quarta-feira, 24 de abril de 2019

45 anos


Este é o título do artigo que hoje publico no Jornal de Notícias e que pode ser lido aqui.

terça-feira, 23 de abril de 2019

António


- Então? Que achaste do tipo?

- Tem uma bela figura! E uma presença muito forte! 

O António Alves Martins tinha ido ao aeroporto, para assistir à chegada de Álvaro Cunhal, nesse dia 30 de abril de 1974. Achara graça testemunhar o fim do exílio do mítico líder comunista e, pelos vistos, vinha impressionado, descrevendo-me a cena de Cunhal sobre o carro de combate, naquele “remake” luso da chegada de Lenine à estação da Finlândia, em Petrogrado, que o emergente PCP nesse dia encenou com estilo. 

Tinha-me desafiado para ir com ele, mas, por uma qualquer razão, deixei-me ficar nos estúdios da RTP, onde, como militares da EPAM - a Escola Prática de Administração Militar, unidade que ocupara a televisão, na noite da Revolução - ambos passávamos então os dias e parte das noites.

O António não tinha grande simpatia pelo PCP. Mas não quis perder esse encontro com a História. Seria, aliás, fundador e um dos primeiros militantes do MES, o Movimento da Esquerda Socialista, onde me levou numa noite de maio, ainda na sede do edifício de esquina com a Calçada da Estrela, para me apresentar ao Afonso de Barros.

Tinhamo-nos conhecido na EPAM, em 1973. E ficámos logo amigos. Ligavam-nos alguns interesses comuns, ele ainda trazia Paris, onde estudara, no sangue e na memória afetiva recente. Fizemos juntos o 25 de abril (fomos, aliás, os dois únicos oficiais milicianos envolvidos na cena da detenção do comandante da unidade, nessa manhã). Eu, entretanto, saí para a Comissão de Extinção da PIDE e, depois, para a assessoria da Junta de Salvação Nacional. Voltámos a encontrar-nos, meses mais tarde, na 2ª Divisão do EMGFA, para onde fui chamado a trabalhar, por indicação dele. Na sequência do 11 de março, fizémos parte do escasso grupo que saiu do EMGFA para criar o SDCI. 

Depois, um dia desse ano politicamente inesquecível de 1975, a tropa acabou para nós. Eu entrei para as Necessidades e o António passou a dar aulas no então ISEG. Fomo-nos vendo mais a espaços, ele sempre com uma cordialidade carinhosa (que derretia as “piquenas”, terreno onde era imbatível!) e a sua simpatia transbordante e irradiante. Nos seus 50 anos, no antigo “Saddle Room”, fizemos uma festança memorável, creio que em 1996. Ainda nos abraçámos no jantar comemorativo dos 20 anos do fim do MES, no Pavilhão de Portugal, em 2001. Foi a última vez que o vi. Depois, por muito que eu tentasse, com outros amigos, numa consegui romper o mundo recolhido em que a depressão o mergulhou. 

O António Alves Martins morreu ontem. Hoje, terça-feira, pelas 18:30 h, o seu corpo estará na igreja de S. João de Deus. Vou lembrar-me muito do António, neste 25 de Abril.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

11 de março


Hoje, pelas 18:00 horas, na Associação 25 de abril, vou fazer a apresentação do livro “A noite que mudou a Revolução de Abril”, que inclui a transcrição da Assembleia do Movimento das Forças Armadas, que reuniu na noite de 11 para 12 de março de 1975.

Coordenado por Carlos Contreiras e com a colaboração de Vasco Lourenço e Jacinto Godinho, o livro é publicado pelas Edições Colibri.

domingo, 21 de abril de 2019

Canal Q


Pode ver aqui a minha conversa com Aurélio Gomes, no “Baseado numa História Verídica”:

Parte 1 http://videos.sapo.pt/g4LjEp7CNSe0ypf8HnZP

Parte 2 http://videos.sapo.pt/PGlP9UL1NbZ8wDbOmdO4

Parte 3 http://videos.sapo.pt/28HWul2WFQHAQukzuceu

sábado, 20 de abril de 2019

A democratura


Na aproximação das eleições para o Parlamento Europeu, o Partido Popular Europeu suspendeu o Fidesz, o partido do líder húngaro, Viktor Orbán. embaraçado por algumas das suas práticas políticas. Para alguns, a Hungria é já hoje uma espécie de “democratura”, isto é, uma democracia com fortes laivos de ditadura. 

Deixo aqui uma história pessoal, envolvendo Orbán.

Estávamos em março de 1999. Como membro do governo português, eu acompanhava o presidente Jorge Sampaio em visita de Estado à Hungria, país candidato à União Europeia (entraria em 2004), a convite do seu homólogo Árpád Göncz. 

Por esses dias, estavam iminentes os primeiros bombardeamentos da NATO sobre as tropas sérvias no Kosovo. A guerra ia explodir, em breve, ali ao lado. Os aviões iriam sobrevoar a Hungria, que ainda nesse ano iria integrar a NATO. 

Em Budapeste, eu havia acompanhado Jorge Sampaio num encontro com o já então primeiro-ministro Viktor Orbán. A conversa não foi fácil, quando, a pedido de Jorge Sampaio, fiz referência a alguns dos passos institucionais que a UE exigia à Hungria e que esta resista a fazer. Orbán mostrava-se frio, tenso, desagradável mesmo. A certa altura, a propósito dos possíveis bombardeamentos da NATO, falou da sua preocupação com as populações de origem húngara da Vojvodina, uma região da Sérvia. Eu disse perceber a sua inquietação, mas reagi ao seu bizarro conceito de “futuras populações NATO" com que qualificou esses sérvios, lembrando que a ditadura portuguesa tentara, sem o menor sucesso, utilizar um similar conceito extensivo para os habitantes das colónias africanas em guerra. Orbán lançou-me um olhar duro e a conversa, que já não estava amável, não melhorou.

À noite, Árpád Göncz ofereceu um jantar a Sampaio no majestoso parlamento húngaro. Sabia-se que as relações entre Göncz e Orbán não eram nada fáceis, por razões de política interna, mas, igualmente, por diferenças notórias de personalidade e de história política. Por contraste com Orbán, o presidente era uma figura suave, um homem de bom senso, com uma vida difícil nos tempos comunistas, da qual, contudo, falava com a superioridade de quem já colocara uma distância entre os traumas e o presente. Resistente na II Guerra Mundial, havia estado preso durante seis anos, depois da invasão soviética de 1956. 

A certa altura, na varanda do parlamento, o presidente húngaro voltou-se para mim e inquiriu:

- Está a ver aquela luz amarela, lá ao fundo, do outro lado do rio?

Ao meu assentimento, acrescentou, num tom algo que me pareceu sombrio e triste:

- Era uma prisão. Uma das piores de Budapeste. Estive lá alguns anos. Foram tempos muito duros. Espero que não voltem, nunca mais. A Europa tem de servir para isso. O seu governo tem de ajudar-nos.

Göncz morreu em 2015. Órban, depois de ter estado afastado do poder, é, de novo, desde 2010, primeiro-ministro. O que se tem passado nos últimos anos na Hungria, em matéria de abusos que infringem as liberdades fundamentais, as regras do Estado de direito e o respeito pela separação de poderes, envergonha a Europa.

(Artigo publicado em 18.4.19 no “Jornal Económico”)

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Alfredo Cunha



Alfredo Cunha é um dos grandes foto-jornalistas portugueses. A sua coleção de retratos do 25 de abril, de que organizei em 2008 uma exposição em Brasília e que agora saiu num excelente livro, sob a égide da Câmara Municipal de Lisboa, é um momento alto da fotografia em Portugal.

Entretanto, tinha já ouvido falar deste outro livro, “Retratos”. Há dois dias, folheei-o na FNAC e, confesso com facilidade a vaidade, tive um grande gosto de me ver retratado por lá, numa imagem já com 17 anos. Não é todos os dias que uma figura como Alfredo Cunha nos fotografa.


Buraco 15


- Ele ainda trabalha convosco?

- Claro!

- E está por aí? 

- Há pouco estava. Passei pela secretária dele e tinha lá o casaco.

- Nesse caso, o tipo que está aqui ao pé de mim, no buraco 15, é um espantoso sósia dele...

- Mas tu estás onde?

- Estou no golfe...

- Espera aí! Já te ligo! 

                                                                  (***)

- És tu? Afinal tinhas razão! O tipo já tinha saído daqui há horas! Vai-me ouvir das boas!

- A tua empresa é que ainda cai no velho truque no casaco sobre as costas da cadeira...

Conversa telefónica verdadeira, há tempos, entre uma famosa personalidade empresarial portuguesa e um amigo, a propósito de um colaborador do primeiro, pago a peso de ouro, figura que o país bem conhece (até demais!). Os nomes omitem-se, por piedade pascal.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Pão de ló


Mas, afinal, o que é que faço? Saio depois da Tornada, na A8, e vou ali comprá-lo a Alfeizerão? Ou, já na A29, dou uma saltada a Ovar? Ou ainda, para o ter mais fresco, faço um pequeno desvio da A4 por Felgueiras e levo para Vila Real o pão de ló de Margaride? Qual é o melhor, digam lá?! É que já vou a caminho...

O inimigo...


Notre Dame europeia



Ao ver tombar a agulha de pedra da parte traseira da Notre-Dame de Paris, não consegui deixar de pensar na queda das Torres Gémeas, em Nova Iorque. Nos dois casos, as televisões tornaram-nos testemunhas oculares de tragédias que, porque profunda e sinceramente partilhadas, convocaram em nós fortes sentimentos coletivos. Se entre eles as diferenças são claras, a verdade é que em ambos se gerou um óbvio sentido de perda, que federou uma tristeza comum.

Em Nova Iorque, com a imensidão de vítimas, a tragédia tinha um sentido tão óbvio de barbárie que levou a que muitos milhões, por todo o mundo, acabassem por partilhar uma solidariedade com uma América que, em geral, não despertaria nessas pessoas uma automática sintonia. Ao assistir ao modo criminoso como tanta gente foi sacrificada no altar do extremismo religioso, houve como que um sobressalto ético, porque, mesmo nos mais agudos conflitos, não “vale tudo”. Não cheguei ao ponto de colocar a bandeira americana na lapela, mas confesso que, com amigos americanos, partilhei aquela perda como se fosse minha. O título nesse dia do parisiense “Le Monde” (“Somos todos americanos”) foi um grito genuíno, também meu.

Em Paris, tudo foi parecido e diferente. De início, olhei aquelas imagens com a ingenuidade de que seria um pequeno e controlável incêndio. Depois, à medida que o rubro das chamas ia subindo no écran, apossou-se de mim uma angústia crescente: “Espera aí! É a Notre-Dame que está a arder!”. E, de repente, lembrei-me de uma tarde de agosto, há mais de meio século, em que ali chegara, à boleia, pousara a mochila no chão e olhara, esmagado, para aquela igreja que conhecia “de toda a vida”. Estar ali significava muito para a minha geração. Lembrei-me também da emoção com que, há uma década, como embaixador em Paris, falei daquele altar a uma Notre-Dame apinhada de portugueses vindos de toda a França, tendo ao lado o cardeal arcebispo de Paris. Mas isso, afinal, não era nada, perante o facto de estarem ali a arder mais de 800 anos de uma História que, sendo francesa, era também europeia, isto é, igualmente nossa.

É com frequência nas dificuldades que se criam os mais fortes sentimentos comuns. Naquele dia, em Nova Iorque, tinha-me sentido cidadão de uma civilização de valores. Na segunda-feira, dei comigo a pensar que reconhecermo-nos como herdeiros de uma cultura e de um património desta monta é, afinal, o que verdadeiramente nos identifica como europeus.

(Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 17 de abril de 2019)

quarta-feira, 17 de abril de 2019

11 de março


terça-feira, 16 de abril de 2019

Incêndios e riscos


Ao ver as imagens trágicas do incêndio na Notre-Dame, não pude deixar de me interrogar sobre as condições em que estarão alguns importantes edifícios do património português. Não tendo certezas sobre a qualidade da prevenção em Portugal, resta-me apenas alimentar a esperança de que esteja tudo bem.

Um dia, creio que em 1977, chegaram finalmente os detetores de incêndio ao palácio das Necessidades. Na repartição do MNE onde eu então trabalhava, a EEA (onde tratávamos das relações económicas com a África, Ásia e Oceania), entraram, no final de uma manhã, uns operários para montar os sistemas de deteção. Escadotes e outros aparatos invadiram a sala onde trabalhávamos cinco diplomatas e técnicos. A sua ação perturbava o nossa, pelo que me lembro de termos apressado a saída para o almoço, deixando-os a operar por lá.

No regresso, para nossa grande surpresa e algum escândalo, a sala estava sujíssima, com restos de material pelo chão e imenso pó sobre as nossas secretárias. Ficámos furiosos e era nesse estado que estávamos quando ele entrou na sala. 

Ele era um cavalheiro  - recordo-me bem! - que vestia um blazer azul, sob o qual se destacava uma estranha camisa de largos quadrados, à Alves Redol, como ironicamente eu sempre designava aquele traje, para desagrado dos meus amigos mais sensíveis à cultura do neo-realismo. Assente no peito de tal bizarra camisa, destacava-se uma berrante gravata vermelha, com nó largo, como à época se usava. Era, com certeza, o encarregado da obra.

O homem disse boa-tarde, avançou e, chegado a meio da sala, pôs-se a olhar para o teto, para o trabalho feito. Irritou-me fortemente que não tivesse notado a sujidade espalhada, fruto da incúria do seu pessoal. Não sei se o meu desagrado terá ido ao ponto de me fazer não retorquir à sua saudação, mas recordo-me de ter dito: “Acha isto bonito? Lindo serviço!”. 

O homem “fez de conta” e veio direito a mim, que estava sentado ao fundo, entre as duas janelas. E estendeu-me a mão, com um sorriso entre o esfíngico e o irónico.

- Como está? Trabalhei nesta sala vários anos. Já cá não vinha há algum tempo Qual é o nome do colega? - e disse o seu.

Devo ter ficado bem encavacado. Aquele não era o encarregado das obras, era o nosso embaixador numa capital africana, que, manifestamente, apenas tinha levantado os olhos para os novos detetores de incêndio pela curiosidade de ver aquilo pela primeira vez montado por ali. Deve ter percebido que o confundíramos com alguém responsável pelos trabalhos, mas não acusou o toque. Com naturalidade, falou depois com todos nós, querendo conhecer os interlocutores que por ali tinha, na correspondência escrita entre Lisboa e a sua embaixada. E, momentos depois, saiu.

Nunca tive a certeza se ele ouviu ou não a imensa gargalhada coletiva que todos demos, depois da  porta fechada atrás de si. Rimos de nós mesmos, claro.

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Notre Âme !


Braga religiosa e moderna


Braga noturna


Café Vianna

O bibinha


A manifestação patriótica corria a preceito, naquele entusiasmo encenado com que o Estado Novo conseguia, numa sustentada coreografia, colocar o povo nas praças, para as fotografias que, no dia seguinte, "A Voz", o "Novidades", o "Diário da Manhã" (que a oposição citava sempre sem o til), mas também o inefável "Diário de Notícias" e o ritualista “O Século” trariam na primeira página, a testemunhar o "inquebrantável apoio de Portugal à política de Salazar". O qual, diga-se, raramente se dignava estar presente nesses exercícios, deixando ao "venerando Chefe de Estado", Américo Tomaz, a função de pobre catalisador das emoções orquestradas. "Paletes" de autocarros, pagas pelo erário, arrebanhavam patriotas ocasionais, de fato e gravata, através das cidades, vilas e aldeias, que eram dispensados dos empregos e tinham ração garantida para o dia, empunhando faixas que espelhavam a imensa diversidade dos "sindicatos" do regime.

Não fosse tudo isso ter, por detrás, uma longa e sinistra ditadura, a que se somou uma sangrenta guerra colonial, e tudo até poderia ter alguma graça, dando origem a comédias a preto-e-branco. Não sendo as coisas assim, não podendo Peponne discutir com don Camillo, o humor político disponível tinha de ser procurado nos ridículos do regime.

Nesse dia, naquela Braga de onde o efémero Gomes da Costa arrancara num famigerado Maio, concelebrava a mobilização das hostes António Santos da Cunha, uma avantajada figura da "situação", homem de voz tonitruante, que, durante anos, desempenhou as funções com que o regime controlava as coisas por lá: foi presidente da União Nacional, presidente da Câmara municipal e Governador civil. Já não recordo em qual destas duas últimas funções atuava na ocasião em que, como era hábito, ressoavam, nos discursos, saídos da velha varanda bracarense onde aquelas cenas sempre se oficiavam, as imaginativas referências ao Portugal "pluricontinental e pluriracial" ou "do Minho a Timor" (o que ali vinha geograficamente a jeito), as loas à sabedoria histórica do "senhor presidente do Conselho", no meio do gongorismo retórico com que o regime organizava a turbamulta tresmalhada, sob o olhar fardado dos polícias e os ouvidos, atentos e dispersos, dos "pides".

António Santos da Cunha atiçava, nessas horas, o patriotismo oficioso, com intervenções entre os vários discursos, feitas de menções às figuras presentes ou a quantos fosse importante lembrar na ocasião, apelando às hostes para, individual e nominalmente, os saudarem. O ausente Salazar e o chefe de Estado recolhiam, como era natural, o grosso da coluna dos aplausos e dos "vivas", mas os ministros e outros dignitários presentes recebiam também, à escala da sua importância, uma quota-parte dessas conclamações. Tudo era feito com conta e peso, medido o nível das personagens. Santos da Cunha, que era um hábil profissional desses instantes, sabia bem o que fazia, organizando sempre em pormenor essa estudada improvisação.

Um qualquer obscuro subsecretário de Estado (o Estado Novo, até certa altura, foi muito parcimonioso no uso da figura de "secretário de Estado"), vindo de Lisboa na comitiva do "venerando chefe de Estado", ter-lhe-á, a certo momento da manifestação, lançado um olhar inquisitivo, como que a demandar que o seu nome também fosse sufragado pelo vozeirão do edil e pelo subsequente eco da multidão. Santos da Cunha olhou-o, e não conseguindo atenuar o seu tom habitual, sossegou-o, à distância, com os "bês" do Norte, numa frase que ficou no anedotário da "situação":

- O "bibinha" de Vocência, senhor subsecretário de Estado, sai já a seguir, esteja descansado!

Braga não é apenas a cidade do país que deu origem a mais expressões populares, como ontem aqui notei. É também, mas admito que possa estar enganado na minha “contabilidade”, aquela em que me parece que a estatuária urbana mais preserva, pelas figuras que celebra, alguns peculiares tempos políticos, antes e depois do 25 de abril.

Há pouco, em Braga, ao passar pelo monumento a Santos da Cunha, lembrei-me desta historieta. Verdadeira, claro.

domingo, 14 de abril de 2019

O padre David


Há tempos, num telejornal, foi entrevistada uma certa figura. E logo me veio à memória uma história passada com ela.

Algures nos anos 80, eu havia sido encarregado, em funções que então desempenhava, de receber essa pessoa. Vinha, muito bem recomendada, colocar-me um problema "sério". Ele e outros empresários tinham iniciado a construção de um lar para estudantes oriundos de certos países estangeiros, os quais, por perderem frequentemente as bolsas de estudo oficiais, por falta de aproveitamento, necessitavam de garantir alojamento para prolongarem a sua estada no nosso país. Os motivos desses empreendedores estavam longe de ser apenas altruístas: todos os estudantes que pretendiam beneficiar eram familiares de responsáveis, políticos e administrativos, desses países, os quais tinham direta influência na concretização de negócios com as empresas dos amáveis empresários lusitanos. Estava-se a ver o "filme"...

À partida, a questão parecia-me cristalina. Cada um procede como quer e pode, financia quem lhe interessa. Só não percebia o que é que o MNE tinha a ver com isso. Mas o meu interlocutor não tardou a ir direto ao que vinha: os empresários achavam que já tinham feito a sua parte, lançando as bases para o tal empreendimento, pelo que "cabia agora ao Estado" entrar com a restante verba necessária, que deveria representar cerca de 75% do custo total, o que, recordo, era um valor bastante elevado.

Expliquei ao senhor - que me pareceu ser um devotado cultor do lema "menos Estado, melhor Estado e o que dele sobrar fica para nós" - que as verbas para finalidades similares já estavam afetadas e que, em especial, o caso que apresentava não se enquadrava minimamente nas prioridades de financiamento que tínhamos definido. O nosso objetivo era concentrar a ajudas nos estudantes com aproveitamento, não nos "calões" de boas famílias. Pelo que a nossa resposta tinha de ser, muito simplesmente, negativa.

O cavalheiro abespinhou-se. Os seus contactos anteriores tê-lo-iam feito presumir um resultado diferente para a diligência. E logo adiantou que, a confirmar-se uma resposta negativa da nossa parte, se veriam "obrigados" a ir para a imprensa, denunciando o "desinteresse" das entidades oficiais do setor. 

Aí, "passei-me", e disse-lhe mais: que não tinha gostado nada da forma pressionante como a questão me fora colocada, e que, desde logo lhe podia assegurar, o Estado não cederia àquilo que era claramente uma espécie de chantagem. Atenta a gravidade da "ameaça" mediática que fizera, ia transmitir superiormente, "para os devidos efeitos", o respetivo teor, pormenorizando no texto que ia elaborar, as reais finalidades do projeto e detalhando os interesses que estavam por detrás dele. E adiantei: "Sabe?, no mau sentido, o senhor fez-me recordar a história do padre David". O homem, que já estava furioso, ficou também perplexo.

E contei-lhe que, nos meus tempos de infância, recebiam-se, em minha casa, umas cartas angustiadas, tipo circular, assinadas pelo padre David, de Ruílhe e Aveleda, localidades perto de Braga. Invariavelmente, o sacerdote explicava que tinha iniciado a construção de casas para famílias pobres, que já tinha as fundações, mas que precisava de dinheiro para todo o resto da construção. Até aí tudo bem, porque era obra altamente meritória. Só que, no arrazoado argumentativo, o padre David adiantava que, se não contribuíssemos, o projeto não avançaria, pelo que a responsabilidade de um eventual insucesso ficava exclusivamente nas nossas mãos. Eu era criança e esta pressão pouco subliminar, que vinha embrulhada numa linguagem religiosa que prenunciava retaliações divinas para quem se mostrasse relutante a cooperar, impressionou-me então muito. E sempre me interroguei por que diabo havíamos nós de ficar com o odioso da obra incompleta, só porque o padre David haviam colocado o carro à frente dos bois. Com as melhores intenções do mundo, o qual, como é sabido, está cheio delas.

O nosso homem - em lugar de se sentir elogiado com a equiparação ao generoso padre... - ficou furioso, disse que se ia queixar de mim, saindo pela porta fora. Se o fez ou não, não sei. Nunca ninguém me disse nada, tendo eu cumprido a promessa de relatar, por escrito e com gozo, o episódio. Desde então, nunca mais o encontrei. Terão feito a obra?

Ontem, cumprindo um desejo há muito alimentado, fui a Ruílhe, ver a obra do Padre David, figura justamente venerada por lá. As tais casas para pobres ainda hoje lá estão, hoje um pouco descaraterizadas pelos novos proprietários, misturadas com outras - como se vê na imagem, onde surge o busto do empreendedor sacerdote. Finalmente - algum dia havia de ser - encontrei-me com a minha metáfora...

sábado, 13 de abril de 2019

Braga


Braga é uma cidade que está na origem de várias expressões. Creio que nenhuma outra localidade portuguesa terá tantas. Mas qual será a origem delas? Vejamos.

Ver Braga por um canudo”, isto é, acabar por perder as oportunidades, um pouco como “ficar a ver navios”. Parece ter origem no monóculo existente no Bom Jesus, através do qual se vê a cidade, mas à distância.

Ir abaixo de Braga”, que é como “ir à fava” ou ainda a lugar pior. Dever-se-á ao facto de, para uma zona então mais baixa do que o centro da cidade, escoarem no passado os lixos e dejetos urbanos, tornando empestado e desagradável o lugar.

É de Braga!”, diz-se de alguém que deixa as portas abertas atrás de si. A doutrina aqui divide-se. Há quem diga que tal se deve ao facto da cidade, contrariamente a outras, não ter tido nunca uma porta física na sua entrada principal, a Porta Nova, outros dizem ser uma expressão papal à chegada de um arcebispo a Roma.

Isso é mais velho do que a Sé de Braga!”, significa que é muito antigo, porque a sé, na cidade, é dos edifícios construídos há mais tempo.

Finalmente, o leitor já ouviu dizer “chove em Braga”? Não? Mas olhe que, embora não muito, está mesmo a chover em Braga!

Os contabilistas


Há estadistas e há contabilistas. Paulo Guedes, ministro da Fazenda do Brasil, parece estar a alimentar a ideia de vender algumas embaixadas daquele que ainda é considerado um dos mais prestigiados serviços diplomáticos do mundo. 

Não se trata de uma atitude inédita. Na história política portuguesa contemporânea, também tivemos algumas luminárias que pretenderam desfazer-se de alguns dos mais importantes edifícios que o Estado, desde há muito, possui. Passá-los “a patacos” reduziria pontualmente uns centésimos de dívida, mas privaria o país de um património dificilmente recuperável no futuro. Além de que faria com que o país perdesse definitivamente valores que só se reforçam com o tempo e cuja posse é um fator de prestígio a que só essas simplórias figuras não são sensíveis. 

Por uma sorte de que felizmente nos podemos felicitar, os prédios de Belgrave Square, da rue de Noisiel e um dos belos edifícios que Portugal possui em Roma não foram, numa certa fase, “à vida”. Até o próprio Palácio das Necessidades, segundo vim há tempos a saber, correu sérios riscos! 

Em tempos mais recentes, dois secretários do Estado (a que isto chegou) conseguiram mesmo o feito de delapidar algum património. Um deles conseguiu dar cabo do fantástico apartamento que existia no Dakota Building, em Nova Iorque. Outro, com toques de Torquemada, levou à prática, na Europa, algumas patifarias de idêntico jaez. Este último, um dia, na casa de um diplomata, olhou as estantes e perguntou: “para que é que você quer tanto livro?”. O nosso colega, amável, deu-lhe uma resposta educada. Foi pena. 

É isso: às vezes, lá pela nossa (no meu caso, antiga) casa, passam uns contabilistas, trevestidos de estadistas.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Mário Vilalva


Há algumas semanas, li nos jornais a notícia da nomeação de Mário Vilalva para dirigir a Apex Brasil, a agência de promoção económica brasileira. 

O Mário é um amigo de há muito. Os portugueses, país onde de tornou “one of us”, conhecem-no como uma dos mais brilhantes embaixadores que o Itamaraty por cá alguma vez colocou. Com a sua competência profissional e simpatia, o Mário e a Vânia conferiram uma centralidade rara à embaixada brasileira em Lisboa. Um dia, acabado o seu tempo, como por aqui assinalei, foram destacados para Berlim, um posto maior e prestigiante, em qualquer carreira diplomática.

Eu havia cruzado bastante o Mário Vilalva em Brasília, ao tempo em que ele dirigia o departamento de promoção comercial do Ministério das Relações Exteriores, num período que foi de grande dinamismo, que o levou a ser um “globetrotter” profissional, até com custos para a saúde. Dali saiu para a embaixada brasileira no Chile, com Lisboa como destino posterior de uma carreira brilhante.

Volto agora onde comecei. O Mário aceitou - e dificilmente haveria alguém tão bem qualificado para o fazer - dirigir a Apex, naquela que foi uma das raras nomeações consensuais do governo Bolsonaro. A imprensa brasileira foi unânime sobre o acerto dessa escolha. Mas, como diria Camões sobre a sina da bela Inês, afinal tratava-se de um “engano da alma, ledo e cego, que a fortuna não deixa durar muito”. Há dias, depois de apenas algumas escassas semanas de exercício de funções, o Mário foi afastado da Apex. Leiam este artigo da cada vez mais indispensável “Piauí” para perceber melhor o que se passou.

Caro Mário, sei que represento alguns dos seus muitos amigos portugueses ao enviar-lhe, por esta via, um abraço de ânimo e de muita admiração.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

A toalha

Decidi que, nesse dia, a embaixada não faria (ainda) qualquer declaração à imprensa, que nos batia aos telefones. Não obstante a insistência de um canal de televisão, disse estar indisponível para ir em direto à sua edição da noite, como fizera, por duas vezes, em semanas anteriores, em outros canais. Não sabia (ainda) o que dizer. Era o dia seguinte ao pedido de ajuda de Portugal. Foi há oito anos.

É talvez cedo para se saber como os outros embaixadores portugueses, nas principais capitais, viveram essas dramáticas semanas. No meu caso, em Paris, acompanhava, dia após dia, as diligências que Lisboa ia anunciando, para tentar escapar ao pedido de ajuda externa. As coisas tinham, em absoluto, deixado de passar por nós: os contactos relevantes faziam-se entre os gabinetes dos chefes de governo. Por algum tempo, cabia-nos tentar explicar a posição oficial, alheios que tínhamos de ser à tensão política que se vivia em Lisboa – os dissídios em torno do PEC IV, com o Presidente da República pelo meio.

Com o passar dos dias, ficava claro que as coisas se aceleravam. Era o tempo da coreografia declinante de Portugal na mão das agências de notação, o crescente “downgrading” da nossa dívida soberana, o disparar do “spread” dos nossos “bonds” a 10 anos. Tudo isso, com angústia, eu acompanhava, pelas manhãs, ao abrir o Financial Times.

Nessas semanas, passara a ser chamado a falar a rádios e, um pouco menos, em televisões. Nunca antes, como embaixador em Paris, me fora dada tanta “atenção”, embora neste caso não pelas melhores razões. Sem dificuldade, publicava os artigos que quisesse na imprensa francesa. A minha “narrativa” era sempre a mesma: defesa dos índices favoráveis conhecidos, denúncia do “exagero” das avaliações das agências de rating, afirmação de que ainda era possível dispensar a ajuda externa. Era a diplomacia na hora, sem rede. Como dizem os americanos: “my country, right or wrong.”

A partir de certa altura, Lisboa, como fonte de instruções, foi-se evanescendo. Telefonava a colegas portugueses noutros postos e todos comungavam do mesmo desconhecimento. Para além das declarações públicas, nada mais transpirava. Os escassos responsáveis políticos portugueses que consegui contactar também já não sabiam como ajudar. Representar um país por pressentimento é muito difícil.

Por aqueles dias do fim, senti uma estranha solidão e, em especial, a angústia de não saber o que fazer (ou se devia fazer algo), como representante de Portugal junto de um dos mais importantes países do mundo. Alguém costuma dizer que não há boa política externa sem boa política interna. Quando esta última se fragiliza a nossa capacidade de interlocução desaparece, de um dia para o outro. Foi o caso.

Recordarei para sempre uma conversa com um alto responsável do Eliseu, que, tendo-me chamado, teve a sensibilidade de não me inquirir para além daquilo que ele sabia que eu podia dizer (e saber), mas que me deixou palavras de discreto conforto, sem, contudo, as fazer soar de forma paternalista.

Depois, a toalha caiu no ringue. E o discurso mudou. É assim a vida de um diplomata, em democracia.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A nortada


Creio que nunca como nos nossos dias falamos tanto do clima. Verdade seja que poucas vezes houve razões tão ponderosas para que isso sucedesse. A consciência de que a vontade dos céus, por milénios tida como imprevisível e decisiva, afinal pode ser modulada, para o bem ou para o mal, pelos comportamentos terrenos foi ganhando progressiva atenção entre nós.

Todos nos recordamos como, há uns anos, as reflexões sobre alterações climáticas, tituladas por alguns, eram objeto de troça e tidas como coisas de "maluquinhos". O decorrer dos tempos, se alargou a consciência nesse domínio, não sustentou, em absoluto, como se pode observar na atual atitude oficial americana e de outros atores marginais ao bom senso, uma mobilização internacional de vontades capaz de travar o percurso para um desastre que, afinal, parece bem anunciado. Mais do que isso: que é prenunciado à saciedade pela gravidade crescente nos fenómenos climáticos extremos que teimam em repetir-se, alguns em registo de tragédia. Ver a juventude, à escala global, consciente da necessidade de travar essa batalha é um motivo de esperança, mas a esperança ainda fica à porta de uma vontade coletiva capaz de se impor.

Por cá, o mínimo que pode dizer-se é que os portugueses andam "intrigados" com o seu clima. Já perceberam, pelo passado recente, que podem vir a ter de suportar meses seguidos de seca, com o "bom clima" a chamar os turistas mas a fazer desesperar os agricultores. É o "sol na eira e a chuva no nabal", no seu modelo mais contemporâneo. Como a memória climática é uma das coisas frágeis no consciente coletivo, os clamores de que "há sol a mais" ou de que "esta chuva nunca mais para" alternam na conversa, sem racional nem equilíbrio.

Já não vivemos, contudo, no tempo do senhor Anthímio de Azevedo, que nos dava bitaites televisivos, assentes numa leitura tendencial do que aí vinha, produzida pela observação feita pelos barcos no Atlântico e pelos expectáveis humores desse arredondado património de ventos, nuvens e chuva que é o nosso - sim, porque é "nosso" - anticiclone dos Açores. Os satélites permitem hoje prever, com maior certeza, se devemos sair com guarda-chuva ou se um sobretudo se recomenda. Em tese, só se molha quem quer.

Sei isso bem. Porém, às vezes ainda dou comigo a medir mal os sinais do tempo. E, ao não atentar devidamente nesses avisos, ao decidir avançar impetuosamente contra o vento, numa esquina noturna da vida, convoco os demónios do tempo e levo com uma nortada forte. É a vida ou, como diz o outro, quem anda à chuva molha-se.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Europa e não só


Hoje, no suplemento especial sobre a Europa que a Sapo edita, está uma entrevista que dei a Isabel Tavares, que pode ser lida aqui.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Miguel Esteves Cardoso

                                       

É uma edição “pobre”, talvez para assim ser possível o livro ser vendido ao preço a que se apresenta. Divide-se em duas secções: comes e bebes. Recolhe as crónicas que Miguel Esteves Cardoso publicou no suplemento Fugas, do “Público”. É o tipo de volume para “ir lendo”, em muitos casos para recordar o que já tinha sido lido.

Conheço poucas pessoas a quem melhor se possa aplicar, com rigor, a expressão “epicurista” do que a Miguel Esteves Cardoso: alguém que tem um sábio usufruto dos prazeres, numa versão sintética do termo. Desde há anos que sigo a sua escrita (não o conheço pessoalmente), o magnífico uso que faz da língua portuguesa, o modo como olha a vida e sabe tratar os pormenores do quotidiano que a outros podem escapar. 

Imagino que aquilo que escreve possa ser irritante para alguns (às vezes, eu próprio também me irrito), surgir até um pouco pretensioso, mas acho fantástico o equilíbrio que quase sempre consegue obter numa escrita que combina uma óbvia erudição com a abordagem, mais ou menos feliz, de coisas frequentemente simples, que outros não teriam notado. Às vezes, pode ser visto como demasiado ligeiro, em outras envereda por terrenos que se podem tornar algo crípticos para leitores não iniciados. No saldo final, a qualidade da sua intervenção é quase sempre indiscutível. 

(Não é minha intenção trazer a terreiro de discussão os seus polémicos tempos de “O Independente” e de outras suas aventuras da época, porque as idades têm-se na altura própria.)

Miguel Esteves Cardoso é filho de uma senhora britânica, cujos genes parece estarem bem presentes no seu poder de observação distanciada, às vezes cruel, da realidade lusitana. O seu pai foi um quadro superior do Estado, que cheguei a encontrar em tramitações negociais no âmbito diplomático. Lembro-o como uma figura grande, muito interessante, inquieta, criativa, muito pouco burocrática para os padrões desses anos 70 do século passado. Miguel Esteves Cardoso é talvez a síntese dessas duas personalidades. Lê-lo é sempre um prazer.

domingo, 7 de abril de 2019

Panoramas


Ontem, aproveitando um dia de “boas abertas”, fiz uma incursão na Outra Banda, procurando descobrir todas, repito, todas as perspetivas possíveis sobre a costa de Lisboa que, da Trafaria a Almada, se pudessem descortinar. As hipóteses, apurei, não são muitas: os acessos ao rio ou à sua visão são escassos, mas, onde isso foi possível, usufruí de panoramas soberbos, num fim de tarde deslumbrante. A luz do sol declinante conferia a tudo aquilo uma imensa beleza, ainda que distante, desde Lisboa ao início da “linha”. 

Dei comigo a pensar que era precisamente essa distância a que estava da outra costa que impedia que se notassem alguns “monos” que, na realidade, existem ao longo desse panorama, desconchavos urbanísticos ou fabris que arruínam o equilíbrio global da paisagem. 

Quantas vezes, por esse país fora, não deparamos com o resultado da prevalência do mau gosto, que estraga espaços interessantes, seja em zonas construídas, seja rompendo, com brutalidade, áreas naturais muito homogéneas. Como alguns amigos arquitetos me têm dito, acaba por ser quase tão caro construir coisas feias como elementos que, com algum cuidado, poderiam agredir bastante menos a paisagem. Mas pouca gente parece ligar a isto.

Perto de Deauville, no norte de França, Calouste Gulbenkian adquiriu, em 1937, um grande espaço de natureza, Les Enclos. Trata-se de uma mistura imaginativa onde foram construídos jardins, junto de prados e de bosques, um projeto que revela uma sensibilidade que talvez nos ajude a "ler" melhor a mentalidade do filantropo. Há A Fundação Gulbenkian decidiu em 1973 doar essa propriedade à municipalidade de Deauville, o que, há cerca de uma década, mereceu uma homenagem da Mairie à Fundação, ato a que assisti.

A certo ponto da muito completa visita feita ao espaço, que hoje creio ser visitável, e apontando-me um panorama soberbo que Calouste Gulbenkian criara deliberadamente, como linha de harmonia entre duas alas de verde - de imensos e diferentes verdes, que também nos ajudam a perceber melhor alguma pintura impressionista -, o delegado local do Ministério francês da Cultura explicou-me que todo aquele panorama, até ao infinito que é visível, está hoje protegido por lei, sendo insuscetível de ser objeto de qualquer construção, ou mesmo de um mero rearranjo arbóreo alternativo, sem autorização legal, sob pena de procedimento criminal. Fiquei siderado, ainda mais quando me foi explicado que há bastantes outros exemplos análogos por todo o território francês.

O que isto significa em matéria de civilização! E que “pobre” país é a França, que conserva paisagens que não podem, com facilidade legal, ser beneficiadas com a instalação de um qualquer barracão de zinco de cores berrantes ou com a graça de uma pedreira a céu aberto!

sábado, 6 de abril de 2019

O CGI e a independência da RTP


O antigo administrador da RTP, Nuno Artur Silva, disse hoje que, desde que na RTP foi criado o Conselho Geral Independente (CGI), “não há interferência do poder político, ponto".

Como um dos seis membros que integram o Conselho Geral Independente da RTP, gostei de ler esta declaração.

Brexit


Há quantos anos que não comprava o “The Daily Telegraph”, o mais conservador dos “quality papers” britânicos! Mas, com este antetítulo a amarelo, não resisti. E não me arrependi.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Clube de Lisboa

O Clube de Lisboa nasceu há dois anos. Hoje, reune mais de uma centena de pessoas e algumas entidades que, entre nós, se interessam pelos temas internacionais, oriundas de diversas e áreas profissionais e políticas - académicos, diplomatas, jornalistas, empresários, estudantes, etc. 

Não tem quaisquer fins lucrativos, vive exclusivamente das quotas que os seus associados pagam, utiliza espaços cedidos por diversas instituições para os seus eventos e tem como única finalidade ajudar a consagrar Lisboa como espaço de debate para questões de natureza global, para o que mantém parcerias com várias entidades.

O Clube de Lisboa não tem como objeto de análise a política externa portuguesa mas, naturalmente, os interesses de Portugal na ordem internacional não deixam de estar presentes na seleção da temáticas que elege.

Regularmente, o Clube de Lisboa organiza os chamados “Lisbon Talks”, onde se cruzam vozes portuguesas e estrangeiras no debate de temáticas muito diversas - da segurança à transição energética, dos mares ao desenvolvimento, etc. 

O Clube de Lisboa nasceu na sequência das Conferências de Lisboa, que, de dois em dois anos, desde 2014, reunem na capital portuguesa dezenas de especialistas internacionais, em torno um tema central. A 3ª Conferência teve lugar em 2018, foi aberta pelo Presidente da República e sobre ela o Clube acaba de editar um livro.

A primeira direção do Clube foi eleita em 4 de abril de 2017 e terminou funções ontem, data em que, em Assembleia Geral, foram renovados os seus corpos gerentes. Nos próximos dois anos cabe-me a presidência da direção, com Miguel Anacoreta Correia na presidência da Assembleia Geral, António Rebelo de Sousa na presidência do Conselho Fiscal e António Monteiro como presidente do Conselho Estratégico. O diretor executivo do Clube de Lisboa é Fernando Jorge Cardoso.

Quem estiver interessado em saber um pouco mais sobre o Clube de Lisboa, quiser propor-se para associado ou, simplesmente, desejar frequentar as suas atividades é muito bem vindo e pode inscrever-se aqui:


https://www.clubelisboa.pt/clube-lisboa/

Eleições

A pré-campanha para as eleições europeias revela já que elas não vão ser muito mais do que uma “primeira volta” das eleições legislativas. 

É pena. Este é talvez o ano em que as questões europeias são verdadeiramente decisivas e é triste ver os partidos políticos portugueses ausentes deste debate.

“Jornal Económico”




A farda


Nesta imagem antiga, que ontem apareceu no Facebook, o meu amigo e colega José de Bouza Serrano surge, elegantíssimo, na sua farda ou uniforme diplomático, prestes a apresentar credenciais junto de uma das várias cortes por onde muito bem representou Portugal como diplomata.

Mas os diplomatas têm farda?, perguntarão alguns. Existe, em algumas carreiras diplomáticas mais antigas, como é o caso da portuguesa, um uniforme histórico, que acompanha com um chapéu de bicórnio e um espadim. 

Não se trata, de forma alguma, de um traje de uso obrigatório. Cabe a cada diplomata decidir se adquire ou não a farda, tendo como única limitação, ao que me lembro, o facto das “ramagens” douradas incluídas no traje só poderem ir aumentando em “densidade” com a respetiva progressão na carreira. Mas é de “bom tom”, segundo sempre ouvi a alguns colegas mais ritualistas, manter a farda apenas com a quantidade de “dourados” que o seu proprietário tinha direito a usar nos seus tempos de juventude profissional.

Poucos diplomatas, contudo, têm hoje uma farda. A mim, por exemplo, nunca me passou pela cabeça adquirir uma, embora reconheça que se trata de um belo uniforme e que confere grande dignidade formal o surgimento público de colegas, nas ocasiões mais solenes em que tal se justifica, vestidos com aquele traje. 

As fardas, que são bastante caras, herdam-se ou compram-se, mesmo usadas, sendo vulgar ouvir, nos claustros das Necessidades, que “fulano usa a farda que foi de beltrano”. Peculiaridades de uma profissão muito peculiar...

O José Bouza Serrano, que muito estimulei a que entrasse para a carreira diplomática, como ele às vezes lembra e com o que eu sempre muito me congratulo, é uma pessoa que tem dado grande atenção às “liturgias” da casa. Chegou mesmo a chefe do Protocolo do Estado, sendo autor de uma obra de referência sobre o tema. 

Desde muito novo que o Zé usou uniforme diplomático. E eu sei a origem da sua primeira farda. Num dia de 1980, o Zé Bouza foi à Noruega, onde eu então estava colocado, preparar uma visita de Estado do presidente Ramalho Eanes. Numa conversa com o embaixador português em Oslo, António Cabrita Matias, este referiu que tinha uma farda diplomática, que pretendia vender. O Zé, de imediato, mostrou-se interessado em adquiri-la. E assim aconteceu.

Não testemunhei os pormenores quantitativos da transação, mas recordo que o embaixador logo referiu que, antes da entrega da farda ao seu novo proprietário, gostaria de tirar algumas fotografias com ela vestida, para guardar como recordação. 

Ora eu tinha comprado, poucos dias antes, uma sofisticada máquina fotográfica, cujo funcionamento me entretinha a estudar. E, naturalmente, ofereci-me para ser o autor desses retratos.

No dia seguinte, munido do novo aparato, lá apareci para a tarefa na residência do embaixador, que surgiu, garboso, nesse uniforme engalanado. Em várias poses, com ele a descer e a subir escadas, em cenários diversos dessa moradia na Drammensveien, fiz uma reportagem completa, destinada aos arquivos do meu chefe. O Zé Bouza testemunhou esses meus momentos de artista. E, depois, regressou a Lisboa, satisfeito com a farda adquirida ao embaixador.

Dias depois, passei pela loja onde tinha mandado revelar o rolo, para levantar as fotografias. Fiquei gelado, mais do que era vulgar naquele país, quando me foi dito que, por um qualquer erro mecânico meu, nenhuma imagem tinha ficado gravada. O embaixador iria assim ficar sem qualquer recordação da sua velha farda e lá tive eu de dizer-lhe, “de corda ao pescoço”, a penosa notícia. Já não recordo como a recebeu, mas registo que, aparentemente, o infausto episódio não veio a influenciar a minha carreira...

A minha única curiosidade é saber se a farda que o José Bouza Serrano exibe na fotografia que acompanha este texto é ainda aquela que o meu antigo embaixador lhe vendeu há quase quatro décadas! Alargada, claro!

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Bouteflika


Em 1997, fui à Argélia, representar Portugal numa reunião do Forum do Mediterrâneo. A cidade vivia num ambiente de forte tensão securitária. Como era então de regra local, e tinha já acontecido numa anterior visita, fomos colocados numa “guesthouse” fortemente protegida. Ali se passavam também todas as reuniões, o que conferia ao exercício um ambiente de exceção, que não favorecia a narrativa de normalidade que o governo argelino pretendia transmitir pelo mundo, por aqueles dias. 

Salvo a vinda e o regresso do aeroporto, sempre sob escolta, a única surtida durante a nossa estada foi uma inesperada visita ao presidente da República de então, Liamine Zéroual, com cada chefe de delegação num carro blindado, num cortejo silencioso por ruas de Argel tornadas desertas por nossa causa. Ainda guardo algures uma fotografia desse momento, que não teve grandes palavras, com um pesado ambiente protocolar.

O nosso embaixador local, José Stichini Vilela, num dos escassos períodos livres que tínhamos entre as reuniões, foi-me buscar à “guesthouse” para um almoço no hotel Hilton (curiosamente, em todas as vezes na minha vida em que fui a Argel, acabei sempre por almoçar ou jantar por ali, o que revela que se trata de um incontornável ponto social dos roteiros locais). 

Conhecedor dos meus gostos políticos, o Zé levou consigo uma antiga figura política argelina, que tinha tido contacto com a resistência democrática ao Estado Novo. Argel, nos anos 60, havia sido como que a “capital” no exterior da oposição portuguesa. Era um homem idoso, loquaz, que conhecera fugazmente Humberto Delgado, sobre quem não tinha uma opinião muito lisonjeira. Não fixei o nome do nosso interlocutor e, até hoje, não consegui sabê-lo.

A certo ponto da conversa, perguntei-lhe por Abdelaziz Bouteflika, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros dos tempos do presidente Boumédiène. 

O nome era bastante conhecido pelo mundo, tendo para sempre ficado, até para a história, a sua fotografia (na imagem, ao centro, de escuro, com bigode e cabelo farto) no aeroporto de Argel, em dezembro de 1975, ao lado de “Carlos”, (à direita, de boina), o revolucionário venezuelano que acabara de liderar o ataque à sede da Opep, em Viena e que por ali negociava a libertação dos reféns, depois desse ato terrorista. O meu companheiro de conversa reagiu então de forma imperativa: “Bouteflika? Anda por aí! É um cadáver político, na Argélia atual. Não tem o menor futuro!”.

Lembrei-me para sempre dessa espantosa “previsão”, que, até para mim, pouco conhecedor da trama política local, me surpreendeu. E com alguma razão: dois anos depois, Bouteflika viria a ser eleito presidente da Argélia, lugar de onde apenas saiu ontem... vinte anos depois ! Para “cadáver”, há que convir que não se saiu mal...

A China que aí chega


A China foi sempre um parceiro incomum na cena internacional. Por muito tempo, o maior país do mundo projetou uma imagem à qual vinham associadas algumas peculiaridades culturais que, manifestamente, se tornavam de difícil leitura na esfera ocidental. Os “sinólogos” prosperavam nessa exegese nunca unívoca, com o gigantismo do país e o desconhecimento das suas várias realidades internas a tornarem difícil uma qualquer previsão de atitudes do lado de Pequim. A China era um mistério mas, por muito tempo, não era vista como uma ameaça, não obstante a premonição atribuída a Napoleão: “quando a China acordar, o mundo tremerá”.

Com escassas exceções na sua história contemporânea, a China não revelou um pendor de agressividade militar externa, muito embora a sua atitude perante a vizinhança geopolítica tenha sido sempre caraterizada por uma marca de inflexibilidade. Uma diferente gestão histórica do tempo, que não é um mito mas uma evidência, contribuiu para adensar o mistério sobre os desígnios estratégicos de Pequim, sendo visivelmente neste registo que se enquadra a sua relação com Taipé.

Os EUA tentaram cavalgar o conflito sino-soviético promovendo a cooptação de Pequim para a primeira linha da cena internacional. O “realismo” de Kissinger mudou a realidade internacional mas, curiosamente, acabada a Guerra Fria e consagrada a humilhação de Moscovo, não se viu a China, por quase três décadas, exagerar na afirmação do seu papel como ator político global. 

O que se viu foi o seu interesse em explorar um intenso bilateralismo com determinadas áreas, mais visivelmente em África mas igualmente noutras zonas do mundo, como a Europa, tendo a economia como base determinante. O acesso da China à OMC, que hoje alguns se arrependem de ter facilitado, ajudou muito. O crescimento e o bem-estar tinham passado a estar no posto de comando de um modelo político que, bizarramente, combina o rigor centralista do socialismo com os genes do capitalismo. Uma fragilidade continua, no entanto, evidente: a demanda energética, que obriga a China a desenhar um padrão de relações externas muito heterogéneo.

A China é hoje um indiscutível gigante tecnológico, depois de anos de caricatura como produtor de quinquilharias baratas. É um poder adversarial – político, económico, militar? Para os EUA, isso é uma evidência. A Europa, neste domínio, vive ainda um momento esquizofrénico: olha com apetite aquele que é o seu principal mercado, mas começa a acordar para o desafio estratégico que vê chegar.

(Artigo ontem publicado no “Jornal de Notícias”)

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Capela do Rato

Na sua atividade incessante, Leonor Xavier organizou hoje, na Capela do Rato, uma leitura de textos tendo como mote a Mulher. Convidou para participarem umas dezenas de amigos.

Na maior parte dos casos foram lidos poemas, mas houve pessoas que optaram por textos em prosa. Outras cantaram.

Hesitei bastante. Pensei em coisas alegres como “A mulher que passa”, que Vinicius de Morais escreveu uma década antes de eu nascer. Ou no romantismo contemporâneo de José Luis Peixoto, com “A mulher mais bonita do mundo”.

Por fim, decidi ler um belíssimo poema triste, de Eugénio de Andrade, intitulado “Pequena elegia de setembro”:

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eça e as mulheres de Vila Real


Na escolha de uns textos para um determinado fim, surgiu-me hoje este conhecido texto de Eça de Queiroz, incluído no conto “Singularidades de uma Rapariga Loira”, que é a maior elegia que conheço às mulheres da minha terra, de Vila Real (que o escritor coloca no Minho...) Aqui deixo esse extrato:

“A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio – e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada: o homem estava defronte de mim, comendo tranquilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos dedos – se ele era de Vila Real.

– Vivo lá. Há muitos anos, disse-me ele.

– Terra de mulheres bonitas, segundo me consta, disse eu.

O homem calou-se.

– Hein?, tornei.

O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo dilatadamente, loquaz, e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso fino.

Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia decerto no destino daquele velho uma mulher. Aí estava o seu melodrama ou a sua farsa, porque inconscientemente estabeleci- me na ideia de que o facto, o caso daquele homem, devera ser grotesco, e exalar escárnio.

De sorte que lhe disse:

– A mim têm-me afirmado que as mulheres de Vila Real são as mais bonitas do Minho. Para olhos pretos Guimarães, para corpos Santo Aleixo, para tranças os Arcos: é lá que se vêem os cabelos claros cor de trigo.

O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.

– Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante – e para isto tudo Vila Real. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Real. Talvez conheça. O Peixoto, um alto, de barba loira, bacharel.

– O Peixoto, sim, disse-me ele, olhando gravemente para mim.

– Veio casar a Vila Real como antigamente se ia casar à Andaluzia – questão de arranjar a fina- flor da perfeição. – À sua saúde.

Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo pesado, e eu reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com sola forte e atilhos de coiro. E saiu.”

A China que aí chega


Este é o título do artigo que hoje publico no Jornal de Notícias e que pode ler aqui

Geopolítica e mobilidade

Uma conferência que hoje profiro nas Infraestruturas de Portugal, em Lisboa

terça-feira, 2 de abril de 2019

Leonor (3)


Uma historieta deliciosa que, já não sei a propósito de quê, Sérgio Godinho relatou, na conversa que teve com Leonor Xavier, durante a apresentação do livro desta última, no CCB, hoje à tarde.

Havia, há muitos anos, uma tasquinha pequena, numa determinada localidade da província portuguesa, propriedade de um casal muito idoso de beirões. A senhora estava na cozinha, o marido servia na sala e os pratos, sendo de grande simplicidade, eram de uma qualidade magnífica. Tinham poucas mesas, mas a casa estava quase sempre cheia.

Havia um senão: não serviam café. Quem por ali comia tinha, no final da refeição, de atravessar a rua e ir a uma confeitaria em frente, para ir tomar a bica. Alguns clientes começaram a embirrar com a lacuna e, um dia, confrontaram com isso o simpático proprietário, a quem estimularam a munir a casa de uma máquina de café.

O homem respondeu que não era nada que ele e a sua mulher não tivessem já pensado, acrescentando: “Mas já decidimos que não vamos comprar. Nós não temos filhos nem herdeiros. Quando isto acabar, para quem haveria de ficar a máquina?”

Leonor (2)


Leonor Xavier, durante a apresentação do seu livro, na tarde de hoje, contou uma magnífica história ocorrida com Nélida Piñon, a grande escritora brasileira, sua grande amiga.

Um dia, em Lisboa, Nélida apanhou um taxi, cujo motorista se revelou uma figura incomodativa e mal-educada. O seu comportamento agravou-se durante toda a viagem, roçando o insuportável. A escritora conteve-se até ao final. 

Depois de pagar a corrida, para imensa surpresa do homem, cujo primarismo não ia ao ponto de não entender o nível do seu próprio comportamento, ofertou-o com uma gorgeta de 10 euros. Mas acrescentou: “Estes 10 euros é para agradecer várias coisas: você não ser meu marido, não ser meu amigo, não ser meu conhecido e eu ter ficado com a certeza absoluta de que nunca mais o vou ver!”

Leonor (1)


Fomos muitos, com bastantes a ficarem em pé, a estarem hoje à tarde do CCB na apresentação do novo livro de Leonor Xavier “Há laranjeiras em Atenas”.

Andava intrigado em tentar perceber de onde vinha o estilo literário da Leonor. Hoje entendi. Foi o Brasil, o modelo de crónica que por lá se pratica com grande maestria que enformou a sua escrita. É aquele jeito, ao mesmo tempo simples e sensível, que ela transporta para as suas observações riquíssimas do quotidiano, que nos agarra até ao fim de cada um daqueles textos. 

A Leonor é minha amiga, mas a recomendação que faço de que leiam este livro não tem, a sério!, nada a ver com essa circunstância.

Pouco Comuns


Estive poucas vezes na galerias da Câmara dos Comuns, em Londres. Sempre para assistir a debates que eram anunciados como importantes, nos tempos de Margareth Thatcher e do “game, set and match” que John Major disse ter ganho em Maastricht. 

Eram momentos interessantes que, ao vivo, nos permitiam apreciar a coreografia das figuras cimeiras (e outras um pouco menos) da vida política britânica de então. Recordo ter assistido a uma cena em que o famoso reverendo protestante irlandês, Ian Paisley, foi expulso, por ordem da “speaker”, conduzido para fora da sala pelo “serjeant-at-arms”. Um espetáculo! 

A visão da sala, na zona do público, lá do alto, não é muito favorável. Apesar disso, as regras eram muito estritas, Não sei como são hoje as coisas por lá mas, nesse tempo dos anos 90, não se podia sequer tomar notas, nem levar um jornal debaixo do braço.

Ao ver ontem esta fotografia, da bizarra manifestação naquelas “sacrossantas” galerias, imagino o que sentirão os britânicos mais tradicionalistas. E o que os outros se divertirão.

A verdade é que o atual “speaker”, John Berkow, tem hoje um estilo (e umas gravatas, que lembram as do jornalista televisivo Jeremy Paxton) bastante mais solto do que então era mantido pela sua antecessora do meu tempo, com ar de mestre-escola, Betty Boothroyd. Mas, convenhamos, há limites!

Schengen


A geração Interrail já quase não soube o que eram fronteiras dentro da Europa comunitária. A geração Ryanair nasceu sem elas. A geração Erasmus nem sonha o que isso era.

Sem a menor saudade - era só o que faltava! -, noto que a minha geração foi ainda a dos passaportes azuis, das filas nos postos de “aduana”, de um friozinho indefinível de incómodo a correr pela espinha quando os agentes nos olhavam, saltitando entre a nossa cara e a fotografia a-preto-e-branco no documento de viagem, verificando o selo branco da declaração militar que fazia o favor de nos deixar, por tempo bem determinado, ir a um país estrangeiro. O fim da ditadura, a entrada para a União Europeia e, em especial, a entrada em vigor do espaço Schengen acabou com tudo isso.

No sábado, num debate sobre refugiados em que participei, foi com agrado que vi a jovem moderadora declarar-se uma “fã” incondicional de Schengen. E outras pessoas na sala e no painel a concordarem com ela. Eu também. 

A experiência tem demonstrado que o fim das fronteiras e a livre circulação de pessoas entre grande parte dos países da União Europeia constituiu um importante fator de facilitação das relações económicas, de promoção do turismo, de multiplicação de contacto intercultural. Schengen tem alguns riscos? Claro que sim, mas as suas vantagens sobrelevam-nos em muito.