Mostrar mensagens com a etiqueta Figuras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Figuras. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 22 de março de 2013

O Bertelo e as Finanças


Há dois tipos de gerações em Vila Real. As que conheceram o Bertelo e as que existem depois dele. É para as primeiras que eu aqui escrevo esta memória, tentando que as posteriores possam perceber o que perdeu ao já não fazer parte da cidade do Bertelo.

Sempre me lembro de mim conhecendo o António Bertelo. Não me recordo da cidade antiga sem ele. Era uma figura de feições algo disformes, com um evidente atraso psicológico, que, por muitos anos, serviu de "moço de recados" de muita gente, que lhe pagava a execução de tarefas simples, de levar-e-trazer coisas. 

A minha geração tratava-o por "tu" e, com naturalidade, ele procedia da mesma maneira. Um dia dos anos 80, à entrada para a redação de "A Voz de Trás-os-Montes", ao cumprimentá-lo, notei que o Bertelo me tratou por "senhor doutor". Reagi de pronto: "estás parvo ou quê, António? Então não me tratas por tu?". O Bertelo fez um sorriso que caía estranho naquela cara atípica, mas não me creio que, desde então, tivesse optado por mudar essa forma de tratamento, o que, para minha genuína tristeza, quebrou uma ligação simples que vinha desde a minha infância.

Durante muito tempo, o Bertelo - o nome vem da aldeia dos contrafortes do Marão de onde era originário - apareceu ligado a tarefas de uma peixaria que havia na rua Direita, o que fez com que ficasse associado odorificamente a essa tarefa, bem notória  à distância. Depois, sem que nunca tivesse havido um sensível "improvement" em matéria de odores, o Bertelo teve outras atividades, desde auxiliar nas entregas do jornal da cidade, de refeições ao domicílio e, por um longo período, ao serviço da sé catedral, neste caso sob a tutela do padre Henrique, que muito o protegeu. Nos últimos anos de vida, creio, preponderava no controlo do portão do seminário.

Quando coadjuvava aquele pároco da Sé, o Bertelo foi protagonista, num domingo de Páscoa, de um episódio memorável. Ia ele pela avenida Carvalho Araújo acima, à frente do padre, com a cruz na mão, quando uma gandulagem decidiu chamá-lo, à distância, por um nome que, à época, ele abominava: "Manaca". O Manaca era um jogador que provocara um contencioso sério entre o Sporting e o Benfica, com um desfecho favorável ao primeiro. Chamar "Manaca" ao Bertelo, indefectível benfiquista, era o suprassumo do insulto. Daí que, em reação à provocação, esquecendo as vestes litúrgicas que trazia, tivesse decidido "plantar" a cruz, bem vertical, no relvado do canteiro junto à estátua de Carvalho Araújo e perseguir em corrida quem o provocara. Sob o olhar divertido de toda a gente, o padre Henrique ficou a gritar pelo Bertelo, que demorou minutos a acalmar e a retomar o auxílio à visita pascal.

O Benfica era a "perdição" do Bertelo. Um dia de 1966, um grupo de vilarealenses da cor do clube da águia deslocou-se a Lisboa para ver uma partida entre o Benfica e o Manchester United. À falta de lugares no carro, o Bertelo teria viajado no porta-bagagens (mas há versões que contradizem esta), com alguém a ter a simpatia de lhe garantir um bilhete para o estádio. Conta-se que, nos primeiros minutos de jogo, chegou a levar alguns "cachaços", porque estranhamente lhe terá dado para "puxar" pelo Manchester, para grande surpresa dos companheiros de jornada. A explicação veio logo de seguida: o Bertelo via muito mal e como o Benfica naquela noite jogava de branco havia decidido, com naturalidade, apoiar os "vermelhos"... que era o uniforme da equipa adversária. (Talvez tivesse sido melhor se a ilusão se tivesse prolongado até ao fim do jogo: o Benfica perdeu por 5-1, com dois belos golos de George Best, nessa fabulosa equipa de Busby).

O Bertelo foi, muito provavelmente, por muitos anos, a figura mais popular de Vila Real. Respeitador, era extremamente simpático para quem bem o tratava. Sempre com a sua típica boina basca, metia o braço a muitos conhecidos que se passeavam pela rua Direita ou pela rua Central, fosse essa pessoa o Governador Civil ou o presidente da Câmara, um advogado, um estudante ou um empresário. Ninguém de bem se afastava do Bertelo, um homem honestíssimo, que não bebia uma gota de álcool, cuja pobreza o levava a aceitar ajudas de quantos com ele simpatizavam. Com gosto, fui das pessoas que, até ao seu desaparecimento, lhe ia dando algum apoio, sempre que com ele me cruzava, nas minhas subidas à "Bila", como nós chamamos à nossa cidade.

Por que razão trago hoje o Bertelo ao blogue? Porque me lembrei de uma frase que o meu pai, com simpatia, sempre recordava do Bertelo, quando um dia este lhe pretendeu transmitir que passara a fazer alguns recados para a Repartição de Finanças de Vila Real. Na sua simples e permanente disponibilidade, de quem se esforçou sempre por ser útil, aproximou-se do meu pai e disse: "Desde a semana passada, estou a trabalhar nas Finanças. Se precisar alguma coisa de lá, é só dizer!" 

Tenho saudades do Bertelo. É que, hoje mais do que nunca, nestes tempos de "troika", é que dava jeito ter um amigo nas Finanças...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Honório e Jaime Neves

Naquele tempo, não havia em Vila Real quem não conhecesse o Honório. Era uma figura um pouco bizarra, magro, de óculos redondos, vestido quase sempre de preto, com um chapéu que lhe desenhava um perfil físico que lembrava Fernando Pessoa. Tinha por profissão ser contínuo na escola do Magistério primário. Lembro-me dele escuteiro, como me recordo de o ver lançar papagaios aos domingos, aproveitando o vento da "marginal", sobre o parque florestal.

O Honório era aquilo que, com alguma crueldade, poderíamos qualificar de um "pobre diabo". Muitas vezes gozado pela rapaziada - que, pelas ruas, lhe chamava o X9 -, o Honório apareceu um dia casado, com casa em Folhadela. Numa excursão a Lisboa, ficou famosa uma coça que terá dado na mulher. 

A pobre senhora, entretanto, deixou viúvo o Honório e este envolveu-se numa questão de partilhas com os cunhados, que se arrastava pelos tribunais, sem decisão. Foi isso, pelo menos, o que um dia ele me contou. Na altura, pediu a minha ajuda, nos termos de quem achava que Lisboa era uma Vila Real "grande", onde as pessoas se encontravam com regularidade, como por lá se fazia na "esquina da Gomes" ou no "cabo da Bila":

- Quem me podia ajudar a resolver o assunto, eram vocês, lá em baixo, em Lisboa. Quando vocês se encontrarem - vós, o António Barreto, o Jaime Neves e o Albano Bessa Monteiro - bem que me podiam tratar do processo, com os conhecimentos todos que têm.

O Honório convocava aqui as pessoas "influentes" que conhecia e que andavam "lá em baixo", por Lisboa. Recordo-me de ter respondido (eu tratei-o sempre por tu, nos últimos anos ele tratava-me por "vós"), com alguma ironia, ciente da implausibilidade do cenário que ele desenhava:

- Podes ficar descansado! Se eu, um dia, eu me encontrar com o Barreto, o Neves e o Albano, garanto-te que te resolvemos o assunto.

O Albano Bessa Monteiro era (e é) um velho amigo. À época, eu não conhecia pessoalmente António Barreto. E nunca na minha vida alguma vez falei com Jaime Neves. Lá por sermos ambos vilarealenses, só pela cabeça do Honório poderia passar a ideia de que éramos amigos. 

Lembrei-me desta história, há dias, quando foi noticiada a morte de Jaime Neves.     

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

António de Figueiredo

Há semanas, uma das mais fiéis amigas deste blogue, Helena Oneto, referiu-se, num comentário, a António de Figueiredo (1929-2006), um jornalista português que passou grande parte da sua vida em Londres. Decidi lembrá-lo hoje.

Para a minha geração, António de Figueiredo era um nome mítico do jornalismo português que, no estrangeiro, que se opunha ao Estado Novo. Representante do general Humberto Delgado em Londres, a partir de 1959, havia trabalhado na secção portuguesa da BBC e no "The Guardian", tendo artigos dispersos por imensas outras publicações. Em 1961, tinha ficado histórico o seu "Portugal and its Empire: the truth" e, em 1975, foi muito divulgado o livro que publicou na Penguin, "Portugal: fifty years of dictatorship". Amigo de Basil Davidson, dedicou, como este, uma grande atenção à luta anti-colonial e anti-apartheid, sendo internacionalmente reconhecido como um especialista na matéria. Após 1974, e de quando em vez, textos seus surgiram na imprensa portuguesa.

Um dia, em Londres, creio que em 1990, o Eugénio Lisboa (com ou sem o Rui Knopfli, já não recordo bem), levaram-me a almoçar com ele a um restaurante italiano de Knightsbridge, onde o Eugénio era "habitué". Ambos haviam conhecido Figueiredo em Moçambique, para onde fora viver aos 17 anos e se iniciou no jornalismo. Envolvido na luta oposicionista em Lourenço Marques, viria a ser preso na sequência das "eleições" perdidas pelo "general sem medo", sendo depois expulso para Portugal. No ano seguinte, rumou a Londres, onde ficou até à sua morte, em 2006.

António de Figueiredo movimentava-se com alguma dificuldade, devido a uma doença de espinha que o limitava. Tinha uma memória fantástica, histórias curiosas sobre o mundo que rodeou o "general sem medo" e sobre o ambiente da oposição à ditadura portuguesa em Londres. Não era aquilo a que se chama um homem naturalmente simpático. Havia nele uma certa amargura e alguma acidez crítica, talvez fruto de uma vida que não fora fácil e do que me pareceu ser a falta de um reconhecimento público, em Portugal, pelo papel político que desempenhara contra a ditadura.

Dois anos mais tarde, convidou-me para ir beber um chá a sua casa, nos arredores de Londres. Era uma residência modesta, onde vivia num mundo de livros, uma imensa e riquíssima biblioteca sobre África, construída ao longo de décadas. Esforçava-se por organizá-la, a fim de poder vender uma parte dela a um comprador público em Portugal, mas as suas condições físicas tornavam difícil a tarefa. Com sorte, consegui arranjar forma de custear um jovem colaborador, que com ele levou a cabo esse trabalho. Julgo que o negócio se concluiu e que António de Figueiredo pôde beneficiar desses recursos, uma soma considerável para a época, nos últimos anos da sua vida. Ainda tive o gosto de testemunhar, em 1993, o almoço em Belgrave Square em que o presidente Mário Soares o distinguiu com a "Ordem da Liberdade". Um gesto que, estou certo, muito apreciou.

Vale a pena ver o que o "The Guardian" escreveu por ocasião da sua morte. Porque não consegui encontrar nenhuma fotografia de António de Figueiredo, deixo a capa do seu conhecido livro de 1961.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Boas Festas...

 ... para todos os leitores deste blogue.

Para os republicanos e para os monárquicos, para os críticos e para os defensores do acordo ortográfico, para os que adoram touradas e para quantos as detestam, para quem é de direita e para quem anda pela esquerda, para os bloguistas "graves" da política e para os que não se levam muito a sério, para os adeptos do Sporting e para os adeptos do resto, para os pessimistas e para os meus comparsas otimistas - para todos, Festas Felizes e os meus votos de que 2013 (13, cruzes!) não venha a ser tão mau como alguns já o pintam.
________________

Post-scriptum só para vilarealenses. O meu amigo Francisco Agarez insinuou, no Facebook, que a fotografia acima reproduzida não parecia ser de Vila Real. Ora isso é um óbvio absurdo. Mandei-lhe a seguinte mensagem: 

Caro Francisco Agarez: mude de óculos, homem! A foto já tem uns anos, mas então não se vê logo que é a avenida Carvalho Araújo, em Vila Real? O vulto a subir é o Bertelo, saído da Sé, junto ao Pátio das Cantigas. A seguir, dos Correios, espreita o Setas e, logo adiante, passados os Quinchosos, junto ao portão do Seminário, lá está a batina do padre Sarmento. Os carros de praça que passam são do Falei e do Bragança. Na reentrância da pensão do Camposana está bem à vista a figura do Honório (não, não é o Fernando Pessoa!), com o saco de plástico na mão. Na vitrine da Pompeia, nota-se que o Neves está a correr os estores. Logo depois, o padre Henrique (então não vê?) está à porta da Voz de Trás-os-Montes, tendo ao lado o Alvelos, que acaba de fechar o Turismo (lá estão as bilhas de segredo de Bisalhães na montra!). Com algum cuidado, vê-se o dr. Zézé a sair do Clube pela escada para a avenida. E, um pouco acima, o Sarreiro encerra a sua loja e o Zé Araújo fecha a porta da Galeria d'Artes, ao lado do barbeiro. Não sei bem quem é o miúdo que está a sair da porta do edifício da Caixa mas, bem mais ao fundo, à direita, embora um pouco mais difícil de descortinar, podem ver-se garrafões a sair do Alcino para a carrinha do António da Toca da Raposa, bem como a barriga proeminente do Furriel, de chapéu na cabeça, a falar com o Chico Costa, de boina basca. Logo depois, bem visível, lá está a bela varanda dos Mota e Costa, com o João Albardeiro encostado à parede a falar com o Quim Rato. Finalmente, só por distração é que você não viu o Pincha e o Chico Cereja a discutir nas escadas do Tribunal. Caramba, homem, vá ao Frederico ver esses olhos! E já que anda ali pelo Pelourinho, compre-me um bolo-rei. Mas na Gomes velha, está bem?)

Em tempo: e o Francisco Agarez respondeu:


Tem toda a razão, meu caro Francisco, mas que quer? Ainda uso as cangalhas que o pai do Frederico me receitou em 1959 e que aviei no Ferreira oculista. Eu bem andava a estranhar ver tudo desfocado à minha volta e já me tinha convencido de que tinha mesmo de mudar de lentes. Mas quando me preparava para passar das intenções aos actos levei com o OE 2013 e encolhi-me todo. Tenho o azar de ter graduações diferentes nos dois olhos (defeito de fabrico de que já não tenho junto de quem reclamar), o que me impede de comprar os óculos novos numa loja das Three Gorges. E também, para lhe dizer quanto é franco, acho que o melhor é mesmo continuar assim, que o que está para vir não é bonito de se ver e já não tenho pernas para ir à caça de lebres e aparentados. Um Bom Natal para si e para a sua mulher".

Nos comentários, alguns vilarealenses ajudaram ainda a "ler" melhor a fotografia. 

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Adriano Moreira

Lembro-me muito bem da primeira aula a que assisti, tendo Adriano Moreira como professor. Foi em outubro de 1968, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU), de que Adriano Moreira era diretor. Caramba, foi já há 44 anos! E Adriano Moreira fez ontem 90 anos.

Adriano Moreira era, à época, um nome de que muito se falava - mas sobre o qual, por razões que a conjuntura tornava óbvias, muito pouco se escrevia. Dias antes, Marcello Caetano fora nomeado pelo presidente Tomaz para o cargo de "presidente do conselho", em substituição de Salazar. Nos conciliábulos do regime e não só, o nome de Adriano Moreira havia sido citado como uma possível opção, mas os equilíbrios que se refletiram na decisão do presidente da República não o favoreciam. À época, referiram-se muito as resistências que o seu nome suscitaria em certos círculos militares, embora outras opiniões fossem no sentido de que outras tendências castrenses desejavam vê-lo em S. Bento. A verdade é que, no saldo final, Adriano Moreira ficou arredado da sucessão de Salazar, em benefício de Marcello Caetano. E, este, logo que pôde, pela mão do ministro José Hermano Saraiva, cuidou em afastá-lo da direção do ISCSPU, nos primeiros meses de 1969.

Para os estudantes, esta evidente conflitualidade com Caetano dava a Adriano Moreira uma auréola de alguma "oposição", que se vinha a somar à imagem vaga, que alguns "connaisseurs" espalhavam, dos seus tempos de jovem advogado, em que chegara a estar detido pela polícia política, pela sua ação de defesa dos interesses da família do general Godinho, cuja morte misteriosa na prisão, na decorrência de uma tentativa de golpe militar, fazia parte das mitilogias recorrentes do "reviralhismo". Não parecia, assim, estranho que o movimento estudantil dentro do ISCSPU, que se vira provocado pela "não homologação" ministerial da lista vitoriosa nas eleições desse ano para a associação académica, acabasse por se aliar taticamente a Adriano Moreira. Como membro dessa direção associativa, tenho uma memória muito viva da gestão dessa "aliança", que teve em Narana Coissoró uma figura proeminente. Recordo bem a dificuldade que alguns de nós tínhamos em ver a nossa ação ligada à de um antigo ministro de Salazar, pelo "risco" de estarmos a ser instrumentalizados por uma das facções dentro do regime.

Adriano Moreira era um professor brilhante, com uma exposição atraente, que nos gerava vontade de irmos mais longe naquilo que nos transmitia. Começava as aulas em voz muito baixa, para desfazer as conversas residuais na sala. Ao falar, circulava o olhar, fixando-se, por instantes, em cada um de nós, o que dava a impressão de se nos dirigir individualmente. Como a "política" era, como dizem os franceses, o seu "fond de commerce", nós distinguiamo-la sempre por detrás de todos o seus comentários, onde o "esquerdismo" de alguns procurava sempre descortinar o que se assemelhasse a heterodoxia. Adriano - era assim que a ele nos referíamos, entre nós - tinha a rara habilidade de suscitar uma controlada polémica política entre os alunos. A minha colega Maria João Bustorff lembrava, há tempos, o modo como Adriano estimulava debates entre mim e o António Marques Bessa, cada um de nós em lados bem antagónicos do espetro político, em confrontos nas aulas que sempre tinham temas do "programa" como motivo. Belos tempos!

Pouco a pouco, nessas aulas, íamos sendo introduzidos na matriz do pensamento de um homem que, um dia, Salazar escolhera inesperadamente para a pasta do Ultramar, na sequência da rebelião angolana de 1961, mas cujo espírito reformista o regime não acomodara e cuja frontalidade acabaria por conflituar com o poder administrativo do governador de Angola, general Venâncio Deslandes, o que levaria o chefe do Governo a tomar a decisão de ver-se livre, simultaneamente, dos dois. Adriano Moreira não era um proselitista deliberado, não cuidava em endoutrinar-nos, não veiculava uma ideologia clara. Era um questionador do quotidiano, alguém que problematizava e nos obrigava a refletir. Sentiamo-lo, claramente, do "outro lado", mas, estranhamente, não provocava uma antagonização aberta. E isso, às vezes, enfurecia-nos: nós fazíamos parte de uma geração maniqueísta e Adriano Moreira "furava" essa fácil dualidade.

Com o 25 de abril, o radicalismo saneador dentro do ISCSP (que, entretanto, perdeu o "U", como o país também perdeu o "ultramar"...) fez com que Adriano Moreira saísse para o Brasil. Uma decisão estúpida e sem sentido, para alguém que, não obstante o seu percurso político anterior, tinha tido sempre um comportamento exemplar face aos alunos e face à "nossa escola" (era assim que Adriano Moreira se referia sempre ao Instituto), que nela nunca perseguira ninguém e a quem o ensino universitário português - e as Ciências sociais, muito em particular - muito deviam. Fiquei satisfeito quando esse seu afastamento chegou ao fim e tive o prazer de então lho poder dizer, cara a cara, uma noite de 1979, na Gulbenkian. E gostei muito da sua resposta: "fico contente de ouvir isso, particularmente vindo de si".

Adriano Moreira, depois do seu regresso de Portugal, envolveu-se na política democrática, sempre de uma forma elegante, sem chicanas nem grandes polémicas. Naturalmente, a área conservadora foi o seu meio natural de expressão cívica. Porém, fê-lo sem "travestismos", sem saltitar em conúbios oportunistas, umas vezes com a esquerda, outras vezes com direita, como outros cataventos da história portuguesa contemporânea. Manteve, em paralelo, uma atividade académica intensa e, pela imprensa, tem espalhado um pensamento em matéria de relações internacionais com uma profundidade muita rara entre nós.

Há pouco tempo, Adriano Moreira publicou um livro com as suas memórias. Nesse seu reencontro com o passado, e embora se possam entender as razões por que o terá feito, o texto de Adriano Moreira ficou, na minha perspetiva, bastante aquém da síntese de vida que seria de esperar de uma figura com a sua estatura. Senti por ali inesperados compromissos, de uma natureza idêntica àqueles que, no passado, o levou, algumas vezes, ao desnecessário facilitismo de rodear-se de gente que não estava ao seu nível, nomeadamente no mundo académico.  

Nos últimos meses, tenho-me cruzado com Adriano Moreira nas reuniões de uma comissão a que ambos pertencemos, nomeada pelo governo, que tem como tarefa preparar o novo Conceito estratégico de Defesa nacional. Nesses encontros, Adriano Moreira tem produzido comentários e lançado ideias que estão ao nível do seu melhor fulgor intelectual, a todos nos ajudando a pensar melhor o país. E isso aos 90 anos, ontem completados. Os meus parabéns, professor.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O valor dos Bonds

Todas as manhãs, de há uns anos para cá, um dos meus gestos de rotina, é olhar a evolução do valor dos Bonds (dívida pública) portugueses no mercado internacional, verificando o "spread" face aos que são emitidos por Berlim. Começo sempre a leitura do "Financial Times" por aí. Os Bonds são um bom indicador da forma como os mercados olham para a economia portuguesa, o que é importante, em especial agora, nestes tempos de "troika".

Ontem, porém, o valor relativo de outros Bonds chamou a minha atenção. Foi Roger Moore, o ator que protagonizou mais filmes de James Bond, que apareceu citado na imprensa como tendo dito que Daniel Craig, o último ator a interpretar a personagem, era o melhor James Bond de sempre.

Roger Moore é um senhor respeitável, que protagonizou alguns desses filmes com um misto de humor e charme machista, que sempre saía das cenas mais violentas com a poupa intocada, com aquele sorriso de marca, que, aliás, conserva na velhice, como pude comprovar há meses, quando o cruzei num evento por aqui. Como ator, desempenhava um Bond divertido, ao mesmo nível, comparadas as épocas, com que já fizera para a televisão as séries Ivanhoe ou O Santo. Mas, sejamos honestos, foi sempre um ator "13 valores", para usar a classificação que o meu pai costumava dar às prestações "assim-assim". Sempre pressenti que, no seu íntimo, vivia com um fantasma que se chama Sean Connery - o "verdadeiro" Bond. Isso mesmo fica confirmado nestas declarações de Moore que, enfim, estão ao nível daquilo a que sempre nos habituou como ator: "13 valores". 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A "chance" de Poulidor

E continuamos no ciclismo. A decisão de Lance Armstrong, ontem anunciada, de renunciar à sua defesa perante as acusações de dopagem que lhe são feitas, deve resultar na sua desqualificação como vencedor de sete "Tours de France".

Julgo que a imagem da popular prova ciclística francesa, bem como a do ciclismo em geral, vão sofrer fortemente, em matéria de credibilidade, particularmente se somarmos este escândalo aos tantos outros que mancham a competição e tornam cada vez mais duvidosas (e, pelos vistos, precárias) as vitórias a que vamos assistindo. Devo dizer que, como ativo adepto - de sofá e televisão - do mundo do ciclismo, entristece-me ver esta mítica modalidade, que tanto mobilizou a minha atenção desde a juventude, entrar "pelas ruas da amargura". E começa a ser ridículo - mas compreensível - que os resultados ciclísticos acabem por ser ditados nos laboratórios (como alguns do futebol o são "na secretaria")

Um amigo, ontem, ao telefone, comentou: "Não és tu que és um fã do Poulidor?". 

Para o leitor menos avisado, diga-se que Raymond Poulidor foi um grande ciclista francês, vencedor de várias provas no país e no estrangeiro, mas que nunca conquistou o "Tour de France", nem nele sequer vestiu alguma vez a "camisola amarela", embora tenha ganho várias etapas. Mas, nesse mesmo "Tour", foi três vezes segundo classificado e cinco vezes terceiro. É hoje um ídolo para várias gerações francesas e é uma figura por quem, desde sempre, nutro uma imensa simpatia, nesta minha incontrolável tendência para gostar dos gloriosos e dignos "losers".

Perguntei ao meu amigo por que diabo me vinha falar do Poulidor. "É que, por este andar, ainda vão acabar por desclassificar o Anquetil e o Merckx, nalguma "revisão de provas", pelo que o Poulidor pode ainda ter uma "chance" de ganhar uma Volta à França ...". 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Asilo

Por um daqueles mistérios que as relações internacionais encerram, Cuba mantinha em Lisboa uma representação diplomática no tempo da (nossa) ditadura, dedicada à promoção comercial. Nenhum outro país do mundo comunista o fazia, com exceção da Jugoslávia. Era num (julgo que 2º) andar perto da Estefânia, que, além de outros ocupantes, tinha uma loja de artigos elétricos no rés-do-chão. Recordo-me bem de por lá ter passado, no final dos anos 60, a procurar recolher alguma "literatura" política (no que eram de um parco proselitismo, registe-se).

Fugido do hospital Curry Cabral, onde estava internado sob prisão, Manuel Serra, um dos protagonistas do chamado "golpe da Sé"*, um frustrado movimento insurrecional contra o salazarismo ocorrido em 1959, que antes havia sido sujeito a bárbaras torturas da polícia política, obtivera um dia asilo nessa representação cubana. A PIDE montou tocaia permanente ao local e os seus agentes passaram a revezar-se, no passeio do prédio, vigiando a porta, para impedir uma fuga de Serra. Este assomava, com regularidade, à varanda, com um ar provocatório, fumando charuto, com uma cabeleira longa e uma barba que há muito tinha deixado crescer, o que lhe dava um ar de guerrilheiro da Sierra Maestra, aliás bem adequado ao sítio de acolhimento. A provocação ia mais longe: Serra cuidava em expelir, com maestria e pontaria, algumas secreções bucais na direção dos "pides", acertando por vezes em alguns deles. E fazia esta "graça" com irritante regularidade... 

Um dia de 1960, a cena repetiu-se e um "pide", mais distraído, recebeu um desses "brindes" do barbudo galhofeiro da varanda, na ocasião vestido com uma vistosa camisa encarnada (Serra preferiria dizer vermelha, pela certa). Mal o "pide", furioso, acabava de se limpar, saiu da porta ao lado do estabelecimento comercial um padre**, de sotaina e cabeção, que, simpaticamente, o saudou com um cumprimento de cabeça. Esse sacerdote pálido, de cabelo curto e empastado, todo de negro vestido, caminhou lentamente para o jardim Constantino, desaparecendo nesse final de manhã de Lisboa.

O que o "pide" não sabia é que o "padre" era, nem mais nem menos, Manuel Serra, o qual, em poucos segundos havia cortado as barbas e o cabelo, mudado de roupa e descido as escadas. Para se escapulir, contara com o contraste entre um aprumado "sacerdote" e a imagem desgrenhada e colorida do revolucionário que permanecia na memória visual recente do polícia.

Serra conseguiu fugir para o Brasil mas, tempos depois, voltou a Portugal para integrar a direção do chamado "golpe de Beja", uma nova (e também fracassada) tentativa de derrube do regime. E voltou a ser preso, por mais sete anos, depois de fortemente torturado. Morreu há pouco mais de dois anos, como então registei aqui.

A propósito: não creio que a polícia londrina caia no truque do "padre", se Julien Assenge o vier a tentar.


* Agradeço a Helena Oneto a lembrança de úteis ligações, que permitem um melhor esclarecimento sobre o "golpe da Sé" e o "golpe de Beja".

** A indicação de que Manuel Serra ia vestido de padre foi-me dada, há muitos anos, por um amigo que me dizia que conhecia bem o caso. Verifico, contudo, que, segundo a maioria das versões, esse é o traje que terá sido utilizado na fuga do Curry Cabral e não é plausível que o mesmo disfarce tenha sido usado duas vezes.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Robert Bréchon (1920-2012)

Quando cheguei a Paris, em 2009, alguém me disse que Robert Bréchon era "um radical pessoano". Na altura, apenas conhecia de nome esse lusófilo que um dia escreveu que "é através de Pessoa que Lisboa entra verdadeiramente na literatura universal".

Portugal deve imenso àqueles que, no estrangeiro, se apaixonaram pela sua cultura e que na respetiva promoção ocuparam grande parte da sua vida. Bréchon, que há dias nos deixou, nasceu para a língua portuguesa no Brasil, quando aí trabalhou pela cultura francesa. Depois, quando viveu em Lisboa, onde fez um trabalho notável à frente do Instituto francês, soube abrir-se às correntes intelectuais portuguesas, de diversa orientação. Foi por Lisboa que "descobriu" Pessoa, tendo mais tarde, com Eduardo Prado Coelho, sido responsável pela edição, na Christian Bourgois, das "Oeuvres de Fernando Pessoa". Tornou-se um dos grandes especialistas internacionais na obra do poeta, sobre a qual publicou vários trabalhos.

Mas muito mais lhe ficamos a dever, numa dedicação que merece a nossa homenagem e o nosso reconhecimento. 

domingo, 12 de agosto de 2012

Moniz Pereira

No final da maratona olímpica que hoje se concluiu em Londres, e por uma qualquer razão bem concreta, lembrei-me da figura de Mário Moniz Pereira.

Nos idos de 70, quando proliferaram em Portugal as "associações de amizade" entre Portugal e alguns países (normalmente do "socialismo real", como era o caso da Portugal-Polónia, de que fui membro), Moniz Pereira tomou a iniciativa (que já não recordo se polémica) de criar uma "associação de amizade Portugal-Portugal", sublinhando a necessidade de cuidarmos das nossas relações conosco mesmos. Nos dias que correm, pergunto-me se não valeria a pena recuperar essa instituição.

Testemunho

Ontem, no final da estafeta de 4 x 100 da Olimpíadas, um burocrata "bife" impediu o jamaicano Bolt, que tinha "apenas" acabado de bater o record do mundo (num grupo que conseguiu uma média superior a 40 km por hora, se já fizeram as contas), de ficar, como recordação, com o testemunho utilizado na estafeta, aquele tubo amarelo que se vê na imagem.

Confesso que não percebi por que razão Bolt lhe entregou o objeto. Acaso o funcionário iria atrás dele?

Havia de ser comigo! Ou pior: se fosse comigo, o homem era capaz de me apanhar...

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Eurico de Melo (1925-2012)

Há poucas horas, ao receber a notícia da morte de Eurico de Melo, que há muito desaparecera da cena pública, pus-me a imaginar quantos, dentre as novas gerações, saberão, afinal, quem era aquele que chegou a ser um dos mais influentes políticos nacionais, e que, aliás, esteve na soleira da chefia do poder executivo. Muito leal a Sá Carneiro e a Cavaco Silva, Eurico de Melo era talvez o mais proeminente representante de um certo PPD de extração não lisboeta, fazendo parte daquilo que a nomenclatura política designava então como os "barões" do partido. Com a sua forma inconfundível de falar nortenho, por muito tempo sempre visto com um inseparável cigarro, a sua saída da cena política coincidiu, não por acaso, com um evidente declínio do peso do norte do país no equilíbrio das decisões nacionais. E a sua morte é mais um marco do termo formal de um tempo que foi muito importante na história da família política do centro-direita em Portugal, que entre nós se convencionou designar por social-democrata.

Em inícios de 1987, e por razões que não vêm ao caso, tive a meu cargo, por alguns dias, a organização da visita oficial de Aga Khan a Portugal. A exemplo do que acontece em alguns outros países, foi escolhido como interlocutor do líder ismaelita a figura governamental imediatamente abaixo do primeiro-ministro. Neste caso, era Eurico de Melo, ao tempo vice-primeiro ministro e ministro da Defesa. O programa da visita incluía um jantar no Ritz. Os representantes de Aga Khan no nosso país solicitaram que, por razões religiosas, não fossem servidas bebidas alcoólicas durante essa refeição. Aceitar ou não um tipo de pedido deste género é uma questão com alguma sensibilidade, porque acaba por ter certas implicações políticas. Entendi, por isso, que seria prudente consultar o gabinete do ministro, tanto mais que também pretendia obter orientações sobre o tipo de presente que ele queria oferecer ao ilustre visitante.

No contacto telefónico que fiz com o gabinete, e logo depois de expor o problema, tive a surpresa de ser confrontado com a informação de que o próprio ministro queria falar comigo. Recordarei para sempre que, com imensa simplicidade e simpatia, Eurico de Melo, com a sua pronúncia inconfundível, me deu as suas instruções: "Quántu ao binho, o sinhôre dâutuar faz o que entiender: si as razuéns de Estado obrigarem, o sinhôre máunda puôr lá binho! E táumbém cuidado com o prieço da priênda. Eles estáum habituados a ter o peso do homem em oiro e nós náum nos pudiemos alargar. Bai cuma baoua Bistalegrezinha é já é bem báum...". Lembrámos esta história, divertidos, num jantar que lhe ofereci, em Estrasburgo, bem como a outros deputados europeus, creio que em inícios de 1996. 

Espero que ninguém se lembre de levar a mal esta memória em transcrição fonética, porque ela representa, da minha parte, uma homenagem colorida a um governante que não se escondeu atrás da sua importância e decidiu disponibilizar-se para falar com um simples e desconhecido funcionário, do outro lado da linha. Um homem do norte, é o que é!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Krivine

"Sabes quem é aquele tipo, ali na mesa do canto? É o Alain Krivine". A revelação do meu amigo, feita no Café de Flore, há algumas semanas, trouxe-me à memória um outro tempo.

As tardes no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, respondendo aos deputados, durante a presidência portuguesa da União Europeia de 2000, tinham alguma graça. O secretariado-geral do Conselho preparava-nos umas respostas em "langue de bois", para as perguntas enviadas por escrito pelos deputados, com antecedência. A "emoção" estava, assim, nas réplicas a que os parlamentares perguntadores têm direito, feitas de improviso, muito mais "livres" e, às vezes, fugindo claramente  ao tema da pergunta. Devo confessar que me dava um certo gozo exercitar a minha criatividade discursiva nas respostas a essa segunda parte de cada intervenção. Quase tanto como olhar, de viés, para as caras ansiosas dos funcionários do Conselho, que tão ciosamente haviam preparado as respostas "by the book" e que viviam esses momentos de liberdade do representante da presidência com clara expetativa e burocrática angústia.

Entre os deputados eleitos para o PE houve e há figuras gradas da política passada de vários países, muito ministros e até primeiros ministros. Mas aqueles que me "saíram em rifa", nesse semestre de 2000, foram quase sempre obscuros parlamentares, com nomes algumas vezes muito estranhos, de sonoridades gregas, eslavas ou nórdicas. É que esse tempo é utilizado, quase sempre, para afirmação da devoção desses deputados a causas muito específicas, o que lhes permite uma saliência mediática de que os seus colegas mais conhecidos já não necessitam.

Numa dessas longas tardes de Estrasburgo, ouço o presidente do parlamento anunciar: "Dou a palavra ao deputado Alain Krivine". Acordei do marasmo com aquela menção e, de imediato, procurei, no imenso areópago quase vazio, colocar um retrato no nome acabado de anunciar. O nome de Alain Krivine dizia-me alguma coisa. Figura histórica do trotskismo francês, havia sido candidato à presidência da República, não me passando a mim pela cabeça que fosse então deputado europeu.

Anos antes, no início da década de 70, numa visita a Paris, eu fora arrastado por uns amigos para assistir a um comício da "Ligue Comuniste Revolutionnaire", que teve lugar na "Mutualité", perto da Sorbonne. A LCR era um grupo trotskista com certa expressão na esquerda francesa e, embora as teorias de Trotsky pouco me dissessem, achei graça assistir a um comício dessa extrema-esquerda - num tempo em que, em Portugal, apenas a União Nacional e a sua sucessora Ação Nacional Popular reuniam em público sem medo de vigilância policial.

A pergunta que Krivine fez à presidência portuguesa foi, como era de esperar, violenta e agressiva, sobre uma temática que já não recordo. Devo confessar que tenho ideia de que a  minha resposta foi mais "soft", nostalgicamente atenuada pela memória de um passado no qual, embora de forma menos radical, eu também acreditava em que os "amanhãs" poderiam vir a cantar. Depois, foi o que se viu...

Naquele final de tarde no Flore, perguntei ao Francis, que vagueava patronalmente entre as mesas, o que é que Alain Krivine estava a beber. Era um Chablis. Pedi outro para mim. Afinal, como dizia Voltaire, "les beaux esprits se rencontrent".

sexta-feira, 20 de julho de 2012

José Hermano Saraiva

José Hermano Saraiva, que acaba de desaparecer, foi um improvável ministro da Educação do último governo de Oliveira Salazar. Simples professor liceal, terá sido a sua fidelidade ao Estado Novo, aliada a uma inteligência viva e uma inegável capacidade de ação, que lhe assegurou a ascenção política. Ainda estou a ver a fotografia da tomada de posse, em Belém, ao lado de Américo Tomás, de fraque e calças de fantasia, em Agosto de 1968, na qual, recordo, surge também uma outra personalidade que há dias faleceu, embora num relativo silêncio mediático, Justino Mendes de Almeida.

Dias depois, Salazar cairia da cadeira de lona e, semanas mais tarde, os equilíbrios do regime fizeram com que Marcello Caetano confirmasse José Hermano Saraiva no cargo.

Não foi nada fácil a tarefa do ministro. Como ponto "alto" das questões que teve de gerir, recorde-se a "crise de Coimbra", em 1969. Quem viveu esse período lembra-se bem dele, ao lado do presidente Tomás, na inauguração do edifício das Matemáticas, em Coimbra, nesse tenso e verdadeiramente único momento em que Alberto Martins teve a coragem de pedir a palavra, em nome da academia, naquele que viria a ser o início de um dos maiores protestos de contestação universitária vividos em Portugal.

A agitação universitária propagou-se a Lisboa. No ISCSPU, José Hermano Saraiva decidiu não "homologar" a lista eleita da Associação académica, de cuja direção eu fazia parte (ver aqui um relato do nosso encontro com o ministro). Ficou claro que Marcello utilizou então Hermano Saraiva para afastar, do ISCSPU, o seu rival político Adriano Moreira, personalidade com a qual, à época, as lideranças académicas decidiram, taticamente, solidarizar-se. Isso veio a redundar numa invasão do Instituto pela "polícia de choque", chefiada pelo capitão Maltez, e pela dissolução dos órgãos legítimos da Associação, que passou a ser dirigida por uma complacente "comissão administrativa".

Com o tempo, Marcello Caetano substituiu Saraiva por Veiga Simão. No que me toca, devo dizer que a mudança não ajudou muito, porque não tive o ensejo de apreciar, em excesso, as credenciais, ditas liberais, do novo ministro: em 1972, como presidente eleito da Assembleia geral dos estudantes do ISCSPU, voltei a ver a minha escolha não "homologada" pelo novo ministro. Mas isso deve ser sina pessoal...

Usufruindo da oportunidade dada pela Democracia, José Hermano Saraiva viria a fazer escola como divulgador televisivo, e não só, da História pátria, confirmando a perceção de que a historiografia permanece como um dos poucos domínios culturais onde o pensamento conservador preserva uma certa notoriedade pública. A sua capacidade de "contador de História" era inegável e, embora muitos achem que isso foi muitas vezes feito em detrimento de algum rigor científico, a verdade é que ele terá contribuído para despertar o interesse pela História de Portugal - e esse será um importante serviço que o país, sem a menor dúvida, lhe ficou a dever.

Em tempo - Não notei, como devia ter feito, que José Hermano Saraiva foi embaixador "político" em Brasília, nos tempos que antecederam o 25 de abril.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Contraditório

Por via de uma vida que me obriga regularmente, com algum gosto, a expor e debater ideias, fiz e continuo a fazer parte de painéis de um imensidão de colóquios, congressos, seminários ou coisas similares. Às vezes bem interessantes, outras vezes nem por isso.

Nesse mundo, há uma figura pública portuguesa, que já teve experiência governativa, com quem me cruzo, desde há muito. Temos visões políticas opostas, olhamos as coisas de maneira muito diferente, raramente coincidimos no modo de abordar as questões. Conhecemo-nos há mais de quase quatro décadas, temos modos muitos diversos de estar na vida e, por coisas que não vêm para o caso, cultivamos ambos uma espécie de insustentável tendência para nos "picarmos" em público. No meu caso, entretenho-me a procurar descortinar pontos que considero fracos no seu argumentário para depois os tentar desmontar de uma forma crítica, quase sempre sem me poupar a alguma ironia. No caso dele, julgo que é pior: quase nem precisa de ouvir o que eu digo para logo me atacar. Andamos neste "jogo" há anos.

Um dia, numa universidade americana, onde ambos éramos convidados para uma conferência, estávamos colocados em painéis diferentes, o que reduzia as hipóteses de um aberto conflito público. Eu fiz a minha apresentação, após o que a pessoa que dirigia a sessão abriu o debate ao auditório. Desse mesmo auditório, levantou-se então esse meu contraditor de estimação que, com ênfase, deixou logo claro que não concordava com o essencial do que eu tinha afirmado e com a perspetiva que eu defendera. E partiu daí para uma longa intervenção, disfarçada em pergunta, na qual, devo confessar, eu reconhecia muito pouco daquilo que tinha dito. Nada que fosse novo.

A meio dessa intervenção, sempre bem articulada e até com alguma graça, um colega de painel, creio que francês, disse-me ao ouvido: "Não percebo por que razão ele o está a contestar!". Divertido, respondi: "Não se surpreenda. É sempre assim. Já é uma velha história, entre nós". Ao que ele esclareceu: "Não é isso! É que ele não ouviu nada do que você disse. Ele entrou na sala no momento em que você estava precisamente a terminar a sua intervenção..."

Ontem, em Lisboa, cruzámo-nos, por acaso, e, naturalmente, saudámo-nos com a cordialidade conflitual que nos torna eternos adversários de estimação. 

Agostinho

Nestes tempos de "Tour de France", o jornal "Le Parisien" tem trazido memórias das canções criadas em torno da maior prova ciclística do mundo.

Sou hoje surpreendido com uma canção dedicada, em 1989, a Joaquim Agostinho, cinco anos depois da sua trágica morte em 10 de Maio de 1984. Confesso que nunca tinha ouvido falar da existência dessa canção. É uma bela homenagem de uma França que nunca esqueceu os dois terceiros lugares conseguidos no "Tour" (entre oito classificações nos dez primeiros lugares em vários outros anos) e a sua famosa chegada vitoriosa ao Alpe-d'Huez, em cuja famosa curva 14 está um marco a lembrar o feito.

Ouçam aqui a canção.

domingo, 8 de julho de 2012

Eclipse

Há qualquer coisa de trágico na saída de cena de um político que, de um dia para o outro, deixa de ser uma personagem mediática constante para se tornar uma figura distante do centro das atenções públicas. 

François Bayrou, o político centrista que, nas eleições presidenciais de 2007, havia obtido o apoio de quase um quinto do eleitorado francês, viu-se relegado para uma percentagem bem mais modesta no escrutínio deste ano e, após isso, não conseguiu sequer ser eleito deputado. Devo dizer que achei de uma nostálgica sobriedade a sua frase de que, agora, iria "visitar o país do silêncio".

Noutro registo, mais humorístico, um antigo ministro, Renaud Donnedieu de Varbes, deixou, há uns anos, uma excelente frase qualificadora desse apagar das luzes da ribalta (que deixo em francês, para melhor ser apreciada): "Passer de ministre à promeneur de son chien suppose un énorme travail sur soi-même".

sábado, 7 de julho de 2012

Maria José

A Maria José partiu há um ano, mas parece que nos faz falta há já muito mais tempo.

Imprensa de referência

Vi, há pouco, na televisão, um velho amigo de Portugal e dos portugueses, Xanana Gusmão, por ocasião de um ato eleitoral em Timor-Leste.

Recordei-me que, outubro de 1999, Xanana fez uma triunfal visita a Portugal. Com o país ainda a viver a ressaca da emoção que o mobilizara pela causa timorense, a chegada do líder histórico da Fretilin provocou uma onda de grande mobilização. A simpatia e a genuinidade de Xanana Gusmão fizeram o resto.

Nessa ocasião, foi-me pedido que, em representação do governo, me fosse despedir dele ao aeroporto militar de Figo Maduro, de onde partiria para um qualquer destino europeu, num Falcon na nossa Força Aérea. Vi que estava exausto, embora feliz, com o fraternal acolhimento que Portugal lhe proporcionara, em que pudera testemunhar a profunda sensibilização do povo português para com a questão timorense.

Saímos a pé do edifício da base aérea para o avião, situado a umas escassas centenas de metros. Ao longe, dei-me conta que um grupo de jornalistas, colocados junto a uma barreira, fazia sinais e gritava "Xanana", desejosos de poder obter as últimas palavras do visitante.

O avião estava já atrasado, o "slot" para a descolagem podia perder-se, como nos tinha dito o comandante da base. A primeira reação de Xanana foi dizer: "Vou já para o avião". Olhei os jornalistas e, apontando-os ao líder timorense, fui de opinião contrária: "Eu acho que devia dar-lhes umas curtas palavras. A imprensa portuguesa tem sido fantástica consigo". Xanana hesitou um segundo, mas acabou por seguir a minha sugestão, com os militares das Força Aérea, junto dos quais eu ficara, pouco contentes com o meu alvitre.

No dia seguinte, um bem informado jornal escrevia mais ou menos isto: "Contrariando abertamente a vontade do secretário de Estado português que o acompanhava, que procurou, sem êxito, dissuadi-lo de ir falar com os jornalistas, Xanana fez questão de prestar declarações à imprensa portuguesa".

Enfim, é o que se chama imprensa "de referência".

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Os tempos e os poderes

Não há poder sem simbologia. E alguns sinais são, eles mesmos, a própria e deliberada expressão desse mesmo poder. 

Há uns anos, em fins de julho de 1999, teve lugar em Serajevo, na Bósnia-Herzegovina, a reunião de lançamento do Pacto de Estabilidade para o Sudeste Europeu. Com as delegações instaladas, o presidente finlandês, Martti Ahtisaari, que dirigia a sessão, iniciava o seu discurso de introdução quando a sala foi surpreendida pela entrada isolada do presidente Bill Clinton. O líder americano dirigia-se, pausadamente, para o lugar que, na grande mesa quadrada, estava destinado aos EUA. Pelo caminho, foi-se entretendo a parar junto de alguns dentre os 50 presidentes e chefes de governos, saudando-os, deixando-lhes uma breve palavra e, com a acumulação desses gestos, foi provocando um movimento de imparável agitação, que concentrou as atenções coletivas. A face de Ahtisaari mostrava um evidente e compreensível desagrado com a estudada coreografia de Clinton, a ponto de se ver obrigado a suspender o seu discurso, até que o presidente americano finalmente sossegasse na sua cadeira. Ao nosso lado, o presidente francês, Jacques Chirac, assistia à cena e rumorava onomatopeias de óbvio incómodo pelo comportamento de alguém que habilmente "roubara a cena" aos poderes europeus presentes. 

Lembrei-me disto, esta manhã, durante a reunião dos "Amigos do Povo Sírio", que decorreu aqui em Paris. O presidente François Hollande, que abriu a reunião, iniciara já o seu discurso perante delegações de 102 países quando surgiu, mas neste caso num passo mais natural e sem quaisquer pausas, uma figura que se dirigiu ao centro de uma sala onde já não havia ninguém de pé, salvo o chefe de Estado francês, no seu podium. O discurso não foi interrompido, mas todos os olhares divergiram, por instantes, para a secretária de Estado Hillary Clinton, que logo se sentou, sem gestos dilatórios. A entrada da representante dos EUA ficou bem registada. E gravada ficou também, no subconsciente coletivo, esta evidente coreografia temporal dos poderes de facto neste mundo.