a ascensão de um milionário megalómano e vaidoso à chefia dos EUA seria sempre travada pelo “establishment” do Partido Republicano e que, no caso da figura brasileira, se tratava de uma personalidade caricatural e risível, alguém cujo primarismo o Brasil nunca iria levar a sério. 

Depois, foi o que foi. O que é que aconteceu? Aconteceu que, por mais previdentes e “conhecedores” que sejamos, nunca conseguimos evitar que os nossos raciocínios acabem por ser conduzidos pelo quadro mental que se nos tornou confortável e que, no fundo, também padece daquilo que, na língua inglesa, se chama “wishful thinking”, que pode ser traduzido por um pensamento marcado por aquilo que, no fundo, desejamos. Tudo o que contrarie as ideias feitas é posto de lado ou tido como de escassa probabilidade.

Tal como no Brexit e nas eleições italianas, nos EUA e no Brasil houve fatores influenciadores do eleitorado que não vimos chegar. Deixámo-nos assim levar pela ideia de que havia uma “impossibilidade” objetiva de ocorrência de certos cenários, porque eles entravam em rotura com aquilo que pensávamos plausível.

Alguns dirão que foram situações excecionais, manipulações comunicacionais, medos induzidos e outros fatores anómalos e conjunturais que produziram esse resultado. Até pode ser verdade, mas o que verdadeiramente aconteceu foi uma expressão democrática de vontades, que teve a consequência que teve. 

A prática da democracia não aponta sempre num sentido democrático, como a História nos ensinou. Mas, para os democratas, a resultante do voto deve permanecer sagrada, salvo se vier a afetar o funcionamento do próprio sistema democrático. Isso não significa que não seja natural continuar a lutar por aquilo em que se acredita, mesmo que isso implique ficar numa posição minoritária e desconfortável.

Trump e Bolsonaro lá estão, graças ao voto popular. Quem deles não gosta deve colocar-se a questão: “O que é que correu mal?” E, se os quiser combater (a eles e aos outros de idêntico jaez), deve começar por “desconstruir” as razões do seu sucesso, refletir sobre os erros cometidos que tornaram possível a sua ascensão. 

quarta-feira, 20 de março de 2019

O "momento zero"


Ontem à noite, num restaurante, lembrei-me do Artur (Kiko) Castro Neves, um amigo que perdi há alguns anos, um homem com uma leitura da vida muito pouco comum, que pensava "fora da caixa" e que cultivava uma modernidade no seu olhar sobre as coisas que eu sempre invejei (e eu gabo-me sempre de nunca ter conhecido o sentimento da inveja). O Kiko era um homem do Porto, mas, na realidade, era um cidadão do mundo, de muitas artes e ideias, que, a espaços, aportava à Mesa Dois do Procópio, onde era sempre uma presença saudada e muito querida. (Quem o quiser conhecer melhor pode ver aqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Castro_Neves).

Costumava visitar-me em Paris (também o fez em Brasília), onde tinha estudado e trabalhado e onde, à época, ainda vivia a sua mãe. Um dia, foi por lá com a Isabel e convidou-nos para jantar num restaurante perto do Beaubourg. Era um restaurante americano (!), de que ele gostava, situado numa das ruas que tinham sobrado do desbaste feito na área, depois do fim do mercado Les Halles (que ainda conheci!), no início dos anos 70. Na minha memória restaurativa, a refeição, fosse pela sua qualidade objetiva, fosse pelo facto da conversa com o Kiko me ter feito esquecer o que tive sobre a mesa, não deixou marca impressiva. Recordo que era um local bastante movimentado, ruidoso e animado, de que deixo uma imagem. Mas tudo isso é o menos importante para o que aqui me convoca a escrita.

A refeição já ia avançada quando decidimos mudar de vinho, cansados da opção por um tinto do "novo mundo" que nos tinha sido impingido pelo empregado. Olhámos em volta, tentando "to catch the eye" de um dos fâmulos que, minutos antes, giravam pela sala. Qual quê! Ninguém aparecia!

Foi então que esse meu amigo se saiu com a exclamação: "Estamos no 'momento zero'!" Olhámos para ele, perplexos, desconhecedores do significado do comentário. Esclareceu-nos: "Desde há muitos anos que me convenci que, em todos os restaurantes, há, a certa altura, um 'momento zero'. Trata-se de um vazio momentâneo, que chega a durar minutos, durante o qual os empregados se somem, talvez para fumar um cigarro ou para outras pausas mais básicas, em que o patrão se recolhe por instantes ao escritório, em que o pessoal do balcão, por qualquer razão misteriosa, se eclipsa. Não há ninguém na sala! Ou, se acaso resta alguém, estão recolhidos em espaços inacessíveis, sempre de costas voltadas ou, mesmo se de frente, assumem um olhar vítrio e distante, neutralizados por um cansaço que os torna inoperacionais. É um 'momento' que normalmente acontece quando a refeição já vai adiantada, sem um novo turno de clientes no horizonte, em que se caminha para as derradeiras sobremesas. Ah! E então na altura dos cafés é uma tragédia: é quando geralmente acontecem os grandes 'momentos zero'!"

O tempo que esse amigo demorou a explicar-nos a teoria do "momento zero", que já tinha testado pelos muitos mundos que visitou - o "momento zero" é transversal a todas as civilizações gastronómicas, note-se - e que afirmou com a sabedoria cristalina de quem, como ele, vivia então em frente do palácio de Cristal, acabou por ser suficiente para que um empregado surgisse, finalmente, ao fundo, e, face ao agitar sedento dos nossos braços, nos trouxesse um "pichet" de aceitável "rosso" italiano, para substituir o australiano quer eu caíra na asneira de aceitar no início. O "momento zero" acabara.

Ontem, no Bairro Alto, aqui em Lisboa, num certo restaurante (por sinal excelente, onde já não ia há anos), houve um desses "momentos zero". Por vários minutos, não consegui pedir outra garrafa de um tinto razoável de Arcossó (terra da minha bisavó materna, por sinal).

E, nesse instante, lembrei-me do Kiko. Depois, senti-me culpado por ter sido por um motivo tão fútil que a memória desse excelente amigo me ocorreu. Mas acho que ele não se importaria e que, a propósito do vinho escolhido, teria, com certeza, uma história para contar. Como eu agora tive, ainda graças a ele.

O que é que correu mal?


Pode ler aqui o artigo, sob o título em epígrafe, que publico na edição de hoje do “Jornal de Notícias”

terça-feira, 19 de março de 2019

Piauí

Já por aqui falei, por mais de uma vez, da Piauí, uma excelente revista brasileira, que sempre tive dificuldade de encontrar em Portugal. Há semanas, referi isto a uma pessoa ligada à revista, numa conversa casual em Lisboa.

Como se diz por cá, “meu dito, meu feito”. Já me estou a deliciar com os três últimos números da Piauí e, de futuro, não mais a vou perder de vista.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Concorrência


Chama-se Lagoa Dourada. É uma localidade brasileira, em Minas Gerais, situada a umas dezenas de quilómetros de Tiradentes, na estrada que vem de Belo Horizonte. É a “capital do rocambole”, uma torta enrolada sobre si mesma, com diversos recheios, em especial doces. 

Das várias vezes que por lá passei, fui admirando as lojas que se sucedem pela rua que atravessa a cidade, todas com nomes diferentes, cada uma concorrendo com a outra: o Legítimo Rocambole, o Famoso Rocambole, o Rei do Rocambole, Rocambole & Cia, etc. São quase uma dezena, pelas minhas contas. Sempre achei bizarra aquela concentração.

Um dia, ao tempo em que vivia no Brasil, comentei com alguém aquele “fenómeno” comercial. Essa pessoa não ficou nada impressionada e retorquiu-me: “Você esqueceu a Mealhada?” É verdade. Tinha-me esquecido.

Lembrei-me disto no sábado, quando por lá passei. De facto, a diversidade de oferta comercial é, por ali, bem superior à da Lagoa Dourada: Meta dos Leitões, Pedro dos Leitões, Rei dos Leitões, Floresta dos Leitões, Picnic dos Leitões, etc.

As águas do Quanza


Não me agradou nada ser acordado pela campainha estridente, bem cedo, naquele sábado de manhã. Vivia num dos pequenos apartamentos “de função”, no edifício da embaixada portuguesa em Luanda, onde estava colocado como diplomata, nesse início dos anos 80 do século passado.

Estremunhado com a chamada do porteiro, fui confrontado com a emergência que justificava aquele alarido: a mulher de um alto dignitário do regime angolano necessitava de um visto de entrada em Portugal, no seu passaporte diplomático, para poder embarcar para Lisboa, horas mais tarde. Era, de facto, a mim que competia executar essa tarefa, pelo que, em roupão, avancei para o meu gabinete, no andar imediatamente inferior, para emitir a autorização de entrada, solicitada na nota do Ministério das Relações Exteriores local.

O ato não seria mais do que uma rotina não fosse dar-se o caso do marido da senhora, precisamente na véspera, ter feito um discurso público, com forte eco na Televisão Popular de Angola, onde, por entre acusações várias ao governo português de então, se recomendava vivamente aos cidadãos angolanos que evitassem visitar Portugal nas suas férias, dando mesmo expressamente o nome do Brasil como um “país amigo” que deviam ter como alternativa. Eram assim os tempos de então.

Não sei se a minha irritação com o facto de ter sido acordado cedo me terá impedido de esboçar um sorriso interior com o caricato da contradição que tudo aquilo representava. Imagino que a minha idade de então me não tivesse conferido ainda a sabedoria para poder usufruir, em pleno, aquela ironia. Há juízos que só o tempo amadurece. E quando, há quatro ou cinco anos, me cruzei, na livraria do Apolo 70, em Lisboa, com aquela figura política angolana, confesso que não me senti minimamente tentado a relembrar-lhe o episódio.

Embora muita água tivesse corrido entretanto sob as pontes do Quanza, as relações entre Lisboa e Luanda andavam ainda tremidas, naquele ciclo de incidentes que, em Luanda, alimenta alguma lusofobia recorrente e que, por cá, enquistou numa espécie de superioridade neocolonial, assumida por algumas vestais com lugar cativo na comunicação social. Mas que fique claro: nós, deste lado, não estamos isentos de culpas no processo de tensão que se estabeleceu ao longo de todas estas décadas entre Angola e Portugal.

Lembrei-me disso e de muito mais quando, há dias, assisti à serena entrevista do atual presidente angolano à nossa televisão pública. Dei comigo a pensar naquele meu tempo de Luanda, em outros anos que lhe sucederam e no facto de João Lourenço ser tributário das lições que deles também terá retirado. Pergunto-me, aliás, se cada tempo não tem o seu tempo e se não devemos ter a humildade de pensar que, afinal, para chegar até hoje, foi necessário passar por todas aquelas traumáticas etapas do passado. É à luz desta mesma experiência que, com um voto de confiança e esperança no futuro, devemos ter o realismo de perceber que desse mesmo futuro será sempre a liberdade com que, queiramos ou não, acabará por nos surpreender.

(Artigo publicado no semanário "Jornal Económico", em 15 de março de 2019)

domingo, 17 de março de 2019

Fouquet’s


O Fouquet’s, o conhecido restaurante nos Campos Elísios, em Paris, foi, há horas, pilhado e incendiado pelos “coletes amarelos”. No comments...

O Fouquet’s, onde se come apenas “assim-assim”, para o preço que cobra, é uma “montra” de luxo para uma certa sociedade parisiense, que faz questão de por aí ”refeiçoar”, seja sob o sol da esplanada, seja na zona envidraçada em dias menos cálidos, ou ainda no seu luxuoso e confortável interior. (Por uma razão para mim sempre misteriosa, os franceses pronunciam “fuquétes” e não “fuquê”, mas eles é que sabem, porque deles é a língua).

Para a pequena história política francesa ficou famosa a ceia oferecida a Nicolas Sarkozy no Fouquet’s, em 2007, na noite da sua eleição como presidente, paga por alguns amigos da alta finança. Desde esse dia, e a começar por essa razão, Sarkozy nunca mais se livrou da imagem de ser o presidente ”dos ricos”. Quando, dois anos depois, fui viver para Paris, a associação do restaurante ao presidente surgia regularmente na imprensa. Até hoje (vão ao Google e verifiquem). 

Em 2012, cinco anos passados sobre a data da sua posse, Sarkozy foi de novo a votos, mas os franceses recusaram a sua reeleição e escolheram François Hollande.

Nesse dia, tive uma ideia. Enquanto os apoiantes de Hollande comemoravam, na Bastilha, a eleição de um novo presidente socialista (numa tentativa de “remake” da célebre manifestação de 1981, na chegada de François Mitterrand ao Eliseu), decidi desafiar um grupo de amigos para irmos jantar ao Fouquet’s. Era um grupo politicamente heterogéneo, no qual havia gente satisfeita com a vitória de Hollande e alguma outra algo triste com a derrota de Sarkozy. 

Era um jantar pretendidamente irónico. A curiosidade foi ver, em certas mesas, damas e cavalheiros claramente sarkozistas, que ali tinham reservado mesa com vista a comemorar simbolicamente uma reeleição que não viria a acontecer, de cara muito fechada e já a fazer as contas à vida (e a pensar na vida futura das suas contas bancárias, sob a ameaça dos impostos sobre as fortunas anunciados por Hollande). 

Nós, no nosso grupo, divertimo-nos bastante, devo confessar, em especial até à chegada da conta, que, como se presumia, não foi “leve”. Mas, como se costuma dizer, uma noite não são noites...

“Casas do Bragal”


Sem GPS torna-se um pouco difícil encontrar estas “Casas”, um improvável restaurante perdido no meio de um bairro residencial nos arredores de Coimbra. É uma moradia como muitas outras mas, lá chegados, sentimo-nos verdadeiramente em casa, porque estamos, de facto, numa residência de família. A sala, com muito bom gosto, começa por uma zona de sofás, com livros a toda a volta, indiciando que estamos em terrenos de gente com óbvia dimensão cultural. É separada por um murete da zona de refeições, que são da responsabilidade de Manuela Cerca, uma antiga jornalista, que discretamente nos apoia lá de dentro, da cozinha que dirige. Somos recebidos por Eugénio Martins, uma figura com um singular percurso intelectual, também autor das pinturas que enchem as paredes. É ele que tudo nos vai aconselhar, das bebidas aos pratos. Estes variam muito ao longo da semana, tornando a refeição sempre num “happening”, que acaba numa imperdível mesa de doces. Experimentem e verão que não se arrependem! Eu regresso lá sempre com gosto, como ainda ontem fiz.

sábado, 16 de março de 2019

... até de manhã, de novo


sexta-feira, 15 de março de 2019

Pormenor


É um dos mais reputados fotojornalistas portugueses. Foi ele quem, há dias, me contou este episódio, passado há já algum tempo. Tinha ido, com um amigo, a esse famoso “concílio” da edição que é a Feira do Livro de Frankfurt. Passeava-se entre aquelas magníficas alas de editoras, quando se deparou com um cartaz com a imagem, de corpo inteiro, de um importante escritor português, desaparecido há bastante tempo. O espaço em que a fotografia surgia era da editora alemã que publicava o escritor. O mais curioso é que fora ele quem fizera aquele “boneco”, como se diz na gíria da profissão, utilizado na promoção da edição portuguesa de um dos livros. A surpresa do reencontro com a imagem não ia ficar por aí. Olhando a fotografia com olhos de ver, com a dimensão com que a imagem era ali apresentada, um pormenor, que até então nunca observara, tornava-se, pela primeira vez, muito evidente: o escritor tinha a braguilha aberta!

... à tarde


De manhã...


As águas do Quanza


Na edição de hoje do “Jornal Económico” pode ler o meu artigo, com o título em epígrafe. Aqui.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Brexit


Pode dizer-se que o Brexit é um filho da “mãe de todas as democracias” que é a Inglaterra.

Outro 25 de abril?


Há dias, sentado no palco de um auditório da Gulbenkian, ao lado de três companheiros de um painel organizado pela Associação 25 de Abril, dedicado ao papel que a Revolução teve na identidade do país, olhei para a assistência. A média etária devia rondar os 65 anos, ainda que ajudada por um punhado de jovens arrebanhados por um professor, que, a meio da sessão, zarparam em bando.

Estávamos ali a falar uns para os outros, todos antecipadamente convertidos à importância de se comemorarem, daqui a dias, os 45 anos que passaram sobre a data. Nenhum dos presentes, por um segundo, tinha a menor dúvida sobre a relevância que o 25 de abril teve na História do país e o interesse em não deixar de se referir isso. (No meu caso, sublinhei uma evidência: o impacto brutal que a Revolução provocou na reconfiguração do nossa política externa). Uma questão, no momento, me surgiu: haverá algo mais que se possa fazer, com eficácia, para a fixação do significado da data no imaginário coletivo? Não tenho uma resposta, confesso.

Todos os anos (apetecia-me acrescentar, pela primavera, como escreveu Sttau Monteiro), os militares de abril e alguns companheiros políticos de percurso saem à Avenida da Liberdade que lhes devemos para assinalar a efeméride. Um certo partido traz para o cortejo todos os seus heterónimos, incluindo sindicais, cada um com uma faixa própria, talvez para parecerem muitos. Outros, alguns muito propensos a dar voz a coloridas minorias e a outras causas, fazem daquela arruada um momento coreográfico de mobilização voluntarista. Para sermos rigorosos, está por ali espelhada toda a mobilização que parece ser possível, com algum significado, em torno da data. 

Um pouco mais acima, na casa da democracia, o espetáculo costuma ser algo penoso, com mais ou menos cravos nos peitos. Quase sem exceção (no ano passado tivemos essa exceção, na voz de uma jovem social-democrata), o que por ali se vocaliza, tendo o 25 de abril como pretexto, é apenas o conflito que a conjuntura do momento motiva. Às vezes, o chefe do Estado de turno aproveita para passar uns recados televisionados, que alimentam por horas os exegetas do comentário, mas que têm uma validade inferior aos iogurtes.

Vale a pena comemorar aquela data? Uma pessoa da assistência que estava na Gulbenkian foi otimista e lembrou que, com alguma frequência, se ouve a alguém que está descontente ou indignado como o estado das coisas: “o que nós precisávamos era de outro 25 de abril!” Haverá maior elogio à efeméride?

(Artigo publicado no dia 13 de março de 2018 no “Jornal de Notícias”)

quarta-feira, 13 de março de 2019

Coincidências


Passei por lá ontem. Chama-se O Consulado e vende panquecas. O espaço está muito diferente, naquela esquina da rua de Cedofeita com a rua dos Bragas. Até há não muito tempo, ficava ali o Café Latino.

Em 1968, eu vivia a dois passos, na rua da Torrinha, num lar universitário. O meu café habitual era o Bissau, muito frequentado por gente da faculdade de Engenharia, ali perto. Um dia, vi surgir o Latino. E, claro, a curiosidade levou-me a visitá-lo logo na data da inauguração. Para tentar fidelizar, recordo com que o Latino oferecia, nesse seu primeiro dia, um brandy, a acompanhar o café. Ao contrário do Bissau, tinha amplas janelas e era bem mais moderno. Mas não me recordo de ter ficado cliente, nesse ano em que me mudei para Lisboa.

Passou muito tempo. Numa tarde, numa deslocação ao Porto, passeava em Cedofeita, notei que o Bissau já tinha desaparecido e apeteceu-me entrar no Latino. Estava muito pouca gente. Sentei-me, pedi um café e o empregado disse: “Quer beber uma aguardente? Hoje é por conta da casa”. Ele explicou: “Comemoramos 40 anos de abertura deste café”. Não era possível! A pessoa que ia comigo estava siderada com a coincidência que eu lhe contava.

Eu estava feliz, confesso. Não bebi a aguardente, com toda a certeza, mas estou seguro de que os convenci - ao empregado e ao patrão, que veio ter connosco à mesa - do facto de que tinha estado ali, precisamente, no dia da inauguração do café, 40 anos antes. 

Creio que nunca mais lá voltei. Nos últimos anos, ao passar na rua, notava-se que os melhores anos do Café Latino estavam já bem longe. Agora é O Consulado. A vender panquecas. É a vida!


Outro 25 de abril?


Pode ler aqui o texto do artigo que, sob o título em epígrafe, publico hoje no “Jornal de Notícias “.

terça-feira, 12 de março de 2019

Nortadas



“São do norte, não são?” Estranhámos a pergunta da empregada da loja, no Porto, hoje à tarde. Confirmámos que sim. “Pela pronúncia, não parece serem” (era óbvio que ela estava desatenta à nossa habitual troca dos “v” pelos “b” e à abertura exagerada de algumas vogais, que continuamos a fazer, apesar de vivermos em Lisboa há mais de meio século), “mas, ao falarem comigo como estão a falar, percebi logo que tinham de ser cá de cima. Os lá de baixo, em especial os de Lisboa, não falam assim connosco, são muito mais fechados”. 

Estranho. Nunca tinha refletido nisto. Será verdade? Confesso que nunca tinha pensado que os lisboetas (ou a gente que não é do Norte, em geral) fossem mais “fechados” do que o “pessoal” do Norte. Ando distraído?

segunda-feira, 11 de março de 2019

Regresso aos clássicos


A fotografia é do Antunes, no Bonjardim, ao almoço de hoje. 

Um clássico do Porto, como o são, em registo diferente, o Líder, nas Antas, a Nanda, na rua da Alegria, a Cozinha do Manel, no Heroísmo, a (renovada) Adega de São Nicolau, na Ribeira, o Rápido, em São Bento ou o Aleixo, em Campanhã. E muitos mais! 

Grande Porto!

domingo, 10 de março de 2019

Desconectados


Foi ontem. O almoço era de “cerimónia”? Nem por isso. O traje, no convite, dizia “smart casual”, o que, em linguagem de protocolo, significa, para os homens, levar um blazer sem gravata. Porque era numa casa de campo, os castanhos/verdes dominavam (tenho uma tese, não confirmada, que, se fosse em ambiente de cidade, os azuis/cinzentos dominariam). Sorte das senhoras, cujo leque de opções é sempre imenso. Era, assim, um ambiente “solto”.

À ida para a mesa, um dos convidados, figura bem conhecida da política doméstica, sugeriu: “E se deixássemos os telemóveis na sala de entrada?”. Conhecendo-lhe o hábito de andar sempre de telemóvel na mão, como os adolescentes sem imaginação, fiquei surpreendido. Mas logo agarrei a sugestão. Boa ideia! Assim fiz também, ecoando bem alto a ideia. Outros fizeram o mesmo. Vi que nem todos o seguiram, mas que a sugestão os terá levado a optar pelo “silêncio” técnico.

Não que, a mim, me ocorresse a ideia de vir a atender uma chamada durante o almoço, muito menos de tentar contactar com alguém. Mas, quem sabe, numa pausa, “entre la poire et le fromage”, podia dar-me para olhar as mensagens, ou mostrar uma fotografia, ou ter a tentação de dar a conhecer, ao parceiro do lado, um extrato de um filme no YouTube, “com pilhas de graça”. Desta forma, porém, ficava “blindado” face a qualquer tentação.

(Foi na Áustria, nas reuniões que os países NATO dentro da OSCE faziam numa determinada embaixada, que vi pela primeira vez essa determinação de não levar telemóveis para a sala de reuniões, nesse caso por razões de segurança da confidencialidade das conversas. Depois, vi a prática estender-se: vários governos, por esse mundo fora, obrigam os seus ministros a deixar os aparelhos nuns cacifos, à entrada dos conselhos de ministros. Creio que, por cá, a regra “não pegou”. E, muito menos, nas ocasiões sociais.)

Com essa determinação radical de não poder ter o telemóvel “à mão de semear”, nenhum de nós correu, durante aquele almoço, o risco de assumir esse ato de rasca educação que é usar um telemóvel à mesa de uma refeição, de se fingir atrapalhado por uma inopinada chamada (“desculpem, esqueci-me de desligar isto!”) ou, discretamente, sobre o guardanapo no colo, tentar perceber como vai o resultado de um jogo. Ninguém ousou essa baixeza social.

Sentámo-nos para almoçar às duas da tarde. Saímos da mesa já passava bastante das quatro. A conversa correu fluída, com histórias deliciosas, com análises interessantes (aprendi imenso, sobre vários temas), num ambiente são e descontraído. Sem grande cerimónias, sem telemóveis, sem campaínhas, sem alertas. Afinal, ainda há um mundo civilizado, por detrás do mundo vulgar. É, é essa a palavra.

sábado, 9 de março de 2019

Tentações


Foi há muitos, bastantes anos. O ambiente era fantástico. Uma noite, num belíssimo bar de hotel tropical, à beira-mar, bastantes figuras femininas disponíveis, em quantidade e qualidade, com aquela cultura comportamental de relativa impunidade que algumas reuniões internacionais, em especial se realizadas "a Sul", tendem a proporcionar, em especial a partir do momento em que álcool flui e aflui.

Notei que a pessoa que chefiava a nossa delegação, uma figura pública relativamente conhecida, começava a assumir uma atitude demasiado "solta". Muito em especial, preocupavam-me os olhares distantes que sobre ela já convergiam, embora distraidamente atentos, de alguns dos nossos compatriotas presentes. Longe de mim ser puritano, mas desagradam-me escândalos com impactos de Estado. Como diplomata, quando em funções, sempre achei ter o dever de os prevenir.

A certo passo, pressenti que as coisas se podiam precipitar. O nosso homem, porque era de um homem que se tratava, encaminhava-se lentamente, com uma companhia que, durante a última hora, se estava a tornar insistente a seu lado, para zonas mais recatadas da varanda, num caminho que facilmente podia conduzir aos quartos. Ia num estado de pouco controlada euforia, que já não passava despercebida a muitos dos circunstantes, nomeadamente da nossa delegação, em risota e a comentarem entre si. Dei uma palavra de aviso ao respectivo chefe de gabinete, mas encontrei-o sem vontade de atrapalhar os eventuais planos lúdicos do chefe.

Propositadamente, decidi passar por perto do animado chefe da delegação e da sua companhia. Não havia uma grande confiança entre nós, mas o facto de eu ser "dos Estrangeiros" conferia-me como que uma leve autoridade cosmopolita, de alguma habituação às andanças diplomáticas, que ele manifestamente não tinha. 

Talvez por isso, e ao ver-me fitá-lo, deitou-me, à passagem, com um leve sorriso: "Há algum problema?". Subentendia-se bem o que pretendia significar... Devo ter feito um carão fechado, quando lhe respondi, seco: "Há dois: a Sida e o "Expresso" de sábado. Mas o senhor é que sabe!". E voltei costas.

Senti que tinha ficado inseguro, e seguramente furioso, inquieto talvez mais com o segundo problema do que com o primeiro. A "Gente" do ‘“Expresso” era então uma secção onde se podiam comprar grandes chatices e que havia já feito obituários políticos sumários. Regressei ao bar. Apareceu por lá, só, minutos depois. Não me falou. Já com ar deliberadamente sério, juntou-se a outros membros da nossa delegação e, volvido pouco tempo, deu as boas noites e subiu para o quarto. Julgo que sozinho, até porque a anterior companhia regressou ao "mercado" da noite.

No dia seguinte, no avião de regresso, evitou-me. Já desapareceu da nossa cena. Mas, por anos, nos restaurantes lisboetas, ignorava-me olimpicamente.

Já um dia contei esta história. Hoje, ao adquirir o “Expresso”, lembrei-me dela.

sexta-feira, 8 de março de 2019

A prima de olhos verdes


É uma história de família. Da minha família. 

Era uma vez uma mãe que tinha dois filhos. E uma sobrinha, bonita, de olhos verdes. Ambos os filhos gostavam da prima. A mãe decidiu, porque era muito decidida e ai de quem lhe fizesse frente, que havia de ser o filho mais novo a casar com a prima de olhos verdes. Só que o filho mais novo, que era o “ai jesus!” da mãe, viria a morrer, bem jovem, de forma trágica. A família nunca se recompôs do choque. A mãe e o pai, com o filho mais velho, mudaram-se para uma casa em frente ao cemitério, onde, todos os dias, até morrerem, visitavam o jazigo onde haviam depositado o filho querido. 

Havia o outro filho, claro. E havia a prima. Que gostavam um do outro. Tinham um namoro escondido, um tabu na família, de que a mãe talvez suspeitasse, mas que nunca, em vida dela, se iria transformar em casamento. Foram décadas, acreditem! A mãe, um dia, já bem depois do pai, desapareceu. Os primos, superado o obstáculo, consagrando uma espécie de usucapião romântico, já passada a meia centena de anos de cada um, casaram, logo de seguida, claro. 

Foram felizes? Quero crer que sim, embora uma felicidade bem tardia. Ele morreu, há cerca de três anos. Ela seguiu ontem para o cemitério, já perto dos 80 anos, fechando de vez os seus belos olhos verdes.

Numa tarde chuvosa e espessa, como sempre achei que devem ser os dias dos enterros, deixámo-la lá, no jazigo que havia sido feito expressamente para o primo com quem nunca casaria. Ali mesmo já estavam, desde há muito, os seus sogros, os quais, aliás, nunca chegaram a sê-lo. E também o marido, o primo com quem casou. Esta acabará por ser a primeira noite em que toda a família, finalmente, se reúne. Em paz.

quinta-feira, 7 de março de 2019

O juízo dos juízes


Descobri agora isto que publiquei em 5 de janeiro de 2013 neste blogue:

“Choca-me, com frequência, a ligeireza das decisões de certos juízes, muitos deles seduzidos pelas luzes da ribalta mediática, com contornos a roçar a irresponsabilidade. E mais me choca que, revertida essa decisão por uma outra instância, nenhuma responsabilidade possa ser pedida a quem tomou a primeira - pelos vistos errada, caso contrário não prevaleceria a segunda. Alcandorados na sua "independência", os tais juízes a quem a instância superior tirou o tapete profissional, aí estão prontos para outras, ficando imunes à responsabilização, civil ou outra, pelos efeitos, patrimoniais ou humanos, que a sua anterior decisão acarretou. Não quero particularizar, mas apenas direi que é graças a uma atitude dessa natureza que o túnel do Marão acaba por não estar concluído, já há vários anos, com muitos milhões de euros de prejuízos e incontáveis custos para toda uma região.

A absurda sacralização que paira sobre estes operadores judiciais, armados em impolutos "orgãos de soberania", impede, por exemplo, que um qualquer cidadão possa chamar incompetente a um juíz incompetente, sem o risco de cair na imediata alçada ... de outro juíz! Às vezes, trata-se de uns miudecos acabados de sair das escolas de magistratura, sem experiência da vida e do foro, produtores de decisões absurdas e irresponsáveis, que ganham logo à sua volta uma espécie de temor reverencial, que os protege da denúncia de que "o rei vai nu".

A "importância" que certos juízes se atribuem a si próprios foi sempre ridicularizada pelos seus pares mais responsáveis, pouco satisfeitos com o impacto negativo que esse abuso do conceito de "independência do poder judicial", pode provocar sobre a imagem da classe.

Um dia dos anos 90, essa grande figura que é o magistrado José Matos Fernandes, ao tempo secretário de Estado adjunto e da Justiça, olhou do gabinete do ministro para a rua e, de repente, chamou quem estava na sala: "Olhem! Olhem! Vai ali um órgão de soberania!" Toda a gente arrancou para as vidraças que davam sobre a varanda. Lá em baixo, no terreiro do Paço, havia gente a cruzar a praça. Que queria ele dizer com o "órgão de soberania"?, perguntou alguém? Com aquele sorriso magnífico com que lhe ouvi algumas das mais deliciosas histórias da vida judicial, ele esclareceu: "Então não viram? Ia ali um juiz..." E lá apontou uma dessas figuras para quem a sala de audiências era um mero cenário que intervalava as suas aparições perante as câmaras televisivas.”

Nem sempre nos revemos no que publicámos no passado. Neste caso, fico confortável.

Paulo Roberto de Almeida


Paulo Roberto de Almeida é um embaixador brasileiro. Conheci-o quando por lá chefiei a nossa missão diplomática e ganhou a minha admiração pelo seu empenhado estudo da política externa do seu país. É autor de uma bibliografia impressionante e mantém o blogue “Diplomatizzando”, para mim de consulta diária.

O PT nunca gostou de Paulo Roberto de Almeida. A corrente dominante no Itamaraty, durante os anos de Lula e de Dilma, não apreciava minimamente o seu espírito independente, a sua leitura do que entendia serem os interesses permanentes brasileiros na ordem externa e da postura diplomática que considerava que melhor os defenderia. E ele pagou, em termos de carreira profissional, onde já tinha tido postos muito importantes, um forte preço por isso. A defesa de uma diplomacia não ideológica não caía bem num Itamaraty que, manifestamente, não ia por esse caminho.

Em face da nova situação instalada no Brasil, após as últimas eleições, fiquei curioso sobre qual iria ser o futuro de Paulo Roberto de Almeida. Desde cedo, tive um pressentimento: se, com a esquerda no poder, o Paulo fora adepto de uma diplomacia não sectária e sem viés ideológico, seguramente que o não via a favorecer o enviesamento extremo, mas de sinal contrário, que agora passou a dominar o discurso e a prática da política externa brasileira.

Não me enganei. Paulo Roberto de Almeida, um democrata corajoso e um cidadão que pensa pela sua cabeça, tem uma perspetiva elaborada sobre a postura brasileira na ordem externa, que não passa pela adesão a ondas cíclicas de fervor ideológico. A sua conhecida liberdade e independência de pensamento não parecem compatíveis com a orientação, extremada e radical, a que o Itamaraty está a ser sujeito nos últimos tempos.

O embaixador Paulo Roberto de Almeida acaba de ser demitido pelo governo Bolsonaro do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, horas depois de ter reproduzido no seu blogue, sem comentários, três artigos sobre a atual política externa do Brasil face à Venezuela: um de Rubens Ricupero, uma imensa figura da diplomacia brasileira, outro do antigo presidente Fernando Henrique Cardoso e, finalmente, um outro do atual Ministro das Relações Exteriores. 

Deixo ao Paulo Roberto de Almeida o meu abraço amigo e solidário, num tempo que imagino difícil. Ele sabe bem, contudo, que eu respeito sempre a velha quadra popular portuguesa: “Por me veres em baixo agora / Não me negues a tua estima. / Os alcatruzes da nora / nem sempre andam por cima.”

quarta-feira, 6 de março de 2019

Não como com hashi!


Sou muito pouco dado a comidas “étnicas”. Embora tenha andado um pouco pelo mundo, e tenha vivido ou frequentado algumas cidades (Londres, Nova Iorque, Paris, São Paulo) onde essa diversidade culinária estava muito bem representada, nunca fui um consumidor regular desses sabores. Estranho? Talvez, mas cada um é como é, não é?

Sou também de um tempo em que, por cá, os únicos restaurantes ”estrangeiros” existentes eram os indianos, na altura sem a sofisticação das suas várias declinações regionais - e uma certa Índia ainda era então “portuguesa”, não era? 

Creio que só depois é que abriram uns italianos (destes, as pizzarias foram as últimas, ainda nos anos 70), mais tarde uns auto-proclamados franceses, mas a proximidade de paladar destes com certa cozinha portuguesa faz com que não caibam, em definitivo, no meu conceito de “estrangeiro”, como é também o caso das diversas cozinhas espanholas.

Um pouco mais tarde vieram os chineses e, mais tarde, os japoneses. E, claro, passou também a haver mexicanos e gregos, brasileiros e marroquinos, russos e argentinos, peruanos e libaneses, tibetanos e belgas e moçambicanos, e agora também sírios e paquistaneses, e apenas dos que me lembro.

Serve isto para dizer que, desde o primeiro instante, me recusei a utilizar os “hashi”, os “pauzinhos” com que é suposto manifestarmos a nossa familiaridade com a forma asiática de comer. Admito que haja quem goste do ritual mas, por mim, achei sempre aquilo uma espécie de folclore a que nunca me sujeitei.

Por essa razão, quando confrontado com culinária asiática (e raramente o sou, pelo menos por minha iniciativa, note-se), ou mesmo “de fusão”, num qualquer restaurante, português ou estrangeiro, exijo sempre faca e garfo. Enfrento por essa razão, com toda a naturalidade, os olhares de reprovação que acompanham essa minha deliberada falta de adequação às regras do local. 

Porque refiro agora isto? Porque essa experiência sucedeu-me há muito pouco tempo e vi, comigo entre o divertido e o provocatório, o olhar espantado que as pessoas me dedicavam. E, apenas por isso, tive agora vontade de o escrever. OK?

Paulo Roberto de Almeida


Dedico ao embaixador brasileiro Paulo Roberto de Almeida, um diplomata (anti-lulista, note-se!) “saneado” pelo governo Bolsonaro, o meu artigo hoje no “Jornal de Notícias”, que pode ler aqui.

terça-feira, 5 de março de 2019

Lisboa no Carnaval?


segunda-feira, 4 de março de 2019

Amigos perdidos

Há pouco, por uma qualquer razão, lembrei-me deles. Dos amigos que, entretanto, se foram. Não me refiro aos que morreram, mas aos que, com o tempo, se foram afastando, nos caminhos da vida. Não foram muitos, mas alguns eram mesmo dos “de toda a vida”, como algumas pessoas acham “bem” dizer. Em nenhuma dessa meia-dúzia de separações me pertenceu o gesto, tendo sido eles que tomaram a iniciativa de sair de cena. Às vezes, por razões que me pareceram fúteis, outros por um quid pro quo sem sentido, outros ainda por motivos que, à certa, nunca cheguei a perceber muito bem. Num ou outro caso, pela política, imaginem! Terei tido culpas “no cartório”? Quem sou eu para julgar as razões dos outros, quando, por vezes, nem as minhas consigo avaliar bem! Uma coisa já concluí: esta vida não é suficientemente longa para que tenhamos tempo para nos preocupar e ficar a maturar em tudo o que ela nos traz de menos agradável. O que lá vai lá vai! Olhar em frente, porque o caminho é por aí. É que a vida são dois dias e o Carnaval são três - e um já quase passou!

É isto?

meu bue cenas fixe chaval altamente nice curtir baril top man coche fatela “uma beca estranho” brutal “tás a ver?” “Curtir tótil” bacano cota puto ya conhé “tipo a curtir” “bora lá” fónix pitar tasse bem meu irmao bazar pica superbem guito babado bombar fogo népia chibar

O regresso de Monroe


Um dia, numa conversa em Caracas com Hugo Chávez, Lula da Silva fez-lhe notar que o desequilíbrio da balança comercial entre a Venezuela e o Brasil, em especial em bens de consumo corrente, atingira um tal ponto que, embora o saldo fosse agradável para a economia brasileira, começava a ter uma dimensão com que ele próprio, como amigo da Venezuela, não podia deixar de preocupar-se. Lula aconselhou-o, nesse encontro, a deixar criar unidades produtivas em áreas que pudessem dar resposta a algumas dessas carências mais evidentes, até ali supridas por compras ao exterior, adquiridas com os rendimentos do petróleo. Como me contou um ministro presente à conversa, Chávez retorquiu que estava a pensar criar empresas públicas para esses setores produtivos. O presidente brasileiro terá reagido: era em empresas privadas que estava a pensar, em abertura ao investimento estrangeiro - como o então sucesso da economia brasileira bem o provava. Chávez reagiu: “Privados? Nem pensar!” e a ideia ficou por ali.

O socialismo bolivariano era isso mesmo: uma obsessão estatizante, assente em políticas de distribuição de uma riqueza que não correspondia a um real crescimento do país, conduzindo a um ambiente inflacionário e, no plano político, a uma polarização maniqueísta que, cada vez mais, passou a recorrer ao sufoco das vozes dissonantes, nomeadamente através da domesticação da comunicação social. O facto dos setores conservadores venezuelanos, por mais de uma vez, terem dado mostras de não ter pejo em recorrer ao golpismo armado, para inverterem a legitimidade eleitoral que conduzira Chávez à presidência, conferia a este uma forte autoridade interna e, no plano externo, dava-lhe uma certa aura de um poder que, embora radical no formato, parecia ratificado pelo povo. Com o tempo, o autoritarismo político passou a estar presente no dia-a-dia do país. A Venezuela não era Cuba, não tinha o histórico da ilha de Fidel, mas, para se afirmar, Chávez ia mimetizando algumas das práticas repressivas mais detestáveis do seu parceiro privilegiado na região. O seu carisma continuava a suscitar algum proselitismo militante, mas a prova provada de uma impopularidade que se foi alargando era o facto das forças armadas e policiais se terem convertido na sua indispensável guarda pretoriana – contudo, rodeadas de acusações de implicação em negócios pouco claros.

Maduro não é Chávez, mas ninguém pode garantir que, se este tivesse sobrevivido, a Venezuela estaria hoje muito diferente, porque todos os erros que conduziram à atual situação já estavam nas cartas, ao tempo do antigo presidente. O modelo “bolivariano” era, desde o primeiro momento, um desastre anunciado, num mundo que já não ia por aí. Maduro apenas o conduziu inabilmente, e de uma forma quase caricata, ao impasse em que acabou por cair. O facto de uma guerra civil não ter eclodido é talvez o maior milagre que se produziu na Venezuela, mas nem sequer o podemos creditar à gestão de Maduro.

Depois de Cuba, a Venezuela era, de há muito e à evidência, uma espinha encravada nos humores de Washington na América Latina. Não se tratava de um caso qualquer: estamos a falar de um Estado com reservas imensas de petróleo e outras riquezas, circunstância que é óbvio não ser indiferente a um país que delas tem sido um pouco discreto cliente, na fria “realpolitik” do negócio. No passado recente, a bravata anti-yankee dos dirigentes venezuelanos ia sendo tida à conta de uma realidade incómoda que apenas havia que suportar, tanto mais que o país não era “produtor” de insegurança na sua periferia que justificasse uma ação específica nele focada, salvo o apoio às forças opositoras internas. O que é que mudou, entretanto?

No essencial, foi-se esgotando a complacência da comunidade internacional em face de um regime que, dia após dia, se tinha convertido numa mera caricatura democrática. O descaso oficial perante uma situação humanitária cada vez mais trágica, e o completo fechar de portas por Maduro a um diálogo com setores fora do núcleo político-social do governo, começou a escandalizar o mundo, com a União Europeia a dar sinais de crescente inquietude. A isto se somou, nos últimos meses, o afastamento claro do Brasil, com uma nova administração à qual, por razões de política interna, conveio a diabolização do modelo bolivariano. Este fator não tem sido sublinhado com a importância que julgo que realmente tem, porque tudo indica que o empenhamento americano, na tentativa de um rápido derrube de Maduro, dificilmente se teria processado, pelo menos nos moldes que assumiu, se, da parte de Brasília, como potência sub-regional, fosse presumível a promoção de uma qualquer reação, menos de “proteção” de Maduro e mais de rejeição da intromissão americana.

Verdade seja que, ao forçar agora, com determinação, a mão à Venezuela, os Estados Unidos assumem, num novo ciclo histórico, o seu nunca dispensado “droit de regard” sobre a América Latina, na linha clássica da “doutrina Monroe”. Fazem-no numa causa que sabem ser hoje popular em vários quadrantes, explorando o inédito isolamento em que Maduro se deixou cair. Trump aproveita este tipo de “fogachos” como uma oportunidade para gerar uma fácil unidade interna, que lhe pode render alguns dividendos políticos. Na ordem externa, esta iniciativa pode também garantir aos EUA, aos olhos de alguns, um estatuto de liderança na promoção dos valores democráticos. Além disso, deixando o juízo sobre estas prioridades ao sabor de cada um, trata-se de uma oportunidade soberana para Washington poder assegurar um lugar privilegiado na preservação dos seus próprios interesses económicos na região. Ainda neste jogo de sombras que é a agenda de desígnios, convirá notar um ponto que, com toda a certeza, nunca deixou de estar presente na coreografia geopolítica da América: Cuba. Uma queda de Maduro, com Lula e os seus heterónimos já fora do cenário, levará o regime de Havana a sentir-se cada vez mais fragilizado – e isso não pode deixar de fazer parte das contas de prazer em Washington.

(Artigo publicado na Revista, a convite do "Expresso", em 2 de março de 2019)

domingo, 3 de março de 2019

A quem não convém que se fale disto?


Procópio


Quando, há horas, lá entrei, a média etária deve ter subido vertiginosamente para os 30 anos. O “Procópio” está muito diferente, bem mais jovem, muito mais alegre e agradável do que nos últimos anos do “nosso tempo”. Ah! E “também” às vezes se fala português por lá!

Olhei para a mesa “Dois”. Estava ocupada por pessoal muito distinto do que nós éramos. Imagino que a conversa não tivesse rigorosamente nada a ver com a que, por décadas, por ali alimentámos. 

É que tudo isso já lá vai, há muito! O “Procópio”, com naturalidade e aparentemente sem o menor esforço, soube reinventar-se, encontrou uma nova forma de estar na noite de Lisboa - outra gente, outros copos, outro tipo de diversão. E, dessa forma, partiu para uma nova fase da sua “estranha” e bela forma de vida.

Há já muitas semanas que fazia “gazeta” do meu bar de sempre. Ontem, ao final da noite, deu-me para passar por lá. Fiquei à conversa com a “Sedonalice”, ao balcão, com umas cervejolas a liquefazer a noite.

Quero dizer que fiquei muito feliz ao constatar que o “Procópio” continua a ser o lugar geométrico onde alguma noite saudável de Lisboa cada vez mais se encontra. 

Há muitos outros bares em Lisboa? Claro que sim! Mas quem sabe destas coisas também sabe que não é a mesma coisa! O “Procópio” é único!

sábado, 2 de março de 2019

O regresso de Monroe

“O regresso de Monroe” é o título que dei ao artigo que hoje fui convidado a publicar na Revista do “Expresso” sobre a atitude americana perante a Venezuela.

sexta-feira, 1 de março de 2019

O mundo é pequeno!


Vim, há dois dias, a Bruxelas para fazer parte de um grupo de trabalho, integrado por um representante de cada Estado membro da União Europeia, que vai preparar um relatório sobre uma determinada temática internacional. Assinei hoje o (simpático, diga-se) contrato, mas não consegui satisfazer a minha curiosidade sobre quem terá, por aqui, sugerido o meu nome às duas entidades (ambas privadas e muito ciosas da sua independência face aos governos), uma alemã e outra belga, que me recrutaram para trabalhar nos próximos meses. Um dia, espero saber e agradecerei.

À entrada para a reunião, ouvi alguém dizer: “Estás na mesma!”. Era um velho amigo austríaco, que já não via há quinze anos e que, durante a nossa presidência da OSCE, eu havia empossado num cargo da organização, na Polónia. No seu país, passa agora a ter a mesma função do que eu. O que ele dizia não era, de todo, verdade, como era óbvio, mas não deixava de ser agradável de ouvir. 

Estava ainda nessa conversa quando alguém me pôs uma mão no ombro e me perguntou: “Ainda andas pelo Brasil?”. Era um qualificado diplomata dinamarquês, que conheço há décadas, e que havia encontrado, pela última vez, creio que em 2006, em S. Paulo - trata-se de um grande especialista das coisas europeias, que fez grande parte da sua carreira em Bruxelas, que agora vai ser um dos coordenadores do nosso trabalho e que tive como colega nomeadamente na negociação dos tratados de Amesterdão e Nice.

Ao final das primeiras horas de debate, no primeiro “coffee break”, dirigiu-se-me uma senhora búlgara, cuja cara, confesso, não me dizia nada: “Não se lembra da sua ida a Sófia?”. Tinha sido a seu convite que eu tinha visitado dessa vez a Bulgária, há bem mais de duas décadas, quando ambos tínhamos funções idênticas nos nossos respetivos governos. A memória veio então.

À saída, sob um vento e chuva fria desta invernosa Bruxelas, no regresso em passo rápido para o hotel, o representante espanhol no grupo perguntou-me: “Trabalhas com o Luis Tomé?”. Claro que sim! Como é que ele tinha adivinhado? Trata-se de um amigo próximo desse meu colega na Universidade Autónoma de Lisboa (como também o é de Nuno Severiano Teixeira) e, ao ler o meu currículo, dera conta da minha ligação à UAL.

O mundo é bem pequeno e Bruxelas, no fundo, é, desde há muito, uma das minhas “casas” habituais de passagem (embora o nunca tenha sido de vida). Há minutos, antes do almoço, estava eu a encher-me de livros, na magnífica “Filigranes”, quando ouvi, em bom português: “Com que então sempre interessado pela banda desenhada!”. Eu estava, de facto, a pensar como ia ter espaço para meter na mala o último “Blake & Mortimer” (já tinha comprado na Buchholz a tradução portuguesa, mas não resisti a adquirir o incomparável texto em francês deste “falso” Edgard P. Jacobs), quando este velho amigo português me surgiu ao encontro (se tivesse sido uns minutos antes, tinha-me apanhado a folhear um comprometedor Manara...)

Bom, vou andando para o aeroporto, porque esta capital belga cada vez se parece mais com o Chiado...

Maria João Rodrigues


Longe de mim imiscuir-me na sempre complexa questão dos nomes da lista socialista às eleições para o Parlamento Europeu, mas ficaria de mal com a minha consciência se não deixasse aqui expresso, preto-no-branco, que considero que a saída de Maria João Rodrigues representa uma perda de vulto na representação do PS naquele instância.

Maria João Rodrigues, de quem tive o gosto de ser colega num governo e com quem depois trabalhei muito de perto na presidência da União Europeia de 2000, onde foi o braço direito de António Guterres, é uma das pessoas que, entre nós, melhor conhece as questões europeias, dispondo de um grande prestígio nas diversas instituições, que lhe adveio do seu grande sentido de responsabilidade, de uma dedicação sem limites ao trabalho e de uma inquestionável competência no tratamento de todos os dossiês em que se envolveu.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Digo eu, não sei...


Há dias em que o ato de escrever num jornal se converte numa operação de elevado risco, tal a volatilidade dos acontecimentos e o facto de uma qualquer “mudança do vento“ poder alterar, num instante, toda a lógica em que a análise imediatamente anterior se apoiava. É o que acontece, por estes dias, com o Brexit.

Duvido que muitos consigam hoje seguir, passo a passo e com um mínimo de rigor, este debate – uma questão em que as posições do governo de Theresa May são marcadas por uma tal tergiversação tática, em termos da “costura’ de alianças, que legitima que nos perguntemos se, por detrás dela, existe alguma clareza estratégica – que passe para além do seu esforço de sobrevivência política. Declarações e “tweets” de várias fontes sucedem-se, são citados nos noticiários como doutrina a respeitar, numa cadência que soma confusão à confusão. Por isso, como já experimentei, estar dois ou três dias sem olhar as notícias de Londres pode deixar-nos perdidos face a esta atualidade tão movediça. Alguns, mais cínicos, acabarão por concluir que, no final de contas, tudo continua na mesma. Talvez, mas isso não nos deve sossegar, bem antes pelo contrário.

Quando Theresa May vem aventar a possibilidade de adiar a data “fatal” e propor uma prorrogação do Artigo 50°, o que é que isso significa? Quando o líder trabalhista Jeremy Corbyn vem propor um segundo referendo, hipótese que grande parte da classe política britânica pareceu sempre afastar, por receio de ela poder surgir como desrespeitosa face à vontade soberana manifestada no primeiro voto, que podemos concluir? Uma única coisa: que os britânicos com um mínimo de responsabilidades já entenderam que o Brexit, com mais ou menos medidas compensatórias ou atenuantes, acabará sempre por ser um desastre para o seu país.

Percebo que a unidade dos “27”, conseguida em torno do “pacote” que foi negociado com os britânicos, e que May não consegue “vender” internamente, tem um valor inestimável. Mas lembraria esta coisa simples e que creio muito óbvia: tudo aquilo que foi negociado tem um valor “zero” se não conseguir ser posto em prática. É a Theresa May quem compete conseguir isso? Claro que sim, mas se ela não conseguir, o cenário do “hard Brexit” é um pesadelo que passa a ser nosso. Embora isto possa parecer uma heresia, pergunto-me se a UE, num esforço que teria muito também de egoísta, não poderia ter uma flexibilidade acrescida que ajudasse a evitar a tragédia. Como se diz na minha terra, “digo eu, não sei...”

Zaventem



Passei por lá há poucas horas, coisa que não fazia há dois ou três anos. Pelo aeroporto de Bruxelas, dito de Zaventem.

Ao contrário do que vulgarmente me sucede, voltei a sentir alguma nostalgia pela velha aerogare, construída para a exposição universal de 1958. Com o tempo, ela chegou a atingir momentos de notória decrepitude, com pássaros a voar pelos corredores, redes a tentar travá-los e os grandes vidros fazendo sombras de sujidade. 

Sou bem antigo por ali. Assisti ao nascer do velho "satélite", ao fundo do antigo grande corredor. Vi construir, depois, do outro lado, a nova ala, que tornou aquilo que era um aeroporto de culto num espaço igual a todos os outros, como hoje já acontece com a Portela. Com os anos, fui descobrindo espaços novos, naquilo que hoje parece ser um espaço de gente apressada e quase angustiada, um imenso centro comercial. Hoje, surgem BMW iluminados, topo de gama, entre as passadeiras, a acenarem-nos com aquilo que não poderemos vir a ter. Já não me reconheço neste Zaventem, sou sincero! Mas, devemos ser justos: este novo aeroporto, embora mais “desumano”, é bem mais agradável e com melhor aspeto do que o antigo!

Devo ainda reconhecer uma coisa: se há um espaço desta natureza, em todo o mundo (e, caramba, conheço 109 países!), que me diz muito, por tantas razões afetivas, algumas inconfessáveis, é Zaventem - claro que depois da Portela e Pedras Rubras, sobre cujas relação comigo seria quase capaz de escrever um livro.

Por Zaventem passei os meus primeiros banhos de cosmopolitismo oficial, na segunda metade dos anos 70, como portador da "mala diplomática", na descoberta do "glamour" das viagens aéreas, ao tempo em que isso existia (ainda haverá “malas diplomáticas acompanhadas”?). À chegada, recordo, esperava-nos então, rezingão, o senhor Rézo, o motorista da nossa delegação junto da NATO, que sempre nos encaminhava para uns hotéis manhosos, onde se sabia que ele tinha comissão garantida.

(Um dia, troquei-lhe as voltas e, à chegada, anunciei ter reservado em um outro hotel. Ele era fiel do “Albert I”, na place Rogier, mas eu (depois de, numa noite umas semanas antes, ter aí tido a experiência bizarra de baratas sobre a cama) havia-me decidido por um tal “Sirius”, ali ao lado. O homem ficou silenciosamente furioso. Para aliviar a conversa, perguntei-lhe o que achava da minha escolha. Fez um silêncio, mas depois foi soberbo: “Pas mal, pour un bordel!”. Grande Rézo! Era francês, de Valenciennes, coisa que eu de início desconhecia. Tinha sido desclocado de Paris, quanto a NATO estava por lá, antes de De Gaulle ter tido um arrufo com os americanos. Era casado com a telefonista da nossa delegação na organização, uma loira de cabeleireiro, bem mais simpática do que o marido, o que, aliás, não era difícil. Na primeira vez que o conheci, a “armar” que falava francês à moda da Bélgica, em conversa no carro, usei a palavra “nonante”, que é a forma belga de dizer “noventa”, para o francês “quatre-vingt dix”. Rézo, que detestava a Bélgica e os belgas, “fuzilou-me”: “Vous me prennez pour un belge?! Mais non! Je suis français, monsieur!”. Tomei nota.)

Já mais tarde, depois de 1986, o aeroporto de Bruxelas passou a ser um meu destino bem habitual, pela TAP ou pela desaparecida Sabena (agora chama-se Brussels Airlines), nas deslocações regulares a "grupos de trabalho" da então CEE - o nome da atual União Europeia. Um comboio soturno levava-nos de lá, já pela noite dentro, para o centro da cidade, com os diplomatas e técnicos portugueses a saírem nas estações do Midi ou do Nord, para daí rumarem aos hotéis, como o Métropole e outros bem piores destinos da "moda", que cabiam nas nossas pobres ajudas de custo. Não eram tempos gloriosos, mas eu, à distância temporal, acho-lhes alguma graça, confesso.

Finalmente, o aeroporto de Zaventem ficou-me, para memória eterna, ligado a outros tempos que, embora também com bastante interesse, acabaram por ser de um imenso cansaço - os meus anos de governo, a partir de 1995 e até 2001. 

Chegava a Bruxelas esgotado de dias incessantes em Lisboa ou noutras capitais, atulhado de papelada, ensonado e esfalfado. (Cheguei a adormecer na Portela, ainda antes de levantar voo, e a acordar com a tremideira da aterragem em Bruxelas, com o meu “pessoal” a pedir às hospedeiras para não me acordarem). No desejado cenário no fim da manga, tentava descortinar a figura amiga do senhor Barreiros, o simpático funcionário da Representação Permanente (Reper, para os iniciados), que me aliviava o peso da pasta e me conduzia, por corredores que sempre presumi serem VIP, até a um parque de estacionamento, onde me aguardava o fiel Willhelm, um motorista flamengo, tão calado como discreto, como o futuro o viria a provar à saciedade. E lá ia eu, para o Hilton, para o SAS ou para o Montgomery, arrasado de sono, ajoujado de dossiês chatíssimos, com os quais, ao lado, cheguei adormecer e a acordar no dia seguinte, ainda com a luz acesa...

Por aquele aeroporto passei então dezenas (qual quê! centenas!) de horas de atrasos, de conversas, de esperas, de compras. Por lá me deixei adormecer um dia, de fadiga, num banco, num final de tarde, perdendo um voo para o Luxemburgo, o que me obrigou a dormir, quase envergonhado comigo mesmo, num hotel próximo - e não há nada no mundo mais triste do que um hotel de aeroporto, acreditem! Por ali adquiri coisas que ainda hoje estão na minha memória familiar, num tempo em que, em Portugal, a oferta proporcionada pelas lojas era muito diferente das da "estranja". Por lá festejei "vitórias" arrancadas nas lides europeias e ali me forneci de livros inúteis, que comprava para entreter os minutos que antecediam os aviões - minutos que, no meu caso, são sempre mais, porque faço parte dos que, por regra e para desespero dos atrasados crónicos, chegam a tempo e horas. 

Lembrei-me disso, ao final da tarde de hoje, numa breve passagem por Zaventem. Com alguma nostalgia, assumo. Serão saudades doutros tempos ou saudades de mim nesses tempos? Já escrevi isso por aqui, não escrevi?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Equidade

Há dias, participei num exercício de âmbito académico que envolveu pessoas com diferentes responsabilidades empresariais, numa escola universitária de topo no setor. No centro da discussão estava a questão da participação das mulheres em lugares de responsabilidade nas empresas, o “estado” de Portugal nesse contexto e as razões que, entre nós, podem motivar as dificuldades de acelerar uma maior equidade a esse nível. 

A certa altura, o CEO de uma grande empresa deu conta da reação que teve, não há tanto tempo quanto isso, ao ter designado uma mulher para sua chefe de gabinete. Por incrível que pareça, uma atitude de espanto foi expressa por várias pessoas, bem dentro deste século XXI. 

Quando ocupei funções governativas, e já lá vão quase duas décadas, dois dos quatro chefes de gabinete que tive foram mulheres. As presenças femininas no meu gabinete eram tantas que, num determinado período, constatou-se que, além de mim e de dois motoristas, o resto do pessoal, das técnicas ao pessoal administrativo, era todo feminino. Julgo que nenhum membro do governo, em democracia, bateu este “record”. Ao ponto de uma dessas amigas se queixar, um dia: “Fazem falta homens nas nossas salas de trabalho...”

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

As armas da Venezuela


Há cerca de dois anos, contei esta historieta no meu blogue. Hoje, pelas razões que facilmente compreenderão, lembrei-me dela:

"Mário Soares não tinha por hábito pernoitar nas embaixadas, preferindo quase sempre os hotéis. Apenas em Brasília, numa das vezes que por lá passou, o convenci a dar-me o gosto de ali ficar. Mas foram bastantes as noites, em vários países, em que com ele fiquei à conversa pela noite dentro. Nessas ocasiões, eu aproveitava para saciar a minha curiosidade em torno das suas inesgotáveis memórias, sempre marcadas por um rigor dos factos, datas e nomes. Muito aprendi então sobre a história da oposição democrática à ditadura e os bastidores da política doméstica no pós-1974.

Naquela noite, eu juntara à sua volta, num jantar, o antigo presidente da República, José Sarney, e o então vice-presidente, José Alencar. Sarney era um velho conhecido de Mário Soares, que as voltas da política tornara, à época, um leal aliado de Lula, e Alencar era um querido amigo pessoal meu, que achei que Soares gostaria de conhecer melhor.

O jantar começou muito bem, com a bonomia e as histórias mineiras do vice-presidente a deliciarem o nosso antigo presidente. Este tinha vindo, na véspera, da Venezuela, onde entrevistara o presidente Hugo Chávez para um programa televisivo. Estava visivelmente entusiasmado com o líder venezuelano, sentimento que eu sabia muito longe de partilhado pelos dois convivas brasileiros. Alencar mostrava-se mais parcimonioso nestas reservas do que José Sarney, que, tempos mais tarde, acabaria por assumir no Senado brasileiro uma oposição forte à entrada da Venezuela para o Mercosul.

A certo passo do repasto, com a conversa quase sempre em torno da figura de Chávez, comecei a notar que o diálogo entre Soares e Sarney se estava a tornar um tanto tenso. Entre outras discordâncias, Sarney explicava a Soares que havia setores brasileiros muito preocupados com as aquisições de material militar que Chavez tinha recentemente feito, e procurava chamar em apoio das suas teses o vice-presidente da República, José Alencar, que, até meses antes, tinha acumulado o cargo com o de ministro da Defesa. Este, porém, por não querer distanciar-se da atitude nada crítica de Lula face a Chávez, mantinha-se discreto.

Soares, contudo, acreditava piamente na boa vontade de Hugo Chávez, creditava-o de boas intenções e de um real interesse em manter um relacionamento positivo com o Brasil. Num determinado momento, voltando-se para Sarney, disse-lhe: "Ó José Sarney! Eu conheço muito melhor o Chavez do que você! E, por isso, posso assegurar-lhe que nunca uma arma venezuelana que ele controle se voltará contra um interesse do Brasil".

Sarney fechou aquela cara de brasileiro que, do bigode ao cabelo negro com brilhantina, refletia uma imagem caricatural do brasileiro da sua idade a que o mundo dos anos 50 e 60 se habituara, e, longe de convencido, voltando-se para Soares, disse-lhe: "Ó Mário! Nem você nem eu já temos idade para acreditar nessas coisas! Não seja ingénuo!".

Mário Soares não gostou, retorquiu firme, mas com procurada elegância. Eu fiz um sinal a Alencar para me ajudar a amenizar a conversa. Isso foi conseguido, sem dificuldade, mas pode dizer-se que aquele que seria o último encontro entre os dois antigos presidentes não acabou em ambiente de grande euforia."

Chávez já morreu há muito e por lá está agora Maduro. Alencar e Soares também já desapareceram. Olhando as coisas à luz dos riscos potenciais nos dias que correm, com a escalada entre os dois países, em que só se pode esperar que o bom-senso prevaleça, lembrei-me das preocupações de Sarney.

Biafra


Li, há pouco, que vai ser publicado um livro sobre a aventura de alguns portugueses envolvidos no apoio aéreo ao Biafra. Ainda alguém se lembra, nos dias de hoje, dessa República secessionista da Nigéria, dos ibos que por lá habitavam e das fortes razões do petróleo, origem dessa guerra inútil, com muitos mortos e fortes cumplicidades internacionais? 

Ainda guardo algures uma bela nota de “Banco do Biafra”, imaculada e nunca usada, creio que impressa nesta Lisboa onde então vigorava um regime que apostava nos Briafras, nos Catangas, nas Rodésias e em tudo o que fragilizasse a África que se opunha ao colonialismo, de caminho, e também para isso, dando refúgio aos “The Dogs of War” que Frederick Forsyth tão bem retratou.

Um dia, nos inícios de 1976, recém-entrado na diplomacia, fui destacado para ir efetuar uma determinada missão ao recém-criado Estado de São Tomé e Príncipe. A minha estada por lá seria de uma semana, porque era esse o ritmo dos voos da Air Gabon, num pequeno avião que nos fazia chegar e sair da ilha para Libreville, num tempo em que o único percurso alternativo era uma ligação da Taag, através uma Angola em guerra.

Nessa semana, calhou passar uns fins de tarde naquilo que se chamava o “Benguidoxe” (escrever-se-ia assim?), uma espécie de pensão com esplanada, no centro da cidade, onde se bebiam umas cervejas. Creio que através do Jorge Coimbra, um amigo do liceu de Vila Real que vim a encontrar por lá, veio um dia parar à minha mesa (ou eu fui parar à mesa dele) uma figura curiosa. Era um homem grande e cordial, conversador, de um género de contador de histórias que se encontra muito nesses lugares onde o tempo se suspendeu por algum tempo - como era bem o caso da cidade de São Tomé de então. 

O meu interlocutor chamava-se Villaret - um nome que não esquece quem tem a memória do Portugal dessa época. Era piloto e tinha andado envolvido na guerra do Biafra. Contou-me episódios dessa aventura em que aquela ilha, recém-independente, havia também tido o seu quinhão de participação. Eram relatos onde não havia nenhuma arrogância de heroísmo, muito embora as missões tivessem um elevado grau de risco. Lembrei-me dele agora. Surgirá o seu nome no livro que agora vai ser publicado? 

Saí de São Tomé, nesse mês de Fevereiro de 1976, a caminho do Gabão. Ao fundo do aeroporto estava um velho Constellation. Perguntei a alguém o que era aquilo. “É da guerra do Biafra”, respondeu-me. Tentei tirar uma fotografia ao inutilizado avião mas foi-me dito que era proibido, “por razões de segurança”. Não fossem essas brincadeiras serem pouco prudentes, nesses tempos muito afirmativos de juventude independentista, e teria perguntado se a ordem era “do tempo do colono”. Só podia!, como dizem os brasileiros. 

Voltei lá anos depois. O velho Constellation (descobri agora uma foto dele na net!) ainda por ali continuava, a apodrecer. As coisas, em África, têm sempre um tempo e em especial um ritmo diferente. E que teria acontecido entretanto ao Villaret, que já por lá não andava?