quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Digo eu, não sei...


Há dias em que o ato de escrever num jornal se converte numa operação de elevado risco, tal a volatilidade dos acontecimentos e o facto de uma qualquer “mudança do vento“ poder alterar, num instante, toda a lógica em que a análise imediatamente anterior se apoiava. É o que acontece, por estes dias, com o Brexit.

Duvido que muitos consigam hoje seguir, passo a passo e com um mínimo de rigor, este debate – uma questão em que as posições do governo de Theresa May são marcadas por uma tal tergiversação tática, em termos da “costura’ de alianças, que legitima que nos perguntemos se, por detrás dela, existe alguma clareza estratégica – que passe para além do seu esforço de sobrevivência política. Declarações e “tweets” de várias fontes sucedem-se, são citados nos noticiários como doutrina a respeitar, numa cadência que soma confusão à confusão. Por isso, como já experimentei, estar dois ou três dias sem olhar as notícias de Londres pode deixar-nos perdidos face a esta atualidade tão movediça. Alguns, mais cínicos, acabarão por concluir que, no final de contas, tudo continua na mesma. Talvez, mas isso não nos deve sossegar, bem antes pelo contrário.

Quando Theresa May vem aventar a possibilidade de adiar a data “fatal” e propor uma prorrogação do Artigo 50°, o que é que isso significa? Quando o líder trabalhista Jeremy Corbyn vem propor um segundo referendo, hipótese que grande parte da classe política britânica pareceu sempre afastar, por receio de ela poder surgir como desrespeitosa face à vontade soberana manifestada no primeiro voto, que podemos concluir? Uma única coisa: que os britânicos com um mínimo de responsabilidades já entenderam que o Brexit, com mais ou menos medidas compensatórias ou atenuantes, acabará sempre por ser um desastre para o seu país.

Percebo que a unidade dos “27”, conseguida em torno do “pacote” que foi negociado com os britânicos, e que May não consegue “vender” internamente, tem um valor inestimável. Mas lembraria esta coisa simples e que creio muito óbvia: tudo aquilo que foi negociado tem um valor “zero” se não conseguir ser posto em prática. É a Theresa May quem compete conseguir isso? Claro que sim, mas se ela não conseguir, o cenário do “hard Brexit” é um pesadelo que passa a ser nosso. Embora isto possa parecer uma heresia, pergunto-me se a UE, num esforço que teria muito também de egoísta, não poderia ter uma flexibilidade acrescida que ajudasse a evitar a tragédia. Como se diz na minha terra, “digo eu, não sei...”

Zaventem



Passei por lá há poucas horas, coisa que não fazia há dois ou três anos. Pelo aeroporto de Bruxelas, dito de Zaventem.

Ao contrário do que vulgarmente me sucede, voltei a sentir alguma nostalgia pela velha aerogare, construída para a exposição universal de 1958. Com o tempo, ela chegou a atingir momentos de notória decrepitude, com pássaros a voar pelos corredores, redes a tentar travá-los e os grandes vidros fazendo sombras de sujidade. 

Sou bem antigo por ali. Assisti ao nascer do velho "satélite", ao fundo do antigo grande corredor. Vi construir, depois, do outro lado, a nova ala, que tornou aquilo que era um aeroporto de culto num espaço igual a todos os outros, como hoje já acontece com a Portela. Com os anos, fui descobrindo espaços novos, naquilo que hoje parece ser um espaço de gente apressada e quase angustiada, um imenso centro comercial. Hoje, surgem BMW iluminados, topo de gama, entre as passadeiras, a acenarem-nos com aquilo que não poderemos vir a ter. Já não me reconheço neste Zaventem, sou sincero! Mas, devemos ser justos: este novo aeroporto, embora mais “desumano”, é bem mais agradável e com melhor aspeto do que o antigo!

Devo ainda reconhecer uma coisa: se há um espaço desta natureza, em todo o mundo (e, caramba, conheço 109 países!), que me diz muito, por tantas razões afetivas, algumas inconfessáveis, é Zaventem - claro que depois da Portela e Pedras Rubras, sobre cujas relação comigo seria quase capaz de escrever um livro.

Por Zaventem passei os meus primeiros banhos de cosmopolitismo oficial, na segunda metade dos anos 70, como portador da "mala diplomática", na descoberta do "glamour" das viagens aéreas, ao tempo em que isso existia (ainda haverá “malas diplomáticas acompanhadas”?). À chegada, recordo, esperava-nos então, rezingão, o senhor Rézo, o motorista da nossa delegação junto da NATO, que sempre nos encaminhava para uns hotéis manhosos, onde se sabia que ele tinha comissão garantida.

(Um dia, troquei-lhe as voltas e, à chegada, anunciei ter reservado em um outro hotel. Ele era fiel do “Albert I”, na place Rogier, mas eu (depois de, numa noite umas semanas antes, ter aí tido a experiência bizarra de baratas sobre a cama) havia-me decidido por um tal “Sirius”, ali ao lado. O homem ficou silenciosamente furioso. Para aliviar a conversa, perguntei-lhe o que achava da minha escolha. Fez um silêncio, mas depois foi soberbo: “Pas mal, pour un bordel!”. Grande Rézo! Era francês, de Valenciennes, coisa que eu de início desconhecia. Tinha sido desclocado de Paris, quanto a NATO estava por lá, antes de De Gaulle ter tido um arrufo com os americanos. Era casado com a telefonista da nossa delegação na organização, uma loira de cabeleireiro, bem mais simpática do que o marido, o que, aliás, não era difícil. Na primeira vez que o conheci, a “armar” que falava francês à moda da Bélgica, em conversa no carro, usei a palavra “nonante”, que é a forma belga de dizer “noventa”, para o francês “quatre-vingt dix”. Rézo, que detestava a Bélgica e os belgas, “fuzilou-me”: “Vous me prennez pour un belge?! Mais non! Je suis français, monsieur!”. Tomei nota.)

Já mais tarde, depois de 1986, o aeroporto de Bruxelas passou a ser um meu destino bem habitual, pela TAP ou pela desaparecida Sabena (agora chama-se Brussels Airlines), nas deslocações regulares a "grupos de trabalho" da então CEE - o nome da atual União Europeia. Um comboio soturno levava-nos de lá, já pela noite dentro, para o centro da cidade, com os diplomatas e técnicos portugueses a saírem nas estações do Midi ou do Nord, para daí rumarem aos hotéis, como o Métropole e outros bem piores destinos da "moda", que cabiam nas nossas pobres ajudas de custo. Não eram tempos gloriosos, mas eu, à distância temporal, acho-lhes alguma graça, confesso.

Finalmente, o aeroporto de Zaventem ficou-me, para memória eterna, ligado a outros tempos que, embora também com bastante interesse, acabaram por ser de um imenso cansaço - os meus anos de governo, a partir de 1995 e até 2001. 

Chegava a Bruxelas esgotado de dias incessantes em Lisboa ou noutras capitais, atulhado de papelada, ensonado e esfalfado. (Cheguei a adormecer na Portela, ainda antes de levantar voo, e a acordar com a tremideira da aterragem em Bruxelas, com o meu “pessoal” a pedir às hospedeiras para não me acordarem). No desejado cenário no fim da manga, tentava descortinar a figura amiga do senhor Barreiros, o simpático funcionário da Representação Permanente (Reper, para os iniciados), que me aliviava o peso da pasta e me conduzia, por corredores que sempre presumi serem VIP, até a um parque de estacionamento, onde me aguardava o fiel Willhelm, um motorista flamengo, tão calado como discreto, como o futuro o viria a provar à saciedade. E lá ia eu, para o Hilton, para o SAS ou para o Montgomery, arrasado de sono, ajoujado de dossiês chatíssimos, com os quais, ao lado, cheguei adormecer e a acordar no dia seguinte, ainda com a luz acesa...

Por aquele aeroporto passei então dezenas (qual quê! centenas!) de horas de atrasos, de conversas, de esperas, de compras. Por lá me deixei adormecer um dia, de fadiga, num banco, num final de tarde, perdendo um voo para o Luxemburgo, o que me obrigou a dormir, quase envergonhado comigo mesmo, num hotel próximo - e não há nada no mundo mais triste do que um hotel de aeroporto, acreditem! Por ali adquiri coisas que ainda hoje estão na minha memória familiar, num tempo em que, em Portugal, a oferta proporcionada pelas lojas era muito diferente das da "estranja". Por lá festejei "vitórias" arrancadas nas lides europeias e ali me forneci de livros inúteis, que comprava para entreter os minutos que antecediam os aviões - minutos que, no meu caso, são sempre mais, porque faço parte dos que, por regra e para desespero dos atrasados crónicos, chegam a tempo e horas. 

Lembrei-me disso, ao final da tarde de hoje, numa breve passagem por Zaventem. Com alguma nostalgia, assumo. Serão saudades doutros tempos ou saudades de mim nesses tempos? Já escrevi isso por aqui, não escrevi?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Equidade

Há dias, participei num exercício de âmbito académico que envolveu pessoas com diferentes responsabilidades empresariais, numa escola universitária de topo no setor. No centro da discussão estava a questão da participação das mulheres em lugares de responsabilidade nas empresas, o “estado” de Portugal nesse contexto e as razões que, entre nós, podem motivar as dificuldades de acelerar uma maior equidade a esse nível. 

A certa altura, o CEO de uma grande empresa deu conta da reação que teve, não há tanto tempo quanto isso, ao ter designado uma mulher para sua chefe de gabinete. Por incrível que pareça, uma atitude de espanto foi expressa por várias pessoas, bem dentro deste século XXI. 

Quando ocupei funções governativas, e já lá vão quase duas décadas, dois dos quatro chefes de gabinete que tive foram mulheres. As presenças femininas no meu gabinete eram tantas que, num determinado período, constatou-se que, além de mim e de dois motoristas, o resto do pessoal, das técnicas ao pessoal administrativo, era todo feminino. Julgo que nenhum membro do governo, em democracia, bateu este “record”. Ao ponto de uma dessas amigas se queixar, um dia: “Fazem falta homens nas nossas salas de trabalho...”

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

As armas da Venezuela


Há cerca de dois anos, contei esta historieta no meu blogue. Hoje, pelas razões que facilmente compreenderão, lembrei-me dela:

"Mário Soares não tinha por hábito pernoitar nas embaixadas, preferindo quase sempre os hotéis. Apenas em Brasília, numa das vezes que por lá passou, o convenci a dar-me o gosto de ali ficar. Mas foram bastantes as noites, em vários países, em que com ele fiquei à conversa pela noite dentro. Nessas ocasiões, eu aproveitava para saciar a minha curiosidade em torno das suas inesgotáveis memórias, sempre marcadas por um rigor dos factos, datas e nomes. Muito aprendi então sobre a história da oposição democrática à ditadura e os bastidores da política doméstica no pós-1974.

Naquela noite, eu juntara à sua volta, num jantar, o antigo presidente da República, José Sarney, e o então vice-presidente, José Alencar. Sarney era um velho conhecido de Mário Soares, que as voltas da política tornara, à época, um leal aliado de Lula, e Alencar era um querido amigo pessoal meu, que achei que Soares gostaria de conhecer melhor.

O jantar começou muito bem, com a bonomia e as histórias mineiras do vice-presidente a deliciarem o nosso antigo presidente. Este tinha vindo, na véspera, da Venezuela, onde entrevistara o presidente Hugo Chávez para um programa televisivo. Estava visivelmente entusiasmado com o líder venezuelano, sentimento que eu sabia muito longe de partilhado pelos dois convivas brasileiros. Alencar mostrava-se mais parcimonioso nestas reservas do que José Sarney, que, tempos mais tarde, acabaria por assumir no Senado brasileiro uma oposição forte à entrada da Venezuela para o Mercosul.

A certo passo do repasto, com a conversa quase sempre em torno da figura de Chávez, comecei a notar que o diálogo entre Soares e Sarney se estava a tornar um tanto tenso. Entre outras discordâncias, Sarney explicava a Soares que havia setores brasileiros muito preocupados com as aquisições de material militar que Chavez tinha recentemente feito, e procurava chamar em apoio das suas teses o vice-presidente da República, José Alencar, que, até meses antes, tinha acumulado o cargo com o de ministro da Defesa. Este, porém, por não querer distanciar-se da atitude nada crítica de Lula face a Chávez, mantinha-se discreto.

Soares, contudo, acreditava piamente na boa vontade de Hugo Chávez, creditava-o de boas intenções e de um real interesse em manter um relacionamento positivo com o Brasil. Num determinado momento, voltando-se para Sarney, disse-lhe: "Ó José Sarney! Eu conheço muito melhor o Chavez do que você! E, por isso, posso assegurar-lhe que nunca uma arma venezuelana que ele controle se voltará contra um interesse do Brasil".

Sarney fechou aquela cara de brasileiro que, do bigode ao cabelo negro com brilhantina, refletia uma imagem caricatural do brasileiro da sua idade a que o mundo dos anos 50 e 60 se habituara, e, longe de convencido, voltando-se para Soares, disse-lhe: "Ó Mário! Nem você nem eu já temos idade para acreditar nessas coisas! Não seja ingénuo!".

Mário Soares não gostou, retorquiu firme, mas com procurada elegância. Eu fiz um sinal a Alencar para me ajudar a amenizar a conversa. Isso foi conseguido, sem dificuldade, mas pode dizer-se que aquele que seria o último encontro entre os dois antigos presidentes não acabou em ambiente de grande euforia."

Chávez já morreu há muito e por lá está agora Maduro. Alencar e Soares também já desapareceram. Olhando as coisas à luz dos riscos potenciais nos dias que correm, com a escalada entre os dois países, em que só se pode esperar que o bom-senso prevaleça, lembrei-me das preocupações de Sarney.

Biafra


Li, há pouco, que vai ser publicado um livro sobre a aventura de alguns portugueses envolvidos no apoio aéreo ao Biafra. Ainda alguém se lembra, nos dias de hoje, dessa República secessionista da Nigéria, dos ibos que por lá habitavam e das fortes razões do petróleo, origem dessa guerra inútil, com muitos mortos e fortes cumplicidades internacionais? 

Ainda guardo algures uma bela nota de “Banco do Biafra”, imaculada e nunca usada, creio que impressa nesta Lisboa onde então vigorava um regime que apostava nos Briafras, nos Catangas, nas Rodésias e em tudo o que fragilizasse a África que se opunha ao colonialismo, de caminho, e também para isso, dando refúgio aos “The Dogs of War” que Frederick Forsyth tão bem retratou.

Um dia, nos inícios de 1976, recém-entrado na diplomacia, fui destacado para ir efetuar uma determinada missão ao recém-criado Estado de São Tomé e Príncipe. A minha estada por lá seria de uma semana, porque era esse o ritmo dos voos da Air Gabon, num pequeno avião que nos fazia chegar e sair da ilha para Libreville, num tempo em que o único percurso alternativo era uma ligação da Taag, através uma Angola em guerra.

Nessa semana, calhou passar uns fins de tarde naquilo que se chamava o “Benguidoxe” (escrever-se-ia assim?), uma espécie de pensão com esplanada, no centro da cidade, onde se bebiam umas cervejas. Creio que através do Jorge Coimbra, um amigo do liceu de Vila Real que vim a encontrar por lá, veio um dia parar à minha mesa (ou eu fui parar à mesa dele) uma figura curiosa. Era um homem grande e cordial, conversador, de um género de contador de histórias que se encontra muito nesses lugares onde o tempo se suspendeu por algum tempo - como era bem o caso da cidade de São Tomé de então. 

O meu interlocutor chamava-se Villaret - um nome que não esquece quem tem a memória do Portugal dessa época. Era piloto e tinha andado envolvido na guerra do Biafra. Contou-me episódios dessa aventura em que aquela ilha, recém-independente, havia também tido o seu quinhão de participação. Eram relatos onde não havia nenhuma arrogância de heroísmo, muito embora as missões tivessem um elevado grau de risco. Lembrei-me dele agora. Surgirá o seu nome no livro que agora vai ser publicado? 

Saí de São Tomé, nesse mês de Fevereiro de 1976, a caminho do Gabão. Ao fundo do aeroporto estava um velho Constellation. Perguntei a alguém o que era aquilo. “É da guerra do Biafra”, respondeu-me. Tentei tirar uma fotografia ao inutilizado avião mas foi-me dito que era proibido, “por razões de segurança”. Não fossem essas brincadeiras serem pouco prudentes, nesses tempos muito afirmativos de juventude independentista, e teria perguntado se a ordem era “do tempo do colono”. Só podia!, como dizem os brasileiros. 

Voltei lá anos depois. O velho Constellation (descobri agora uma foto dele na net!) ainda por ali continuava, a apodrecer. As coisas, em África, têm sempre um tempo e em especial um ritmo diferente. E que teria acontecido entretanto ao Villaret, que já por lá não andava?

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Finalmente, a sensatez!


"A Mulher, o feminismo e a lei da paridade", um artigo tirado de uma nova parceria entre o "Observador", o suplemento feminino do "Diário da Manhã" e a "Modas & Bordados", que prova que "isto" começa a compor-se!

A ler, sem falta! Aqui.

Um passeio pela Europa


Fernando d’Oliveira Neves é um dos diplomatas portugueses com maior experiência europeia. Esteve ligado ao processo de adesão e integração de Portugal desde o seu início, com postos em Bruxelas - na representação permanente de Portugal e nas instâncias comunitárias - e uma experiência como secretário de Estado dos Assuntos europeus. 

Desse seu tempo diplomático, dentro uma carreira profissional riquíssima, decidiu agora publicar em livro uma memória crítica. A distância temporal deu-lhe maior perspetiva de análise, ajudando a ponderar a contextualização política de certos factos. Alguns dos textos refletem coisas vividas, outros um olhar sobre as circunstâncias que marcaram a história contemporânea da Europa - e nós dentro dela.

O livro é muito bem escrito, num estilo sem floreados e de leitura apelativa, às vezes com o humor que as situações suscitaram ao autor ou que este entendeu dever induzir-lhes para fugir à ideia de que a realidade europeia é apenas um ambiente burocrático abafante. E Fernando Neves, um europeísta convicto que o não esconde, olha sempre essa realidade a partir do lugar de Portugal, dos nossos interesses. E um deles, iniludível, como o livro bem o revela, é o sucesso do projeto europeu.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

O diabo veste farda


Alguns governos da ditadura militar brasileira (1964/1985) tiveram menos militares do que agora tem o governo Bolsonaro. Num país em que a classe política dá a imagem de quase não dispor de quadros qualificados sobre os quais não impendam suspeitas ou acusações de improbidade, os militares emergiram, nos últimos anos, como um espécie de setor imaculado, tocado por um odor de santidade ética, que pretende colocá-los acima de qualquer suspeita. 

Noutras geografias, tivemos já a “república dos juízes”. No Brasil, também com juízes à mistura, há agora esta espécie de moralidade fardada, desfilando para o exercício impoluto do poder. Estaria “descoberta a pólvora”, por todo o mundo, se o recurso aos militares pudesse ser assumido como a solução para os problemas éticos da política. Ora é preciso não esquecer que os oito, repito, oito ministros militares que agora enxameiam o palácio do Planalto não dispõem da menor “accountability” democrática, respondem apenas perante um presidente que, como se está a ver dia após dia, sendo uma criação sua, é um homem com imensas limitações, enredado numa teia familiar que já se constatou pedir meças ao pior da política brasileira. O facto das duas mais importantes forças na Câmara de Deputados serem o PT, nos dias de hoje sujeito a uma quarentena política de que será muito difícil sair, e o PSL, o partido que foi “barriga de aluguer” de Bolsonaro e cujo presidente foi já obrigado a demitir-se do governo, faz com que o escrutínio parlamentar esteja, por ora, muito atomizado, o que favorece pontualmente esta preeminência militar.

Os militares brasileiros têm uma história recente de relação com o poder. No auge da Guerra Fria, a exemplo de outros sinistros exemplos na região, montaram um regime de arbítrio, com perseguições, torturas, prisões e muitos mortos – um retrato que só fica menos mal perante o incomparável terror de outras ditaduras latino-americanas. O processo de transição pactuado, onde intervieram muitos políticos que haviam sido homens de mão dos militares, permitiu que a tropa brasileira escapasse a um escrutínio transparente já em tempos de liberdade, com as “comissões de verdade”, criadas na última década, a serem objeto de forte reação do mundo das fardas. Os militares brasileiros costumam tentar absolver-se a si próprios com o argumento das mortes provocadas pelos “terroristas” da extrema-esquerda, deliberadamente escondendo os números bem mais gravosos das suas próprias atrocidades e o facto da reação clandestina armada desses grupos corresponder à contestação da ascensão violenta, ilegítima e anti-democrática dos militares ao poder.

Num país com flutuações políticas muito contrastantes, os militares brasileiros foram capazes de gerar, ao longo dos anos e por cima desses ciclos, uma curiosa doutrina estratégica, com peculiares dimensões de política económica. Trata-se de uma espécie de nacionalismo desenvolvimentista que, no passado, teve laivos estatizantes e de apelo a um forte protecionismo, assente num sentimento de independência nacional que passava pela apologia da preservação de um importante setor público, numa espécie de recuo assumido para o modelo da autarcia, tido como viável em função da existência de um forte mercado interno.

Ouvindo e lendo agora com atenção alguns dos “criadores” militares de Bolsonaro, fica a sensação de que essa doutrina pode, entretanto, ter evoluído. Desde logo, no tocante à aceitação das virtualidades das receitas liberais, quer no comércio externo, quer, em especial, no que toca ao peso das empresas públicas, que os tempos democráticos vieram a confirmar como antros privilegiados de corrupção. Logo veremos como será possível acomodar alguns fortes interesses económicos instalados com o custo imediato das medidas liberais, bem como com o tropismo nacionalista que marca muito a identidade brasileira.

As soluções políticas com intervenção militar são, pela sua natureza, de exceção. Este verdadeiro governo militar “soft“, pode, a prazo, vir a funcionar contra a democracia. Por isso, no Brasil, é preciso dizê-lo: o diabo veste farda, mesmo quando anda à paisana.

(Artigo publicado no “Jornal de Negócios” em 22.02.19)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Frei Bernardo Domingues


Há alguns meses, num artigo, escrevi isto:

"Eu havia cruzado aquele sacerdote há já alguns anos, em tempos seus bastante difíceis, porque as maleitas tocam a todos, ele não escapara a elas e eu fora ocasional testemunha desses seus dias complexos. Guardei, de então, a sua serenidade magnífica perante o que a vida podia trazer-lhe ao virar da esquina, desde logo, a hipótese da morte. Impressionou-me a calma com que, em contexto de total incerteza, olhava as coisas e as pessoas. Admirei-lhe a cultura sem alardes, o humor e o espírito fino de ironia consigo mesmo, a postura de quem se olhava sem magnificar o seu papel – e tenho visto como a sua figura é, afinal, tão importante para muitos. Percebemo-nos desde o primeiro instante, desenhando com facilidade o terreno que nos era comum, que afinal era imenso. Criámos amizade, visito-o, desde então, sempre que posso, leio muito do que publica."

Frei Bernardo Domingues morreu hoje. Vou sentir a falta das nossas conversas, sobre tudo e sobre nada, nas quais ele nunca procurou, nem por um instante, contrariar (nem sequer ironizar) o ateu muito convicto que sou. Aliás, pensando bem, creio que religião foi um tema sobre o qual nunca falámos.

Arnaldo Matos


Aos 79 anos, morreu Arnaldo Matos.

Nos "anos da brasa" de 1974/75, Arnaldo Matos foi um nome bem conhecido dos portugueses, como líder do MRPP. Dirigente associativo universitário nos tempos da ditadura, este jurista madeirense viria a criar, em 1970, o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, mais tarde qualificado de PCTP/MRPP.

Era um movimento maoísta de tipo novo, numa linha completamente independente - e abertamente oposta - das correntes tradicionais.

Em 1974, num comício do MRPP, no Pavilhão dos Desportos de Lisboa, imediatamente após o 25 de abril, foi anunciada, a certo passo, a chegada ao palco do "representante do Comité Lenine, comité central do MRPP". A sala ficou em "suspense". Quando vi subir, em passo lesto, essa anónima figura, saiu-me, bem alto, um "Olha! É o Arnaldo Matos!". Reconheci-o dos tempos da luta académica e de algumas reuniões políticas oposicionistas em 1968/69.

Fui logo silenciado por um coro de protestos dos circunstantes, escandalizados por eu estar a "expor" alguém que estaria "na clandestinidade". Sabia lá eu, que estava por ali, não por qualquer militância partidária, mas por mera curiosidade, e que estava longe de saber que, embora na completa liberdade que então já se vivia, ainda havia quem se mantivesse nesse mundo de sombras.

O nome de Arnaldo Matos acabaria por ser divulgado meses mais tarde e a ele ficou ligado o título de "grande educador da classe operária", na linha grandiloquente da inigualável propaganda do MRPP. Por muitos meses, titulou uma linha que se opunha fortemente ao Movimento das Forças Armadas (MFA), acusando este de ser uma "correia de transmissão" do PCP, numa "tropa" onde curiosamente dispunha de alguns aliados, o mais proeminente dos quais era o major Aventino Teixeira. Uma proximidade a Ramalho Eanes, fruto da convivência comum no seu serviço militar em Macau, também o terá protegido, em especial aquando da sua detenção em 28 de maio de 1975, numa operação do MFA destinada (sem sucesso) a desmantelar o MRPP.

A Revolução entraria, entretanto, em perda de velocidade, o MRPP foi-se tornando cada vez mais diminuto e, um dia, deixou de se ouvir falar de Arnaldo Matos, que terá ingressado na advocacia. 

Nos últimos anos vi-o, por diversas vezes, em eventos públicos, ao lado do lider que lhe sucedeu no partido, o também advogado Garcia Pereira. Depois, foi público um dissídio entre os dois, com este último a ser expulso do MRPP, onde Arnaldo Matos regressaria, em moldes informais e que me pareciam pouco claros, a vários títulos.

Seria a propósito de eu ter referido por aqui esse seu ambíguo estatuto, que o “grande educador da classe operária” me viria a zurzir, tempos mais tarde, nas redes sociais. Nada que eu não levasse à conta da belicosidade polémica de alguém cujo nome, reconheça-se, fica ligado a um período importante da vida política em Portugal.

O diabo veste farda


Leia aqui o artigo com o título em epígrafe hoje publicado no “Jornal de Negócios”.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Porque sim!


Portugal já quase não tem bancos com capitais portugueses. O Santander e o BPI são espanhóis, o BCP tem maioria chinesa e angolana, esta a mesma do capital do BIC. O Novo Banco, até daqui a uns meses, é de um fundo americano. O Montepio é o que é. 

Ah! Mas nós temos a Caixa Geral de Depósitos! Este “nós” não é majestático: a Caixa é minha, como o é de qualquer cidadão, porque o seu capital é 100% público. A Caixa é portuguesa! Quando se ouve um político dizer que, perante este panorama, “é bom que o Estado tenha, pelo menos, um banco”, sentimo-nos automaticamente solidários. A maioria dos leitores, estou certo, também concordará.

E, no entanto, nestes tempos em que tanto se fala da Caixa, não ouço ninguém fazer uma pergunta simples: mas para que é que o cidadão contribuinte quer ter um banco como hoje é a Caixa? Na Caixa, pagamos comissões mais baratas do que em qualquer outro banco? Não, não pagamos. A Caixa mantém balcões em zonas onde não obtém lucro, por razões apenas de interesse regional? Não, não mantém. Dá a Caixa crédito bonificado, com critérios ligados ao interesse público, em condições mais favoráveis do que outros bancos que operam por cá? Não, não dá. Mas a Caixa segue uma orientação consonante, com toda a certeza, com as políticas públicas definidas pelo Estado, que detém o seu capital, que lhe são ditadas pelo governo, não é? Não, não segue. 

Mau! Mas os contribuintes, isto é, nós, não tiveram que fazer, há pouco, um reforço dos capitais da Caixa, para dar liquidez e sustentação financeira à instituição, que pertence a todos nós? Claro que sim. Alguma coisa esses contribuintes devem ter tido em troca desse esforço, ou não? Tiveram apenas a garantia de que o banco que é a Caixa ficou mais equilibrado financeiramente. Óptimo! Mas, em contrapartida, para poder efetuar esse reforço de capital, a Caixa comprometeu-se a atuar, no mercado, exatamente como qualquer outro banco da concorrência privada. Alguém que explique o benefício que o Estado, e o cidadão contribuinte, que é o “dono” da Caixa, tirará do facto desta ser de capital público - ou talvez só os lucros que o negócio vier a render, sempre uma gota de água no dinheiro investido.

Será que, com este artigo, se está a sugerir a privatização, parcial ou total, da Caixa? Nem por sombras! Recuso, em absoluto, a ideia de que a Caixa venha a ser “passada a patacos”, para alguém que por aí surja com uma mão cheia de euros, dólares, yuans ou kwanzas. Porquê? Eu cá sei! Porque sim!

(Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 20.02.19)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Porque sim!


O artigo em epígrafe, hoje publicado no "Jornal de Notícias", pode ser lido aqui.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Lagerfeld


As companhias com que Karl Lagerfeld. o diretor artístico da Chanel, surgia nas mesas do Café de Flore, raramente eram femininas, pelo menos a avaliar pelas muitas vezes em que o vi por lá. Por isso, mais se justifica esta sua fotografia com belas modelos, neste que é o dia da sua morte, aos 85 anos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A política externa e a política


No mundo crispado da política portuguesa, o relacionamento externo do país tem vindo a beneficiar de uma réstea de relativo consenso de Estado. Como é sabido, há quem se queixe disso, sob a ideia de que afinal vivemos numa espécie de “diplomacia reiterada“, que apenas passa por ser uma política externa. Mas há quem valorize esse facto, argumentando que, para um país como o nosso, com algumas persistentes fragilidades, essa imagem de continuidade e quase unidade na frente externa é um valor a cultivar.

O facto de PS, PSD e CDS terem tido responsabilidades partilhadas no palácio das Necessidades, e dos presidentes da República constitucionais terem revelado uma atitude basicamente comum face aos interesses internacionais do país, criou uma matriz condicionante, que tem evitado aventuras desviantes. A Europa, o Atlântico e a lusofonia, diáspora incluída, constituem o triângulo temático básico, intocado mesmo por algumas divergências ocorridas.

É verdade que, aqui ou ali, a alguns protagonistas mais sectários fugiu o pé para o dissenso, mas fica a sensação de que o país mede essas atitudes dissonantes pelo seu valor real, no mercado das ideias que vale a pena respeitar. Mas, atenção!: nada garante que este estado de coisas se prolongue eternamente. O tema europeu e, nele, as áreas da segurança e defesa e a questão migratória já mostraram que o risco de derivas existe e pode emergir de novo, a qualquer passo.

Caso diferente são os dois partidos do sistema que, em tempo constitucional, nunca tiveram as menores responsabilidades governativas: o PCP e o Bloco. 

Os comunistas, numa indiscutível e conservadora coerência, vivem na fidelidade ao que sobeja de um mundo que já desapareceu, cujos rituais de confronto formal persistem em observar, agora estimulados por uma administração americana que lhes fornece oportunas munições para o maniqueísmo. Moscovo já não é a União Soviética mas Putin é o sucedâneo possível para congregar as vozes contra o “satã” americano. A Europa, atravessada agora pela vaga populista, surge como aquilo que os comunistas sempre pensaram que era: um cúmplice subordinado da estratégia de Washington. Deve ser bom sentir o conforto das peças que encaixam num puzzle já antigo.

O Bloco, em termos de política externa, acaba por ser um fenómeno mais interessante. Nos debates estratégicos essenciais, tem, com o PCP, uma similitude na atitude face a Washington e à Nato, coisa que, convenhamos, se torna relativamente fácil, nestes sombrios tempos de Trump. Porém, ao contrário dos comunistas, a Rússia não serve de “farol” automático para o Bloco. Mais do que isso, sente-se que por ali se vive alguma “balcanização” interna de opiniões que, por vezes, obriga o partido a ser sensível a essa coisa complexa de identificar e de mobilizar para a sua defesa que é a liberdade. O esforçado equilíbrio retórico que o Bloco teve na questão da Venezuela, como já acontecera no caso de Angola, só não entra pelos olhos de quem não quer ver.

É impossível isentar a política externa das crises e das conjunturas. Mas, se queremos que ela seja um instrumento coerente para a construção do poder nacional, devemos cuidar em preservá-la das emoções cíclicas e, em especial, da demagogia.

(Artigo publicado no “Jornal Económico” em 15.2.19)

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Palma Carlos


Há horas, em Faro, deparei com uma avenida dedicada a Adelino da Palma Carlos. Se se perguntar quem é, muito poucos, nos dias de hoje, saberão identificar esta cara e esse nome como o primeiro chefe do governo após a Revolução de abril. 

Palma Carlos foi um advogado escolhido, aos 69 anos, para chefiar esse I Governo Provisório. Figura relevante da “barra” dos tribunais, ex-bastonário da sua profissão, tinha sido afastado de funções docentes por razões políticas e só muito mais tarde foi contratado como antigo professor da Faculdade de Direito de Lisboa. Era-lhe associada uma aura liberal. Embora lhe não fosse creditada qualquer atividade relevante contra o Estado Novo - que se sabia que o detestava, sempre sem o incomodar muito - Palma Carlos, que fora membro da Maçonaria, tinha frequentemente defendido opositores políticos da “situação”. A sua forte aceitação nos meios económicos privados terá também sido um dos fatores na base da sua escolha pelo presidente António de Spínola.

O seu percurso na política ativa ia ser muito breve. Deixar-se-ia rapidamente enredar numa tentativa de reforço do poder de Spínola (que ficou conhecido, no jargão da pequena História, como o “golpe Palma Carlos”), ao que se diz, inspirado por Sá Carneiro, o que fez com que o Movimento das Forças Armadas rapidamente retificasse o erro de “casting” e forçasse a sua substituição pelo coronel Vasco Gonçalves. Palma Carlos só voltaria a ressurgir na política muitos anos mais tarde, associado a Ramalho Eanes, na efémera aventura do Partido Renovador Democrático (PRD).

Ontem, ao ver o nome de Adelino da Palma Carlos naquela artéria da cidade onde nasceu, dei comigo a pensar que ele será, com forte certeza, a personalidade política com relevo institucional que hoje está mais esquecida, dentre todas as que surgiram nesses primeiros anos de democracia.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Caídos em tentação



A direita democrática espanhola decidiu atravessar uma linha vermelha. A fotografia que mostra os líderes do Partido Popular e do Ciudadanos, lado a lado com responsáveis do Vox, um grupo de extrema-direita ainda sem presença parlamentar, representa um tempo novo e triste da vida política na nossa imediata vizinhança. Tudo isto fora já prenunciado no anterior entendimento regional na Andaluzia, mas este “dar de mãos” a nível nacional tem um significado substancialmente diferente.

Por décadas, as forças políticas saídas da sábia transição espanhola tinham conseguido evitar a sua mistura formal com quantos propunham políticas de ódio e de discriminação, feitas da exploração dos medos e de sentimentos mesquinhos. Mas havia quem dissesse que, escondido nas catacumbas do PP, vivia sempre algum franquismo envergonhado. A verdade é que conseguir arrancar a um espanhol ”de derechas”, em conversa, uma condenação aberta de Franco e do franquismo foi sempre uma quase impossibilidade – ou então sou eu quem tem andado em estranhas companhias. 

Da trágica Guerra Civil dos anos 30 do século passado, haviam sobrado as famosas “duas Espanhas”: a vencedora e a humilhada. Franco não se havia limitado a ganhar o conflito interno, em que as atrocidades se dividiram, com “vantagem” para o seu lado. Após a guerra, efetuou uma terrível barbárie seletiva, à sombra do nacionalismo e da cruz. E isso não foi esquecido.

O caráter sinistro do regime do ditador galego conduziu a que, mesmo no auge da “realpolitik” da Guerra Fria, a sua aceitação acabasse por ser lenta. Salazar, apesar de não conseguir fazer ingressar Portugal na ONU em 1945, iria obter, pela mão da paternal Albion e pela utilidade das Lages para a América, um irónico “slot” no “mundo livre” da Nato, em 1949. Franco não. 

A Espanha, contudo, era demasiado importante, económica e estrategicamente, para que a quarentena se mantivesse. Com a recuperação económica, a benção americana e o pragmatismo europeu, somados à sua normalidade democrática sob instituições pujantes, o país regressou naturalmente ao “mainstream“ das nações. Tudo isto tendo, como pano de fundo, tensões autonómicas e um terrorismo defrontado com admirável coragem. 

Com os anos, o sistema partidário crispou-se a níveis insuspeitados, hoje com o nacionalismo centralista e os nacionalismos separatistas a confrontarem-se. Mas não deixa de ser uma má surpresa ver alguns por lá derivarem agora para o vale dos caídos em tentação anti-democrática.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Anotem nas agendas!


A política externa e a política


O artigo em epígrafe, publicado hoje no “Jornal Económico”, pode ser lido aqui.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

MFA


Hoje, estive no Instituto de Defesa Nacional, na sala onde reuniu a mítica Assembleia do MFA, em 11 de março de 1975, a recordar, com alguns “camaradas de armas” da época, como testemunhas presenciais, essa noite que mudou o curso da Revolução de abril. 

Tratou-se de um rememorar, para um documentário televisivo, esse tempo de alguma turbulência e muita esperança, onde os confrontos, felizmente, foram reconduzidos a uma decantação num regime de liberdade.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O euro e nós


Fundação


Nasceu há dez anos, que ontem se comemoraram. É incontroverso que a Fundação Francisco Manuel dos Santos ganhou já um espaço próprio na sociedade portuguesa. António Barreto foi o seu primeiro presidente, seguido de Nuno Garoupa, agora de Jaime Gama. É uma estrutura leve, de gente empenhada, onde David Lopes é a alma inquieta e imaginativa que faz mexer toda a máquina. Todos os portugueses conhecem a Pordata, que nos ajuda a conhecermo-nos melhor como sociedade. Muitos de nós comprámos, lemos ou consultámos algumas das pequenas monografias em livro, ou os "Retratos" tirados a temas insuspeitados, editados nesta década pela Fundação. E aprendemos bastante com isso.

Gostava aqui de deixar um abraço a dois amigos cujo entusiasmo esteve na origem desta magnífica iniciativa: a José Soares dos Santos, o membro da família proprietária do grupo Jerónimo Martins que é diretamente responsável pela Fundação, e. muito em especial, a Alexandre Soares dos Santos, seu pai, um homem determinado, com ideias próprias e firmes, por vezes controversas, uma grande figura de empresário que me habituei a admirar e respeitar. Por estes dias, ambos têm fortes razões para estarem orgulhosos com o trabalho que a Fundação que tiveram iniciativa de lançar e apoiar.

A FFMS, com o seu impressionante património de realizações, dá uma bofetada diária a quantos, querendo iludir a importância desta iniciativa de responsabilidade social de um grupo económico central na economia portuguea (e não só), se entretêm na ironia depreciativa em torno de tudo quanto tem sucesso e prestígio.

Cair na tentação


Este é o título do artigo que hoje publico no “Jornal de Notícias” e que pode ser lido aqui.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

ADSE

A ADSE não é financiada pelos nossos impostos. É totalmente suportada pelos descontos dos funcionários públicos. Se estes viessem a ter de usar o SNS, caso a ADSE acabasse, o SNS implodiria, a prazo. 

Quem hoje usa o SNS, por não poder pagar a medicina privada, deve assim “rezar” pela sobrevivência da ADSE. Quem, estando nestas condições, por meras razões de chicana ideológica, tomar as dores dos donos dos negócios da saúde contra o Estado ou é masoquista ou ainda não percebeu nada.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Rio de Janeiro


Nunca percebi (para se ser percebido, no Brasil, tem de se dizer “entendi”) a geografia do Rio de Janeiro. A imbatível beleza daquela cidade tem a ver precisamente com a bizarria do seu desenho urbano, que é, também ela, uma das razões que explicam muitos dos seus problemas sociais. Quando, nas muitas idas por lá, me coube em sorte ter de me deslocar a um lugar fora dos sítios mais comuns e conhecidos, senti-me quase sempre perdido. E, porque frequentemente distraído num “bom papo” com quem me transportava, rapidamente perdia as referências mínimas de orientação. Hoje, continuo a conhecer muito mal o Rio.

Por isso, não consigo dizer, nem aproximadamente, o local da cidade onde ficava o estúdio de televisão onde, há bem mais de uma década, fui para uma conversa noturna sobre a língua portuguesa e o Acordo Ortográfico, com o linguista Evanildo Bechara e, imaginem!, Fáfá de Belém. 

Foi o Araújo, o excelente potiguar (nascido no Rio Grande do Norte) que é (ou era) o motorista do nosso consulado-geral no Rio, quem me levou. Já nem recordo como o debate decorreu, mas apenas que, à saída, notei que não havia grande pressa em que abandonássemos o local. Vi o Araújo preocupado, no hall de entrada: “É melhor esperar um pouco. Há uma confusão na vizinhança”.

“Confusão” era o “understatement” para um tiroteio intenso que, com um pouco mais de atenção, comecei a ouvir lá por fora. Não eram tiros isolados, eram disparos de metralhadora. “É bandido contra bandido”, disse alguém, com naturalidade. Um outro conhecedor esclareceu: “Aquilo é lá ao fundo da rua”. Foi nesse instante que acordei para uma realidade preocupante: o “fundo da rua” era a ladeira por onde tínhamos entrado e por onde, em princípio, devíamos sair. 

Olhei a cara experiente do Araújo, que me pareceu não ter a serenidade habitual. Mas logo chegou um outro suposto “expert”, que me recordo ter aconselhado, para minha imensa surpresa e, devo confessar, algum súbito desconforto: “Sigam pela rua em direção ao sítio de onde vêm os tiros, mas voltem logo na primeira à esquerda. Não se assustem, aquilo é só lá no final, as balas cruzam de um um lado para o outro, vêm dos dois lados, mas nunca entram neste rua”. Anotei aquele “nunca”, definitivo, pretendidamente “rassurant”. E fiz por acreditar.

Já não me lembro da reação de Bechara, mas a Fáfá, que tinha um táxi à espera, continuava, ou tentava parecer, divertida, naquele seu imparável sorriso da brasileira que mais ama Portugal. E eu lá fui, com o valente e dessa vez silencioso Araújo, pelas ruas que acabaram por nos conduzir, sãos e salvos, de volta ao palácio de São Clemente, o edifício que alberga o nosso Consulado-Geral. 

Não anotei a espécie, nome e graduação do álcool forte que o nosso cônsul-geral, António Almeida Lima, então me deve ter dado a beber, à chegada. Só sei duas coisas de ciência certa: que foi, com certeza, uma dose dupla e que a não bebi na varanda traseira onde, por mais de uma vez, haviam chegado no passado tiros saídos da vizinha favela Dona Marta, como a parede atesta.

Ao ler, há pouco, notícias sobre a (in)segurança no Brasil, lembrei-me deste episódio ocorrido no Rio que passou pela minha vida, para citar alguém conhecido.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

A insídia é tão fácil!

Há pouco, numa primeira página de jornal, sob o título “Tudo em família”, deparei com algo que, por muito que possa sugerir-se como jornalismo, não passa de uma mera insídia: a criação da ideia de que a carreira profissional dos filhos de gente conhecida, lá no fundo, tem sempre a ver com a notoriedade conseguida pelos pais. Um pouco adiante, dentro do jornal, a coisa aparece adociada com uma nota de chamada mais normal: “Já diz o provérbio popular: filho de peixe sabe nadar”. Porém, no cômputo geral do que ficou escrito, com o título da capa a marcar tudo, a “suspeitazinha” ficou  instilada.

Nesse mundo doentio dos mitómanos das teorias da conspiração, do “não é por acaso que”, do “não há coincidências”, do “toda a gente sabe que”, da ideia recorrente de que a corrupção e o tráfico de influências andam hoje aí por todo o lado, de tanta gente frustrada com o quotidiano de si e dos seus, aberta ao despeito pelo sucesso alheio, o efeito ficou conseguido. E, claro, para um leitor, nada é mais cómodo do que deparar com uma notícia que conforta os seus preconceitos. Depois, no conjunto de casos citados, alguém virá pescar um ou outro tido como suspeito, como argumento generalizador para lançar lama sobre todos os restantes. E a nenhum foi dada a hipótese do contraditório para poderem dizer a sua parte da verdade.

Há sempre, neste tipo de artigos, uma inescapável componente de apelo à inveja, um dos mais medíocres sentimentos comuns da espécie humana. Por detrás da revelação escandalizada das ligações pais-filhos, tenta-se sempre sedimentar, de forma implícita, a sugestão de que, não fora o destaque dos pais, aos respetivos filhos a vida não teria corrido tão bem, que o sucesso destes se deve, essencialmente, à saliência pública dos primeiros. 

É óbvio que não é possível negar que, algumas vezes, isso pode ter ocorrido. Por essa razão, sempre entendi importante que fosse denunciado, alto e bom som, quem usufruiu de “cunhas” ou de empurrões profissionais indevidos. Mas, atenção!, sempre devendo prová-lo, caso contrário ficamos no mero campo da difamação, que hoje tem pasto adubado na “cultura” das redes sociais. O “achismo” e a conversa de café, dos que “ouviram dizer que”, não passam disso. De intriguistas e difamadores.

O tipo de insinuações como o que decorre da notícia de que acima falei é profundamente injusto para filhos ou filhas de gente com algum nome público, mas que subiram na vida exclusivamente por mérito e pelo seu valor pessoal, que têm uma confirmada e reconhecida qualidade própria e que até, algumas vezes, chegaram mesmo a ver a sua afirmação pessoal prejudicada pelo “ruído” criado no seu percurso profissional pelo nome do seu progenitor ou progenitora. 

Escrevi o que acabei de escrever sabendo bem que este texto não vai bem com o “trend” prevalecente nas redes sociais, que os “likes” hoje não abundarão. Mas é isto o que penso e, para mim, isso é o mais importante.

Famílias

Ontem, numa conversa entre amigos e conhecidos, veio à baila a questão do celibato dos padres. Com os agora revelados escândalos, em que certos setores da igreja católica têm andado envolvidos, da pedofilia a outros abusos sexuais, quiçá também potenciados pelos ambientes pouco naturais, face à natureza humana, em que a vida sacerdotal se processa, o sentido das coisas parece apontar, a prazo, para a necessidade do quotidiano dos sacerdotes poder vir a evoluir para uma maior similitude com a dos cidadãos comuns, como, aliás, já acontece em outros sistemas religiosos.

A generalidade das pessoas presentes na conversa, com a minha exceção todas católicas, que se desenrolava num registo ligeiro, pareciam partilhar um relativo consenso sobre a inevitabilidade dessa futura dinâmica familiar dos sacerdotes. 

Até que eu, que sou “de outra freguesia”, lancei uma questão: “E depois, como é? Durante os conclaves em Roma, as mulheres dos cardeais vão fazer compras para o Corso? E a mulher do papa? Vai com elas?” 

Senti que o consenso que até então se desenhava face ao fim do celibato sacerdotal sofreu alguma fragilização perante aquele meu atrevido cenário social futuro...

sábado, 9 de fevereiro de 2019

As estrelas de Bragança


Durante muitos anos, para quem era da minha terra, de Vila Real, a cidade de Bragança quase não existia. A estrada para lá era difícil, as curvas de Murça exigiam, no final, que se bebesse um quarto de Pedras na “Mira”, para atenuar o enjoo, quando, a caminho, se parava em Mirandela, para nos abastecermos das alheiras da Adelina. Às vezes, no percurso, comia-se (e ainda se come bem) no “Maria Rita”, no Romeu, ou, em Macedo, na saudosa “Estalagem do Caçador”, com uma inesquecível e bizarra decoração. Fora essa jornada forçada, que raramente fazia parte dos nossos percursos turísticos, Bragança era apenas o caminho para Espanha (e, em especial, para França), via Quintanilha e Zamora.

Recordo que se chegava a Bragança sempre arrasado, com a vista do castelo (ela aí está!). Era uma terra muito fria no inverno, onde nos cruzávamos com gente de samarra, e uma brasa infernal no verão, com aquelas terras e gentes a viverem uma injusta distância do mundo, que só as estradas do défice e da democracia viriam a atenuar. Vá lá, depois de arribados, havia por ali a simpática Pousada de São Bartolomeu, com uma lareira magnífica. Mas, na sala ao lado, sempre se jantou apenas assim-assim.

Onde se comia em Bragança, nesses tempos dos anos 70? Lembro-me apenas do “Lá em casa”, com coisas de caça, e do “Solar Bragançano”, naquele primeiro andar com ar de pensão de província, junto à Sé, onde se conversava sobre vinhos (pouco variados, então) com o patrão. No resto, que me perdoem, a cidade era um verdadeiro deserto culinário. Um dia, chegou-me a informação de que, fazendo uns quilómetros mais, em Gimonde, o “Dom Roberto” apresentava algumas coisas simpáticas. Ao lado, surgiu depois o “Quatro”. Hoje também há por lá o “Abel”, com excelente posta. 

Mas voltemos a Bragança. Tudo mudou por ali (por aqui, porque hoje estou em Bragança!). A cidade tem hoje um imenso orgulho na renovada Pousada, onde funciona o restaurante do Óscar Gonçalves, como o seu irmão e escanção António Luis a dirigir superiormente a sala. Trata-se do “Restaurante G”, que há semanas obteve uma esplendorosa estrela do Guia Michelin. Para mim, que assisti, ano após ano, à construção desse sucesso, foi uma imensa alegria. E espero que o tenha sido também para Bragança (a medalha de ouro da Câmara Municipal não deve tardar, se é que já não saiu), como o é para todo o Trás-os-Montes. 

Esta aventura do “Restaurante G” nasceu de um outro espaço da cidade, o magnífico “Geadas”, dos pais do Óscar e do Tó Luís, onde ambos fizeram a tarimba. O “Geadas”, que conheço há mais de duas décadas, continua excelente, com o Adérito e a dona Iracema nos comandos. 

Mas Bragança, em matéria de restauração, não parou. Ainda hoje, ao almoço, tive a felicidade de experimentar uma casa de primeira qualidade, que recomendo vivamente: a “Tasca do Zé Tuga”, dentro do castelo de Bragança, do chefe Luis Portugal. Posso dizer uma coisa muito sincera? Há já algum tempo que não comia tão bem! E disse isso ao chefe (quando não saio satisfeito, também digo). Um menu de butelo e um lombelo de se lhe tirar o chapéu, com sobremesas altamente criativas. Parabéns!

Mas há mais em Bragança! No centro da cidade, come-se bastantr bem no “Poças” e, fora, na estrada do Portelo, vale a pena uma visita ao “Javali”, num espaço rural muito simpático, e que vi hoje que já tem uma extensão dentro do castelo de Bragança, quiçá para fazer marcação à vizinha “Tasca do Zé Tuga”.

Uma lacuna, de que me penitencio: ainda não fui ao “Porta”, um espaço de cozinha contemporânea da cidade de que me falam muito bem. A vida não dá para tudo.

Amanhã regresso à minha Vila Real que - lamento ter de dizer - fica, nos dias de hoje, muito atrás de Bragança em matéria de restauração.


Hoje, deixemos as tristezas para trás. Fígados ao alto! E viva Bragança!

Notícias do Brasil (2ª parte)


A representação parlamentar brasileira saiu altamente fragmentada das últimas eleições. Aproveitando essa circunstância, Jair Bolsonaro terá sido aconselhado a constituir o governo de uma forma diferente daquela que tem sido corrente no Brasil, isto é, a não desenhar um executivo pletórico onde pudesse acomodar um conjunto de representantes de partidos que, somados, lhe pudessem garantir maiorias na aprovação de legislação. O seu governo é assim mais pequeno (embora maior do que inicialmente anunciado) e com uma composição atípica. Porque o modelo de suporte parlamentar que visa é diferente.

Vale a pena lembrar que, na tradição parlamentar brasileira, aos partidos do “setor governista” eram atribuídos ministérios que esses mesmos partidos enchiam com o seu pessoal político. Se o partido tinha força quantitativa no Congresso, ocupava todo o espaço dos chamados “escalões” (níveis) de acolhimento de fiéis: eram os ministérios “de portada fechada”. Se se tratava de partidos mais pequenos, a sua ocupação dos cargos ministeriais era mais restringida: tinham de dar espaço, nos “escalões” inferiores, a pessoal indicado por outros partidos. Eram os chamados ministérios “de portada aberta”.

Essa prática era estendida, como modelos adaptados, à plêiade de empresas públicas, com particular interesse por postos de onde saíssem fortes “recursos”. Ficou célebre, em tempos, o modo como um patusco presidente da Câmara de Deputados, Severino Cavalcanti, oriundo do “baixo clero” (deputados menos importantes), eleito inopinadamente por virtude de um dissídio dentro do PT, reclamou para um seu apaniguado um lugar na Petrobrás, que esclareceu que tinha de ser “daqueles de fura-poço”...

Bolsonaro seguiu, ao que se diz por influência dos militares, um outro modelo, que agora se verá se conseguir pôr a funcionar. Assim, além de colocar sete militares (!) em cargos governativos, e mais de 40 em lugares de topo da administração, optou por, na Câmara de Deputados, procurar uma aliança direta com os interesses organizados, em lugar dos partidos. Assim, apoiou-se prioritariamente nas chamadas “bancadas” (frentes de interesses, que atravessam as linhas partidárias) mais representativas de setores conservadores e, em alguns casos, de uma direita muito radical.

É o caso da “bancada evangélica”, onde se acolhem os eleitos oriundos e financiados pelas poderosíssimas igrejas evangélicas (com uma agenda ultra-conservadora para a educação pública e política familiar, recusa do aborto, privilégio das relações com Israel, etc), a “bancada do boi”, com deputados protetores dos interesses de proprietários agrícolas (favoráveis ao desmatamento da Amazónia, à redução dos cuidados ambientais, com grande desprezo pelos interesses e direitos dos indígenas) e a “bancada da bala”, constituída pelos promotores de um alargamento da posse privada de armamento e, simultaneamente, defensores de uma política ultra-securitária, favorável a uma repressão da criminalidade que, em alguns casos, poderia passar as barreiras legais mais elementares e civilizacionais. Há semanas, um relevante bolsonarista reclamava da dificuldade de fazer passar legislação que, em lugar da castração química dos violadores, autorizasse a castração “por facão”...

Na constituição do governo, acolheu, para além do seu novo partido PSL, uma única formação do núcleo tradicional de partidos brasileiros, sem surpresa, o mais à direita - o DEM (ver história na 1ª parte). Raramente na história da democracia brasileira o DEM (que é um partido ausente de representação em muitos Estados) havia conseguido ser tão poderoso: tem hoje três ministros, um dos quais, Onyx Lorenzoni, no decisivo posto de chefe da casa civil. E, como referi no texto anterior, tem agora também a presidência das duas câmaras do Congresso: a Câmara dos Deputados e o Senado. Para um partido que, nesta eleição, viu reduzida fortemente a sua representação parlamentar trata-se de uma vitória indiscutível.

Um filósofo brasileiro ultra-reacionário, Olavo de Carvalho, que vive nos EUA e é uma espécie de guru de alguns setores próximos de Bolsonaro, terá também tido “direito” a indicar os nomes do ministro da Educação (um colombiano naturalizado brasileiro, que tem uma obsessão contra o método de alfabetização de Paulo Freire, um património e um orgulho para muitas gerações brasileiras), do ministro das Relações Exteriores e do consultor internacional do presidente.

O caso do chefe da diplomacia, Ernesto Araújo, é, provavelmente, o maior erro de “casting” de um governo onde eles não parece faltarem (o caso da ministra evangélica, indicada para a pasta da Família, Damares Alves, é uma fonte regular de episódios hilariantes). 

Funcionário diplomático de nível baixo, o novo ministro das Relações Externas, um fanático anti-multilateralismo, negacionista das alterações climáticas, com uma cultura de extrema subserviência face aos EUA (que não é muito bem acolhida numa escola militar muito nacionalista e às vezes com um ligeiro tropismo anti-“yankee”), fez já uma série de “gaffes” que, ao que parece, terão levado os militares em torno de Bolsonaro a propor a criação de uma espécie de “conselho estratégico”, para regular as decisões com implicações externas mais relevantes.

Há uma tese a correr segundo o qual este bizarro ministro será utilizado para fazer o “dirty work” de “remoções” de chefes de missão tidos como menos simpáticos para o novo poder, como nomeações de diplomatas mais fiéis e ideologicamente mais “like-minded” com o "bolsonarismo" ideológico. Daqui por uns tempos, ele seria “posto com dono” numa embaixada simpática e a chefia do Itamaraty seria entregue a alguém responsável, com outro estatuto, capacidade e prestígio.

Duas notas para dois ministérios bastante poderosos - cujos titulares, não por acaso, acompanharam Bolsonaro em encontro de Davos, onde a impreparação clamorosa do presidente fez passar uma humilhação ao Brasil, reconhecida internacionamente.

Um superministério económico foi entregue por Bolsonaro a Paulo Guedes, um cultor da “escola de Chicago”, admirador do “choque” económico de Pinochet no Chile, restando ver quão longe conseguirá ir num processo intensivo de privatizações que se propôs desencadear, no que poderá vir a ter algumas reticências da área militar e em setores produtivos internos que vivem, há décadas, refugiados no protecionismo.

O segundo importante super-ministério foi entregue ao juiz-vedeta Sérgio Moro, adorado pelos diabolizadores de Lula, que tem na sua pasta a estranha combinação da justiça com a ordem pública.

Há muito quem pense que pelo sucesso, ou não, destes dois ministros passará muito o destino do governo Bolsonaro.

E chegamos, finalmente, aos militares. Aparentemente, a tropa tem um forte “droit de regard” sobre o novo governo. (Devo dizer que nunca pensei que a sua influência pudesse ir tão longe, mas vai). Nos dias de hoje, essas figuras não eleitas, ungidas de uma espécie juízo de “neutralidade” patriótica, quase “sebastiânica”, constituiram-se como um elemento fulcral do novo poder político brasileiro. Estaremos já quase numa espécie de “governo militar”, em modelo de “coabitação” democrática com os civis? Se não estamos lá, não estamos muito longe disso. Na estrutura governamental, dois nomes se impõem: os generais Augusto Heleno e Santos Cruz. O primeiro parece ser o “master mind” do governo, mas o segundo tem também um forte prestígio. Parecem ser eles quem “define a linha” e, embora na reserva, quem promove a articulação com as chefias militares no ativo - que dão sinais de estarem verdadeiramente empenhadas no sucesso deste governo.

Mas há um terceiro nome, que a cada dia que passa tem vindo a ganhar mais evidência, mas também alguma polémica: é o vice-presidente Hamilton Mourão. Um filho de Bolsonaro confessava, há dias, que a escolha de Mourão para a vice-presidência havia sido feita para travar um eventual processo de “impechment” de Bolsonaro. O raciocínio era simples: o general Mourão dera provas de ser um radical desbocado, atribiliário e cáustico, um ultra que trazia as piores memórias do regime militar. Assim, ninguém se atreveria a afastar Bolsonaro porque, se isso acontecesse, seria pior a emenda do que o soneto...

Ora Mourão, empossado que foi do cargo de vice-presidente, decidiu passar de Dr. Jeckyll para Mr. Hyde. O seu discurso suavizou, deu mostras de rara compreensão perante o caso de um deputado de extrema-esquerda que se disse perseguido, teve uma linguagem contemporizadora para com a questão do aborto e, em vários outros dossiês, tem-se revelado, dia após dia, cada vez mais distanciado de certos aspetos mais radicais do discurso do “bolsonarismo”.

Um líder evangélico fez já um video quase a insultar Mourão, o filósofo Olavo de Carvalho, lá dos Estados Unidos, tem vindo a dizer em “tweets” cobras e lagartos do vice-presidente e a “famiglia” de Bolsonaro já deu claras e públicas notas de estar à beira de um ataque de nervos. O próprio presidente, no leito do hospital onde recupera dos efeitos do atentado, ao que parece descontente com as liberdades auto-assumidas pelo seu vice, decidiu avocar, mesmo nesse estado físico, a plenitude dos poderes presidenciais. Tudo isto a fim de evitar que Mourão continue a utilizar a presidência interina para mostrar estatuto, “gravitas” de Estado e um já indisfarçável tropismo para se sugerir como alternativa futura ao presidente. Ah! E, de caminho, o vice-presidente tornou-se a coqueluche dos diplomatas estrangeiros em Brasília, que correm a visitá-lo. Há dias, também recebeu uma delegação palestiniana, à qual quase garantiu que a promessa de Bolsonaro a Netanyahu, de transferir a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, afinal pode não ser para levar a serio.

Enfim, neste novo e nóvel governo brasileiro, tudo aponta para que se esteja a “armar uma estrangeirinha” dos demónios. Logo veremos.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Pensar o futuro da Gulbenkian


Tive um grande prazer em ser convidado pelo Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian para passar a integrar um corpo de 12 conselheiros, portugueses e estrangeiros, que teve hoje a sua primeira reunião, no início de um exercício que tem como objetivo aconselhar a instituição a refletir o seu trabalho no futuro, conforme pode ser lido aqui.

A luta dos enfermeiros

Custa-me muito ver uma classe tão prestigiada e respeitada como sempre foram os enfermeiros, que em toda a vida nos habituámos a ver como nossos “aliados” em momentos difíceis, terem-se deixado conduzir por uma luta venal extrema, com laivos de crueldade, muito à revelia do sentimento profissional de solidariedade com o sofrimento do próximo que tinham sabido cultivar, e que agora os aliena do público utente e projeta deles uma imagem muito negativa. As lutas sindicais são legítimas e insubstituíveis em democracia, mas a esta faltou o bom-senso e a afirmação permanente do primado do sentido de serviço público, até para preservação do bom nome da classe, que se liga intimamente ao respeito que, com certeza, quererá conservar na sociedade. Este é um triste momento para a imagem dos enfermeiros portugueses - é preciso dizê-lo. E estranho muito que, talvez por temor corporativo, alguns enfermeiros com maior sentido de responsabilidade não tenham tido a coragem de vir a terreiro dizer aos seus colegas que o que é demais é erro.

Brasil


Há dias, deixei aqui a promessa de um segundo texto sobre o Brasil, complementar do que escrevi. Não a cumpri. Fá-lo-ei quando tiver tempo, coisa que não tenho tido, embora possa não parecer.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A questão europeia


Estão à porta as eleições para o Parlamento Europeu. Entre os deputados a eleger pelos “27” (ou pelos “28”, se o Brexit se atrasar) haverá, com toda a certeza, uma percentagem de eurocéticos, ou mesmo de anti-europeus, superior a qualquer anterior legislatura, o que tornará aquele areópago numa instância mais contrastante e polémica. E isso não ocorrerá sem consequências negativas para a eficácia daquela instituição, cujos poderes, à luz dos tratados, têm vindo a crescer. Esse vai ser um problema europeu, para os próximos cinco anos.

Estranho, contudo, que ninguém fale de uma outra realidade, paralela a esta, a qual, a meu ver, pode ter efeitos bem mais graves no funcionamento da União: refiro-me à composição da nova Comissão Europeia, que estará em funções no final do corrente ano, depois de aprovada pelo novo parlamento.

A Comissão, que tem o exclusivo da iniciativa legislativa, é uma instituição composta por personalidades - uma por país - indicadas pelos Estados membros, designadas pelos respetivos governos, em diálogo com o futuro presidente. Em princípio, os comissários designados devem “esquecer” a sua nacionalidade, mas a realidade da vida aponta quase sempre noutro sentido, isto é, quase sempre carreiam para dentro do colégio as linhas políticas que marcam os governos que os escolheram.

Durante muitos anos, a Europa habituou-se a viver sob a égide de duas grandes famílias políticas – uma conservadora, outra social-democrata. Essas correntes foram hegemónicas ao longo de toda a história europeia, com expressão natural na composição das sucessivas Comissões. Mantinham algumas diferenças entre si, mas as suas parecenças foram sempre bem maiores do que as suas dissemelhanças, pela circunstância de olharem o desenvolvimento do projeto europeu sob um prisma basicamente comum. No trabalho coletivo dentro da Comissão, sob a coordenação de um presidente oriundo da família política dominante no conjunto dos governos nacionais, as suas eventuais diferenças geralmente esbatiam-se, sob esse “template” europeísta.

Tudo isso pode agora mudar. Há governos europeus, alguns que hoje são membros “rebeldes” das famílias políticas tradicionais, que não quererão perder o ensejo de enviar para o seio daquela instituição figuras que consigam defender a sua “diferença” e até, porque não?, a sua vontade de contestar o próprio projeto europeu. É a democracia que lhes confere esse direito. A menos que aconteça um “milagre”, os anos que aí vêm serão muito difíceis para a Europa.

(Artigo que ontem publiquei no “Jornal de Notícias”)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Pantaleão


O leitor deste espaço há-de convir que não se encontra um Pantaleão por dá-cá-aquela-palha, em cada esquina da vida. Eu nunca tinha encontrado nenhum. Mas há pouco, cruzei-me com um Pantaleão, precisamente numa esquina: era angolano, da Huíla, e condutor do Uber que eu tinha chamado. Está por cá há sete meses. Inquiri de onde lhe vinha o nome: era de um avô. Não, o Pantaleão não era preto (como o leitor poderia suspeitar), era branco e o avô era da Madeira (por cá, há Pantaleões na Madeira e em Gondomar, fiquei a saber, porque ele me disse).

Perguntei-lhe se tinha lido o livro de Vargas Llosa, "Pantaleão e as visitadoras". Nunca tinha ouvido falar. Disse-lhe para o ler. Malandro (com a permissão dos leitores deste casto blogue), acrescentei, para o estimular: "Mete tropa e muitas gajas ..." O nosso Pantaleão ficou entusiasmado. No fim da viagem, tomou nota, por escrito. Disse-me que vai comprar o livro.

Se acaso de outro tipo de pessoa se tratasse o Pantaleão com que hoje me deparei, e se esse outro já tivesse lido, quanto mais não fosse por curiosidade onomástica, a saborosa novela de Vargas Llosa, então talvez tivesse valido a pena eu ter-lhe revelado, se o não soubesse, que é dedicado a São Pantaleão (na imagem) um dos belos mosteiros no monte Athos, na Grécia - um lugar que faz parte de algumas das já muito escassas coisas que integram a minha agenda de curiosidade pendente, para usufruto ainda neste "vale de lágrimas", tal como livros, vitualhas, copos, viagens e outros prazeres lúdicos (eu escrevi lúdicos, não lúbricos!) que acho que ainda valerá a pena ver, consumir ou experimentar, antes que as pilhas acabem.

Enfim, fiquei hoje a saber que, em Lisboa, até há Pantaleões. Isto é que é uma cidade cosmopolita!

A questão europeia


Intitula-se "A questão europeia", o artigo que hoje publico na minha coluna semanal no "Jornal de Notícias" e que pode ser lido aqui.

Uma questão de fé


Há dias, ao falar por aqui do ISCSPU, alguém se referiu a um dos professores da casa, o padre Silva Rego, que conheci nesses anos que passei pelo palácio Burnay, na rua da Junqueira, na mudança de década de 60 para 70, do século passado.

O ISCSPU, a que o 25 de abril haveria de fazer perder o "U" de "Ultramarina", foi a última versão de uma muito antiga escola de quadros para a administração colonial, criada no âmbito da Sociedade de Geografia de Lisboa. Adriano Moreira, que dirigiu o ISCSPU até 1969, foi responsável por alguma qualidade académica que o Instituto chegaria a ter.

Silva Rego era um professor do ISCSPU, um colaborador próximo de Adriano Morteira. Foi um investigador reconhecido nas suas áreas específicas de competência, em especial a história das missões em África. Além de docente de cadeiras de História, dirigia o Centro de Estudos Missionários, um espaço onde me recordo que havia uma pequena biblioteca, um “oásis” em que se podia trabalhar em grande sossego, com um cheiro a madeiras e papel que o meu olfato nunca mais esqueceu.

Rego era beirão, o que se notava à distância pelos “xis” abundantes na sua conversa. Era um homem firme, na sua aparente bonomia de sacerdote. Mas, do que me lembro, e não lembro muito, não me pareceu ser má pessoa.

Um dia, em 1971, teve lugar uma Assembleia de Escola, no maior anfiteatro da casa, a que Silva Rego, por uma qualquer razão, presidia. Por essa época, Adriano Moreira já fora afastado da direção do ISCSPU, num ato de saneamento político de Marcelo Caetano, executado pelo seu homem de mão na Educação, Hermano Saraiva. O Instituto era já então dirigido por Vasco Fortuna, uma figura com uma postura nada dialogante com os estudantes, com quem eu iria passar a ter um conflito, sério e longo, pouco tempo depois.

Tenho ideia de que a sessão presidida por Silva Rego, que imagino tenha sido organizada para tentar controlar os constantes debates que fazíamos, para discutir a natureza da escola, tentando forçar a abertura às Ciências Sociais que Adriano Moreira iniciara, terá evoluido mal, à luz dos propósitos para que fora convocada. O debate entrou num registo algo caótico e, a certo ponto, fugiu ao controlo de Silva Rego. Quando alguém que intervinha citou a palavra “colónias”, que por ali era em absoluto proibida, ele perdeu a paciência, enfureceu-se, pôs-se de pé e declarou, com solenidade: “Está levantada a sessão!”. Imagino que tenha soado a “xexão”...

Da primeira fila da assistência, numa insolência que reconheço escusada, mas com a garra de “troublemaker” académico que, por esses tempos, eu era, levantei-me e declarei, alto e bom som: “Se o senhor professor levanta a sessão, então nós pousamo-la!”. A minha única mas escassa “autoridade” provinha do facto de ser presidente da Assembleia Geral da associação de estudantes. Soaram pela sala algumas gargalhadas e, enquanto Silva Rego abandonava o anfiteatro, apressado e furibundo, acompanhado dos professores presentes, eu encaminhei-me para a mesa, “assumi” a presidência e, pouco subtilmente, converti a sessão numa RGA, uma “reunião geral de alunos”.

Já não recordo bem como as coisas se passaram depois, mas, horas mais tarde, fui chamado ao gabinete de Silva Rego. Temi o pior, claro.

Rego tinha sido meu professor, creio que de duas disciplinas, em que fui aprovado com merecidas notas de nível mediano. Num desses exames, vi-o ficar profundamente irritado quando lhe citei o célebre livro do historiador britânico Charles Boxer, “Race relations in the Portuguese colonial empire”. Mal eu sabia, embora devesse ter imaginado, que Boxer era o seu maior “ódio de estimação”. (Um dia de 1990, em Londres, tive oportunidade de contar este episódio a Boxer, que foi talvez o mais importante historiador da nossa aventura colonial, que me revelou nutrir escasso apreço académico por Rego).

Voltemos àquela tarde de 1971. Apesar dos meus receios, Silva Rego, que estava já bem mais calmo, recebeu-me com um tom que, sem deixar de ser firme, era relativamente cordial. Na sua caraterística pronúncia beirã, tratando-me por tu, como paternalmente sempre fazia, disse-me: “Ó filho! Tu tens de entender, de uma vez por todas, que não estás bem nesta casa! Quem para aqui vem deve comportar-se como quem vai para um seminário: tem de acreditar! Ora tu, tal como outros amigos teus, não acreditas na política de manutenção do Ultramar. Isso ainda um dia te vai criar outros problemas, mas esse não é agora o meu problema. O que eu te queria dizer, com a maior franqueza, é que acho que o teu lugar não é nesta escola. Devias ir fazer vida para outro lado.” Não sei o que lhe respondi nem como a conversa evoluiu.

Silva Rego, nessa tarde de 1971, tinha razão. A partir de então, e durante três anos, a minha vida viria a tornar-se num “inferno”, no ISCSPU. Tive um longo processo disciplinar, por este e por outro incidente, e passei por vários tempos complicados que incluiram uma notória perseguição pessoal, a proibição de entrada nas instalações, com acesso apenas às “frequências” e aos exames. No ano seguinte, uma decisão ministerial viria a impedir a minha reeleição como dirigente académico. Depois do 25 de abril, vim a ter acesso a um processo que sobre mim foi elaborado, enviado ao Ministério da Educação, contendo citações de intervenções que eu tinha feito em várias ocasiões, com comentários que me qualificavam como um “perigoso agitador” e epítetos parecidos, num tom “pidesco” que me ajudou a entender melhor os métodos de certas pessoas da “casa”, algumas das quais me denunciavam por detrás e sorriam pela frente. O que lá vai lá vai, mas o que ficou ficou.

No dia 29 de abril de 1974, decido entrar no ISCSPU. Voltei fardado de militar, como miliciano que era. O José Augusto, o contínuo “bufo” que vigiava os estudantes e que, até àquele dia, tinha tido ordens para barrar o meu acesso físico à escola, recebeu-me com um sorriso do tamanho do mundo. É que o mundo mudara, entretanto

Nunca mais soube do padre Silva Rego. Reconheço que, por um lado, ele estava certo: eu não acreditava em nada daquilo. E que, por outro, estava errado: a História deu-me razão.