terça-feira, abril 30, 2024

Globalização, Segurança Nacional e Informações

 


Tudo cada vez mais claro

 


Reparações.como?

Com o episódio das reparações coloniais, o presidente deixou atónita a direita nacionalista. Muito mais graça teve a reação da esquerda da esquerda, que viu Marcelo ultrapassá-la ... pela esquerda! PS e PSD oficiais embatucaram. O presidente é um brincalhão!

PGR (3)

Seria importante o parlamento revisitar a questão da composição do Conselho Superior do Ministério Público, bastando para tal que o PSD recupere as ideias de Rui Rio e o PS tenha coragem para as apoiar. 

PGR (2)

Afeta gravemente o princípio da separação de poderes a ideia do parlamento ouvir a Procuradora-Geral da República sobre processos que correm no âmbito da Procuradoria, por mais escandalosa que seja (e é) o modo como tal se processa.

PGR (1)

Era só que faltava que a Procuradora-Geral da República se demitisse! O que é necessário é que ela seja demitida.

segunda-feira, abril 29, 2024

Sérgio Ribeiro


Deixo uma nota de sincero pesar pela morte de Sérgio Ribeiro, corajoso militante comunista antes do 25 de Abril, de quem sempre divergi politicamente, nomeadamente sobre o projeto europeu. A divergência não exclui a admiração e o respeito que por ele tinha. 

Olé!

A Espanha parece ser um país sem nenhum sentido de humor. Se a algum primeiro-ministro, em Portugal, passasse pela cabeça fazer uma operação de "indignação" como a que Sánchez montou, recebia na cara uma gargalhada mais "monumental" do que a homónima praça de touros de Madrid.

Que tropa!

A ideia de que o serviço militar poderia vir a ser uma tarefa para expiar delitos cometidos é tão absurda que se torna muito estranho que haja sido adiantada por alguém a quem cumpre promover a dignidade das Forças Armadas no seio das instituições. Parem um segundo e pensem!

Ainda o 25 de Abril (2)

O que ocorreu no último 25 de Abril, em especial a imensão de juventude que veio para a rua, devia fazer perceber aos políticos que a data deve passar a ser uma imensa festa, com menos slogans de trincheira, com muitos cravos e grande unidade sob a bandeira da liberdade. Só assim ela poderá ser preservada como "a" data nacional por excelência.

Ainda o 25 de Abril (1)

É extraordinário como os exegetas de multidões que, em regra, emergem logo na comunicação social e nas "autoridades", a mandar bitaites quantitativos sobre as manifestações, se calaram que nem ratos sobre o que aconteceu em Lisboa. Alguém ficou assustado? 

PSD?

O que é que se está a passar no PSD? Para além da história de cada uma das pessoas, que ajuda a explicar alguma coisa mas não pode justificar tudo, como é possível que gente que foi eleita sob a decência de projeto da direita democrática se bandeie assim para a extrema-direita?

sábado, abril 27, 2024

O outro 25

Se a manifestação dos 50 anos do 25 de Abril foi o que foi, nem quero pensar o que vai ser a enchente na Avenida da Liberdade no 25 de novembro, data que nos livrou do comunismo e de outras coisas más assim.

Galamba

João Galamba não tem o direito de dizer nunca foi "ouvido" pelo Ministério Público sobre a "Operação Influencer"! Essa agora! Então ele não foi "escutado" durante quatro anos?! Que eu saiba, "ouvir" e "escutar" são sinónimos, ou não? 

Hoje, aqui na Haia

Uma conversa em público com o antigo ministro Jan Pronk, uma grande figura da vida política holandesa, recordando o Portugal de Abril e os amigos internacionais da democracia portuguesa.

Ingratidão

As visitas a este blogue, durante os pretéritos governos socialistas, tiveram números sempre simpáticos. Andaram na casa dos 1.500/1.800 leitores diários. 

Porém, chegada a direita ao poder, o que é que vemos? Os números disparam e passa a visitar-nos uma média diária de 2.500/2.800 pessoas. 

Vou ter, intimamente, de me decidir sobre o que prefiro...

quinta-feira, abril 25, 2024

O herói


25 de Abril de 1974. Escola Prática de Administração Militar (EPAM). Eram aí 11 horas da manhã. Abri a fechadura da sala do quarto do oficial de dia, onde o "Ramos" dormitava, cabeça sobre a mesa, barba por fazer. Levantou a cara e olhou-me com uma tristeza infinda, num misto de desilusão e talvez receio do futuro. 

Dei-lhe de troca um sorriso aberto e estendi-lhe a G-3 que levava na mão. O "Ramos" levantou-se e ficou a olhar para mim, sem saber o que pensar. 

Cerca de nove horas antes, às duas da manhã, o "Ramos" tinha sido detido. Era o oficial de dia e, não estando no segredo do golpe, sendo imprevisível a sua reação e não havendo tempo para operações de recrutamento por convicção, havia sido essa a decisão tida por mais prudente, até para sua própria defesa, se algo corresse mal. Foi isso que me foi dito pelo capitão que tinha passado a comandar a unidade, depois do destacamento chefiado por Teófilo Bento ter partido para ocupar a RTP.

O "Ramos" era um alferes que "metera o chico”. Era bom tipo, embora um pouco militarão. Agora, quando as coisas começavam a serenar, com a unidade sob controlo, não havia razão para lhe prolongar o sofrimento. Perguntei se o podia libertar - e, autorizado, assim fiz:

"Pega lá na arma, pá, estás solto. E vai tomar um banho".

Ficou um pouco confuso, mas o meu abraço restituiu-lhe a confiança. Expliquei-lhe o que acontecera, as razões da sua detenção e que, naturalmente, contávamos com ele dali em diante.

Lembrava-me de o ver, semanas antes, muito interessado a ler o "Portugal e o Futuro", aquele manifesto de gaullismo requentado que enfurecera Marcelo Caetano e desinquietara muito militar profissional. Eu tinha ironizado com esse entusiasmo do "Ramos", desdenhando da obra assinada por Spínola, embora não desprezasse a importância do surgimento do livro.

Ao final da tarde de 25 de Abril, o "Ramos" foi para a RTP, que estava sob o controlo da EPAM, onde ficou encarregado da segurança da entrada, na Alameda das Linhas de Torres, junto às bombas de gasolina, local onde se apinhavam então muitos curiosos.

A noite ia ser longa. A Junta de Salvação Nacional, recolhida na Pontinha com o MFA, discutindo o programa e o poder, demorou muito a chegar, para fazer a famosa comunicação ao país. Desde há horas, eu andava pelos estúdios da RTP, com muito pouco para me ocupar, com uma metralhadora FBP ao tiracolo. 

(Eu nunca tinha disparado uma arma daquelas, que me diziam ser perigosa, e, "por causa das moscas", tinha o carregador só meio colocado. No dia seguinte, ao entregar a arma no armeiro, foi-me dito que, afinal, levara um carregador errado: era de uma metralhadora "Vigneron". Se tivesse sido necessário dar um tiro...)

A certa altura, já bem tarde na noite, ao telefone da sala da redação da RTP (atendia-se ali o telefone pela senha de "Mónaco"), chegou a notícia: a Junta estava prestes a chegar. Desci a rampa, fui avisar o "Ramos" e arvorei-me em "segundo comandante" da guarda de honra a Spínola e aos restantes membros da Junta. Antes, ainda perguntei ao "Ramos": "Como é que se apresenta armas com a FBP?". Sabia fazê-lo com a G3, mas não com "aquilo". O "Ramos" ensinou-me.

Coube assim ao "Ramos" improvisar a guarda de honra à chegada da Junta. Fê-lo com o garbo compatível com o estado de total bandalheira comum aos cinco ou seis soldados-cadete que o destino lhe dera para comandar, nessa efémera solenidade. E eu, "voyeur ", fiquei ao lado dele.

Ao sair do carro, seguido dos restantes membros da Junta, Spínola fixou o monóculo e olhou por um instante o "Ramos", que estava perfiladíssimo em continência, e lançou: 

"Eu não o conheço, nosso alferes?". 

O "Ramos" balbuciou: 

"Meu general, efectivamente tive a honra de servir sob as ordens de V. Exa. na Guiné". 

Spínola grunhiu algo e já se afastava, de capote e pingalim, rampa acima, a caminho dos estúdios, quando o "Ramos" se virou para mim: 

- "Estás a ver, pá?! Ele reconheceu-me, lembra-se de mim, este tipo sempre foi o meu herói!". 

Deixei o "Ramos" a gozar o instante, subi com a Junta aos estúdios e, atrás das câmaras, assisti à "performance" oratória de Spínola. Ao ver e ouvir a voz do convidado da "Divisão Azul" nazi e do mandante da Operação "Mar Verde", futuro presidente, não apenas da República mas também do bombista MDLP, não fiquei muito sossegado, recordo-me bem. Mas já passou.

(Esta tarde, 50 anos depois dessa data, o "Ramos", que não se chama "Ramos", telefonou-me, como às vezes faz. O nosso 25 de Abril é isto mesmo!)

O comandante


As ordens, nessa manhã de há precisamente 50 anos, tinham sido claras: os portões da unidade ficavam fechados e ninguém entrava sem uma autorização, dada caso a caso. 

A surpresa foi, assim, muito grande quando vimos o comandante da unidade, em passo lento mas firme, arrastando o corpo pesado, a subir a ladeira que levava à parada onde nos encontrávamos. Eu tinha-me esquecido de que ele vivia numa casa adjacente, com um acesso direto à unidade. Aparentemente, os militares do quadro permanente também...

Ao vê-lo surgir, o capitão do quadro que assumira as funções de oficial de dia, desde as primeiras horas do golpe, ficou lívido.

"Ora bolas! E agora, o que é que fazemos?", voltando-se para o António Alves Martins e para mim, que o acompanhávamos na parada, no lugar que a fotografia mostra.

Não deixava de ter a sua graça: nós, meros aspirantes a oficial miliciano, a aconselhar um profissional que era o responsável máximo de uma unidade militar amotinada.

Entretanto, o comandante ia-se aproximando, tínhamos poucos segundos para reagir.

"Prenda-o de imediato, mal ele chegar ao pé de nós", disse-lhe eu, em voz baixa, delegando comodamente a minha coragem.

Ainda era muito cedo, nesse dia 25 de Abril, não fazíamos a mais leve ideia de como estava a situação pelo país, não sabíamos mesmo se não seríamos das poucas unidades amotinadas.

"Você está doido, então eu ia lá prender o homem!" Pela disposição do capitão, eu e o António percebemos que as coisas não iam ser nada fáceis.

O comandante aproximou-se de nós e estacou, aí a dois metros. Trocámos as continências da praxe, com o António, dado que tinha a boina displicentemente no ombro, a fazer um mero aceno com a cabeça.

"O que é que você está aí a fazer de oficial de dia?" lançou o comandante, em voz bem alta, ao vê-lo com a braçadeira encarnada da função. "Não era o 'Ramos' que estava de serviço? E o que é que andam os cadetes a fazer pela parada? Porque é que a instrução ainda não começou?"

Eram aí oito e meia da manhã e, desde as oito, os soldados cadetes deveriam, em condições normais, estar a ter aulas. O capitão, sempre ladeado por nós os dois, estava, manifestamente, sem saber o que fazer, com o quarteto já sob os olhares gerais.

"Ó meu comandante, é que houve uma revolução…", titubeou o capitão, em tom baixo, como que a desculpar-se. Não explicou que o oficial de dia, que ele substituíra, havia sido detido nessa madrugada e estava fechado numa sala.

O comandante, sempre ignorando olimpicamente os milicianos que nós éramos, olhou o capitão nos olhos e atirou-lhe, com voz forte e bem audível à volta:

"Qual revolução, qual carapuça! Você está-se é a meter numa alhada que ainda lhe vai arruinar a carreira! Ouça bem o que lhe digo!"

O momento começava a ser de impasse. O comandante olhava já em redor, num ar de desafio, consciente de que recuperara algum terreno, mas também sem soluções óbvias para retomar a autoridade. Não havia mais militares do quadro à vista, alguns tinham ido para a missão externa que a unidade tivera a seu cargo, outros ter-se-ão prudentemente esgueirado, para evitar a incomodidade deste confronto com o comando legal. O capitão quase que empalidecia de crescente angústia.

É então que o António, com o ar blasé de quem já estava a perder paciência, lança um providencial: 

"Ó meu capitão, vamos lá acabar com isto!"

O comandante olhou então finalmente para o António e para mim, dois meros aspirantes, com uma fácies de extremo desprezo, como se só então tivesse acordado para a nossa presença em cena.

Aproveitei a boleia da indisciplina, aberta pelo António, e fiz das tripas coração:

"Ó meu coronel, e se fôssemos andando para o seu gabinete?"

O coronel olhou-me, com uma raiva incontida:

"Coronel? Então já não sou comandante?"

Eu nem tinha dito aquilo de propósito: tinha-me saído. A crescente nervoseira deu-me um rasgo, com uma ponta de sádica ironia:

"Não, não é, ainda não percebeu? E a conversa já vai muito longa, não acha, meu capitão?"

Mas o capitão continuava abúlico. O impasse ameaçava prosseguir.

"Então você deixa-se comandar por dois aspirantes?!", lançou o coronel, numa desesperada tentativa de puxar pelo orgulho do pobre oficial.

Mas o vento já tinha claramente mudado e achei que tinha de aproveitar a minha inesperada onda de coragem, até porque, no fundo, já pouco tinha a perder:

"O meu coronel quer fazer o favor de nos acompanhar até ao seu gabinete? É que, se não for a bem, tem que ir a mal e era muito mais simpático que tudo isto se passasse sem chatices."

Confesso que me espantei com a minha própria firmeza mas, pronto!, o que disse estava dito. O António sorria, deliciado. O capitão não reagiu, para meu sossego. O coronel entendeu então, talvez pela primeira vez, a irreversibilidade da situação. A sua voz baixou para um limiar de resignada humilhação:

"Então eu estou preso, é isso?", disse, num tom muito menos arrogante.

"Mais ou menos. Vamos andando, então" - cortei, rápido, dando o capitão por adquirido, mas sem fazer a mais pequena ideia se ele queria ou não prender o coronel.

Nesse segundo, dei-me conta que, se tudo acabasse por correr mal, o meu futuro iria ser complicado. E lá fomos para o gabinete do comando. Duas horas depois, mandámos o coronel de volta a casa.

Só o voltei a ver, anos mais tarde, ao entrar no Café Nicola. Recordo o olhar gélido que me lançou, com porte ainda altivo, barriga saliente, muito na reserva. Já com toda a liberdade, pedi uma bica.

Vou ler isto outra vez...

 


Preocupação

Lamento ter de iniciar a minha comemoração pessoal do cinquentenário do 25 de Abril com uma forte nota de preocupação institucional. E mais não digo.

quarta-feira, abril 24, 2024

O meu dia 24 de abril


Saí de manhã de casa, em Santo António dos Cavaleiros, onde vivia, desde que casara, quatro meses antes. 

No meu carro, entrei na Escola Prática de Administração Militar (EPAM), na Alameda das Linhas de Torres, em Lisboa. 

Às nove horas, iniciei a primeira aula de "Ação Psicológica", ao meus instruendos. Era aquela a minha tropa.

Cerca de um ano antes, iniciara a recruta, na Escola Prática de Infantaria, em Mafra. No termo desses três meses, foi com surpresa que constatei ter sido um dos nove soldados-cadetes escolhidos, entre os 900 colegas dessa incorporação, para integrar a especialidade de "Ação Psicológica", que era ministrada na EPAM.

Ao fim de mais três meses nessa especialidade, tive a sorte ou o engenho de sair como primeiro classificado do curso. O meu destino não ia assim ser África. Melhor, como prémio, iria ficar em Lisboa, como coordenador e instrutor do curso. 

Pelo meio-dia de 24 da abril de 1974, recolhi à biblioteca. Além de "oficial de Ação Psicológica" e coordenador do curso de formação de oficiais milicianos nessa especialidade era também bibliotecário e diretor do jornal da unidade, "O Intendente".

O António Reis bateu à porta. O António, miliciano como nós, mais tarde um consagrado historiador e professor universitário, era o nosso contacto com os oficiais do quadro, na clandestina articulação que, desde há meses, íamos mantendo com o setor profissional militar.

Conhecíamo-nos desde 1969, ao tempo da articulação da oposição democrática para o ato eleitoral desse ano. Ele tinha tido um papel destacado, como candidato oposicionista por Santarém, eu trabalhara ativamente na Comissão Democrática Eleitoral de Vila Real. Nessas últimas semanas, encontrávamo-nos regularmente na "Seara Nova", a revista oposicionista que, à época, acolhia várias correntes políticas.

Para espanto de muitos e do próprio, António Reis havia sido escolhido, meses antes, para a especialidade de Ação Psicológica, a tal que eu coordenava. A máquina das informações militares, na sua articulação com a PIDE (ninguém dizia DGS), tinha óbvias lacunas. Só há poucas semanas, o Exército mandara "reclassificá-lo", devendo regressar a Mafra, onde o esperava um destino como Atirador de Infantaria. Por esses dias, tentávamos atrasar os efeitos dessa transferência.

Notei que o António vinha com ar grave. Pediu-me para reunir o pequeno grupo de oficiais milicianos que estavam no segredo das movimentações. Não éramos muitos: além dele e de mim, eram o Alves Martins, o Otto e o Carneiro. Nenhum dos outros colegas nos merecia suficiente confiança para os envolvermos na conspiração. O António informou-nos que o golpe militar, de que há semanas falávamos, estava finalmente previsto para essa noite.

Ficámos tensos, confrontados com o peso da informação recebida. Aos pedidos de detalhes que colocámos, no tocante ao âmbito da nossa ação, adiantou explicações vagas. Ele próprio não tinha muitos mais pormenores. Sabia apenas que a unidade se iria sublevar às primeiras horas da madrugada. Não valia a pena nós estarmos presentes na unidade a essas horas, porque isso poderia ser considerado suspeito. Ficou assente que entraríamos no portão da EPAM às 7:30 da manhã, como veio a acontecer.

Ao final do dia, quando saí da unidade, não tive dúvida de partilhar a informação com o meu pai, que, vindo de Vila Real, estava de visita a Lisboa. Democrata dos sete-costados, alimentava, contudo, uma desconfiança persistente sobre a capacidade dos militares para derrubarem o regime que ele sempre detestara.

Jantei com os meus pais e com um tio. Foi uma ocasião estranha: se a operação militar que iria decorrer, horas depois, tivesse sucesso, o futuro desse meu tio - um imenso amigo de todos nós, a começar por mim - iria sofrer uma grande mudança. Ele era deputado, por Vila Real, à Assembleia Nacional...

À mesa, apenas eu, o meu pai e a minha mulher estávamos a par do que iria ocorrer, pelo que a conversa, para nós os três, não deixou de ter sempre isso como pano de fundo.

Acabado o jantar, deixei os meus pais na Feira das Indústrias, à Junqueira, onde havia uma exposição de antiguidades. À saída, ao deparar com o Rolls-Royce que transportara o presidente da República para a inauguração do evento, o meu pai disse à minha mãe uma frase enigmática, que ela lembraria até ao fim da vida: "Se uma coisa que o nosso filho me disse vier, de facto, a acontecer, amanhã o Américo Tomaz já não volta a entrar neste carro".

Nenhum de nós teve então a presciência de intuir que esse amanhã iria passar a ser conhecido como "o 25 de Abril".

Bugalho

Pensei que a indigitação de Sebastião Bugalho seria tema para discussão entre quantos votam PSD e aí se dividem sobre se ele é a pessoa indicada para representar o partido. Constato, contudo, que quem mais discute o Sebastião Bugalho é quem não tem a menor intenção de votar nele.

terça-feira, abril 23, 2024

Diversidade

E que tal um debate sobre o tema da Ucrânia entre os dois primeiros nomes que o partido da extrema-direita apresenta para as eleições europeias? É que, tendo-os já ouvido pronunciarem-se publicamente sobre o assunto, que ambos conhecem bem, podem crer que iria ter imensa graça.

Para já...


... não estou a desgostar da vista!

segunda-feira, abril 22, 2024

Atenção

Aconselho a que não se alarguem muito em bocas sobre a ida de comentadores para cargos políticos. É que, como se prova, Cristo é useiro e vezeiro em regressos à terra. 

Europas

Luís Montenegro ainda vai arrepender-se por ter desmentido Luís Marques Mendes. 

domingo, abril 21, 2024

Saudades da ramada


Da próxima vez que formos comer um cabrito ao Chaxoila, aqui por Vila Real, já vai ser possível fazê-lo debaixo da ramada exterior. Hoje, ainda teve de ser assim.

sábado, abril 20, 2024

Fim de tarde, inteiro e limpo...

 


Comendas, lombelos e valsas


Nunca tinha visto a assinatura de Franz Fischler, o austríaco que, por um período de nove anos, foi comissário europeu da Agricultura e de outros temas conexos. Encontrá-la há pouco, num documento, numa parede, à saída de um restaurante em Vila Pouca de Aguiar, foi para mim uma surpresa. Trata-se de um diploma que atesta a genuinidade da carne maronesa, que eu também poderia subscrever, depois do magnífico lombelo que é regularmente a "pièce de résistence" dos meus almoços por ali.

Na União Europeia há áreas temáticas que, não obstante a sua importância, cedo escapam à tentativa de controlo que os responsáveis pela coordenação nacional das políticas europeias sempre procuram assegurar. A Agricultura era uma dessas áreas. Nos anos que passei como secretário de Estado dos Assuntos Europeus tive essa experiência, não obstante poder contar, nos dois ministros da Agricultura e Pescas portugueses com quem convivi e trabalhei, Fernando Gomes da Silva e Luís Capoulas Santos, com dois excelentes amigos.

Se os temas da Agricultura e das Pescas se me escapuliam regularmente na gestão interministerial em Lisboa - e creio que o mesmo tinha já acontecido ao meu antecessor, Vitor Martins, durante a sua década de exercício do cargo -, constatei, ao longo dos anos, que mais distantes eles ainda ficavam do meu controlo no palco negocial em Bruxelas. Não sei como as coisas se passam nos dias de hoje, mas duvido que sejam muito diferentes.

No entanto, porque, entre 1997 e 1999, parte importante da minha atividade como secretário de Estado teve a ver com as chamadas "perspetivas financeiras" - a negociação do pacote financeiro plurianual que viria a vigorar entre 2000 e 2006, a chamada "Agenda 2000" - acabei por encontrar-me, algumas vezes, com Franz Fischler, para tratar da vertente agrícola da negociação. 

Fischler era uma figura simpática, um homem grande, caloroso na aproximação pessoal, mas com uma procrastinação deliberada no tocante à assunção de compromissos. 

A lógica destas negociações é "nothing is agreed before everything is agreed" (nada está acordado antes de tudo estar acordado). E Fischler sabia que não se podia comprometer demasiado no domínio agrícola, em especial porque seria a poderosa Alemanha a propor o acordo final, em que essa seria apenas umas das dimensões a ter em conta. E, como é sabido, não há ninguém melhor do que os austríacos para conhecerem os alemães. Para o bem e para o mal.

Depois que saí do governo para regressar à minha profissão, perdi, por completo, o contacto com Fischler, que constatei ter continuado a ser comissário europeu até 2004. 

Em Nova Iorque, o meu novo destino de vida, o embaixador austríaco e a sua mulher faziam parte dos nossos melhores amigos. Quando, em 2002, fui para Viena chefiar a nossa missão, durante a presidência portuguesa da OSCE, esses nossos amigos austríacos logo nos disseram: no início do ano seguinte, tínhamos de ir com eles a um dos mais afamados bailes da "saison" vienense.

Sou, por natureza, muito refratário a essas ocasiões de formalismo dançante. Desde logo, porque danço pessimamente. Depois, porque passar uma longa noite de camisa engomada e casaca, com condecorações a pingarem-me do peito, nunca foi o meu ideal de divertimento: fazia isso quando tal era imperativo por razões profissionais, mas tentava fugir a compromissos dessa natureza quando dependesse da minha vontade poder escapar a tais números.

Mas a insistência foi tanta que, num qualquer dia de janeiro de 2003, lá fomos nós, enfarpelados a rigor, para o espaço belíssimo do Musikverein, o mesmo onde, dias antes, tinha tido lugar o celebrado e mundialmente televisionado concerto de Ano Novo. 

Antes, com esses nossos amigos austríacos, vindos de Nova Iorque propositadamente para o baile, lembro-me que tivemos um jantar, num requintado palácio de uns aristocratas cujo nome não fixei, onde estava alguma da fina flor da sociedade vienense. Era tudo muito simpático, mas era tudo muito chato.

Chegados ao Musikverein, tivemos o privilégio de poder ir ocupar, com os nossos amigos e outros acompanhantes, uns magníficos camarotes laterais, enquanto o resto da multidão se acomodava nas galerias mais ao alto, de onde iria observar a fase mais formal do baile.

Andava eu por ali de flute de champanhe na mão, a apreciar o ambiente e a matutar nas horas que ainda faltava passar, quando, de repente, me cruzei com a figura imensa de Franz Fischler. 

Reconheci-o logo, sem pensar que ele se lembrasse de mim. Para minha surpresa, saudou-me de forma efusiva, recordando-se talvez da cara do "junior minister" português com quem tinha passado algum tempo a discutir quotas de leite para os Açores, limites à produção de trigo duro e outras coisas que eu entretanto já tinha esquecido. Expliquei o que fazia por ali.

"Tu fumas?", perguntou-me Fischler. Eu não fumava, mas lá fui com ele para um nicho do Musikverein que ele conhecia e onde se podia fumar e continuar a beber, onde estivemos a conversar uns bons minutos.
A certa altura, disse-me: "Não sei se já deste conta da quantidade de pessoas que está a olhar para nós". 
Levei isso à conta da popularidade local dele, vedeta nacional como comissário europeu, com um tipo físico maciço que não passava desapercebido. A mim, naturalmente, ninguém me conhecia.

Fischler comentou: "É que, neste espaço, se reparares bem, somos, a grande distância, as duas pessoas que usam mais condecorações. Estamos para aqui cheios de placas e coisas coloridas ao peito". 

A maioria da gente masculina que nos rodeava, embora imensamente elegante, usava escassos adereços e penduricalhos como os nossos. Pensando bem, ambos talvez tivéssemos exagerado um pouco! Fischler acrescentou: "Não fosse a mim conhecerem-me, ainda podiam pensar que éramos dois ditadores latino-americanos, dois presidentes de Repúblicas de bananas, dignos das aventuras do Tintin!" E deu uma imensa gargalhada que ecoou pela sala onde estávamos.

Despedimo-nos ao final de uns minutos, com o nosso abraço a tilintar do metálico das placas. Algumas horas e muitas valsas depois, calhou cruzarmo-nos de novo, à saída, a caminho dos respetivos carros, na mais do que gélida noite de Viena. Fez-me um aceno ao longe e berrou, para espanto de quem nos ouvia: "Adiós, presidente!". 

Nunca mais vi Franz Fischler. Até deparar com a sua assinatura, há minutos, em Vila Pouca de Aguiar, no "Costa do Sol", o restaurante do Hotel Aguiar da Pena onde o meu amigo António Machado serve um lombelo que, esse sim!, é digno de uma comenda.

sexta-feira, abril 19, 2024

Parabéns, concidadãos !

 


O ataque iraniano a Israel

 


Ver aqui.

Com que voz



"Diplomacia Económica"

 


É com muito gosto que, uma vez mais, intervenho no Congresso Internacional de Ciência Política e Relações Internacionais, da Universidade Fernando Pessoa, desta vez dedicado ao tema da dimensão económica da diplomacia. 

O congresso tem lugar no Porto, no dia 22 de abril.

Só para lembrar

 


Eleições na Índia

 


Ver aqui.

"Era Abril e estive lá"



Os 50 anos do 25 de Abril são um bom momento para trazer a público recordações de quem interveio no golpe militar. 

António Caseiro Marques, um advogado beirão com carreira profissional em Vila Real, era, por esse tempo, oficial miliciano na Marinha. Guardou documentos e cultivou memórias, que agora colocou num livro que, na noite desta sexta-feira, dia 19 de abril, pelas 21.30, vai ser apresentado no Arquivo Distrital de Vila Real. 

O trabalho será comentado por Vitor Louro, antigo membro do governo e colega de Caseiro Marques nesses dias fardados, e por mim. 

Quem aparecer no lançamento poderá ainda apreciar uma exposição com a a iconografia abrilista recolhida pelo autor.

quinta-feira, abril 18, 2024

Carlos Antunes


Há uns anos, escrevi por aqui mais ou menos isto:

"Guardo (...) um almoço magnífico com o Carlos Antunes, organizado pelo António Dias, também com o José Manuel Correia Pinto, no restaurante do Teatro Aberto, numa data do início do século que não consigo precisar. Foram quase três horas memoráveis (o restaurante queria fechar e nós continuávamos vidrados na conversa), com o Carlos, naquele seu jeito suave e envolvente, a contar-nos os seus tempos da clandestinidade, de Bucareste a Paris, de Argel a Moscovo, com histórias passadas em reuniões com Álvaro Cunhal, em países do Leste europeu, quando ainda andava nas águas do PCP. Fiquei com pena de não ter ali um gravador, porque só aquilo tinha dado um livro muito interessante. Depois disso, várias vezes o estimulei a um exercício desse género, com o qual a história da oposição à ditadura e das dissidência do PCP muito ganhariam. Não sei se o fez."

Constato agora, com agrado: fez. Acaba de sair o livro "Carlos Antunes - Memórias de um revolucionário", fruto de uma conversa gravada com Isabel Lindim.

O meu amigo Carlos Antunes morreu, com o vírus, em janeiro de 2021. Sinto falta da sua voz, nas noites e nos jantares do Procópio. A nossa última conversa foi ao telefone. Na sequência de uma ida minha a Argel, escrevi por aqui algumas notas sobre esse local de exílio dos anti-fascistas. O Carlos, com amizade, veio corrigir-me algumas imprecisões. E acrescentou: "Temos de almoçar!" Nunca mais almoçámos.

quarta-feira, abril 17, 2024

O outro lado do vento


Na passada semana, publiquei na "Visão", a convite da revista, um artigo com o título em epígrafe. 
Agora que já saiu um novo número da "Visão", vou reproduzi-lo aqui, tanto mais que entendo que o não perdeu atualidade.

Estará a guerra prestes a transbordar do cenário russo-ucraniano e a alargar-se a geografias europeias adjacentes? Esta é uma questão que, a cada dia que passa, inquieta, de forma crescente, os cidadãos do continente.

As declarações de responsáveis políticos sobre o ambiente de "pré-guerra" já instalado, o debate aberto sobre o serviço militar obrigatório, a hipótese de colocação de tropas europeias em território ucraniano, as cíclicas referências ao possível uso de armas nucleares - tudo isto está a alarmar as opiniões públicas. E se, neste extremo da Europa, o ambiente é o que é, podemos imaginar como andarão as coisas em países com uma geografia próxima da zona de conflito.

O mundo há muito que começou a perceber que Vladimir Putin, um autocrata com escassos escrúpulos, estava a tentar resgatar, num registo nacionalista, onde lhe fosse possível, a humilhação que o fim do império deixara gravada na memória da gente russa. Sentia-se o tropismo de Moscovo para rearranjar alguns equilíbrios de influência decorrentes da implosão da URSS, mas ainda prevaleceu por muito tempo em alguns o sentimento de que isso não representava um abalo sistémico ao essencial da arquitetura de segurança e defesa no seio da Europa.

No meio de tudo isso, ficava a Ucrânia. O ocidente que conta em termos militares, leia-se, os EUA, sob o aplauso dos vizinhos imediatos da Rússia, tinha há muito entendido que era decisivo trazer a Ucrânia para o seu campo, num registo idêntico ao que havia consagrado o alargamento da NATO a leste. O interesse em fazer desse país, quase subliminarmente, procedendo ao seu intenso e rápido armamento, um membro "informal" da NATO, era uma aposta audaciosa, mas, na perspetiva do interesse estratégico ocidental, ela valia bem o risco.

Com a secessão do Donbass e a da Crimeia, já sem os pró-russos a votar as decisões nacionais, o poder instalado Kiev havia passado a decidir o seu futuro sob uma agenda fortemente nacionalista, confortada com um apoio ocidental que rimava com a sua profunda russofobia.

A Rússia, por seu turno, percebeu que, se deixasse cair a Ucrânia na esfera ocidental, teria ali para sempre uma testa de ponte que abertamente contrariava o modo como pretendia formatar o equilíbrio geopolítico na sua periferia. E, talvez considerando ser aquela a sua última janela de oportunidade, antes que um desequilíbrio se instalasse e fosse irreversível, preferiu, em fevereiro de 2022, romper com o que lhe restava de diálogo negocial com o ocidente. E foi para a guerra.

E agora?

Um dos argumentos recorrentes no discurso que acompanha o apoio político-militar à Ucrânia, assumido quase como uma verdade dogmática, é o de que uma eventual vitória, ainda que parcial, da Rússia, representaria um imenso risco para a Europa e mesmo para a segurança de todo o espaço da NATO. Será isto mesmo assim?

Sem querer chocar quem se sente em choque, gostava de lembrar que nenhuma das razões estratégicas que, segundo a generalidade dos especialistas, estiveram presentes na invasão russa da Ucrânia se aplica, ainda que de forma aproximada, a qualquer dos Estados NATO que agora se afirmam potencialmente ameaçados por Moscovo.

Até hoje, a Rússia nunca deu o menor sinal de querer pôr em risco qualquer fronteira da NATO, muito embora se saiba o desconforto com que viu o alargamento da organização a leste. Não o fez por "bondade" ou boa vontade? Claro que não. Não o fez porque o risco de o fazer seria sempre incomensuravelmente maior do que as suas hipóteses de êxito.

É óbvio que a experiência demonstra que não é possível confiar, ainda que minimamente, na palavra de Putin ou de Moscovo. Não é por aí que vamos. Mas, a menos que consideremos que a irracionalidade é a irreversível linha condutora da política russa - e, nesse caso, de facto, tudo será expectável -, um mínimo de lógica e de avaliação dos recursos militares convencionais russos, mesmo numa perspetiva diacrónica otimista para Moscovo, não aponta para a obtenção de capacidades bélicas que sejam decisivamente ameaçadoras, em termos estratégicos, para o ocidente, salvo no terreno nuclear - mas esse é já outro patamar de jogo, só gerível do outro lado do Atlântico.

Chegado aqui, o leitor perguntará: mas onde é que afinal o texto quer chegar?

A uma conclusão simples: se o conflito na Ucrânia, na constatação da impossibilidade de uma derrota da Rússia que não passe por um conflito global, vier a saldar-se por um compromisso que consagre cedências territoriais ucranianas, de facto ou de jure, isso não parece significar o prenúncio de uma acrescida ameaça para o ocidente.

Esse desfecho, a ter lugar, acabaria por ser a infeliz alternativa, imposta por via violenta, ao modelo de autonomia das populações de maioria russófona que estava previsto nos acordos de Minsk II, subscritos mas não implementados por Kiev e que Moscovo não parecia rejeitar. Poderia a aplicação desses acordos ter preservado a paz? Nunca o saberemos e, atento o posterior discurso oficial russo de desqualificação da identidade nacional ucraniana, subsistem muitas dúvidas de que a Rússia viesse a aceitar placidamente esse modelo. Mas isso não foi tentado.

Posso compreender que muitos considerem que uma solução de cedência territorial seja agora profundamente injusta, desde logo para os ucranianos que, com extraordinário heroísmo, têm lutado por preservar as fronteiras que o direito internacional lhes reconhece desde 1991. Mas essa é uma questão diferente daquilo que aqui contestei: a ideia de que, a vir a ter lugar, essa solução traria novos riscos de segurança para a Europa.

Ratos e homens

"Isso agora já não interessa nada!", expressão clássica de Teresa Guilherme, será utilizada por alguns oportunistas, quando, num dia longínquo, vier a concluir-se que, afinal, no caso "Influencer", a montanha não pariu um rato mas apenas lixou o Rato. Era esse, aliás, o objetivo.

Diplomacia

Conhecendo alguma coisa da diplomacia, sou de opinião de que Pedro Sánchez roçou a deselegância na forma que escolheu para o elogio público a António Costa. E achei perfeitamente adequada e correta a reação de Luís Montenegro. Eu digo o que penso.

terça-feira, abril 16, 2024

Old days


A internet fez desaparecer a ansiedade boa com que, em tempos passados, recolhíamos jornais, nos escaparates dos aeroportos. 

Hoje, tudo parece papel velho.

Rui Calafate


Conheço Rui Calafate há muitos anos. Sempre o vi como uma voz livre, na análise e no comentário político. Nos últimos anos, temo-nos encontrado pelos bastidores da CNN Portugal.

Neste tempo intenso em que a política portuguesa surge frequentemente avaliada de forma enviesada, à luz de muitas agendas e interesses, Rui Calafate tem surpreendido pelo seu rigor e e pela sua independência, o que não é sinónimo de falta de frontalidade e de opiniões firmes, doam a quem doerem.

Estou muito curioso por ler este seu livro, a cujo lançamento, infelizmente, não vou poder estar presente, por ausência de Lisboa na data.

Regra

A única forma de poder avaliar, com honestidade, as culpas e as razões de cada um dos protagonistas, locais ou externos, do conflito no Médio Oriente é fazê-lo sempre sem ter em conta a simpatia ou a antipatia que as partes nos possam merecer.

Manuel Alegre


Tenho muita pena pelo facto de não ter podido estar ontem presente no lançamento do livro de memórias de Manuel Alegre.

Manuel Alegre é, neste ano em que passa meio século depois do 25 de Abril, a figura viva portuguesa que melhor simboliza toda a luta pela nossa liberdade.

Um forte abraço a Manuel Alegre.

segunda-feira, abril 15, 2024

A última vez


O Café New York, em Budapeste, é, provavelmente, o café mais bonito do mundo. 

Escrever isto é uma óbvia e deliberada provocação. Vai aparecer gente a dizer "Ah! E então o Majestic?!", "E o Central ou a Demel, em Viena?", "E a Colombo, no Rio" e por aí adiante. Até alguém de Vila Real: "Atão e a Gomes?"

Ora bem! Tudo isto é só para dizer que, ontem, depois de jantar uma vez mais no New York, tive uma sensação que, com a idade, me acomete cada vez mais: "Esta é a última vez que aqui venho!" E deve ser!

domingo, abril 14, 2024

Autoridade e vergonha

Aqueles que condenaram o ataque de Israel às instalações diplomáticas iranianas na Síria, ato de flagrante desrespeito pelo Direito Internacional, têm autoridade moral para pedir contenção a Teerão na sua retaliação face a essa agressão. Os restantes deviam ter alguma vergonha.

sábado, abril 13, 2024

Pardubice


Em família, quando deparamos com uma localidade com um nome bizarro, temos por brincadeira fazer um teste. Soaria bem perguntarmos?: "Onde é que a menina nasceu?". Para essa menina imaginária nos responder: "Eu nasci em Venda das Raparigas" ou em "Colo do Pito" ou em "Terra da Gaja".

Como soará Pardubice em checo? Se calhar, bem.

Desconfiança

A confiança é um bem que, quando se perde, é muito difícil de reconquistar. Luís Montenegro, um improvável primeiro-ministro que tem necessidade imperativa de conquistar a confiança dos portugueses, mentiu-lhes de forma grosseira. Se não pedir desculpa já, não vai longe.

E agora que está provado, preto no branco, que a promessa de baixar o IRS era uma rotunda mentirola, e depois das tomadas de posição de João Vieira Pereira e Pedro Santos Guerreiro, aguarda-se, com divertida ansiedade, o comentário dos tradicionais louvaminheiros mediáticos do PSD.

quinta-feira, abril 11, 2024

"Eu já fui à América Latina"


Sei que há gente que não tem paciência para ouvir um podcast que dura meia hora. Mas pode haver quem tenha. Neste caso, trata-se de uma conversa minha com a jornalista Raquel Marinho, responsável pela comunicação da Casa da América Latina, numa parceria entre esta instituição e a revista "Sábado".

Foi-me proposto que escolhesse um país da América Latina sobre o qual gostasse de conversar. Sem surpresa, optei pelo Brasil. Falei de diversos aspetos da realidade brasileira e da complexidade daa relações entre Portugal e o Brasil. Deixei também nessa conversa muita da minha genuina afetividade por aquele país.

Aqui fica o link.

quarta-feira, abril 10, 2024

A Europa vai ser arrastada para a guerra ?


Na "Visão" que hoje é posta à venda, respondo à pergunta colocada em título. 

A minha resposta estará longe de ser consensual, mas é a minha opinião. E eu só digo o que penso.

Lembrei-me da tia Zé


Cheguei esta tarde a Praga. Numa conversa telefónica com um amigo, há minutos, quando lhe disse onde estava, ele retorquiu-me: "O que é que estás a fazer em Braga?". Tinha ouvido mal. Com a idade, a começar nele e a acabar em mim, todos ouvimos pior.

A minha tia Zé, uma das irmãs mais velhas do meu pai, ouvia bastante mal. 

Estávamos em torno da televisão, em agosto de 1968, em Viana do Castelo. 

As imagens eram da entrada das tropas soviéticas em Praga, com a subida dos tanques pela praça Venceslau, um arremedo da Avenida dos Aliados, sob protestos populares.

A tia Zé vivia, desde sempre, num mundo diferente, um pouco alheado, distante daquele que nos mobilizava em frente ao televisor. Não era dada a seguir eventos noticiosos, nem sentia estímulo para participar em quaisquer conversas que excedessem o quadro familiar ou das amizades.

Por uma vez, porém, os nossos comentários e exclamações, bem como a notória brutalidade do que observava, tê-la-ão feito compreender que alguma coisa não ia bem, lá pelo mundo exterior.

A certo ponto, numa pausa do noticiário, ao entrar na sala com o tradicional café de saco, de cuja feitura não prescindia, a velha senhora deixou escapar: "As coisas estão mal lá por Braga, não estão?"

terça-feira, abril 09, 2024

O Eugénio disse-nos adeus


Chega-me a notícia da morte do Eugénio Lisboa. E fico com imensa pena por estar fora de Portugal, não podendo estar presente na sua despedida.

Que posso dizer do Eugénio? Porque a originalidade, muitas vezes, toca a irresponsabilidade, vou aqui repetir um escrito que, há anos, elaborei sobre ele. O essencial, no que o Eugénio me toca, está nesse texto:

"Por décadas, li o nome de Eugénio Lisboa em textos críticos sobre literatura portuguesa que me iam passando à frente dos olhos. Como essa era uma “praia”, como agora se diz, que eu apenas tocava pela rama, tinha, acerca dele, alguma, mas não excessiva, curiosidade, apenas potenciada pela raridade do facto de se tratar de um “engenheiro”, qualidade que partilhava com o Jorge de Sena – mas isso num tempo em que os engenheiros ainda não assumiam a importância que, entre nós, viriam a ter… 

A circunstância de ter raízes em Moçambique e de, mais tarde, ter andado por França e pela Suécia, situavam Eugénio Lisboa, no meu imaginário, na prateleira prestigiada dos expatriados da nossa cultura, essas figuras com cujas assinaturas eu tropeçava em livros e artigos e que, de quando em quando, entrevia em colóquios ou na televisão, saídos da sua habitual geografia. Mas eu nunca fui fã de José Régio (o Eugénio não me vai perdoar esta!) e esse era o terreno de estimação do nosso crítico, pelo que não atentava, como seguramente deveria, ao que ele escrevia sobre o poeta – no “Colóquio Letras”, no JL e noutras folhas cultas e de culto.

Um dia, no início dos anos 90, ao ser colocado em Londres, tive oportunidade de pôr finalmente uma fotografia no nome do Eugénio Lisboa. E, simultaneamente, no de Rui Knopfli, com quem ele fazia um singular “par” de conselheiros da coisa escrita – o Lisboa, da cultura, o Knopfli, da imprensa – dentro da nossa Embaixada. Durante mais de quatro anos, convivi diariamente com ambos e, no meu saldo pessoal, julgo neles ter feito dois amigos. Era muito interessante observar a sua complementaridade, o sublinhar das comuns raízes moçambicanas, distintos no trabalhar de certas memórias, sobre figuras do passado frequentado e no modo de viver o presente de então. Porém, onde o Eugénio era uma formiga de trabalho, o Rui era uma cigarra, de cigarros seguidos e outros vícios, onde parecia assentar a alegria residual da sua vida e em que preparava, com uma certeza que íamos visualizando, o caminho apressado para a morte. Por mais de uma vez, fui aliado do Eugénio Lisboa – cuja óbvia ternura pelo Rui sempre mascarava – na tentativa de salvar o poeta de si próprio. E ambos sofríamos, cada um a seu modo, a inglória certeza, a prazo, desse esforço. 

Sou testemunha privilegiada de que, em Londres, Eugénio Lisboa desenvolveu um trabalho notável na promoção da nossa cultura. Para além de animar, frequentemente com a sua presença, muitas iniciativas, dedicava-se, com afinco, à edição de traduções de clássicos da nossa literatura, através da “Carcanet Press”. Com o Helder Macedo e com Michael Collins, seus principais cúmplices em iniciativas a que, com pertinácia, se dedicava, o Eugénio procurou “furar” o complexo mundo do tecido cultural britânico, tendo, a seu lado na Embaixada, a ajuda entusiasta e atenta de Mercês Gibson. Olhando para trás, tenho consciência de que procurei ser útil, à medida do que me era possível, a esse labor, onde frequentemente nos deparávamos com boas vontades – como era o caso da Fundação Calouste Gulbenkian – mas, igualmente, com alguns egos de estimação, às vezes de natureza institucional, bem difíceis de contornar.

Foi pela mão do Eugénio Lisboa que vim a conhecer figuras como o jornalista António de Figueiredo, lendário representante de Humberto Delgado em Londres, o advogado Adrião Rodrigues, nome destacado dos “Democratas de Moçambique”, ou Alexandre Pinheiro Torres, um escritor cuja obra justificaria maior reconhecimento público. Em Londres, o Eugénio funcionava como uma espécie de “placa giratória” por onde passava muito do mundo cultural português, mas onde a África lusófona estava sempre presente. 

Esse “carrefour” londrino nem sempre era tão pacífico como se poderia pensar – mas, com o tempo, habituei-me a perceber que o mundo cultural é um espaço onde, com alguma facilidade, as personalidades se chocam e as palavras podem desencadear grandes fogueiras. Recordo-me de uma polémica, que envolveu o Eugénio Lisboa e o José Saramago, a propósito de um almoço que eu havia oferecido ao escritor, com a presença do Hélder Macedo, da Paula Rego, do Bartolomeu Cid dos Santos, do Luís de Sousa Rebelo e do Rui Knopfli. O modo como Saramago relatou uma cena desse repasto, nos seus “Cadernos de Lanzarote”, criou uma fúria no Eugénio, que zurziu o escritor no JL. A diplomacia não exclui a indignação. 

Devo confessar que tenho alguma saudade das conversas que, aos fins de tarde, mantínhamos no meu gabinete, muitas vezes acompanhados pelo fumo e pela ironia do Rui Knopfli. Ouvia-os então cruzar memórias africanas, referências literárias, leituras pessoais de episódios comuns do passado, tudo envolvido na agudeza crítica que, quando inteligente, não faz mal a ninguém.

Homenagear o Eugénio Lisboa, como grande figura da cultura portuguesa – não esquecendo a imprescindível serenidade da Antonieta, a seu lado –, é um ato mínimo de justiça. E, para mim, é também uma oportunidade para lhe enviar um abraço de sólida amizade."

Repito o abraço, agora já saudoso, ao meu amigo Eugénio Lisboa.

segunda-feira, abril 08, 2024

Sempre!

Não me reconheço no pensamento conservador. Sinto-me alheio àquilo que os liberais pensam. Estou cada vez mais distante daquilo que os conservadores, liberais e alguns outros qualificam de pensamento "woke". Nem imaginam como é agradável viver assim!  Viva o 25 de Abril! Sempre!

O 25 de Abril e a política externa portuguesa


 Ouvir aqui.

Era assim

 



Rir


"Olha lá! Por que é que pões uma cara tão séria na CNN? Não dás um sorriso!". A pergunta foi de um amigo, há minutos. "Porque não tenho vontade de rir quando falo de guerras. Se, neste fim de semana, me tivessem entrevistado sobre futebol, nem imaginas o que eu me tinha rido..." 

Os Estados Unidos e Israel


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sábado, abril 06, 2024

Ser do Sporting

Gosto do Sporting quando o Sporting perde. E não gosto mais do Sporting quando o Sporting ganha. Mas gosto muito que o Sporting ganhe. Ponto.

Ou isso!

Em tempos, nas Necessidades, dizia-se que havia sempre duas razões justificativas para colocar um jovem diplomata na embaixada em Londres: ou porque falava muito bem inglês ou porque falava mal inglês e aí podia aprender. Ao olhar para o CV de alguns membros do novo governo...

Mortos e mortos

Em Gaza, as ações israelitas mataram dezenas de funcionários de agências humanitárias. Essas mortes não parece terem escandalizado muita gente. Agora, levantou-se um escarcéu pela morte de sete desses agentes. Porquê? Porque são estrangeiros. Os outros eram "apenas" palestinos... 

Acentuar

A falha do acordo entre o PSD e o Chega não terá sido suficiente para ensinar que o plural de "acordo" não é "acórdos", com "o" aberto, mas sim "acordos" com "o" fechado. Veremos se a patetice do símbolo do governo é aproveitado para ensinar que é "logótipo" e não "logotipo".

Basics

Depois do patrioteirismo do logo do governo, aguarda- se uma diretiva para que passe a dizer-se OTAN, em lugar do estrangeirado NATO. "Back to basics".

Sismo

Sete mortos é o balanço do maior sismo que, desde há 25 anos, ocorreu agora em Taiwan, onde estes tipo de eventos são frequentes. É extraordinário o nível de prevenção que deve estar montado para ter havido tão poucas vítimas.

sexta-feira, abril 05, 2024

A Ucrânia, a Europa e os Estados Unidos


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Ainda a Turquia


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Palestina - ano zero


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Assim não dá!


Sou, desde há alguns anos, presidente do Clube de Lisboa / Global Challenges, uma organização sem fins lucrativos, criada em 2016, dedicada à discussão dos grandes temas globais, que organiza as bienais "Conferências de Lisboa", outros encontros temáticos internacionais e cursos universitários anuais, bem como diversos debates presenciais chamados "Lisbon Talks" e, por via digital, as "Lisbon Speed Talks', estas com dezenas de edições. 

Somos uma centena de associados, que pagamos as nossas quotas e, claro, trabalhamos "de borla", sem sede nem mordomias, apenas pelo "amor à camisola". Somos oriundos de diversas áreas e sensibilidades, não discutimos política portuguesa, nem sequer a política externa, operamos na preocupação de ajudar a transformar Lisboa num espaço de reflexão sobre temáticas de interesse comum, da energia à segurança, dos mares à sustentabilidade, entre muitas outras. Nas nossas conferências, enchendo a Gulbenkian e outros espaços, tivemos gente de dezenas de países, especialistas em imensas áreas e - não nos perguntem o segredo! - nunca pagámos um centavo de "fee" a ninguém. É verdade!

De que me queixo, então? Essa agora! De nos "roubarem" e usarem a nossa gente, os nossos associados!

Da anterior direção a que presidi, perdi, para o governo que agora sai, a minha vice-presidente, Helena Carreiras, que foi para ministra da Defesa, e o vogal da direção, Bernardo Ivo Cruz, que foi secretário de Estado da Internacionalização. Agora, o novo governo "saca-nos" Ana Isabel Xavier, nova secretária de Estado da Defesa. Acresce que o "uso" dos nossos associados é "escandaloso": foram os antigos ministros da Economia e dos Negócios Estrangeiros, António Costa Silva e João Gomes Cravinho, o consultor do presidente da República, Bernardo Pires de Lima, a consultora da ONU, Mónica Ferro, entre outros! É um fartar! 

Assim, não dá! 

Do Irão a Israel

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