quarta-feira, 31 de julho de 2019

Ainda a ética política


O Estado tem de ser sério, se quer ser levado a sério. Não é admissível, num tempo de forte escrutínio sobre a gestão dos bens públicos, em que se pede aos cidadãos um esforço fiscal tremendo, assistir a dispêndios cuja afetação possa suscitar fundadas dúvidas, em termos de transparência ou de rigor nos gastos. Quem não perceber que o mundo mudou muito, neste domínio, terá um destino político breve ou muito conturbado.

Todos sabemos que metade do ruído mediático que qualquer incidente nos gastos do Estado suscita é fruto da chicana política – da política politiqueira – e da consabida apetência para explorar as dificuldades do exercício do poder. Meia mentira e meia verdade fazem um título ou um “soundbite”. Também isso, habituem-se!, é parte da democracia contemporânea. 

Mas falta ainda a outra metade. E essa, para além dos muitos casos em que há um objetivo dolo nas ações praticadas, é feita de facilitismo, de leviandade, diria mesmo, de amoralidade cívica.

Servir o Estado tem regras, obedece a princípios que decorrem, não apenas da lei, mas da ética comportamental exigível a quem cuida da coisa pública. É algo que só se aprende com o tempo, muito embora os tempos que se vivem, em que a diabolização do Estado está na boca de alguns a quem o cabe dirigir, não ajude muito a essa pedagogia cívica. 

Ser eleito ou nomeado para um cargo público não confere a ninguém, necessariamente, um “template” de servidor do Estado. Sair de uma “jota” e entrar num gabinete governamental não dá a ninguém um diploma de competência para gerir a coisa pública. 

Concedo que o “amiguismo” político, essa imensa escola de recrutamento que quatro décadas de “bloco central” inocularam na nossa máquina pública, é talvez um efeito colateral inevitável do nosso modelo político, que tem os partidos no seu centro de gravidade institucional. Mas é imperativo democrático conseguir moderá-lo. E isso passa pelo sancionamento imediato de um qualquer comportamento que afete o bom nome do Estado. 

Em política, por muito que isso custe a muitos, só raramente se aplica o princípio básico da justiça comum: “in dubio pro reo” (na dúvida, dá-se o benefício da dúvida ao réu).

terça-feira, 30 de julho de 2019

Na lua


Como é sabido, há ainda por aí alguns cromos que não acreditam que o homem tenha ido à lua, em 1969. Isso recordou-me um episódio anedótico anterior, passado em Portugal.

Estávamos em 1957 e a União Soviética anunciara a colocação em órbita do seu primeiro satélite, o Sputnik. 

Este primeiro passo na aventura espacial, hoje considerado decisivo para tudo o que se lhe seguiu, não foi muito bem visto pelos sectores oficiais portugueses. Qualquer êxito comunista era um engulho para o regime salazarista.

Ora dava-se o caso de que, nesse ano de 1957, uma voz da “ciência” portuguesa, o astrofísico professor Varela Cid, haver concluído uma “teoria” sobre o tema que muito agradou ao regime. 

E assim, na nascente RTP, num programa em direto, com direito a um quadro negro de explicações a giz, desenrolou-se a demonstração, feita pelo “sábio” luso, da "impossibilidade" prática de um satélite poder ser posto em órbita... sem cair por aí abaixo! Não há limites para o ridículo.

Pê-ésse

Farto-me de dizer que sempre subestimamos a (estava para escrever “notável”) capacidade dos governos socialistas para darem tiros nos pés (ou para terem no seu seio quem o faça a seu débito, com arte e pontaria). 

Perguntarão: e os outros, não dão? Claro que sim, mas cada um sabe dos seus...

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Purga


Por estas alturas, há quem vá “de águas” para as termas. Alivia os males do fígado e da vesícula, de quem, em geral, digere mal algumas coisas. Dou-me conta de que, nos comentários a este blogue, estão a (re)surgir, sob a heróica coragem do anonimato e com heterónimos para parecerem mais do que são, alguns saudosistas do tempo “da outra senhora”, que padecem de tais maleitas do foro estomacal ou biliar. É uma onda cíclica, soprada agora por ventos políticos que lhes não vão de feição. Acho que merecem uma vilegiatura. Tê-la-ão, a partir de agora.

O chapéu



Uma das rotinas mais interessantes dentro do Ministério dos Negócios Estrangeiros foi, durante muitos anos, a função do chamado "correio de gabinete". Tratava-se de transportar uma “mala diplomática”, portadora de documentos de elevada confidencialidade, função de que eram quase sempre encarregados os diplomatas mais jovens. 

Todas as semanas, um funcionário circulava entre várias capitais, levando consigo uma pasta, fechada com selos de chumbo. Era normalmente pequena, mas também podia acontecer ter dimensões bem maiores, sendo nesse caso complicado (embora sempre obrigatório) assegurar o seu transporte na cabine dos aviões, nunca perdendo o volume de vista.

O roteiro de quem ia "de mala" foi variando, em função de diversos fatores e conjunturas. Na Europa, recordo ter-me deslocado, por mais de uma vez, a Londres, Bruxelas, Viena e até a Belgrado. Madrid, Paris e Estocolmo, se bem me lembro, também foram abrangidas pelo circuito deste tipo de "malas acompanhadas". Viena era o centro de contacto com as nossas embaixadas das capitais "comunistas" e os colegas nelas colocados estavam sempre ansiosos para dar um salto à capital austríaca, para buscar ou trazer essa correspondência. Fora da Europa, ia-se a Nova Iorque e a Washington.

Há que confessar que era uma tarefa bastante agradável: uma semana de dispensa de serviço e uma viagem, com ajudas de custo, por cidades simpáticas, embora um pouco numa correria (em Londres ficava-se um dia mais e eramos alojados num pequeno quarto, no edifício da chancelaria). 

Embora houvesse como que uma escala na atribuição deste encargo, existiram sempre, no Ministério, os chamados "papa-malas", que tinham meios de obter informação prioritária sobre a indisponibilidade pontual dos funcionários escalados e, de imediato, se voluntariavam para os substituir. Às vezes, chegado o bom tempo, até diplomatas bem mais velhos, já mesmo conselheiros de embaixada, faziam um pouco discreto lóbi para "irem de mala", pela vontade de efetuarem uma bela viagem à custa do erário.

Hoje, vistas as coisas à distância, tendo a concordar que uma das vantagens concretas desta instituição dos "correios de gabinete", num tempo em que se viajava muito menos, era ajudar a aculturar os jovens diplomatas com o mundo exterior, ainda antes de serem colocados no seu primeiro posto.

A história que vou contar, verídica e clássica nas Necessidades, passa-se em Lisboa, numa determinada repartição, creio que nos anos 60.

Um velho e prestigiado embaixador está à conversa numa sala onde trabalham diversos diplomatas. A certo momento, fica a saber-se que um dos jovens secretários presentes vai "de mala", na semana seguinte. O rumo da conversa, por uma qualquer razão, deriva para a questão dos trajes e fala-se de usar ou não chapéu. O embaixador volta-se, então para o jovem secretário que irá "de mala" e inquire: "E o colega, usa chapéu?".

Ser tratado por "colega" por um embaixador "chevronné" era uma distinção que, à época, deixava os mais novos orgulhosos e, desde logo, quase obsequiosos. O rapaz, um tanto aturdido, responde que ainda não, que nunca tinha usado chapéu. O embaixador, experiente, adiantou: "Meu caro amigo, usar chapéu, na Carreira, não é obrigatório. Mas é um hábito que fica sempre bem, que dá muita classe. Se o meu amigo quer um conselho, compre um chapéu. Vai ver que, em algumas ocasiões, isso lhe dará uma grande elegância".

Seduzido pela atenção que lhe era dispensada por tão alta figura da "Casa", o jovem diplomata deixa escapar que, pensando bem, vai acabar por comprar um chapéu. Aliás, recordava-se que até já tinha pensado nisso, mas nunca se tinha decidido, em definitivo. Mas agora, "já que o senhor embaixador recomenda", irá mesmo comprar um.

Nesse instante, o embaixador exclama: "Olhe lá! Lembrei-me agora: você vai a Londres! Não há melhor cidade do mundo para chapéus. Mais do que isso: estamos na época dos saldos! E, em Londres, onde você encontra estupendos chapéus é no Bates, ali na Jermyn Street. São magníficos! Porque não aproveita? Você vai estar lá dois dias, dá uma saltada ao Bates e compra um chapéu".

O jovem secretário sente-se impulsionado, entre o rápido convencimento e uma subliminar intimidação, e concede: "De facto, é uma boa ideia. Vou passar por lá e compro um chapéu.". "Faça isso, homem, faça isso, é uma bela oportunidade!", diz o embaixador, dando ares de se encaminhar para a porta de saída da sala.

De repente, porém, o embaixador estaca. E, voltando-se para o jovem colega, inquire: "Então você vai mesmo comprar o chapéu?". "Vou, vou" diz o outro, já num tom entre o decidido e o resignado, começando a estranhar a insistência. Aí, o velho diplomata lança-lhe: "E vai ao Bates? Excelente! É, de facto, a melhor opção! Aliás, dá-se uma coincidência curiosa, de que agora me recordo: eu tenho um chapéu encomendado, precisamente no Bates. Se o colega lá vai comprar o seu, podia levantar o meu chapéu e trazer-mo. Já está pago. Tem aqui talão. Fico-lhe muito grato...."

(Na memória dos claustros das Necessidades, o embaixador da historieta terá sido o histórico António de Faria e o jovem secretário foi o (mais tarde também) embaixador Melo Gouveia).

domingo, 28 de julho de 2019

Colômbia


Vim de lá, há dois dias. A Colômbia está muito longe de ser um país perfeito. Mas é uma democracia estável, com alternância política, um dos poucos Estados da América Latina que nunca esteve sob ditadura militar. Durante bastantes anos, uma espécie de guerra civil manteve zonas do país a ferro e fogo, até que a paz negociada se impôs. O tráfico de droga marcou, por muito tempo, a imagem de um país de gente simpática que, no dia de hoje, com forte razão, deve estar bem feliz pela vitória de um compatriota na Volta à França. Fico muito satisfeito pelos meus amigos colombianos.

Special relationship


sábado, 27 de julho de 2019

Quase meio século


Era um dia de intenso calor. Tinha acabado de desembarcar na estação da Régua, vindo de Vila Real, pela velha linha do Corgo. Aguardava o comboio que, a chegar de Barca d'Alva, me levaria ao Porto. Aí apanharia a ligação para Lisboa, onde deveria chegar depois de uma viagem de cerca de 10 horas. 

Era assim o Portugal de 1970. "A rádio está a anunciar que morreu o Salazar", disse-me um amigo, que tinha ido tentar apanhar, na tabacaria, o "Diário de Lisboa" do dia anterior, que não tinha chegado a Vila Real. Embora sob censura, a leitura do “Lisboa” era então, para muitos de nós, "obrigatória".

Recordo-me bem de não ter tido qualquer sentimento particular perante a notícia. Salazar tinha morrido politicamente quase dois anos antes, em Setembro de 1968, quando adoecera e fora substituído por Marcelo Caetano. Desde então, a decadência física do antigo ditador havia sido exposta algumas vezes à mórbida curiosidade pública, com estranhas aparições cuja mediatização quase que parecia destinada a sublinhar o deperecimento político do próprio salazarismo. Alguns, mais bem informados, conheciam o episódio caricato da entrevista ao "L'Aurore", que revelava a existência de um cenário de ilusão em S. Bento, que dava a Salazar a ideia de que ainda era chefe do governo, com a participação teatral de alguns ministros. Agora, a tragicomédia chegara ao fim.

No que aos portugueses verdadeiramente interessava, o “caetanismo” mostrara, nesse período, ter atingido o seu limite da credibilidade, em termos de abertura política. Uma crise académica séria atravessara o país. As eleições de 1969 haviam constituído uma enorme farsa, a política colonial mostrava-se, definitivamente, como o eixo cristalizador de um regime em que a repressão e a censura se acentuavam de novo. Sá Carneiro e a "ala liberal" iam perdendo as esperanças nas virtudes da propalada "primavera política".

Menos de quatro anos depois daquele dia da morte física de Salazar, os militares de 1974, diferentes dos que, depois de 1926, o haviam erigido em ditador, iriam pôr termo ao que restava do salazarismo.

Desde então, Salazar transformou-se numa simples curiosidade histórica. Revindicado hoje por patéticos saudosistas, talvez venha a propósito lembrar que a única vez que se sujeitou a sufrágio - e foi eleito - havia sido durante a vilipendiada Primeira República. 

Hoje, o “Expresso” anuncia que vão fazer um museu a Salazar, em Santa Comba Dão, perto do Vimieiro, onde nasceu. Que isso faça bom proveito aos tristes admiradores de um regime que censurou, perseguiu, prendeu, torturou e matou, durante décadas, para quantos não sabem ou não querem saber. As “fake news” bem podem tentar transformá-lo num santo, mas a verdade ninguém a pode apagar da História.

Alguém poder hoje fazer um mostruário público sobre essa sinistra personagem é um gesto de tolerância que a democracia se pode dar ao luxo de permitir.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Companheiros de jornada


Em conversa com um amigo, durante um longo voo intercontinental, veio ontem a baila a hipótese, aparentemente gorada, de, em Espanha, o PSOE poder abrir a porta do governo ao Podemos, através de uma coligação. E, claro!, veio logo à colação a questão do Bloco ou do PCP poderem vir a ter responsabilidades governativas, em futura aliança com o PS, depois do “estágio” que foi a Geringonça.

Para aquele meu amigo, é impensável, em Portugal, que um chefe de Estado possa admitir que partidos que se opõem à União Europeia e à Nato, e que manifestam uma constante hostilidade à propriedade privada, possam ser consagrados em soluções governativas. E lembrou os “limites” que Cavaco Silva colocou, aquando da formação do atual governo, há quatro anos. Condicionantes essas com que ele então concordou.

Não sou da mesma opinião daquele meu amigo. Simplificando: se um partido pode eleger deputados, pode formar governos. Onde é que a lei - e eu faço parte de quantos acham que a lei é o quadro definidor dos limites no funcionamento das sociedades - diz o contrário? Por isso, no plano normativo, nada impede que comunistas e bloquistas venham a ser governantes. 

Eu diria mesmo mais: se, um dia, numa eleição, o país decidisse dar a esses dois partidos uma maioria qualificada que lhes permitisse mudar a Constituição, forçar a saída da União Europeia, voltar as costas às alianças tradicionais do país e alterar o regime social vigente, que poderia eu fazer, senão aceitar essa escolha? Eu acredito na democracia, mais do que na minha vontade.

O meu amigo olhou para mim, com ar espantado, pensando que o que eu dizia era efeito dos dois copos do Rioja (o Ribera que nos fora oferecido, embora com bom nariz, era um pouco ácido, e tinha um fim de boca agressivo): “Mas então você acha bem que o Bloco ou o PCP entrem para o governo?”

A minha resposta desarmou-o: “Eu? Nem pensar! Sou 1000% contra uma entrada do PCP ou do Bloco num governo com o PS! O que quis dizer é que, por princípio, eles não têm um qualquer “capitis diminutio” constitucional e que, por isso, temos de respeitar em pleno os seus direitos. Eu é que me reservo o meu direito de, como cidadão, ter as minhas escolhas sobre os “companheiros de jornada”. E enquanto esses partidos continuarem a defender opções que conflituam com as minhas, não os quero como parceiros num governo, embora não me choque vê-los numa maioria política parlamentar, apoiando, pontualmente, medidas específicas. Apenas isto!”

As “Selecciones”


Há pouco, a fazer horas neste aeroporto de Bogotá, no “deserto” de leitura que por aqui (não) há, decidi comprar as “Selecciones” da ”Reader's Digest". O número de agosto. Achei graça adquirir este número da edição para a América Latina, feito no México.

Cresci com as “Seleções” por muitos anos lá por casa, na sua versão brasileira (por isso, eram “Seleções” e não “Selecções”, como então se escrevia em Portugal), espreitando "pin-ups" que a publicidade caseira não comportava ainda nos seus cânones, com propaganda a frigoríficos e automóveis que não havia em Portugal. E tinha sempre, pelas suas páginas de textura sedosa, donas-de-casa loiras e de "permanente", tipo Doris Day, com camisas aos folhos e saias compridas rodadas, ao lado de cavalheiros invariavelmente elegantes, tipo Cary Grant, quase sempre de fato e chapéu ou naquilo que os brasileiros designam por "esporte fino", ao lado de crianças sorridentes e felizes nas suas bicicletas e bonecas (nunca houve muitas bolas por lá), sempre à porta de moradias com relva a descer para as alamedas dos bairros. Sorridentes e sempre brancos, claro. Era a América oficial que exportava a imagem do "way of life" de alguns.

Fui leitor assíduo de rubricas como "Meu tipo inesquecível", "Flagrantes da vida real", "Rir é o melhor remédio" (em espanhol “La risa, remedio infalible”), “Piadas de caserna" ou o "Enriqueça o seu vocabulário" - onde, pela primeira vez, devo ter pensado nas vantagens do Acordo Ortográfico. 

Nunca li, e nunca me arrependi, nenhuma das suas irritantes sínteses de romances (nesta edição que hoje comprei deapareceram), mas algumas vezes fui à procura do volume completo. 

Devo também às "Seleções" a minha hipocondria, pela reiterada inclusão de artigos sobre doenças, cuja sintomatologia tantas vezes partilhei. Já não cheguei à fase das peças sobre dietas... logo quando mais delas necessitava!

Só tarde me apercebi, ou me fizeram aperceber, da existência, em cada número das "Seleções", de três ou quatro artigos onde, com maior ou menor subtileza, se fazia a apologia de ideologias convenientes aos interesses americanos. Mas, na verdade, que importava isso, no tempo cinzento do salazarismo? Claro que as "Seleções" diziam mal dos comunistas, mas com bem maior sofisticação do que o "Diário da Manhã", o "Novidades" ou o "Diário de Notícias". E também lembravam, numero-sim-número não, belos episódios das glórias aliadas na 2ª Guerra Mundial.

Um dia, as "Seleções" aportuguesaram-se (e passaram a “Selecções”) e, pouco a pouco, foram desaparecendo do nosso horizonte de leitura, concorrendo com outras publicações mais apelativas. Às vezes, antes de entrar num comboio, ainda comprava a revista, mais por curiosidade do que por interesse. A "Reader's Digest" passou então a ser mais famosa por livros e discos que editava e que uma inventada "Marta Neves" nos propunha, em regular e personalizada epistolografia - alguns, aliás, de grande qualidade.

Há anos que já não lia as "Seleções". Minto: há tempos, numa casa de campo nortenha, encontrei exemplares das edições brasileiras, dos anos 40 e 50 do século passado, alguns já sem capa, e, confesso, diverti-me bem com algumas historietas, bem de um outro tempo. Será isto nostalgia?

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Boris

Com um pouco de inteligência e sorte, Boris Johnson pode vir a fazer um brilharete. As expetativas a seu respeito são hoje tão baixas que bastará que não venha a ser o mau primeiro-ministro que muitos esperam para que logo se ouçam suspiros de alívio.

Espanha(s)

Sem me querer alongar (nada): é uma excelente notícia a quebra do possível acordo de governo entre o PSOE e o Podemos, lá por Espanha.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Dylan tem razão


Recordava-me de que, há dois anos, ao chegar a Bogotá, colegas da empresa me perguntaram se trazia comigo os jornais do dia de Lisboa. 

(Durante toda a vida diplomática, cuidei em levar jornais para os colegas nos postos que visitava, tal como ansiava pelos que eles me traziam, quando eu estava nessas mesma condições). 

E eu que então não tinha pensado nisso!

Ao sair de Lisboa, na 2ª feira, “atulhei-me” de jornais, até do fim-de-semana. Chegado ao hotel, aqui na Colômbia, perguntei quem queria lê-los. A resposta foi unânime: “Obrigado, mas já li o que me interessava na net”.

Como dizia Bob Dylan, “the times they are a-changin”. Tenho de começar a estar mais atento à passagem rápida dos dias e dos costumes.

Tanques chineses no Rossio


Segundo um rumor posto a correr nos últimos dias por setores conservadores radicais, um espetro pode vir a ameaçar a estabilidade do nosso sistema político: com as últimas sondagens a apontar para a possibilidade de as "esquerdas" terem mais de 2/3 dos deputados na próxima legislatura, elas poderiam ser tentadas a provocar, em conjunto, uma revisão constitucional de sentido extremista.

Imagino que não deva tardar o anúncio do "óbvio": vaga de nacionalizações, ataques à propriedade privada, desafio das regras europeias, a NATO em causa, quiçá uma reforma agrária no fim da linha. Em suma, o "perigo vermelho". As condicionantes europeias, o chefe do Estado, enfim, toda a história política do PS, tudo isso é indiferente aos imaginativos adeptos desta singular teoria da conspiração.

Nos anos 80, quando Mitterrand gizou a maioria de esquerda que governou a França, houve quem chegasse a "prever" a chegada dos tanques russos à Praça da Concórdia. Admito que, agora, possam ser tanques chineses no Rossio...

Em política, não vale tudo. No equilíbrio interno das ideologias, sente-se que a direita atravessa um mau momento, como o próprio presidente da República o reconheceu, mas isso não autoriza a que alguns a colem a um delírio, que tem tanto de insultuoso para os adversários democráticos como de ridículo para a sua própria credibilidade política, tantas são as razões que infirmam, pelo absurdo, todos esses receios.

Sabemos que alguns andam por aí à cata das perceções de insegurança, com que procuram construir políticas tributárias de medos obsessivos. Outros vão tendo, por estes dias, pulsões liberais agressivas (leiam-lhes os inomináveis cartazes), feitos de brisas da escola de Chicago, traduzidos por cá em calão político populista. Mas a grande maioria das pessoas que entre nós se afirmam de direita, respeitadoras do compromisso constitucional, sabem que o essencial do seu projeto está hoje refletido no quotidiano da nossa vida em sociedade, como parte de um sistema político que ajudaram a construir e que - a níveis presidencial, parlamentar e autárquico - lhes concede, com as regras de alternância, um livre acesso regular ao espaço de exercício de poder. Tal como à esquerda.

A ironia do cenário do "golpe" constitucional é que ele acaba por funcionar como um subliminar fator em favor da bondade de uma maioria absoluta para o PS. É que, perante esse "perigo", votar maciçamente nos socialistas pode acabar por ser a melhor garantia de que estes ficam sem pressões radicais à sua esquerda.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Novo Mundo

Se, há uma década, alguém me dissesse que Trump chefiaria a América, que Bolsonaro entraria no Alvorada (mesmo como convidado) e Boris Johnson chegaria a Downing Street eu daria uma imensa gargalhada. 

Verdade seja que ninguém me disse...

segunda-feira, 22 de julho de 2019

A lua por um 13


Fez agora 50 anos, não vi em direto a descida do homem na lua, com o José Mensurado a comentar. A transmissão foi durante a nossa madrugada e, na manhã seguinte, tinha um exame de Sociologia que não podia adiar. Os familiares em casa de quem vivia tinham feito a noitada em frente da televisão e, quando acordei, ainda dormiam. Teria corrido bem a alunagem? Teria sido um fracasso? Ou teria acontecido uma tragédia, que muitos temiam? Entrei no autocarro 10, que todos os dias me levava dos Olivais a Moscavide, onde depois apanharia o 28 para chegar à Junqueira. Ia pouca gente, como de costume, todos com cara de nada saberem de luas. Só na paragem, já em Moscavide, é que ouvi umas conversas esparsas, de quem tinha perdido a noite para ganhar o momento. Momento que, isso sim!, eu tinha perdido para sempre. Ainda hoje me penitencio! O exame correu-me assim-assim. Se calhar, se não tivesse dormido, o resultado era igual. Perdi a lua por um 13, imaginem!

domingo, 21 de julho de 2019

Saudades fílmicas


Há dias, falei por aqui do “truque” do soufflé, que um velho embaixador servia aos jantares, apenas com o objetivo de evitar os discursos.

Alguém, entretanto, comentou comigo: “Já deste conta da falta que nos fazem dois amigos que - quase de certeza! -, a propósito da tua historieta, teriam dito que ela se deveria ter chamado “À bout de soufflé”? “.

Essa pessoa tinha razão: grandes eram as hipóteses do Nuno (Brederode Santos) ou do António (Russo Dias), cinéfilos de primeiríssima água, terem feito o godardiano trocadilho. Mas eles já cá não andam...

Tira-teimas


É muito difícil encontrar duas pessoas que, falando da Bairrada, tenham o mesmo restaurante preferido para comer leitão. Faço esse teste há muitos anos e, hoje de manhã, lá tive a prova: “Leitão? Eu vou sempre ao Pedro!”. Voz ao lado: “Não! Onde se come melhor é na Meta!”. Se, hoje à noite, calhasse encontrar outros dois amigos que eu cá sei, a resposta seria, respetivamente: “Nunca deixo de ir ao Simões!” e “Essa agora! Quem sabe de leitão vai ao Vidal, em Almas da Areosa”. Outros falarão do Virgilio, do Rei, do Mugasa, do Rocha, sei lá!

Preocupa-me esta diversidade opinativa por parte dos meus amigos... Porquê? Porque, sendo eles meus amigos, tinham a obrigação de estar mais atentos àquilo que eu digo e, nessa conformidade, de terem tomado boa e definitiva nota de que o lugar onde, na Bairrada, se come - a meu ver, de longe! - o melhor leitão, acompanhado por umas batatas fritas que há quem diga que ficam muito acima das do Gambrinus, é em Avelãs do Caminho, um pouco a norte da Mealhada, na Casa Queirós.

Então, e o resto? O resto são simpáticas aproximações, casas esforçadas (a maioria também conheço, claro), mas onde as pessoas não são tratadas por “meninos” pela Paula, que há muito oficia às mesas.

Experimentem o Queirós, como eu hoje voltei a fazer, e depois digam-me!

O poder na Europa


As eleições europeias não confirmaram as previsões de alguns, segundo as quais o Parlamento Europeu iria ser invadido por uma onda de extrema-direita e eurocéticos (as duas coisas não sendo, necessariamente, sinónimos), que iria bloquear a operacionalidade de uma instituição a que os tratados têm vindo a conferir crescentes poderes.

O que se constatou foi a emergência de uma realidade que, tudo indica, veio para ficar: a quebra do poder relativo dos dois grandes grupos políticos que dominaram as instituições comunitárias desde a sua criação – social-democratas e conservadores –, com a clara atenuação, nestes últimos, da matriz democrata-cristã.

Uma maior fragmentação política é o que, a partir de agora, mais notoriamente se observa naquele parlamento, desde logo pela emergência, com progressiva capacidade de disputa de poder, dos grupos liberal (que tem pouco a ver, note-se, com o que, sob esse rótulo, tem aparecido em Portugal) e ecologista. Alguns dirão, não sem razão, que esta nova realidade é mais democrática, garantindo uma maior representatividade ao parlamento. Outros, que também têm a sua razão, acharão que a crescente diversidade funciona em detrimento da boa governação da coisa europeia, tornando-a menos eficaz, reduzindo dessa forma o prestígio da União aos olhos dos cidadãos.

A Europa está hoje bem mais difícil de gerir, mas isso não deve ser surpresa para ninguém. O aumento da diversidade política, provocado pelos últimos alargamentos, alguma realpolitik que, por jogos de proselitismo de poder, baixou a guarda ética e tende a flexibilizar princípios e valores, bem como uma extensão de competências que alguns veem já como conflituais com uma união de Estados com soberanias constitucionalmente distintas – tudo isso dá da máquina comunitária, a muitos, a imagem de um “monstro” que afeta a transparência dos seus métodos e assusta bastantes dos seus cidadãos.

A Europa criadora de soluções é hoje vista por muitos como a Europa fautora dos seus problemas. Se a isso somarmos as notórias clivagens internas, nomeadamente na reação aos efeitos assimétricos das crises coletivas, os imponderáveis efeitos do Brexit e a orfandade geopolítica criada pelo afastamento “afetivo” dos Estados Unidos, conviremos que está criada uma imagem de crise endémica que, até ver, não augura nada de bom.

O debate em torno dos lugares de chefia europeia revelou também uma realidade que muitos teimam em ignorar: os Estados, isto é, para o que importa, os governos, por muita simpatia que possam afirmar face à ânsia de poder do Parlamento Europeu, revelam-se fortemente interessados, em última instância, em reservar para si a última palavra decisória. Por mero “egoísmo”? Também, mas igualmente porque sabem que respondem perante os parlamentos dos seus países e que, por mais que se procure que uma ficção otimista se sobreponha à realidade, continua a existir uma subliminar competição entre estes e o areópago de Bruxelas e Estrasburgo. Afinal, o Brexit não é também isso?

sábado, 20 de julho de 2019

A síndroma de agosto

Estávamos em Agosto de 1979. Era a primeira vez que eu assumia, interinamente, a chefia da Embaixada em Oslo. Tinha pouco mais de três meses de experiência no exterior e as férias do embaixador a isso obrigavam.

À época, o "sangue na guelra" e a inexperiência levaram-me a ser tentado a trabalhar nesse mês de substituição do embaixador como se tivesse sido ungido como "embaixador substituto". Daí que fosse afetado, sem o saber, pela "síndroma de Agosto" - esse "chico-espertismo" que faz com que os "encarregados de negócios" mais jovens, aproveitando as férias dos chefes de missão, se ponham em pontas de pés perante Lisboa, enviando correspondência em abundância, mostrando-se à tutela. Esquecendo que, nesse mês de Agosto, o Palácio das Necessidades está também deserto e quase ninguém os lê. Quase...

Assim, e a propósito de uma qualquer notícia surgida na imprensa, preparei um longo telegrama (nome que damos às comunicações urgentes, com distribuição prioritária - ao tempo enviadas por telex), creio que de quatro páginas, sobre a questão das dissidências entre a então URSS e a Noruega, a propósito da exploração de recursos do arquipélago de Svalbard. O tema era altamente especioso, implicava contextualização histórico-jurídica, pelo que era de muito duvidoso interesse para o MNE, para mais num tempo em que a nossa diplomacia tinha uma agenda de preocupações algo limitada. Gastar com o assunto quatro páginas, numa comunicação telegráfica, tipo de correspondência que devia ser guardada para coisas urgentes, era, manifestamente, revelação de imaturidade. 

Imagino que, logo que enviado o texto, depois do que deve ter sido uma sua cuidadosa elaboração, ter-me-ei sentido satisfeito comigo mesmo. De facto, eu acabara de apresentar a Lisboa uma densa exposição sobre uma problemática importante para a política externa norueguesa. Não detetara, nos arquivos, que a Embaixada se tivesse dedicado com profundidade ao tema. Lisboa iria apreciar, pela certa.

Ora não foi bem assim. Dois dias depois, recebo um telegrama do MNE que dizia mais ou menos isto: "Telegrama nº tal não se justifica. Vossa Senhoria poderia perfeitamente ter informado sobre o assunto por ofício". (O "ofício", no jargão da casa, é um texto que segue semanalmente na mala diplomática, pelo correio). Na linha seguinte estava o pior, a assinatura desta "rabecada": "Ministro". (Noto que o "Vossa Senhoria" é a fórmula consagrada que o Ministério historicamente utilizava - não sei se ainda utiliza - para se dirigir a quem não tem estatuto de embaixador).

Alguém receber um telegrama assinado pelo próprio ministro dos Negócios Estrangeiros é uma coisa que rarissimamente acontece na nossa profissão. E, com uma mensagem tão seca e negativa, a excecionalidade tornava-se trágica. Posso imaginar como me devo ter sentido, pensando estar em face do início do fim da minha carreira. O meu ritmo de "produção" telegráfica deve ter levado, a partir daí, um corte substancial, resumindo-me ao essencial, para evitar atiçar ainda mais as iras lisboetas. No regresso de férias, o embaixador, em tom de algum desagrado, deixou cair que "ouvira nos corredores" a história do meu telegrama e da resposta do ministro. Não fora, de facto, uma brilhante estreia como "encarregado de negócios".

Mas não houve mais consequências e tudo acabou apenas por ser uma bela lição. Aprendi que, nas chefias interinas, os substitutos devem ser discretos e proceder exatamente da forma como imaginam que os substituídos gostariam que as coisas se passassem na sua ausência. Nem mais, nem menos. Foi o que passei a fazer a partir de então.

Contei esta história, há dois dias, a um jovem diplomata que vai partir para o seu primeiro posto no exterior. Espero que outros a leiam. 

Ponto

O grupo de trabalho criado na Assembleia da República, em 2017, para avaliar o impacto da aplicação do Acordo Ortográfico, terminou ontem sem consenso quanto à proposta de eventuais alterações a esse acordo. E o governo português já informou que não tenciona tomar qualquer iniciativa nesse sentido: “Uma das qualidades que (Portugal) tem é honrar os compromissos que assume e, portanto, cumprir os tratados e acordos que livremente subscreve, incluindo o Acordo Ortográfico de 1990”, disse ontem em Cabo Verde o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Necessidades


O termo da legislatura convoca, com naturalidade, a tentação de avaliar as tendências mais marcantes da política externa seguida pelo Governo do Partido Socialista, ao longo destes quatro tão atípicos anos na vida portuguesa.

Aquando da formação do Governo, o anterior Presidente da República colocou um conjunto de "condições", em termos de compromissos externos, para aceitar empossá-lo. Nelas se incluíam, sem surpresa, as relações com a Europa, a ligação à NATO e ao mundo lusófono, com a diáspora associada. A presença do PCP e do BE na maioria parlamentar para viabilizar o novo executivo ter-lhe-á criado o temor de que daí pudesse resultar alguma deriva nociva à postura internacional do país. Mas não só a ele.

À época, o embaixador americano em Lisboa, Robert Shearman, na forma com que alguns diplomatas de Washington se permitem comentar a vida política dos países que os acolhem, deixou também alertas sobre as preocupações dos EUA na mudança do curso governativo em Portugal. Posso imaginar o que teria sucedido se, um ano depois, o nosso embaixador em Washington tivesse manifestado publicamente a inquietação portuguesa sobre os riscos para o mundo da eleição de Trump...

Respondi-lhe num artigo que publiquei no Diário de Notícias intitulado "Durma bem, Bob!", embora confessasse não ser, à época, "um entusiasta desta possível solução governativa", deixei claro que não alimentava "a mais leve dúvida de que, aconteça o que acontecer, um eventual governo socialista se manterá fiel a todo os compromissos internacionais de Portugal, da NATO à UE [...]. O PS tem um historial de responsabilidade no quadro internacional que não aceita lições de ninguém, de dentro ou de fora". Eu estava certo, o diplomata americano estava, como se viu, bem errado.

Augusto Santos Silva não era uma escolha óbvia para as Necessidades. Embora com uma prestação anterior positiva num ministério de soberania como é o da Defesa Nacional, somada a larga experiência noutras pastas, carregava consigo a imagem de um tempo mediático tenso, em que funcionou como firme contraponto oposicionista ao radicalismo da governação conservadora. Muitos sobrolhos se carregaram ao verem surgir o seu nome na chefia da diplomacia portuguesa. Mas foi sol de pouca dura. Santos Silva, um político de imensa qualidade intelectual e com elevado sentido de Estado, rapidamente se adaptou à nova função, transmitindo uma forte dose de confiança a uma casa que tem uma grande sensibilidade, não apenas para perceber quem a respeita, mas igualmente quem defende o património de interesse nacional que constitui a razão da sua existência. Santos Silva consagrou-se como um excelente ministro dos Negócios Estrangeiros e, no executivo, foi uma frente segura que muito facilitou o trabalho internacional de António Costa.

Aprendi que não há boa política externa sem uma boa política interna. Não é possível sustentar, lá fora, uma voz com uma mínima audição sem que tenhamos a "casa arrumada". Foi a evolução favorável das nossas contas, pela gestão de Mário Centeno, que deu espaço para António Costa se afirmar no plano europeu, muito para além da família socialista. Santos Silva cumulou isso com uma gestão muito rigorosa dos restantes dossiês externos - e é também justo creditar aqui a forte ajuda que Marcelo Rebelo de Sousa deu a toda esta operação de conjunto, em favor dos interesses portugueses.

Num mundo em rara turbulência, Portugal esteve muito bem, nesta legislatura, na ordem europeia e internacional. Relembro, a título de breves, e longe de exaustivos, exemplos, a essencial ajuda dada à eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU e de António Vitorino para diretor-geral da OIM, o perfil europeu elevado demonstrado, a gestão da delicada questão venezuelana, a atenção nos passos bilaterais com Angola, China ou Índia, a vitalidade imprimida na área das Comunidades Portuguesas, a atenção às parcerias internacionais na cooperação para o desenvolvimento, a ação na política da língua, os esforços continuados e bem-sucedidos na internacionalização da nossa economia. A diplomacia portuguesa está sólida e coerente, o que revela que é muito bem orientada.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

O soufflé


Era num desses países onde a tradição manda que o dono da casa, no início dos jantares formais, diga sempre umas palavras sobre cada um dos convidados, sem nenhuma excepção, mesmo os cônjuges. O exercício parece fácil mas, para um embaixador estrangeiro, para quem muitas das pessoas presentes são conhecimentos recentes, alguns com nomes bizarros, a tarefa torna-se bastante complicada. O recurso a uma cábula, discretamente colocada em frente do anfitrião, é a solução natural.

Aquele meu embaixador - porque é de um embaixador português que falo -, pouco tempo após a sua chegada àquela capital onde eu também estava colocado, passando a trabalhar sob as suas ordens, começou a perder a paciência para seguir sempre, nos seus jantares, o protocolo local. Ele que era um profissional consciencioso nos seus deveres de representação social, oferecendo frequentes refeições a convidados estrangeiros.

Um dia, teve uma ideia e decidiu-se por um expediente, que considerou ser uma imbatível “trouvaille”. No início da refeição, disse: "Eu tinha a intenção de saudar cada um dos presentes, como aqui é de regra, mas acabo de saber de um impedimento que, julgo, todos compreenderão: a entrada é um soufflé! Ora um soufflé, como é sabido, não pode esperar, deixa de ter graça se passar o tempo, e sou agora avisado, da cozinha, que ele já está pronto a ser servido. Assim, com as minhas desculpas, peço que todos se considerem cumprimentados... e desejo-lhes apenas bom apetite!"

Os convidados entenderam perfeitamente a pressa do embaixador e o jantar decorreu da melhor forma. Tudo estaria muito bem se o nosso diplomata não tivesse decidido enveredar, em jantares seguintes, e quase sistematicamente, pela repetição do "truque" que lhe permitia evitar o discurso. E, a partir de certa altura, não se deu conta de que alguns dos convidados eram “repetidos” e que, por isso, já tinham ouvido a estafada história do soufflé mais de uma vez. A qual acabou por se tornar famosa no corpo diplomático local...

Há uns anos, regressei a essa cidade e jantei com um desses convivas, que me perguntou: "Que é feito daquele simpático embaixador português que, durante anos, para evitar fazer discursos, dava sempre soufflé como entrada?"

Diplomatas


“Diplomats are masters of the dark arts of the late-night drink. For reasons I’ve never quite understood, regardless of the culture, the country, or the government, experts, politicians, military officers, and bureaucrats (my God, especially bureaucrats) are almost sexually thrilled to gossip with a foreign diplomat. It represents, I suppose, some sort of holy transgression, triggering a rush of endorphins that will literally make their hands shake with giddiness as they naughtily describe their leader’s last temper tantrum, or reveal which general is sleeping with his boss’s wife. As a result, foreign diplomats frequently know more about what is going on in their host country than the local government does.”

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Benjamim Formigo


Abro o iPad e recebo, de chofre, a notícia: morreu o Benjamim Formigo! Não o pensava doente (afinal, estava e eu não sabia!). Há bem menos de um mês, passei perto da sua casa, na Igrejinha, ali ao lado de Évora, e pensei ir dar-lhe um abraço e um beijo à Alexandra. Mas, como o meu tempo era escasso - e lembrei-me do trabalho que sempre por ali dava apanhar os cães da quinta - decidi que ficaria para outra vez. Que já não haverá! Agora, estou furibundo comigo mesmo.

Há quanto tempo nos conhecíamos? Sei lá. Creio que foi o Zé Manel Costa Neves, o general do MFA com quem trabalhei nos idos de 1974/75, e de quem ele era grande amigo, quem nos apresentou, no palácio da Cova da Moura, nesses “anos da brasa”. Bem mais tarde, lembro-me de termos estado juntos a jantar na minha casa, em Luanda, e, no meu regresso a Portugal, já com ele a dirigir o “Internacional” do “Expresso”, o que fez por uma memorável década, muitas longas conversas tivemos. E tornámo-nos amigos. Recordo bem ter sido seu interlocutor “oficial” em momentos delicados, no final dos anos 80, quando a lógica secretista das Necessidades, que me cabia defender, se opunha à curiosidade do seu jornal sobre a nossa intervenção na crise interna angolana. Quase nos íamos zangando! 

Quando fui para Londres - agora já se pode dizer! - fui, a seu convite, o cronista “Mark Kraëlsky”, da “Universidade de Londres”, que às vezes escrevia no “Expresso” sobre temas internacionais. Foi um segredo bem guardado, tanto quanto o foi o do comentador de temas africanos, “João Urbano”. Não sei como é que o Benjamim explicava no seu jornal a identidade desses estranhos escribas...

O Benjamim Formigo tinha uma “costela” angolana muito forte, quase tão forte como a sua vocação militar, sobre temas da Força Aérea, onde me dava lições. Na minha casa do Campo Pequeno, ou na sua, primeiro em Linda-a-Velha, depois no seu “Vale de Lobos”, na Igrejinha, muitas horas tivemos de conversa, com amigos que se tornaram comuns, ele com a sua bigodeira forte com ar de oficial “das Índias” e um inseparável cachimbo, sempre com o sorriso e a voz cava da Alexandra por perto. 

Há pouco mais de um ano, ao comemorar uma data redonda da minha vida, a idade que ele agora tinha, obriguei a Alexandra e o Benjamim a virem a Lisboa para a festa, porque os queria ao meu lado a celebrá-la. Tal como eu tinha ido a outras festas na casa onde moravam e onde agora passa a morar a saudade do Benjamim.

Ontem, ao final da tarde, fui surpreendido com a notícia de que um outro querido amigo, que tive em casa a almoçar há poucos meses, está às portas da morte. Hoje, recebo esta bofetada que é a desaparição inesperada do meu velho Benjamim Formigo. A sorte é eu não ser religioso. É que, se o fosse, estaria agora a bradar aos céus.

Deixo um beijo à Alexandra e a expressão do nosso imenso pesar a toda a família.

As roscas


Aos anos que eu as procurava e, afinal, elas ali estavam, à mão de semear, em Monção! São as roscas. Andava distraído e só agora dei por elas, no concurso de doçaria regional da RTP. É para isto, afinal, que existe um serviço público!

Vou explicar melhor. Quando eu era pequeno e ia de férias grandes para Viana do Castelo, a minha avó paterna, uma senhora que sempre conheci velhinha e que assim morreu aos 93 anos, comigo ainda criança, tinha no seu quarto um grande armário do qual, em momentos que recordo felizes, fazia sair uma caixa paralelipipédica, uma lata vermelha.

Dela emergiam então, com a parcimónia das coisas verdadeiramente importantes, para alimento da minha eterna memória gustativa, as roscas. Os netos - imagino que os outros netos também, embora a equidade no racionamento dessa doçaria fosse, confesso, a minha última preocupação - tinham então direito a uma dose de roscas: duas ou três. “Não comas muitas roscas!” é uma advertência dos meus pais que me ficou no ouvido e cuja pertinência meço na avaliação semestral da minha taxa de glicémia.

As roscas eram umas argolas de massa doce, com uma textura que recordo menos crocante e mais macia, revestidas, no exterior, por “manchas” de açúcar. As roscas eram boas quando estavam frescas, perdiam graça quando humedeciam a camada do açúcar ou quando secavam, tornando-se borrachosas. Sei imenso de roscas, conheço-lhes o sabor ao pormenor e, contudo, não como uma rosca aí há 55 anos, acreditem!

Para quem, como eu, chegava para férias, as roscas que a minha avó de Viana me dava eram a delícia do mundo. Claro que, lá por Vila Real, na Gomes ou no Lapão, havia doces magníficos. Mas as coisas, em férias, tinham (têm) outro sabor. E então as roscas!

Sei lá bem porquê, cultivo a tese, que ninguém me confirma, de que as roscas que havia em casa da minha avó eram adquiridas numa confeitaria na esquina da Avenida (em Viana, aliás como em Vila Real, quando se diz “a Avenida”, ninguém precisa de esclarecimento toponímico) com a rua dos Manjovos, uma casa que entretanto mudou de nome e alargou o objeto comercial. Muita gente me diz que não, que eram compradas no Natário (no Manuel, não no Zé), em frente ao Laranjeira, onde a minha avó mandava a Arménia, filha da empregada lá de casa, a Senhora Conceição. Outros, acham que, tal como o pão, era no Dantas, na rua de S. Sebastião, nome que o meu pai sempre deu à rua Manuel Espregueira. Eu continuo a pensar que não, que só eu é que tenho razão, mas a tragédia dos anos é que, em definitivo, já perdemos há muito quem nos possa dar conforto à teimosia das nossas caturreiras.

Daqui a semanas, lá vou eu a Monção comer roscas. Isso é que me importa!

Hortográfico


Parece que hoje, na Assembleia da República, há quem queira mudar, outra vez, o Acordo Hortográfico.

Camões e coisas assim


Pela insistência, obsessiva e deslumbrada, com que não cessa de fazer referência a esse seu momento de efémera glória, fica a ideia de que o autor do discurso do último 10 de junho terá saído daquela cerimónia, em definitivo, aos ombros de si próprio.

Bonda


Parece que o próximo James Bond vai ser uma mulher, negra. Nada a objetar, com duas condições: que o Martini continue a ser “shaken, not stirred” e que o namorico como Moneypenny se não perca.

O discurso sobre o Estado

Ouvido a alguém, insuspeito de simpatias pela esquerda: "Recomendo sempre aos meus amigos políticos que moderem o seu discurso contra o Estado. Eles não percebem que a maioria do eleitorado tem ligações ao setor público, por via profissional, familiar ou outra dependência, pelo que suscitam nessas pessoas a ideia de que, se chegados ao poder, irão pôr em causa os seus direitos e interesses".

A moda liberal que por cá emergiu, nos últimos anos, explora a dualidade artificial entre o cidadão e o Estado, colocando este como maléfico esbanjador dos recursos gerados pela sociedade dita civil. Isso é evidente em grupúsculos que ora tentam penetrar no espaço de representação institucional, com apoios empresariais e mediáticos, que têm por agenda diminuir o peso do Estado e do funcionalismo público, reduzir ao mínimo as funções estatais e, de caminho, proceder a umas propaladas "reformas estruturais".

O tempo da troika, sob prevalência obsessiva dessa ideologia, pareceu a alguns ser o momento certo para pôr em prática essa receita. Colocar a tutela do Estado nas mãos de quem o detesta teve, contudo, as consequências trágicas que se viram. E, quando alguém procurou desmontar o "bluff", percebeu-se que o rei ia nu: o célebre "Guião para a Reforma do Estado", uma peça de involuntário humor caricato, aí ficou como a prova provada da vacuidade ideológica que suportava o preconceito.

Não sei se o Estado é grande ou pequeno em Portugal. Provavelmente, precisaríamos de o diminuir aqui ou ali, reforçando-a noutras áreas. Temos de estar abertos ao debate, fazendo-o apenas sob juízos de racionalidade e eficácia. E há, claro, a obrigação de termos de ser muito exigentes quanto aos serviços pagos pelos nossos impostos, tanto mais que eles não podem continuar a ser capturados pela lógica egoísta das corporações, quase esquecendo os seus objetivos: fala-se mais de professores do que do ensino, das greves dos médicos e enfermeiros do que dos serviços que estes prestam.

Tenho uma certeza: num país com largos setores populacionais que ainda padecem de grande fragilidade, o Estado continua a ser essencial para sustentar políticas que promovam uma solidariedade que o mercado, pela sua natureza, não pode assegurar.

Quando se observa que o afã guloso pelos financiamentos públicos, nomeadamente os fundos estruturais, surge frequentemente naqueles que mais diabolizam o Estado, fico a pensar se o lema dessa gente, afinal, não será: "Menos Estado, melhor Estado e o que sobrar que seja para nós..."

terça-feira, 16 de julho de 2019

Circuitos


Durante uma longa reunião que teve lugar em Genebra, nos anos 80, eu costumava alugar um carro, aos fins de semana, para passear pela Suíça. Num deles, convidei três colegas da delegação para um passeio mais curto, fora da cidade.

Íamos no caminho entre Genebra e Nyon, à borda do lago, quando a conversa derivou para o trajeto sinuoso da estrada em que rodávamos, através de localidades. Certas partes do percurso eram mesmo bastante perigosas, comentávamos entre nós. Foi então que um dos membros do grupo se saiu com esta: "E, no entanto, faz-se aqui uma prova automobilística de grande importância...".

Nenhum dos comparsas de viagem fazia a menor ideia de que havia uma prova automobilística que passava por ali, pelo que pensámos que o nosso interlocutor se estaria a referir a algum rally. E, claro, pretendemos ser esclarecidos sobre o evento a que se referia.

O nosso homem - porque era um homem... - assumiu então um tom de connaisseur e, com ar de quem nos ia esmagar com a humilhante exposição do nosso tão óbvio desconhecimento, avançou: "Então vocês não sabem que passam por aqui as “24 horas de Le Mans” “?

Um ou dois segundos, para "digestão" mental da revelação, mediaram entre a frase e o coro de gargalhadas dos restantes viajantes. O lago à volta do qual passeávamos era o lago Léman, mas o nosso interlocutor estava plenamente convencido que era nas estradas à volta desse lago que se disputavam as "24 horas de Le Mans". Ora Le Mans é uma localidade francesa a sudoeste de Paris...

Até ao final da viagem, o nosso homem embatucou. Que será feito dele?

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Racismo e preconceito

Por detrás do conceito cumulativo austeniano, ficou muito evidente persistir por aí um mundo sinistro, de que agora começa a falar-se um pouco mais, em parte graças ao “infamous” artigo de Fátima Bonifácio. Feitas as contas, a publicação do texto acabou por ter algumas virtualidades. Desde logo, porque provocou o “outing” de um certo reacionarismo cavernícola, que logo acorreu a desculpabilizar a senhora e a colar-se-lhe à diatribe, alguns com o expectável “não, mas”, não fosse alguém confundi-los com o outro lado da barricada. E, claro, deu imenso gozo ver a hipocrisia de alguma dessa gente a levá-la a agarrar-se à liberdade de expressão como âncora argumentativa, como se fosse essa a preocupação maior de quem tem o autoritarismo como linha de vida e a democracia como mero empecilho conjuntural. Mas o mais interessante - de verdade! - foi assistir ao incómodo que o artigo de Bonifácio provocou em algumas áreas de direita que, nem por o serem, deixam de estar legitimamente preocupadas com os valores e os princípios que uma meridiana decência obriga a cultivar. Quero com isto dizer que DB, isto é, Depois de Bonifácio, confesso que acabei por ficar com muito melhor impressão de alguns setores conservadores, que se sentiram obrigados a vir a terreiro distanciar-se daquela barbaridade em forma de artigo. A tolerância é um valor global, que, em gente de bem, é transversal às ideologias.

Os gritos


Por detrás de belas casas do centro de Londres, construídas nos séculos XVIII ou XIX, situam-se os "mews", espaços de antigas cavalariças ou de guarda de carros de cavalos, hoje, muitas vezes, transformados em luxuosos apartamentos, com um discreto acesso por ruas laterais.

A caminho do pátio das traseiras da residência da Embaixada de Portugal em Londres, em Belgrave Square, existem requintados "mews", habitações de gente abastada, a avaliar pela qualidade dos automóveis que por lá se acolhem e pelos preços que se sabe serem praticados na área.

Um dia, o Gabriel, cozinheiro do embaixador, procurou-me, na minha qualidade de “número dois” da embaixada, dando-me nota de uma “coisa desagradável" que se passava num dos "mews" adjacente ao nosso prédio: em algumas manhãs, uma senhora dava berros terríveis, “guinchos” que se ouviam por toda a vizinhança. Ele vivia num pequeno apartamento nas traseiras da residência e os “ruídos” da senhora acordavam a sua criança e infernizavam-lhe o início do dia. Contudo, ao que me disse, os factos tinham lugar aperiodicamente; havia semanas com muita “gritaria”, intervaladas com tempos completamente silenciosos. Ele até já tinha pensado chamar a polícia, mas preferiu dar-me conta pessoal do sucedido.

Como não me voluntariei para testemunhar matinalmente os factos, nem o próprio embaixador me falara do assunto, procurei saber junto dos restantes ocupantes do anexo da residência se os confirmavam. Todos anuíram, embora, por estarem mais distantes, as suas queixas fossem bastante mais limitadas.

Fiquei intrigado e, confesso, cheguei a suspeitar de vícios ocultos de alguma vizinha, numa qualquer pouco comum e errática prática matinal. Até que alguém, já não sei bem como, me resolveu o mistério: a tal vizinha dos “gritos” era, nem mais nem menos, a fabulosa soprano americana Jessye Norman, que ensaiava a sua voz aos alvores dos dias em que passava por Londres, no curso das suas tournées. A casa dos “mews” adjacente à nossa residência pertencia-lhe, sendo o seu “pied-à-terre” naquela cidade.

Imaginem que tínhamos chamado a polícia ou eu tinha pedido para que ela se calasse...

domingo, 14 de julho de 2019

Neste blogue, faz hoje 10 anos



Há já uns bons anos, na década de 90, cheguei à noite a Paris, ido de comboio de Bruxelas, no 14 de Julho, a festa nacional francesa. Não me tinha apercebido da data. Devia sair cedo para o aeroporto, logo na manhã seguinte, para apanhar um voo para outro continente. Tinha tentado reservar um hotel próximo do "Périphérique", mas isso havia-se revelado impossível, pelo que tive de optar pelo único que tinha lugares disponíveis: o Raphael, na Avenue Kléber, perto do Arco do Triunfo. O preço era o que vigorava antes da remodelação, esclareço...

O motorista que me aguardava na Gare du Nord foi-me dizendo que não ia ser fácil atravessar a Étoile. Tinha razão. O trânsito estava impossível e, chegados ao Arco do Triunfo, foi preciso parlamentar longamente com uns polícias para atravessar a praça. O homem invocou mesmo o meu estatuto político, para conseguir “furar”. Mas lá conseguimos arribar ao destino.

O homem tinha-me entretanto chamado a atenção para o interesse em não perder o fogo de artifício dessa noite, o maior e mais imponente que se projeta nos céus de Paris. Desde sempre, desde as festas da Senhora da Agonia em Viana do Castelo, passando pelo "4 de Julho" em Manhattan, sempre fui um fã das sessões de fogo de artifício, essa maravilhosa arte efémera que alegra as noites de verão.

Com a sugestão ainda no ouvido, mas consciente de que a hora do espectáculo se aproximava, perguntei na recepção do hotel se me aconselhavam algum local de onde ainda pudesse ver o espectáculo. A reacção do rececionista foi de uma snobeira tipicamente parisiense. Depois de me dar a chave do quarto, olhou para o relógio e adiantou, num tom algo displicente: "As pessoas acham que o terraço do nosso hotel é, com toda a certeza, o melhor local de Paris para ver o fogo de artifício do 14 de Julho. Aliás, o espetáculo desta noite começa daqui a 15 minutos e vamos servir champanhe no terraço, aos nossos hóspedes, dentro de... 3 minutos".

Foi uma noite memorável, com técnicas de pirotecnia que então não imaginava possíveis. Presumo que, de lá para cá, tudo esteja ainda mais requintado no fogo da festa parisiense, tanto mais que, este ano, a Torre Eiffel, que comemora os seus 120 anos, será ainda mais o centro principal do evento. Ainda não sei onde vou, logo à noite, ver o fogo de artifício do 14 de Julho. Mas não excluo, em absoluto, tentar-me fazer convidado para o terraço do Raphael...”


Pela minha memória, acabei a passear a pé pelas ruas...

sábado, 13 de julho de 2019

Raio & companhia


Há muitos anos, fui almoçar a Sintra com uma amiga. Estávamos numa esplanada em frente do palácio da vila e metemos conversa com o dono do restaurante. No final, ele apresentou-se-nos: chamava-se Raio. Por curiosidade, perguntei-lhe se era parente do homónimo jogador de hóquei em patins, que tinha integrado a seleção nacional da modalidade que tantas alegrias tinha dado ao país. “Sou eu”, respondeu, com um sorriso. 

O Raio tinha sido uma grande figura do hóquei em patins do seu tempo, oriundo da importante “escola” de Sintra, de onde saiu também o imenso (também no porte) Edgar. Ter um encontro com a história não é o termo vulgar de um almoço.

Faço parte de uma geração para a qual o hóquei em patins teve uma grande importância, como única expressão, por muitos anos consecutivos, de poder desportivo português no plano internacional. Lembro-me de como se lamentava então o facto do hóquei não fazer parte das modalidades olímpicas, onde o nosso país só ia apanhando umas medalhas “quando o rei faz anos”.

Não sei como esmoreceu o interesse por uma modalidade que já teve o país a seus pés e, confesso, não cuido hoje se saber o nome de nenhum dos nossos atuais jogadores - eu que, a certa altura, para além naturalmente de algumas equipas nacionais, sabia “debitar” de cor toda a seleção espanhola nossa adversária: Zabalia, Orpinelli, Boronat, Puigbó e Gallen!

Prova provada disto é que, ontem à noite, não me levantei uma única vez da Mesa Dois do Procópio, onde estava com amigos a brindar (talvez) ao início do fim de semana, para ir ao pequeno aparelho de televisão ver a evolução do resultado do Espanha-Portugal em hóquei em patins. O Carlos, por detrás do balcão, e o Luís, no apoio às mesas, iam-me informando sobre o que acabou por ser a “derrota de Castela”... na Catalunha. Fiquei contente, mas não fiquei eufórico como me sentiria no passado.

Bolsonaro

Bolsonaro tirou um dente e foi aconselhado a manter-se três dias sem falar. 

Recordo-me de uma figura política portuguesa, bem conhecida e já há muito desaparecida, de quem alguém um dia, disse: “Se não abrisse a boca, passava por um estadista”. 

Não creio que, neste caso, o conselho se aplicasse.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Memória do “Estadão”


Faz hoje 46 anos. O jornal “Estado de S. Paulo”, reagindo à censura da ditadura militar, então no “auge” por virtude do sinistro Ato Institucional nº 5, que havia eliminado várias notícias das suas páginas, inundou o jornal de estrofes de “Os Lusíadas”. Foi um exemplar momento na história da luta pela liberdade de imprensa no Brasil, que é muitas vezes citado.

O “Estadão”, como o jornal é popularmente conhecido, teve também uma grande importância para os oposicionistas portugueses que tinham fugido do regime ditatorial e se haviam refugiado no Brasil. 

Em 2008, num artigo que, como embaixador de Portugal, publiquei no jornal, reagindo (com forte ironia) contra um ridículo ataque feito na véspera a Pêro Vaz de Caminha, lembrei esse facto. E escrevi, a certo passo:

Nos longos anos em que, em Portugal, a liberdade não passava de uma miragem que se mantinha no horizonte longínquo, o Brasil acolheu, com imensa generosidade, muitas figuras que a ditadura salazarista alienava da vida cívica portuguesa. Nesse tempo, o "Estado de S. Paulo" destacou-se como porto de abrigo para algumas dessas personalidades, as quais, frequentemente, eram menos bem acolhidas por alguns compatriotas, aqui residentes, que não partilhavam ou rejeitavam mesmo o progressismo das suas ideias, porque haviam optado por se manterem próximos do regime que vigorava em Portugal.

Foi o "Estado de S. Paulo", foi a figura honrada de Júlio de Mesquita Filho quem deu então uma mão solidária a vários profissionais exilados da imprensa portuguesa, bem como a outras figuras da Oposição ao salazarismo, oferecendo-lhes emprego, ajudando-os a reconstituir a sua vida e a sustentar o seu quotidiano. Nada disso era feito por adesão ideológica ou doutrinária, por qualquer interesse ou favoritismo, mas simplesmente por um sentimento de simpatia e pela partilha de uma magnífica e rara ética de solidariedade. Nomes como Vítor Cunha Rego, Miguel Urbano Rodrigues, João Alves das Neves, Carlos Maria de Araújo, João Santana Mota ou mesmo Henrique Galvão, puderam encontrar no "Estadão" um apoio essencial, nesse tempo de turbulência de suas vidas.”

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Luis Moita


Não sei há quanto tempo conheço o Luís Moita. Há muito, pela certa. Habituei-me a admirá-lo, ainda à distância, nas suas andanças pelo catolicismo crítico, pelos caminhos da luta anti-colonial, na procura obsessiva da nossa liberdade coletiva. Vejo-o depois no filme eterno do 25 de abril, com o seu sorriso bom, entre quantos então sairam da prisão de Caxias. 

O Luís passou então, brevemente, por um governo, mas manteve-se essencialmente ativo nas atividades cívicas da sociedade dita civil. E dedicou-se em pleno à universidade, onde, nos últimos anos, tive com ele o gosto de privar com regularidade. As surtidas pela política, que as foi tendo, foram sempre à margem do óbvio, eram investimentos na esperança, com aquela pontinha de aventura, quase adolescente, que todos sabemos que lhe marca o íntimo.

O Luís Moita, que o calendário nos diz que faz 80 anos, é uma figura serena, doce, compreensiva, atenta aos outros como ninguém, com o entusiasmo de uma juventude que nunca lhe abandonou o espírito. O Luís Moita é meu amigo e eu tenho um grande orgulho nisso.

Tribunal da opinião

É uma imensa asneira a ideia que por aí anda de levar à justiça a historiadora Fátima Bonifácio, por virtude das inanindades preconceituosas que escreveu no “Público”.

O único tribunal adequado para estas questões é o da opinião pública, onde deve ser posto a nu o preconceito primário que ficou exibido no texto.

Não transformem a senhora numa mártir do reacionarismo da paróquia!

O racismo e a direita

Não vejo qualquer problema moral, bem pelo contrário, na aproximação entre a direita moderada e ideias e movimentos que uns apressados rotulam de extrema-direita. Antes vejo um problema moral profundo na aproximação entre a direita moderada e a esquerda moderada e qualquer outra esquerda, as últimas moral e intelectualmente falidas e, por isso, nociva para as sociedades.

Quem escreveu isto, completamente a despropósito, num artigo louvaminheiro das ideias propagadas no já aqui referido texto de Fátima Bonifácio, é o opinador do “Observador” Gabriel Mithá Ribeiro. Que, por acaso, é negro.

A liberdade de um embaixador


Num relatório interno para o seu governo, o embaixador britânico em Washington escreveu alguns comentários pouco abonatórios sobre Trump e a sua administração. 

A um embaixador é pedido que dê a sua franca opinião, qualquer que ela seja, sobre a realidade do país em que está acreditado. É pago precisamente para isso. A sua visão, fruto da experiência e abalizada pelos contactos que tem, destina-se a influenciar a atitude do seu governo perante o do país que o acolhe. Pode ter razão ou pode estar errado, mas isso é uma questão apenas entre ele e o seu governo. Acresce que, no caso britânico, o cargo de embaixador em Washington é um dos mais elevados da respetiva carreira diplomática, pelo que o diplomata que ocupa o posto é sempre um profissional de “primeiríssima água”.

A liberdade de opinião de um embaixador é, em princípio, garantida pela estrita confidencialidade daquilo que reporta. É a segurança de que o que escreve é lido apenas por quem “need to know” (como se diz na “intelligence”) que lhe confere a liberdade necessária para se exprimir.

Porém, o tal relatório do embaixador britânico veio a público, numa daquelas canalhices de quebra de confidencialidade que mostra o estado em que anda o “civil service” do país de sua majestade. Trump, como é óbvio, não gostou do retrato que o embaixador fez de si e dos seus e afirmou, publicamente, que o diplomata deixaria de ter o acesso facilitado junto da sua administração, embora não tivesse ido ao ponto de o considerar “persona non grata”. Os britânicos, no caos funcional em que vive a sua administração, e muito cobardemente, não cuidaram em fazer o que seria decente: proteger o seu homem em Washington. O qual, “sozinho no meio da praça”, se viu obrigado a demitir-se.

Imagino que o futuro embaixador britânico nos Estados Unidos venha agora a ser tentado (e forçado) a entrar em Washington com “pezinhos de lã”, para que lhe não lhe venha a acontecer algo similiar ao seu antecessor . 

Ser obrigado a fazer auto-censura sobre o que reporta às suas autoridades é o pior que pode acontecer a um embaixador. A menos que seja corajoso e, no fim dos seus textos, cuide em inserir o “motto” (em francês, claro!) do escudo britânico: “honi soit qui mal y pense” (que se envergonhe quem pensar mal disto).

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Os vencidos da dívida


As recentes eleições na Grécia tiveram, entre nós, nos últimos dias, um tratamento mediático banal. O regresso ao poder dos conservadores, com maioria absoluta, foi assinalado quase com parcimónia. Mudam-se os tempos...

Há uns anos, o nosso país emocionava-se fortemente em face da crise grega, de um país mergulhado em dívida, com uma situação social gravíssima, com uma conflitualidade quase levada ao extremo nas ruas. A Grécia era, então, o nosso espetro: "não somos a Grécia", diziam alguns, a exorcizar o pior.

Com a derrota histórica da social-democracia, a "esquerda da esquerda" subiu ao poder em Atenas. Subitamente, a cara sorridente de Alexis Tsipras, o líder do Syriza, passou a fazer parte do nosso quotidiano informativo, acolitado por Varoufakis, um ministro das Finanças que, de um dia para o outro, passou quase a "sex symbol".

Aqueles que, por cá, defendiam que se devia mandar às urtigas os compromissos subscritos com Bruxelas viam no desengravatado estilo dos novos gregos um farol de esperança. Bater o pé a e em Bruxelas era a moda do tempo.

Reféns da dívida, os governantes gregos iniciaram o seu percurso com o óbvio "não pagamos!". Todos acompanhámos então a coreografia dos seus dirigentes pelos corredores de Bruxelas. Não foram poucos os que duvidaram de que aquele método abrupto de negociar viesse a ter o mínimo de sucesso, mas, por cá, em certos meios, ironizar com o estilo de Varoufakis chegou a ser equiparado a uma traição. É certo que vivíamos num país onde uma coligação troika/PSD/CDS parecia justificar o maniqueísmo, tanto mais que ela se portava, face ao caso grego, com um cinismo egoísta, tentando arrancar um esgar de simpatia a Berlim.

Um dia, Tsipras, ciente de que o método Varoufakis afinal nada mais era do que a irresponsabilidade feita política, percebendo que Angela Merkel não queria uma crise na Zona Euro, cedeu e comprou o regresso a uma certa normalidade. A acalmia dos tempos europeus pós-crise fez o resto. Havia outro caminho? Talvez, mas esse passava pelo completo isolamento internacional da Grécia e, com toda a certeza, por um sofrimento ainda maior do seu povo. Tsipras foi apenas realista.

Em política, a gratidão não é a regra. O modo como o Governo grego conseguiu resolver o velho conflito toponímico com os vizinhos da nova Macedónia do Norte acabou por ser inscrito a débito na contabilidade da governação do Syrisa. A coragem de Tsipras não foi premiada. Agora, regressa à oposição. É assim a democracia, também no país onde ela nasceu.

terça-feira, 9 de julho de 2019

A Quinta Vigia


Aquela cara dizia-me alguma coisa. Olhámos um para o outro, quando nos cruzámos, a dois passos do velho Café Apolo, no centro do Funchal, há dois dias. Ele também me conheceu. 

Todos cultivamos imensos “déjà vu”, fruto de memórias incompletas. Não sou exceção. Andei as horas seguintes a maturar de onde conhecia aquele tipo. À noite, “caiu a ficha”: não sei quem ele é ou o que faz na vida, mas sei bem como o conheci.

Foi há duas décadas. Tinha ido à Madeira para uma qualquer função oficial, nesses tempos em que andava pelo governo. Chegado de manhã, era minha intenção sair da ilha ao final da tarde. Mas, ainda no aeroporto, fui confrontado com uma situação inesperada: o então presidente do governo regional, Alberto João Jardim, tinha organizado um jantar para mim na Quinta Vigia, para o qual tinha convidado diversas pessoas. Garantiam-me que podia regressar a Lisboa, no último avião, depois do jantar. Aceitei o gesto de simpatia, claro.

O jantar, que iria ser muito agradável, tinha aí uma dúzia de convivas. Jardim, no que recordo ser uma espécie de terraço, ia-me apresentando os convidados que eu não conhecia. Foi o caso de um cavalheiro, cujo nome nunca fixei (palavra!), que teria uma função local qualquer, oficial ou não, que também não anotei.

Estávamos os três numa breve conversa quando Jardim se saiu com esta, voltando-se para mim: “Aqui este nosso amigo anda aí numas brincadeiras... com uma pequena! Ele julga que eu não sei!”. O homem pareceu mudar de cor e reagiu, surpreso: “Ó Alberto João, deixa-te disso! O senhor secretário de Estado pode julgar que estás a falar a sério!”. O presidente não lhe poupou o embaraço, que se viu crescente: “E então não estou? Mas eu sou teu amigo e da tua família, não conto mais nada, está descansado!”. E passou à frente, como se nada tivesse dito.

Durante o jantar, o homem olhou para mim de viés, várias vezes, com ar preocupado. Eu retribuía-lhe a mirada com uma expressão neutra, não fosse o homem pensar que eu pudesse vir a explorar a “boca” do presidente. 

A pessoa com quem, há dois dias, me cruzei no centro do Funchal era precisamente a mesma a quem eu fora apresentado por Alberto João Jardim. Quem será? Que faria, à época? Ainda terá o “affaire” ou tudo não passava de uma “blague” de Alberto João Jardim?