quarta-feira, maio 31, 2023

"Crónicas de Lisboa"


Na quarta-feira da semana passada, às seis e meia da tarde, cheguei à Brasileira do Chiado, para assistir à apresentação deste livro de Ferreira Fernandes e de Nuno Saraiva. Era cedo demais: o lançamento foi só hoje, com palavras prévias de Manuel Serrão. E lá estive. Prometo que vou tentar não voltar para a semana. Ah! É um belíssimo livro, aviso!

"À suivre..."


Uma notícia curiosa: um jornal informa que alguns gestores da empresa que é sua proprietária têm a intenção de apresentar ao acionista dessa mesma empresa (mas ainda não o fizeram) uma proposta para a aquisição da mesma. "À suivre", como na banda desenhada...

terça-feira, maio 30, 2023

O patife


Tive um grande prazer em ter sido convidado a apresentar, hoje, no Instituto Universitário Militar, o livro do general Francisco Cabral Couto, "O Fim do Estado Português da Índia - Um Testemunho da Invasão". 

O autor serviu no Exército que estava em Goa, foi preso durante seis meses pelas forças indianas e, como muitos outros militares portugueses, foi menos bem tratado pelo regime, depois do seu regresso a Portugal. A sua magnífica carreira militar posterior terá compensado o tempo traumático em Goa, que, com grande rigor, deixou por escrito.

Na apresentação que fiz, procurei contextualizar a invasão indiana de Goa nesse "annus horribilis" que 1961 foi para a ditadura portuguesa, quer no plano interno, quer no quadro internacional.

Destaquei, em particular, o cinismo do ditador, o qual, não obstante ter a plena consciência de que os meios militares ao dispor das Forças Armadas portuguesas que estavam em Goa eram, em absoluto, insuficientes para deter um qualquer ataque, não hesitou em enviar ao governador instruções que incluiam esta sinistra frase: "Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses, como não haverá navios rendidos, pois sinto que apenas pode haver soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos". 

Na resposta, o governador e comandante-chefe destacou "a desproporção das forças em presença, a fragilidade do dispositivo de defesa e a exiguidade dos meios em pessoal e material postos á nossa disposição".

Francisco Cabral Couto destacou, na ocasião, alguns aspetos do seu texto e, hesitando na escolha do vocábulo, com a contenção própria do militar de honra que sempre foi, concluiu a sua curta intervenção dizendo: "Salazar foi um patife!" E foi mesmo.

segunda-feira, maio 29, 2023

O impedimento


Hoje, estive na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, a apresentar uma comunicação num congresso sobre Ciência Política e Relações Internacionais. E recordei a primeira vez que lá não fui. Eu explico.

Foi em inícios de 1996. O reitor da recém-criada Universidade Fernando Pessoa, professor Salvato Trigo, tinha-me convidado para abrir um evento, na minha então qualidade de secretário de Estado. Achei dever corresponder positivamente a esse gesto dessa nova instituição de ensino superior privado. Fixou-se a data e a minha visita foi anunciada na imprensa.

Foi então que tudo se complicou. Recebi um telefonema do meu colega de governo que tinha a seu cargo o ensino superior, o qual, alarmado, me disse: "Peço-te que não vás! O processo de legalização definitiva da Universidade está ainda em curso e vai demorar ainda alguns meses. Se acaso um membro do governo vier a surgir publicamente num evento da universidade isso acaba por funcionar como um reconhecimento oficial implícito. Seria muito desagradável!" E lá tive eu de inventar um pretexto para me furtar ao compromisso que tinha assumido.

Porque o tempo tudo cura, contei entretanto a história ao professor Salvato Trigo e ambos rimos sobre esse episódio. Só nessa altura ele ficou a saber o verdadeiro motivo do meu impedimento de então. Ilustro o post com um belo painel que figura no pátio central da universidade. Onde hoje tive imenso gosto de intervir.

domingo, maio 28, 2023

"O que os portugueses querem..."

Acho natural que um membro do governo se recuse a responder a uma pergunta de um jornalista. A ideia de que um jornalista representa a "voz do povo" é um demagógica falácia. Mas "passo-me" quando o governante, para fugir à questão, diz: "O que os portugueses querem saber é...".

Palavra

"Por que é que estavas a falar, há minutos, dos estúdios do Porto da CNN?", perguntou-me, agora mesmo, um amigo. "Ora essa! Já viste o inferno que está o trânsito para Queluz de Baixo?". Acreditem que ainda houve uns segundos de silêncio.

O partido das maiorias

Mariana Mortágua fez um forte discurso contra a maioria absoluta. Curiosamente, foi com o voto do BE que foi aberto o caminho a duas maiorias absolutas: uma dada à direita, em 2011, e outra oferecida ao PS, uma década depois. A continuar assim, o BE será sempre uma minoria absoluta.

No 28 de Maio

Há um mito, na política portuguesa contemporânea, de que uma determinada pessoa foi convidada por engano para um cargo ministerial, por ter um nome idêntico ao de alguém que era o verdadeiro destinatário do convite. Já está mais do que provado que essa historieta não tem pés para andar, mas, no entanto, tenho-a visto repetida como se fosse verdadeira. Talvez por ter graça...

A propósito da data de hoje, 28 de Maio, dia do funesto golpe militar, em 1926, conta-se que o general Gomes da Costa, depois de se ter desembaraçado dos seus colegas de conspiração, e pouco tempo antes de, ele próprio, ser posto com dono, recebeu os seus novos ministros. Ao cumprimentar aquele que ia ser o primeiro ministro da Saúde da ditadura militar, ter-lhe-á dito: "Tinha ideia de si como uma pessoa mais velha". O novo governante terá respondido: "Deve estar a confundir-me com o meu pai". E lá foi ele tratar da Saúde aos portugueses...

Os velhos turcos

No início da disputa presidencial na Turquia, dei comigo a perguntar, em voz alta, na CNN Portugal, se valia mesmo a pena decorar o nome, difícil de pronunciar, do líder oposicionista turco. Acabei por fazê-lo. O velho político regressa agora a casa.

A vida e o cinema


A CP passa no Alfa Pendular filmes belíssimos sobre a empresa, com funcionários sorridentes (presume-se não serem os grevistas), tudo com um ar "clean", eficiente e agradável. Pena é que a vida por lá não seja "como nos filmes"...

Com a cabeça na lua

Há semanas, numa conversa telefónica, veio à baila a célebre noite de 1969, em que, por todo o mundo, muitos madrugaram para conseguir ver, no nosso caso na televisão a-preto-e-branco, com o Mensurado a relatar, a chegada do primeiro homem à lua.

Explicava eu à pessoa com quem falava que, estranhamente, esse não havia sido o meu caso: tinha um exame de Sociologia no dia seguinte e, com uma disciplina de comportamento em que, nos dias de hoje, me não reconheço, tinha-me ido deitar cedo, depois de reler a muito sublinhada sebenta do professor José Júlio Gonçalves.

Foi então que ouvi, desse amigo quase da minha idade, com formação superior, sem a menor ponta de ironia, porque ele é assim, permanentemente dado às mais sofisticadas (se o termo se pode usar nesse contexto) teorias a conspiração: "Não perdeste nada, como sabes. Aquilo foi tudo montado em estúdio, para mostrar uma suposta superioridade tecnológica americana, em tempo de Guerra Fria. E a patranha pegou, para muitos, até hoje."

Creio que, na passada, lhe perguntei o nome da ilha onde vivem o Michael Jackson e o Elvis Presley. Ah! Esse amigo é um fiel seguidor político de um líder que ele trata sempre por “André”. E está ansioso pelo regresso de Trump, a quem o Biden "roubou" as eleições, é claro!

A vida, sem esta diversidade de gentes, não tinha graça nenhuma.

sábado, maio 27, 2023

Pela Europa


Uma bela manhã de análise das grandes questões europeias, num mano-a-mano com Paulo Sande, a convite da JSD de Setúbal.

O abraço do leão


O Benfica ganhou o "campeonato". Parabéns aos meus muitos amigos benfiquistas. O leão, lá do alto da estátua, representa-me no Marquês.

Multilateralismo


Na passada quarta-feira, na Universidade Autónoma de Lisboa, dei uma aula sobre Multilateralismo. Foi mais de uma hora e meia, com um grupo de alunos interessados e interventivos. Se a professora Sónia Sénica não tivesse colocado um ponto final ao debate, aquilo tinha-se prolongado sabe-se lá até quando!

Demos uma "volta ao mundo" das organizações multilaterais, da sua origem, história e desenvolvimento, em especial ao longo do século XX - o século de consagração do multilateralismo. Falámos das diferenças entre as diplomacias bilateral e multilateral, dos métodos de trabalho diversos para operar em cada uma. E discutimos muito o que foi a aculturação portuguesa ao mundo multilateral, desde as reticências da ditadura à "explosão" da nossa ação externa nesse domínio, no pós 25 de Abril. E falámos, claro, dos problemas que o multilateralismo atravessa, com a ONU no centro dessa crise.

Comecei a aula perguntando aos alunos se já tinham mandado uma carta pelo correio, para o estrangeiro. E se, ao pagarem o selo no ato do envio da carta, acaso se tinham perguntado por que motivo alguém se iria dar ao ao trabalho, no destino, de ir entregar a carta ao endereço indicado. Com certeza, esse serviço tinha de ser pago, o que significava que parte do custo do selo tinha de ser entregue ao serviço dos correios desse país. Uma coisa óbvia. Da mesma forma que entendemos natural que, ao colocarmos o endereço, escrevamos o nome do destinatário, depois a artéria, a cidade (mais modernamente, o código postal) e o país. Quem "combinou" que isso fosse assim? Como é tudo começou? Como é que os países se organizaram, entre si, para que tudo funcione, em termos de respeitada reciprocidade?

Foi por causa de tudo isto que, em 1878, foi criada a União Postal Universal, a primeira estrutura institucional multilateral de vocação global. A diplomacia é feita destas pequenas grandes coisas bem úteis ao mundo.

sexta-feira, maio 26, 2023

De Polichinelo


Vou contar um segredo de Polichinelo, que muito jornalista e político sabe, mas que a generalidade do público desconhece. Tem a ver com cerimónias, comícios ou discursos públicos, quando cobertos, em direto, pelas televisões.

A certa altura da sua arenga, quem está a falar para um público restrito recebe um sinal, por parte de uma pessoa da sua assessoria em comunicação social, informando-o de que, a partir desse momento, o que estiver a dizer deixa de ser ouvido apenas por quem está na sala e passa a sê-lo por centenas de milhares de espetadores.

Quase sempre, a partir desse instante, com mais ou menos jeito, o orador muda, subtilmente, de tom. Ele tem guardadas, precisamente para esse auditório exponencialmente alargado, as suas principais mensagens, os "bon mots", os ditos que quer que fiquem na cabeça das pessoas, por todo o país.

Hoje à tarde, por um mero acaso, liguei uma televisão. Fizeram, nesse instante, uma ligação a uma cerimónia onde falava o presidente da República, um evento com empresários.

Voltei-me para a pessoa que estava ao meu lado e disse: "Está atenta. Daqui a muito pouco, o presidente, fingindo que é a propósito daquilo em que está a intervir, vai dizer uma frase que, deliberadamente, ele quer que venha a ser interpretada num contexto mais vasto, aplicando-se à atualidade política". A pessoa não pareceu acreditar, até que ouviu.

Não passou um minuto e Marcelo Rebelo de Sousa, dando ares de que falava da vida dos empresários, lançou a frase de que, minutos depois, todo o país falava: "Quando o poder entra em descolagem em relação ao povo, não é o povo que muda, é o poder que muda".

Haver, há!


Há dias com um tempo mais simpático para passar um fim de semana em Palmela? Há. Mas só há este fim de semana para ser passado em Palmela. É a vida! 

Ferro Rodrigues no "Público"


Eduardo Ferro Rodrigues assina hoje, no "Público", um excelente artigo, onde, em especial, chama à responsabilidade e apela ao sentido de Estado de quem detém os meios de evitar uma crise política que, no seu entender, poderia afetar fortemente o regime democrático.

Olhando a árvore, porque a rama dá sempre mais jeito para alimentar a fogueira da polémica, o on-line do jornal ignora a floresta e, esquecendo o essencial, detém-se apenas sobre um pormenor do artigo - o episódio da dissolução da Assembleia da República em 2021 - embora, aparentemente, não entendendo o sentido que o autor quis dar-lhe, ao chamá-lo para o atual contexto.

E, para "orientar" o leitor preguiçoso, que se fique pelas "gordas" e não queira ler o texto todo, a edição em papel do "Público" faz um destaque enganador, na citação e na fotografia "grave", como se o único destinatário dos "recados" fosse António Costa. Irra!

Não costumo publicar aqui textos "fechados" (e eu pago a minha assinatura do "Público"). Mas, desta vez, o jornal merece que não se respeitem os seus direitos e se apele a que, no futuro, execute um jornalismo mais responsável.

E, já agora, quero dizer que lamento muito que uma figura com a experiência política e o estatuto institucional de Eduardo Ferro Rodrigues, que este texto bem revela, não tenha assento no Conselho de Estado. A sua voz poderia fazer a diferença, neste tempo de grande exigência democrática. 

quarta-feira, maio 24, 2023

Outra coisa


Acabei a aula na universidade, meti-me no carro pelo trânsito infernal da tarde de Lisboa, consegui um lugar no estacionamento, aproveitei uma aberta no meu barbeiro no Grémio ("estavas com um cabelame de lado que precisava de uma aparadela", tinha-me dito alguém que me viu na CNN) e, com calma, entre turistas que olhavam aquele espécimen fardado de casaco e gravata, subi o Chiado até à Brasileira. 

Entrei, passavam já uns bons minutos das seis e meia, a sala estava à pinha. Ao fundo, havia uma senhora a falar ao microfone. Graças à gentileza de uma cliente, consegui o último lugar de todo o espaço, na sua mesa. Com a sede dos afogueados, pedi uma imperial e, olhando a opção da minha companheira de pouso, e sem mais imaginação, mandei vir um "éclair" de chocolate (tardes não são dias e a minha glicose anda controlada). Ela sorriu, por eu lhe seguir o bom gosto.

A pessoa que, lá ao fundo, falava, dizia coisas sobre Natália Correia. Estranhei, mas só um bocadinho. Por entre as cabeças, tentei descortinar o inconfundível cabelo da Catarina Carvalho, que me convidara para a sessão. Sem êxito. De um dos autores do livro cujo lançamento ali me levava, o José Ferreira Fernandes, nem rasto. Quase não parecia ali haver nenhum homem! Era um mar de mulheres! Atentei então melhor no que era dito pela senhora que usava da palavra: falava sobre os motivos da sua decisão de escrever uma biografia sobre Natália Correia! 

Ó diabo! Agarrei no iPad, escrevi no tio Google "Ferreira Fernandes" e "Brasileira", na última semana, e lá estava, claro como a água: o lançamento do livro era na Brasileira, às seis e meia da tarde, na quarta-feira... dia 31 de maio, daqui a uma semana!

Acabei a cerveja e o "éclair", pedi a conta à empregada e desculpa à senhora do lado, e saí de fininho. Não é que me não interesse uma biografia da Natália Correia! Antes pelo contrário! Mas, hoje, eu ia ali por outra coisa. E uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. 

ps - a Catarina e o Zé que me desculpem se, lá para o fim do mês, não estiver na Brasileira. Já estive!

Depois, queixem-se!

O justicialismo paranóico, imagem de marca de muita da comunicação social portuguesa - que alegremente junta, no mesmo caldeirão, rumores, suspeitas, meias-verdades e raramente factos provados -, é pasto fácil para um populismo que pode vir a destruir o regime democrático.

terça-feira, maio 23, 2023

Reverar?

Utilizei num texto, neste blogue, o verbo "reverar", no sentido de "ter profundo respeito por". Já não era a primeira vez que usava o termo. Há anos que, em artigos e textos vários, embora sem grande frequência, "reverar" faz parte integrante da minha escrita. Ao reler este último post, surgiu-me a dúvida: o vocábulo "reverar" teria mais algum significado, além daquele que eu lhe dava? Decidi ir a um dicionário: o verbo não constava. Fui ver a outros: idem. Sem querer, desde há anos, utilizo com regularidade uma palavra, um verbo, que, afinal, não existe. E agora, que faço? Continuo a usar "reverar"?

segunda-feira, maio 22, 2023

Os 25 anos da Expo


Leio agora isto, em especial o último parágrafo, e, pondo-me no lugar do leitor, dei comigo a reagir: "Este tipo foi 10 vezes à Expo? É um "Expo-dependente", como António Costa, Mariano Gago e Manuel Maria Carrilho?". 

Ora eu, na realidade, só fui à Expo, como visitante, um único dia. Estas 10 vezes que vêm hoje referidas nas notícias representaram o acolhimento que me coube fazer a 10 ministros ou dignitários de outros tantos países, no respetivo dia nacional, com a cena dos hinos e do hastear das bandeiras, passagem ao filme de apresentação (que já sabia de cor) no Pavilhão de Portugal, com a Simoneta da Luz Afonso a ter de repetir a sua explicação, subida ao primeiro andar, um Porto ou um Madeira branco (eu pedia sempre um Douro tinto), ida para a mesa, débito de um discurso inventado sobre o país em causa e sobre a conhecida "excelência" das nossas relações bilaterais, seguido do ritual almoço "ex officio". Depois, ala que se faz tarde para o trabalho, porque ninguém o fazia por mim.

Foi uma belíssima realização, saída da genialidade de António Mega Ferreira e Vasco Graça Moura, com o apoio de Cavaco Silva e o empenhamento de António Guterres. O país gostou, os estrangeiros também, os erros de Sevilha foram evitados e lá está hoje o Parque das Nações, nome saído de um conselho de ministros, já no final da Expo, a que, por acaso, estive presente e no qual tive a ousadia de propor, com o resultado que se viu, o nome de "Parque do Oriente", por algumas razões que então adiantei, quando mais não fosse, para homenagear o estimável Clube Oriental de Lisboa...

Caldas


... e no dia 16.3.74, um grupo de oficiais, de obediência spinolista, tomou de assalto este quartel e tentou uma insurreição, que saiu gorada. Alguns foram detidos e isso grangeou-lhes esporas junto do "movimento dos capitães". Em 28.9.74 e, em especial, em 11.3.75, perdê-las-iam.

Sporting

Ser do Sporting é sê-lo num dia como o de hoje. Sporting sempre!

Ainda Cavaco

Pense-se o que se pensar sobre o conteúdo, a forma e a oportunidade do discurso de Cavaco Silva - e se fica bem a um antigo chefe de Estado, na plenitude das suas capacidades, agir daquela forma - nem por um segundo acho que Cavaco tenha pisado alguma linha vermelha da democracia.

domingo, maio 21, 2023

Estaline

 


Estaline é uma personagem histórica altamente controversa, "to say the least". A sua crueldade ultrapassou as raias do imaginável, as mortandades que a sua paranóia provocou anularam, para a grande maioria das pessoas, o sentido patriótico da liderança que protagonizou na União Soviética, em face da invasão da Alemanha nazi. 

Escrevo "grande maioria" porque, na Rússia, e até na sua Geórgia natal, encontrei quem reverenciasse a sua memória. E, nas vezes que passei na Praça Vermelha, em Moscovo, junto ao seu discreto túmulo, muito perto do edifício monumental onde está depositado Lenine, nunca ali vi faltarem flores. 

Mesmo em Portugal, como já em tempos aqui relatei, ainda há militantes comunistas que se recusam a entrar no coro da diabolização do "Zé dos Bigodes", como era carinhosamente tratado em outros tempos. Há gostos para tudo e, felizmente, em democracia, quem quiser pode revelá-los, por muito que outros se escandalizem!

Ontem, nas Caldas da Rainha, descobri, numa loja, este boneco, muito bem construído, representando Estaline. Comprei-a e vou oferecê-lo, logo que encontre um portador, a um velho amigo brasileiro que um dia, na cidade do México, ao visitar a casa de Trotsky e ao ouvir, da boca do guia, que ele tinha sido "assassinado" a mando de Estaline, reagiu, indignado: "Assassinado não! Justiciado!"

Imagino que alguns leitores achem que, por vezes, brinco demasiado com coisas muito sérias. Estão enganados: não é só por vezes!

A Oeste algo de novo

Aqui deixo quatro brevíssimas notas sobre outras tantas incursões restaurativas no Oeste, no fim de semana que agora termina.


ADEGA DO ALBERTINO (Caldas da Rainha). Nos arredores da cidade, uma casa de sólida cozinha tradicional portuguesa, que ali está há mais de 30 anos de bons serviços. Lista muito completa, pelas mãos da dona Fátima e pela direção de sala de Albertino Catarino. Serviço atento e profissional, cozinha de qualidade. Estacionamento fácil.


CAIS DO PARQUE (Caldas da Rainha). No Parque Dom Carlos (os caldenses acrescentam "primeiro", como se tivesse havido ou venha a haver um outro...), num pavilhão que é quase idêntico ao do Límia Parque, em Viana do Castelo, nasceu há, não muito tempo, um restaurante que começou por comida asiática e hoje tem outras boas opções, em que a carne, em doses dimensionadas, é uma oferta pouco comum. Sente-se por ali, na qualidade e apresentação, uma mão hábil de chefe, que nos fez apreciar bastante esta primeira experiência. Lista de vinhos com preços muito honestos, o que começa a ser raro. O serviço ganhava em ser um pouco menos "casual arrogant". Estacionamento difícil; use o parque do centro comercial por detrás do hotel.


TRIBECA (Serra d'El Rei). Os leitores já devem estar cansados de me ler a dizer bem desta "brasserie", onde aporto muitas vezes, por ficar a dois passos da A8. Imagino que alguns devam mesmo pensar que recebo uma comissão! Mas o que hei-de fazer? Ontem, uma vez mais, comi lá muito bem. Eu e uma montanha de estrangeiros que já sabe da poda e enche a casa! Estacionamento fácil.


TASCA DO JOEL (Peniche). Fica na costa sul da cidade, que é preciso atravessar para lá chegar. O peixe é ali rei, mas não reina sozinho. Hoje, por exemplo, era dia de cozido à portuguesa. Umas ameijoas com que se abriram as hostilidades, que a casa qualifica de XL, estavam excelentes. Como esteve tudo o resto que se comeu. Preços razoáveis para a boa qualidade. Serviço conhecedor e atento. Estacionamento fácil.

O Oeste recomenda-se!

Brasil

O que terá ocorrido, na realidade, que levou ao desencontro de Lula com Zelensky, em Hiroxima? E como fica o Brasil nas suas ambições de ser promotor de um processo de paz para a guerra na Ucrânia?

Cavaco

Cavaco Silva não se resigna com a circunstância de persistir, na memória da direita, o facto de que foi ele quem deu posse à Geringonça. E como ninguém surge a defendê-lo, aparece ele, cavalgando a frustração do PSD, lembrando subliminarmente tempos passados em que o futuro do partido era, em geral, bem melhor.

sábado, maio 20, 2023

Confissões de viajante


A compulsão é imensa e creio que eterna. Perante as estantes cheias de livros, deixados pelos hóspedes nos hotéis em que me alojo, a minha vontade de surripiar um ou dois é constante. Uma vez mais, contive-me, o que também foi ajudado pelo facto de o que estava impresso em línguas de gente ser inaproveitável. Para o futuro, descobri uma solução: vou passar a trazer de casa uns monos, fazendo as trocas com a consciência mais tranquila.

sexta-feira, maio 19, 2023

Expressamente

Reitero, "avant la lettre", a minha indignação: o "Expresso da Meia-Noite", que aí vem dentro de minutos, promete ser o habitual espetáculo de subserviência ao governo, de bajulação a Costa & Galamba. A SIC e o "Expresso", nos dias de hoje, são o outro nome do "Ação Socialista".

Leon, mostra a tua raça

Deve ser confortável para o Bloco de Esquerda ter um seu antigo assessor no centro de um furacão político, que coloca uma imensa rasteira ao PS pós (e espera-se que não pré) PNS. Quem conhece o trotskismo sabe o que é o "entrismo", não sabe?

Um escândalo, é o que é!

Surpreende-me, com franqueza, o modo lambe-botas como as nossas televisões passam o tempo a defender Galamba e o governo, só escolhendo comentadores que lhe são favoráveis, não ecoando nunca a voz das oposições. É a mordaça, é a nova censura! Saia um novo 25 de Abril, já!

Perguntei à Inteligência Artificial

 


Belém

Pronto, já posso sair calmamente para o meu fim de semana gastronómico no Oeste. Em Belém, além do regresso do Belenenses à divisão principal, não se vai passar nada. Quem é que manda o "Expresso" sair à sexta?

Vadim


Ao final da tarde de quarta-feira, na Gulbenkian, ouvi o escritor Giuliano de Empoli fazer uma apresentação do seu badalado livro "O Mago do Kremlin" (já agora, vale bem a pena lê-lo!). Dá pelo nome de Vadim a personagem ficcional que, na trama, surge como o conselheiro de Putin. 

E isso trouxe-me à memória um outro Vadim, também russo, que, em outros e distantes tempos, cruzei na vida diplomática.

Foi no início dos anos 80 do século passado, em Luanda. A Guerra Fria estava no seu esplendor. Angola era uma das suas frentes ativas. Soviéticos e cubanos, com muita gente de vários países socialistas do Leste europeu, acolitavam o governo angolano na sua luta política e, em especial, na guerra civil contra as tropas da UNITA. 

Portugal era então visto, por Luanda, como um país com uma atitude algo hostil, por permitir a livre movimentação em Lisboa dos adversários do regime do MPLA. Na narrativa local, o nosso país surgia como aparentemente solidário com o satã americano que, ao lado dos sul-africanos, era objeto prioritário da diabolização da propaganda oficial. Não era muito fácil, naqueles tempos, ser por ali diplomata português, como era o meu caso. Mas tinha alguma graça.

Um dia, o nosso embaixador, António Pinto da França, deu-nos conta de ter sido aproximado, numa receção oficial, por um diplomata da União Soviética. Não era uma abordagem com conteúdo substantivo, como o seria se feita pelo embaixador de Moscovo, seu contraparte, hipótese que teria um inevitável significado político e que conviria interpretar de imediato. Naquele caso, fora apenas um funcionário de "ranking" intermédio. 

A troca de palavras, disse-nos o nosso embaixador, tinha sido o mais social possível, sobre generalidades, sol e praia. E era mesmo da praia do Mussulo que tinham falado. O diplomata soviético iria, como que por acaso, coincidir connosco, no domingo seguinte, nessa praia. Aí dispúnhamos de uma minúscula casa de apoio - modernizada pelo bolso dos diplomatas portugueses - onde, regularmente, nos reuníamos com amigos. E o embaixador convidou o diplomata soviético para ir lá beber um copo, trazendo a sua família. 

O António Pinto da França era assim, desconcertante e "fora da caixa", com conhecimentos improváveis, transmitindo naturalidade a coisas que outros poderiam ler de forma menos linear. Trabalhar com ele era um constante e divertido "happening"! Que saudades!

E lá veio o soviético, que por acaso era russo, com a mulher e dois filhos pequenos. Chamava-se Vadim Mortin. Revelou-se um tipo divertido e expansivo. Falava um português macarrónico, como acontecia com muita gente desse mundo "de Leste", que pululava à volta dos países "do Sul", que Moscovo procurava cultivar, num proselitismo estratégico muito óbvio, na compita bipolar com Washington.

Nenhum de nós tinha dúvidas de que o Vadim estava longe de ser um diplomata típico. As principais embaixadas dos países do "socialismo real" tinham, quase sempre, umas figuras soltas, que não faziam parte do topo da sua lista diplomática mas que, curiosamente, se movimentavam com inusitada facilidade junto dos colegas estrangeiros e das entidades locais. Pertenciam, como era óbvio, aos respetivos serviços de informação. Só isso justificava que, em flagrante contraste com os restantes colegas, tivessem uma grande liberdade para este tipo de contactos. Conheci alguns. Vadim era, claramente, um de eles.

Eu era então o mais novo diplomata da nossa embaixada, embora já a caminho de uma década de profissão. Lembro-me de ter provocado o Vadim, desde o primeiro momento em que nos conhecemos, com os relatos anedóticos das minhas, não muito distantes no tempo, incursões turísticas pelo mundo do centro e leste europeu, nomeadamente pela sua União Soviética. Ao ter-lhe contado episódios, alguns caricatos, de viagens que fizera por Berlim-Leste, Praga, Budapeste, Moscovo, Leninegrado (o nome de São Petersburgo não tinha ainda chegado) e até pela então ucraniana Crimeia, vi surgir nele uma imensa curiosidade. Como, à época, eu cultivava uma volumosa coleção de livros sobre serviços secretos (que hoje repousa, para quem nisso estiver interessado, na Biblioteca Municipal de Vila Real), tinha matéria para falar de alguns pormenores que deixaram o tal Vadim perplexo.

Acho que ele deve ter-se perguntado: será que este tipo disfarça mas, lá mo fundo, é próximo de "nós"? Ou é das secretas "deles"? Como, na altura, ele soube que parte importante do meu trabalho na embaixada era o acompanhamento das movimentações militares no território angolano, o soviético tomou-me rapidamente como interlocutor.

O Vadim bebia muito, como ficou evidente nessa  como em várias ocasiões posteriores. E tentava que os outros bebessem com ele, com o óbvio objetivo de os fazer baixar a guarda. Como acontece com este género de profissionais das informações, apenas vivia para reportar, praticamente não dava opiniões nem observava factos, só fazia perguntas. Tentava apurar o que sabíamos e, sem surpresas, que fontes tínhamos. Criar-lhe falsas pistas passou a ser um exercício divertido. As patranhas que lhe impingi!

Com o tempo, e perante a obsessiva repetição das conversas, que se convertiam em enfadonhos inquéritos da sua parte, creio que todos nós, lá na embaixada, a começar no embaixador Pinto da França e a acabar em mim, nos fomos cansando do Vadim, o "nosso" soviético de estimação. Ele terá percebido isso, a nossa retração crescente e, se bem me lembro, foi deixando de aparecer, talvez concluindo que nada de interessante dali levava. E terá deduzido, e bem, que, de "vermelhos", nós só tínhamos lá por casa os rótulos da Stolichnaya, a bela vodka russa.

Há poucas horas, ao final da quinta-feira, regressei à Gulbenkian. Desta vez, para ouvir a 11ª sinfonia de Shostakovitch. Tão russo como a Stolichnaya. Chegado a casa, mandando às malvas as sanções de Bruxelas, bebi um cálice daquela excelente vodka, à memória do passado e de saudação ao futuro. Nazdarovya!

Transparência

A PGR informou que o inquérito sobre os incidentes no Ministério das Infraestruturas se encontra "em segredo de justiça". Ainda bem! Isso é uma garantia de que, daqui a dias, vai saber-se tudo...

quinta-feira, maio 18, 2023

"A Arte da Guerra"


As eleições presidenciais na Turquia, as próximas eleições legislativas na Grécia e o novo périplo diplomático de Zelensky são os três temas do "A Arte da Guerra" desta semana, a conversa com o jornalista António Freitas de Sousa, no podcast internacional para o "Jornal Económico', que pode ver aqui.

quarta-feira, maio 17, 2023

"Guetto" de Varsóvia


Nas instalações da Casa da Imprensa (o edifício está "um brinco"!), ao final da manhã de hoje, participei numa conversa sobre o octogésimo aniversário da revolta no "guetto" de Varsóvia, tema de uma exposição exibida no local, organizada por um coletivo integrado por João Soares, Manuela Rego e José Manuel Saraiva, entre outros. 

Esse grupo tinha já sido responsável pela exposição sobre a passagem por Lisboa de Jean Moulin, resistente francês assassinado pelos nazis, exibida há uns meses. De ambas as exposições resultaram belos catálogos.

Na conversa, que foi moderada pela subdiretora do "Diário de Notícias", Joana Petiz, estive com dois historiadores - Irene Pimentel e Rui Tavares - e uma especialista na temática judaica - Esther Mucznik.

Pela minha parte, falei especialmente da diferenciada memória da Segunda Guerra mundial na Europa e do modo como, em Portugal, o tema judaico foi sendo oficialmente tratado, quer na ditadura, quer em democracia.

Foi uma bela conversa. Para quem nela esteja interessado, avisarei quando for para o ar.

Quem quiser ver a exposição, tem de se apressar: encerra a 19 de maio.

Bar aberto

Tive um problema com uma reserva na TAP. Pelo andar da carruagem, ainda vou conseguir que o assunto vá à comissão parlamentar de inquérito.

terça-feira, maio 16, 2023

Lições do Sul

Não vai acontecer, infelizmente, mas teria imensa graça ser uma iniciativa "do Sul" a desenhar o caminho negocial para pôr fim a uma guerra na Europa. Na Europa, que quase sempre afivela uma tradicional sobranceria, tentando dar lições ao mundo "em vias de desenvolvimento".

Eutanásia

A maioria dos meus amigos regozija-se com a aprovação da autorização da eutanásia. Percebo perfeitamente as suas razões e só espero que haja totais garantias de que o sistema está "blindado" a "abus de faiblesse" (não conheço a expressão equivalente em português).

Curiosidade

Uma curiosidade que tenho - não sendo especialista em armamento - é saber se os mísseis hipersónicos russos podem ou não ser intercetados pelo sistema de defesa Patriot e se é verdade a alegação russa de que conseguiu destruir um desses sistemas. "Bocas" de cada lado não chegam.

Não é mau de todo...

Há meses, li que havia problemas para alojar pessoas em Coimbra, por causa dos Cold Play. Caí na asneira de perguntar: "O que é Coldplay? Um grupo (eu não digo banda) musical?". O que fui dizer! Caiu-me tudo em cima! E lá fui ao YouTube. Foi agradável.

O trigo e o joio autárquico

Pela leitura da imprensa, constata-se que, no setor autárquico surgem, com grande frequência, suspeitas, acusações e condenações por corrupção. 

Posso imaginar que a esmagadora maioria dos autarcas, que sabemos ser gente honesta e trabalhadora e faz um trabalho magnífico em prol da dignificação do poder local, se sinta regularmente incomodada com este labéu que se coloca a pessoas do seu setor.

Terá porventura chegado o tempo dos nossos autarcas perderem o subliminar corporativismo, que deriva do seu embaraçado silêncio face ao comportamento culposo dos seus colegas incumpridores, e "chamarem os bois pelos nomes", tomando a dianteira da luta contra a corrupção no seu setor.

Por exemplo, ficaria muito bem a uma entidade como a Associação Nacional de Municípios Portugueses ter a coragem de organizar uma conferência sobre "O poder autárquico e corrupção", criando simultaneanente, no seio da organização, em articulação com o Ministério Público e os órgãos de polícia, uma unidade de monitorização do fenómeno, com ações de formação e troca internacional de experiências, revelando assim transparência e determinação em separar o trigo do joio.

Um abraço ao António Vitorino

 


Que diabo de selo!


A criatividade gráfica no Vaticano está, como se vê, pela hora da morte. Mas eu, desculpem lá!, não participo no coro da indignação que por aí anda. O selo é muito feio, ponto.

segunda-feira, maio 15, 2023

Jornalismo adversativo

Nunca é demais lembrar, para que ninguém se esqueça: muita da nossa comunicação social não consegue dar uma boa notícia para o país, saudar o que de positivo possa surgir, sem o fazer seguir de um "mas", de um "contudo", de um "porém", que atenue o menor surto de otimismo e de bem-estar. O que importa é garantir que o ambiente catastrofista se instale e permaneça. Até que os seus sonhos se concretizem. Ou não.

Que chatice, não é?

Segundo alguns "especialistas", os bons resultados que a economia apresenta pouco têm a ver com a ação do governo, mas exclusivamente com o bom comportamento das empresas, que têm sabido "fazer pela vida". Diriam o mesmo se os resultados fossem diferentes?

Dilema

Neste final de campeonato, não há maior dilema do que aquele que atravessa um adepto do Sporting. Não podendo ser o nosso clube a ganhar, quem é que, intimamente, desejamos que não ganhe, na infeliz impossibilidade de ambos perderem?

Fernanda Gabriel


Não me recordo quando conheci a Fernanda Gabriel, uma cara da RTP que os portugueses se habituaram, desde há muito, a ver moderar debates com os nossos eurodeputados. 

A carreira da Fernanda é já muito longa e teve outras dimensões. Lembro-me dela na Lusa, no Diário de Notícias, na RDP e deve-me estar a escapar algo mais.

A Fernanda é uma profissional muito segura, com um forte equilíbrio nas suas prestações, um manejo invejável da tecnicidade das coisas europeias, área onde se especializou. É ainda, felizmente, uma jornalista "à antiga" - quase não usa o "eu", não confunde a informação com o comentário, não procura impingir-nos as suas ideosincrasias. O seu óbvio objetivo é recolher e transmitir-nos, com rigor, o máximo de informação útil, equipando-nos para, com toda a liberdade, podermos fazer as nossas opções e formar uma opinião própria. 

Há horas, disseram-me que o presidente da República, na sua recente passagem por Estrasburgo, base de trabalho da Fernanda Gabriel, lhe atribuiu uma distinção honorífica. Nada mais justo! 

Faço um "disclaimer". Depois de ter conhecido Fernanda Gabriel como jornalista, ela que foi também autarca na capital alsaciana e professora universitária, passei, de há muito, a ser também um bom amigo da Fernanda e do Jack, seu marido, o mais latino de todos britânicos que conheço. Algumas belas noites de conversa passámos nós em Estrasburgo, em Viena, na Jordânia, em Paris e no Estoril! Só ainda não consegui aceitar o convite para a sua casa na "aldeia mais portuguesa de Portugal", Monsanto, a terra da Fernanda. Um dia será!

Um beijo de parabéns à Fernanda e um abraço forte ao Jack.

domingo, maio 14, 2023

Turquia


A sede do partido dominante da vida política turca, o AKP, é o imenso edifício que a imagem mostra. Há precisamente uma década, entrei ali, acompanhado pelo nosso embaixador em Ancara, para ser recebido pelo vice-presidente do partido. Eu já estava reformado, dirigia o Centro Norte-Sul do Conselho da Europa e tinha ido à Turquia, a convite do nosso MNE, então dirigido por Rui Machete, para representar Portugal numa conferência e, de caminho, efetuar uma determinada diligência.

Habituado à modéstia das instalações das sedes dos partidos, na generalidade dos países europeus, fiquei impressionado pelo fausto daquele edifício, pelos seus mármores e generosos espaços, desde logo o imenso gabinete do vice-presidente do AKP, que me recebeu. O AKP era, sabia-se, um Estado dentro do Estado turco e não escondia esse seu papel. De certa forma, aquilo parecia-me bem mais próximo de algumas autocracias da Ásia Central e dos Cáucasos do que de um regime democrático ocidental.

Por todo o lado onde passei naquele prédio, os retratos de Erdogan rivalizavam com os de Kemal Atatürk, o indisputado deus oficioso do país. O culto da personalidade fazia claramente parte da maneira de ser daquele país, então em acelerada transição. Ali estava um Estado, que se reivindicava de uma forte matriz laica, com uma democracia por décadas tutelada pelas forças armadas, verdadeiro "backseat driver" da condução das coisas, que a liderança de Erdogan lograra transformar, passando de um regime parlamentar para um presidencialismo autoritário, nacionalista e arrogante, à imagem do líder, tudo associado a uma crescente deriva islâmica. 

À noite, para a sua residência, o nosso embaixador tinha convidado para jantar, entre outras pessoas, um casal turco, professores universitários que eu conhecera na Grécia, nos idos de 90, e que sempre reencontrara em anteriores visitas a Ancara. Eram da oposição, do centro-esquerda. Ao referir-lhe as minhas impressões da visita à sede do AKP, a reação de um deles foi esta: "Ainda bem que viste com os teus próprios olhos! Aquilo é, muito simplesmente, a cara do regime que por cá temos".

Daqui a horas saberemos mais sobre o futuro da Turquia.

O Estado do Mundo


Moderados por Maria João Costa, Álvaro Domingues, Carlos Magno e eu discreteámos, ao final da tarde de sexta-feira, sobre o "Estado do Mundo". Cada um fê-lo ao seu jeito pessoal, cruzando perspetivas. É bom integrar debates assim: livres, sem stress, sem temor ao politicamente correto, respeitando as ideias dos outros e aprendendo com elas e com eles. 

Foi no LEV - Literatura em Viagem, um festival em Matosinhos onde tive o gosto de participar pela segunda vez.

sábado, maio 13, 2023

Milagres

Há pouco, do Porto para Lisboa. "Achas que dava para almoçar no Tia Alice, em Fátima?". "Tenta telefonar, mas só por milagre, num 13 de Maio". "Como me chamo Francisco..."

sexta-feira, maio 12, 2023

Capicuas


Os miúdos de hoje saberão o que é uma capicua? Se não sabem, vão ao Google, não é? Alguns talvez saibam, mas imagino que muito poucos, nos tempos que correm, acharão a menor graça ao surgimento, num bilhete qualquer, de um número que se pode ler, identicamente, da frente para trás ou vice-versa. Há prazeres inocentes que o tempo fez desaparecer. Isso não é bom nem é mau, apenas revela que vivemos um tempo diferente de outros tempos.

Passando há pouco junto aos outros Prazeres, o largo em frente ao cemitério, olhei o prédio onde viveram uns familiares que já se foram há muito, há mais de meio século. Um casal. Ele era uma figura suave e sorridente; ela era uma mulher "de fibra", nem sempre fácil, palavra às vezes cortante. Completavam-se lindamente, como muitas vezes sucede.

A grande paixão dele (para além de Salazar) era o Benfica. Fazia parte de quantos acompanhavam a equipa pelo mundo, tendo estado presente em momentos idos da glória internacional do clube. A minha condição de sportinguista desgostava-o. Eu era irónico nas conversas mas, sendo ele futebolisticamente "doente" e muito mais velho, optava por não ir muito longe nas minhas provocações, tanto mais que era uma pessoa sempre muito simpática para comigo. Numa visita minha a Lisboa, em fins de 1965, levou-me à Luz ver um "derby" com o Sporting. Para seu azar, o Benfica perdeu 2-4. Recordo a minha forçada contenção, no meio de uma bancada homogeneamente "lampiónica". E, estando perto do relvado, guardei para sempre na memória auditiva o ruído dos remates de Lourenço, autor dos nossos quatro golos.

A razão por que hoje falo desse meu primo é pelo facto de me recordar que ele tinha uma imensa e curiosa coleção de capicuas, em bilhetes de elétrico. Nas suas deslocações diárias, ao longo de décadas, no 28, entre os Prazeres e o seu emprego na rua da Conceição, entretinha-se a coletar esses números de dupla leitura, não sei se por arranjo com o cobrador ou por cumplicidade de "fellow-travellers". Que terá acontecido à coleção? Sem descendentes, alguém terá um dia deitado ao lixo, num instante, o que tantos anos tinha demorado a juntar. A única "vingança" é a certeza do prazer que o primo Augusto teve, por muito tempo, na recolha daqueles bilhetes muito especiais, a maioria, recordo, no valor de sete tostões, que era quanto custava o elétrico de sua casa para o emprego - e vice-versa, como as capicuas.

Mas a que propósito vem hoje esta história das capicuas? perguntar-se-á, com legitimidade, o eventual leitor. É muito simples: ao olhar para este blogue, dei-me conta de que, desde que este espaço foi criado, em 2009, publiquei aqui 11111 posts - onze mil cento e onze textos ou fotografias. Achei graça. É que eu sou do tempo das capicuas. E esta é das boas.

quinta-feira, maio 11, 2023

"A Arte da Guerra"


O discurso de Putin no 9 de Maio, a China e os novos equilíbrios no Médio Oriente e o crescimento da extrema-direita no Chile são os três temas na conversa com o jornalista António Freitas de Sousa, no "A Arte da Guerra", o podcast internacional do "Jornal Económico", que pode ver aqui.

Clube de Lisboa


Há dias, tomaram posse os corpos gerentes do Clube de Lisboa, para um novo biénio. 

Por decisão tomada em Assembleia Geral, tenho o gosto de continuar a presidir ao respetivo Conselho Diretivo. A lista completa dos Corpos Sociais e do Conselho Estratégico pode ser consultada aqui.

O Clube de Lisboa foi criado em 16 de dezembro de 2016, na sequência da realização das duas primeiras Conferências de Lisboa (2014 e 2016), cuja organização, sempre a cada dois anos, passou a ser feita, desde então, pelo Clube, por decisão das entidades organizadoras das Conferências.

O Clube é uma Associação privada sem fins lucrativos, tem o estatuto de ONGD e de utilidade pública. Não tem instalações físicas próprias, reduzindo assim os seus custos de estrutura.

São objetivos estatutários do Clube “projetar Lisboa como lugar de reflexão, de debate e de promoção de iniciativas sobre temas relevantes da agenda internacional..., com particular destaque aos desafios estratégicos colocados ao futuro e ao papel de Lisboa e de Portugal na Europa e no mundo”.

O Clube opera como uma plataforma de reflexão e de debate e, sempre que adequado, em parceria e colaboração com entidades públicas e privadas - universidades, escolas, fundações, autarquias, empresas, organizações da sociedade civil, entre outras.

O Clube não assume posições políticas, embora respeite a liberdade de opinião dos seus membros e dos participantes nas atividades que organiza. Desde a sua origem, o Clube é integrado por pessoas com diferentes orientações ideológicas e com variadas origens profissionais. Não lhe sendo indiferente, a agenda oficial portuguesa, na ordem interna e externa, não determina nem orienta a sua ação, nem faz parte da sua agenda de trabalho. 

As atividades do Clube têm sido financiadas pelas quotização dos seus membros (cerca de uma centena), por candidaturas a financiamentos (Camões, ICL, embaixadas, outros), por contribuições pontuais, em dinheiro ou espécie, de variadas entidades (destacadas nas atividades) e, desde finais de 2022, conta com um subsídio plurianual concedido pela Câmara Municipal de Lisboa e um apoio do Instituto Marquês de Vale Flôr.

Um total de 356 palestrantes, de 53 nacionalidades (nomes e biografias estão disponíveis no website), participaram em cerca de 130 atividades do Clube, designadamente:

• Cinco Conferências de Lisboa, bienais, iniciadas em 2014, com a duração de dois dias, realizadas na Fundação Calouste Gulbenkian, como entidade anfitriã.

• Duas Conferências sobre a Fragilidade dos Estados, bienais, iniciadas em 2019 e coorganizadas com o g7+, com a duração de um dia.

• Três Conferências sobre Desafios Globais, anuais, iniciadas em 2020 – uma sobre o Oceano, outra sobre a Energia e a última, em março de 2023, sobre Segurança.

• 82 Talks/, iniciadas em maio de 2017 - 27 Lisbon Talks (LT), via de regra presenciais, de 90 a 120 m cada e 55 Lisbon Speed Talks (LST), todas online, de 30 a 45 m cada.

• Nove Seminários de Verão “Global Challenges”, anuais, em parceria com o Centro de Estudos Internacionais do Iscte-IUL e o IMVF, com a duração de 20 horas - os primeiros 3 realizados ainda ao tempo do projeto das Conferências de Lisboa.

• Um Projeto, iniciado em novembro de 2022, com a duração de 2 anos, que consiste na elaboração de uma plataforma digital com cursos e ações para o público mais jovem.

• 35 Publicações, correspondentes a 8 livros (papel + ebooks) das conferências – 2 livros adicionais, respeitantes aos últimos eventos, sairão ainda este ano – e a 27 resumos das LT. O acervo encontra-se disponível no site, para leitura, cópia e impressão.

A quem quiser seguir a atividade do Clube de Lusboa, aconselho a consulta do nosso site.

Literatura em Viagem

 


Trump

Seria interessante conhecer-se a opinião dos feridos graves e dos familiares das pessoas mortas no assalto ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, quando confrontados com o qualificativo de "a beautiful day" usado por Trump para descrever a data, na sua entrevista à CNN.

TAP

É extraordinário - melhor, é ordinário - o modo, quase babado de gozo, com que alguns se comprazem, para meros efeitos uso político, com o anúncio de prejuízos da TAP no passado trimestre.

quarta-feira, maio 10, 2023

O outro 10 de maio


"Então tu estragas a memória do 10 de maio, essa data de felicidade, em 1981, da chegada da esquerda ao poder em França, com a evocação da canalha nazi?!" 

O meu amigo, há minutos, ao telefone, estava furioso. E tinha toda a razão. Compensei-o com isto.

Fogueiras


Hoje, 10 de maio, faz precisamente 90 anos que, na Alemanha nazi, se iniciaram as fogueiras onde se queimaram livros "inconvenientes". 

Agora, quando se inicia o caminho da "revisão" da literatura, para "corrigir" passagens também "inconvenientes", lembro-me disto.

Pérolas


De quando em vez, este blogue recebe pérolas como esta.

La Lys



O jornalista Carlos Pereira, diretor do LusoJornal, o mais relevante órgão da comunicação social portuguesa em França, realizou um interessante documentário em torno de uma realidade pouco conhecida e historicamente explorada: o facto de, após terem participado no Corpo Expedicionário Português, em 1917/1918, nomeadamente na batalha de La Lys, um número significativo de soldados, difícil de precisar com rigor, ter permanecido em França, onde se fixou e deixou descendência.

O filme intitula-se "Les Héritiers de la Bataille de La Lys” e, entre outros aspetos, inclui depoimentos de historiadores e de familiares franceses desses militares. Foi apresentado na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no passado dia 9.

Tive o gosto de ser convidado, com o general João Vieira Borges, a fazer a apresentação deste trabalho, abordando alguns dos seus aspetos. 

No passado, enquanto embaixador de Portugal, representei o Estado português nas cerimónias anuais no cemitério militar português de Richebourg, no norte de França, onde estão as sepulturas da grande maioria dos nossos soldados mortos naquela guerra. Fiz igualmente intervenções junto ao monumento existente na localidade de La Couture, em homenagem àqueles militares. 

Este é um tema que me apaixona, desde a infância, quando a minha escola primária era chamada, a cada dia 9 de Abril, a estar presente nas comemorações da batalha de La Lys, junto ao monumento a Carvalho Araújo, em Vila Real. Por lá vi, em vários anos, o celebrado Soldado Milhões, herói dessa batalha. No final dos anos 60, numa deslocação a França, fui expressamente a Richebourg para visitar o nosso cemitério militar.

Pude agora constatar que a evocação da presença militar portuguesa na Grande Guerra, na luta para a libertação da França, tem vindo a ser feita, nos últimos anos, por setores associativos da nossa comunidade naquele país. Este oportuno filme pode contribuir para fazer despertar, ainda mais, o interesse por um tema que historicamente une os dois países.

Sensatez e coragem

Um dia, ainda há-de aparecer um cidadão, sensato e corajoso, chamado a uma comissão parlamentar que, chegadas as cinco e meia da tarde, vai dizer: "Muito boa tarde. O meu dia de trabalho acaba agora, tenho de ir descansar e ir ter com a minha família. Amanhã, estou à vossa disposição, a partir das nove horas". Prendem-no?

Ai coração


Ao ver o "Ai coração!" na Eurovisão, com aquela gente em corridas e aos saltos, numa segura taquicardia, lembrei-me de que ainda não fui à minha consulta anual de rotina do cardiologista.

terça-feira, maio 09, 2023

Rita Lee


Um dia, na Noruega, um amigo brasileiro, o Pedro Avelino, "apresentou-me" a Rita Lee. Era, disse-me, uma antiga rockeira convertida às baladas. A mulher do Pedro, a Mônica, derretia-se com essa música. O som que ele trazia num LP, comprado no Rio, era o do "Lança Perfume". De facto, era diferente. Convenceu-me. Fiquei fã. Depois, em férias em Portugal, consegui o álbum com o "Mania de Você". Mais tarde, fui comprando outras peças da minha avantajada coleção da Rita Lee, da qual consta também o excelente "Baila Comigo". Levei tudo para Angola, em 1982, com dezenas de outros discos (os CDs estavam então a começar) mas, a pouco e pouco, com o aparecimento de outras novidades, fui esquecendo a cantora.

Quando vivia em Brasília, vi anunciado um espetáculo de Rita Lee. Sou pouco dado a shows de música popular com público ululante, com aqueles cromos que enchem os corredores e o espaço junto ao palco, estragando a vista e o sossego de quem comprou o que supunha ser um bom bilhete e quer apenas ver o espetáculo e ouvir a música, sem precisar de aturar, às primeiras estrofes, as palmas dos engraçadinhos que parece querem dizer-nos "ai! esta já conheço". E, quanto a rever artistas do passado, imensos barretes enfiei, por esse mundo fora, em acessos de revivalismo que me levaram a maus e caros espetáculos. Mas, enfim, em Brasília os shows eram raros, tive um descuido e lá fui ver a senhora. Que desilusão! Foi como ver o Eusébio a jogar no União de Tomar. Saí antes do fim!

Rita Lee morreu hoje. Vou ouvir as suas músicas velhas, também para me lembrar de mim quando as ouvi pela primeira vez.

segunda-feira, maio 08, 2023

Eduardo Paz Ferreira


Deve ser bom. Deve ser mesmo muito bom sentir o Anfiteatro 1 da Faculdade de Direito a abarrotar, como esteve ao final da tarde de hoje, para assistir à última aula de Eduardo Paz Ferreira. Meio mundo e mais alguém por ali esteve, para homenagear o Eduardo e ouvir a sua última aula. Ele contou-nos, com a graça e a frontalidade de sempre, a história do jovem que chegou dos Açores em 1970, para estudar Direito, então não suspeitando que ele próprio viria a transformar-se numa figura grada da academia lisboeta. 

A descrição que nos fez do modo como, estudante, ficou impressionado, na primeira vez que entrou na imensa sala onde estávamos, foi magnífica. Entre outras considerações, na hora e meia da sua levíssima conversa, o Eduardo brindou-nos com uma interessante análise, para mim muito pedagógica, sobre a relação do Direito com os temas económicos e o modo como a universidade, em Coimbra como em Lisboa, foi abordando esse tema. Um insigne professor da casa, hoje em comissão de serviço em Belém, também comentou isso em vídeo. Mas o Eduardo também nos falou dos pides, dos gorilas, do capitão Maltez, dando os nomes aos bois sobre quem esteve por detrás desse tempo de repressão académica.

O Eduardo Paz Ferreira é um jovem. Tem 70 anos, data que comemorámos numa bela festa no passado sábado, que a Francisca organizou para 70 dos seus imensos amigos. Num livro que agora publicou, com o  sugestivo título de "Devo fechar a porta?", ele deixa claro que o seu inquieto espírito cívico não vai ficar parado. Desde sempre, lado a lado com as suas atividades docentes, o Eduardo manteve uma incessante produção de debates e publicações. Lembro-me de ter apresentado, pelo menos, dois livros seus e de ter participado em bem mais de uma dezena das suas iniciativas, nomeadamente sobre temas europeus, área em que desenvolveu uma reflexão aprofundada e de imensa utilidade, questionando construtivamente o posicionamento do país nesse domínio. E até o fenómeno Trump nos juntou, com balanços críticos anuais, enquanto durou (esperamos não ter de reunir de novo sobre o assunto!) O Eduardo é um militante da liberdade e da justiça social e nesse domínio, como hoje uma vez mais provou, tem o papa Francisco como grande referente.

Conheci o Eduardo como jovem estudante universitário recém-arribado a Lisboa, creio que logo em 1970, nas tertúlias da Granfina, num grupo de açoreanos que por ali parava (Jaime Gama, Horácio César), junto com alguns algarvios (Nuno Júdice, Madeira Bárbara), beirões (como o António Massano), alentejanos (como o Diogo Pires Aurélio), transmontanos como eu (Belém Lima, António Leite) e muita, mesmo muita outra gente, em mesas que se juntavam à medida de quem chegava e onde pontuava, entre outros, o brilho do Eduardo Prado Coelho. 

Em 1976, o Eduardo apareceu a chefiar o gabinete de José Medeiros Ferreira, como ministro dos Negócios Estrangeiros, e muito nos cruzámos nos claustros das Necessidades, com ele então a queixar-se do meu radicalismo político. Um dia, num corredor da Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, onde eu não sabia que ele vivia enquanto por lá estudava, caímos nos braços um do outro. Recordo o jantar em que ele nos apresentou a Francisca, que ficaria para a vida nossa amiga. Os nossos encontros à mesa, por cá e lá fora, a quatro ou em divertidos e às vezes musicados aniversários, foram sempre muitos. E vão continuar a ser!

Um forte abraço, Eduardo. Não, não vais fechar a porta! Nem a Francisca te deixaria! E ainda bem! Nunca te perdoaríamos! 

Hélder

Hélder Macedo é uma grande figura da cultura portuguesa. Fixou-se em Londres há seis décadas e aí construiu uma notável carreira académica, ...