sábado, 31 de agosto de 2019

Luiz Rosa Dias


Cheguei ao Luiz através da Alice Pinto Coelho, sua prima. Um dia, há muitos anos, sentou-o na Mesa Dois do seu “Procópio” e passei então a conhecer um médico divertido, bom conversador e que tinha a curiosidade de ser sobrinho de Fernando Pessoa (o Luiz nasceu, em 1931, no edifício onde é hoje a Casa Fernando Pessoa). Da Mesa Dois aos jantares anuais da Mesa Dois (que, por uma década, organizei) foi um salto que o Luiz passou a dar com todos nós.

Um dia, em Paris, fui convidado para um jantar comemorativo do 25 de abril, organizado por esse imparável promotor cultural que é o João Heitor. O repasto, que aconteceria no mais improvável dos lugares, a cave do La Coupole, em Montparnasse, era “abrilhantado” por uma palestra do Luiz Rosa Dias, sobre o seu tio Fernando. Confesso que temi o pior! Sabia que o Luiz tinha, como seu “fond de commerce” para palestras, a memória familiar de Pessoa. Isso, porém, nada garantia à partida. Admito que temi uma estopada. Enganei-me redondamente! O Luiz era um surpreendente bom orador, de fala solta e criativa, prendeu a assistência com belas evocações do tio, do exoterismo às mulheres, e contribuiu para passarmos uma bela noite. Foi um 25 de abril diferente.

Li, há minutos, que o Luiz se foi desta vida. Já não teremos o seu bigode branco e o sorriso daquela figura curvada que sempre nos trazia boa disposição e boa conversa. É a vida! Ou, pior, é a morte.

A cereja no bolo


José Sócrates publica hoje no “Expresso” um artigo em que critica António Costa (sem o mencionar pelo nome) pelo facto de este ter afirmado, numa recente entrevista à TVI, que “os portugueses não gostam de maiorias absolutas”. A esse propósito, Sócrates elenca o essencial daquilo que o seu governo, de maioria absoluta, conseguiu levar a cabo nesse período.

É sabido que José Sócrates mantém uma forte distância crítica de António Costa, por entender que o PS, sob a liderança deste, não prestou a solidariedade que ele entendia ser-lhe devida, no tocante ao processo judicial de que é alvo, em especial face ao modo como a justiça se comportou nesse contexto. Sócrates considera que, desde o início, houve uma inescapável dimensão política em todo esse imbróglio. Costa, pelo contrário, entende que o PS não deve ser envolvido num processo que cabe à justiça conduzir e que seria descabido, com consequências político-partidárias, o PS fazer uma leitura do comportamento da máquina judicial. São duas visões inconciliáveis.

O artigo de Sócrates, pense-se o que se pensar das desavenças no seio da família socialista, é um gesto que, a meu ver, acaba por ser benéfico para António Costa e para as suas ambições, não explicitadas mas muito óbvias, de poder vir a obter uma maioria absoluta, por muito que os portugueses gostem delas ou não - e eu também acho que não gostam. É que, no atual contexto, ser atacado por José Sócrates é quase a “cereja no bolo” que faltava ao líder socialista no caminho para a renovação do seu mandato em S. Bento.

Sylvie ou as férias


Há muitos anos, o Duo Ouro Negro cantava, no “Sylvie”: “E setembro chegou / vamo-nos separar / o Verão terminou / diremos au revoir”.

Sinto o mesmo com as férias, que se vão embora neste fim de semana, com a segunda-feira a significar o regresso ao trabalho. E o Setembro que aí vem promete!

Pensando bem, acho que, um dia, vou ter de me reformar. Mas, dessa vez, será mesmo a sério, juro!

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Os dias difíceis de Timor


A meio da tarde de ontem, num livraria em Vila Real, comprei o livro “O Negociador”, uma longa entrevista da jornalista Bárbara Reis ao embaixador Fernando Neves. Agora, pela madrugada, lidas atentamente as suas 430 páginas, em cerca de quatro horas, dou comigo em “balanços”. 

Desde logo, para concluir que aprendi bastante com esta obra. Embora eu tivesse acompanhado, relativamente de perto, o processo negocial em que, sob a égide da ONU, Portugal e a Indonésia esgrimiram razões sobre Timor, verifico agora que me escaparam muitos aspetos fundamentais desse extraordinário trabalho negocial, através do qual Portugal tudo fez para que os timorenses tivessem o direito a decidir o que queriam fazer do seu futuro.

A segunda constatação a que cheguei é de que este livro pode ajudar a mostrar, se acaso isso for necessário, a importância de que se reveste, para o país como o nosso, o facto de ter ao seu serviço uma máquina diplomática competente, determinada, perfeitamente consciente dos seus objetivos e com a capacidade de saber instituir uma prática consequente e eficaz para os atingir.

Finalmente, devo dizer que fechei este livro com o reforçado gosto de ter feito parte de uma escola diplomática que produziu profissionais da qualidade do embaixador Fernando Neves, cuja intervenção no processo timorense prestigiou o nosso país e contribuiu para que assim pudesse ser escrita uma magnífica página da nossa história diplomática. Não vislumbro motivo para que o facto de ser seu amigo me obrigue a um qualquer ato de contenção ou modéstia.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Agostos da vida - o poder do silêncio


A chefia interina do governo é uma fórmula banal. Nas ausências do primeiro ministro, a coordenação das reuniões semanais de governo é assegurada pelo ministro mais sénior na hierarquia governamental, que estiver em exercício efetivo de funções - e que pode até nem ser o "número dois" do governo. É vulgar que quem coordena a reunião deixe vaga a cadeira que usualmente é a do primeiro-ministro e que continue sentado naquela que lhe corresponde. Uma coisa é óbvia: nenhuma decisão importante é aí tomada sem que o chefe do executivo, que está apenas a uma chamada telefónica de distância, decida por ele próprio. 

Foi assim com que estranheza que, numa reunião de um Conselho de ministros, já há muitos anos atrás, o ministro que a chefiava interinamente (e que, por sinal, não era o "número dois" do governo), que se tinha sentado na cadeira do chefe do governo, depois de despachados alguns diplomas que já vinham "limpos" da reunião de secretários de Estado, e que só necessitavam da chancela formal do Conselho, teve a inusitada iniciativa de suscitar um debate sobre um qualquer tema de "política geral". 

Estava-se em Agosto, mês em que os Conselhos de ministros são, em regra, mais breves, muitas vezes só dedicados a coisas de rotina, sem um pendor decisório muito forte. A ausência do primeiro-ministro como que inibe o Conselho a envolver-se em matérias que passem o estritamente indispensável.

Convirá também dizer que esse ministro, que havia ingressado numa remodelação intercalar inesperada, estava longe de fazer a unanimidade de apreço político entre os seus pares, na apreciação de uma certa geração presente à volta da mesa, por razões que não vêm aqui para o caso.

O ministro começou por dizer da importância do Conselho refletir sobre a temática em causa, tendo introduzido a discussão com uma intervenção detalhada de vários minutos. Alguma perplexidade começou a instalar-se à volta da mesa. Alguns dos restantes ministros e secretários de Estado presentes (estes que aí estavam em substituição dos respetivos ministros, nesse mês de férias) entreolharam-se com algum espanto. Era pouco curial que, na ausência do chefe do governo efetivo, tivesse lugar um debate sobre um tema de orientação política geral. Mas, em silêncio, lá deixaram ir o ministro até ao fim da sua fala. 

Acabada esta, o chefe interino da reunião convidou os ministros presentes a intervir. O silêncio, benevolamente tido como de atenção, com que a intervenção inicial fora acolhida, prosseguiu, mas agora num registo de algum indisfarçável embaraço. Ninguém se inscreveu para falar. Manifestamente, ele não tinha acertado com nenhum dos colegas uma reação para abrir o debate, como frequentemente ocorre.

O nosso homem, talvez já pressentindo que o Conselho lhe estava a "fugir de mãos", inquiriu se os secretários de Estado presentes desejavam dizer alguma coisa. E, perante o também silêncio destes, entendeu por bem complementar a sua intervenção anterior, com novo monólogo de mais uns minutos, suscitando mais algumas questões, sobre as quais "gostaria de poder colher a sensibilidade do governo". Todos os colegas eram agora formalmente interpelados a responder. 

Sem sucesso. Novo e fragoroso silêncio se instalou, com alguns sorrisos e troca de olhares a aflorarem. Alguns dos presentes colocavam já as suas pastas sobre a mesa, com algum "restolho", prenunciando o fim ansiado da reunião. Mas o ministro não a tinha dado por terminada. No continuado e penoso silêncio, olhava para os seus dossiês, talvez perguntando-se como sair dali. A solução acabou por vir de um membro do governo do fundo da sala, um homem de rara ciência que o tempo já nos levou, num comentário a meia-voz: "E se fôssemos andando?". E fomos.

Uma real questão


“Se a Escócia ficar independente, será que vou continuar a poder ir para Balmoral? É que eu nunca tive um passaporte...”

Reino Unido - guia para desatentos


O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, numa decisão que está a ser bastante contestada, decidiu ir suspender, por algumas semanas, o funcionamento do parlamento do país.

As questões, institucionais e políticas, que esta decisão envolve encontram-se em forte debate, até pelas suas implicações constitucionais, atendendo, em especial, ao motivo pelo qual Johnson o quer fazer: facilitar a sua própria liberdade de ação no processo do Brexit.

O Reino Unido não tem uma constituição escrita mas, em contrapartida, dispõe de um corpo de outras leis de idêntica natureza, que, no dia a dia, constituem o esqueleto normativo e orientador do funcionamento do Estado. A isto se soma uma jurisprudência constitucional muito sólida, testada e apurada ao longo de séculos.

Na prática britânica, o parlamento só pode ser suspenso ou dissolvido através da palavra da rainha. De acordo com o compromisso institucional que suporta o regime monárquico britânico, o soberano não tem hoje a menor palavra a dizer sobre questões de Estado. Fará o que o governo de momento (que, noto, lhe foi indicado pelo parlamento) lhe disser que faça. Daqui a dias, a rainha lerá o “discurso da coroa”, preparado integralmente pelo governo, no qual detalhará aquilo que o “my government” escreverá para ela ler.

A ideia, que anda por aí, de que a rainha poderia usar este momento para poder contrariar o governo em funções é completamente desprovida de sentido, tanto mais que nem sequer se sabe o que a rainha pensa - e ninguém no Reino Unido tem intenção de lhe perguntar. Todo o cidadão britânico sabe bem isto, vive confortável com esta regra e só os estrangeiros é que especulam sobre o tema.

Uma última nota, de natureza mais geral: a condição implícita para as monarquias contemporâneas poderem subsistir em regime democrático (leia-se, na Europa e no Japão) é a cedência aos eleitos de todo o poder de intervenção em matérias de Estado. Assim, nos dias de hoje, todos são ... “rainhas de Inglaterra”. Até a própria!

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

O senhor Moisolindo


Passei há dias por lá, por aquela casa, que tem aquela janela. É na rua da Torrinha, no Porto. No passado, foi ali o Lar Gomes Teixeira, pertença do Centro Universitário do Porto. Disponibilizava quartos a preços módicos e por lá me alojei, durante o ano letivo de 1966/67, como caloiro do curso de Engenharia Eletrotécnica.

O lar tinha um porteiro, o senhor Moisolindo (pergunto-me agora: será que se chamava Nozolino e eu sempre percebi mal?), que por lá dormia. Dormia quando podia, porque a agitação no lar era imensa, com noitadas frequentes, até ao dealbar.

Ao pobre do Moisolindo tudo acontecia: desde “bombas” de água em sacos de plástico, que explodiam no eco fácil do saguão fechado para o qual dava o janeluco do seu quarto, até ser chamado, de madrugada, pelo som estridente da campaínha da porta, e, no percurso, tropeçar em fios de pesca estrategicamente colocados, ao mesmo tempo que, pelo vão da escada, sobre ele caíam, cocoricando, galinhas raptadas de quintais vizinhos. Entre tantas outras “invenções”, porque a imaginação dos utentes do lar era infinita.

O Moisolindo era uma figura gorducha, com um ligeiro atraso psicológico e uma gaguez persistente. A nós, servia para abrir e fechar a porta da rua, receber uns recados e pouco mais. Coadjuvava a lavadeira e governanta, que nos servia os pequenos almoços. E imagino que também fizesse limpezas. Era filho do senhor Claudino, um homem simpático que preponderava na portaria do Centro Universitário, a umas centenas de metros.

A porta do lar permanecia aberta, com o Moisolindo por perto, até às 10 horas da noite. Depois, a cada hora, até à uma manhã, estava convencionado haver três aberturas da porta, a toque nosso da campaínha. E lá surgia o Moisolindo, estremunhado, de eterno pijama às riscas.

Num desses serões, às 11 da noite, à abertura da porta, entrei com um grupo de colegas e fiz questão de desejar boa-noite ao Moisolindo, de forma bem visível. E subi para o meu quarto, no topo do edifício.

Na “porta da meia-noite” um novo grupo entrou no lar. Nesse grupo ... eu também vinha! O Moisolindo, julgando estar a sonhar, mirou-me com gaguejante supresa: “O senhor Seixas na-na-não entrou já, há bocado?” Fazendo-me de novas, devo ter dito algo como “Eu? Está enganado, senhor Moisolindo. Boa noite!”, zarpando pela escada.

Uma da manhã. Um derradeiro grupo acede ao lar. Estava o Moisolindo prestes a fechar a porta quando surji eu, afogueado, vindo da rua: “Não feche, senhor Moisolindo, não feche! Falto eu!”. O homem esbugalhou os olhos, não querendo acreditar naquela “aparição”. Creio que já nem reagiu, ficando a olhar para mim, que, pela terceira vez, lhe dava as boas-noites, dirigindo-me rapidamente à escadaria interior.

Nos dias imediatos a esta cena, o Moisolindo, sentindo ter sido gozado por mim, embora ainda sem perceber como, fez-me cara feia. Depois, com o tempo, tudo passou. Acho que ele nunca entendeu a explicação simples para o mistério da multiplicação das minhas “aparições”: eu saía pela janela que se vê na imagem, pertencente a um dos dois quartos do rés-do-chão.

O funcionamento do Lar Gomes Teixeira veio a ser suspenso no final desse ano, por decisão da universidade. Queixas por reiterados atos de indisciplina tinham obrigado a Reitoria a uma intervenção de emergência. Em nome desta, o professor Daniel Serrão já havia chegado a reunir com os utentes do lar, para tentar impor alguma acalmia. Quando um dia, numa conversa no Porto, lhe revelei que, nesse ano “histórico”, tinha sido um dos utentes daquela casa, nem queria acreditar: “Não me diga que o meu amigo era um deles?! Nunca, na história da universidade do Porto, se viu tanta anarquia num lar!", disse-me.

Quero crer que o facto de, nesse ano, eu ter apenas conseguido concluir uma cadeira do curso, é capaz de ter tido alguma coisa a ver com o ambiente no local onde me hospedava. Foram bons tempos? Não estou tão certo disso...

A nova comissária


Elisa Ferreira será a sexta pessoa, indicada por Portugal, a integrar a Comissão Europeia, desde a nossa entrada para as então Comunidades, em 1986. Não será a "comissária de Portugal", porque os comissários, embora indicados por cada um dos governos nacionais, não representam formalmente, na sua ação na Comissão, o seu país de origem. Compete-lhes assumir o interesse geral da União Europeia, embora uma regra não escrita acabe por admitir que, na sua presença no colégio de comissários, eles para aí carreiem a "sensibilidade" do país que os indica. Mas é falsa a ideia de que um comissário pode atuar como uma espécie de funcionário do país no seio da Comissão, aí defendendo abertamente os seus interesses nacionais.

Uma visão antiga e ingénua é a de que, a um país, interessa que ao comissário que indicou seja atribuída na Comissão uma "pasta" que corresponda especificamente aos seus interesses nacionais mais relevantes. Se essa perspetiva egoísta pode funcionar, às vezes, para os maiores Estados, é uma completa falácia no que toca aos restantes. Pela experiência de observação da vida europeia nas últimas três décadas, um comissário torna-se relevante quando, pela sua qualidade, consegue ganhar poder de influência pessoal no seio do colégio de comissários e a quem, pela horizontalidade do seu pelouro, os outros sejam obrigados a recorrer com frequência.

Portugal é dos escassos países que tiveram um seu nacional como presidente da Comissão Europeia, com a década de Durão Barroso. Antes, Cardoso e Cunha, Deus Pinheiro e António Vitorino tinham desempenhado o cargo de comissário europeu. Depois de Barroso, foi Carlos Moedas. Em 33 anos de presença na União Europeia, o PSD indicou quatro comissários e o PS apenas um. A "quota" socialista é agora reforçada, embora Elisa Ferreira não seja militante do PS.

Elisa Ferreira é um nome forte e prestigiado na Europa, largamente consensual em Portugal. Com uma passagem marcante pelo Parlamento Europeu, onde se destacou no debate da questão da União Bancária, a sua ida para vice-governador do Banco de Portugal foi uma decorrência natural, como natural seria que viesse a suceder a Carlos Costa, quando este terminar o mandato.

A nova comissária vem do Norte, foi docente na Universidade do Porto, trabalhou na antiga Associação Industrial Portuense e nunca deixou de refletir, em todas as fases da sua vida, a sua ligação regional. Acho extremamente positivo que uma competente mulher do Norte passe a ser o mais visível rosto português na Europa.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Elisa Ferreira


É uma excelente notícia para o país a indicação de Elisa Ferreira para comissária europeia. Trata-se de uma figura altamente respeitada na Europa, onde, no Parlamento Europeu, teve um papel destacado no período decisivo das discussões sobre a União Bancária. A sua posterior nomeação como vice-governadora do Banco de Portugal, onde tudo indicava dever vir a suceder a Carlos Costa, no termo do mandato deste, no próximo ano, foi o corolário natural dessa ação.

Elisa Ferreira foi uma excelente ministra do Ambiente e, depois, do Planeamento, nos governos de António Guterres, onde a conheci. Professora da Universidade do Porto, com parte da sua carreira ligada à então Associação Industrial Portuense, nunca foi militante do PS mas foi uma constante “compagnon de route” dos socialistas, que sempre ganharam imenso com a sua colaboração.

Confesso ser suspeito neste avaliação da Elisa: somos bons amigos desde há muito, pelo que é também com muita alegria que partilho esta excelente escolha, que creio plenamente consensual na área política, e pela qual quero também felicitar a clarividência de António Costa. Vai fazer muito bem a Bruxelas poder contar de novo com a inteligência de uma mulher competente e ativa, que gosta da vida e sabe olhá-la sempre com um sorriso bonito e uma atitude saudável. Um abraço também ao Zé Fernando, deixando expressa uma “angústia” interesseira (esta é uma “private joke”): e agora, a “Zulmira”?

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Nos anos do Pedro


O Pedro fez 80 anos. Pedro Ribeiro de Menezes é um diplomata português jubilado, com uma bela e merecida carreira. Desde sempre, teve para com os colegas mais novos uma atitude de excecional simpatia. Sou feliz beneficiário dessa forma elegante e cordial como nos (me) tratou. E, também por isso, ficámos amigos.

Recordo-o como sendo alguém que esteve na vida profissional com uma postura aberta, dialogante, com um discurso por onde perpassava um certa distância crítica, talvez mesmo um olhar irónico sobre essa “estranha forma de vida” que é a carreira diplomática. Viríamos a ter em comum, em tempos diferentes, a chefia da embaixada em Brasília, para além de termos comungado momentos que ambos conseguimos transformar em bastante divertidos. Outros, um pouco menos.

Em 1979, o Pedro tinha a seu cargo, nas Necessidades, o serviço do pessoal. Um dia, ainda antes de partir para o meu primeiro posto, na Noruega, tomei posse, com outros colegas, da categoria de “segundo secretário de embaixada” - a segunda, a contar do fundo da escala hierárquica, na qual ainda haveria mais cinco a percorrer...

Quem nos conferia a posse era o secretário-geral, o embaixador Caldeira Coelho, tendo ao seu lado Pedro Ribeiro de Menezes.

Caldeira Coelho era, naquela casa, como que a personificação do regime anterior. O 25 de abril havia-lhe trazido alguns problemas, mas o seu “networking” social e político, alguma complacência por parte da ordem democrática e, sem dúvida, uma inteligente habilidade profissional havia-lhe reposto a carreira, que chegara a estar tremida. A democracia foi, para com ele, de uma imensa generosidade.

Ele nunca me tinha visto, mas sabia quem eu era. Semanas antes dessa posse, numa reunião em que o meu nome havia sido discutido, no âmbito das colocações no estrangeiro, soube que se apressou a propor-me para o posto mais complicado, e de vida mais difícil, entre todos em análise: a embaixada em Bagdad. Deixou mesmo cair algumas ironia a meu respeito, nesse debate. Não que eu me escusasse a postos difíceis: no ano anterior havia concorrido a Luanda (e para lá iria três anos depois, pois estas “disponibilidades” não se apagam na memória institucional).

Recentemente, vim a confirmar que o meu nome esteve “no radar” de Caldeira Coelho desde há muito, por razões de natureza política. Nessa colocação de 1979, seria graças à intervenção do meu então diretor-geral, Lencastre da Veiga, que acabei por ir para Oslo, um lugar mais “calmo” do que Bagdad. Às vezes, lembro-me de que Caldeira Coelho tinha algum “faro” geopolítico: a guerra entre o Iraque e o Irão iria começar menos de um ano depois...

Quando os futuros empossados entraram no gabinete do secretário-geral, Caldeira Coelho estava sentado à sua secretária. Mal nos olhou e nem se dignou levantar-se para nos cumprimentar. Pedro Ribeiro de Menezes, que nos recebera, estava de pé, ao seu lado, e ia chamando os funcionários, um a um, para o ato de posse. O termo era assinado por cada um de nós e pelo secretário-geral, que continuava a ignorar-nos. Mas não a todos. Quando chegou a minha vez e ouviu o meu nome, levantou a cabeça, tirou os óculos, olhou-me nos olhos e disse, em voz pausada, onde se pressentia um subliminar tom ameaçador: “Então você é que é o Seixas da Costa?!”

Não era bem uma questão a que eu tivesse de responder, era a constatação de estar perante o “tal” funcionário, que ele bem conhecia “de ouvido”, sem conhecer pessoalmente. Lembro-me do meu incómodo, quanto mais não fosse pelo singular e estranho destaque que me era dado perante os meus colegas. Nenhum deles teve a menor dúvida da razão por que isso acontecia... Ali estava eu, de cabelo mais comprido do que o padrão dos diplomatas “by the book” recomendava, com uma bigodaça bem à época, num tempo e numa circunstância que não augurava nada de bom para a minha carreira futura. Só que os alcatruzes da nora vão rodando...

Peço desculpa ao Pedro Ribeiro de Menezes por ter aproveitado o pretexto deste seu magnífico 80° aniversário - que imagino passado com a sua família, sendo hoje um dos seus filhos, um bom amigo, o nosso embaixador em Madrid, e o outro um credenciado historiador, autor da única (repito, da única) biografia de Salazar - para contar esta historieta pessoal, desses meus primeiros tempos no MNE, em que uma das memórias gratas foi ter tido o privilégio de o conhecer. 

Perguntará o leitor: então não envia os parabéns ao seu colega? Eu esclareço: já trocámos entre nós as devidas mensagens, mas reitero aqui o meu forte e amigo abraço ao Pedro.

domingo, 25 de agosto de 2019

Jogos florais

É muito interessante assistir ao “bate-bola” entre António Costa e o Bloco de Esquerda, com a invocação, pelo primeiro, do nome de Jerónimo de Sousa e do PCP como o bom exemplo de parceiro que os bloquistas deveriam ter seguido.

Longe vão os tempos idílicos da Geringonça?

O que mais irrita o PS, para além da escassa fiabilidade do partido de Catarina Martins, que os últimos anos evidenciaram, é o persistente discurso contra uma eventual maioria absoluta do PS. Costa pressente que essa conversa pode cair favoravelmente nos ouvidos de algum eleitorado que ”balança” o voto na sua margem esquerda. Sublinhar uma estudada hostilidade contra o Bloco é obrigar esses eleitores a fazerem uma escolha clara.

O que mais irrita o Bloco é a decidida falta de vontade de Costa de o levar para o governo, hipótese que ele sabe que conduziria a uma inevitável crise dentro do PS. Aliás, acho que, ao primeiro-ministro, essa possibilidade nunca lhe passou pela cabeça, atendendo também aos custos reputacionais que isso poderia ter para a imagem de moderação responsável que tanto trabalho teve para construir na Europa.

Os constantes gestos de simpatia face ao PCP são assim o elemento “compensatório”: Costa quer com eles mostrar que não está contra os partidos à sua esquerda, apenas quer pôr “en su sitio” o que não é fiável.

Vou repetir a pergunta: longe vão os tempos idílicos da Geringonça? Não necessariamente.

Se os resultados eleitorais o exigirem, a Geringonça, num qualquer modelo, pode renascer. Isto são apenas “jogos florais”, no caminho para as eleições.

sábado, 24 de agosto de 2019

Da boa posta


Há já uns largos anos, um (bom) restaurante de Vila Real anunciou na sua lista “posta mirandesa”. Desconfiei, mas mandei vir. Quando o prato chegou à mesa, constatei que se tratava de um bom bife, mas nada parecido com uma posta. Devolvi à procedência, dizendo ter pedido uma posta mirandesa e que aquilo não era nada disso. E, algum tempo depois, voltou outro bife, agora com ar de naco de vitela. Chamei quem de direito e expliquei que aquilo também não era uma posta mirandesa. Simpático, o proprietário, que ainda hoje continua a ser meu amigo, lá me foi dizendo que era tudo o que tinham. A “posta mirandesa” desapareceu da lista daquele restaurante. Quanto mais não seja, talvez tenha sido para não me ouvirem...

A posta é um pedaço de carne muito especial, de uma parte específica do animal, com uma textura muito própria. Os entendidos dizem que, à mesa, se deve poder cortar com “o outro lado da faca”. Não exijo tanto, mas exijo a macieza que só pode ser dada pela genuinidade absoluta do produto e por um tempo de ida ao lume que não “mate” a carne, a qual, para o meu gosto, deve estar num ponto médio/mal passada, dela saindo um molho suficiente para o produto poder sobreviver por si próprio como prato, venha ou não com as batatas a murro clássicas.

Comi, na minha vida, postas memoráveis. Desde logo, nesse santuário que foi a “Gabriela”, em Sendim, ainda com a dita senhora pela sala. Também no “Artur”, em Carviçais, com o mudo a servir-nos o vinho. Em Mogadouro, na “Lareira”, tenho nota de boas postas. O mesmo aconteceu, embora sem nunca deslumbrar, na “Balbina”, na própria Miranda. No Peredo, perto de Macedo, o João Saldanha tinha a sua bem apreciável “posta à Saldanha”. Perto de Bragança, em Gimonde, o “Dom Roberto”, apresentava, em tempos, uma posta soberba. Podendo espantar, uma das melhores postas mirandesas que comi na vida foi em Braga, num restaurante já desaparecido, chamado “Abade de Priscos”. Ah! claro, também comi muitas postas “assim-assim”, quando caí na asneira de me não informar antes se a casa era de confiança no que toca à genuinidade desse prato.

A que propósito vem esta conversa? Apenas para informar que agora, em Bragança, no sempre excelente “Geadas”, comi aquela que considero ser a melhor posta de que tenho memória. A mão da dona Iracema continua infalível, dando plena confiança a quem por ali vai - e eu já não ia há uns tempos, para alimento culposo de um dos meus pecados carnais.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

O Brasil e a Amazónia


A questão da Amazónia tem um importante histórico no Brasil. Desde há muito que, naquele país, há uma escola de pensamento que, com ou sem razão, acha que a sociedade internacional, e em especial alguns atores nela relevantes, têm uma ambição sobre o território. Isso fez com que os militares brasileiros, no seu culto tradicional (e natural) da soberania, se tivessem auto-arrogado do papel de primeiro defensor da brasilidade da Amazónia. 

“Integrar para não entregar” foi o lema por detrás do esforço desenvolvido, desde o início do século XX, para ali ter o maior número possível de fronteiras protegidas, com guarnições militares espalhadas por todo aquele imenso território. Recordo-me de chefes militares brasileiros dizerem, em privado, que a necessidade do Brasil ter capacidade de contrariar, nessas fronteiras, o tráfico de drogas e as infiltrações extremistas também fazia parte dessa sua “obrigação”, ligada à tarefa de preservação da soberania do país sobre a Amazónia.

Convém deixar muito claro que a defesa da soberania na Amazónia, sendo um “cavalo de batalha” das Forças Armadas brasileiras, é um tema que une muitos e variados setores da sociedade brasileira, da direita como da esquerda. O Brasil é um país muito nacionalista e, tendo ambições em ser reconhecido como uma potência emergente com maior consagração institucional à escala global, é extremamente sensível a todas as potenciais intromissões na sua soberania, que possam ser vistas como debilitantes da capacidade de afirmação do país.

A França, que convem lembrar é também um país amazónico - a Guiana francesa faz fronteira com o Amapá - foi sempre a “bête noire” dos brasileiros quanto ao assunto, muitos recordando ainda as palavras de Jacques Chirac sobre a incapacidade do Brasil para estar à altura das suas responsabilidades, no tocante à preservação do “pulmão do mundo”. Mas, num passado ainda recente, também os Estados Unidos eram vistos como uma forte ameaça nesse domínio. 

Se, apesar de ter de lá saído há uma década, ainda posso ter a pretensão de conseguir identificar algumas dinâmicas internas do Brasil, quer-me parecer que os últimos dias trouxeram alguns alertas que, finalmente, podem ter sido capazes de suplantar a conhecida irresponsabilidade declaratória do presidente Bolsonaro. 

Este, se nos recordarmos, reagiu forte e feio à decisão alemã e norueguesa de suspenderem as suas contribuições para o fundo internacional criado para ajudar o Brasil a levar a assumir as suas responsabilidades na Amazónia, depois do escândalo internacional gerado pela aceleração do desmatamento do território, com laxismo complacente, para não dizer cúmplice, do governo. Porém, o grande surto de fogos já foi posterior e iria ser na sequência deste que Macron “tweetizou” o comentário que voltou a indignar o presidente brasileiro. 

Macron não tem a Europa, e muito menos, o mundo na sua mão. Mas tem um poder de veto sobre o Acordo UE-Mercosul. Por isso, ao ameaçar usá-lo, desencadeou de imediato preocupações nos operadores económicos brasileiros, como já se viu já na declaração da poderosa FIESP. Além disso, as manifestações contra o Brasil, organizadas um pouco por todo o mundo, estão visivelmente a criar, em setores económicos do país, o receio de um início de boicote às exportações brasileiras - sendo completamente irrealista, contudo, pensar-se em sanções, dado que os interesses externos dos principais investidores mundiais no Brasil tornam esse cenário implausível.

Tudo o que acabo de referir terá conseguido forçar Bolsonaro a dar hoje ares de ter algum sentido de responsabilidade, tanto mais que o tema da ameaça à Amazónia está já na agenda do G7, este fim de semana, em Biarritz. O que sobra de bom senso na liderança brasileira deve estar a entender agora melhor o que pode significar para o país o “custo Bolsonaro”. Irá a tempo?

A procissão


Terminaram ontem as festas de Bragança. Na véspera, à noite, tinha acabado de tomar um chá no Flórida (sou um fã histórico do vizinho Chave de Ouro, mas o chá preto, por lá, é sinistro!), deu-me para passear um pouco, aproveitando o clima, pelas ruas da vizinhança. 

Passei pela praça que a imagem mostra, onde, num muito cálido 10 de junho, há muitos anos, recebi a maior condecoração que um servidor público pode almejar. Decidi percorrer a pé várias ruas, no entorno da Sé. Passo por ali tantas vezes, sempre de carro, e essa era uma oportunidade de conhecer melhor a área. Ia sozinho e sozinho continuei sempre porque, não obstante estar uma noite fantástica, havia muito pouca gente.

Isso até certa altura! De repente, comecei a ouvir umas rezas em tom magnificado por altifalantes e dei comigo, ao virar de uma esquina, frente a uma procissão.

Quando digo “frente”, é isso mesmo! Atrás de mim, a rua em que acabava de entrar estava praticamente deserta e, pela frente, aproximava-se uma mole humana que ocupava todo o espaço da artéria, de casa a casa. Na dianteira (não quero parecer o Villaret, a ler “A procissão” do António Lopes Ribeiro, nem usar linguagem de cronista de ciclismo) vinha um grupo com opas brancas, empunhando uma luminárias altas (perdoe-se-me a falta de vocabulário, mas sou de outra “freguesia”, em matéria de fés & fezadas). Todos - repito, todos ! - olharam para mim, com um ar inquisitivo. Eu descia, eles subiam, pelo que todos me viam. Ia desgrenhado, com barba de férias de três dias e um ar (momentaneamente) assarapantado pelo inesperado, num conjunto bizarro que não passava desapercebido àquelas centenas de pessoas que, lentamente, passo a passo, se aproximavam, numa grande e serena frente humana. Derivei, com as discrição possível, para um dos lados da rua, tentando neutralizar a minha presença. Subi uns degraus, à entrada de uma casa comercial, colei-me a uma montra, mas, em lugar de assim me disfarçar perante as atenções coletivas, fiquei gambiarrado nessa plataforma pela luz que vinha do interior, numa exposição ainda maior. Todos olhavam para aquele fulano de cabelos brancos, que ninguém conhecia e que ali estava, numa postura insólita, em claro contra-ciclo com a cerimónia. 

Que fazer? Pensei deixar passar toda a procissão mas, como ela ia numa subida, e o andor que vinha no meio com a Senhora tinha ar de pesadote, e quem o segurava já devia vir cansado, aquilo arreou por várias vezes. Eu, embora sem a menor pressa, começava a sentir-me um pouco mal naquela função de único (porque era o único, em toda a rua!) mirone, mas por todos mirado, do evento. Decidi assim aproveitar uma das pausas para me escapulir, furando com uns “com licença” por entre os fiéis, que não paravam de cantar ou rezar, a maioria empunhando uma vela (aquilo agora parece de vidro, na minha infância era de papel) e quase todos afivelando um ar de silencioso desagrado pelo caminho contrário que aquele forasteiro ia fazendo pelo meio deles. Que embaraço!

Acho que ontem fiquei com meia Bragança a ter uma péssima imagem de mim. Pelo sim pelo não, hoje fiz a barba.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Manuel Cardoso Simões



96 anos é uma idade bonita para se morrer. Manuel Cardoso Simões sai agora de uma vida intensa, que dedicou à agricultura e ao desenvolvimento da região que, desde há muito, tinha adotado como sua. 

Vila Real deve-lhe muito mas, principalmente, o empenhamento na ideia daquilo que hoje é a UTAD. Ainda há meses, o professor Valente de Oliveira me falava das inúmeras vezes que o engenheiro Cardoso Simões batia à porta do seu gabinete para promover a instalação dos estudos superiores em Trás-os-Montes. Era difícil travá-lo! 

O meu amigo Manuel Cardoso Simões era um homem caloroso, sorridente, sempre cheio de ideias, um entusiasta da vida. Nos últimos anos, viamo-nos pouco, telefonávamo-nos pelos Natais. A sua voz ia esmaecendo, mas eu sentia que ele se agarrava à existência com o vigor de sempre. Até ontem.

O meu sincero pesar à sua Família.

Falatório



Nikki Halley, a embaixadora americana na ONU, que pediu para sair do cargo por razões nunca muito bem explicadas, tem vindo a dizer, em várias ocasiões, não ser candidata ao lugar de vice-presidente, substituindo Mike Pence, num futuro segundo mandato de Trump. Ontem, uma fonte semi-oficial dizia que, aparentemente, a única pessoa que espalha esse rumor é ... a própria Nikki Halley.

Isto fez-me lembrar uma história passada no Montecarlo, o café lisboeta onde, antes do 25 de abril, nos juntávamos para noites de bela e solta conversa. 

Havia por ali um jornalista, conjunturalmente desempregado, um tipo com alguma graça, que, num certo período, se sentava nas nossas mesas. Todos sabíamos que ele andava “deserto” para entrar para o ”Diário de Lisboa”, à época um prestigiado vespertino, com muita da “nata” do jornalismo a escrever por lá. Mas o convite não chegava, como, aliás, nunca chegaria. 

A conversa dele sobre o assunto era em tom desafiante, do estilo: “Queres saber que há aí uns palermas a dizer que eu vou para o ‘Lisboa’! Como se eu aceitasse, assim do pé para a mão!” E eu, para o ouvir, ia dizendo: “Também já alguém me falou isso, há uns dias, mas já nem sei quem foi ...” Ele, ansioso: “Não te lembras quem foi?” Eu “esquecido”, reprimindo a crueldade, com vontade de dizer: “Foste tu!”

Voto obrigatório


A SAPO pediu-me uma ideia para o ciclo político posterior às próximas eleições. Fui de opinião de que deveríamos pensar em tornar obrigatório o voto, como acontece em outros países. Veja aqui porquê.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Inconsútil


Não é para aqui chamado o significado da palavra “inconsútil”. Não interessa para esta história.

Ontem, ao ler o prefácio de José Sarney (já estou a imaginar alguns: “Quem este tipo anda a ler!”) a um livro de ficção de Carlos Lacerda (“Pior! O Lacerda! O que levou o Getúlio ao suicídio!”), deparei-me com a palavra “inconsútil”. Sei o que ela significa mas, como disse, isso nada vem para o caso.

E foi então que me lembrei do que o meu velho amigo Carlos Veiga Ferreira, um heróico editor da nossa praça, um dia disse quando lhe perguntaram por que razão havia decidido dar à sua mais recente editora (porque o Carlos é reincidente) o nome de Teodolito. Aqui vai:

Havia um poeta meritório, que já morreu há muito tempo chamado António de Sousa e mostrou vários poemas ao Herberto Helder. A determinada altura, havia um verso que dizia qualquer coisa ‘noite inconsútil’ e o Herberto perguntou-lhe: O poema é giro mas António você sabe o que é ‘inconsútil’ ? E o António respondeu: ‘Não sei nem me interessa mas é uma palavra muito bonita.’ Eu sei o que é um teodolito e foi por causa disso e também remete para um texto brilhante do Luiz Pacheco que se chamava ‘O Teodolito’ ".

E, repito, o que “inconsútil” significa não vem ao caso. Quando vier, todos temos dicionários para isso.

(“Que raio de história!”, dirão alguns. É o meu conceito de serviços mínimos, como transportador estival de matérias inúteis)

Sinais de fumo



Das grandes economias, chegam sinais de abrandamento no crescimento, a que se soma uma conflitualidade político-comercial com impacto global, tudo contribuindo para uma instabilidade psicológica dos mercados. Terão sido suficientes as lições da crise anterior?

A ideia de trazer os emergentes e outros países relevantes para um diálogo no seio do G20 resultou bastante aquém das expetativas. A Rússia saiu também entretanto do G8, a China entrou num inédito ciclo de bipolaridade e o Brasil está no estado em que está. E, acima de tudo isso, os Estados Unidos afirmam uma agenda egoísta de reforço do seu poder, voltando deliberadamente as costas à gestão multilateral da ordem mundial, quebrando mesmo alguns laços que haviam desenhado pelo mundo, depois de 1945.

Muito daquilo que os especialistas recomendavam que fosse feito, na blindagem financeira da Europa do euro, não chegou a concluir-se. Por falta de consenso político, a UE ficou a meio caminho do reforço institucional do seu eixo económico e monetário, havendo infelizmente a certeza de que, se um novo ciclo de crise surgir, o ambiente de potencial solidariedade coletiva para a adoção de medidas “ad hoc” será inferior ao do passado. Costa tinha razão ao tentar colocar nas instituições europeias figuras que pudessem contrariar isso. É que há ainda que contar com a fragilidade das lideranças das duas maiores economias europeias, as incógnitas do Brexit e a deriva italiana. E a saída de Mario Draghi do BCE não é também a melhor das notícias.

Portugal é uma pequena economia aberta, muito dependente de mercados externos que, tudo o indica, vão começar a retrair-se. O destino económico imediato de países como a Espanha, a França, a Alemanha ou o Reino Unido é vital para nós e, por muito que alguns “sábios” tentem iludir isso, não está nas nossas mãos fazer algo que possa contrariar uma sua potencial dinâmica negativa. Outros mercados alternativos têm limites de expansão e, se se entrar num período de recessão global, embora eventualmente com alguma “décalage” temporal, todos sofrerão também uma inevitável retração. Não é nada agradável pertencer a uma economia que não tem meios de controlar o futuro daquilo que essencialmente a condiciona.

Alguns, esfregando as mãos ressabiadas, perguntarão: é o “diabo” que, finalmente, chega? Quem se enganou na chegada do Mafarrico, enganou-se, redondamente, no período em que o aguardava. Agora, poderá ter “razão”? Se eu disser que, daqui a uns tempos, vai chover passo a génio da futurologia?

terça-feira, 20 de agosto de 2019

“Do not disturb”


Há muitos anos, um amigo, que me sabia peregrino regular por muitos e desvairados hotéis, teve a coragem de pedir que lhe trouxesse, de cada alojamento diferente, os avisos “Do not disturb”, que se colocam no exterior dos portas dos quartos, quando queremos ter um garantido sossego face às investidas do pessoal. 

Porque, à época, era um pouco mais insensato do que hoje ainda sou, fiz-lhe a vontade e, por alguns tempos, lá coletei esses avisos, oferecendo-os a esse amigo, que se mostrava deliciado na receção de cada fornecimento. Um dia, porém, tive um rebate de consciência e passei a ter o juízo suficiente para passar a respeitar, em absoluto, o património dos hotéis. (Hoje, só sou tentado quando eles disponibilizam sabonetes de boa qualidade, o que, aliás, é cada vez mais raro).

Esse meu amigo, um querido amigo que dava pelo nome de Álvaro Magalhães dos Santos, já se foi desta para melhor há bastante tempo. Lembrei-me dele hoje, ao deparar, no quarto de um hotel, com este belo exemplar de aviso. O paradoxo é que, tendo a certeza de que ele o apreciaria pelo bom gosto, ironicamente, a mensagem já não se lhe adequaria.

Não faço ideia do que terá acontecido à coleção de “Do not disturb” do Álvaro, embora possa imaginar que, no lugar onde está, não necessite de colocar avisos para lhe não perturbarem o sossego eterno.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A hora de Alexandre

O olhar da secretária que me esperava na porta do elevador não enganava. “Cheguei tarde?” Era a minha primeira reunião como membro da administração da empresa. “Não chegou tarde, mas tem de ir já para a sala do conselho”. Não entendi o que se estava a passar: estava antes da hora indicada. Quando entrei, Alexandre Soares dos Santos levantou-se da mesa, onde estavam todos menos eu, para me cumprimentar. “Já vai conhecer os hábitos da casa”, disse-me, num tom que vim a perceber ser muito dele, entre o frio profissional e o cordial bem humano.

Para encurtar a história: a reunião estava marcada, de facto, para a hora que eu tinha apontado mas, com Alexandre Soares dos Santos, elas começavam, em regra, uns bons minutos antes. Era a famosa “hora de Alexandre”. Foi a minha primeira lição na Jerónimo Martins.

12.12.12. Fixei este número porque é a data em que, ainda embaixador em Paris, recebi uma chamada de Alexandre Soares dos Santos que, tendo sabido do meu próximo regresso a Lisboa, me convidava a integrar a administração da empresa. Foi uma completa surpresa. Dias depois, numa conversa pessoal, disse-me que gostava que eu o ajudasse a “olhar para o futuro”, em termos geopolíticos, antecipando tendências e problemas. A Jerónimo Martins estava em três geografias, podia vir a alargar a sua ação e esses passos deviam ser tão seguros quanto possível. “Não preciso de si para quaisquer contactos. Nunca lhe irei pedir nada nesse domínio”. E nunca pediu.

Eu havia conhecido Alexandre Soares dos Santos, um ano antes, numa reunião em que a Gulbenkian reuniu os Conselhos Gerais das universidades públicas. Ele presidia à Universidade de Aveiro, eu à UTAD. Conversámos durante o almoço. Anotei, sem a menor surpresa, que a sua perspetiva sobre algumas coisas divergia da minha. Disse-lhe isso no nosso primeiro encontro. “Eu sei o que pensa”, respondeu-me, sorrindo. Nos anos seguintes, e já lá vão mais de seis, nunca o que escrevi ou disse no espaço público, muitas vezes à clara revelia daquilo que sabia serem as suas ideias, mereceu, da sua parte, a menor observação ou sinal de desagrado. 

Alexandre Soares dos Santos foi muito criticado por algumas decisões polémicas e por posturas que, com frontalidade, sempre entendeu dever assumir, na área política e económica. Nunca se refugiou atrás de fórmulas redondas, para deixar bem claro o que pensava. Ninguém o pode acusar de falta de coragem.

Em tempos de crise, dizia que gostava de poder “fechar” os atores partidários numa sala, durante uma dúzia de horas, até que se entendessem numa agenda para os próximos 10 anos. “Não é possível que gente que diz querer o melhor para Portugal não consiga um acordo sobre o essencial”. Ele próprio teria consciência de que as coisas eram mais complicadas do que essa ideia pressupunha. Era, porém, o seu desespero - acho que a palavra é esta - perante a falta de soluções racionais que o mobilizava. É também daí, estou certo, o seu grande empenhamento na Fundação Francisco Manuel dos Santos, que sempre viu como a contribuição que a sua empresa podia, e devia, prestar ao país, pensando-o com rigor.

Julgo ter conhecido suficientemente Alexandre Soares dos Santos para poder dizer, com toda a convicção, que, com a sua desaparição, se perde um criador empresarial como muito poucos que o país teve nas últimas décadas. Desapareceu alguém que o tempo ajudará a julgar como um homem de boa vontade, cuja memória permanecerá muito para além das caricaturas que alguns dele foram fazendo. E eu perdi um amigo.

A greve

A greve dos transportadores de combustíveis acabou. Pelo menos, por agora. Algumas pessoas encontraram na antipatia que lhes despertava o tom pomposo do (bem estranho) representante dos trabalhadores uma subliminar e oportuna justificação para disfarçarem o óbvio: o incómodo que a possibilidade de falta continuada dos combustíveis iria implicar para o seu conforto. Confesso, sem o menor pejo, que foi o que aconteceu comigo. O que eu não queria era a greve e, quando ela começou, desejava que ela acabasse rapidamente. Como, em especial em férias, raramente vejo um noticiário televisivo com som (alimento-me de rodapés), tinham-me escapado as razões salariais dos motoristas. Quando li qualquer coisa sobre elas, devo dizer que passei a ver a sua posição com mais compreensão. Isso também foi ajudado por ter ouvido uma declaração do representante das empresas, uma emproada personagem com ar grave, cujo nome agora me escapa e que logo achei, em termos de antipatia competitiva, ser um digno émulo do tal Pardal. Quem é que, afinal, tinha (a principal) razão? Não sei, tanto mais que não acho que um cidadão comum tenha de ter opinião sobre tudo o que mexe no país. Nesta crise, o que eu queria, muito simplesmente, é que a greve acabasse. Como ela acabou, estou satisfeito. Ponto.

domingo, 18 de agosto de 2019

A deriva italiana


Quando, na década que sedimentou a paz do pós-guerra, a Itália foi cooptada para a construção do projeto de unificação (então só) económica da Europa, houve a clara consciência de que a unidade daquele país, não tão antiga quanto isso, muito dependeria das sinergias desse modelo agregador. Talvez nenhum outro Estado europeu mantivesse, no seu interior, diferenças regionais tão pronunciadas de desenvolvimento, quiçá mesmo de mentalidades. O seu próprio sistema político era tributário dessas divergências, que tiveram expressão concreta nos afloramentos terroristas, de sentidos extremistas opostos, que marcaram alguns “anos de chumbo”. 

A fórmula constitucional que colocava a democracia cristã e um certo socialismo nas calhas regulares de acesso ao poder, com um partido comunista que evoluía para um “compromisso histórico” com esse duopólio, revelou-se, a certo passo, incapaz de sustentar, com legitimidade, a vontade coletiva. O mal-estar com certos poderes fáticos levou ao afloramento populista de uma “república de juízes” e, no termo de uma crise, um modelo político com décadas acabou por ceder. Dessa implosão nasceu uma constelação partidária de novo tipo, que, num primeiro tempo, fez emergir figuras como Berlusconni e deu expressão ao separatismo arrogante do norte do país. A densidade de algumas dessas novas forças acabou por revelar-se frágil e, rapidamente, veio a verificar-se uma nova fragmentação que, em termos gerais, corresponde ao espetro de representação que hoje existe.

A Itália europeísta que conhecemos deixou de existir. Hoje, estamos perante um país fortemente dividido, raptado por uma agenda egoísta de forte pendor populista, com a clara consciência de que o seu peso nacional não deixa de contar na aritmética decisória de Bruxelas, que também tem consciência de que se não pode dar ao luxo de isolar provocatoriamente um dos poderes europeus mais relevantes ou, pelo menos, decisivo para o equilíbrio do seu projeto. Mais do que isso, essa nova e perturbadora Itália tem hoje a tentação de servir de linha da frente a quantos se propõem prosseguir na construção de uma ordem alternativa, liberta do “politicamente correto” dos princípios que serviram de escudo moral àquilo a que hoje chamamos União Europeia.

A próxima Comissão Europeia vai ser presidida, pela primeira vez, por uma personalidade alemã - rompendo uma regra não escrita que excluía a economia mais poderosa da Europa desse lugar. Isso acontece num tempo em que o próprio equilíbrio interno germânico se desfaz, com a emergência de forças que podem vir a conjugar-se ao destino provável da Itália. Este é também o tempo em que, em França, se joga o destino da experiência Macron, que, a não ter sucesso, tem do outro lado da trincheira interna a extrema-direita. Com os dois maiores países da UE em convulsão, com a saída do Reino Unido do projeto comum, com uma Itália numa deriva de imensa incerteza, ser hoje otimista, na Europa, requer muita fé. Mas, no limite, teremos de concluir que a União Europeia é a única âncora disponível em termos dessa esperança.

sábado, 17 de agosto de 2019

O fim de um dilema


Nunca concluí, em definitivo, se era uma “fèzada” sem sentido ou se havia algo de realista naquela mania do meu pai. Todos os Verões, habituei-me a vê-lo, diariamente, durante quase um mês, a gargarejar com água do mar. Verdade seja que, tendo ele vivido quase até aos 100 anos, sem que alguma vez lhe tivesse pressentido o menor achaque na garganta, talvez devesse ter assentado em que a razão era bem capaz de estar do seu lado.

Essas abluções tinham lugar, em regra, nas nossas idas matinais à praia, para manifesto desagrado da minha mãe, que entendia aquela coreografia muito pouco elegante, mesmo se executada de forma discreta. Nos dias em que, sobre a nossa Viana das férias, caía nevoeiro ou alguma chuva, o “vício” tinha outro modo de se concretizar. O meu pai contratava um “moço de recados”, figuras muito típicas das cidades de província, que executavam tarefas a troco de “umas coroas”. 

O rapaz parecia que adivinhava, pelos humores do clima, os dias em que o meu pai não ia à praia e logo passava por casa da minha avó a perguntar se “o senhor Costa quer que lhe traga a água”. Uma garrafa vazia rolhada surgia então, acompanhada da recomendação estrita de que a recolha fosse feita num determinado local da Praia Norte, que o meu pai recomendara ao miúdo, como o lugar mais adequado para a “colheita”.

Da casa da minha avó à Praia Norte a distância era ainda considerável, agravada pela circunstância de essas deslocações serem feitas, precisamente, em dias em que o clima estava mais agreste. 

Um dia, teria eu uns oito ou nove anos, testemunhei a cena da entrega da garrafa por intermédio de uma empregada e logo vi o rapaz, que não teria mais de 15 anos, sair apressado a caminho da rua de Altamira. Instantes depois, contudo, vi-o infletir em direção à doca comercial. A suspeita criou-se-me: e se ele não fosse buscar a água à Praia Norte, como eu sabia que o meu pai sempre recomendara, e se limitasse a encher a garrafa na doca, onde toda a porcaria dos navios era despejada?

Segui-o à distância, tanto quanto a minha liberdade de movimentos fora de casa, com aquela idade, permitia. Passou a doca comercial (pronto, era um falso alarme!) e vi-o rumar à doca dos pescadores, que, à época, era bem mais batida pelo mar do que é hoje. E, claro, foi aí que ele “despachou” a encomenda, enchendo, num dos acessos de pedra, a garrafa com a água marítima que o meu pai iria usar para essa sua ritual higiene bucal. 

O líquido recolhido seria com certeza bem mais límpido do que o da doca comercial, mas incumensuravelmente mais poluído do que seria se acaso fosse recolhido na Praia Norte, ali entre os rochedos, para onde, em algumas tardes, eu era levado a “apanhar iodo”, terapia preventiva que os pediatras então aconselhavam. O rapaz poupava assim uns bons dois quilómetros, recebendo os trocos como se os tivesse feito.

Fiquei então dividido sobre o que fazer perante a descoberta do truque. Deveria avisar o meu pai, que ficaria bastante desiludido e, talvez, sem outras soluções imediatas para a recolha dessa sua ansiada água do mar? Ou escolher não dizer nada, confiando em que a água batida pelo mar, ali ao pé das traineiras, fosse, apesar de tudo, de uma qualidade aceitável? Optei então por esta última solução, talvez com íntima pena do rapaz, embora interrogando-me muito sobre se estava certo. 

Muitos anos mais tarde, em Vila Real, já no final da vida do meu pai, quando ele já deixara, há muito, de fazer os seus gargarejos marítimos, falou-me das comprovadas virtudes desse exercício passado, lembrando a ajuda do miúdo da Ribeira. Eu, um tanto cobardemente, calei-me sobre o que sabia daquela água, pelos vistos excelente.

Há minutos, ao olhar, da varanda do meu quarto do hotel, as rochas eternas da Praia Norte, ao vê-las surgir à tona, pelo fim da preia-mar, concluí que, afinal, talvez não me tivesse enganado no meu juízo: fiz bem em não ter avisado o meu pai, cuja otorrínica saúde, de facto, nunca sofreu com isso o menor abalo. E foi assim que desfiz, finalmente, o meu dilema.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Sejam possibilistas!



A ideologia liberal contemporânea tem colonizado por cá o pensamento económico. É hoje a matriz quase exclusiva do ensino universitário, em especial nas “business schools”, onde doutrinas divergentes são abordadas como meras curiosidades históricas, contrapontos risíveis face a esse novo normal. Sobram, claro, alguns que não se vergam ao papel absolutizante do mercado e ainda destacam a ação política que releva o papel do Estado. Mas esses são espécies “raras”, de um outro tempo. O pessoal da “mão invisível”, nos dias que correm, anda por aí nas suas sete quintas. Na teoria.

Um certo jornalismo económico também quase que desapareceu. É incomum ver alguém fornecer ao utente mediático chaves alternativas que permitam a este fazer, pela sua própria cabeça, uma leitura da realidade económica. É raríssimo ver um jornalista abordar uma decisão política, com implicação económica, com total equidistância face às diferentes razões que podem explicá-la. O que se observa são leituras assentes numa única perspetiva, diabolizantes do papel do Estado e críticas da sua dimensão, rejeitando modelos intervencionistas, tendo como ‘benchmark” fórmulas de matriz austeritária, de redução obsessiva dos défices, de desregulação e de fé infinita nas virtualidades do mercado. Quando os argumentos escasseiam, vão ao fundo da panela e repescam, sempre sem as detalhar, as tais “reformas estruturais”. Tudo tão previsível!

Os saudosos anos da “troika”, com as fórmulas mágicas que nos trariam um mundo de felicidade terrena, foi, para esse antigo jornalismo - hoje mera opinião, com o “eu” expresso ou subentendido no comentário que, às vezes, se disfarça de notícia -, uma espécie de “jardim do éden” perdido, que a aziaga realidade dos factos não permitiu levar à prática até ao fim (aqui concordo: seria o fim!). Esse pessoal sente-se hoje órfão do extremo rigor perdido lá por Bruxelas e considera laxista o “quantitative easing” do BCE, porque facilitou a vida ao governo que detesta.

Valha a verdade que certos setores económicos navegam nas mesmas águas, razão pela qual algum jornalismo económico (ainda não todo, felizmente) mais não é hoje do que o seu espelho impresso, às vezes por convicção, outras por servilismo. Com uma imensa diferença: na vida das empresas lida-se com a realidade, não com as palavras. 

O papaguear dos liberais do burgo pode até confortar as íntimas convicções de muitos, para quem deve ser cómodo ler colunistas e opinadores televisivos que lhes “dão razão”. Porém, há uma realidade com que, gostem eles ou não (e muito não gostam!), têm de conviver: quem representa politicamente essas ideias que lhes são caras não tem hoje, em Portugal, um suporte maioritário, na hora do voto. Por isso, no fim do dia, por muito que lhes custe (e custa!), estão a ter de aprender a viver com a Geringonça ou outro modelo similar. E, nos próximos quatro anos, devem já ter percebido que, muito provavelmente, e salvo imponderáveis, também não poderão contar com o presidente da República para colocar pauzinhos na engrenagem. Um azar nunca vem só, não é?

Estando muito longe de partilhar a santificação política do mercado, estou convicto de que há espaço para ir melhorando, com diálogo e sem roturas, a competitividade da nossa economia e a eficácia da máquina pública. Tenho para mim que os que tentam “partir a loiça” acabarão afinal por partir a cabeça, podendo sair feridos do exercício. Por isso, só posso recomendar uma atitude realista: a inteligente adoção do “possibilismo”. No passado, essa doutrina gradualista trouxe alguns socialistas à consciência pragmática daquilo que, de facto, era viável fazer, sem saltos radicais, aprendendo a operar sob as condições políticas da conjuntura. Nos dias portugueses de hoje, aconselho uma postura idêntica a quantos trabalham no universo privado. 

Quem vos atasse um arado!


Greve dos combustíveis? Então e o governo não faz nada? Ah! o governo fez? Ó diabo, não estará a atentar contra o direito à greve? Estará a greve mesmo a acabar? Espera aí, não terá sido tudo isto uma grande encenação do governo, para o país lhe ficar agradecido e ganhar votos em outubro? 

Apetece-me dizer, a uma certa gentinha da imprensa e da política, uma frase que se dizia lá na minha terra, mas só quando se queria não ser deselegante: quem vos atasse um arado!

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Contra o vento


Andar ao contrário dos outros é estranhamente cómodo. Hoje de manhã, era um corropio de gente para a praia, connosco a afastarmo-nos dela, dentro do ar condicionado, rumo a outros destinos. O ferry trazia a multidão própria de um feriado de agosto, que logo deixou vazio, quase só para nós, o barco que nos levaria para longe da península. A sala de refeições da pousada estava agradavelmente sem gente, com um serviço que parecia ser-nos dedicado, com pessoal conhecedor dos vinhos do Sado que nos apresentava para acompanhar as ameijoas. A autoestrada estava com pouco trânsito, mas com toda a gasolina necessária para ter já atestado o dia de amanhã. Entrava-se em Lisboa por uma ponte limpa de tráfego. Isso do nosso lado, claro: de Alcântara subiam para ela filas lentas e compactas, em direção às areias da Costa ou aos Algarves do costume. A Lisboa que me interessa está hoje, deliciosamente, sem trânsito, sem gente, confirmando, se necessário fosse, ser o melhor lugar do mundo para se viver. Isso sente-se, em especial, nos dias em que se ruma contra o vento, o qual, aliás, hoje quase que não sopra.

Na cave da vida



Houve um período da minha vida em que me deu para colecionar alguns êxitos de música “country”. Creio que tudo começou na Noruega, depois da frequência de uns shows manhosos onde isso também era tocado, numas caves fumarentas de Oslo, com muita cerveja e aquavit à mistura. Cheguei mesmo a pensar, por algum tempo, incluir Nashville nos meus destinos de visita futura.

Ao final de alguns anos, dei-me conta de que, com exceção de certos nomes mais clássicos, tudo aquilo resultava um pouco primário, repetitivo, em termos musicais, pelo que o meu gosto se foi esbatendo, embora sem desaparecer por completo. Sei, porém, que há muita gente que discorda desta avaliação.

Um dia de 1990, em Londres, vi pelo “Time Out” que a mais mítica figura da “country music” ia atuar na cidade. Ver ao vivo Johnny Cash era algo que eu não podia perder na minha vida. E, claro, não perdi.

O bilhete para o concerto foi, para minha surpresa, surpreendentemente barato. O espetáculo tinha lugar no, até então para mim desconhecido, “National Club”, em Kilburn, uma zona com forte presença de irlandeses, na parte norte de Londres. Recordo que me aconselharam a estacionar o carro num local bem iluminado...

À hora marcada, chegado ao local do concerto, percebi melhor a modesta tabela de preços. Entrámos numa sala de espetáculos antiga, apinhada, com a maioria dos espetadores vestidos “à maneira”, alguns com patuscos chapéus de “cowboy” e camisas de estilo, elas com coletes e saias com fitas de cabedal. Posso imaginar que nós, vestidos à “betos”, devemos ter passado por uma espécie de “ET”. 

Os nossos lugares foram no meio do que me pareceu ser um grande balcão, que recordo com mesas comuns, de vários lugares, para os quais aquele pessoal carreava “baldes” de cerveja quente. Nunca tinha estado, de forma tão isolada, num ambiente idêntico, confesso. Por entre a barulheira, íamos sorrindo para os nossos forçados vizinhos de mesa, todos com ar de se conhecerem entre si, e que, aos berros, perguntavam de onde vínhamos, de certo apenas com vontade de inquirir o que diabo estávamos ali a fazer, tão “fora do baralho” nós éramos.

A entrada de Johnny Cash em cena foi um delírio. Aquecido o ambiente com o clássico “Folson Prison Blues” e meia dúzia de outros êxitos, como seguramente o “Man in Black”, o cantor fez uma pausa e deixou em cena um trio de jovens de guitarra, as quais, logo aos primeiros acordes e mostra de vozes, se percebeu serem de muito fraca qualidade. 

Com justiça, a sala correspondeu, como esperado: uma imensa pateada e um sonoro coro de “uuuhs!” que logo obrigaram Cash a regressar momentaneamente à cena, saindo-se com este comentário esclarecedor: “Don’t panic! I’ll be back!”. 

Lá conseguiu, com isso, uma acalmia provisória nos protestos, mas o ambiente só se recompôs por completo quando, ao fim de uns minutos de um penoso e medíocre show das pequenas, ele regressou, final e definitivamente, ao palco, para o seu espetáculo. 

A noite acabou, claro, num imenso e merecido apogeu a Cash. Os seus melhores anos já tinham passado, mas a sua mística não diminuira. Por mim, considero que ganhei bem aquela noite! 

Lembrei-me disto há minutos, num “zapping” televisivo que, de novo, me trouxe Johnny Cash, numa memória nostálgica numa qualquer televisão estrangeira. 

Na minha coleção de 33 rotações (mais de 800!), creio que tenho bastantes discos de Cash, Loretta Lynn, Willie Nelson e outros nomes clássicos da “country music”. Que já decidi não voltar a ouvir. Está tudo numa cave, lá por Vila Real, ao lado de uns caixotes com milhares de livros. É uma espécie de cave da vida...

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O “malho”


Desde que me conheço que me vejo rodeado de dicionários. O meu pai, em Vila Real, tinha dicionários de tudo e mais alguma coisa, de diversos franceses do século XIX (do Gregoire e os Vapereau ao excelente "de la Politique", de Block) aos clássicos Cândido de Figueiredo e Torrinha, passando pelos Lellos (ilustrados ou não). No meio dessa inumerável coleção, havia lá por casa dicionários espanhóis, ingleses, muitos de tradução entre línguas (algumas que nunca falei) e outros cuja utilidade prática verdadeiramente nunca descortinei. 

Com toda a certeza por via dessa saudável influência, desde cedo que comecei a ter os meus próprios dicionários. Lembro-me que ganhei o meu primeiro "Porto Editora" num concurso de cruzadismo e que foi a (depois) minha mulher quem me ofereceu, há bem mais de 50 anos, um fac-simile do "Littré". Aprendi a andar com eles sempre à mão (até nos carros!), espalhados por todas as mesas onde trabalhei (e continuo a fazê-lo, porque ainda não acredito nos "on-line" e, muito menos, em alguns imbecis corretores ortográficos). 

Tenho dicionários um pouco de tudo: de verbos, de sinónimos, etimológicos, onomásticos, de provérbios e incontáveis volumes temáticos (muitos em inglês, francês e espanhol), para além dos óbvios Larousse e Michaelis. Trouxe, do Brasil, o Aurélio (o "Aurelião"), o Houaiss e, claro, o Caldas Aulete. Também tenho as dezenas de volumes da Encyclopaedia Britanica e a Luso-Brasileira (mas não a da Verbo, com que, desde sempre, embirro), com as respetivas atualizações (até que o bom-senso e a falta de espaço me levaram a parar). E tantos, tantos outros dicionários, enciclopédias e quejandos.

Mas toda esta conversa vem a propósito do "malho". Na minha família o "malho" designa os 12 volumes do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de António de Moraes Silva, na sua 10ª edição, que o meu pai assinara em fascículos durante mais de uma década. 

Desde miúdo que me habituei a consultá-lo, para ajudar o meu pai e o meu avô nos exercícios de palavras cruzadas, nas noites antigas, em que a televisão nos não monopolizava. Quando a dúvida se instalava sobre um determinado significado, o meu pai dizia, em jeito de desempate definitivo: "vamos ao malho". E eu, impante, encarregava-me com ardor dessa tarefa - de um modo que me levou mesmo a saber de cor (até hoje!) as palavras iniciais e finais de cada um dos volumes, inscritas nas lombadas. O "malho*", na sua bela encadernação de couro com ferros dourados, continua a ser o dicionário-rei da minha casa, por mais novos dicionários de língua portuguesa que por aí apareçam - mas que eu não deixo nunca de comprar, sempre...

Mas o (agora) meu "malho" remete para uma historieta curiosa. O meu pai havia mandado encadernar os primeiros seis volumes do "malho" ao sr. Morais (homónimo do autor do dicionário), um dos escassos (mas o melhor dos) encadernadores de Vila Real. Saíu "obra asseada", porque o artesão era excelente, embora um tanto lento.

Uns anos mais tarde, acabada que foi a publicação da totalidade dos fascículos, o meu pai informou o sr. Morais de que estavam prontos para ser encadernados os restantes seis volumes. E aí surgiu uma surpresa desagradável: o homem disse que já não se dedicava a trabalhos tão elaborados, que há muito que havia deixado de utilizar os "ferros" da anterior encadernação e, pedindo embora muita desculpa, informou que não podia levar a cabo a tarefa. O meu pai ficou desolado. Que poderia fazer? A obra ficaria incompleta e não conhecia ninguém capaz de substituir o Morais. Estávamos nos anos 60 e recordo bem do desgosto com que o meu pai falava do assunto em casa.

Na tertúlia diária da Pastelaria Gomes, curiosamente a escassos metros da (então) loja do sr. Morais, o meu pai contou um dia o seu problema a um grupo de amigos. Desse cenáculo fazia parte o comandante da PSP de Vila Real, que logo se prontificou a ajudar: "Não se preocupe. O meu amigo vem comigo ao Morais e o assunto resolve-se já". E lá partiram, o meu pai e o comandante da PSP, rumo ao encadernador. 

A cena que se segue é edificante e bem reveladora dos tempos de então:

- Ó Morais, então o meu amigo não quer acabar a obra que começou?

- Sabe, senhor comandante, já me deixei desses trabalhos mais pesados. Agora estou mais nas revistas e nas encadernações simples.

- Essa agora! Ao iniciar uma obra, um profissional compromete-se a acabá-la. Isso é uma falta grave, ó Morais. Olhe que pode vir a ter problemas...

E, perante o espanto (e o deliciado constrangimento) do meu pai, e graças a este método de (pouco subliminar) convicção, o Morais lá acedeu a acabar o trabalho. Dizia-me o meu pai que ele acabou por se vingar... no preço. Mas o "malho" ficou completo.

(* E na pag. 422 do VI volume, lá está a definição de "malho" como"coisa certa, infalível".)