quinta-feira, 24 de junho de 2021

A posição de Portugal

Vamos falar das coisas a sério, sem demagogias?

A Europa está indignada com o facto da Hungria ter aprovado legislação interna discriminatória, em matéria de orientação sexual. A Hungria de Orbán, com um desplante que só a garantia da impunidade permite, faz, há muitos anos, o que muito bem lhe apetece e, uma vez mais, demonstra que os mecanismos comunitários continuam a ser impotentes para travar uma deriva autoritária que coloca em causa as regras a que o seu país se comprometeu aquando aderiu à União. Veremos o que irá suceder neste caso, para além da retórica.

Não nos esqueçamos do comportamento indigno do Partido Popular Europeu ( PPE) - cujos partidos membros portugueses não me ocorrem agora - que, durante anos, pôs “paninhos quentes” nas atitudes atribiliárias de Orbán, que a ele pertenceu com a bênção permanente de quem põe e dispõe no grupo, a CDU de Merkel. Órbán, até por lá tem, em Budapeste, como assessor, um antigo secretário-geral do PPE, aliás um cidadão português que por cá ocupou funções num governo que também optei por esquecer. Foi curiosamente essa mesma pessoa que, a solicitação húngara, dirigiu a campanha da búlgara Kristalina Giorgieva, contra a candidatura de António Guterres a SG da ONU, em 2016. Também não consigo recordar o nome da personagem. Hoje, a minha memória está terrível…

Um grupo de países da União subscreveu, entretanto, uma declaração em que condena a atitude d Hungria.

Portugal, presidência em exercício da União até ao final do mês, declarou que estava em perfeito acordo com o teor dessa declaração - e esse é o aspeto político mais importante a ter em conta - mas que a não subscrevia, porquanto, enquanto presidência, teria de manter uma posição de “honest broker”, dado que mais de metade dos Estados membros também não surgiram a subscrever o texto.

Repare-se que não é claro se os Estados que não subscreveram a declaração se colocam ao lado da Hungria (o que é altamente improvável, para a esmagadora maioria) ou se consideram a forma ou a oportunidade do texto menos consentânea com a maneira como entendem que o tema deve ser tratado (o que é a hipótese mais provável). E isto tem de ser ponderado.

Achei perfeitamente adequada a atitude tomada pelo governo português.

Uma declaração desta natureza não é um documento com qualquer estatuto no ordenamento jurídico da União. É uma opinião, uma afirmação de posição, aliás muito equilibrada e correta. Estou seguro que o governo português, não tem a menor objeção ao texto, como já o afirmou. Mas posso perfeitamente perceber que, enquanto presidência, não se queira associar (mas apoie politicamente, o que, repito, é o mais importante) a um documento que divide a União ao meio. Repito, trata-se de uma tomada de posição de alguns Estados. Não subscrevê-la não tem o caráter de uma “abstenção” perante uma proposta de decisão em Conselho. Aí, seria imperdoável se Portugal não tomasse posição. E tenho a certeza que, se se chegar a esse ponto, a tomará sem hesitações.

Contrariamente ao que aconteceu em 2000, quando a presidência portuguesa titulou, em nome dos “catorze” (todos os Estados membros, menos a Áustria), uma condenação à entrada de um partido de extrema-direita no governo austríaco), desta vez não houve “vinte e seis” (todos menos a Hungria) a reagir. Nessa altura, era a unanimidade menos o visado. Hoje é muito diferente. Em 2000, eu estava no centro desse “furacão” e fui eu quem foi ao Parlamento Europeu defender a posição dos “catorze”.

Esta polémica interna sobre a atitude do governo português morrerá amanhã. Seria muito mais cómodo para mim deixar passar este assunto em silêncio. Mas não deixo. Porque Lisboa teve razão na forma como procedeu. E eu não me importo rigorosamente nada de, quando acho que uma posição está correta, embora me possa pôr contra a indignação adjetivada e demagógica de uma maioria ruidosa nas redes sociais, de dizer o que penso. E o que penso é isto.

E agora, quem quiser, faça favor: “fogo à peça”.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Manequim


Saí do edifício do FBI, em Washington, e comecei a caminhar, naquela que me pareceu ser a direção de onde tinha vindo. (Mas que diabo foi o homem fazer ao FBI?). Eu não tinha ido “bem” ao FBI. (Mau, mestre!) Tinha ido visitar o museu do FBI. (Ah!). Era o mês de dezembro de 1972. (Há quase 50 anos? Estava a fazer o quê, por ali?)

Tinha ido aos Estados Unidos incluído numa excursão do Auto Clube Médico Português. Tinha havido uns lugares por preencher e a agência de viagens tinha-me sugerido que aproveitasse o bom preço. Eram as minhas primeiras férias, ao fim de um ano de trabalho como bancário, prestes a ir para a tropa. A minha geração era mais dada a viagens pela Europa, mas, por essa altura, eu já tinha visitado vários países do continente algumas vezes, duas das quais à boleia. E, pronto!, decidi ir aos States - Nova Iorque, Washington e cataratas do Niagara. Uma das torres gémeas de Manhattan ainda estava a ser construída. Mal eu sabia que ia estar por lá no dia em que ambas iriam ser destruídas.

Voltemos a Washington. A cidade tem uma geografia fácil e, talvez fiado nisso, à saída do FBI, caminhei despreocupadamente por várias ruas. De repente, olhei para uma montra e reparei que todos os manequins eram negros. Nunca tinha visto um manequim negro, em louça ou madeira. Desde a minha infância, as mulheres representadas por esses porta-vestidos eram brancas, com uns cabelos penteados “à antiga”.

Achei curioso e pensei, cá para mim: deve ser para cativarem a clientela feminina negra. (Eu sabia que a capital federal tinha uma maioria de população negra). E continuei a andar. Talvez alertado pela montra, olhei com mais atenção à minha volta e constatei que eu era o único branco no horizonte. Algumas pessoas olhavam para mim, pareceu-me que com alguma curiosidade. As montras, com os mesmos modelos de manequins repetiam-se, sempre e só de mulheres.

Nunca tendo, até então, ido a África, com o cenário das ruas de cidades como Paris ou Londres então ainda muito distantes de terem a diversidade de que hoje as habita, aquele ambiente era uma experiência única para mim. Em Portugal, a descolonização, com a subsequente imigração oriunda das antigas colónias, só iria ter lugar alguns anos depois, pelo que o panorama humano do quotidiano era dominado pela população branca, como as imagens da época bem mostram.

Nessa manhã, em Washington, eu tinha entrado num bairro de população negra. Não me apercebi que a minha presença criasse a menor reação. (Anos mais tarde, no Harlem profundo, em Nova Iorque, numa área onde fora parar por alguma imprudência, o ambiente não iria ser tão “neutro” e seria mesmo algo hostil). Apenas detetei uns sorrisos divertidos, até porque devia estar a afivelar uma cara de algum embaraço. E, como mandam as regras da orientação, regressei por onde tinha caminhado, passando de novo ao lado do FBI. John Edgar Hoover já lá não estava. Morrera no mês de maio anterior.

Por que razão trago aqui este episódio, nestes tempos em que falar de temas raciais parece cada vez mais delicado? Por uma razão simples. Na passada semana, em Viena, fui ver as montras do Dorotheum, a fantástica casa de leilões que, nem que fosse para regalo dos olhos, ia muitas vezes visitar, quando vivi na cidade, entre 2002 e 2005. E, numa das vitrines, pertencente a um lote que irá à liça dentro de dias, estava um manequim antigo, com a cara de uma mulher negra. Ao olhar para a peça, regressei, por instantes, meio século atrás, a Washington.

Mas isto é tema para um post? Sei lá! Para mim foi.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Uma vergonha consentida


Por que será que, tanto quanto eu saiba, nenhum partido político português coloca no seu programa uma medida legislativa que ponha cobro ao escândalo que é ver esta fialhada a desfeiar a arquitetura das nossas cidades?

Às empresas de telecomunicações, que nos levam os olhos da cara pelos seus serviços, em óbvio cambão de preços, não se pode exigir que montem tubagens e caixas, metálicas ou plásticas, que possam ser pintadas com o tom dos prédios, para disfarçar o material? 

As cidades portuguesas fazem lembrar, nos dias de hoje, subúrbios de localidades do “terceiro mundo”.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Yolanda Brígida

Você era uma criança. Falava à televisão, ao lado dos seus pais, emigrados na Suíça. Perguntaram-lhe o que gostava mais de ver nos noticiários. Com o olhar vivo e inocente, disse: os desastres! Essa sua resposta ficou-me para sempre.

Tempos mais tarde, curso tirado, estagiária da notícia, salário de recibo verde, telefonou-me para Brasília a inquirir do nome de um português envolvido num acidente. Expliquei que a ética da minha profissão não me autorizava a quebrar o sigilo. Não esqueci a sua reação: "A ética?! Deixe-se disso! Vá! Diga-me lá! É que se eu não consigo essa informação, o meu chefe põe-me na rua!"

Um dia, num jornal com mais de cem anos, na "silly season", li uma peça sua sobre um senhor chamado Eça de Queirós. Explicava, pedagógica, que era "um escritor realista português do século XIX", do qual citava obras a esmo. Fui ver: o texto era da Wikipedia. Fazia bem em apoiar-se em fontes prestigiadas, nessa Britannica da geração dos "shots".

Veja-a agora muito por aí, Yolanda Brígida ou Cátia Vanessa ou qualquer outra coisa assim que a rica imaginação dos seus pais tenha gerado. De "corneto" na mão, nos "travellings" na peugada do advogado desconcertante, à coca da casa dos "pulseirados", a perguntar como se sente à mãe que perdeu o filho no mar alto, a entrevistar o primo da vizinha de um tipo que conheceu o criminoso.

Vi um dia a sua glória. Uma baliza tinha caído sobre a cabeça de uma criança. O dia era “seco” em eventos. Os três telejornais abriram com a notícia, era o "seu" desastre. E lá estava você em campo, baliza ao fundo, preparada para a partida. Ao longe, as "repórteres" dos outros canais, seus heterónimos, filmavam-se comicamente entre si, debitando “buchas” para as respetivas câmaras, à espera do requestado edil local, que você entrevistava e que se prestava ao papel de alterne entre pantalhas, a todas anunciando o clássico "rigoroso inquérito". Um "must"!

É que onde eu gosto verdadeiramente de a ver é nos diretos, à porta de um tribunal fechado há horas, na soleira de uma urgência com uma velhinha a revelar o cancelamento da consulta numa greve, no rescaldo de um incêndio a recolher a clássica declaração sobre a "mão criminosa” no sinistro. Adoro as redundâncias em que ecoa, quase palavra por palavra, o que o “pivot” acabou de dizer, não vá alguém ter entrado na sala só nesse instante. Exulto quando se dirige, impante, à vedeta em estúdio, que mal a conhece, com um íntimo: "Daqui é tudo, Judite!'.

Há dias, vi-a numa de excelência. António Costa tinha acabado de falar sobre o seu "sermão aos chineses", que em ano eleitoral substitui o "sermão aos peixes", do outro António, mas Vieira. Ele saía já de cena, tenso, e você, marota, ética Cofina, reguila qb, sem esperar resposta, só para gáudio da malta lá na redação, atirou-lhe à cara: "O país está melhor, António Costa?". Eu, no caso dele, sabia o que lhe tinha atirado à cara, a si.

(Deu-me hoje para lembrar aqui o artigo que publiquei no "Diário Económico" em 5.3.15)

Diários da catástrofe

Olhem com atenção, as primeiras páginas dos nossos jornais. Se tiverem uma lupa, procurem encontrar uma notícia positiva, de cá ou do estrangeiro, de onde ressalte algo sem o menor tom de crise ou de polémica. Se conseguirem, leiam o texto e contem as palavras até surgir a adversativa “mas” ou equivalente. É um exercício divertido.

domingo, 20 de junho de 2021

O jogo e a vida. Uma história


Foi há quase 43 anos. Chegámos a Jerusalém já um pouco tarde. A delegação portuguesa, naquele dia 25 de junho de 1978 (já perceberão porque tenho a data precisa), tinha ficado retida, por mais de uma hora, no aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv, depois de ter vindo no voo de Roma. E tudo aquilo parecia ser por minha culpa. 

O meu passaporte diplomático tinha carimbos de duas deslocações à Líbia, nos dois anos anteriores. As autoridades da fronteira “embirraram” com o assunto e quiseram saber o que me tinha levado a duas visitas, cada uma delas de mais de uma semana, àquele Estado que era seu arqui-inimigo. Lá tive de explicar, em conversas difíceis com gente das polícias (imagino que a Mossad tivesse alguém por ali) que, sendo o meu pelouro, no MNE, as relações económicas com os países do Magreb e do Mashrek (nome à época muito em voga, por importação da linguagem do Quai d’Orsay, para designar o Médio Oriente), era mais do que natural que por lá tivesse alguns vistos de países árabes antes visitados (aliás, não eram muitos). Era mais fácil de dizer do que ver compreendido.

A nossa delegação, chefiada pelo ministro da Agricultura, Luís Saias, que contava com um diplomata enviado pelo MNE para lhe resolver os problemas, acabava por ver complicada a sua chegada a Israel, logo “por causa” dessa pessoa… 

Ultrapassado o imbróglio, imagino que comigo sob “observação” dos acompanhantes israelitas nos dias seguintes, lá fomos para Jerusalém, num autocarro. Ainda não havia, nesse tempo, aquelas “vans” de vidros fumados que hoje se usam muito, por ali e por quase todo o lado, por razões de segurança.

Chegámos ao hotel com parte do nosso grupo furiosa (comigo, imagino) por ir perder a transmissão da final do campeonato do mundo de futebol, entre a Holanda e a Argentina. De facto, quando entrámos e olhámos o aparelho de televisão (ainda não havia telões e era a preto e branco), sobre a qual se debruçava uma imensidão de gente, o jogo estava nos minutos finais.

O ambiente que ali se vivia foi uma lição política. Toda a gente, entre os quais alguns judeus americanos que nada deviam perceber de “soccer” (que nos dias seguinte vi trocarem no balcão ‘Israel Bonds’ por ‘cash’, como se fossem ‘traveller checks’), puxava, mas já sem esperanças, pela seleção holandesa, que estava a ser derrotada. 

Na delegação portuguesa, havia dois técnicos, do nosso Ministério da Agricultura, que logo manifestaram, em voz alta, o seu contentamento com a vitória iminente da Argentina. Toda a sala olhou para eles, com um ar entre a acidez e o desprezo. A Holanda (já sei, hoje diz-se Países Baixos!) era uma pátria judaica; na Argentina haviam-se refugiado muitos nazis. A História, em Israel, fazia e faz parte do presente.

A Argentina ganhou, nesse fim de tarde, por 3-1. Por essa época, a ditadura militar argentina hiperbolizava os valores nacionais e sabe-se que cavalgou em seu favor a vitória no futebol. Tal como, menos de quatro anos depois, iria tentar fazer com a invasão militar das ilhas a que chamam Malvinas e que os britânicos, que aí reinam, designam por Falkland. Os ditadores militares de Buenos Aires não ganharam esse “jogo” e, pelo contrário, aí terão começado a perder o seu criminoso poder.

Ontem, a propósito do facto de eu ter escrito, num post, que os resultados de futebol, não me sendo indiferentes, não me mobilizavam emocionalmente por aí além, um leitor lembrou que o escritor Jorge Luís Borges terá tido uma reação, dias depois dessa vitória, num sentido que nada terá agradado ao regime dos generais. Fui à procura do que ele disse e descobri: “Parece-me muito estranho ouvir das pessoas frases como ‘vencemos a Holanda!’. Não conquistamos Roterdão nem Amsterdão, nem nada que fosse património dos holandeses. Simplesmente, 11 jogadores, um dos quais foi trazido expressamente da Espanha, ganharam a outros 11. Que importância pode isso ter?”

Borges não era cego, era um sábio.

A primeira impressão


Na constelação dos políticos americanos, Joe Biden nunca foi uma estrela. Os oito anos que passou na sombra de Barack Obama confirmaram dele a imagem de “nice guy” que tinha ganho no muito tempo passado no Senado, onde a sua afamada capacidade de diálogo com o lado republicano acabaria, no entanto, por não ser suficiente para evitar, nos últimos anos de mandato, a paralisia legislativa que veio a ofuscar uma das presidências mais promissoras da história contemporânea da América.

No plano externo, onde, por vezes, o papel dos vice-presidentes surge com algum relevo, Hillary Clinton e, depois, John Kerry acabaram por não lhe dar espaço para brilhar, embora a política externa fosse um domínio de ação onde alguma da sua experiência parlamentar anterior lhe tinha dado prestígio.

Poucos candidatos à presidência dos Estados Unidos, em tempos recentes, terão sido escolhidos com menor entusiasmo do que Joe Biden. Tido por um “gaffeur”, nada entusiasmante no discurso, a sua idade não era um fator, à partida, muito apelativo para um eleitorado democrático onde sobressaía uma agenda com laivos radicais. Embora Bernie Sanders não fosse muito mais novo, a sua postura enérgica disfarçava a idade.

Tudo indica que terá sido o sentimento tático de que, para o objetivo principal que era afastar Trump, a seleção de um candidato com imagem mais moderada e “presidencial”, com a vantagem potencial de poder colher simpatias num eleitorado conservador centrista, cansado dos exageros de Trump, que fez pender a balança para Biden. E os democratas estavam certos na sua aposta, como se viu. E logo houve quem dissesse que Biden era um presidente “a prazo”, que Kamala Harris, a sua vice-presidente, seria a verdadeira estrela da companhia, já na calha para a sucessão.

Biden, como se costuma dizer, “saiu melhor do que a encomenda”. Desde logo, montou uma equipa que surgiu com uma imagem muito profissional, com poucas vedetas mas com o que parece ser uma grande solidez. Não fez muitas concessões à ala mais esquerda na escolha dos nomes, mas mostrou uma abertura à diversidade que surpreendeu. Porém, mais importante do que isso, colocou no terreno uma agenda legislativa ousada e progressista, que deu já frutos no estímulo à economia, com impactos fortes na promoção do emprego. Embora com hesitações, em áreas muito sensíveis, como as questões da imigração, onde alguns gestos iniciais de generosidade foram sucedidos por recuos, o saldo das medidas propostas não deixa de ser muito interessante, embora o seu destino legislativo último continue incerto, atentas as dificuldades com que se defronta no Senado.

Mas é no plano externo que Biden hoje brilha. Foi firme face à China e Rússia, como todo o eleitorado americano quer, sossegou os aliados e parceiros, exaustos de Trump, face aos quais demonstra uma boa vontade não isenta de firmeza e vontade de liderança.

As expetativas face a Biden não eram elevadas. Partindo desse patamar, ele percebeu que não teria uma segunda oportunidade para criar uma primeira impressão. E essa está a ser excelente.

sábado, 19 de junho de 2021

Nós e o Cohen

Portugal tentou cantar Leonard Cohen. Ontem, Guterres ganhou na ONU. Hoje, queríamos ganhar à Alemanha. Lembram-se? “First we take Manhattan, then we take Berlin”. Era demasiado bom.

Confissão inconveniente

Posso confessar um segredo? Fico satisfeito quando a seleção (ou o meu clube) ganha. Desagrada-me ver a seleção (ou o meu clube) perder. Mas nem entro em euforia no primeiro caso, nem fico amargurado ou perco um minuto de sono no segundo. Isto é apenas um jogo, não é a vida. (O meu pedido de desculpas a quem não pensa assim).

As origens do fado


Não há nada de que um português goste mais do que dramatizar ao extremo os seus infortúnios. Ou como é que julgam que nasceu o fado?

Guterres

Há cinco anos, quando António Guterres tomou posse do cargo de secretário-geral da ONU, senti um imenso orgulho pela circunstância de alguém com quem tinha trabalhado de perto, cujas excecionais qualidades havia tido o ensejo de apreciar e admirar, ter ascendido à mais relevante posição no quadro multilateral mundial.

Fui um entusiasta dessa candidatura, por três básicas razões. 

A primeira é que acho que, salvo alguns momentos menos felizes, o Portugal democrático, nos seus diversos ciclos políticos, tem sabido ser fiel aos grandes princípios e valores que fazem parte do acervo civilizacional coletivo dos mundos a que o país decidiu pertencer, que a diplomacia permitida pela Revolução de Abril ajudou a construir. A chegada de um cidadão português àquele lugar de topo no sistema de regulação internacional, por evidente mérito e não por combinas de lóbis e jogos de poder, representava uma prestigiante consagração para Portugal e para a sua diplomacia.

A segunda razão tinha a ver com o próprio António Guterres. A política é uma atividade dura e, muitas vezes, injusta para os seus atores. Fiz parte, com grande orgulho, dos dois governos chefiados por António Guterres. No termo desse ciclo, dei-me conta de que a retribuição, no imaginário nacional, face ao esforço feito por António Guterres para contribuir para uma transformação serena e não confrontacional do país, havia sido escassa. Guterres provou depois, no excecional trabalho feito na área dos refugiados, a consistência de um pensamento solidário e de um elevado sentido de responsabilidade moral. A sua escolha, transparente e indiscutível, para as Nações Unidas, foi um corolário de justiça.

Finalmente, conhecendo um pouco das Nações Unidas, por lá ter trabalhado e por acompanhar com alguma atenção a sua evolução, mas igualmente por ser um “militante” do multilateralismo, achei que uma figura como António Guterres representava, à perfeição, aquilo de que a organização necessitava, em especial no tocante à sua adaptação às agendas de modernidade - menos retóricas e mais práticas - que lhe permitissem ganhar legitimidade e espaço de mobilização no seio das opiniões públicas.

A estas três razões positivas, somava-se uma preocupação: o risco de que uma evolução negativa dentro do país-chave para os sucessos ou insucessos da ONU, os Estados Unidos, pudesse vir fazer correr à organização estaria melhor protegido com alguém que lhe soubesse preservar os princípios e servisse de escudo ético a qualquer instrumentalização ou desvirtuamento. Isso aconteceu, com Trump. Guterres acabou por ser o líder da “resistência”.

Agora, o sentido aclamatório que acolheu a reeleição de Guterres prova o acerto da anterior decisão. Os sinais que chegam de Washington a Nova Iorque são positivos, embora a experiência nos deva tornar prudentes quanto a um excessivo otimismo. Se Biden vier a ser o que parece ser, com Guterres na chefia da ONU, não obstante um tempo turbulento que se aguarda no cenário confrontacional global, o mundo fica muito mais seguro.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

A sorte de Biden


Quando se observa a conflitualidade que atravessa o Congresso americano, surgem dúvidas sobre se Joe Biden conseguirá concretizar a ambiciosa agenda legislativa que anunciou. Os dias que se vivem no Senado, bem como a linguagem crispada que teima em não abandonar o debate político, mostram a persistência de um entrincheiramento pronunciado, que quase não deu um “estado de graça” legislativo mínimo ao novo presidente.

No ambiente político que rodeiam Biden, destacam-se dois outros elementos, ligados entre si.

Desde logo, nota-se que o episódio da invasão do Capitólio, por muito traumático que possa ter sido para o campo republicano, não funcionou como um fator para a respetiva moderação, no sentido de um maior entendimento entre os campos adversários. Trump pagou, aliás, um preço surpreendentemente baixo, em termos de responsabilidade, por um incidente de que, à evidência, foi o principal incitador. O facto de ter conseguido eximir-se ao “impeachment” não deixa, neste contexto, de ter um forte significado.

Ficou desta forma demonstrado que não foi por acaso que Donald Trump obteve cerca de 70 milhões de votos, numas eleições cujos resultados, contra todas as evidências, ele conseguiu rodear de um manto de suspeições que, como sondagens posteriores revelam, contamina ainda, de forma continuada, um setor importante dos seus fiéis. A “verdade” de Trump permanece viva na crença de muita da sua gente. E é óbvio que, dentro do atual Congresso, bem como em todos os setores republicanos que se preparam para o sufrágio intercalar de 2022 (que, recordo, elegerá de novo todos os lugares na Câmara dos Representantes e um terço do Senado, como acontece a cada dois anos), este estado de espírito dos votantes trumpistas não deixará de ser considerado nas contas politicas das campanhas.

Quero com isto dizer que Joe Biden, por muito boa vontade que possa ter vindo a conquistar, com o seu estilo dialogante, disputa uma verdadeira corrida contra o tempo - e isto não é nenhuma ironia sobre a sua idade, circunstância que, no entanto, também não pode ser esquecida.

Com um Congresso hostil a medidas que, a serem aprovadas e a terem sucesso prático, fariam disparar a sua popularidade, o novo presidente tem ainda a difícil tarefa de ter de conciliar coisas que podem surgir como contraditórias. Por um lado, Biden tem necessidade de ser visto como protetor dos interesses nacionais na ordem externa, no que compete com um nacionalismo basicamente eficaz de Trump. Por outro, tem o imperativo de dar resposta a uma agenda progressista que, em larga medida, o ajudou a chegar à Casa Branca e perante a qual todos muitos democratas no poder serão julgados em 2022. Como se viu na sensível questão da imigração, nem sempre estas duas vertentes se conjugam com facilidade.

Uma coisa a história americana já nos ensinou: os presidentes dos Estados Unidos, quase sempre, ganham ou perdem o país essencialmente pelo estado da economia, pela confiança criada em termos de bem-estar, pelos índices de Wall Street e pelas taxas de desemprego.

Se a economia americana, nestes primeiros dois anos da nova presidência, conseguir dar um salto contrastante com o tempo deprimido do auge da pandemia, e se isso for visto como derivado das iniciativas de Biden, as hipóteses dos candidatos que o apoiam aumentam exponencialmente, com consequências nas eleições intercalares de 2022 e no Congresso que delas sairá. E isso reduziria as hipóteses de retorno a uma nova “onda Trump”, protagonizada pelo próprio ou por quem lhe assuma a herança.

Mas a história também demonstra, agora em prejuízo de Biden, que este tipo de eleições a meio do mandato raramente beneficiam o presidente em exercício.

Biden pode talvez pensar que, tendo sido um presidente que era tido por improvável há meia dúzia de anos, pode também vir a ser bafejado pela sorte e conseguir sustentar o vento que o levou à Casa Branca.

A minha neutralidade como comentador acaba aqui: gostava que ele tivesse essa sorte.

Encostado à parede


A posteridade singela de uma parede, num belo palácio de Viena, rodeado de amigos, acaba por ser um destino de memória bem simpático.

quinta-feira, 17 de junho de 2021

“A Arte da Guerra”


No programa “A Arte da Guerra” desta semana, falo com o jornalista António Freitas de Sousa sobre o papel de Joe Biden na reunião do G7, sobre o resultado das eleições presidenciais no Perú e fazemos uma antevisão das próximas eleições presidenciais no Irão.

Pode ver aqui.

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Viena


Passaram quase duas décadas sobre o dia em que a vida fez com que eu tivesse vindo viver para Viena, por mais de dois anos. Disse “vindo” e não “ido”, porque aterrei há poucas horas em Viena, para uma tarefa diplomática pontual, para a qual fui convidado e que aceitei com muito gosto. E também escrevi que foi a “vida” que então me enviou para Viena porque, na realidade, não foi a minha vontade que determinou esse destino.

Mário Soares, no prefácio que teve a amizade de fazer para um livro que eu decidi publicar nesse ano, escreveu que “à quelque chose malheur est bon”. Na altura, devo dizer que não encontrei muitas razões para concordar com essa leitura, que tinha por excessivamente benévola, do conceito de que se pode sempre tirar algum partido de um azar, neste caso na forma de uma patifaria, que nos atinge. Mas ele, nisso como em muitas outras coisas, tinha razão.

A experiência que ganhei nos anos em que chefiei a representação portuguesa junto da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) foi-me extremamente útil para aprofundar a compreensão, não apenas do mundo pós-soviético, mas igualmente dos países dos Balcãs, que com ele tinha uma ligação óbvia.

Foi na OSCE que entendi melhor os traumas que os tempos da Guerra Fria tinham deixado, por exemplo, nos países bálticos e na Polónia. Foi aí que pressenti, de forma clara, aquilo em que a questão da Ucrânia poderia vir a converter-se. Percebi então os que significavam, estrategicamente, os “conflitos congelados”, bem como o destino, frequentemente trágico, de algumas das muito diversas realidades da Ásia Central e dos Cáucasos.

Só visitando pessoalmente todos esses países - e eu fi-lo, quase por completo, com cuidado e atenção -, falando com as pessoas, se apreendem realidades que nenhum estudo livresco no sofá ou num gabinete nos pode ensinar.

Foi também nos belos corredores do Hofburg, o palácio onde “mora” a OSCE, que pude detetar o progressivo fosso que se ia criando entre os países “a leste de Viena”, como se diz no “argot” da organização, e aqueles que se situam do “lado de cá”, geográfica e politicamente. Esse fosso é hoje quase uma trincheira, faltando-nos saber como é que, hoje, Putin e Biden se comportaram nessa “linha da frente”.

Fui para Viena, ido de Nova Iorque, precisamente um ano depois do 11 de setembro de 2001, depois de ver as torres gémeas do World Trade Center a cair na cidade onde eu vivia, a escassos quilómetros da minha casa.

Esses foram os tempos da luta comum contra o extremismo islâmico, uma “guerra” da qual ninguém com um mínimo de decência podia fugir. 

Mas esse foi também o período em que o revanchismo americano, depois de um ataque com legitimidade incontestável ao Afeganistão, aproveitou para gizar a aventura insana e trágica da invasão do Iraque, com Portugal a não ter então, nas Lajes, a sua hora mais brilhante e digna. “Et j’en passe”…

Foi também uma época em que a nova Rússia deu mostras de que a adesão ao paradigma democrático era apenas uma flor de retórica, em que o combate ao terrorismo foi interpretado por Moscovo como “carta branca” para ondas de repressão, como se viu na Chechénia e não só.

Mas deixemos a política.

Viena é uma bela cidade - e volto neste texto à vida que por aqui tive. Viena ajudou-me a perceber que saber dar a volta às coisas, ainda que à partida menos boas, que a vida inesperadamente nos traz, é uma arte difícil, mas possível.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Francisco Mantero


Hoje, num almoço, alguém anunciou: “Morreu o Francisco Mantero!” Dei um salto na cadeira! Não terá sido a pandemia que o matou mas havia sido a pandemia que, há mais de um ano, tinha suspendido a aperiódica tertúlia almoçante “dos Franciscos” que ele, o Francisco Falcão Machado e eu mantínhamos, por sua iniciativa, há já alguns anos. 

Não vou por aqui desenvolver o currículo do Francisco Mantero, que o Google nos traz, com pormenor. Conheci-o melhor nos idos de 80, quando os dois trabalhámos, por alguns anos, na área da “cooperação para o desenvolvimento” - um tema que sempre muito nos mobilizou. Antes, tinhamo-nos já cruzado em Angola, num jantar na residência do António Pinto da França. 

O Francisco era um homem que dedicou grande parte da sua vida às questões africanas, em especial no setor empresarial. Ia muito a Paris, onde cooperava com a OCDE e onde nos vimos por mais de uma vez. Culto e muito bem preparado intelectualmente, com opiniões fortes, era um magnífico conversador, com histórias deliciosas, fruto de uma vida muito interessante. Quer o Francisco Falcão Machado quer eu apreciávamos, em especial, a leitura crítica que o Francisco Mantero fazia de certas figuras da nossa carreira diplomática, área que ele, por artes que nunca entendi, conhecia ao detalhe. 

Tenho muita pena de ter perdido a minha já longa amizade com o Francisco Mantero, a cuja família deixo os meus sentimentos. 

Agora, desafio o Francisco Falcão Machado para que nos encontremos num almoço, a dois, num tributo póstumo ao nosso amigo homónimo. O mundo está perigoso! 

Portugal é isto!

Gosto de ver uma seleção portuguesa com muita gente de cor, o que só acontece por alguém ter feito, no passado, as viagens que ajudaram a sermos o que hoje coletivamente somos. Nos dias que correm, não é politicamente correto dizer isto, nestes termos? “Je m’en fous”, como se diz em bom português!

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Diplomacia é isto!

Ontem, suscitei, no Twitter, a questão de saber se um cidadão estrangeiro, que tivesse obtido a cidadania britânica, podia jogar por qualquer das seleção das quatro nações do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, Gales ou Irlanda do Norte) que, em certas modalidades, dispõem de equipa própria.

Vários frequentadores do Twitter tiveram a amabilidade de comentar - uns com “bitaites”, outros com informação detalhada. Dentre estes últimos, com simpatia e eficiência, tive o grande gosto de contar com o próprio embaixador britânico em Portugal, Chris Sainty.

A diplomacia do Reino Unido foi das primeiras, em todo o mundo, a estimular e a promover a utilização das redes sociais pelos seus profissionais, como prática de “diplomacia pública”. Blogues e contas pessoais têm vindo a ajudar a passar a mensagem de Londres pelo mundo desde então.

Quem esteve atento ao tema, pôde apreciar o modo como as extensões externas do Foreign Office trabalharam - e imagina-se a dificuldade do exercício! - durante todo o complexo período do Brexit. O que aliás continuam a fazer, nos dias de hoje, sempre com imenso profissionalismo.

Da minha experiência de décadas, o serviço diplomático britânico é talvez a máquina mais competente do género, em todo o mundo. A sua tarefa torna-se ainda mais relevante quando o Reino Unido tem hoje que defender posições indefensáveis, como as que Boris Johnson hoje sustenta face à UE.

Mas as diplomacias existem precisamente para isso: para defender, o melhor que souberem e puderem, as posições sustentadas pelos governos legítimos dos seus países. Sob essa bandeira eterna, expressa de forma anglo-saxónica: “My country, right or wrong”. O meu abraço a Chris Sainty.




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Adeus, Holanda!


Ontem, muita gente terá achado estranho que o país a que sempre se habituou a chamar Holanda fosse insistentemente designado por Países Baixos, por ocasião do (excelente) jogo com a Ucrânia, para o Europeu de futebol.

Desde há muitos anos, contudo, que as duas designações coexistem pelo mundo. Na língua francesa, o nome “Pays-Bas” era corrente (Hollande era mais nome de político…) e “The Netherlands” é, desde sempre, uma expressão consagrada em inglês. Entre nós, contudo, talvez ainda tributários desse curioso e histórico livro “A Holanda”, de Ramalho Ortigão, e, mais recentemente, aculturados à escrita do “holandês” Rentes de Carvalho (leiam o seu, com quase quatro décadas, “Com os Holandeses”), o termo “Holanda” persiste fortemente dominante.

Em 2019, o governo “holandês” anunciou uma estratégia para promover o nome “Países Baixos” e fazer desaparecer, progressivamente, o nome “Holanda”. Isso começou com a Eurovisão e prosseguirá com os Jogos Olímpicos - e, desde já, com o Europeu de futebol.

A explicação oficial é que o nome “Holanda” se refere exclusivamente a duas das 12 províncias do país, pelo que há uma parte substancial do território que fica prejudicada na promoção externa que o país faz de si mesmo. Amesterdão, que está numa das “Holandas”, beneficiaria assim desmesuradamente desse antigo privilégio.

Há poucos países assim, capazes da coragem de mudarem a sua identidade face ao exterior. É uma “frieza” estranha, mas eu recordo-me que, nos anos 90, a “Holanda” já havia feito, através de uma revisão muito pragmática, um redirecionamento da sua política externa, com base num relatório cuja aprovação mudou vários aspetos da postura internacional do país. Sem o menor drama, aparentemente.

Os Países Baixos deixaram, entretanto, claro que o laranja continuará a ser a sua cor. Imagino que isso, por cá, agrade a alguns… A tulipa, foi anunciado, desaparecerá do logo promocional do país, mas já nada foi dito sobre os moínhos e as socas.

Reformadas tinham sido, desde há muito tempo, as moçoilas de crista na cabeça e saias longas, que enchiam o meu imaginário “holandês” até ao dia, no final dos anos 60, em que aportei, de mochila às costas, na praça Dam, em Amesterdão. Percebi então, pelo perfumado cheiro queimado que fazia a glória mundial da cidade, que a nova Holanda já estava muito distante dos tempos do Ramalho.

Uma dúvida se me coloca, mas deixo-a ao cuidado do Ciberdúvidas. Como passamos a chamar aos habitantes dos Países Baixos? “ Países baixotes”?

domingo, 13 de junho de 2021

Tempos


A bonança ainda parece distante, mas este fim de tarde, depois da tempestade, está soberbo.

Pelo Alvão e por algumas mesas ali à volta


Saia da A4 ou do IP4 para a Campeã, tendo como destino Mondim de Basto, pela Estrada Nacional 304.

O trajeto começa por ter um piso pouco agradável, por alguns quilómetros, o que é uma relativa surpresa, atenta a boa qualidade média das estradas secundárias a que, nos últimos anos, nos habituaram as zonas rurais. Quem é que telefona às Infraestruturas de Portugal?

O pequeno esforço começa a valer a pena quando surge o desvio para as Fisgas de Ermelo. Vá por lá, são só uns minutos, mas que lhe farão ganhar o dia. É um dos locais mais surpreendentes, como beleza natural, do norte de Portugal, ali em pleno Parque Natural do Alvão. 

Regresse à EN 304, prosseguindo em direção a Mondim. O piso passa então a ser excelente. E o que tem à sua frente é uma das mais extraordinárias rotas panorâmicas do nosso país. A estrada ladeia o vale e coloca-nos perspetivas magníficas, durante vários quilómetros. Ao fundo, a visão do Monte Farinha, a conhecida Senhora da Graça das etapas épicas do ciclismo, domina a paisagem.

Quando chegar a Mondim, as opções são várias. 

Se quiser regressar a Vila Real, sem fazer os 36 kms de volta pela mesma estrada, pode seguir para Celorico de Basto (onde até pode visitar a biblioteca do presidente da República) e, depois, para Amarante (daí a Vila Real, com o túnel, agora é um “saltinho”).

Em Amarante, aproveite e vá comer ao “Encostas de Formão”, na estrada para o Marco, um renovado restaurante, com uma bela localização, numa cidade que tem um deslumbrante centro histórico e um museu de Amadeo de Souza Cardoso a não perder.

Se é audacioso e não se importa de seguir por um trajeto de “aventura”, aponte para Bilhó e, daí, vá descobrir Lamas de Olo (uma aldeia única no país, com velhas casas de colmo). Falam-me que por lá se petisca bem na “Cabana”, mas não conheço ainda. 

Desça depois para Vila Real. Onde se come bem por ali? Refeição mais “fina”, no “Cais da Vila”. Mais pitoresca e com bela ramada para noites de verão, no “Chaxoila”. Excelente e mais simples é minha “cantina” na cidade, o “Lameirão”.

Se, de Mondim, quer prosseguir para norte, aponte para Ribeira de Pena, pela estrada normal ou pela A7 (uma opção cómoda com menos graça). Ande depois um pouco mais e aproveite para um refeição em Vila Pouca de Aguiar, no “Costa do Sol”, no Hotel Aguiar da Pena. Vá lá, à minha confiança!

Na hipótese de pretender ir de Mondim para o Minho, aponte então para o Arco do Baúlhe e, já agora, não deixe de ir aí refeiçoar no “Caneiro”, também uma belíssima opção.

Vá por mim, visite esta zona! Ah! E se beber, arranje quem conduza! 

sábado, 12 de junho de 2021

Irresponsabilidade

Um grupo político que, contrariando o parecer expresso das autoridades de saúde, dá o péssimo exemplo de organizar um ”arraial” de irresponsabilidade cívica no centro de Lisboa, dispensa-nos de utilizar os (des)qualificativos que merece.

Marco Maciel


Era um “gentleman”, um homem de diálogo, uma voz moderada, um amigo certo que Portugal tinha no Brasil. 

Morreu Marco Maciel, antigo vice-presidente brasileiro, no tempo de Fernando Henrique Cardoso, um senador respeitado em todos os quadrantes políticos. 

Foi através dele e do padre Aleixo Brandi que tive o gosto de colaborar na organização, no Brasil, das comemorações dos 400 anos do nascimento do padre António Vieira, com eventos de vária natureza, que tiveram o seu ponto alto numa cerimónia histórica no Senado brasileiro.

Fisicamente, Marco Maciel era uma figura “modiglianica”, alto e muito magro, o que lhe valeu o epíteto risonho de “mapa do Chile”. Tinha sempre um sorriso para todos, uma palavra de serenidade, quase contrastante com o perfil caricatural muitas vezes atribuído a políticos pernambucanos. 

O nosso pesar para a sua família, em especial para a viúva, dona Anna Maria.

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Alberto Laplaine Guimarães

O lamentável episódio que fez com que à embaixada russa em Lisboa - o que poderá ter acontecido também com outras missões diplomáticas estrangeiras, em idênticas circunstâncias - tivesse sido dado conhecimento oficial dos dados pessoais dos promotores de manifestações contra o regime de Moscovo, está a ser objeto de forte debate. É natural que isso aconteça, mas nem por isso, na polémica, vale tudo! 

O caso ocorrido é muito grave, a prática burocrática instituída e que vinha a ser acriticamente seguida, é de uma insensatez sem limites, tendo em atenção os sérios riscos pessoais a que essas pessoas ficaram expostas, embora haja quase certeza de que dificilmente as embaixadas não conheceriam já bem os seus opositores que vivem em Portugal. Mas este último facto é, em absoluto, irrelevante: em nenhuma circunstância seria admissível que serviços públicos portugueses pudessem sequer estar a confirmar nomes de opositores, tanto mais que se sabe que, em regra, esse tipo de manifestações se processam contra regimes que não têm em grande conta os direitos humanos - e isto é apenas um eufemismo para designar vulgares ditaduras ou coisas que lhe estão mais ou menos próximas.

A que propósito vem o nome da pessoa que coloquei como título, estará a perguntar-se o leitor? Porque, nas últimas horas, o nome de Alberto Laplaine Guimarães, secretário-geral da Câmara Municipal de Lisboa, tem vindo à baila como aparente ”bode expiatório”, escolhido por alguns, nas redes sociais, em todo este imbróglio. 

Não conheço minimamente os factos, não me quero antecipar às conclusões das averiguações urgentes que, seguramente, vão ser feitas e divulgadas, ao pormenor, a bem da transparência. 

Mas conheço bastante bem Alberto Laplaine Guimarães. Navegamos, como é óbvio para toda a gente, em áreas políticas e ideológicas muito diferentes, às vezes fortemente contrastantes - como, ainda há escassas horas, o espaço do Facebook tinha testemunhado, a propósito de temas religiosos.

Há muitos anos que aprecio e admiro a devoção de Alberto Laplaine Guimarães ao serviço público, o seu empenhamento profissional escrupuloso, em todos os setores onde o tenho visto atuar - desde a Casa Civil do presidente Jorge Sampaio à Câmara de Lisboa, passando por um conjunto de outras atividades, na esmagadora maioria dos casos ”pro bono”, a que empresta o seu eterno entusiasmo e insuperável dedicação. 

E - o que é mais importante - conheço os seus princípios e valores, em tudo contrários a poder, ainda que remotamente, ser cúmplice consciente de qualquer risco colocado à liberdade de manifestantes em favor da democracia. Isso basta-me.

Por isso, Alberto, aqui lhe deixo o meu abraço de sempre.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

“A Arte da Guerra”


Hoje, no programa de António Freitas de Sousa para o Jornal Económico, abordo a deslocação de Joe Biden à Europa para cimeiras da G7 e da Nato, para um encontro com os líderes da União Europeia, bem como para contactos bilaterais com Boris Johnson, com Recep Erdogan e, finalmente, com Vladimir Putin.

Pode ver aqui.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Fezadas


Não sendo da paróquia, é talvez essa a razão por que não entendo quem reza ou se benze por ocasião de um jogo de futebol. Como é que “lá em cima” alguém vai facilitar a decisão num sentido ou noutro, se as preces, em princípio, se “empatam” nos seus efeitos? Não é para perceber? Pronto, já percebi.

Mensagem de Lisboa


Contaram-me hoje, em confidência, mas recuso-me a acreditar: parece que há gente que não conhece ainda a https://amensagem.pt/. Alguém disse: “É por não se pagar!”. Se calhar…

terça-feira, 8 de junho de 2021

Mistérios do blogue


Há dias em que, sem que aqui tenha sido publicado algo que aparentemente o justifique, o contador do blogue nos dá conta de que houve um número inusitado de visitas. É o caso de ontem e hoje. Mistérios…

“Ajuda, precisa-se”


Há quase oito anos, escrevi no meu blogue o seguinte texto:

”Passei, há minutos, ao lado do Palácio da Ajuda. Por lá trabalhei, nos meus tempos militares, tendo-me interrogado, na altura, sobre qual a misteriosa razão que levava a que, desde há séculos, a sua fachada oeste se mantivesse com aquele ar de ruína inacabada. Um dia, nos anos 90, tive o ensejo de assistir a uma reunião política em que o assunto foi discutido e uma solução possível foi abordada. Desconheço a sua sequência, que presumo que terá sido nenhuma.

A "malapata" de Santa Engrácia acabou nos anos 70. Fizeram-se o CCB e imensos quilómetros de autoestradas, pavilhões gimno-desportivos, rotundas, milhares de obras, muitas delas inúteis, para encher o olho e o bolso patobravista autárquico. Terá também havido dinheiro para construir, de raíz, um novo e muito discutível Museu dos Coches. Neste mar de fundos, por que será que o Palácio da Ajuda permanece como o parente pobre do nosso mais valioso património histórico-arquitetónico?

Já se percebeu que não há a menor hipótese de vir a construir-se o resto do palácio, sob o desenho conhecido. Mas então por que razão não se opta por uma solução arquitetónica inteligente e criativa (mesmo "modernaça"), não excessivamente dispendiosa, que dê um "fecho" decente ao que já está construído e acabe, de uma vez por todas, com aquele triste mono que se vê do lado da calçada da Ajuda e que, do interior, apresenta o que a fotografia mostra?

Há um amigo meu que tem uma teoria: dado que é precisamente nesse palácio que funciona o IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico), ninguém "olha" para o Palácio da Ajuda do lado de fora.

Mais a sério: eu sei que os tempos não são os melhores para a realização de "obra pública", mas alguém me saberá explicar a razão pela qual o Palácio da Ajuda não encontrou nunca uma solução arquitetónica final?”

Foram bem mais de 200 anos em que o país passou, indiferente, em frente àquela vergonha, encolhendo os ombros. Estiveram calados que nem ratos todo esse tempo, nunca se lhes ouviu uma palavra de lamento sobre aquela chaga urbanística. Porém, agora, quando alguém teve a coragem de rematar a obra, lá surgiu o coro dos críticos, os mal-dizentes do costume, os do “afinal, devia ter sido feito assim ou assado”. 

Apetece-me repetir uma frase que se usa na minha terra para esse tipo de gente: “Quem lhes atasse um arado!”



Não sou de cá



Convido-os a lerem a crónica que acabei de publicar na Mensagem de Lisboa, intitulada “Não sou de cá”.

Pode ser lida aqui.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

“Observare”


Na edição do “Observare” que antecederá uma “pausa futebolística” de um mês no programa, por virtude do Europeu a que a TVI transmitirá, abordámos a deslocação de Joe Biden à Europa, para a sua múltipla agenda - reunião do G7, visita bilateral ao Reino Unido, cimeira da NATO, encontro com os líderes da União Europeia e, finalmente, encontro com Vladimir Putin.

Pode ver aqui.

domingo, 6 de junho de 2021

Tempos de antena

Digo isto há anos: somos das poucas democracias do mundo onde políticos eleitos têm colunas regulares na comunicação social, uma espécie de “tempos de antena”. 

Estou a falar de colunas, pagas ou não, não de artigos pontuais, note-se. E falo de imprensa, não de órgãos de propaganda, como são o “Avante!”, o “Povo Livre” ou o “Acção Socialista”.

Conhecem algum político eleito que escreva regularmente uma coluna no “The Times”, no “El País”, no NYT, no “Le Monde” ou no “Corriere della Sera”?

Cozinha sem apelido fino


Há uns anos, o meu amigo Rui Vieira Nery editou um belo e já clássico texto sobre o tempo em que as cozinheiras se chamavam “Adozindas” e não tinham apelidos de “socialite”. 

Hoje, passei pelos locais onde imperaram a Sara Barracoa, em Famalicão, a Rita Fangueira, em Esposende, e a Zefa Carqueja, em Viana. Lembrei-me dessas grandes Adozindas.

Dedicatória


Lisboa, 2002

Vi-o ao longe. Estava mais gordo, com uma forte bigodeira. Mas não havia dúvida: era aquele velho conhecido que estivera comigo na tropa, com quem passara longas horas à sueca, na messe da EPAM, nos tempos que antecederam a Revolução de 1974.

Nas três décadas que tinham entretanto decorrido, havia-me cruzado com ele num restaurante e num aeroporto. Momentos breves, em que falávamos de amigos comuns, por onde cada um de nós andava e de uma almoçarada que nunca mais acontecia.

Agora, o momento era outro: eu estava sentado a uma mesa, a assinar um livro que lançava nesse dia. Depois de breves intervenções, havia uma (felizmente) longa fila de gente, para as dedicatórias.

Tal como as centenas de pessoas que tinham tido a simpatia de querer estar comigo na sessão, esse amigo, que devia ter lido num jornal que eu ia publicar um livro, quis ir dar-me um abraço e obter uma palavra escrita minha no seu exemplar, como a nossa velha relação pessoal mais do que justificava.

Só que, de repente, uma imensa angústia me começou a invadir: como é que aquele amigo se chamava? Eu sabia o nome, várias vezes falara dele a outras pessoas, mas, naquele preciso momento, não me "saía". E não tinha a quem perguntar.

À medida que eu ia "aviando" quantos o antecediam, ele já me sorria, de longe, com uma proximidade física vez mais temível, seguro da nossa cumplicidade de outros tempos.

Eu começava já a ter alguma dificuldade em me concentrar nas dedicatórias que fazia às pessoas que estavam à sua frente, temendo mais alguma "branca", que o meu crescente nervosismo pudesse provocar.

É que, francamente, não me estava ver com a "lata" de lhe perguntar: "Ó pá! Desculpa lá! Relembra-me o teu nome". Mas que diabo podia eu fazer?

E o momento fatídico chegou. Aquele meu amigo estava, enfim, no topo da fila, frente à mesa, sobre a qual colocou o exemplar que comprara à entrada. Eu levantei-me para lhe dar o merecido abraço, agradeci-lhe ter vindo e voltei a sentar-me, derreado pela tragédia da impossível dedicatória.

Foi nesse instante que o ouvi dizer, para meu imenso descanso: "Dedica isso ao Luís, o meu filho, que quer entrar para a carreira diplomática e a quem tenho falado imenso de ti".

Claro que dediquei, com todo o gosto, lembrando, no que escrevi, a minha velha e imprescritível amizade com o pai.

Nunca soube se o rapaz chegou a entrar para as Necessidades. Um destes dias, vou dar uma vista de olhos à lista de antiguidades. É que eu nunca mais voltei a esquecer o nome desse meu amigo.

sábado, 5 de junho de 2021

Festas

 Nas festas de Santo António e São João, fique em casa. Assim evita ir conhecer S. Pedro pessoalmente...

Frase

”Há uma fase em que a vida deixa nos dar coisas e começa a tirá-las”. Ouvi isto, há pouco, num filme. Fiquei preocupado por achar que o guionista tinha razão.

Pê Ésse

Não faço parte de quantos querem dar conselhos a António Costa. Só gostava de notar que o seu silêncio, perante a expressão pública de confrontos entre personalidades altamente colocadas no partido, não é nada saudável. E isto é um amigável “understatement”, claro.

A manifestacão


Londres, 1992.

A imprensa britânica tinha vindo a publicar artigos, crescentemente acusatórios, pelo facto de, alegadamente, laboratórios portugueses utilizarem cães como cobaias para experiências médicas. 

Várias cartas indignadas haviam sido recebidas na embaixada, às quais eu, como encarregado de negócios, na ausência em férias do embaixador, pacientemente respondia, já nem me recordo bem em que termos.

Uma associação britânica dedicada à proteção dos animais pretendeu ser recebida, para entregar um protesto formal, dirigido ao nosso governo de então.

Na data e hora combinadas, quando aguardava o grupo, entrou-me um contínuo com um ar desaustinado pelo gabinete, pedindo para eu ir, com urgência, à varanda.

Lá fora, ocupando o canto de Belgrave Square, onde se situam os edifícios da residência e da chancelaria da embaixada, que vejo eu? Largas dezenas de cães, pela trela dos donos, bloqueando uma área importante, numa imensa manifestação, entrecortada por latidos em anárquico coro.

As surpresas não tinham terminado. Quando a delegação do grupo protetor dos animais acedeu, instantes depois, ao meu gabinete, dois dos seus integrantes pegavam pelas pontas de um imenso "osso", com bastante mais de um metro, feito em esferovite, ao qual vinha anexo um grande envelope, que vim a verificar tratar-se da carta de protesto.

Colocado o imenso "osso" no chão, no centro da sala, ouvi os argumentos da delegação, transmitindo-lhe as justificações que entretanto recebera de Lisboa, as quais, decididamente, não acalmaram a sua indignação.

Acabada a audiência, que decorreu em tom cordato e civilizado, saíram, deixando o "osso" no meu gabinete que, nesse dia, se tornou num centro de romagem de todo o nosso risonho pessoal.

Recordo que alguém ainda lançou, irónico: "O senhor doutor quer que se faça uma mala diplomática especial, para Lisboa, para mandar o "osso"? Podia seguir em anexo ao ofício que vai remeter o protesto...".

Não mandei, claro, mas perdi uma boa oportunidade para o caso ficar nos anais do MNE. E, de caminho, para eu receber uma reprimenda do secretário-geral pela dispendiosa graça...

sexta-feira, 4 de junho de 2021

 


Patriotismo e patrioteirismo

É trágica para a economia hoteleira a decisão britânica de dificultar a circulação de pessoas para Portugal. Permitam-me, contudo, que, numa questão deste tipo, assente em avaliações de riscos de saúde que cada país tem o direito de fazer, não alinhe em indignações patrióticas.

Incómodo

Donald Trump foi suspenso do Facebook, como, creio, o tinha sido do Twitter. O que penso do cavalheiro não me leva a simpatizar minimamente com a ideia de que vivemos numa sociedade em que uma empresa de comunicação, sem uma ordem judicial, decide o que se pode ou não publicar.

quinta-feira, 3 de junho de 2021

O triângulo


Luanda, 1982.

Eu andava deliciado com o meu Golf Diesel, recém-chegado da Dinamarca, com um confortável ar condicionado. Fui pessoalmente buscá-lo ao porto, depois de esperar semanas que o barco acostasse.

Num dos primeiros dias de utilização do novo carro, ao passar pelo Largo Maria da Fonte (a estátua da libertadora minhota, cuja pertinência num lugar central de Luanda era realmente discutível, tinha sido substituída por um tanque de guerra, razão pela qual todos chamavam ao lugar o Largo Maria do Tanque...), sou mandado parar por uma operação policial, de controlo de tráfego.

- O camarada pode mostrar se os "piscas" funcionam?

Claro que funcionavam. O guarda era jovem, delicado, com uma atitude bem simpática.

Mas a cena era surreal. Ali estava eu, com um carro novinho em folha. a ser fiscalizado (depois dos "piscas" foram os "stops" e sei lá que mais), quando, mesmo ao lado, passavam viaturas sem portas, muitas sem pára-choques, algumas sem pára-brisas, outras de faróis "descaídos" por acidentes.

Diga-se que, na Luanda desse tempo, as dificuldades eram imensas, faltava tudo, era um milagre encontrar uma peça de substituição para qualquer veículo, qualquer coisa de natureza material (a começar na alimentação) só era possível de obter através de "esquemas" ou de conhecimentos, nesse caso com quase garantidos pedido de retribuição de favores, a surgirem mais tarde. As escassíssimas lojas abertas estavam quase vazias, às vezes com alguns objetos inúteis, apenas "para encher montra".

Eu levava com grande bonomia a inspeção, tanto mais que de nada valia ter outra atitude. E a "check-list" ia prosseguindo. A certo ponto, satisfeitos até aí todos os requisitos de segurança de tráfego, o "camarada polícia" (nesse tempo, todas as pessoas eram tratadas por "camarada", recordando-me mesmo de uma testemunha de um roubo que, na televisão, se referiu ao "camarada ladrão"...) teve uma última ideia:

- O camarada tem triângulo?

Sabia lá! Fui à traseira do carro e procurei, junto à roda sobressalente. Qual quê?! Os dinamarqueses tinham-se esquecido de pôr um triângulo no carro!

- O camarada sabe que é ilegal circular sem triângulo?

Eu sabia, mas também sabia que, com ou sem triângulo, o meu novo carro oferecia mil por cento mais condições de segurança do que tudo o que, de mecânico, se movia à nossa volta, desde os automóveis à temíveis "Ifas", uns camiões da RDA que, vistos de frente, estavam sempre inclinados para um dos lados ("sempre para a esquerda", assegurava, grave e irónico, o Chico Neto) e cujo sistema de travagem tinha regulares e trágicas deficiências.

- Tem razão, camarada. Não tenho triângulo. Tenho de comprar um. Onde é que se eles se vendem?

A ironia era pesada. Talvez só a alguns largos milhares de quilómetros de Luanda, num país estrangeiro, fosse possível encontrar uma loja onde um triângulo de pré-sinalização pudesse ser adquirido.

O jovem polícia negro fez um largo sorriso, compreensivo, e lançou, amigavelmente:

- Vá com Deus, camarada!

quarta-feira, 2 de junho de 2021

A vida da RTP


A partir de ontem, a RTP passou a ter uma nova administração. Preside ao Conselho de Administração Nicolau Santos, um jornalista credenciado, com anteriores cargos de elevada responsabilidade desempenhados em órgãos privados e públicos de comunicação social. Compõem ainda a administração Hugo Figueiredo e Ana Dias Fonseca, que já integravam a anterior administração, a qual, nos últimos seis anos, havia sido chefiada por Gonçalo Reis.

Recordo que, desde 2015, num modelo de governação desenhado pelo então ministro Poiares Maduro e aprovado maioritariamente pela Assembleia da República, a administração da RTP passou a ser designada por um Conselho Geral Independente (CGI), um órgão integrado por seis personalidades - duas indicadas pelo governo, duas pelo Conselho de Opinião (um órgão com 32 membros, designados por diversas entidades) e duas outras cooptadas pelos quatro primeiros.

O CGI, um órgão hoje com paridade de género, presidido por um prestigiado professor de Direito, o doutor José Carlos Vieira de Andrade, é composto por personalidades muito diversas, na sua formação e perfis pessoais, pelo que a unanimidade que sempre tem estado patente em todas as suas decisões constitui um sinal importante do rigor que marca o seu trabalho.

Desde 2018, tive o gosto de integrar o CGI, tendo assim sido co-responsável pelas escolhas feitas para duas sucessivas administrações da RTP.

No ano de 2018, foi renovado o mandato de Gonçalo Reis e escolhemos, através de um processo de seleção que implicou o recurso a uma empresa de recrutamento de recursos humanos, os dois restantes administradores. Dos vários nomes possíveis que então considerámos, foram selecionados, atendendo aos seus perfis e currículos, os nomes de Hugo Figueiredo e de Ana Dias Fonseca. Entre 2018 e 2021, eles formaram, com Gonçalo Reis, a administração que passou a conduzir a RTP.

Três anos mais tarde, para a escolha da nova administração, no mandato de 2021 a 2023, o CGI decidiu seguir uma metodologia diferente: abriu a possibilidade ao surgimento de candidaturas, quer espontâneas, quer estimuladas, a serem-lhe apresentadas através de uma outra reputada empresa especializada em recrutamento de recursos humanos, que o CGI contratou para o assessorar.

Não se tratava, contudo, como algumas notícias menos bem informadas foram adiantando, de um qualquer concurso, nem sequer de uma seleção ou “short list” elaborada pela empresa contratada. A esta pediu-se apenas que recolhesse e apresentasse ao CGI todas, repito, todas as candidaturas que lhe tivessem sido apresentadas, fosse espontaneamente, fosse através do seu estímulo a que profissionais qualificados pudessem interessar-se em vir a exercer aquela função.

O CGI poderia vir a escolher uma de entre todas essas candidaturas, às quais se pedia a apresentação de um projeto estratégico para a RTP, mas, no limite, não abdicava da possibilidade da escolha final poder ser feita fora desse mesmo universo, se acaso nenhuma dessas candidaturas se revelasse adequada.

Cada candidatura deveria indicar dois nomes para a administração, um dos quais para presidente e outro para vogal, sendo a designação do terceiro elemento, encarregado do pelouro financeiro, feita posteriormente pelo CGI, mas, e só neste caso, sujeita ao parecer prévio e vinculativo do Ministério das Finanças.

Todo este método foi público e divulgado em pormenor pelo CGI, bem como pela própria empresa de recursos humanos que o CGI contratou para o assessorar - à qual não foi pedido, repito, que interviesse minimamente no processo de escolha.

Constatou-se então que surgiu um número significativo de candidaturas, cada uma acompanhada de um esboço de um projeto estratégico para o triénio. Depois de uma detalhada análise das várias candidaturas, o CGI selecionou algumas, que passaram a uma fase de entrevistas pessoais.

No termo deste processo, o CGI - numa decisão por unanimidade, tal como já tinha sucedido em 2015 e 2018, para as anteriores administrações - decidiu indigitar a candidatura apresentada por Nicolau Santos e Hugo Figueiredo, na base de uma avaliação curricular e da qualidade do esboço de programa de trabalho apresentado. Foi, assim, pedido a esta candidatura que apresentasse um projeto para o seu trabalho, o qual teria de seguir as linhas de orientação estratégicas previamente definidas pelo CGI.

Ana Dias Fonseca, a administradora que já assumira o pelouro financeiro no triénio anterior, voltou a ser escolhida e aprovada pelo Ministério das Finanças, para o triénio seguinte. O projeto estratégico apresentado pelos três membros da equipa presidida por Nicolau Santos viria a merecer a aprovação do CGI, pelo que foi apresentada a sua indigitação para a futura administração.

Sem exceção, tudo quanto deixei atrás escrito foi público e clarificado, a quem quis estar atento a este nosso trabalho. Entendi descrevê-lo com algum detalhe porque se tem constatado o surgimento de leituras deturpadas de um processo que se pretendeu e foi conduzido com a maior transparência.

Devo dizer que, no termo deste processo, que foi laborioso, me sinto pessoalmente muito satisfeito por poder ter contribuído para uma escolha que tenho consciência de ter sido feita com o maior rigor.

***

Completei agora mais de três anos ao serviço do CGI. Foi um período muito intenso em que, com algum sacrifício da minha vida pessoal e profissional, e sem qualquer contrapartida financeira, procurei contribuir, de melhor forma que pude e soube, para a ação de um órgão da RTP que tem trabalhado, de forma discreta mas muito eficaz, pela estabilidade e progressiva melhoria da empresa. 

Há já um ano, eu havia anunciado aos meus colegas a minha intenção de sair das funções que ocupava no CGI, em virtude do tempo que isso retirava a outros compromissos e obrigações que entretanto tinha criado. Acedi, contudo, a ficar até ao termo da escolha da nova administração e da avaliação do novo contrato de concessão, tarefas que agora foram concluídas. Sinto-me satisfeito por ter podido dar o meu contributo ao CGI para completar esses objetivos.

A RTP faz parte da vida de todos os portugueses e, por isso, também da minha. Conhecê-la melhor e ter tido ocasião de servi-la foi um privilégio que não esquecerei.

“A Arte da Guerra”


O “estado da arte” na Síria, as consequências das eleições legislativas em Chipre e as tensões em Espanha, em face da nova situação política na Catalunha.

Veja aqui.

Inteligência artificial

 


terça-feira, 1 de junho de 2021

Déjà vu

 


Quantas centenas de filmes americanos vimos neste cenário?

Política paga

A propósito de uma polémica que hoje anda pela Global Media, gostava de lembrar que devemos ser dos poucos países democráticos do mundo onde personalidades políticas eleitas dispõem de colunas de opinião em órgãos de comunicação social. É uma espécie de “tempo de antena” pago...

Quem os levasse para a lavoura!

Querem apostar que vai aparecer gente que protestou contra o laxismo “inconcebível“ praticado na festa do Sporting que agora se vai indignar pelo rigor “inaceitável” decidido para os santos populares? Na minha terra diz-se: “Quem lhes atasse um arado!”

A Malta do Chipre

Agora que, por lá, houve eleições, regressou a mania de falar “no“ Chipre.

Estou ansioso pelo sufrágio em La Valetta, para saber dos resultados “na” Malta.

A diplomacia e as touradas


As touradas são uma questão que, claramente, divide o país, como agora, uma vez mais, se está a ver. Não é uma tema esquerda-direita, porque conheço muito boa gente de esquerda que adora uma boa "faena" e figuras conservadoras que detestam a "festa brava".

No que me toca, e desde há muitos anos, sou abertamente contra as touradas. As razões de ser desta posição, que se foi maturando com o tempo, não são para aqui chamadas, nem as vou discutir.

Um dia de 1997, quando negociava em nome de Portugal o Tratado de Amesterdão, o negociador-chefe espanhol veio ter comigo pedindo o meu co-patrocínio para "atenuar" um Protocolo, proposto por um grande número de Estados, para ficar em anexo ao tratado, relativo à proteção e ao bem-estar dos animais. Convicto de que tinha em mim um colega "aficionado", explicou claramente a motivação da iniciativa do seu governo e disse-me que estava certo de poder contar com o meu apoio para introduzir uma salvaguarda nesse protocolo, de forma a evitar que as touradas fossem afetadas.

Lembro-me de ter sorrido e de lhe responder qualquer coisa como isto: "Estás muito enganado! Detesto touradas e toda a suposta "cultura" à volta delas. Mas vou apoiar o que me pedes. Não porque tenha a menor instrução nesse sentido do governo de que faço parte, mas porque sei que, se o não fizesse, podia vir a desencadear em Portugal um debate sem fim. Por isso, estarei contigo a defender o "statu quo" ".

E lá está hoje, anexo ao Tratado de Amesterdão, o Protocolo nº 33 que assinala que, na aplicação de diversas políticas comunitárias, "serão tidas plenamente em conta as exigências em matéria de bem-estar dos animais". Logo de seguida, porém, e ainda na mesma frase, a disposição é diluída com o seguinte texto: "respeitando simultaneamente as disposições legislativas e administrativas e os costumes dos Estados-Membros, nomeadamente em matéria de ritos religiosos, tradições culturais e património regional". Outros negociadores, por diversas razões, juntaram-se a esta "frente ibérica". Lembro-me dos franceses, porque as touradas são "sagradas" numa faixa geográfica que vai da zona basca francesa à Camargue, já na Côte d'Azur.

Não tenho esta pela minha "finest hour" enquanto negociador europeu, mas eu não estava ali em representação das minhas ideias.