segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Mudar de cenário

 

Esta é uma semana que começa com bastante trabalho. Nada melhor do que um cenário calmo para o realizar.

domingo, 29 de agosto de 2021

Conversa leve

“Olha lá! Agora deu-te para só escrever sobre coisas levezinhas?” O remoque veio pelo telefone, ontem, de um daqueles amigos em cujos ombros, com a idade, parece ter caído o peso do mundo, que andam com “ar grave e sério”, como o Porto Sentido do Rui Veloso, talvez por frequentarem demasiado Boaventura Sousa Santos ou António Barreto, dependendo do tremendismo apocalíptico por que optem. Ler-me sobre trivialidades - um chá, uma refeição, uma paisagem - parece-lhes quase ofensivo, quando há gente a morrer com bombas em Cabul, quando o clima mundial se degrada e ninguém faz nada de jeito, quando ainda não sabemos se Ricardo Salgado já terminou o périplo pela Sardenha e outros temas magnos, como a atualidade de certas epístolas que falam de senhoras ou o “mood” no congresso socialista em zona de banhos. Alguns desses amigos, que têm a mania que me conhecem, ainda se dão ao luxo de correr o risco de levar a sério o que eu digo, coisa de que eu próprio há muito me deixei.

sábado, 28 de agosto de 2021

Tea time


Da janela do quarto onde eu dormia na casa da minha avó paterna, onde hoje funciona uma escola de música, avistavam-se, lá ao alto, o templo de Santa Luzia e o hotel.
  
Por um milagre da perspetiva, como constatará quem andar por Viana, a posição relativa dos dois edifícios no cenário vai variando, quando se olha para o monte, dependendo do lugar de onde se está. Acho que os vianenses nunca notaram muito isso. Dessa janela da minha infância, o hotel via-se à e
direita, isso sei eu bem. 

Nesses tempos de miúdo, lembro-me de ouvir o meu pai dizer que o hotel estava sempre cheio de estrangeiros. Ingleses, é o que me ficou de ouvido. Talvez por isso, o chá por ali é sempre bom, como é sempre bom tomar chá por ali.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

O conselho no Concelho


Passei lá, hoje, naquela pequena praça no centro dos Arcos de Valdevez. E lembrei-me de uma cena, ali ocorrida, vai para 50 anos.

Era um tempo em que rareavam informações escritas sobre os bons restaurantes que havia pelo país. Apenas “A Mosca”, o suplemento que vinha, aos sábados, com o “Diário de Lisboa”, fazia esse “serviço público” sobre a capital e arredores. No resto, vivia-se do “boca-a-boca” de conhecidos, de preferência se fossem conhecedores. 

Um dia cinzento de outono, íamos dois casais a passar, de carro, no meio dos Arcos de Valdevez, bem tarde sobre a hora do almoço. Já não dava para ir à “Miquelina”, em Paredes de Coura (onde até o “Conselheiro” já se foi), nem havia tempo para um salto ao “Panorama”, em Melgaço (que também entretanto se esfumou).

Onde diabo se podia comer por ali? Olhei à volta e vi um cavalheiro num passeio. Tive um pressentimento e disse, para quem me acompanhava: “Aquele é o tipo certo para nos indicar o melhor restaurante aqui perto”. Meu dito, meu feito! Saí do carro e fui falar com ele. Um minuto depois, regressei e, com um “já sei!”, arranquei, com um ar decidido, pela estrada para Monção.

Uma onda de curiosidade instalou-se nos meus companheiros de jornada: porquê aquele tipo? Foi então que expliquei, sobranceiro, com uma elaborada sociologia de pacotilha, uma regra acabada de criar, numa ciência gerada por um estado gastronómico de necessidade. Desde então, tenho-a utilizado, em especial no estrangeiro (cá pelo país, já não preciso de indicações), quando, por um qualquer azar das arábias, arribo a uma localidade e não levo comigo um guia de confiança (e não me falem nunca do inútil “Tripadvisor”, por favor!). 

Qual é essa regra? Deve perguntar-se um conselho para refeiçoar a alguém que cumule quatro requisitos básicos: que tenha mais de meio século de vida (um saber de experiência feito), que seja gordo ou, no mínimo (como o leite) meio-gordo (há lingrinhas bons garfos, mas são raridades descartáveis), que tenha um ar de pessoa abastada (alguém que tenha cabedais para ir com frequência às boas mesas da sua terra) e, finalmente, que esteja trajado com bom gosto (os abrutalhados, mesmo que tresandem a dinheiro, não servem para este teste!). 

De preferência, alguém que ainda use gravata, evitando sempre essa malta modernaça, de camisa aberta até ao oitavo botão, que logo nos recomendará um lugar de sushi e coisas assim, por cozinhar, ou as doses homeopáticas, em pratão imenso, de uma “nouvelle cuisine” para matar cara a fome. Essencial é que seja sempre pessoal que se veja, à légua, que gosta de uma bacalhauzada à maneira, de um bom cabrito, de uns “leves” rojões, de uma feijoada bem apurada, tudo lindamente regado. Gente ainda com aspeto de quem pode facilmente fechar a cena gastronómica com uma bagaceira velha ou um malte de qualidade!

Com os anos, somei um quinto critério, que pode ser cruzado com os anteriores e que, neste período eleitoral em que estamos, talvez convenha ser lembrado: perguntar qual é, na localidade, o restaurante preferido do presidente da Câmara. É que este, por gosto próprio ou por ter sempre de convidar em serviço para sítios decentes, é obrigado a fazer as escolhas mais adequadas. Tudo somado, garanto, nunca falha!

O que é que o homem dos Arcos de Valdevez nos recomendou, naquele dia sombrio? O excelente “Costa do Vez”, onde entretanto regressei mais vezes e que parece que continua a dar cartas por ali. (Hoje, não precisei: vinha de uma bela refeição no magnífico “Carvalheira”, na sua bela segunda encarnação, em Fornelos, na estrada de Ponte de Lima para Braga). E lá continuei, pela lindíssima estrada do Extremo, por este espetacular Alto Minho, que alguns sulistas teimam em ainda não conhecer.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

“A Arte da Guerra”


A evolução da situação no Afeganistão, as eleições presidenciais em S. Tomé e Príncipe e a tragédia política e humanitária que envolve o Haiti são os temas que, esta semana, abordo com o jornalista António Freitas de Sousa, no programa sobre temas internacionais, “A Arte da Guerra”, na plataforma multimédia do “Jornal Económico”.

Pode ver aqui: https://fb.watch/7CAFdpj73s/

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Há almoços grátis?


Um dia, vivia eu no Brasil, recebi um telefonema de Júlio Miranda Calha, à época deputado socialista. Havíamos coincidido, anos antes, num mesmo governo.
  
Perguntou-me se acaso eu tinha intenção de vir a Portugal, numa data próxima. Por mera coincidência, contava ir na semana seguinte. “Gostava de o convidar para almoçar”, disse-me. Não perguntei o motivo desse interesse. Ficámos de combinar o local.

Não éramos íntimos, mas tínhamos uma boa empatia pessoal. O Júlio, infelizmente já desaparecido, era uma pessoa discreta, sempre sorridente, com humor, um homem moderado, ponderado e sério, bastante estimado pelos seus adversários políticos. Que quereria ele de mim? 

Chegado a Lisboa, numa manhã de sábado, comprei o “Expresso” (foi já há muito tempo: o “Expresso” ainda saía ao sábado…) Trazia uma entrevista com o Júlio Miranda Calha, que o jornal anunciava como coordenador do PS para as próximas eleições autárquicas.

Ainda nessa noite, jantei com o Henrique Cayatte e com o António José Massano no “Café de São Bento”. Já nem sei bem porquê, veio à baila a entrevista do Miranda Calha. Eu referi o almoço que iria ter com ele. Não sei qual daqueles meus amigos disse: “Às tantas, ainda te vai convidar para candidato autárquico!” Passei o resto do bife a matutar no assunto.

Eu já tinha titulado uma candidatura à presidência da Assembleia Municipal de Vila Real, anos antes, como independente, numa lista do PS. Fui então derrotado por Passos Coelho. Não é esse em quem estão a pensar, mas o pai dele, um homem muito afável com quem, a partir daí, estabeleci uma excelente relação pessoal. O PSD era então a força dominante na autarquia. Eu costumava dizer que, em Via Real, “a direita estava no poder desde a ‘pedra lascada’ “. Os meus amigos “do outro lado”, que sempre os tive e tenho, nunca pareceram apreciar a minha graça pré-histórica, ainda hoje estou para saber porquê…

Estaria o PS a pensar em mim para alguma Câmara? A ideia assustava-me, pelo absurdo. Tinha a minha vida profissional bem estabilizada. Acabado que fosse o posto de embaixador no Brasil, iria para outro país e, depois disso, aposentado do serviço público, regressaria calmamente a Lisboa, com data marcada, talvez para dar aulas numa universidade ou fazer outras coisas que me apetecesse e a vida me proporcionasse. A última das que me nunca me passaria pela cabeça era ser autarca, para o que não tinha a mais ínfima vocação. Aliás, não me via a fazer rigorosamente nada na política ativa, dessa ou de outra natureza. Essa porta estava definitivamente fechada na minha cabeça, por muito que alguns continuassem a pensar o contrário.

Estimulado pelos meus dois amigos de mesa, já tão curiosos como eu, decidi telefonar, dali mesmo, ao Miranda Calha. “Ó Júlio! Por acaso, o almoço que querer ter comigo não tem a ver com algum tema autárquico, não?”. Do outro lado, a reação foi a temida: “Por acaso, tem”, disse-me ele. “Então, meu caro amigo, é melhor anularmos o almoço. É que em nenhum cenário, mesmo nenhum!, estou disponível para exercer cargos autárquicos”.

O Júlio Miranda Calha deve ter então percebido que estava equivocado quanto à minha potencial disponibilidade. Mas ainda arriscou: “Mas você não comprou, recentemente, uma casa em Vila Real?” De facto, eu tinha trocado por outro, meses antes, um andar de que ficara proprietário, pela morte do meu pai, mas isso estava muito longe de poder fazer presumir a alguém que eu iria viver para lá. E como é que ele tinha tido conhecimento disso? Nunca soube quem teria “vendido” aquela ideia ao Júlio Miranda Calha. Talvez o António Martinho, que estaria ”no segredo dos deuses”, possa agora esclarecer alguma coisa, se quiser…

Lembrei-me desta história ontem, ao assistir ao debate televisivo com os quatro candidatos à presidência da autarquia de Vila Real. Cidade que está hoje muito bem servida nessa matéria. E onde, daí a pouco, vou jantar. E vou pagar esse jantar, ao contrário do almoço ”grátis” que o Júlio Miranda Calha me ia oferecer e que me podia ter saído bem caro…

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Filosofias


“Então quando é que vai de férias?”, perguntei à senhora da loja chinesa. “O patrão não dá férias!”, disse-me, a rir, sabendo eu que ela é a patroa de si mesma. E, mais a sério: “Eu não tenho idade para ter férias, agora tenho idade para trabalhar. Quando for velha, terei férias para sempre”. Filosofias de vida.

domingo, 22 de agosto de 2021

“Mon Oncle”


Em 1958, estava eu a entrar para o liceu, saiu o extraordinário filme “Mon Oncle”, de Jacques Tati. Hoje, esta imagem reapareceu, já nem sei bem porquê, nas redes sociais. E dei por mim a recordar que, há cerca de uma década, quando eu vivia em Paris, foi desaconselhada a exibição pública desta cena do filme. Porquê? O homem ia a fumar, a criança ia sentada de forma insegura e sem capacete, um velhote levava um miúdo de bicicleta, sabe-se lá para onde e para quê…

Testem com algumas pessoas este caso. Verão que há logo quem diga: “A verdade é que é pouco pedagógico estar a divulgar em cinema imagens de pessoas a fumar, porque é uma promoção subliminar de um atentado à saúde”; ou “Mostrar uma criança a ser transportada numa bicicleta em condições de muito escassa segurança constitui uma forma de normalizar situações de risco físico que a educação cívica procura combater”; ou ainda “A ocorrência, muito mais vezes do que se supõe, de atos abusivos contra crianças, por parte de pessoas mais idosas, mesmo de familiares próximos, recomenda que se procure verificar sempre se essa convivência inter-etária se processa em quadros comportamentais regulares e autorizados”.

A obsessão virou doutrina e ai de quem hoje se ria destes preconceitos! O “politicamente correto” passou a policiar-nos. É esta a sociedade do futuro. Habituem-se!

sábado, 21 de agosto de 2021

Agosto


O que eu tenho, nestes dois dias, descansado da canseira das férias na praia! E dormido! O regresso a Lisboa foi um bálsamo. A cidade está magnífica, menos barulhenta, com lugares para estacionar, com a esmagadora maioria das lojas abertas. Até os restaurantes têm lugares e, como há menos turistas, a simpatia e a disponibilidade aumentaram. Há menos “aceleras” na minha rua!

Há anos que trago comigo a ideia de passar metade do mês de agosto em Lisboa. Depois, acabo por nunca cumprir essa promessa íntima. Deixo isto aqui escrito, para ver se, para o ano, me lembro! 

A ordem alternativa


O que, por estes dias, ocorre no Afeganistão, somado ao desafio colocado pela China, tendo à mistura a profusão de outros modelos autoritários, onde avulta, pela sua importância, a Rússia, parece revelar que estamos a assistir a um tempo inédito de desafio à ordem liberal que, desde a Segunda Guerra mundial, vinha a funcionar como matriz de referência da sociedade internacional.

Verdade seja que o mundo nunca foi democrático. Parte muito importante dos Estados que integram as Nações Unidas está longe de poder ser vista como cumprindo “os mínimos”, no que toca aos requisitos das regras do Estado de Direito e dos padrões da democracia dita liberal.

A ONU, embora esteja imbuída, na Carta e nos termos de referência das suas instituições, de uma filosofia profundamente democrática, nunca exigiu que, para ser seu membro, um país tivesse de ser regido por um “template” dessa natureza. É claro que os Estados se comprometiam a aderir aos princípios da Carta, mas foi sempre óbvio que cada um o fazia à sua maneira, com a eventual reserva mental a não ser nunca tida como fator de exclusão.

Há, contudo, uma grande e substancial diferença entre o que se passava há uns anos e aquilo a que agora assistimos.

Num passado não muito longínquo, muitos dos países que, flagrantemente, estavam longe de ser democracias faziam um constante esforço para serem vistos como tal. Praticamente, nenhum deixava de se afirmar como democrático, colocando embora, por vezes, um adjetivo qualificativo ao modelo de democracia que dizia seguir. As várias “democracias populares” foram disso um flagrante exemplo.

A generalidade das autocracias, nomeadamente nos terrenos multilaterais onde eram avaliadas, mantinha-se, por sistema, “à defesa”, procurando desmontar as acusações de falta de legitimidade das suas instituições e práticas internas. Isso era muito evidente nas estruturas de avaliação de Direitos Humanos da ONU, como também o era na exigência colocada pela União Europeia nos processos de diálogo bilateral ou bi-regional.

Cada um era democrata à sua maneira, mas nenhum parecia ter a coragem de pôr abertamente em causa essa ordem ideal de referência. A democracia liberal podia estar longe de ser a regra universal, mas todos tentavam escapar ao “name and shame” de serem vistos a confrontá-la.

Nos últimos anos, tudo isto está a mudar. A simples “bondade” intrínseca aos modelos democráticos, no formato que se havia tornado uma banalidade no mundo ocidental, começa a ser posta em causa e a ser contestada. Parece estar a fazer o seu caminho um novo paradigma de gestão política das sociedades, menos assente no imperativo da aferição aritmética da vontade popular, responsável pela voz diferenciada das entidades políticas de representação de projetos - os partidos. O que se observa é a emergência de modelos elitistas de direção dos Estados, assentes basicamente em juízos de eficácia da ação desenvolvida. No fundo, a ideia é relativamente simples: a vontade democrática, expressa em eleições, não dá garantias de produzir uma gestão política de qualidade, pelo que é preferível confiar noutros tipos de seleção dos dirigentes, imbuídos do sentimento do “bem comum”.

Este caminho alternativo tem três básicas decorrências. Desde logo, um processo de seleção de lideranças mais “aristocrático”, desconfiando do puro sufrágio universal. Depois, uma contestação ao caráter sacrossanto da ideia da separação de poderes, tida como um empecilho descartável. Finalmente, um controlo apertado da diversidade opinativa expressa na comunicação social. O novo tipo de liderança “sabe melhor” interpretar o que é o interesse comum do que a “fragilizante” alternância provocada pelos acasos do voto.

O mundo está a mudar muito mais rapidamente do que, há poucos anos, parecia poder vir a acontecer. Estamos no seio de uma batalha de ideias, de convicções, de projetos. A grande questão está em saber se esta ordem alternativa de valores terá condições para ganhar maioritariamente a consciência ou a apatia dos povos, condenando à relativização os processos democráticos, que muitos pensavam corresponderem a um patamar superior de representação cívica. Logo veremos.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

“A Cidade Imaginária”


Correspondendo a sugestões de amigos e leitores, decidi publicar um livro com crónicas, histórias e memórias, de muito diversa natureza, que cruzam episódios que, direta ou remotamente, se ligam Vila Real, a terra onde nasci. 

Trata-se de textos que foram surgindo em jornais, aqui no Facebook e, sempre, no meu blogue “Duas ou Três Coisas”, ao longo dos últimos anos. 

O grafismo da capa é de Adelaide Serra e prometo um exemplar do livro à primeira pessoa que adivinhar o motivo que ali é ressaltado. Comecem pela cor…

Alguns exemplares do livro, que tem uma tiragem limitada e surge sob a chancela da Biblioteca Municipal de Vila Real, estão, desde hoje, à venda na “Livraria Ler”, rua Almeida e Sousa, 24, no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, em Lisboa (tlf. 213 888 371).

No final deste mês, haverá também exemplares disponíveis na Livraria e Papelaria Branco (259 322 839) e, posteriormente, na Livraria Traga-Mundos (259 103 113), ambas em Vila Real.

Na sexta-feira, dia 3 de setembro, no espaço fronteiro à Biblioteca Municipal de Vila Real, pelas 21.30 horas, terá lugar uma sessão de lançamento. 

Todos quantos quiserem ali aparecer serão muito bem vindos, sendo observadas as devidas medidas de proteção.

A América está de volta


“America is back” foi a frase usada, há meses, por Joe Biden, para assinalar ao mundo, em especial aos seus aliados, que o interregno traumático de Trump estava encerrado e que os EUA reassumiam, com convicção, o seu papel de potência com ambição de liderança democrática global, com retoma de atenção aos seus parceiros e ao mundo multilateral.

A mensagem era também para os adversários, em especial para a China e Rússia, que, com ela, eram alertados para a nova determinação de Washington em estruturar uma agenda assertiva de interesses com que tinham que contar.

“America is back”, contava poder dizer, dentro de dias, com serenidade, Joe Biden, mas, agora na volta do Afeganistão, onde, nos últimos 20 anos, os EUA haviam empenhado tropas, vidas e muitos recursos.

Tudo começou como uma ação legítima, para a qual foram arregimentados mais de 40 países, no pós 11 de setembro de 2001, com o objetivo de erradicar o terrorismo do Al Qaeda. Depois, para que essa ação tivesse um efeito consistente a prazo, os EUA haviam desenhado um projeto de “State-building”, destinado a travar o integrismo islâmico e construir instituições sustentáveis para um Afeganistão democrático.

Todo esse esforço ruiu, como sabemos, em escassos dias, de uma forma clamorosa.

Vão por aí fervilhar análises sobre as lições a aprender com este falhanço, que se soma ao saldo desastroso da intervenção no Iraque, dois anos depois do Afeganistão, dessa vez numa operação sem a menor legitimidade, que viria a ter como saldo uma trágica desregulação securitária do Médio Oriente, dando origem ao Daesh, contribuindo para a tragédia na Síria.

Neste rescaldo da humilhação, que é americana mas também dos aliados, que ficou simbolizada, no passado domingo, com a queda mansa de Cabul e do governo que se percebeu que só fazia de conta que existia, vale a pena dizer duas coisas, imagino que pouco populares.

A primeira é que foi justa e correta a decisão de ir para o Afeganistão em 2001, procurando liquidar a Al Qaeda e, de caminho, derrubar o poder talibã que o protegia. É importante nunca esquecer as imagens das Torres Gémeas a cair. A luta contra o terrorismo islâmico não era uma guerra americana, era e é também a nossa guerra.

A segunda é que, mesmo que constatemos ter sido um fracasso a sua sustentação, a sociedade que foi tentando criar, ao longo destas duas décadas, no Afeganistão, era um projeto decente e meritório. Muitos afegãos viveram, por bastantes anos, na liberdade que a guerra permitiu, houve uma inteira geração que gozou de democracia, as mulheres recuperaram os seus direitos, havia liberdade dos média, a educação foi expandida e o país usufruiu de fortes investimentos em infraestruturas, que o conflito interno esteve longe de destruir.

As coisas são hoje o que são, estando nós ainda longe de saber o que virão a ser no futuro. Mas o evidente colapso do esforço feito no Afeganistão não nos deve afastar da ideia, talvez mesmo potenciada pelo choque das imagens que dali agora nos chegam, de que, com todos os erros cometidos, havia uma intenção justa na intervenção que foi tentada.

Os piores dias da administração sob tutela americana irão ser vistos como um sonho bom se comparados com o pesadelo da sociedade talibã que aí vem.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

“A Arte da Guerra”


Em “A Arte da Guerra”, a conversa semanal sobre temáticas internacionais com António Freitas de Sousa, na plataforma multimédia do “Jornal Económico”, voltámos, como não podia deixar de ser, ao Afeganistão. Abordámos também as discretas negociações entre o governo venezuelano e a oposição, que têm lugar no México sob mediação norueguesa, bem como as prespetivas do processo de alargamento da União Europeia aos Balcãs.

Pode ver clicando aqui.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Entretanto, em Cabul…


 

“Exit strategy”

 


E Guantanamo?

Sei que pode não ir com “l’air du temps” perguntar isto: será que alguém já se lembrou dos prisioneiros que continuam detidos em Guantanamo, alguns há quase 20 anos, sem direitos e sem julgamento?

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Portugueses em Cabul


Há pouco, ouvi a informação de que havia quatro portugueses a procurar sair de Cabul. Graças à cidadania europeia, o nosso país tem a possibilidade de coordenar com os seus parceiros as medidas de proteção a esses cidadãos. Se, nas atuais circunstâncias, a operação para a sua retirada é muito difícil, podemos imaginar o que devem estar a passar as diplomacias de Estados que não tenham essa cobertura institucional.

A vida ensinou-me que há portugueses em toda a parte.

Costumo contar uma história de um concurso que, em 1980 ou 1981, lançámos na embaixada portuguesa em Oslo. Era uma sorteio de uma viagem a Portugal, com programa de visita, patrocinado pela TAP, à qual podiam concorrer cidadãos inscritos na nossa secção consular, enviando um postal (ainda há postais?).

Feito o sorteio, verificou-se que o nosso compatriota vencedor residia em Vadsø, uma pequena e distante localidade bem acima do Círculo Polar Ártico, não longe da fronteira com a então União Soviética.

Telefonei a informá-lo e a combinar a logística. Por curiosidade pessoal, perguntei-lhe como diabo fora parar àquele remotíssimo lugar, onde, até ao momento, não se sabia residirem portugueses.

"Não, não há cá mais nenhum português. Quer saber como vim? Olhe, eu estava a trabalhar numa fábrica no norte do Irão. Havia por lá um norueguês que me disse que aqui havia um trabalho bem pago, também numa fábrica. Ele fez o contacto e eu vim. Fácil, não é?"

É tão "fácil" esta fantástica aventura dos portugueses pelo mundo...

Uma fotografia para a História

 


domingo, 15 de agosto de 2021

Soldados


Hoje é o dia certo para homenagear o sargento comando Paulo Roma Pereira e o soldado pára-quedista Sérgio Pedrosa, que deixaram a sua vida no Afeganistão.

Notícias de Cabul

Um dos efeitos mais nefastos da vitória dos talibãs é o grande estímulo que ela oferece aos extremistas islâmicos um pouco mundo.

América

A opinião pública americana continua a não ter uma real consciência do desprestígio que os seus atos ou omissões, no Iraque ou no Afeganistão, induzem na imagem do país pelo mundo. Os americanos sabem que parte do mundo os odeia, mas continuam a achar que isso se deve exclusivamente à inveja pelo seu poder.

Müller


Ainda a tempo de lembrar que morreu hoje um dos mais geniais futebolistas de sempre, o avançado alemão Gerd Müller. Muitas vezes Messi me fez recordar Müller.

Canotilho



Ainda a tempo de lembrar que, no dia de hoje, faz 80 anos uma das figuras cimeiras do Direito português, Joaquim Gomes Canotilho.

A hora da diplomacia


Chama-se diplomacia à técnica (chamar-lhe arte é pedante) de interlocução que os Estados usam para tentar compor situações internacionais de rutura que se situam para além (ou aquém) dos conflitos militares. Quando as coisas são o que são, quando é em absoluto indispensável encontrar um modo de entendimento entre contrários, que tente resgatar um mínimo de paz, para salvaguar o que for possível, no presente ou no futuro, entram em cena os diplomatas. 

No Afeganistão, o mundo ocidental, convencido da valia do seu modelo, procurou, ao longo de duas décadas, apoiar quantos ali afirmavam partilhar essas ideias. Falhou. Forças apoiadas em outras ideias (boas ou más, isso não é relevante agora) acabam de suplantar, no plano militar, os defensores do modelo democrático liberal - por muitas leituras explicativas (históricas, sociológicas e outras) que alguns sobre isso venham agora a fazer, em torno das razões por que isso sucedeu.

É que o mundo, onde não há becos, não acabou ali! O dia de amanhã é que vai ser diferente. Agora, com todo o sentido de compromisso possível, vai ser necessário dialogar com quem passa a mandar no Afeganistão, sendo em absoluto indiferente a opinião que se possa ter sobre os novos ocupantes do poder. Chama-se a isso realismo e pragmatismo, que sempre foi a chave para enfrentar situações desta natureza. A vida das pessoas está para além das ideologias. Regressou a hora da diplomacia.

Viva setembro!


Eu sei que é o fim de junho que assinala a metade do ano. Tudo bem, se atendermos à cronologia. Mas, para mim, “de toda a vida” (como dizem as pessoas “bem“, para designar os amigos que convêm), ficou-me, no meu calendário íntimo, a data de 15 de agosto, como a separação de dois tempos bem marcados no ano. O dia de hoje é aquele em que iniciamos psicologicamente o desmontar da “barraca” das férias, para o regresso, daqui a duas semanas, a um quotidiano mais organizado, antecedido de resmas de compromissos em agenda. Já há muito abandonei a ilusão de que o início de janeiro representa o “agora é que é” das coisas para fazer. Esse é um mero mito do calendário! Setembro é que é: aquele almoço atrasado com um amigo, aquilo que ando há tempos para encomendar, aquela pessoa a quem tenho de lembrar aquilo a que se comprometeu, a visita que tardo em cumprir. A minha lista de “coisas para fazer” está já bem cheia, com a preguiça destas noites de verão a estimular ideias em torno daquilo que, no fim de contas, sei que acabarei por nunca cumprir em absoluto. Até porque depois vem a chuva, porque “afinal não deu, fica para depois”. Ou porque, caramba!, não me apeteceu, não estive para ali virado, até porque a minha autocomplacência tem vindo a disparar. Mas nem imaginam quanto me contenta a simples ideia de que, lá no fundo, tentei! E tudo tem de ser rápido, porque o Natal está a ir a chegar! 

Rio abaixo

No futebol, recordo-me de querer que a minha equipa perdesse, para ver se me via livre do treinador. Entre os ditos e as entrelinhas, sente-se agora que muitos “companheiros” de Rio fazem figas para ver este PSD derrotado nas autárquicas, pela margem necessária para que ele saia.

Vacinas


O triste incidente que envolveu o vice-almirante encarregado da operação logística das vacinas e o bando de negacionistas e anti-vacinas, em cuja montagem alguma comunicação social conservadora teve forte responsabilidade, acaba por ter um saldo muito positivo. E mais não digo.

Avante, Amareleja!


Espero que a Amareleja, na “etapa“ de amanhã, possa recuperar a camisola “amarel(ej)a” das temperaturas, que tem vindo a consagrar internacionalmente a localidade nos anos passados.

sábado, 14 de agosto de 2021

O primeiro




Lembro-me bem. Era outubro de 1987. Eu tinha ido ocupar um pequeno gabinete individual no terceiro andar do Palácio das Necessidades, situado no cruzamento de dois grandes corredores, dispondo de uma janela para o claustro. Aquele iria ser o meu pouso, por quase três anos.

Verdade seja que esse chamado “terceiro andar”, onde também fica o gabinete do ministro, é, na realidade, o primeiro andar, para quem entra pelo Largo do Rilvas. Sobre ele existe um “quarto andar”, onde se gere financeira e patrimonialmente o ministério. No MNE, os andares contam-se a partir de mais abaixo, ligados por elevadores, que ainda conheci à moda antiga…

Um dia, uma jovem diplomata coincidiu num desses elevadores com um certo ministro. Este, galifão conhecido, perguntou-lhe para que andar ela ia: “Para o quarto”, respondeu ela. Com um sorriso amalandrado, o governante inquiriu, fazendo corar a jovem: “Já? A esta hora?” O ministro terá saído no terceiro andar, em frente ao gabinete que eu ocupava. E ela lá seguiu, para o “quarto”… andar.

Quando aquele invejável espaço me foi atribuído (eu tinha condicionado a aceitação de um determinado convite a poder dispor de gabinete individual), encontrei-o pobremente equipado. Andei assim uns dias a coletar peças, com a cumplicidade de um secretário-geral adjunto que fez o favor de me ajudar: sacou um sofá à Inspeção, um armário que estava junto ao Pacto, duas cadeiras da EOI, tudo sempre “bifado”, sob a sua bênção oficial, nas discretas horas do almoço. Escolhidas as peças, de seguida pedia-se ao Montez, o carregador oficial da casa, para as encaminhar para a minha sala. E assim montei, em poucos dias, um gabinete razoavelmente ”asseado”, ainda alindado com uns quadros tirados não sei bem de onde…

No primeiro dia em que cheguei ao gabinete, notei que havia por lá um caixote, num canto, por abrir. Era um computador, um ”286”, não sei se Olivetti, novinho em folha, parecido com o que a imagem mostra. 

Totalmente analfabeto na matéria, coloquei aquilo numa mesa e fui procurar o meu colega Rui Felix Alves, que me constava que sabia da poda. Foi ele quem me deu as primeiras ”luzes” sobre o funcionamento e utilidade daquilo (depois, até hoje, aprendi sempre e só por mim, o que é uma imensa asneira, desde já aviso) e me ajudou a funcionar com a maquineta. Ela acabou por ser a ser primeira das muitas dezenas e diferentes tipos, ao longo destes trinta e tal anos em que passei a ficar totalmente dependente destas tralhas informáticas. Até vir a acabar neste iPad em que agora escrevo, aqui na praia. E só até ao próximo, claro.

Afeganistão


Uma América humilhada não é uma boa notícia para Joe Biden. Mas só não viu o que ia acontecer quem não quis ver. Não foi por falta de aviso dos aliados que esta “exit strategy” falhou por completo.

Alô! Alô!


A divertida série televisiva britânica ”Alô! Alô!”, com 85 episódios, vai passar a ser divulgada com a seguinte advertência: "Esta comédia clássica contém linguagem e atitudes da época que podem ofender alguns espetadores". 

Gosto imenso do desculpabilizante “da época”, expressão que, com toda a certeza, vai também passar a acompanhar a reedição dos livros de José Vilhena.

Aparentemente, alguns estereótipos sobre os alemães, os belgas ou os franceses, talvez somados a referências sexuais tidas como machistas, podem ser desagradáveis para certas almas sensíveis. (Está tudo doido!).

Como Marques Mendes, dou aqui uma notícia em primeira mão: não é provável que as televisões do Afeganistão comprem a série, depois da entrada dos talibãs em Cabul. Se os talibãs de cá já se comportam assim…

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Ao pedal

Vejo um grupo de anónimos ciclistas a fazer o percurso Bragança-Montalegre, sob uma temperatura de cerca de 40°, e dou comigo a pensar: "Se, na vida, eu alguma vez tivesse feito aquela estirada, por mil anos que vivesse, nunca mais ninguém me calava de vaidade!"

Bolas

Anda pelo Twitter uma polémica sobre as Bolas de Berlim nas praias. Só a ignorância que grassa nesses escribas é que os leva a não conhecer a diretiva de harmonização europeia que estatui, desde a queda do muro, que "nenhuma bola pode ser chamada de Berlim se não tiver creme".

Minsk

Lukashenko é o que é. Mas, se estiverem atentos às redes sociais, hão de ver que há por aí um núcleo militante que se mantém lealmente favorável à liderança bielorrussa, um regime que consideram perseguido pelo imperialismo americano e pelos subcontratados da União Europeia.

Um problema

Um grave problema com que a esquerda portuguesa, mesmo sem o saber, está hoje confrontada é o esfrangalhamento da direita.

Bennett


Há uns anos, numa rua de Paris, estava afixado um cartaz para um concerto de Tony Bennett, o clássico "crooner" americano. Fiquei surpreendido, desde logo porque pensava que ele já tinha morrido, mas também, mesmo que fosse vivo, que ainda fizesse espetáculos.

Fiz um comentário à frente, creio, do meu amigo João Durão, que estava por lá de passagem e que me disse: "Eu estou surpreendido é com o otimismo do homem". Julguei que fosse o eterno "sorriso pepsodent" de Bennet que justificasse a frase. Mas o João logo acrescentou: "É que estamos em maio e ele ainda se atreve, com aquela idade, a marcar um espetáculo lá para o fim de novembro..."

Há minutos, li esta notícia. O episódio que contei, tinha-se passado em 2017. Estamos em 2021. Bennett bem resistiu!

Cruzes, canhoto!

Um gato preto atravessou agora o meu jardim. Hoje, não vou passar por baixo de um escadote nem abrir uma tesoura sobre a cama. Já que cheguei a esta idade, convém não provocar demasiado os deuses. É que estamos numa sexta-feira 13. Daqui a pouco, vou entrar no mar com o pé direito.

O gozo

Imagino o gozo com que António Costa deve ter lido a primeira página do Expresso de hoje, ao antecipar a urticária que a sua frase sobre a remodelação (que ele fará apenas quando lhe der na real gana, como é óbvio) provocou. Costa é um epicurista da política e sabe-a toda!

Aventais e coisas assim

É uma demagogia de ”l’air du temps”, a exigência da declaração da pertença à Maçonaria e coisas tidas por congéneres. Mas tão mau do que isso é o facto da lei permitir uma interpretação equívoca que lhe anula os efeitos. Uma triste palhaçada! (Ah! Não sou desses clubes, noto).

De Genebra

Ouvido na praia a alguém que anda a encanitar com o politicamente correto: “Pensando melhor, há que convir que o Afonso de Albuquerque se esteve um pouco nas tintas para as regras da Convenção de Genebra sobre a proteção de civis em tempos de conflito”. 

Esta malta…

Criminalidade impressionista

Se as leis de Lombroso estivessem em vigor, e olhando o aspeto de alguns candidatos autárquicos que andam pelos cartazes, muito haveria que resolver preventivamente, a bem da segurança coletiva.

Mas não devemos ser injustos: os verdadeiros delinquentes têm outro aspeto.

E se logo estivesse assim?

 


Quantitative easing


Descobri há pouco esta fotografia. Sei lá bem porquê, achei que lhe ficava bem o nome de “quantitative easing”.

Então é assim


Restaurantes onde só se consegue ir com cunhas, restaurantes que não atendem o telefone e só aceitam reservas presenciais, restaurantes onde, para jantar, tem de se ir cerca das sete ou depois das dez e restaurantes que, pura e simplesmente, não fazem reservas - esses, para mim, estão definitivamente "out"!

E há tantos mais restaurantes!

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

“A Arte da Guerra”


Os taliban a aproximarem-se do poder no Afeganistão, a queda de Andrew Cuomo na política americana e o facto do mundo parecer impotente para derrubar o poder ditatorial de Lukachenko na Bielorrússia são, esta semana, os temas que discuto com o jornalista António Freitas de Sousa, em “A Arte da Guerra”, na plataforma multimédia do “Jornal Económico”.

Pode ver e ouvir aqui: https://fb.watch/7kYsdy58q3/

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

O império dos sentados


Hoje, publico na Mensagem de Lisboa uma memória do bar Procópio. Pode ler clicando aqui.

A verdade do dia

Olhar e julgar o passado sob o olhar cultural de hoje constitui uma imensa arrogância da presente geração, que se acha detentora da única verdade que merece ser respeitada, não se dando conta que, no futuro, aquilo que hoje tem como definitivo corre idêntico risco de ser posto em causa.

Lazer


Estas férias estão a correr tão bem - sem fazer rigorosamente nada, evitando a menor caminhada higiénica ou qualquer esforço físico que não seja usar o saca-rolhas, com praia apenas q.b. e sempre ao fim da tarde, sem compromissos a prazo de mais de meia dúzia de horas, com uma verdadeira navegação à vista, feita de humores súbitos, em matéria de jantares fora, saltitando de livro em livro sem vontade de acabar nenhum, dormindo sestas para compensar o facto de ir para a cama às quatro ou cinco da manhã, mandando bitaites para as redes sociais sem cuidar da reação das gentes - que ando cá a pensar como transformá-las numa forma permanente de existência. Faço um “crowdfunding” ou será que também há apoios comunitários para este estilo de vida? É que, de facto, para sustentar isto é preciso muita “resiliência”, o irritante vocábulo político da moda para quantos acham que o importante é sair da “zona de conforto”, atitude masoquista que eu nunca arrisco, até porque não me apetece apanhar muito sol. Assim, “carpe diem”, caros amigos, e, sempre que possam, adiem, porque procrastinar é dar asas à preguiça e esta tem de ser muito bem cuidada, porque é uma mais-valia que vale a pena, já a defendia o Lafargue, que aturava a filha e as manias do sogro barbudo, o tal que parece que tinha um amigo que lhe pagava as contas.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

O diabo veste farda


No dia de hoje, em Brasília, a Praça dos Três Poderes voltou a significar Exército, Marinha e Aeronáutica. 

No Brasil, o diabo veste farda.

“Quem lhes atasse…”


O Chega da minha terra natal descobriu que o virus é “uma doença criada na China para destruir o Chega” e que Ventura não tomou vacina porque os socialistas “iam-lhe injetar veneno mal percebessem quem ele era”. 

Da minha terra é também a expressão: ”Quem lhes atasse um arado!”

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Regresso ao passado


Todos os anos, por esta altura, vivo um singular regresso ao passado: em férias, disponho de uma televisão onde só há a meia dúzia de canais da TDT, que não se podem “puxar atrás”, onde um programa ou é visto na hora ou já se foi. 

Ao contrário das novas gerações, vivi tantos anos nesse registo que sinto mesmo uma irónica nostalgia por este forçado “remake”. E como, em geral, cada vez vejo menos televisão, não me faz a menor impressão este retorno ao que foram os anos 90 ou antes disso. 

Se a isso somar ainda três semanas sem wifi, com o preço do 4G a obrigar-me a ser contido no uso da net, posso dizer que o meu quotidiano em férias parece tirado da RTP Memória, aliás, uma das estrelas da TDT.

A teoria do melão

 

Estávamos em fevereiro de 2009. Eu tinha acabado de chegar a França, para aí ser embaixador, saído do Brasil. 

Confrontado com um pedido urgente de parecer sobre uma figura que percebi que um certo lóbi em Lisboa queria, com estranha pressa, nomear como cônsul honorário, num local que não vem agora para o caso, recusei dar a menor opinião. Apenas recomendei que não houvesse precipitações.

Não só era verdade que não dispunha de dados suficientes sobre a pessoa em causa, como, por regra, desconfiava das propostas de nomes de cônsules honorários que me chegavam da capital. Uma longa experiência, alguma relevante e que, ao tempo, era bem recente, mostrava-me que tais indigitações vindas da “sede” correspondiam, a maior parte das vezes, a fretes político-partidários. 

Acresce que, se a nomeação de um cônsul honorário é, em si, um processo relativamente expedito, já o seu afastamento de funções, mesmo em caso de evidente inadequação para elas, é pesado e muito complexo de executar. 

Sei bem do que falo. Não muito tempo antes, no Brasil, eu tinha feito “veto de bolso”, por mais de um ano, a uma nomeação de um cônsul honorário que havia sido decidida pelo MNE, à minha revelia. Lisboa veio a congratular-se, e mesmo a agradecer, essa minha atitude, mas apenas quando constatou que o homem foi condenado a dezenas de anos de cadeia... 

Há hoje, por todo o mundo, gente magnífica no corpo dos cônsules honorários, pessoas de nacionalidade portuguesa ou estrangeira, a cuja dedicação o país muito deve. Mas também há alguma outra que estraga o bom nome dos primeiros e a que o Estado português desejavelmente deve procurar não ficar associado - como os títulos do “Correio da Manhã” às vezes nos lembram. Por isso, aprendi que, ao nomear alguém para cônsul honorário - e eu propus a nomeação de algumas pessoas para essas funções - todo o cuidado e “cross-checking” informativo é pouco.

Hoje, numa limpeza de emails antigos, descobri (coisa rara, porque não guardo quase nada do meu tempo no MNE) o texto do meu telegrama de resposta ao pedido recebido em Paris, há já 12 anos.

Esse meu texto terminava com uma “teoria geral”, recomendando extremo cuidado com essas indigitações: “Dado que sobre os putativos Cônsules Honorários não há, muitas vezes, qualquer indicação prévia quanto à sua disponibilidade pessoal, adequação aos interesses da Comunidade e outros fatores que só a prática pode vir a revelar, a eles se aplica a lógica dos melões: só depois de “abertos” se provará se são bons ou não”.

Disseram-me que o meu telegrama muito enfureceu um pequeno poderzinho político que havia lá por Lisboa. Para a história que importa: a pessoa acabou por nunca ser nomeada.

domingo, 8 de agosto de 2021

O Portugal das pedreiras

 


A tia Ângela


A tia Ângela não era minha tia. Percebo que, à partida, possam achar que só uma desesperante falta de assunto, na “silly season”, me leve a vir aqui falar de uma tia-avó da minha mulher. Admito que seja legítimo que pensem assim, mas só porque têm uma boa desculpa para isso: é que não conheceram a tia Ângela.

E que idade teria a tia Ângela quando eu a conheci? Pensando bem, não devia ser muito mais “nova” do que eu hoje sou. E, no entanto, a senhora, arreliada com eventos do seu matrimónio que não vêm aqui ao caso, tinha, ainda na casa dos seus sessenta, posto um ponto final num longo enlace matrimonial. Nada de especial? Experimentassem fazer isso numa então vila de província, nos anos 70 do século passado! O abalo que aquilo deve ter sido! Os diz-que-disse que não terá provocado! E, no entanto, ela não hesitou: “alea jacta est”.

Tenho para mim que a tia Ângela engraçava comigo, o sobrinho-neto “postiço”, desde que me conheceu, no dealbar do nosso casamento. Imagino que a isso não era indiferente o facto de eu tratar bem a sua sobrinha-neta “legal”.

Verdade seja que eu estava muito longe de ser o único usufrutuário do seu bondoso e permanente sorriso, da sua simpatia e disponibilidade, que sempre se espalhava como um bálsamo por toda a família. Mas reivindico para mim uma orgulhosa quota de responsabilidade nas gargalhadas com que pontuava as nossas divertidas trocas de graçolas.

Ela fingia que se chocava com alguns dos meus ditos mais bizarros, mas, no fundo, dela emanava sempre um registo positivo, de muito boa onda, sem arestas ou a menor acidez. Estar com a tia Ângela, numa viagem ou num restaurante, numa ida aos fados em Alfama ou numa conversa solta num jardim de casa, era um eterno seguro de boa disposição. Se alguma vez houve uma unanimidade na família, a tia Ângela foi sempre essa unanimidade.

Um dia, concretizámos uma ideia ha muito engendrada: levámos a tia Ângela para um tarde de chá com quatro tias, irmãs da minha avó materna, que viviam numa casa que, até ao seu fim, foi uma âncora afetiva da minha própria família. O encontro dessas senhoras, cuja idade acumulada se aproximava dos quatro séculos, foi um momento extraordinário. A tia Ângela e essas minhas tias, como sempre tinhamos pensado que aconteceria, deram-se lindamente, com um toque de cerimónia entre si a conferir uma graça mais ao ambiente. Ali, à volta de uma braseira, com chá, torradas e uma imensa onda de simpatia, registámos um momento para a vida.

Sem surpresas, a tia Ângela, politicamente, era bastante “reaça”, num tempo em que eu era um estouvado esquerdista. Se bem me recordo, sentia-se atraída pelo CDS, coisa comum na região onde vivia, nesses tempos imediatamente após as horas para ela inquietas de Abril. Eu “ameaçava” com imaginários cataclismos políticos, ela ria-se e não me levava a sério. E era ela quem tinha razão.

Hábil e rápida na feitura de renda, tarefa lúdica que lhe enchia as mãos e os dias da reforma de professora, prontificou-se uma vez, a sugestão minha, a executar uma espécie de cortina para uma janela, com a configuração do desenho da cabeça de Karl Marx. E a coisa só não foi avante porque fui incapaz de lhe fornecer a matriz em papel. Ainda bem que o não fiz: não sei bem onde hoje colocaria essa cortina, sem provocar alguns chiliques em alguma da minha vizinhança na Lapa.

A tia Ângela já se foi desta vida há muitos anos. Mas por que será que, sempre que dela nos recordamos, nos sai, a todos os que a conhecemos, um sereno sorriso? Haverá melhor saudade?

Os dias de verão

 


sábado, 7 de agosto de 2021

O dia

Esta coisa de um blogue que, desde há mais de uma dúzia de anos, publica, pelo menos, um post por dia, levanta um sério problema, para manter o “ritmo”, numa jornada em que, ao escriba, não acontece nada que justifique contar seja o que for. “Estão não sucedeu nada?” pergunta o leitor. Salvo ter feito uma excelente sangria, confesso que não tenho nada de especial para relatar. E como agora tenho de ver a maratona masculina, desejo-lhes muito boa noite. 

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Old reds


Agora que tenho barriga e idade para usar aquelas calças "encarnadas" berrantes, com que um certo pessoal lisboeta expatriado aparecia nas festas algarvias, fotografadas pela Olá Semanário, dou-me conta de que nunca terei dessas calças e nunca faço férias no Algarve.

Praia, pois


Tendo a ver a praia como um “conceito”, como agora o são alguns restaurantes armados em “startup” modernaças. Estar de férias “na praia” não significa, necessariamente, ter de ir à praia. Estou de férias “na praia” há uma semana e acontece que, até agora, só por uma vez vi a tal praia, bem como o mar que lhe corresponde, e que aliás está a cinco minutos cá de casa. E não me tenho dado mal, se querem saber.

A propósito do ouro


Anda meio mundo dividido entre saudar o portuguesismo de Pedro Pichardo ou desvalorizar as credenciais lusas do desportista.

É uma discussão que denuncia um país que parece não ter ainda aprendido que sempre se engrandeceu, no espírito e no resto, quando se abriu ao mundo e àqueles que nos procuram - porque gostam de nós, porque de nós precisam, seja lá pelo que for. 

Da mesma forma, muita gente esquece que este país de gente que regularmente salta a sua fronteira necessitou sempre do mundo exterior para fazer a sua vida e até para adubar a glória histórica de que às vezes se reclama.

Por mim, ao ver Pedro Pichardo com as cores da nossa bandeira, congratulo-me com o facto de Portugal ter tido o feliz ensejo de proporcionar a um atleta de exceção, a um lutador e campeão, uma pátria - e mais do que uma pátria de adoção, importa-me que ela seja uma pátria de acolhimento.

Picharro é um extraordinário desportista e acolhê-lo é um privilégio. Mas gostava muito de ver o meu país feliz no dia em que ganhar o ouro da decência - a tratar bem o nepalês das estufas alentejanas, a guineense que se levanta de madrugada para ir limpar os escritórios, o brasileiro que nos serve o café nas esplanadas, o moldavo que passou a jardineiro deste país à beira mar plantado. 

Essa, desculpem lá!, é a medalha que me importa bastante mais!