domingo, 19 de setembro de 2021

A conterrânea de Steinbroken



Devo ter ainda numa estante qualquer, já nem sei onde, "A Musa Irregular", de Fernando Assis Pacheco. Há muito tempo.

Há minutos, na "Travessa" (nunca devemos perder a esperança no futuro de um país onde há livrarias que estão abertas ao domingo), vi uma edição do livro de 2019, da "Tinta da China". Compro? Não compro? Dizia na capab"edição aumentada", o que foi um alibi para desculpar a aquisição.

Quando vale em euros uma hora de belo pousio, nesta tarde de sol estupenda (a palavra já se usa pouco, mas tem uma sonoridade que me agrada), ali no Príncipe Real? Mas será que há lugares nos bancos de jardim ou a chusma de franceses que por aí anda e as holandesas de perna ao léu já terão ocupado tudo? Mas vale, com certeza, o preço deste livro de um poeta que me deu sempre muito gozo ler e que tenho a sensação de que escrevia com um prazer imenso. 

Comprei e fui lendo - em voz alta, porque gosto da poesia falada, mas em tom suficiente baixo para não parecer maluquinho diante de quem passava. E não é que, na página 243, dei com um poema a uma "pen pal" finlandesa?! 

É que eu, ao tempo da minha juventude mais jovem, também troquei cartas (julgo já ter contado isso por aqui) com uma loirita gordaça da terra de Steinbroken, da qual, ao contrário de Assis Pacheco, nem por sombras me apaixonei. Não era com certeza a mesma, porque me recordo que finlandesas à procura de correspondentes latinos era "mato", à época. E logo a nós, que, por essa altura, só sonhávamos com suecas! 

Aqui fica a inveja assumida a quem fez os "versinhos".

sábado, 18 de setembro de 2021

José-Augusto França


Há coincidências do diabo! Há dois dias, depois do jantar, saído do Grémio Literário, depois de charlar com um amigo para umas dezenas de pessoas, sobre o diplomata que Eça de Queirós também foi, veio-me à memória, de repente, José-Augusto França. Que seria feito dele? Sabia que ele estava doente, há há bastante tempo, algures em França, onde vivia.

Acabo de saber que morreu, aos 99 anos.

É que tinha sido precisamente no Grémio Literário que conheci, já há bastante tempo, José-Augusto França, nem sei bem em que contexto. Fiquei satisfeito por lhe poder dizer que, além de conhecer bastante a sua obra, ainda antes do 25 de Abril lia, com muito interesse, crónicas que ele publicava, creio que no “Diário de Lisboa”, sobre questões de património e arte.

Lembrava-me, aliás, de que fora ele que, numa delas, dera o alerta para o facto da antiga igreja, junto à Praça do Município, onde hoje está o Museu do Dinheiro, e que era então uma garagem do Banco de Portugal, ter surgido com as respetivas pedras numeradas. Isso significava que estava prestes a ser demolida e transportada, ao que julgo, para a zona de Benfica.

França escreveu então um artigo a insurgir-se contra o que achava ser um atentado ao património. O que hoje é coisa banal na nossa imprensa - alertar para uma decisão passível de contestação - era então, não apenas raro, mas algo de corajoso. A verdade é que o assunto foi travado e o edifício ficou por lá. Muito graças ao alerta de José-Augusto França.

Nessa minha conversa, que julgo teve lugar durante um jantar, aproveitei para lhe contar um episódio que ele desconhecia. Era uma cena que eu tinha testemunhado, uma noite de 1970 ou 1971, no Centro Nacional de Cultura.

Francisco Salgado Zenha, advogado de renome, oposicionista à ditadura e que, em democracia, foi depois “número dois” do PS e candidato presidencial, intervinha num ciclo de palestras. O regime não iria deixar durar muito essa iniciativa.

Já não recordo qual era o tema da palestra de Zenha, mas lembro-me de que, a certa altura, ele citou, com ironia, uma frase que ouvira a José Augusto França, segundo a qual os portugueses viviam divididos entre “dois santos”: São Bento, para quem era atraído pelo poder, e Santa Apolónia, para os que viviam na permanente miragem de Paris.

Nessa altura, ouviu-se, do fundo da sala, a voz forte, quase de tribuno, do advogado, jornalista e político Francisco Sousa Tavares, que também ali estava, ao lado da sua mulher, a escritora Sophia de Mello Breyner, a interromper o orador: "O José-Augusto disse isso? Essa agora!? Logo ele, que nunca usa o comboio, que vai sempre de avião para Paris!" A sala desatou em gargalhadas. 

Divertidíssimo, França confirmou-me que, de facto, contava, às vezes, essa graça. Mas estava longe de supor que Sousa Tavares o citara.

José-Augusto França era um homem fascinante. Historiador de arte, mas também memorialista e ficcionista, teve um papel muito ativo no nosso panorama cultural, tendo chefiado o Centro Gulbenkian em Paris. É um nome grande que se vai.

“Observare”


O trio costumeiro - Luís Tomé, Carlos Gaspar e eu -, desta vez sob a moderação de Pedro Belo Moraes, regressou, nesta ”rentrée”, ao “Observare”.

Falámos de vários temas, comigo a abordar a saída de Ângela Merkel e as próximas eleições na Alemanha, as decorrências do regresso ao poder dos Talibãs no Afeganistão, os rumos do Brasil na espécie de “fuga em frente” de Bolsonaro e o regresso de José Eduardo dos Santos a Angola.

Pode ver o programa clicando aqui: 

Sobre o imenso perigo das dicas

                    

"Não fales de coisas boas e baratas para comer! Espalhas as dicas e, depois, enchem aquilo tudo e não há lugares!"

Há dias, alguém me dizia isto, num jantar no "Raposo", perto do Jardim Constantino, um pouso culinário a que, por tempos, me esqueço de ir e que vivamente recomendo. 

Lembrei-me hoje deste recado na "Imperial de Campo de Ourique", também conhecida pela "Tasca do João", um lugar onde, sempre que posso, aos almoços de sábado, vou comer o "bacalhau à minhota" da dona Adelaide.

Pedi uma mesa à porta, com o fresco da rua, e por ali estive, de babete no peito, para evitar pingos de azeite sobre a camisa. 

Um destes dias, irei contar por aqui as histórias de vida do João, um homem de Ponte da Barca que, há muito, fez de Campo de Ourique o seu mundo. Que ali foi feliz (vai ser avô, de novo, em breve), cuidando da felicidade gustativa dos outros.

Deixo-os, por ora, com a fotografia do petisco de hoje e de sempre.

Das Ordens


O Presidente da República e Grão-Mestre das Ordens Honoríficas Portuguesas conferiu posse, em cerimónia realizada no Palácio de Belém, aos vogais dos três Conselhos das Ordens, nomeadamente Conselho das Antigas Ordens Militares, Conselho das Ordens Nacionais e Conselho das Ordens de Mérito Civil.

Ler aqui:

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Acabou-se o papel


Não se assustem com o título deste texto!

Num dia de 2013, recebi um convite do diretor do “Diário Económico”, António Costa, para escrever uma coluna no seu jornal. Iniciei aí uma interessante atividade regular, a que decidi pôr termo, dois anos mais tarde, por razões pessoais. Já não me recordo se a minha coluna tinha algum nome.

“Transferi-me”, em 2016, para o “Jornal de Negócios”, acolhido pela então diretora, Helena Garrido, órgão onde me tenho mantido, até hoje, com a coluna a que dei o nome pouco original de “Duas ou Três Coisas”, dado ser essa a designação do blogue que escrevia desde 2009.

Entretanto, ainda em 2015, quando dirigia o “Jornal de Notícias”, Afonso Camões tinha-me proposto escrever também uma coluna semanal. Chamei-lhe “Uma Segunda Opinião”. Trezentos e tal artigos depois, já no início deste ano, essa coluna chegou ao fim, como tudo na vida.

Já mais recentemente, em 2018, o semanário “Jornal Económico”, através do seu diretor, Filipe Alves, convidou-me para passar a escrever aí uma coluna, a que chamei “Antes que me esqueça”. E por aí também fiquei, até hoje.

No dia de hoje, publiquei no “Jornal de Negócios” e no “Jornal Económico” dois artigos que tomei a decisão que iriam ser os últimos. 

Porquê esta paragem? José Gomes Ferreira (não, não é esse, é o poeta) dizia que “viver sempre também cansa”; eu acho que escrever sempre também me estava a cansar. A obrigação ritual de ter de preencher, em datas certas, uns milhares de carateres, começou a dar-me menos prazer do que a angústia das “deadlines” me estava a criar. 

Informei disso, hoje mesmo, os diretores dos dois jornais - Diana Ramos no “Negócios” e Filipe Alves no “Económico”. A ambos e às suas equipas, fico imensamente grato pelo acolhimento e, em particular, pela extrema simpatia e elevado profissionalismo com que, em ambas as “casas”, sempre fui tratado. 

Decidi assim fazer uma pausa na escrita, em termos regulares, em papel. Mas, como dizia o outro, “vou andar por aí”, escrevinhando de quando em vez, se me quiserem aturar.

Ah! E, claro, também vou ficando por estas plataformas luminosas em que agora me estão a ler, enquanto me apetecer.

As lições de Cabul


O que se passou em Cabul, com a atabalhoada saída dos americanos e o colapso, praticamente sem resistência, de uma administração local apoiada por umas forças armadas que se presumia já capazes de suster uma guerrilha, maculou seriamente a imagem dos EUA no mundo.

Observar aquela que é, a grande distância, a maior potência mundial, a cair num erro de cálculo daquela dimensão, induz uma inevitável sensação de fragilidade, quase de “naïveté”, que contrasta muito com o retrato que os americanos sempre se dedicaram a projetar de si próprios.

O temor ao poderio das grandes potências foi sempre uma das mais relevantes componentes da dissuasão. Mostrar “pés-de-barro”, sob os holofotes, não é nada prestigiante.

Gostaria, no entanto, de deixar aqui uma nota de prudência. O saldo do Afeganistão para os americanos, sendo indiscutivelmente penoso, tem leituras algo diferentes dentro e fora da América.

Muito em especial depois da aventura iraquiana, a tendência dominante, na opinião pública americana, vai no sentido de favorecer um recuo da afirmação militar do país pelo mundo, em especial no modelo “boots-on-the-ground”.

A eleição de George W. Bush em 2000 já havia sido, aliás, uma resposta àquilo que muitos consideravam ser o excessivo envolvimento externo que, em parte dos seus oito anos, Clinton tinha protagonizado na Casa Branca.

O Iraque era uma espinha encravada na memória da família Bush, mas convem lembrar que o adversário favorito dos “falcões” que acompanhavam o débil presidente - Cheyney, Rumsfeld e os teóricos “neocon” - já era então a China. Foi o 11 de setembro que inverteu conjunturalmente as prioridades.

O recuo desta deriva começa a ser feito por Obama, um presidente que demonstrou uma patética incapacidade para ler os sinais do tempo internacional, deixando a América, pelo mundo, num estado bem pior do que aquele em que a encontrou. É verdade que a emergência de Trump como que veio “absolver” quase tudo, mas há que ser fiel a essa verdade.

Obama, depois Trump e, agora, Biden, ao prosseguirem uma linha de recuo no envolvimento militar, respondem a um sentimento profundo que prepondera na opinião pública americana: “bring our boys back”.

Volto ao que atrás escrevi. O mundo interpretou o que se passou no Afeganistão como uma imensa humilhação para os americanos - com tristeza para os amigos e aliados da América, para quem Washington é um chapéu de proteção e com quem há sempre algum grau de sintonia, mesmo nos piores dias, mas com um “esfregar-de-mãos” de satisfação por parte de quantos, ainda que deste lado do mundo, têm a americanofobia como a sua doença infantil de estimação.

Mas não nos enganemos: mesmo que Biden tenha descido nas sondagens depois do fiasco de Cabul, o sentimento interno americano sobre esse desaire teve um impacto substancialmente menor do que aquele que se projetou pelo mundo. Repito: os americanos, em geral, gostaram de ver os EUA fora do Afeganistão, naturalmente tendo preferido que isso tivesse ocorrido de outra maneira. Mas o essencial, para a opinião pública americana, era que as suas tropas saíssem.

Agora, no quadro das reflexões dos “think tanks” americanos, mais democráticos ou mais republicanos, vamos assistir a exercícios de “lessons learned”, que não deixarão de ter consequências na reformulação da própria doutrina operativa futura das forças armadas e da “intelligence” dos EUA.

As lições de Cabul, contudo, vão ser apreciadas, com grande atenção, em outras geografias, já não num registo analítico frio, mas num quadro de alguma angústia.

Se pensarmos que os EUA têm hoje previstos movimentos de “desengajamento” de tropas, embora parcial e faseada, de vários teatros geopolíticos (Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita), onde a sua presença funciona como um conforto de segurança para aliados, que se consideram sob riscos que não se atenuaram e, em alguns casos, até se agravaram pela leitura receosa que fazem da nova assertividade da China e das tensões com o Irão, teremos de concluir que a quase complacência americana com o regresso dos talibãs vai fazer soar algumas campainha de alarme. Desde logo, muito em especial, em Taiwan.

“A Arte da Guerra”


As eleições legislativas na Alemanha, o surgimento de uma candidatura da esquerda francesa para as as presidenciais do próximo ano e a situação político-militar no norte de Moçambique ocupam o “A Arte da Guerra” desta semana, na conversa habitual com António Freitas de Sousa.

Pode ver aqui: https://fb.watch/84fivWNeTe/

Não foi assim


Em 31 de agosto último, uma cerimónia serena, congratulatória, teve lugar no aeroporto Hamid Karzai. As últimas tropas americanas abandonavam o Afeganistão.

Não obstante alguns focos localizados de insurgência talibã, o governo de Cabul, apoiado pelo seu formidável aparelho militar, de centenas de milhares de homens, equipado, treinado e municiado pelos Estados Unidos, ao longo de uma vintena de anos, conseguiu instaurar segurança numa grande parte do país.

Com todas as suas insuficiências, a democracia foi fazendo o seu caminho na sociedade afegã, as mulheres afirmaram os seus direitos, o ensino passou a abranger, sem limitações, ambos os sexos e até a luta contra a corrupção, um cancro eterno no país, começou a impor-se.

Não foi fácil a vida em Cabul e no resto do Afeganistão, ao longo destes 20 anos. Mas valeu a pena o esforço. A Al Qaeda, que os talibãs protegiam, foi desmantelada por ali, não obstante ter gerado “metástases” noutros locais, em especial fruto do erro na abordagem ao caso iraquiano.

Bin Laden desapareceu de cena e os “splinter groups” têm, apesar de tudo, um potencial de desregulação violenta muito diferente daquele que produziu o 11 de Setembro.

O regime afegão vai respeitando, “tant bien que mal”, a separação de poderes e compromete-se cada vez mais a um esforço acrescido em termos de Direitos Humanos, sob o olhar dos países e instituições doadoras, que observam regras de condicionalidade da ajuda.

Com a promessa de um substancial apoio internacional, que o inigualável peso político americano irá favorecer pela sua influência nas instâncias multilaterais, a economia afegã vai ser estimulada em diversos setores, com a luta contra a exportação ilegal de droga a começar a fazer doutrina na vida do país.

O Paquistão, pressionado fortemente pelos Estados Unidos, irá quebrando o apoio de back-up com que os seus serviços secretos estimulam a insurgência talibã.

A Rússia, recetora de lições antigas, tem vindo a reforçar o apoio ao governo do Tajiquistão, para quebrar circuitos de réditos que as papoilas garantiam à guerrilha. Ainda há muito a fazer, mas está tudo bem encaminhado.

Joe Biden pode dizer finalmente aos americanos que fez regressar “our boys”, tal como a sociedade estado-unidense exigia, deixando ali a prova provada de que, afinal, um trabalho paciente pode levar a um “nation building” eficaz, num modelo democrático, com cada caso a revelar as suas caraterísticas, reeditando exemplos de sucesso como, no longínquo passado, haviam sido o Japão ou a Coreia do Sul, ou mesmo a Alemanha.

A ideia de que, com persistência, a “exportação” da democracia se podia fazer, não era um mito. Os aliados dos Estados Unidos, por seu lado, podem também dizer às suas opiniões públicas que a operação afegã não foi um mero seguidismo a Washington, mas representou um compromisso com uma agenda de projeção da paz, digna dos melhores princípios.

Vistas bem as coisas, o trabalho das operações militares, levadas a cabo à distância, por forças armadas empenhadas em objetivos que a comunidade internacional tinha como finalidades “do bem”, não foi um trabalho em vão. Valeu a pena.

Mas não foi assim.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Religião

Há mais de quinze anos, quando conheci pessoalmente o então presidente Lula, ainda antes de lhe apresentar credenciais como novo embaixador português no Brasil, a primeira pergunta que me colocou foi saber qual era o meu clube, em Portugal: “o Benfica ou o Porto?”

Expliquei-lhe que não era nenhum dos dois e estranhou quando lhe respondi que era adepto de “um clube essencialmente católico, porque que só ganha quando Deus quiser”. E acrescentei, para ele perceber melhor: “Um pouco como o seu Corinthians…”

Ontem à noite, lembrei-me bem daquela conversa com Lula.

A síndroma de Corvelo

Foi há umas horas. Tinha acabado de jantar no restaurante da Casa Fernando Pessoa, convidado por um grupo de antigos Auditores de Defesa Nacional, que pretenderam ouvir-me e conversar sobre os equilíbrios geopolíticos contemporâneos. Foi uma agradável ocasião, com gente sabedora e interessada.

Saí pela noite de Campo de Ourique e decidi ir apanhar um táxi no Jardim da Parada. Podia ter regressado a casa a pé, a distância não era muita, mas ainda conservava uma memória, menos confortável, do que, há 48 horas, se tinha passado comigo no Porto. “Lessons learned”, como também se diz em linguagem militar.

Passei junto à esquina da Livraria Ler, olhei lá para dentro e reparei na mesa com livros. Lá estavam quatro exemplares, bem à vista, do meu livro “A Cidade Imaginária”, que a Biblioteca Municipal de Vila Real há dias publicou. Senti, no instante, uma espécie de “déjà vu”, mas não percebi bem o que era. 

Fui caminhando para o táxi e, logo que entrado nele, saiu-me um sorriso que, creio, o motorista, no banco da frente, não terá notado. Eu estava a rir para mim mesmo, quase a rir-me de mim mesmo. De quê? De repente, lembrei-me do “flash” na minha paragem em frente à montra da Ler: era o Artur Corvelo!

Quem é o Artur Corvelo? É a figura central do romance “A Capital”, de Eça de Queiroz, em que há uma cena em que ele vai a uma livraria onde tinha colocado o seu livro de poemas “Esmaltes e Jóias”, folheia um exemplar, decide comprá-lo e pergunta, “com ar distraído”: “Tem-se vendido muito disto?”, para ouvir o empregado, indiferente, a responder: “É o primeiro”. 

O Eça sempre surge nas esquinas da minha memória e da minha vida. Neste caso, justificadamente: esta quinta-feira, 16, antes de um jantar no Grémio Literário, eu e o meu colega Luís Filipe Castro Mendes vamos falar do nosso também antigo colega José Maria Eça de Queiroz, um homem grande na memória daquela casa. Ele tratará do diplomata que Eça de Queiroz foi, eu direi alguma coisa sobre o modo como escritor observa, na sua obra, os diplomatas e a diplomacia. 

O Grémio fica situado numa rua paralela à da Livraria Férin. Depois do jantar, pode bem ser que passe por lá, para olhar a montra. Mas não, o meu livro não foi posto ali à venda. Nem sequer irei encontrar lá o “Esmaltes e Jóias”, uma obra bem conhecida mas que, curiosamente, nunca foi publicada. 

Que mundo! Isto já não é o que era, essa é que é Eça! 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

A descentralização e a demagogia

A colocação em cidades fora de Lisboa de organismos que foram originalmente criados na capital, onde quem lá trabalha organizou a sua vida e da sua família no pressuposto de que ali era o seu destino de vida, é algo que tem muito de artificial e demagógico. Isso é válido para o Infarmed como o é para o Tribunal Constitucional.

Pense-se nessa possibilidade quando houver novas entidades a criar.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Pela noite do Porto



Quem conhece bem o Porto deve ficar espantado: sair de um jantar, perto da rotunda da Boavista, bem depois das onze da noite, e ter a insana ideia de ir a pé até um hotel perto da estação de Campanhã é, de facto, “to fish for trouble”. E quase foi, mas lá iremos.

Há dias, um amigo estava a jantar, por aqui, na esplanada do “Wish”, na Foz, e, pelo telefone, para Lisboa, disse-me que estava a aproveitar uma das “cinco noites únicas” que o Porto tem por ano. Há pouco, pareceu-me que só restavam três outras: aquela também era uma noite magnífica, a não perder.

Eu saía de um agradabilíssimo jantar com um velho amigo, depois do bife na frigideira do “Convívio”, ali em frente ao Tuela, que o Alberto, palavra segura da casa, me tinha prometido de uma carne memorável (e era). Deu-me então na ideia ir andando pela avenida da Boavista, em direção ao “Campo”, depois de ter passado a curva do Brasília.

(Alguns “soit-disant” conhecedores do Porto dirão: está enganado! Isso já é Rua da Boavista, dado que a Avenida da Boavista é a artéria que parte da rotunda para o Castelo do Queijo. Pois está equivocado quem assim pensa: a parte mais larga, em frente ao antigo hospital militar, ainda (ou já) é Avenida da Boavista. Aprendam, porque eu não duro sempre!)

Fui então andando até à esquina do Café Diu (ainda terá, lá dentro, como acontecia no Estrela d’Ouro, na Rua da Fábrica, o marco do correio embutido na parede? Não deu para ver). Virei para Cedofeita, ainda andei por ali à procura da antiga Adega da Figueiroa, mas já não encontrei qualquer referência. (Era notável a voz anasalada do dono da tasca, óculos de fundo de garrafa, a clamar, regularmente: “Chamam ao telefone o doutor Camelo!” E lá se aproximava do telefone no balcão um cavalheiro que nunca tirei a limpo se era familiar de um pouso e mesa homónimos e bem estimáveis em Seia).

Olhei depois a subida da Álvares Cabral, onde tanto namorei, e, para o fundo, com a igreja de Cedofeita à vista, a descida da Sacadura Cabral (outro erro de alguns portuenses: a parte de baixo da rua, até Aníbal Cunha, tem outro nome). 

Iria mesmo até ao hotel, a pé? Se e quando me apetecesse, chamava um Uber (já tinha apanhado dois, nesse dia que acabava, sempre conduzidos por mulheres!) Até ver, ia andando.

Cedofeita, essa, estava quase deserta. O alfarrabista desapareceu, o espaço do Café Bissau está irreconhecível. Ninguém andava na “minha” Torrinha, idem nos Bragas, o mesmo no Breyner e na “minha” Miguel Bombarda (digo “minhas” porque vivi nas duas). Admirável era ver que passavam mulheres jovens, sozinhas, àquela hora. 

Carlos Alberto mantinha grande animação e soava um “restolho” saudável dos lados do Piolho. Passei pela porta do Progresso, de onde parece que já saiu o nome. Meti por Sá de Noronha e desci os Clérigos até à Praça, observando, no caminho, a Galeria de Paris já cheia de gente. A vibrante noite do Porto está a regressar, e ainda bem! Maldita pandemia!

Deu-me coragem para subir a Rua 31 de Janeiro (intimamente, sempre lhe chamei Santo António, embora sabendo que foi a ditadura que a crismou com o nome do santo lisboeta, tentando apagar a memória dos heróis de 1891). O declive não ajudava, mas o meu “novo” joelho sim! Irreconhecível, por ali, está a antiga Bertrand. Intocado, felizmente, o belíssimo edifício da Caixa Geral de Depósitos. Mas já não consegui descortinar o Morgado (a cuja porta passei horas, à espera de compras de moda feminina) e o Mercado Filatélico (quando isso me interessava imenso).

(Uma nota, para que não restem equívocos: que não se presuma por aqui a menor nostalgia! O Porto está muito diferente do que o conheci, mas para bem melhor! Era uma cidade cinzenta, fechada, paroquial. Hoje é uma urbe viva, cosmopolita, com muito mais graça. Recordar o passado é apenas uma forma de sublinhar o que a cidade mudou, para diferente, felizmente).

Na Batalha, olhei, como sempre me não canso, a belíssima igreja de Santo Ildefonso, bem iluminada. Segui pela rua com o mesmo nome até aos Poveiros, pelas traseiras do clássico Café Santiago, até à zona onde ficava o Transmontano (onde, em tempos, acabei muitas noites, mas cujo edifício já não identifiquei). Passei depois a São Lázaro (onde foi um “clássico” geracional observar a saída das “pequenas” do Esperança) e segui pela Rodrigues de Freitas até ao início da Rua do Heroísmo, onde fica o Museu Militar e consta que vai haver um Museu da Resistência (espero bem que ainda antes do museu ao ditadorzeco de Santa Comba).

Logo no dia em que a máscara deixou de ser obrigatória, achei estranho encontrar com ela, uma de cada lado da rua, duas figuras, cosidas com as paredes, prestando-me “guarda de honra”, no início do Heroísmo. O meu hotel estava a 100 metros, mas esses iam ser, afinal, os 100 metros essenciais do meu percurso…

Displicente e propositadamente, parei e dei-me ao luxo de fotografar, com calma, o Museu Militar, ouvindo então de um deles: “Não se pode fotografar isso, é militar!” 

Avancei, com assumida “autoridade”, respondendo, sem os olhar: “Eu posso! Sou inspetor da Judiciária!” E fui andando, rua adiante, sem trânsito, sempre pelo meio da via. No instante (obrigado, Francisco José Viegas) tinha-me valido a memória de saber que, muito perto dali, na Rua do Barão de Nova Sintra, “vivia” Jaime Ramos, o “inspetor da Judite”, dos policiais da Invicta. Meu “colega”, está bem de ver! Isso fez-me ganhar uns preciosos segundos. O hotel estava já quase ali, mas eu sabia que ainda ia ser necessário tocar à campainha e esperar. Um pouco adiante, havia uma esquadra da PSP, mas podia estar “fechada”, sei lá! Um dos figurões, pelo passeio, ia-me acompanhando, mandando umas bocas. Parei, enfrentei-o e, a alguma distância, fotografei-o com o iPhone e disse, alto: “O 112 já vem aí”. O tipo estacou, ter-se-á assustado e, num tom apressado, caminhou de volta para o início da rua. Aproveitei para entrar no hotel, onde vim beber uma cerveja, no final da qual estou a relatar-lhes isto.

Boa noite! 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Protocolo


Parece fácil, mas não é. Quase quatro décadas de vida diplomática ensinaram-me a “ler” melhor estas coisas. Montar, coordenar e dirigir, durante vários dias, a cerimónia das exéquias de uma figura de Estado é um trabalho que exige extrema sensibilidade, rigor e muito bom senso. Se alguma coisa tivesse falhado, se houvesse algum incidente ou um percalço inesperado, teria sido um “aqui d’el-rei”. Como tudo se passou exemplarmente, não é “notícia”.

O modo como o Protocolo de Estado, sedeado no Ministério dos Negócios Estrangeiros, sempre se tem comportado nestas ocasiões, que só por equívoco se pode pensar serem iguais umas às outras, quanto mais não seja pelo modo diferenciado como as famílias da pessoa a homenagear legitimamente pretendem influenciar a “liturgia” dos atos, é um atestado de imenso profissionalismo.

Quero deixar aqui, publicamente, uma palavra de grande respeito e gratidão, como português, à embaixadora Clara Nunes dos Santos, chefe do Protocolo de Estado, e a toda a sua equipa.

Silêncio!



Por que diabo temos de ouvir conversas das outras pessoas no comboio? Será que ninguém diz a esta gente que é uma falta de respeito pelos outros estar a incomodar quem trabalha ou quer descansar? Em países com consciência coletiva mais cívica chega a ser obrigatório desligar os aparelhos. Por cá, é o que se vê!

Começa a semana

 


domingo, 12 de setembro de 2021

Meia dúzia de histórias com Jorge Sampaio - a livraria


2001. “Diferente, diferente, é uma livraria que conheço no Upper West Side! É próxima da universidade de Columbia e um bocado “esquerdalha” “, disse eu a Sampaio. Falava-se, naquele dia, da possibilidade de dar um “salto” a uma boa livraria.

Jorge Sampaio, como presidente da República, estava de visita a Nova Iorque, onde eu era embaixador junto das Nações Unidas. Alojado na residência onde eu vivia, tínhamos, nesse dia, umas horas livres.

Os livros estavam, aliás, a marcar aquela viagem. Na véspera, eu tinha convidado para jantar em minha casa o então recente Prémio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, que conhecia de um grupo de debates que ambos integrávamos e que reunia na Grécia, uma vez por ano, animado por George Papandreou. Joe tinha trazido a Sampaio, fazendo ali mesmo uma dedicatória para o seu filho, André, o à época muito badalado “Globalization and its Discontents”. Imagino que o André ainda tenha o livro.

A sugestão de ir ao “supermercado” de livros velhos que era o “Strand” não o tinha mobilizado. Também a ideia de visitar uma “Barnes & Noble”, embora um pouco mais atrativa, perdia força perante a hipótese de um salto a um comércio de livros mais heterodoxo - teoria política, sociologia, relações internacionais, “current issues”, etc. É que eu tinha-lhe explicado que conhecia bem essa livraria, que distribuía o “Dissent”, uma revista de pensamento político alternativo de que era assinante e a que ele achara graça.

“Vamos a isso! Monte lá essa operação!”. Avisei o pessoal do nosso protocolo que foi tratar com a segurança americana, a qual, de manhã à noite, acompanhava o nosso presidente, trazendo nas lapelas, bem à vista, em irónico contraste com o seu nome, uma chapola dizendo … “Secret Service”! Decidimos a hora e preparámo-nos para a jornada, que implicava atravessar a ilha de Manhattan, de um lado ao outro.

Minutos depois, fui chamado: os americanos perguntavam se queríamos “mesmo” ir àquela livraria. Eu confirmei. De óculos escuros, surgiu-me, minutos depois, um “director”, que queria ter “a word” comigo. Disse que a sua “central” considerava o lugar “suspeito” e que o presidente podia correr alguns riscos. Imagino o que deve ter pensado quando eu lhe disse que, todos os fins de semana (estava a exagerar, claro), passava por aquela livraria e que fora eu a aconselhar o presidente a visitá-la. E que iríamos lá, com ou sem segurança.

E fomos. Foi então impressionante ver cada corredor da livraria, aliás não muito grande e nada glamourosa enquanto loja, invadido por um grupo reforçado de latagões de fato escuro, microfones e auriculares, perante uma escassa clientela siderada e os empregados da casa meio aturdidos. Tive que lhes dizer a verdade: estava ali o presidente de Portugal, que quisera conhecer o local, por recomendação do seu embaixador, que, por acaso, era eu. Abriram-se logo num sorriso, que voltei a encontrar nos meses seguintes em que por ali continuei a ir.

“Bela livraria, mas carota!”, concluiu Sampaio, à saída, passando um saco com aquisições ao senhor Baptista, o seu magnífico segurança vindo de Lisboa.

Meia dúzia de histórias com Jorge Sampaio - o botão


1998 ou 1999. As cerimónias de entrega de credenciais dos embaixadores estrangeiros passam-se no palácio de Belém, numa grande sala adjacente ao gabinete oficial do presidente da República (digo "oficial" porque, na realidade, o presidente não trabalha nesse gabinete). Durante o ato protocolar, o chefe do Estado tem a seu lado, mas um pouco mais recuado, o ministro dos Negócios Estrangeiros (ou, na frequente impossibilidade deste, um qualquer secretário de Estado, ou mesmo o secretário-geral, do MNE). Quem, em qualquer governo, passou por essa função na cerimónia sabe que deve colocar-se "sobre uma rosa" que existe no desenho da carpete.

A cerimónia é simples. O presidente recebe da mão do embaixador as chamadas "cartas credenciais" (um envelope com uma carta do chefe de Estado estrangeiro ao seu homólogo português, a "recomendar" o seu embaixador), passa-as de imediato ao membro do governo, que as "despacha", logo de seguida, para alguém do serviço do Protocolo, situado ainda mais atrás. Seguem depois para o gabinete oficial, onde os três, acompanhados pelo assessor diplomático de presidente, se sentam para uma conversa de alguns minutos.

Fiz essa "coreografia" várias vezes, ao longo de alguns anos, ao tempo em Jorge Sampaio era presidente. O traje para a cerimónia é o fraque. Com o tempo e com o corpo a ter tendência a avolumar-se, o meu fraque foi ficando cada vez mais apertado. Enquanto de pé, o único botão do fraque ainda fechava. Por isso, e de certo modo, constituía para mim um alívio o momento em que nos íamos sentar, já com esse botão desapertado. A partir daí, a sustentação do abdómen ficava a cargo do colete, este já com vários botões, que se usa sob o fraque. Mas, com o tempo, também o próprio colete foi ficando, progressivamente, mais justo e apertado. E como não podia ser desabotoado, estar sentado era também um tormento. Hoje posso dizer que aquela não era uma cerimónia que eu apreciasse excessivamente.

Numa dessas ocasiões, na receção a um embaixador de um país asiático, mal tínhamos acabado de nos sentar, enquanto o presidente dizia aquelas "niceties" iniciais ("Mr. Ambassador, it's a great pleasure to receive you in Portugal..."), antes de abordar algumas temáticas bilaterais, apoiado nas notas que os Negócios estrangeiros lhe tinham preparado, um dos botões do meu colete soltou-se, projetando-se em frente, mais de um metro. A conversa estacou por instantes. O embaixador, impávido, olhos em bico arregalados, cuidou de preservar um ar neutro, como se o caricato da cena não o tivesse tocado. Eu olhei, algo embaraçado, para um divertido Jorge Sampaio, que, se bem o conheço, deve ter dito qualquer coisa como "Mr. Secretary of State, these things happen!". O assessor presidencial, simpático e risonho, apanhou o botão e devolveu-mo, quiçá temeroso de que, se fosse eu a tentar apanhá-lo, acabasse por desencadear, fruto de uma pressão abdominal acrescida, uma temível "rajada" do resto dos botões a saltarem. Até ao fim da conversa, "fiz peito", sentado entre um presidente que me continuava a olhar bem disposto e um embaixador, muito asiático e compenetrado, que, nem por um momento, através de um simples sorriso, quis dar sinal de que comungava de uma qualquer leitura do ridículo que a situação a que assistira encerrava. Não seria por falha dele que as relações bilaterais seriam comprometidas...

Meia dúzia de histórias com Jorge Sampaio - Budapeste



1999, Budapeste, onde Jorge Sampaio cumpria uma visita de Estado à Hungria, a convite do seu homólogo Árpád Göncz.

Por esses dias, estavam iminentes os primeiros bombardeamentos da NATO sobre as tropas sérvias no Kosovo. A guerra ia explodir, em breve, ali ao lado. Os aviões iriam sobrevoar a Hungria, que ainda nesse ano iria integrar a NATO.

Num dos momentos do programa, eu havia acompanhado Jorge Sampaio a um encontro com o então primeiro-ministro Viktor Orbán, hoje presidente do país.

A conversa não foi fácil, quando, a pedido de Jorge Sampaio, fiz referência a alguns dos passos institucionais que a União Europeia exigia à Hungria, então candidata à adesão, e que esta resistia a fazer. Orbán mostrava-se frio, tenso, desagradável mesmo. Sampaio mantinha uma frieza protocolar, eu comecei a irritar-me.

A certa altura, a propósito dos anunciados bombardeamentos da NATO, Orbán falou da sua preocupação com as populações de origem húngara da Vojvodina, uma região da Sérvia. Eu disse perceber a sua inquietação, mas reagi ao seu bizarro conceito de “futuras populações NATO" com que qualificou esses sérvios, lembrando que a ditadura portuguesa tentara, sem o menor sucesso, utilizar um similar conceito extensivo para os habitantes das colónias africanas em guerra. 

Jorge Sampaio sorria levemente, feliz por ter podido delegar-me uma parte menos fácil da conversa. Orbán lançou-me um olhar duro. À saída, Sampaio perguntou-me: “Reparou bem nos olhos de Orbán?”, relevando a frieza do líder húngaro. Eu tinha notado bem.

À noite, Árpád Göncz ofereceu um jantar a Sampaio no majestoso parlamento húngaro. Sabia-se que as relações entre Göncz e Orbán não eram nada fáceis, por razões de política interna, mas, igualmente, por diferenças notórias de personalidade e de história política. Por contraste com Orbán, o presidente era uma figura suave, um homem de bom senso, com uma vida difícil nos tempos comunistas, da qual, contudo, falava com a superioridade de quem já colocara uma distância entre os traumas e o presente. Resistente na II Guerra Mundial, havia estado preso durante seis anos, depois da invasão soviética de 1956.

No final do jantar, como despedida, Árpád Göncz recebeu Sampaio em “petit comité”. A amizade e confiança que criara com o presidente português levaram-no a partilhar então alguns sentimentos de inquietação que o comportamento político do seu primeiro-ministro lhe causavam. Notava-se bem a sua angústia por não poder travar o que sentia ser a deriva autoritária para a qual a Hungria caminhava. Vi Sampaio ficar muito tocado por aquela cumplicidade e confiança. Duas décadas depois, o comportamento de Orbán só tem vindo a dar razões para as preocupações de Göncz, que morreu em 2015.

Meia dúzia de histórias com Jorge Sampaio - no Procópio


Não consigo precisar a conjugação de circunstâncias que proporcionaram a cena. Nem sequer o ano, que deve ter sido 1996 ou 1997.

Por uma qualquer razão, a minha mulher jantava com Maria José Ritta, com quem trabalhava. E como, por coincidência, eu também jantava nessa noite, noutro local, com Jorge Sampaio, já então presidente da República, alguém propôs que, no final desses dois jantares, convergissemos no bar Procópio, fazendo uma visita ao Nuno. O Nuno era o Nuno Brederode Santos, “titular” da Mesa Dois, a minha tertúlia de estimação. O Nuno, talvez o maior amigo de Jorge Sampaio, e vice-versa, ficou radiante com a ideia.

Notei que, na abordagem que fiz a Jorge Sampaio, embora ele tenha anuído à ideia, o senti um pouco contrafeito, o que quase me levou a desistir da iniciativa. Mas achei-a, ainda assim, meritória: levar o presidente da República ao Procópio era algo que tinha alguma graça! Sabia que Sampaio e a sua mulher, já tinham estado algumas, emboras raras, vezes no Procópio, mas eu nunca tinha estado com eles por lá.

Depois do jantar, que deve ter tido um contexto oficial qualquer, Jorge Sampaio deu-me boleia para o Procópio. E explicou-me, então, aquilo que eu percebera ser a sua relutância à minha ideia: “ Como sabe, eu sou muito crítico da forma como o Nuno, nesta sua vida diária naquele bar, vai arruinando a sua saúde. Tenho-lhe feito sentir isso, quase sempre de forma indireta, ao longo dos anos, com o “sucesso” que se tem visto. É por isso que ir visitá-lo “ao local do crime” me faz alguma impressão, porque pode parecer, desta forma, que estou como que a desculpabilizá-lo. Mas, pronto!, uma vez não são vezes!”. 

E lá fomos. Foi uma noite muito agradável, com a família Sampaio a sair cedo. As noitadas eram mais o estilo de quem ficava pela Mesa Dois.

Meia dúzia de histórias com Jorge Sampaio - Gdansk


1998. Uma das várias viagens internacionais que, em representação do governo, acompanhei Jorge Sampaio foi à Polónia. Era uma visita de Estado, com uma deslocação ao campo de extermínio de Auschwitz. Tinha estado anos antes nesse local que a História tornou trágico, mas Sampaio não o conhecia e, sabendo-se a sua propensão para a emoção, pode imaginar-se o seu estado na ocasião.

Nem tudo foram momento desta natureza, numa visita muito agradável, com deputados de vários partidos. O partido “Os Verdes” tinha então, na Assembleia da República, duas deputadas: Heloísa Apolónia e Isabel de Castro. Recordo-me da surpresa que atravessou a mesa de um almoço, quando eu, voltando-me para Isabel de Castro, lancei a frase: “A sua vinda nesta delegação, Isabel, é um erro de casting!” Jorge Sampaio, como toda a gente, olhou para mim com um ar de estranheza. O que é que eu queria dizem com aquilo? Tive de ser rápido a explicar, claro. Então não era mais lógico que “Os Verdes” enviassem Heloísa “à Polónia”?!

Nesse mesmo dia, ainda em Gdansk, a capital da Pomerânia polaca, onde nasceram Schopenhauer e Günter Grass, ao olharmos o programa da visita, demo-nos conta de que ela não incluía uma passagem pelo histórico estaleiro Lenine, local onde, em 1980, Lech Walesa liderara a greve que abalou o regime comunista. 

(Devo dizer que então estranhei - e disse-o - que Lech Walesa não tivesse sido associado a nenhuma das cerimónias oficiais, como antigo presidente do país. A minha observação foi, contudo, recebida com uma explicação por parte dos nossos anfitriões: Walesa já não era então uma figura muito popular, a imagem "heróica" que dele sobrevive no imaginário oficial internacional não parece ser acompanhada internamente, um pouco ao jeito da de Gorbachev, na Rússia de hoje. "Vocês convidam o Otelo para as cerimónias oficiais?", perguntou-me ironicamente um amigo polaco com alguma memória lusitana. Anos mais tarde, tive oportunidade de, finalmente, jantar ao lado de Lech Walesa, em Varsóvia.)

Nesse dia, Sampaio e eu próprio não queríamos deixar de passar por aquele marco político. E lá se adaptou o programa ao desejo português. Parece-me que ainda estou a ver a cara sorridente de Jorge Sampaio, no fim dessa escala, voltando-se para mim, no autocarro, à distância, num tom de formalidade brincalhona e cúmplice, dizendo: “Doutor Seixas! Nós não podíamos perder esta, não era?”

Meia dúzia de histórias com Jorge Sampaio - a reunião


1995. Naquele tempo, o “Expresso” saía aos sábados. E, porque era sábado, bem ao final da manhã, eu preparava-me para ir à tabacaria, na zona do Campo Pequeno onde então vivia, recolher aquele e outros periódicos. Abri a porta do meu 5° andar esquerdo e, como às vezes acontecia, dei de frente com a já idosa empregada dos meus vizinhos que moravam no direito, uma simpática senhora com quem vulgarmente falava do tempo e das avarias do elevador. 

“Esteve aí o senhor presidente, à sua procura, logo de manhã!”, disse-me. O “presidente”? O presidente da República era Mário Soares e não era minimamente plausível que ele viesse a minha casa. “Qual presidente?”, inquiri, surpreendido. “O presidente da Câmara, o Dr. Jorge Sampaio”. 

Fez-se-me logo luz! Eu tinha combinado com Jorge Sampaio que ele viesse a minha casa à “nove e meia”. Só que não disse “da noite”, no pressuposto que ele estaria ciente de que as manhãs dos sábados eram sagradas para o meu sono. Sampaio entendeu que era “da manhã” e, britânico nos costumes, lá tinha estado a essa hora, pontualmente. Eu não tinha ouvido o toque da campainha. Telefonei-lhe, de imediato, rimo-nos do equívoco e, pelas “vinte e uma e trinta” desse mesmo dia, ali regressou ele, de novo. 

Para quê? Para a primeira de várias reuniões que o já candidato à presidência da República queria ter sobre temas de política externa, para as quais tinha pedido que fosse mobilizado um grupo de diplomatas da sua confiança pessoal. Ali estavam Luís Castro Mendes, José Filipe Morais Cabral, José Freitas Ferraz e eu. A nós, se juntava Carlos Gaspar, professor universitário, que já tinha sido assessor de Mário Soares. 

Sampaio tinha-nos dito que, para essas reuniões, não queria papéis, só ideias. O objetivo era poder ter connosco um “brainstorming” regular sobre as grandes questões internacionais, cruzando perspetivas, alvitrando cenários de possível evolução. 

Ficou sempre muito claro que Jorge Sampaio estava bem atento ao mundo, que a nossa contribuição apenas podia servir para algum refrescamento de ideias, em particular sobre alguns dossiês mais específicos e técnicos. Não tenho presente quantas destas reuniões tiveram lugar, mas guardo-as numa muito boa memória.

Hoje


No dia de hoje, apetece-me começar com esta fotografia.

sábado, 11 de setembro de 2021

A História está sem pressa


No dia 11 de setembro de 2001, cerca de oito meses decorridos desde a sua entrada em funções como presidente, George W. Bush ainda não se dignara nomear um embaixador para a ONU - mas sabia-se que, quando o fizesse, essa pessoa não iria ter um estatuto de membro do Gabinete, o que é sempre um sinal claro da falta de interesse de uma administração dos EUA pela instituição central do mundo multilateral. Numa ciclotimia comum na América, a um presidente atento ao diálogo com os parceiros, sucedia-se um outro mais propenso ao autismo na afirmação do poder.

Nos corredores do palácio de vidro de Nova Iorque, por onde andava nesse tempo de 2001, como embaixador português, a vontade americana era ainda pouco visível e explícita. Os meus colaboradores, que frequentavam as várias comissões, diziam-me que os seus contrapartes americanos viviam de ordens pontuais vindas diretamente de Washington, sem a menor autonomia e sentido de coerência dado pela Missão ali presente.

Recordo-me que, no tocante às questões da paz em Angola e em Timor, que nos preocupavam, estávamos a ter grande dificuldade para perceber se haveria algum novo rumo em Washington e de que modo ele se objetivaria em decisões concretas. Esperava-se, claro, uma agenda muito mais conservadora, mas era imperativo saber quanto ela o seria e qual acabaria por ser o papel da ONU nesse contexto. No fundo, todos aguardávamos, com grande curiosidade, o discurso que George W. Bush iria fazer na Assembleia Geral da ONU, que teria o seu início no dia 12 de setembro.

Mas ainda estávamos a 11.

Eu tinha saído de casa a tempo da reunião semanal de coordenação que os embaixadores da UE tinham todas as terças-feiras, num prédio em frente da ONU.

À entrada, Jean-David Levitte, o meu colega francês, disse-me saber que havia um incêndio numa das torres do World Trade Center. Isso explicava uma nuvem escura comprida, que ia muito alta e que eu observara, do carro, no caminho para ali. Segurámos a porta do elevador para o colega britânico, Jeremy Greenstock, que se aproximava e que sabia um pouco mais: um avião fora contra uma da torres.

Não me ocorreu então, com toda a certeza, que quase trinta anos antes, em dezembro de 1972, tinha visitado, como turista, uma das Torres Gémeas, com a segunda ainda em construção. E, seguramente, também não me passou no momento pela cabeça que, três meses antes daquela manhã, com o meu pai, então com 91 anos, estivera no topo de uma dessas torres. O que me veio à memória, disso tenho lembrança, é que, não muito tempo antes, uma avioneta fora de encontro, por acidente, a um edifício, algures em Itália. Poderia tratar-se de um caso idêntico.

Não era. Minutos depois, connosco já dentro da sala de reuniões, fomos chamados para ver novas imagens televisivas, que revelavam que a segunda torre tinha sido atingida por outro avião. Eram atentados, claro. Já não sei quanto tempo depois, surgiu a notícia de um outro avião despenhado no Pentágono. Que mais estaria para acontecer?

Entretanto, Nova Iorque foi mudando. As Nações Unidas foram evacuadas, a cidade foi encerrando, os sons das ambulâncias e os carros de bombeiros, que sempre fizeram parte do cenário sonoro da cidade, foram-se tornando mais angustiantes. As torres, uma após a outra, colapsaram. Nesses momentos, em que se formou a nuvem de pó que iria pairar por muito tempo pelo sul de Manhattan, espalhando mais tarde um cheiro ácido pela cidade, a dimensão real da tragédia abriu-se definitivamente para nós.

Por uma cidade em estado de sítio, fui, a pé, para a nossa Missão, ali perto. As pessoas, apressadas, olhavam-se, caras aturdidas. Mandei o pessoal para casa. As escolas estavam a fechar, as pontes de acesso à ilha de Manhattan iam ser encerradas.

De Lisboa, telefonou-me Jorge Sampaio, presidente da República. Para saber como estávamos. E o secretário-geral do MNE, João Salgueiro. A queda das torres afetara um centro vital de comunicações. Recebíamos chamadas, mas não conseguíamos ligar para o estrangeiro. Aproveitei um telefonema de uma jornalista do “Expresso”, cujo nome não anotei, para lhe pedir que ligasse ao meu pai, em Vila Real, para o sossegar. Fê-lo, ainda hoje não sei quem foi, mas agradeço-lhe muito, vinte anos depois.

Quem fizera tudo aquilo? Ainda antes dos atentados serem reivindicados, quase ninguém tinha dúvidas de que mão radical islâmica estava por detrás da barbárie. O ódio à América era imenso e só um fanatismo sem limites podia ter causado aquela aventura. De uma coisa havia a certeza: nada seria igual, a partir daí. A raiva, o desespero, o desejo de vingança, perante aquela infâmia, viriam ao de cima, com toda a força.

Quando, dias depois, Bush foi falar às Nações Unidas, ao olhar para ele, sentado no meu lugar, por detrás da placa de Portugal, não fiquei com a menor dúvida. Era uma outra América que aí vinha. O mundo do “não vale tudo” tinha sido posto definitivamente de lado. Valeu tudo: liberdades públicas, discriminação étnica, Abu Ghraib, torturas, Guantanamo, Iraque, centenas de milhares de mortos. Foi tudo em vão? Não foi, mas não me consta que os ódios se tenham atenuado, a “rua árabe” não sossegou, as suas “primaveras” invernaram de vez, no Afeganistão as coisas são hoje o que são.

Se o 11 de setembro foi o “dia zero” para um outro mundo, estaremos assim tão longe dele, vinte anos e milhões de gastos e de sofrimentos depois? A História anda devagar, olhando para Cabul, parece mesmo estar sem grande pressa.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Jorge Sampaio

(Foto de João de Vallera)

Há uma imagem que me ficou para sempre. Foi numa enfermaria do hospital dos Capuchos, há pouco mais de quatro anos. Nuno Brederode Santos aproximava-se, já inconsciente, do fim da vida. Jorge Sampaio entrou e, ao final de uns minutos, emocionado como ele ficava com as coisas que o tocavam, pediu para ficar a sós com aquele que foi talvez o seu maior amigo. Por longos minutos, deixámo-los ali, numa conversa silenciosa.

Pensei então que aquele encontro significava, verdadeiramente, o fechar de ciclo de uma geração que, não sendo exatamente a minha, mas a que eu me tinha ligado fortemente e que me tinha marcado para sempre. Um corpo de ideias e um grupo de pessoas em cuja atitude e forma de estar na política e na vida eu me revia muito. E que tinha em Jorge Sampaio o seu óbvio expoente.

Há não muito tempo, escrevi isto num jornal: “Sampaio é uma figura muito rara no cenário político português. Nunca o vi vacilar em matéria ética, nunca lhe notei nenhuma transigência em termos de observância dos princípios que a si próprio se impunha para estar na vida pública. Às vezes, surpreendi-me com a constatação de que convivia, com demasiada naturalidade, com o facto de outros não serem assim. Alguns viam nessa sua atitude uma certa condescendência, a implícita afirmação de uma superioridade moral. Não creio tratar-se disso. Sempre interpretei essa postura de Jorge Sampaio como a manifestação de uma saudável distância face àquilo a que os franceses chamam a “politique politicienne”, que entre nós se traduz lindamente por “política politiqueira”.

Acompanhei com atenção, primeiro a alguma distância, depois mais de perto, a vida cívica de Jorge Sampaio. Não o fiz por mera curiosidade, mas muito mais por, desde há muito, ter sido seduzido pela sua forma única de estar na praça política. Nem sempre estive de acordo com opções que tomou, critiquei escolhas que fez, mas, sem a menor hesitação, posso hoje dizer que me revejo largamente naquilo que soube construir, enquanto figura política. A decência (gosto muito da palavra e acho que se lhe aplica como a poucos) que imprimiu à sua forma de atuar soube granjear-lhe uma genuína admiração por parte de gente de quadrantes muito diversos, às vezes contrastantes. Estou certo que História ser-lhe-á justa, tanto mais que se há uma marca que se lhe cola à imagem, desde sempre e para sempre, essa é a de um apurado sentido de serviço público, feito de uma dedicação permanente à causa da democracia e da solidariedade coletiva. A geração a que pertenço fica a dever-lhe um raro legado de ética e integridade política.”

Não tenho muito mais a acrescentar, na hora da sua morte, a este bosquejo cívico. Mas posso e devo somar a isso o sentimento de sincera amizade que, ao longo de todo o tempo que privei com Jorge Sampaio, com ele criei, extensivo à sua família, à sua mulher Maria José, à Vera e ao André, no que sou plenamente acompanhado pela minha mulher, que de todos se sentiu sempre próxima. Ambos devemos a Jorge Sampaio, ao longo dos anos, gestos de imensa simpatia, de grande confiança, de forte cumplicidade. A sua morte, se bem que anunciada, deixa-nos uma imensa tristeza. 

(Ilustro este texto com uma fotografia de Jorge Sampaio da autoria de um seu grande amigo, o embaixador João de Vallera)

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Sousa Tavares


Não sou amigo de Miguel Sousa Tavares. Conhecemo-nos socialmente, a primeira vez creio que em Brasília, em casa de uma amiga comum, a segunda num jantar com um escritor estrangeiro, aqui por Lisboa. Um dia, fui à TVI, a um telejornal, falar com ele sobre Biden e Bolsonaro. Creio que foi tudo. Fica este “disclaimer” para dizer, com à-vontade, o que, a seguir, vou dizer.

O Miguel Sousa Tavares jornalista é uma figura que, há muito, leio com prazer e, em especial, com proveito, desde os tempos da “Grande Reportagem” à sua página no “Expresso”. Mais recentemente, tenho-o visto pouco na televisão, meio que, desde há um ano, frequento com uma imensa parcimónia. 

Longe de mim, quando o leio ou oiço, estar sempre de acordo com ele! Mas reconheço-o como alguém que pensa a realidade portuguesa com um olhar culto, informado e empenhado. Além de que Sousa Tavares, mesmo quando comete erros, me pareceu sempre genuíno e sério, sem agendas escondidas nem sendo portador de recados de ninguém.

Pode não se apreciar o seu estilo enfático, às vezes quase sobranceiro, outras muito militante de certas causas que parece serem quase “teimas” pessoais. Muitas vezes, nessa frontalidade destemida para afirmar coisas, até em alguma ligeireza menos desculpável de certas abordagens, faz-me lembrar o seu pai, Francisco Sousa Tavares, uma figura muito interessante, um homem que tinha a polémica à flor da boca, e que igualmente correu os riscos de quem teimava em pensar, às vezes com erros e injustiças, pela própria cabeça.

Miguel Sousa Tavares tem algumas “manias” e ódios ou amores de estimação com que às vezes embirro, que me irritam - e imagino que irritem muitos de quantos por aqui me leem. Mas gostava de deixar bem claro que, correndo os riscos que qualquer “tudólogo” sempre corre, ele esteve sempre a anos-luz, em matéria de qualidade, de alguma mediocridade que hoje pensa estar a ilustrar-se, quando fala por aí, às vezes do que não sabe nem estudou nem deu mostras de ter percebido, em colunas e comentários. 

Por isso, reconhecendo o direito a Miguel Sousa Tavares de se ter cansado de tanta exposição mediática e ter decidido arrumar as botas da escrita precária para se dedicar àquilo que também faz muito bem - a escrita literária - quero dizer que não fico feliz com a sua saída do espaço público. E que, decididamente, não me coloco ao lado dos que aplaudem a sua “reforma” do jornalismo. Mas, tomada que foi a sua decisão, só posso desejar que ele se sinta mais feliz assim. Afinal, a vida é dele!

FLAD


A convite da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, debati hoje com António Vitorino, numa conversa posteriormente alargada a convidados, transmitida pelas redes sociais, o 11 de Setembro, as suas decorrências e antecedentes. Tivemos oportunidade de refletir sobre o modo como a América e o mundo mudaram por virtude daqueles acontecimentos, sobre o estado das coisas no Afeganistão depois da saída dos americanos, sobre a posterior aventura no Iraque e, muito em particular, sobre o modo como o islamismo radical evoluiu desde então. E também olhámos para o futuro do combate ao terrorismo. Uma bela iniciativa e um excelente momento de análise, para celebrar um dia muito triste para o mundo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

“A Arte da Guerra”


Esta semana, naturalmente, o “A Arte da Guerra” é dedicado ao 11 de Setembro. Pode ver e ouvir clicando aqui: https://fb.watch/7UO8uDOKD0/

Adriano


Lembro-me muito bem da primeira aula a que assisti, tendo Adriano Moreira como professor. Foi em outubro de 1968, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU), de que Adriano Moreira era diretor. Caramba, foi já há 53 anos! E Adriano Moreira fez agora 99 anos.

Adriano Moreira era, à época, um nome de que muito se falava - mas sobre o qual, por razões que a conjuntura tornava óbvias, muito pouco se escrevia. Dias antes, Marcello Caetano fora nomeado pelo presidente Américo Tomaz para a chefia do governo, em substituição de Salazar, afastado por doença.

Nos conciliábulos do regime e não só, Adriano Moreira havia sido muito citado como uma possível opção, mas os equilíbrios que se refletiram na decisão do presidente da República não o favoreceram. À época, falava-se nas resistências que o seu nome suscitaria em certos círculos militares, embora outras opiniões fossem no sentido de que outras tendências castrenses desejavam vê-lo em S. Bento. A verdade é que, no saldo decisório final, Adriano Moreira ficou arredado da sucessão de Salazar, em benefício de Marcelo Caetano. E, este, logo que pôde, pela mão do ministro da Educação José Hermano Saraiva, herdado da equipa governativa que o velho ditador ainda entronizara pessoalmente no mês de agosto anterior, cuidou em afastá-lo da direção do ISCSPU, nos primeiros meses de 1969.

Para os estudantes, esta evidente conflitualidade com Caetano dava a Adriano Moreira uma auréola de alguma "oposição", que se vinha a somar à imagem vaga, que alguns "connaisseurs" espalhavam à boca pequena, dos seus tempos de jovem advogado, em que chegara a estar detido pela polícia política, pela sua ação de defesa dos interesses da família do general Godinho, cuja morte misteriosa na prisão, na decorrência de uma tentativa de golpe militar nos anos 40, fazia parte das mitilogias recorrentes da Oposição.

Não parecia, assim, estranho que o movimento estudantil dentro do ISCSPU, que se vira provocado pela "não homologação" ministerial da lista vitoriosa nas eleições desse ano para a associação académica, acabasse por se aliar taticamente a Adriano Moreira. Como membro que fui dessa direção associativa, tenho uma memória muito viva da gestão dessa "aliança", que teve em Narana Coissoró, um fiel escudeiro de Adriano, uma figura proeminente. Recordo também a dificuldade que alguns de nós tínhamos em ver a nossa ação articulada com a agenda política e pessoal de um antigo ministro de Salazar, pelo "risco" de estarmos a ser instrumentalizados por uma das fações dentro do regime.

Adriano Moreira era um professor brilhante, com uma exposição atraente, que nos gerava vontade de ir mais longe naquilo que nos transmitia. Começava as aulas em voz muito baixa, para desfazer as conversas residuais na sala. Ao falar, circulava o olhar, fixando-se, por instantes, em cada um de nós, o que dava a impressão de se nos dirigir individualmente. Como a política era, como dizem os franceses, o seu "fond de commerce", nós distinguiamo-la sempre por detrás de todos o seus comentários, onde o esquerdismo de alguns procurava descortinar tudo o que se assemelhasse a odor a heterodoxia.

Adriano - era assim que a ele nos referíamos, entre nós - tinha a rara habilidade de ir suscitando uma controlada polémica política entre os alunos. A minha antiga colega Maria João Bustorff lembrava-me, há tempos, o modo como ele estimulava debates entre mim e o António Marques Bessa, cada um de nós situado em lados bem antagónicos do espetro político, em confrontos nas aulas que sempre tinham temas do programa académico como motivo formal. Belos tempos! (Um abraço para a Maria João e para o António!)

Pouco a pouco, nessas aulas, íamos sendo introduzidos na matriz do pensamento de um homem que, um dia, Salazar escolhera, um tanto inesperadamente, para a pasta do Ultramar, na sequência da rebelião angolana de 1961, mas cujo espírito reformista o regime não conseguira acomodar e cuja frontalidade acabaria por conflituar com o poder administrativo do então governador-geral de Angola, general Venâncio Deslandes, o que levaria o chefe do governo a tomar um dia a decisão de ver-se livre, simultaneamente, dos dois.

Adriano Moreira não era um proselitista deliberado, não cuidava em endoutrinar-nos, não veiculava uma ideologia clara. Era um questionador do quotidiano, alguém que problematizava e nos obrigava a refletir. Sentiamo-lo, claramente, de um "outro lado" que não era o nosso, mas, estranhamente, a suavidade do seu estilo não provocava uma antagonização aberta. E isso, às vezes, como que nos enfurecia interiormente: nós fazíamos parte de uma geração maniqueísta e Adriano Moreira furava essa cómoda dualidade bipolar.

Com o 25 de Abril, o radicalismo saneador dentro do ISCSP (que, entretanto, perdeu o "U", como o país também perdeu o "ultramar"...) fez com que Adriano Moreira se visse obrigado a ir fazer vida no Brasil. Foi uma decisão estúpida e sem sentido, contra alguém que, não obstante as críticas que se pudessem fazer ao seu percurso político anterior, tinha tido sempre um comportamento exemplar face aos alunos e à "nossa escola" (era assim que Adriano Moreira se referia sempre ao Instituto), que nela nunca perseguira ninguém (outros o fizeram, e sei pessoalmente do que falo) e a quem o ensino universitário português - e as Ciências sociais, muito em particular - bastante deviam.

Fiquei satisfeito quando esse seu afastamento chegou ao fim e tive o prazer de lho poder dizer, cara a cara, uma noite de 1979, na Gulbenkian. E gostei muito da sua resposta: "Fico contente de ouvir isso, particularmente vindo de si".

Adriano Moreira, depois do seu regresso de Portugal, envolveu-se na política democrática, sempre de uma forma elegante, sem chicanas nem grandes polémicas. Com naturalidade, a área democrática mais conservadora foi o seu espaço de expressão cívica. Porém, fê-lo sem posteriores "travestismos", sem saltitar em conúbios oportunistas, umas vezes com a esquerda, outras vezes com direita, como aconteceu com certos cataventos da história portuguesa contemporânea. Manteve, em paralelo, uma atividade académica intensa e, pela imprensa, continuou a espalhar um pensamento em matéria de relações internacionais com uma profundidade muita rara entre nós.

Ao longo dos anos, continuei a encontrar Adriano Moreira pelas esquinas da vida, nos diversos tempos profissionais que tive, tendo com ele colaborado em várias iniciativas e dele recebendo gestos de amabilidade e simpatia, que sempre cuidei em retribuir.

Há uns anos, Adriano Moreira publicou um livro com as suas memórias. Nesse seu reencontro com o passado, e embora se possam entender as razões por que o terá feito, Adriano Moreira ficou, na minha perspetiva, bastante longe da síntese de vida que seria de esperar de uma figura com a sua estatura. Senti por ali inesperados compromissos, de uma natureza idêntica àqueles que, no passado, o levaram, algumas vezes, ao desnecessário facilitismo que foi o rodear-se de gente que não estava ao seu nível, nomeadamente no mundo académico, mas também político.

Adriano Moreira tem uma qualidade - moral, humana, política e académica - que, a meu ver, se situa bastante acima do modo como serviu algumas das conjunturas em que esteve inserido. Daí que, sendo um hoje um senador muito respeitado e prestigiado, tenha tido um destino público que ficou manifestamente aquém de um lugar na vida portuguesa que, com justiça, poderia ter sido o seu.

Parabéns ao meu professor Adriano Moreira, por estes seus magníficos 99 anos.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Merkel


16 anos no poder. Em metade deles, não gostei nada da senhora. Na outra metade, reconheci que estava errado e percebi que era uma notável estadista. E como esta segunda opinião acaba por ser a última, para mim esta é que importa. E mais: já começo a ter saudades dela.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Campos Elísios


Jean Seberg já se foi há muito. O Herald Tribune já teve dois nomes depois. Os Campos Elísios, também eles, já não são o que foram. Hoje, foi-se embora Jean-Paul Belmondo. Nada disto é fácil.

Um sete de setembro diferente


De amanhã a um ano, em 7 de setembro de 2022, passarão 200 anos desde que, como reza a História, o príncipe dom Pedro terá dado o chamado “grito do Ipiranga”, a proclamação da vontade de independência da colónia do Brasil, território que o pai, o rei dom João VI, tinha deixado ao seu cuidado depois de regressar definitivamente a Portugal.

O “sete de setembro” é a data que o Brasil comemora como sendo o início da auto-determinação do seu futuro, libertando-se da tutela do poder de Lisboa. É, por ali, um dia que simboliza a unidade nacional, num país que é cioso da sua identidade própria e dos valores daquilo a que chama a “brasilidade”.

Porém, como acontece um pouco por todo o mundo com datas congéneres, este dia foi-se transformando, para a maioria dos cidadãos, num mero feriado, sem particular apelo popular, salvo um ritual desfile, quase sempre com escassa mobilização, que ocorre em Brasília, na presença do presidente.

Este ano de 2021, as coisas poderão ser diferentes.

O Brasil tem atravessado tempos de forte tensão política, que não será ousado dizer que tem como principal fautor um presidente da República que teima em identificar a sua sobrevivência no poder com um desígnio de interesse nacional, tendo vindo a gerar uma crescente tensão com outros órgãos de poder, nomeadamente com a área judicial, que está a colocar um sério desgaste à imagem do país pelo mundo.

Eleito num processo de polarização político-ideológica que ele próprio fez questão de nunca deixar atenuar, praticamente desde o dia do sufrágio, Jair Bolsonaro recheou o seu governo e a estrutura administrativa de topo de figuras militares, a maioria delas claramente saudosa do tempo da ditadura que as forças armadas protagonizaram entre 1964 e 1985. Com este presidente, os militares tornaram-se assim claros usufrutuários de interesses materiais, constituindo hoje um forte lóbi que se sente protegido pela continuidade do Bolsonaro. Este revela uma flagrante impreparação para o cargo que exerce, o que terá já sido constatado por muitos que nele votaram e que, entretanto, com ele se desiludiram. Nos dias de hoje, Bolsonaro é visto como uma figura caricata, aos olhos dos seus pares internacionais, o que não deixa de afetar a imagem do país a que preside.

As recentes decisões do Supremo Tribunal Federal de isentar, por falta de provas e por parcialidade nos processos de que foi alvo, o antigo presidente Lula das acusações que o impediram de disputar as eleições presidenciais de 2018, com evidenciação do artificialismo de muitas das acusações cumulativas que sobre ele impenderam, faz com que ele se torne hoje numa ameaça à recondução do atual presidente, no sufrágio de 2022.

Embora distante do quase unanimismo de apreço popular com que abandonou o poder em 2011, Lula, ao que revelam todas sondagens, pode vir a funcionar como um fator polarizador ganhador contra Bolsonaro. O mal-estar público contra este, expresso em manifestações um pouco por todo o Brasil, muito focadas na gestão caótica da pandemia que o seu governo titulou, aponta no mesmo sentido. A rejeição a Bolsonaro só não será maior porquanto muitos que lhe deram o seu voto em 2018 continuam a não se rever no antigo presidente e prefeririam uma “terceira via”, a qual, no entanto, parece não ter condições de se materializar.

O presidente não se dá, contudo, por vencido. Amanhã, 7 de setembro, pretende suscitar uma forte mobilização dos seus apoiantes, um pouco por todo o país. A escala desse movimento e, em especial, o modo como ele se processar, com a atenção concentrada na atitude das forças armadas e de outras estruturas de segurança, pode ajudar a perceber em que estado de normalidade se encontra, afinal, a democracia brasileira.

O 7 de setembro de 2021 pode, desta vez, não ser apenas uma data ritual.