quinta-feira, dezembro 30, 2021

Periscópio


Ó diabo! Uma capa sem o almirante! Isto (ainda) é permitido?

Rohmer


Ontem, à hora de jantar, numa conversa com uma familiar, falou-se, já nem sei bem porquê, do filme “Ma Nuit Chez Maud”, de Éric Rohmer. E das angústias existenciais da personagem de Jean-Louis Trintignant no filme, que, a mim, me levou a ler o “Pensées”, de Pascal, e que então me criou uma ideia mítica (um pouco falsa, vá lá!) de Clermont-Ferrand. 

As coisas são como as cerejas, vêm umas depois das outras.

Por instantes, chegou-me à memória um ciclo de cinema francês, numa sala perto da avenida de Roma, em Lisboa, no início dos anos 70, onde vi, pela primeira vez, o “Ma Nuit Chez Maud”. E recordei-me, também, dos "Contes Moraux" de Rohmer. E dos embaraços, à beira-lago, da figura de Brialy, no sempiterno "Genou de Claire". E do inesquecível "L'amour l'après-midi", de onde um amigo meu retirou o dito magnífico de que "mais vale à tarde do que nunca"...

Mas voltemos a Clermont-Ferrand. Fui lá, um dia, há 11 anos, para um encontro com a comunidade portuguesa, creio que numa festa de São João, quando era embaixador em França. 

No segundo dia, antes de regressar a Paris, consegui umas horas livres. Para espanto do simpático motorista que por ali tive, pedi-lhe para me levar a alguns pontos da cidade, que havia registado num mapa, construído pela minha memória do filme. Um deles era uma vista de um ponto alto. O que o homem suou para descobrir o sítio! Mas lá chegámos (deixo a imagem que queria recordar).

Passou-se, entretanto, pouco mais de um ano. 

Fui passar um fim de semana a casa de amigos, na Baixa Normandia. No sábado, a dona da casa convidou-nos para ir ver uma interpretação da peça musical "Carnaval des Animaux", de Saint-Saenz, num festival cultural, perto de Alençon. No palco, estava uma atriz, uma bela senhora de 67 anos. Fui-lhe apresentado no final. 

E disse-lhe: "Lembro-me de si a passear de motocicleta, em Clermont-Ferrand". "Mas eu nunca vivi em Clermont-Ferrand!", respondeu-me ela, amável. "Talvez não! Mas passeou por lá, de motocicleta. Ou não?" Reação, segundos depois: "Ah! no filme?!" e fez um largo sorriso: "Que simpático! Ainda se lembra?" Claro que lembrava! Eu lembro-me sempre do que me dá prazer.

A senhora era Marie-Christine Barrault, a inesquecível atriz de “Ma Nuit Chez Maud”. Naquele ano de 1969, nesse seu primeiro filme, aos 25 anos, tinha protagonizado algumas cenas inesquecíveis - pelo menos para mim. Depois disso, iria ter uma carreira muito diversa. Repetiu Rohmer, por exemplo, no tal "L'amour l'après-midi", fez o histórico "Cousin, cousine", esteve mesmo no "Stardust Memories", de Woody Allen, e até, hélas!, no "Le soulier de satin", de Manoel de Oliveira. 

Foi um gosto raro cruzar a memória com a vida, ainda que cinematograficamente apenas virtual. E tive então o prazar de beber, com Marie-Christine Barrault, uma cidra normanda, saudando esses tempos bons. 

Rohmer acaba aqui, por hoje? Não.

Há minutos, recebi um pedido de “amizade”, no Facebook, de José Manuel Costa, que é, nem mais nem menos, do que o Diretor da Cinemateca Nacional. Só isso? Também não. José Manuel Costa tinha acabado de colocar um “post” onde procurava saber onde poderia adquirir a caixa DVD com os filmes dos Contos das Quatro Estações. De quem? De Eric Rohmer.

Eu sei que não há coincidências. Mas, tal como as bruxas, “pero que las hay, las hay!”

quarta-feira, dezembro 29, 2021

O último “A Arte da Guerra” de 2021

Neste final de ano, o “A Arte da Guerra”, o podcast” do Jornal Económico, assume um formato diferente. Na primeira parte, é feita a escolha do “acontecimento do ano”, na segunda da “personalidade do ano”, para, na terceira parte, a conversa entre mim e o jornalista António Freitas de Sousa assentar no que podem vir a ser os pontos mais marcantes de 2022. 

Pode ver aqui.

EUA, a China e o futuro


Na CNN Portugal, ontem à noite, em conversa com Júlio Magalhães.

Pode ver aqui.

terça-feira, dezembro 28, 2021

Que título!



O meu amigo Alfredo Branco, proprietário dessa vetusta e inestimável instituição cultural do bem que é a Livraria e Papelaria Branco, em Vila Real, tinha guardada, para mim, esta oferta de Natal. 

O livro tem um título que me lembra alguma coisa, embora eu não saiba bem o quê.

segunda-feira, dezembro 27, 2021

Há gangorra no Grenal


Num final de tarde de 2007, aterrei no aeroporto de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, no Brasil. 

Durante a viagem no táxi que me conduzia ao hotel, vi passar carros com bandeiras, no que me pareceu ser o prelúdio de um qualquer evento desportivo. Perguntei ao motorista de que se tratava. O homem, pelo retrovisor, olhou para mim com cara de poucos amigos e, claramente, com algum desprezo, justificado pelo meu desconhecimento, esclareceu: "Hoje o Grêmio joga com o Inter".

Foi então que me veio à memória que, em Porto Alegre, existe uma das maiores rivalidades que opõem clubes na América Latina - quiçá mesmo do mundo. 

O Grêmio e o Internacional, ambos clubes da cidade, são, desde há bem mais de um século, adversários ferrenhos, numa conflitualidade que já produziu mortos e que deixa o clássico carioca Fla-Flu (Flamengo-Fluminense) com o estatuto de rixa de infantário. 

Quando um desses clubes gaúchos (“gaúcho” designa um originário do Rio Grande do Sul) joga com uma equipa da Argentina, um país ali ao lado pelo qual nenhum brasileiro morre de amores, há uma metade de Porto Alegre que "vira", por 90 minutos, argentina...

Nessa noite, atenta a má catadura do meu condutor, hesitei alguns segundos antes de lhe colocar a pergunta: "E o meu amigo de que clube é?" O sentimento de pena do homem para comigo acentuou-se ao ter de revelar o que devia ser óbvio: "Sou do Grêmio. Só pode, não é?!".

Já não me recordo de muito do resto da conversa, mas fixei para sempre as palavras de quase ódio com que, a certo ponto da verborreia anti-Inter por que enveredou, me falou de um filho que se tinha convertido em adepto do Inter, por via do namoro com uma jovem de uma família que era adepta do rival. "Mandei ele sair de casa na noite em que soube que se dava com gente dessa! Com roupa e tudo. Foi há quatro anos, vive noutra zona da cidade. Não quero saber dele. Nunca mais."

Chegámos ao hotel. Paguei, não lhe desejei felicidades para o jogo. À noite, na televisão, vi que o Grêmio tinha perdido. Ele não deve ter tido uma boa noite.

Hoje, pela imprensa brasileira, soube que o Grêmio desceu à segunda divisão. Entrou-se, assim, em mais um ciclo de um processo que localmente se designa por “gangorra”, expressão utilizada quando um dos clubes do “Grenal” - termo que também se usa para designar o confronto Grêmio-Internacional - se encontra numa má situação e outro num bom momento.

Que grande ”porre” de desgosto deve ter apanhado ontem aquele meu ocasional motorista de outrora!

Desmond Tutu


Morreu ontem o arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu. Mandela ainda ficaria preso em Robben Island, por alguns anos mais, quando, em 1984, Tutu recebeu, no Rådhus de Oslo, o Prémio Nobel da Paz.

Os nórdicos têm uma “rightousness” que, às vezes, irrita por excesso de presunção. Porém, em matéria de sensibilidade face a situações de injustiça e desigualdade, estiveram frequentemente à frente de muito outro mundo. O Prémio Nobel da Paz, que o Comité Nobel norueguês atribui (os suecos atribuem os restantes), não obstante alguns erros de “casting”, teve o frequente mérito de ajudar a destacar alguns desses casos gritantes, contribuindo para dar eco a algumas lutas justas, ajudando mesmo, em certos casos, a resolvê-las a caminho da solução que a História veio a ter como certa. 

O regime do “apartheid” foi, com toda a certeza, uma das criações políticas mais detestáveis que essa mesma História alguma vez já acolheu (claro que houve o nazismo, eu sei). Por muitos anos, os negros sul-africanos foram considerados estrangeiros na terra onde nasceram, sujeitos a um processo de discriminação e repressão, por parte de quem se considerava superior e com o direito de definir onde e como eles podiam viver. Os “bantustões” iriam ser, nesse projeto insano, um dos produtos institucionais mais absurdos. 

A complacência com que, na Guerra Fria, o regime sul-africano foi sendo tratado por “este lado”, pelo “mundo livre”, só não raiou o cinismo porque o ultrapassou bastante em perversidade. Nunca devemos esquecer que foi uma denúncia da CIA que conduziu à detenção de Nelson Mandela - o início dos seus 27 anos de prisão. E é bom também lembrar que foi o governo de Thatcher que procurou atrasar as sanções europeias, bem como aquelas que a Comunidade dita Britânica tentou implementar, para isolar o “apartheid”, com a ajuda de uns não inocentes úteis, que nós conhecemos de ginjeira.

Desmond Tutu, de quem o ANC, que pilotava a luta contra o regime, muitas vezes divergiu, foi, por muito tempo, a figura moral que ajudou a modelar, um pouco pelo mundo, uma crescente reação, por decência básica, contra o “apartheid”. 

Com a libertação e a emergência de Mandela na vida democrática do seu país, Tutu recuou no palco político, mas nunca cedeu um milímetro na postura ética que iria manter até ao final da sua vida. Nesse importante caminho ficou a condução que fez da Comissão para a Verdade e Reconciliação, uma iniciativa que, não obstante algumas justificadas críticas às respetivas insuficiências, teve o mérito de entrar por um terreno precursor, à escala mundial.

A África do Sul que hoje existe está, seguramente, muito longe do sonho de Mandela e era, visivelmente, uma realidade com que Desmond Tutu não vivia bem. 

O arcebispo, aliás, nunca escondeu críticas a práticas locais que considerou atentatórias da democracia e do Estado de direito, da corrupção às desigualdades e aos atentados aos direitos sociais e humanos, bem como em relação à xenofobia que, para surpresa de muitos, emergiu na sociedade sul-africana. Tutu nunca se importou de ser impopular, a bela qualidade das pessoas realmentes superiores.

Devo confessar que sempre me fascinou o sorriso franco, quase galhofeiro, de Desmond Tutu. Sempre imaginei que, com isso, Tutu devesse irritar bastante os “boers” que estavam no poder que ele ajudou a derrubar. Era o sorriso de quem sabia que estava do lado certo da História.

domingo, dezembro 26, 2021

Sem vacina

Não sei se há algum lei que impeça isso, mas seria muito pedagógico se, diariamente, fosse divulgada a percentagem de pessoas que morrem por Covid que não estavam vacinadas.

O que é o tempo?


O conceito de tempo vai variando dentro de cada um de nós. Como? Com o tempo! No que me toca, tempos houve em que tinha todo o tempo do mundo, em que nem sequer sabia o que fazer para conseguir passar o tempo. O tempo andava devagar e sonolento na Vila Real desse tempo da minha juventude. O meu pai, para significar, criticamente, que o seu filho único fazia então o que lhe apetecia, dizia para a minha mãe: “Ele faz o que quer e sobra-lhe tempo!”. Nunca levei muito tempo a pensar nisso, mas sempre coloquei a frase a crédito da arte, que também fui apurando com o tempo, de fazer apenas o que me desse na gana e no tempo que eu quisesse. E, posso hoje confessar, tive bastante sucesso nisso, em quase todo o tempo da minha vida! Quando um dia me empreguei, logo depois de fazer vinte anos, passei a ter o tempo marcado pelo relógio de ponto. Fui, depois, para a tropa, onde os minutos eram fardados a verde e, claro, só esperava que aquele tempo passasse, rapidamente. Pelo meio, ainda surgiu, no tempo certo, um belo dia de Abril, que sempre rememoro dizendo: “Belos tempos!” É que já era tempo de acabar com “o tempo da outra senhora”! Depois, por bastantes anos, passei a ter o tempo ditado por quem me chefiava, em fusos horários que foram variando. Até que um dia - caramba, já não era sem tempo! - passei a ser eu a marcar os tempos de outros. Ou melhor, pensei que assim era, porque, na verdade, acabamos por ficar escravos de tempos que ingenuamente pensamos que gerimos. Com o meu trabalho a tempo certo a terminar, pensei, mas apenas por algum tempo, que seria tempo de parar de olhar tão obsessivamente as horas, que devia reganhar algum tempo perdido e devolvê-lo à vida. Uma bizarra espécie de falsa reforma em que, tempos depois, me meti trouxe-me, é verdade, um pouco mais de tempo, mas criou uma crescente ansiedade: quanto tempo terei para gozar a vida que ainda me falta viver (não gosto de dizer a que me resta)? Será que ainda vou a tempo para fazer muitas das coisas que não fiz, porque, então, nesse tempo, não tinha tempo para nada? Nos dias de hoje, ao contrário de outros tempos em que isso me era indiferente, abro a janela, de manhã, para saber o tempo que faz. É que não há tempo a perder: os dias de sol não esperam por nós, se não lhes dedicarmos, gozando-os logo, todo o tempo que ainda temos. E que dizer deste tempo de pandemia, que nos está a atazanar as horas e a fazer perder tanto tempo? Como dizia Saramago, não devemos ter pressa, mas não devemos perder tempo. Mas, afinal, o que é isto do tempo? O tempo, no fundo, é a medida da vida que ainda julgamos poder vir a ter pela frente.

(Texto inspirado numa resposta que dei num inquérito para a belíssima 25ª edição do “Anuário de Relógios e Canetas”, publicado na semana passada).

sexta-feira, dezembro 24, 2021

Um livro


Uma simpática nota no semanário "Novo", sobre um livro que, desde há semanas, está mais do que esgotado e que não terá (nunca) uma segunda edição.

quinta-feira, dezembro 23, 2021

Hermano Sanches Ruivo


Um dia de 1996, Eduardo Prado Coelho, então Conselheiro Cultural da nossa embaixada em França, disse-me que seria interessante se eu aproveitasse uma das minhas frequentes idas a Bruxelas, como secretário de Estado, para estar presente numa iniciativa de uma determinada associação de jovens portugueses e luso-descendentes em França, que estava a fazer coisas interessantes e que era desejável apoiar. 

Segui o seu conselho e assim fiz: lá estive, creio que no centro de congressos da porte Maillot, num evento da “Cap Magellan”, que era o nome dessa associação da qual, até então, eu nunca ouvira falar. Era seu principal animador um jovem beirão, Hermano Sanches Ruivo, que fora para França, muito cedo na vida, com os pais.

Treze anos depois, acabado de chegar a Paris, dessa vez como embaixador, tive Hermano Sanches Ruivo, recordo bem, como um dos primeiros visitantes em casa. 

A “Cap Magellan”, que havia sido criada em 1991, já tinha entretanto uma relevante história de realizações, no seio do associativismo da nossa comunidade, mobilizando muitos jovens. 

Hermano Sanches Ruivo, que a impulsionara e à qual permanecia ligado, a exemplo de outras figuras da comunidade portuguesa, um pouco por toda a França, tinha optado por seguir uma carreira política. 

Uma estrutura de coordenação de eleitos portugueses, que entretanto criara e animava, já não estava sozinha no terreno, espelhando uma competição política que passou a atravessar esse setor da comunidade. 

Essa era uma realidade com que a embaixada que eu dirigia se habituou, com toda a naturalidade, a viver, não sem que a nossa leitura das coisas se afastasse, por vezes, daquela que aquelas e outras estruturas do associativismo português iam alimentando. 

Hermano Sanches Ruivo revelara-se, entretanta, a figura da nossa comunidade que, creio, mais longe ascendeu na vida política francesa, assumindo mesmo, por bastante tempo, cargos de relevo na estrutura municipal de Paris. 

Acompanhei o seu trabalho com Bertrand Delanöe e, mais tarde, com Anne Hidalgo. Muitas e importantes iniciativas que, no âmbito da autarquia parisiense, foram dando destaque e projeção à comunidade portuguesa tiveram o seu entusiasmo e seu esforçado empenhamento como assinatura. Tive o ensejo e o gosto de participar em muitas dessas atividades, de as estimular e de as apoiar, mesmo depois de ter deixado de ser embaixador em França.

A vida em geral, com a vida política em particular, é feita de altos e baixos, que fazem parte da anormalidade incontrolável dos seus insondáveis ciclos. Para Hermano Sanches Ruivo, fiquei há dias a saber que os últimos tempos não estarão a ser fáceis. Só posso lamentar por ele, mas também pela comunidade portuguesa em França, para quem a sua figura foi uma referência. Só posso esperar que tudo possa vir a correr pelo melhor, no seu futuro. 

Neste tempo de festas que, para o Hermano não serão dias muito felizes, quero deixar-lhe aqui um abraço muito sincero de simpatia pessoal, deixando claro que não esqueço o muito de positivo que fez, ao longo de bastantes anos, por Portugal e pela nossa comunidade em França. E só posso desejar-lhe, como por lá se diz, “bon courage!”

quarta-feira, dezembro 22, 2021

“A Arte da Guerra”


No “A Arte da Guerra”, o podcast semanal do “Jornal Económico sobre política internacional, converso com António Freitas de Sousa sobre o “ultimato” da Rússia à Nato, as preocupações de segurança das petro-monarquias do Golfo e os primeiros sinais do novo governo alemão.

Pode ver clicando aqui.

terça-feira, dezembro 21, 2021

A fé em Fátima!


Não posso correr o risco de ler este artigo de Fátima Bonifácio. É que, como estou 1000% de acordo com aquilo que surge neste destaque, não quero perder esta oportunidade, que penso única, de, por uma vez, estar em sintonia com ela. Isso já não me acontecia desde os longínquos tempos em que a senhora era de esquerda.

Boas Festas!


A quem por aqui passa, desejo muito Boas Festas e que, em 2022, possamos ver a luz ao fundo do túnel da pandemia que nos atazana os dias.

segunda-feira, dezembro 20, 2021

Elogio da ilusão


Todos sabemos, embora finjamos que não, que, no fim do dia, tudo será muito diferente daquilo que se tinha imaginado. A realidade nunca conforta, por completo, a esperança criada. 

Porém, ao ver hoje as ruas de Santiago do Chile, onde não chove mas já choveu, pergunto-me: o que seria da vida se não houvesse ilusões?

Crônicas

O mais caro estacionamento em Lisboa é, a grande distância, na rua da Escola Politécnica. E não é cobrado pela EMEL, é pago ao balcão da Livraria da Travessa. Hoje - tragédia logo anunciada! - havia um lugar vago e parei. E lá trouxe o ” Vento Vadio”, as crónicas (“crônicas”, por lá) de Antônio Maria, um dos muitos magníficos escritores do género que o Brasil teve e tem. “É para oferta?”, perguntou-me a mascarada do lado de dentro do balcão. “Sim, é para me oferecer a mim, antes do Natal!”. 

A chamada

“Luís, vi que tinha uma chamada tua. Desculpa só agora responder! Era alguma coisa?”. “Era, Francisco. Apeteceu-me falar contigo! Só isso!”. Ser feliz é, também, ter amigos assim.

domingo, dezembro 19, 2021

Domingo

Se tivessem de passar um domingo a escrever, de raiz, um texto para um anuário, que acabou por ter mais de 20 mil carateres, perceberiam melhor a razão pela qual só posso deixar isto hoje aqui no blogue. E amanhã? Amanhã tenho de preparar e gravar o “A Arte da Guerra” e, de tarde, uma data de voltas a dar, como, por exemplo, fazer de Pai Natal antecipado. A vida não está fácil, acreditem! 

sábado, dezembro 18, 2021

“Incompetência e impopularidade. Mas não as duas…”


No Reino Unido, é vulgar os partidos da oposição obterem bons resultados nas eleições que, por qualquer razão, ocorrem, por vacatura ocasional, numa ou outra circunscrição. Essas “by-elections” podem mesmo trazer fortes surpresas.

Mas o que se passou em North Shropshire (as eleições britânicas têm sempre lugar às quintas-feiras, para quem não tenha ainda notado) criou uma pouco comum onda de choque no Partido Conservador, dirigido por Boris Johnson. É que a candidata vencedora, pertencente ao Partido Liberal-Democrata, conseguiu deslocar 34,1% do eleitorado que antes aí votava nos conservadores, um “swing” que será o terceiro pior resultado da história dos “tories”. Desde há 200 anos que os conservadores não perdiam essa circunscrição! 

Sendo verdade que “uma andorinha não faz a primavera”, a dimensão do desastre parece estar a ser olhada com muita atenção no partido derrotado. E há quem lembre que, no passado, foram este tipo de eleições parciais que aceleraram o declínio de vários primeiros-ministros, às vezes pela concentração do voto dos eleitores no candidato oposicionista melhor colocado para derrotar o do governo.

É verdade que esta humilhação não ocorreu às mãos do Partido Trabalhista, o único que, numa futura eleição geral para a Câmara dos Comuns, pode aspirar a substituir os conservadores. E, por essas bandas, há muitas dúvidas de que a liderança que sucedeu ao claramente inelegível James Corbyn, hoje protagonizada por Keir Starmer, embora de perfil mais abrangente, seja suficientemente eficaz para se sugerir como alternativa ao eleitorado. Porém, algumas sondagens já o favorecem e, em especial, o nível de rejeição a Johnson cresce a cada dia.

Os liberal-democratas, que ganharam esta eleição, são e serão um eterno terceiro partido que, nas últimas décadas, só têm conseguido obter fatias de poder quando os conservadores deles necessitam para construir maiorias. O sistema político britânico favorece claramente a bipolarização, naquilo que é visto como um modelo que preza a busca da governabilidade, em detrimento da preocupação pela legitimação representativa.

Uma caraterística curiosa do sistema britânico é o facto do poder, nos partidos, assentar nos seus deputados eleitos para a Câmara dos Comuns e não na sua máquina regional ou de coordenação nacional. É nos deputados que reside a força que permite alterar as lideranças, mesmo a meio do percurso de uma legislatura. O caso mais notório foi o de Margareth Thatcher, em 1990. Aquela que ainda hoje é reverada como a figura mais marcante do conservadorismo, depois de Churchill, foi vítima de um “golpe de mão”, que a afastou em favor de um cinzento John Major, por ser vista já como uma “liability” para a credibilidade eleitoral do seu partido. E foram precisamente os deputados que ela tinha ajudado a eleger e a solidificar no governo que a enviaram, sem cerimónias, para casa. A crueldade, na política britânica e não só, é o nome do jogo.

Mas convém lembrar que é necessário que 55 deputados se associem para que um processo de destituição de um líder e primeiro-ministro conservador se possa iniciar. E, depois, que mais de metade dessa representação parlamentar alinhe atrás de um nome alternativo. Um processo complicado.

Boris Johnson, que tinha ajudado a sapar, com alguma falta de lisura, a liderança pouco brilhante de Theresa May, revelou ser capaz, em 2019, de galvanizar as hostes conservadoras e ganhar, por um raro “landslide”, uma forte maioria nos Comuns.

Verdade seja que foi nisso bastante ajudado pelo descrédito político do líder trabalhista James Corbyn, envolvido em acusações de anti-semitismo, que muito o fragilizaram. Corbyn como que emulou, em termos ideológicos, Michael Foot, um outro líder radical que, nos anos 80, tinha apresentado ao país um programa político trabalhista que ficou conhecido, com humor britânico, como “the longest suicide note in History”. Foot acabou por condenar o “Labour” a uma longa travessia do deserto, que só acabou com Tony Blair, na verdade talvez o líder mais conservador que os trabalhistas alguma vez conseguiram produzir…

Desde a sua eleição, Boris Johnson tem mantido, e talvez agravado, um comportamento errático e extravagante, quer no estilo quer na substância. Arrogante na gestão negocial do Brexit, está a dar do Reino Unido uma imagem, que não era habitual, de um país incumpridor dos seus compromissos internacionais, não obstante essa atitude lhe poder render alguns dividendos nacionalistas e protecionistas, para consumo interno. O recuo escandaloso face a compromissos assumidos com os 27 e com Bruxelas, na questão comercial que envolve a Irlanda do Norte, leva alguns a dizer, ironicamente, que “nem o IRA fez tanto pela união das Irlandas”…

Depois de um período de “namoro” com Trump, embora sem grandes consequências práticas, Johnson conseguiu adaptar-se bem à liderança de Joe Biden (que dele tinha dito coisas bem pouco simpáticas) e, no plano internacional, apanhou uma prestigiante “boleia” na questão do acordo estratégico Aukus, que junta o Reino Unido, a Austrália e os EUA, num claro sinal de confronto com a China. O eventual sucesso da economia britânica no pós-Brexit vai depender bastante da boa vontade americana, mas já se percebeu que, em termos comerciais, a “special relationship” não parece ultrapassar generalidades e boas-vontades declaratórias.

Como dizia ontem o “The Economist”, o partido conservador, no tocante aos seus líderes, costuma “tolerar incompetência e impopularidade, mas só uma de cada vez”… E Johnson parece estar a “acumular” cada vez mais. O sentimento de desagrado face ao seu modo de governar começa a dominar as hostes conservadoras,  As “trapalhadas” das festas feitas sob confinamento, as obras feitas em Downing Street e pagas pelo partido, a sua extrema relutância em se separar de um consultor, Dominic Cummings, um homem brilhante mas “sulfuroso”, sem baias no seu comportamento incívico em tempos de pandemia - e tantas e tantas outras pequenas crises, tudo tem afetado a imagem de Johnson. Nos últimos dias, surgiu mesmo uma forte ala libertária de deputados conservadores que está a colocar em causa a legitimidade e necessidade das medidas de proteção anti-pandemia, em que o primeiro-ministro se tinha empenhado. Contestam o designado "plano B", que determina a introdução de passes sanitários para entrada em discotecas e grandes eventos, a obrigatoriedade de vacinas para profissionais de saúde e o uso de máscaras em espaços públicos fechados.

É aliás o grau de sucesso na luta contra a pandemia, bem como a eficácia das medidas para ajudar a economia neste novo recuo na abertura da vida social,  que vai servir de teste, a curto prazo, para Boris Johnson. Por ora, ele ainda pode dizer, como Mark Twain, que “as notícias sobre a sua morte são exageradas”. No final do primeiro trimestre de 2022, ver-se-á melhor se os conservadores se inclinam para escolher uma nova cara. Uma coisa é certa: dificilmente será alguém mais despenteado...

sexta-feira, dezembro 17, 2021

Bye bye Uber

Fui um bom cliente da Uber. Deixei de o ser. Os cancelamentos passaram a ser muito frequentes, os preços dispararam, a qualidade média do serviço tem vindo a piorar a olhos vistos. Estou a regressar aos táxis, só esperando que não sejam do senhor Florêncio.

Humilhação

O “perp walk” de João Rendeiro, em frente às câmaras, de algemas no pulso, constitui um ato rotineiro de deliberada humilhação dos detidos, o qual, tendo uma tradição estabelecida nos EUA, desconhecia fosse prática corrente na África do Sul.

A chinela

Na minha terra, quando se vê alguém começar a passear-se “aos ombros de si próprio”, toldado por uma crescente ambição, é costume dizer-se que essa pessoa “não se enxerga”! Até ao dia em que será mesmo preciso repetir-lhe o ditado: “ne sutor supra crepidam“.

Tiago Pitta e Cunha

 

Quando, em 2001, fui representar Portugal nas Nações Unidas, vim a encontrar, na nossa missão em Nova Iorque, Tiago Pitta e Cunha, integrado na excelente equipa que o meu antecessor, António Monteiro, tinha criado para a nossa presença no Conselho de Segurança. Conhecia o Tiago pessoalmente, mas não profissionalmente.

Com alguns desafios eleitorais imediatos e muito importantes, no seio da organização, encontrei no Tiago o “campaigner” mais eficaz que poderia ter tido. Muito graças a ele (recordo, em especial, um inédito documento de divulgação que ele conseguiu fazer elaborar em árabe!), com a sua ativa presença nas horas de interlocução que, no Indonesian Lounge da ONU, mantive com colegas, tudo somado à extrema dedicação de outros colaboradores, conseguimos ganhar todas as eleições - todas, repito, todas - que tivemos pela frente. 

Na área dos Oceanos, o Tiago tinha-se entretanto tornado num diplomata especializado, já reconhecido pelos seus pares. Mário Ruivo, a grande figura nacional nesse domínio, nunca lhe poupou elogios.

Um dia, no ano seguinte, o Tiago veio dizer-me que tinha recebido um convite para regressar a Lisboa, para integrar um gabinete ministerial, na Presidência do Conselho de Ministros, para um lugar de consultor jurídico. “Vai ficar com a questão dos oceanos?”, perguntei-lhe. Não sabia. Ia a Lisboa para um primeiro contacto. “Insista em ficar com a área dos oceanos. Não perca a experiência que ganhou”. Estou certo que ele se recordará dessa nossa conversa. No regresso, disse-me que tinha obtido uma promessa, embora ainda não muito clara, de que esse tema ficaria no seu pelouro. Esse era também o seu interesse pessoal. Felizmente isso veio a acontecer. 

Desde então, o percurso profissional de Tiago Pitta e Cunha passou a ser esse, até ter chegado à presidência da Fundação Oceano Azul, onde, ao que sei de ciência certa, está a fazer um ótimo trabalho, com reconhecimento internacional.

Há minutos, vi que lhe foi atribuído o prestigiado Prémio Pessoa, um galardão que premeia, no presente, aqueles que estão a ajudar a construir o futuro. Nada mais justo e adequado.

Um forte abraço, Tiago!

Amarelo


A cada dia, meço o humor dos deuses para comigo pela quantidade de amarelos que apanho nos semáforos.

quinta-feira, dezembro 16, 2021

“A Arte da Guerra”


Os desafios do primeiro Conselho Europeu da era pós-Merkel, as eleições presidenciais no Chile e as atribulações de Boris Johnson são os três temas que, com António Freitas de Sousa, abordo esta semana no “A Arte da Guerra”, o podcast do “Jornal Económico”, que pode ver clicando aqui.

quarta-feira, dezembro 15, 2021

“Unidos por uma gaveta”


Foi ontem. O auditório da Fundação Calouste Gulbenkian abarrotava. Ninguém estava ali para cumprir calendário. Sentia-se que cada um quis, com a sua presença, dar um último testemunho do apreço que tinha pela figura de Jorge Sampaio, agora que passam três meses sobre o seu desaparecimento.

Tratou-se da ocasião da apresentação do livro “Era Uma Vez Jorge Sampaio”, com textos escritos sobre ele, da autoria de 130 amigos e admiradores. Trata- se de uma bela peça, com o conhecido traço de qualidade editorial da “Tinta da China”, recheado de fotografias.

Gostava de destacar, pelo seu significado, o belo improviso que Marcelo Rebelo de Sousa fez na sessão, num registo que combinou bem a dimensão institucional com o sentimento de uma nota pessoal de amigo.

Para esse livro, escrevi um texto , intitulado “Unidos por uma gaveta”, que recupera duas histórias que já aqui tinha publicado. Para quem estiver interessado em lê-lo, ele aqui fica:

“Não fui um amigo antigo de Jorge Sampaio. Só o conheci, com toda a família, em Londres, em 1993, num jantar em casa de Ana Gomes, com António Franco também por lá. Disse-me: “Há muitos anos que ouço falar de si, a amigos comuns, mas, curiosamente, nunca nos tínhamos encontrado”.

Era verdade. Tendo ambos andado pelos corredores daquilo que viria a ser o MES, nos idos de 1974, ele como sua figura referencial e eu com uma militância muito vaga, nunca tínhamos chegado à conversa.

No ano seguinte, tendo eu já regressado a Lisboa, António Franco disse-me que Jorge Sampaio queria falar comigo. Fui a sua casa, uma noite. Informou-me ter decidido vir a apresentar uma candidatura à Presidência da República, embora isso só viesse a ser concretizado meses depois.

Pediu-me que o ajudasse a estruturar um grupo para conversas sobre questões internacionais, a reunir até às eleições. Lembro-me de algo que então me disse: "Há uma coisa muito importante: não quero nenhum papel do MNE! Quero apenas trocar ideias com quem pensa estas coisas".

Dei-lhe, dias depois, uma sugestão de lista de pessoas para o grupo a criar: Carlos Gaspar, José Filipe Moraes Cabral, José Freitas Ferraz, Luís Filipe Castro Mendes e eu próprio. Jorge Sampaio formularia o convite a cada um.

Tempos mais tarde, combinámos uma primeira reunião do grupo, em minha casa. Ao final da manhã do dia acordado, quando saía do meu andar, encontrei a empregada dos vizinhos que moravam em frente. “Esteve aí o senhor presidente, à sua procura, logo de manhã!”, disse-me. O “presidente”? O presidente da República era Mário Soares e não era plausível que viesse procurar-me a casa. “O presidente da Câmara, o Dr. Jorge Sampaio”, esclareceu ela.

Fez-se-me luz! Tinha combinado com Sampaio que ele viesse a minha casa às “nove e meia”. Só que não disse “da noite”, no pressuposto de que ele estaria ciente de que as manhãs de sábados eram sagradas para o meu sono. Sampaio terá entendido que era “da manhã” e, britânico nos costumes, lá tinha estado a essa hora, pontualmente. Eu nem tinha ouvido o toque da campainha. Telefonei-lhe, de imediato, rimo-nos do equívoco e, pelas “vinte e uma e trinta” desse mesmo dia, ali regressou ele, de novo.

Não tenho presente quantas dessas reuniões tiveram lugar, mas guardo delas muito boa memória.

Com a minha ida para o governo, meses antes da sua eleição e posse, deixei de assegurar a presença regular nesses debates. Porém, Sampaio não esqueceu a minha anterior colaboração e teve a amabilidade de me integrar no jantar que veio a oferecer em Cascais a esse seu "team" de política externa.

Pediram-me para ser eu a fazer o agradecimento final, em nome do grupo. Disse-lhe da imensa alegria que era vê-lo eleito. No final dessa curta intervenção, fiz um pedido a Jorge Sampaio. Tinha a ver com os móveis do Palácio de Belém. Imaginava que devessem ser uma imensidão, mas havia uma coisa que eu lhe solicitava que fizesse: que abrisse todas as gavetas.

Sampaio e os presentes, que incluíam as nossas mulheres, olharam para mim com algum espanto. Lá esclareci o mistério. É que, depois de Mário Soares abandonar o Palácio, numa daquelas gavetas, deveria estar algo que ali nos unia. Não fora Soares quem afirmara que “tinha metido o socialismo na gaveta"?

Mas eu estava enganado: Soares não tinha deixado para trás o conteúdo da gaveta. E se havia pessoa que dispensava essa herança, porque o socialismo era a matriz indissociável da sua forma de olhar e intervir no mundo, essa pessoa era Jorge Sampaio.”

terça-feira, dezembro 14, 2021

Estrelados


Não são só os ovos que são estrelados, são-no também os restaurantes, através das classificações de qualidade dadas pelo Guia Michelin, uma publicação iniciada em França em 1900, sob a responsabilidade do fabricante de pneus com o mesmo nome. Uma, duas ou três estrelas distinguem esses estabelecimentos, com um efeito muito evidente na sua popularidade e apelo comercial. 

Portugal teve, pela primeira vez, em 1929, o seu nome inscrito nos Guias Michelin, através do Hotel de Santa Luzia, em Viana do Castelo, e do Hotel Mesquita, em Vila Nova de Famalicão, que então obtiveram uma estrela, que sustentaram por vários anos. 

No dia de ontem, foi feito mais um anúncio anual dos restaurantes selecionados em Portugal (e em Espanha, porquanto o nosso país surge num quadro peninsular). Atualmente, a lista portuguesa passou a ascender a 28 restaurantes, sete dos quais com duas estrelas. O Guia Michelin não considerou, até hoje, nenhum restaurante português digno da classificação de três estrelas. 

O tipo de gastronomia comum à esmagadora maioria dos restaurantes estrelados assenta em experiências gustativas de elevado requinte, feitas com produtos de muita qualidade e marcadas por combinações de sabores que se pretendem criativas e originais. A apresentação dos pratos é objeto de uma arte quase pictórica e os restaurantes que os oferecem (“oferecer” é uma força de expressão, porque os preços deste tipo de restauração são, quase sempre, muito elevados) são, sem exceção, titulados por chefes de cozinha (comummente designados por “chefs”, à francesa) que respondem por um currículo profissional que os torna objeto de transferências regulares entre restaurantes. A estes, para ascenderem e se manterem no patamar das estrelas, é invariavelmente exigida uma muito boa qualidade de serviço e uma carta de vinhos com uma diversidade a condizer.

Há quem ironize - muitas vezes por desconhecimento, outras por mera má língua - com as escassas quantidades dos produtos apresentados em cada prato, esquecendo que uma refeição, neste tipo de restaurantes, se compõe, em regra, por bastantes mais pratos do que a simples trilogia - entrada, prato, sobremesa - típica de uma refeição de cozinha tradicional. E que é a soma desses “momentos”, às vezes sublimes e surpreendentes, na sua originalidade gustativa, que torna algumas dessas refeições únicas e até inolvidáveis.

Uma coisa é certa: quem pretenda “enfardar” pratadas “das antigas” deve afastar-se dos restaurantes “estrelados” recomendados pela Michelin, embora, numa solução de meio termo, eu recomende que esteja atento à utilíssima lista de alguns outros restaurantes que o Guia também traz, muito em especial os que têm por indicação “Bib Gourmand”, escolhidos por uma muito boa qualidade/preço. Fora estes, no entanto, a minha razoável experiência mostra-me que a lista de outras casas destacadas pelos guias nem sempre é fiável, imagino que por frequente preguiça de reverificação e alguma desatenção ao surgimento de novidades. 

Gostava de deixar claro que fico muito satisfeito com o facto de, pouco a pouco, o nosso país ter vindo a aumentar o número de restaurantes a que foram atribuídas estrelas, consagrando o trabalho muito dedicado de grandes profissionais que muito honram a gastronomia em Portugal - embora valha a pena sublinhar que isso não é sempre sinónimo de “gastronomia portuguesa”, não obstante o esforço de muitos desses cozinheiros (onde há muito poucas mulheres) no sentido de evitarem seguir um mero “template” internacional. Por isso, valorizo bastante quem, nesta produção de “fine dining”, não se cansa em destacar a originalidade dos produtos portugueses (e não apenas os produtos do mar, como regularmente acontece) e deixar disso uma marca distintiva em cada prato.

Como diretor da Academia Portuguesa de Gastronomia, que sou desde há alguns anos, habituei-me a respeitar muito este tipo de gastronomia e a procurar valorizá-la no plano internacional. A imagem de Portugal como destino turístico só ganhará com o aumento de restaurantes consagrados na lista ”estrelada” do Michelin. E tudo deveremos fazer, a todos os níveis, nomeadamente oficiais, para tentar expandir entre nós essa consagração.

A título pessoal, contudo, devo dizer que, conhecendo e apreciando bastante alguns dos restaurantes portugueses a que a Michelin já atribuiu “estrelas”, não sou um cliente regular deste tipo de gastronomia, nem sequer sinto a tentação de tentar conhecer todas as casas que a promovem. 

Isso acontece não apenas porque tal me é incomportável financeiramente mas pelo facto, que confesso sem o menor problema, do meu nível de exigência em matéria gastronómica ficar bem confortado com muitos outros bons endereços de restauração que não têm a menor ambição de algum dia virem a obter a consagração do Guia Michelin. Com isto quero afirmar, para que não restem equívocos, que há uma muito boa gastronomia em Portugal para além daquela que os restaurantes com estrelas Michelin nos apresentam.

segunda-feira, dezembro 13, 2021

Pécresse, Zemmour e a França que aí vem


A quase seis meses do sufrágio, a luta política em torno das eleições presidenciais francesas segue já bastante animada. 

À esquerda, Jean-Luc Mélenchon é o único a conseguir furar, ainda que ligeiramente, a barreira dos 10%, com a candidata socialista Anne Hidalgo a mostrar-se sem hipóteses de dar um salto significativo nas sondagens. A desesperada tentativa que fez para lançar uma espécie de “primárias à esquerda”, para escolher “quem estivesse em melhores condições para derrotar a direita”, ideia que envolvia Mélenchon, os Verdes e candidatos de outros setores, foi acolhida com total frieza por esses mesmos candidatos e lida por toda a gente como sintoma de total isolamento.

Mélenchon, um antigo secretário de Estado de Mitterrand (facto pouco conhecido) que tenta federar a “esquerda da esquerda” através da sua “France Insoumise”, é um candidato sem condições de ser eleito ou mesmo qualificar-se para a segunda volta. Isto acontece por muitas razões mas, muito em especial, pelo facto da esquerda, em geral, ser, nos dias de hoje, um setor político com um “appeal” conjunturalmente reduzido no cenário francês. Um dia poderá tentar perceber-se o que levou a este “desastre”, à revelia de uma tradição política de muitas décadas. O que, no entanto, não significa que não seja uma tendência reversível.

À direita, há duas surpresas. 

No seu extremo, o surgimento de Éric Zemmour, um jornalista, prolífico comentador televisivo e escritor ultra-conservador, trouxe uma quebra sensível à força de Marine Le Pen, que, por muito tempo, se considerou, com razão, a federadora da extrema-direita e, nessa qualidade, a “challenger” natural de Emmanuel Macron. O presidente da República estaria, ao que se diz, bastante confortável com esse cenário. É que, em 2017, Le Pen havia dado clara mostra das suas limitações, no debate entre as duas voltas, e nada levava a supor que as coisas se tivessem alterado em termos que pudessem colocar em risco a reedição das pretensões de reeleição de Macron.

O surgimento de Zemmour veio alterar esse equilíbrio. Le Pen teve uma queda imensa nas sondagens, claramente em favor de Zemmour, que, nas primeiras semanas, chegou a equivalê-la na preferência potencial dos eleitores. O jornalista defende uma agenda anti-islâmica e de rejeição da presença dos estrangeiros, dizendo querer reconstituir uma França “para os franceses”, que entende estarem a ser privados do seu país por uma “invasão” islâmica que, a seu ver, tenderá, a prazo, a tomar conta da França (“le grand remplacement”). Com um discurso muito articulado, Zemmour é um razoável tribuno e um excelente debatedor, sendo que a sua sofisticação intelectual (no que se distingue imenso de Trump) o pode tornar mais ouvido em setores mais conservadores da direita tradicional. Em seu desfavor funcionará um excesso de agressividade verbal, alguma misoginia e um sensível recuo em temáticas de género, que o isolam de um eleitorado mais centrista. Tem contra ele muitos setores de imprensa, os quais, no entanto, lhe continuam a dar imenso palco. Num debate recente com o ministro da Economia, Bruno le Maire, Zemmour mostrou um manejo dos temas económicos que surpreendeu muitos observadores, que o consideravam limitado a uma agenda quase monotemática - assente na segurança e na identidade.

A segunda surpresa, também à direita, foi dada pela escolha de Valérie Pécresse, numa eleição “primária” entre os militantes da direita clássica. Embora a imagem de Pécresse fosse sólida e, ainda recentemente, tivesse sido reconduzida pelos eleitores à frente da região do Grande Paris, estava longe de ser dada como favorita na seleção do candidato do “Les Républicans” às presidenciais. Xavier Bertrand, também presidente de região e antigo ministro de Sarkozy era visto como a escolha mais provável. O antigo comissário e negociador do Brexit, várias vezes ministro, Michel Barnier, parecia oferecer uma “imagem de Estado”. E até Éric Ciotti, da ala direita do partido, com uma linguagem e propostas de grande radicalismo, “pescando” claramente nas águas de Le Pen e Zemmour, parecia surgir como mais qualificado. Seria, aliás, Ciotti quem iria passar a uma segunda volta com Pécresse, sendo aí derrotado. O facto de todos esses putativos candidatos terem já declarado apoiar Pécresse ajudá-la-á muito na mobilização das hostes comuns.

Pécresse, também ministra de Sarkozy, traz consigo um passado governamental sólido, competente, mas não muito espetacular. Ser mulher acabará por um fator importante, ter tido um percurso político sem falhas e sem “gaffes” redunda numa excelente qualificação. Contra ela funcionará um tom algo arrogante e um ar “social-urbano” a que os franceses chamam “bobo”. Mas Pécresse revela uma interessante determinação no discurso e revela ter ideias claras. Parece, ainda assim, “à esquerda” de François Fillon, o primeiro-ministro de Sarkozy que, em 2017, terá ficado atrás de Macron por virtude de trapaças nepotistas em que se havia envolvido. Pode assim dizer-se que Pécresse estará no “mainstream” do “Les Republicans”. Ela própria afirma que quer ser “um terço de Thatcher e dois terços de Merkel”. 

A escolha de Valérie Pécresse é, assim, uma má notícia para Macron e para Zemmour. 

Macron foi (e, a sê-lo de novo, assim será) eleito com muitos votos do eleitorado da direita clássica, que Pécresse agora passou a representar. E esta parece ter possibilidade de vir a deslocar muitos dos apoios que Fillon tinha perdido, na sua “débacle” ética, em 2017. E, claro, numa hipotética segunda volta Macron-Pécresse, a tarefa do presidente será mais difícil do que o seria com Le Pen, bem menos qualificada, em quem muitos eleitores da direita tradicional continuariam a não se rever e que todos recordariam ter sido “destroçada” no debate entre os dois turnos.

Mas também Zemmour, que contava com parte do eleitorado do “Les Républicans” para garantir apoios que pudessem ir para além da “direita popular” de Le Pen, terá agora um desgaste na sua margem de eleitorado potencial. Aliás, numa sondagem feita já depois do surgimento de Pécresse como candidata do “Les Républicans”, Zemmour recuou nas intenções de voto.

Porém, é ainda muito cedo, faltam alguns meses para as eleições e muita coisa pode ainda acontecer. 

Macron, com a saída de cena de Merkel e com a titularidade da presidência francesa da União Europeia, que vai exercer no primeiro semestre de 2022, ganha visibilidade, passando a ter consigo um forte sopro de prestígio institucional. A sua vitória em maio de 2022 continua a ser o cenário mais provável. Depois de Sarkozy e Hollande não terem tido condições para renovar o quinquenato, isso significaria um retorno à viabilidade prática de recondução dos presidentes.

Leonor


Partiu a Leonor Xavier. Foram anos de luta corajosa contra o “passageiro clandestino” que lhe rondava as horas. 

Há meses, escrevi aqui este texto sobre ela. Hoje, neste dia de tristeza, fico contente pelo facto de ela ter podido lê-lo e apreciado, como me disse.

“É uma mulher com algumas vidas, com muitos livros, com imensos amigos, com uma coragem acima do mundo. À minha amiga Leonor Xavier, a existência tem pregado partidas, sustos e, às vezes, jogado com ela às escondidas. A Leonor, com aquela voz rouca e doce que, à primeira vista, poderia transportar um discurso naïf, é alguém que descobriu que as dificuldades se agarram de caras, que os problemas se resolvem combatendo em terreno aberto. É uma cabeça arejada, positiva, que olha as pessoas de frente, guiada por uma ética à prova de bala, com valores que caldeou ao longo dos anos. Quando saímos do seu convívio, das conversas sempre interessantes que com ela temos, fica-nos uma admiração imensa pela sua força e determinação. Posso dizer uma coisa muito sincera, sem correr o risco de se julgar que estou a fazer um ’número’?: saio sempre melhor do que me sentia, depois de falar com a Leonor, nem que seja apenas pelo telefone. Mas, claro, tenho saudades dos almoços lentos no Ribatejo, das ocasiões em que ela sabe juntar a gente certa, para horas divertidas, coisa que a pandemia interrompeu. Lembrarei para sempre aquele seu aniversário louco, com baile, na Barraca! E a poesia na igreja do Rato. E o debate sobre o Brasil no El Corte Ingles. E recordo as histórias com Sérgio Godinho e Nélida Piñon no CCB. E também me fazem falta as noites na Dois, no Procópio, com a Leonor a dar a deixa para as gargalhadas da Alice. Em outros tempos, também com o Raul por lá, depois os tempos passaram a ser com alegres saudades dele. A Leonor faz sempre da vida uma festa - e, para nossa sorte, convida-nos para ela!”

(Estou certo de que a Leonor teria gostado que eu utilizasse, nesta sua despedida, a fotografia que lhe tirei, em sua casa, no Ribatejo, há seis anos, no aniversário de Maria Antónia Palla, quando foi descortinar aos baús a sua imensa coleção de trajes de Carnaval.)

De cor

Jorge Palma tem uma canção em que, a certa altura, fala de um tipo que no “domingo sabe de cor o que vai fazer segunda-feira”. Pois eu, ontem, não sabia! Este dia vai ser tão cheio que, durante o domingo, constatei, por mais de uma vez, que não me conseguia lembrar de tudo o que teria de fazer até ao final da noite de hoje. Seria falta de memória, já fruto da idade? Ou será que, na realidade, não me devia meter numa vida que, de tão ocupada, já não é para a essa mesma idade, é “areia” demasiada? É com “angústias” como estas que vou passando os meus dias de “ex-reformado”, para utilizar um epíteto que um amigo me dá. Mas não me tenho dado nada mal, confesso. Por isso, olhem!, vou andando…

(Não levem isto à letra, por favor! Foi só a dificuldade pontual de me lembrar a hora exata de sete compromissos seguidos num só dia, sem ir à agenda, o que, em mim, não é vulgar.)

domingo, dezembro 12, 2021

A falta de vergonha

Fotografia de Rendeiro de pijama. Alguma comunicação social esforça-se por confirmar a mediocridade de que, com razão, a acusam. Já nem sequer é triste; é apenas patético.

sábado, dezembro 11, 2021

JR


Isto da idade não perdoa! Imaginem que ainda sou do tempo em que o JR vivia em Dallas e não em Durban…

“ Encontros Imediatos”




É um programa da Antena 1, feito por João Gobern e Margarida Pinto Correia. Chama-se “Encontros Imediatos”. São duas horas serenas, de muito boa música e bela conversa, sem uma agenda que não seja um passarinhar pelo percurso de vida do entrevistado. Hoje, na manhã deste sábado luminoso, saiu-me a  mim “em rifa”. Fico muito grato pela lembrança. Falou-se um pouco de tudo, de Vila Real à diplomacia, da gastronomia à política, de comboios e de cidades, de outros tempos e dos de hoje, passando por algumas escolhas minhas, na música e na poesia. Até a esquina da Gomes e a aletria do Aprígio vieram à baila, imaginem! Tive imenso prazer em ter podido participar nesta conversa, dividida em duas partes, que aqui ficam, não vá dar-se o caso de haver alguns ouvintes benévolos, dispostos a ouvir-me.

sexta-feira, dezembro 10, 2021

São Bentos

Ao contrário de Rui Rio, António Costa irá ter oportunidade de constituir um grupo parlamentar com densidade técnico-política, muito graças aos ex-governantes que vão sair de cena e regressam ou passam a integrar a AR. Conhecer os dossiês é uma imensa mais valia para o trabalho parlamentar, em especial em comissão. 

Também ao contrário de Rio, Costa pode dar-se ao luxo de preservar no “backbench” alguns ”tokens” de diversidade opinativa, por muito que eles o irritem. É que se torna importante amansar os extremos heterodoxos do partido, sejam aqueles por quem a direita morre de amores, sejam os que são o ai-jesus dos antigos parceiros da Geringonça. A ambos, as televisões chamam-lhes um figo. Na guerra, chama-se a isto ”friendly fire”.

Para um próximo governo, Costa terá, contudo, um desafio difícil: que caras novas e independentes, com qualidade publicamente reconhecida e capacidade política para afrontarem a selva da política, estarão dispostas a entrar noutra aventura minoritária? E como compatibilizar esses egos emergentes, com notoriedade mas sem disciplina partidária, com a coesão de um executivo de combate em que a autoridade do primeiro-ministro possa exercer-se da forma plena, como já se percebeu que Costa não dispensa? 

Porém, enquanto o pau vai e vem folgam as costas e o exercício do poder, embora se vá desgastando, revela-se sempre um excelente cimento, dando, por algum tempo, pano para mangas e saias. E há muito que, em Portugal, não se via alguém a exercer esse mesmo poder com tanta maestria como o faz António Costa. Sob o olhar, algo lúdico, divertido, mas eu diria que também bastante admirativo, de Belém.

Lembram-se do PPD?

Percebe-se a opção de Rui Rio de construir um cómodo grupo parlamentar recheado de fiéis. Para quem viveu acossado por deslealdades, cair nessa tentação é compreensível. Mas convém lembrar que, historicamente, desde os tempos do PPD, a natureza (e a força?) do partido foi exatamente ser uma espécie de “salada de frutas”, muitas vezes federada por uma vitamina chamada cheiro de poder, odor que hoje, é verdade, não se sente muito na Rua de São Caetano à Lapa. O partido que Rui Rio está a construir, deixando deliberadamente na órbita uma bolha raivosa de viúvos de Passos Coelho, arrisca-se, assim, a ser uma coisa bem diferente. Isso pode acabar por ser boas notícias para quem, no espetro partidário, se situa à direita do PSD. Mas não sei se o será para a estabilidade a prazo do regime político.

Belo conselho


Na casa de banho de um restaurante: “Estimado cliente. Utilize esta casa de banho como se tivesse cometido um crime: não deixe vestígios”.

“Outro Tempo Bar”


Não sei quantos lugares sentados tem, mas não são muitos. Por isso, é prudente reservar (ontem, quase que me arrependi de o não ter feito). É um local magnífico para um tête-à-tête, mas a proximidade das mesas não assegura o segredo das confissões. Fica numa rua que ladeia o Jardim da Estrela. A decoração e o mobiliário não têm ”peneiras”, como antes se dizia. Apresenta uma lista simples, prática, com muitas opções, a preço acessível, vista à luz do que por aí agora se paga. Às mesas, servem dois cavalheiros com grande profissionalismo, simpatia e eficiência, portando um colete à maneira, mas num registo sempre despretensioso. Talvez porque pairem por ali reminiscências de outras eras, o local chama-se “Outro Tempo Bar”. A abrir, surge na mesa um clássico da casa: as bolas de croquetes de carne. Com o café, servem um sucedâneo do “After Eight”, a lembrar outra mesa não muito distante, onde também reina a carne, e os pecados (apenas de gula, claro) que dela derivam. Estacionar por ali não é fácil, desde já aviso. Tem um imenso defeito: está fechado ao domingo à noite. E uma bela qualidade: só encerra às duas.

quinta-feira, dezembro 09, 2021

O Maltez



Só tinha uma pessoa à minha frente, na fila para a compra de bilhetes da TAP, no edifício que então existia na esquina do Marquês para a Braamcamp, de que há pouco descobri esta deliciosa imagem.

Estávamos precisamente em 1976, que coincide ser o ano da fotografia. O cavalheiro que estava a ser atendido, e para quem eu, até então, mal tinha olhado, disse o nome para a senhora do balcão: “Américo Maltez Soares”.

Há campainhas de memória que soam, face a certos estímulos. Olhei de lado o homem. Era ele, o Maltez. O capitão Maltez. Ali estava a figura que, tantas vezes, de pingalim na mão, eu tinha visto a atiçar a polícia de choque, com um zelo sádico e odiento.

De cabelo curto, olhar penetrante, o Maltez era um mestre da repressão. Devo-lhe umas boas corridas pelas ruas, em diferentes contextos, em manifestações oposicionistas, nos tempos da ditadura que ele serviu com dedicação e empenho. 

Foi ele quem, pessoalmente, agrediu à bastonada Fernando Lopes Graça, num 1° de Maio no Rossio. Foi ele quem invadiu a Capela do Rato. Foi ele quem desencadeou a violenta repressão no funeral de Ribeiro Santos e em tantas e tantas outras ocasiões. O Maltez, homem do Exército destacado na PSP, era unha com carne com a Pide, como vim a saber quando, como militar, estive na Comissão de Extinção da dita.

Nos idos de 1969, no hall do ISCSPU (o “U” ainda existia nesse tempo…), tinha-o visto parlamentar com Adriano Moreira e Narana Coissoró, que tentavam evitar que as forças de choque, por ele chefiadas, colocadas em frente ao Palácio Burnay, levassem a cabo a missão de encerrar e selar as instalações da Associação Académica.

Alguns de nós, membros dos corpos gerentes da dita Associação, nessa cena que não terá durado mais de 10 minutos, íamos avançando dilatórios argumentos para atrasar a ocupação, por forma a dar tempo à operação de retirada do precioso equipamento de reprografia, que era transportado em braços que saíam pelo portão que dava para a Travessa do Conde da Ribeira. Tratava-se de material para edição de panfletos e coisas análogas, pelo que era importante evitar que o malta do Maltez lhe deitasse a mão. Não deitou!

E agora, na TAP, ali estava ele, parecia-me que um tanto debilitado fisicamente, com uma senhora jovem ao lado, no anonimato confortável da democracia que ele tanto se esforçara para que não acontecesse.

Pensei cá para mim: “Digo alguma coisa ao homem?” Apetecia-me. Eu estava sozinho, nem sequer podia altear uma conversa num tom que pudesse atazanar verbalmente quem tanto mal e pancada tinha espalhado por Lisboa.

Decidi arriscar. Sem o olhar, fingindo estar a pensar alto, disse, de forma a ser ouvido por ele: “Quem havia de dizer! O capitão Maltez por aqui!” E continuei a olhar para o lado. 

O Maltez virou-se, olhou-me com aquele olhar que milhares de democratas recordam, sem dizer uma palavra. Mirei-o então bem de frente, direto nos olhos, algo desafiante (mas nervoso, confesso, porque “old habits die hard”), sem dizer mais nada. Ele voltou-se de novo para o balcão, tratou das suas coisas e saiu, sem me olhar. A senhora da TAP nem se chegou a aperceber do (não) incidente. Mas, satisfazendo a minha curiosidade, disse-me que “aquele senhor ia a Londres, por razões médicas”.

Não sei quando é que o Maltez morreu. Em 2002, pelo que apanhei na net, viu a sua carreira “reconstituída” postumamente por um governo da democracia. Foi promovido a coronel e ressarcido financeiramente dos “injustos” incómodos e percalços que a sua estimável carreira possa ter sofrido pela inoportuna sublevação levada a cabo pelos seus camaradas de armas. 

O Maltez pode ser coronel à luz da lógica da Caixa Geral de Aposentações. Para a minha geração será sempre o odioso “capitão Maltez”. E faz parte daqueles capitães de quem só nos lembramos por más razões.

O que uma fotografia antiga nos pode trazer à memória!

quarta-feira, dezembro 08, 2021

‘A Arte da Guerra”


Tenho a impressão de que, desta vez, muitos dos meus amigos não vão gostar mesmo nada daquilo que digo na primeira das três partes do “A Arte da Guerra”, um programa que faço com António Freitas de Sousa, num “podcast” para o “Jornal Económico”.

Nesse ponto, trato das tensões entre o mundo ocidental e a Rússia, a propósito da situação na Ucrânia. Na intervenção, não digo nada que já não venha a dizer há muito tempo, mas julgo que ouvi-la agora pode ser mais “chocante” para alguns, no actual contexto. 

Querem um “cheirinho”? Aqui ficam duas frases. A primeira: “O facto de um país ter um regime cujos princípios se opõem aos nossos não significa que não tenha preocupações legítimas de segurança que temos de respeitar”. A segunda: “Alguns acham normal que a Ucrânia entre para a NATO e que a Rússia nada pode objetar a isso, mas o que aconteceria se o México, por exemplo, fizesse uma aliança militar com a Rússia ou a China? Washington deixava?” E por aí adiante.

Neste programa, também se fala das aproximações dos Emirados Árabes Unidos ao Irão, bem como da Cimeira das Democracias, organizada pelos EUA.

Pode ver o programa aqui.

terça-feira, dezembro 07, 2021

A imensa luz de Alvalade


Ó diabo! Ao ver projetados, nas traseiras do carro da frente, no meio da Lisboa que anoitecia, os médios do meu Smart, dei-me conta de que ele estava “com um olho à Belenenses”, como antes se dizia. Um farol estava apagado. Verdade seja que, para um carro com mais de dez anos, ter, pela primeira vez, uma lâmpada fundida, é obra! 

Faltava um quarto de hora para as seis. Amanhã, “dia da mãe” (nunca deixei de considerar o 8 de Dezembro como tal), ia estar tudo fechado (em primeira mão: fiquem a saber que o Procópio vai estar a aberto!). Como é que me ia desenrascar? 

De repente, lembrei-me de que, num portão esconso de Campo de Ourique (onde é que havia de ser?), existia uma modesta oficina*, especializada em arranjos elétricos em automóveis, propriedade de um cavalheiro já de uma certa idade (às tantas, é bem mais novo do que eu!), a quem, há anos, já tinha recorrido numa emergência, graças a uma dica de alguém. 

Cheguei lá às cinco para as seis. Apontei o carro para um pequeno corredor entre casas que leva à oficina. Nem vivalma! Saí do carro, entrei na caótica loja, já quase sem luz, e atirei, lá para dentro, um já desalentado “Boa tarde!”. Segundos depois, um cavalheiro de anorak vestido surgiu, ao fundo. 

Expliquei o meu problema. Ele reagiu: “Já estou de saída! Já me tinha mudado…” A máscara não me permitia esboçar um sorriso para tentar mobilizar a piedade do cavalheiro. Fui desvalorizando a magnitude da tarefa: “É apenas esta lampadazita da esquerda! A esta hora, se o meu amigo não me dá uma mão, vou ficar sem poder andar de noite…”

Lembrei-me então de que, em bons tempos (nisso, eram realmente “bons”), havia, perto da Casa da Moeda, uma tal Eletro-Rápida, aberta a desoras e nos fins de semana, onde, pagando um pouco mais, essas avarias se tratavam. Coisas dos anos 70, “à americana”. Recuei logo no meu pensamento: querer reeditar isso nos tempos de agora é coisa de liberal e liberal é tudo menos aquilo que eu sou. Mas lá que me fazia falta a “lampadazita”, lá isso fazia! 

O nosso homem, sem dizer palavra, tirou o Anorak e exibiu, por debaixo, uma casibeca verde, com um impante emblema do grande clube nacional da esperança, cujo lema - “Esforço, Dedicação, Devoção e Glória” - rima bem com a palavra Portugal que figura no fim do título da prestigiada e prestigiosa agremiação. 

Enquanto a lâmpada era mudada, com arte e chave de fendas, trocámos comentários sobre o preço da contratação do Rúben Amorim e fizemos prognósticos para o jogo daqui a pouco com o Ajax - enfim, conversa elevada, própria de adeptos de quem está no topo do futebol luso. 

Minutos depois, lá saí da loja com o meu Smart já sem o ”olho à Belenenses”, rompendo, impante, pela noite de Campo de Ourique. Lugar onde, fiquem a saber, há sempre tudo, de tudo e, sobretudo, há grandes e simpáticos sportinguistas prontos a ajudarem os seus correligionários. Malta da liderança!

(*A pedido de um comentador: “A Reparadora de Automóveis Ouricauto” Rua Azedo Gneco 5-A. Tel. 213854904)

segunda-feira, dezembro 06, 2021

Os Bragas


Na passada semana, fui dormir a um simpático hotel na Rua do Rosário, no Porto. A rua está irreconhecível, face àquilo que já foi. Para bem melhor. Há novas casas comerciais, prédios renovados que agora se revelam lindíssimos e, não fora a pandemia, nos quarteirões em volta teria crescido ainda mais a maré de restaurantes e galerias de arte que dão dinâmica e trazem juventude a tudo aquilo. 

No final dos anos 60, quando, por algum tempo, “fingi” estudar Engenharia, no Porto, comia com frequência numa tasca, nessa mesma rua do Rosário, a “Casa Domingos”, a que toda a gente chamava “o Domingos Braga”. 

Era barulhenta, tinha meia dúzia de pratos, travessas de alumínio e um tinto da Meda, servido numas canecas metálicas (“sai um quarto da Meda!”), de que não guardo grande memória, mesmo que, à época, não percebesse peva de vinhos. O mais caro da casa era um bife que custava 15 escudos - um luxo a que raramente me podia permitir, com o possível orçamento que me era enviado de Vila Real.

Quase em frente da tasca do Domingos Braga, havia uma outra, onde não me recordo de ter alguma vez entrado (nunca percebi porquê), conhecida pelo “Zé dos Bragas”. No letreiro, estava escrito “Zé de Braga”, mas pluralizávamos sempre o nome (também sem nunca perceber porquê).

Ao que se se dizia, o Domingos e o dono do Zé “dos Bragas”, eram primos, mas “não se podiam ver”, embora se olhassem do outro lado da rua. Ainda me recordo bem da figura de ambos. Para nós, eram simplesmente os “Bragas”. 

(Não muito longe dali, curiosamente, passada que seja a Torrinha, onde eu vivi, fica a Rua dos Bragas, onde então se situava a faculdade de Engenharia. Dizia-se desses alunos: “Anda nos Bragas”).

Leio agora que o “Zé de Braga”, há muito “upgraded” como restaurante, esteve fechado uns bons anos e que acaba de reabrir com algumas pretensões gastronómicas. Numa história que a sempre excelente revista “Evasões” (onde, por alguns anos, também escrevi sobre restaurantes) nos conta agora, afirma-se que a casa já tem afinal uma centena de anos e que teria como origem do nome um Zé, sapateiro oriundo de Braga, que também vendia vinhos. Dali viria a surgir uma tasca. Por isso, o proprietário, o tal primo do Domingos, um homem grande e abrutalhado, às tantas, nem sequer Zé se chamava…

Nada se diz no texto sobre o (meu) Domingos Braga. Esse tinha um ar típico e clássico de tasqueiro, baixo e encurvado das costas, sempre atrás de um balcão à esquerda de quem entrava na tasca. 

Esta casa ainda existe, agora com o nome de “Churrasqueira Domingos”. Um destes dias, vou almoçar por lá. Sem que nada tenha de especial contra o “Zé”, preferirei o Domingos, claro. Os velhos e fiéis clientes são assim mesmo, não é?



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