quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Manuel Cardoso Simões



96 anos é uma idade bonita para se morrer. Manuel Cardoso Simões sai agora de uma vida intensa, que dedicou à agricultura e ao desenvolvimento da região que, desde há muito, tinha adotado como sua. 

Vila Real deve-lhe muito mas, principalmente, o empenhamento na ideia daquilo que hoje é a UTAD. Ainda há meses, o professor Valente de Oliveira me falava das inúmeras vezes que o engenheiro Cardoso Simões batia à porta do seu gabinete de ministro para promover a instalação dos estudos superiores em Trás-os-Montes. Era difícil travá-lo! 

O meu amigo Manuel Cardoso Simões era um homem caloroso, sorridente, sempre cheio de ideias, um entusiasta da vida. Nos últimos anos, viamo-nos pouco, telefonávamo-nos pelos Natais. A sua voz ia esmaecendo, mas eu sentia que ele se agarrava à existência com o vigor de sempre. Até ontem.

O meu sincero pesar à sua Família.

Falatório



Nikki Halley, a embaixadora americana na ONU, que pediu para sair do cargo por razões nunca muito bem explicadas, tem vindo a dizer, em várias ocasiões, não ser candidata ao lugar de vice-presidente, substituindo Mike Pence, num futuro segundo mandato de Trump. Ontem, uma fonte semi-oficial dizia que, aparentemente, a única pessoa que espalha esse rumor é ... a própria Nikki Halley.

Isto fez-me lembrar uma história passada no Montecarlo, o café lisboeta onde, antes do 25 de abril, nos juntávamos para noites de bela e solta conversa. 

Havia por ali um jornalista, conjunturalmente desempregado, um tipo com alguma graça, que, num certo período, se sentava nas nossas mesas. Todos sabíamos que ele andava “deserto” para entrar para o ”Diário de Lisboa”, à época um prestigiado vespertino, com muita da “nata” do jornalismo a escrever por lá. Mas o convite não chegava, como, aliás, nunca chegaria. 

A conversa dele sobre o assunto era em tom desafiante, do estilo: “Queres saber que há aí uns palermas a dizer que eu vou para o ‘Lisboa’! Como se eu aceitasse, assim do pé para a mão!” E eu, para o ouvir, ia dizendo: “Também já alguém me falou isso, há uns dias, mas já nem sei quem foi ...” Ele, ansioso: “Não te lembras quem foi?” Eu “esquecido”, reprimindo a crueldade, com vontade de dizer: “Foste tu!”

Voto obrigatório


A SAPO pediu-me uma ideia para o ciclo político posterior às próximas eleições. Fui de opinião de que deveríamos pensar em tornar obrigatório o voto, como acontece em outros países. Veja aqui porquê.

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Inconsútil


Não é para aqui chamado o significado da palavra “inconsútil”. Não interessa para esta história.

Ontem, ao ler o prefácio de José Sarney (já estou a imaginar alguns: “Quem este tipo anda a ler!”) a um livro de ficção de Carlos Lacerda (“Pior! O Lacerda! O que levou o Getúlio ao suicídio!”), deparei-me com a palavra “inconsútil”. Sei o que ela significa mas, como disse, isso nada vem para o caso.

E foi então que me lembrei do que o meu velho amigo Carlos Veiga Ferreira, um heróico editor da nossa praça, um dia disse quando lhe perguntaram por que razão havia decidido dar à sua mais recente editora (porque o Carlos é reincidente) o nome de Teodolito. Aqui vai:

Havia um poeta meritório, que já morreu há muito tempo chamado António de Sousa e mostrou vários poemas ao Herberto Helder. A determinada altura, havia um verso que dizia qualquer coisa ‘noite inconsútil’ e o Herberto perguntou-lhe: O poema é giro mas António você sabe o que é ‘inconsútil’ ? E o António respondeu: ‘Não sei nem me interessa mas é uma palavra muito bonita.’ Eu sei o que é um teodolito e foi por causa disso e também remete para um texto brilhante do Luiz Pacheco que se chamava ‘O Teodolito’ ".

E, repito, o que “inconsútil” significa não vem ao caso. Quando vier, todos temos dicionários para isso.

(“Que raio de história!”, dirão alguns. É o meu conceito de serviços mínimos, como transportador estival de matérias inúteis)

Sinais de fumo



Das grandes economias, chegam sinais de abrandamento no crescimento, a que se soma uma conflitualidade político-comercial com impacto global, tudo contribuindo para uma instabilidade psicológica dos mercados. Terão sido suficientes as lições da crise anterior?

A ideia de trazer os emergentes e outros países relevantes para um diálogo no seio do G20 resultou bastante aquém das expetativas. A Rússia saiu também entretanto do G8, a China entrou num inédito ciclo de bipolaridade e o Brasil está no estado em que está. E, acima de tudo isso, os Estados Unidos afirmam uma agenda egoísta de reforço do seu poder, voltando deliberadamente as costas à gestão multilateral da ordem mundial, quebrando mesmo alguns laços que haviam desenhado pelo mundo, depois de 1945.

Muito daquilo que os especialistas recomendavam que fosse feito, na blindagem financeira da Europa do euro, não chegou a concluir-se. Por falta de consenso político, a UE ficou a meio caminho do reforço institucional do seu eixo económico e monetário, havendo infelizmente a certeza de que, se um novo ciclo de crise surgir, o ambiente de potencial solidariedade coletiva para a adoção de medidas “ad hoc” será inferior ao do passado. Costa tinha razão ao tentar colocar nas instituições europeias figuras que pudessem contrariar isso. É que há ainda que contar com a fragilidade das lideranças das duas maiores economias europeias, as incógnitas do Brexit e a deriva italiana. E a saída de Mario Draghi do BCE não é também a melhor das notícias.

Portugal é uma pequena economia aberta, muito dependente de mercados externos que, tudo o indica, vão começar a retrair-se. O destino económico imediato de países como a Espanha, a França, a Alemanha ou o Reino Unido é vital para nós e, por muito que alguns “sábios” tentem iludir isso, não está nas nossas mãos fazer algo que possa contrariar uma sua potencial dinâmica negativa. Outros mercados alternativos têm limites de expansão e, se se entrar num período de recessão global, embora eventualmente com alguma “décalage” temporal, todos sofrerão também uma inevitável retração. Não é nada agradável pertencer a uma economia que não tem meios de controlar o futuro daquilo que essencialmente a condiciona.

Alguns, esfregando as mãos ressabiadas, perguntarão: é o “diabo” que, finalmente, chega? Quem se enganou na chegada do Mafarrico, enganou-se, redondamente, no período em que o aguardava. Agora, poderá ter “razão”? Se eu disser que, daqui a uns tempos, vai chover passo a génio da futurologia?

terça-feira, 20 de agosto de 2019

“Do not disturb”


Há muitos anos, um amigo, que me sabia peregrino regular por muitos e desvairados hotéis, teve a coragem de pedir que lhe trouxesse, de cada alojamento diferente, os avisos “Do not disturb”, que se colocam no exterior dos portas dos quartos, quando queremos ter um garantido sossego face às investidas do pessoal. 

Porque, à época, era um pouco mais insensato do que hoje ainda sou, fiz-lhe a vontade e, por alguns tempos, lá coletei esses avisos, oferecendo-os a esse amigo, que se mostrava deliciado na receção de cada fornecimento. Um dia, porém, tive um rebate de consciência e passei a ter o juízo suficiente para passar a respeitar, em absoluto, o património dos hotéis. (Hoje, só sou tentado quando eles disponibilizam sabonetes de boa qualidade, o que, aliás, é cada vez mais raro).

Esse meu amigo, um querido amigo que dava pelo nome de Álvaro Magalhães dos Santos, já se foi desta para melhor há bastante tempo. Lembrei-me dele hoje, ao deparar, no quarto de um hotel, com este belo exemplar de aviso. O paradoxo é que, tendo a certeza de que ele o apreciaria pelo bom gosto, ironicamente, a mensagem já não se lhe adequaria.

Não faço ideia do que terá acontecido à coleção de “Do not disturb” do Álvaro, embora possa imaginar que, no lugar onde está, não necessite de colocar avisos para lhe não perturbarem o sossego eterno.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A hora de Alexandre

O olhar da secretária que me esperava na porta do elevador não enganava. “Cheguei tarde?” Era a minha primeira reunião como membro da administração da empresa. “Não chegou tarde, mas tem de ir já para a sala do conselho”. Não entendi o que se estava a passar: estava antes da hora indicada. Quando entrei, Alexandre Soares dos Santos levantou-se da mesa, onde estavam todos menos eu, para me cumprimentar. “Já vai conhecer os hábitos da casa”, disse-me, num tom que vim a perceber ser muito dele, entre o frio profissional e o cordial bem humano.

Para encurtar a história: a reunião estava marcada, de facto, para a hora que eu tinha apontado mas, com Alexandre Soares dos Santos, elas começavam, em regra, uns bons minutos antes. Era a famosa “hora de Alexandre”. Foi a minha primeira lição na Jerónimo Martins.

12.12.12. Fixei este número porque é a data em que, ainda embaixador em Paris, recebi uma chamada de Alexandre Soares dos Santos que, tendo sabido do meu próximo regresso a Lisboa, me convidava a integrar a administração da empresa. Foi uma completa surpresa. Dias depois, numa conversa pessoal, disse-me que gostava que eu o ajudasse a “olhar para o futuro”, em termos geopolíticos, antecipando tendências e problemas. A Jerónimo Martins estava em três geografias, podia vir a alargar a sua ação e esses passos deviam ser tão seguros quanto possível. “Não preciso de si para quaisquer contactos. Nunca lhe irei pedir nada nesse domínio”. E nunca pediu.

Eu havia conhecido Alexandre Soares dos Santos, um ano antes, numa reunião em que a Gulbenkian reuniu os Conselhos Gerais das universidades públicas. Ele presidia à Universidade de Aveiro, eu à UTAD. Conversámos durante o almoço. Anotei, sem a menor surpresa, que a sua perspetiva sobre algumas coisas divergia da minha. Disse-lhe isso no nosso primeiro encontro. “Eu sei o que pensa”, respondeu-me, sorrindo. Nos anos seguintes, e já lá vão mais de seis, nunca o que escrevi ou disse no espaço público, muitas vezes à clara revelia daquilo que sabia serem as suas ideias, mereceu, da sua parte, a menor observação ou sinal de desagrado. 

Alexandre Soares dos Santos foi muito criticado por algumas decisões polémicas e por posturas que, com frontalidade, sempre entendeu dever assumir, na área política e económica. Nunca se refugiou atrás de fórmulas redondas, para deixar bem claro o que pensava. Ninguém o pode acusar de falta de coragem.

Em tempos de crise, dizia que gostava de poder “fechar” os atores partidários numa sala, durante uma dúzia de horas, até que se entendessem numa agenda para os próximos 10 anos. “Não é possível que gente que diz querer o melhor para Portugal não consiga um acordo sobre o essencial”. Ele próprio teria consciência de que as coisas eram mais complicadas do que essa ideia pressupunha. Era, porém, o seu desespero - acho que a palavra é esta - perante a falta de soluções racionais que o mobilizava. É também daí, estou certo, o seu grande empenhamento na Fundação Francisco Manuel dos Santos, que sempre viu como a contribuição que a sua empresa podia, e devia, prestar ao país, pensando-o com rigor.

Julgo ter conhecido suficientemente Alexandre Soares dos Santos para poder dizer, com toda a convicção, que, com a sua desaparição, se perde um criador empresarial como muito poucos que o país teve nas últimas décadas. Desapareceu alguém que o tempo ajudará a julgar como um homem de boa vontade, cuja memória permanecerá muito para além das caricaturas que alguns dele foram fazendo. E eu perdi um amigo.

A greve

A greve dos transportadores de combustíveis acabou. Pelo menos, por agora. Algumas pessoas encontraram na antipatia que lhes despertava o tom pomposo do (bem estranho) representante dos trabalhadores uma subliminar e oportuna justificação para disfarçarem o óbvio: o incómodo que a possibilidade de falta continuada dos combustíveis iria implicar para o seu conforto. Confesso, sem o menor pejo, que foi o que aconteceu comigo. O que eu não queria era a greve e, quando ela começou, desejava que ela acabasse rapidamente. Como, em especial em férias, raramente vejo um noticiário televisivo com som (alimento-me de rodapés), tinham-me escapado as razões salariais dos motoristas. Quando li qualquer coisa sobre elas, devo dizer que passei a ver a sua posição com mais compreensão. Isso também foi ajudado por ter ouvido uma declaração do representante das empresas, uma emproada personagem com ar grave, cujo nome agora me escapa e que logo achei, em termos de antipatia competitiva, ser um digno émulo do tal Pardal. Quem é que, afinal, tinha (a principal) razão? Não sei, tanto mais que não acho que um cidadão comum tenha de ter opinião sobre tudo o que mexe no país. Nesta crise, o que eu queria, muito simplesmente, é que a greve acabasse. Como ela acabou, estou satisfeito. Ponto.

domingo, 18 de agosto de 2019

A deriva italiana


Quando, na década que sedimentou a paz do pós-guerra, a Itália foi cooptada para a construção do projeto de unificação (então só) económica da Europa, houve a clara consciência de que a unidade daquele país, não tão antiga quanto isso, muito dependeria das sinergias desse modelo agregador. Talvez nenhum outro Estado europeu mantivesse, no seu interior, diferenças regionais tão pronunciadas de desenvolvimento, quiçá mesmo de mentalidades. O seu próprio sistema político era tributário dessas divergências, que tiveram expressão concreta nos afloramentos terroristas, de sentidos extremistas opostos, que marcaram alguns “anos de chumbo”. 

A fórmula constitucional que colocava a democracia cristã e um certo socialismo nas calhas regulares de acesso ao poder, com um partido comunista que evoluía para um “compromisso histórico” com esse duopólio, revelou-se, a certo passo, incapaz de sustentar, com legitimidade, a vontade coletiva. O mal-estar com certos poderes fáticos levou ao afloramento populista de uma “república de juízes” e, no termo de uma crise, um modelo político com décadas acabou por ceder. Dessa implosão nasceu uma constelação partidária de novo tipo, que, num primeiro tempo, fez emergir figuras como Berlusconni e deu expressão ao separatismo arrogante do norte do país. A densidade de algumas dessas novas forças acabou por revelar-se frágil e, rapidamente, veio a verificar-se uma nova fragmentação que, em termos gerais, corresponde ao espetro de representação que hoje existe.

A Itália europeísta que conhecemos deixou de existir. Hoje, estamos perante um país fortemente dividido, raptado por uma agenda egoísta de forte pendor populista, com a clara consciência de que o seu peso nacional não deixa de contar na aritmética decisória de Bruxelas, que também tem consciência de que se não pode dar ao luxo de isolar provocatoriamente um dos poderes europeus mais relevantes ou, pelo menos, decisivo para o equilíbrio do seu projeto. Mais do que isso, essa nova e perturbadora Itália tem hoje a tentação de servir de linha da frente a quantos se propõem prosseguir na construção de uma ordem alternativa, liberta do “politicamente correto” dos princípios que serviram de escudo moral àquilo a que hoje chamamos União Europeia.

A próxima Comissão Europeia vai ser presidida, pela primeira vez, por uma personalidade alemã - rompendo uma regra não escrita que excluía a economia mais poderosa da Europa desse lugar. Isso acontece num tempo em que o próprio equilíbrio interno germânico se desfaz, com a emergência de forças que podem vir a conjugar-se ao destino provável da Itália. Este é também o tempo em que, em França, se joga o destino da experiência Macron, que, a não ter sucesso, tem do outro lado da trincheira interna a extrema-direita. Com os dois maiores países da UE em convulsão, com a saída do Reino Unido do projeto comum, com uma Itália numa deriva de imensa incerteza, ser hoje otimista, na Europa, requer muita fé. Mas, no limite, teremos de concluir que a União Europeia é a única âncora disponível em termos dessa esperança.

sábado, 17 de agosto de 2019

O fim de um dilema


Nunca concluí, em definitivo, se era uma “fèzada” sem sentido ou se havia algo de realista naquela mania do meu pai. Todos os Verões, habituei-me a vê-lo, diariamente, durante quase um mês, a gargarejar com água do mar. Verdade seja que, tendo ele vivido quase até aos 100 anos, sem que alguma vez lhe tivesse pressentido o menor achaque na garganta, talvez devesse ter assentado em que a razão era bem capaz de estar do seu lado.

Essas abluções tinham lugar, em regra, nas nossas idas matinais à praia, para manifesto desagrado da minha mãe, que entendia aquela coreografia muito pouco elegante, mesmo se executada de forma discreta. Nos dias em que, sobre a nossa Viana das férias, caía nevoeiro ou alguma chuva, o “vício” tinha outro modo de se concretizar. O meu pai contratava um “moço de recados”, figuras muito típicas das cidades de província, que executavam tarefas a troco de “umas coroas”. 

O rapaz parecia que adivinhava, pelos humores do clima, os dias em que o meu pai não ia à praia e logo passava por casa da minha avó a perguntar se “o senhor Costa quer que lhe traga a água”. Uma garrafa vazia rolhada surgia então, acompanhada da recomendação estrita de que a recolha fosse feita num determinado local da Praia Norte, que o meu pai recomendara ao miúdo, como o lugar mais adequado para a “colheita”.

Da casa da minha avó à Praia Norte a distância era ainda considerável, agravada pela circunstância de essas deslocações serem feitas, precisamente, em dias em que o clima estava mais agreste. 

Um dia, teria eu uns oito ou nove anos, testemunhei a cena da entrega da garrafa por intermédio de uma empregada e logo vi o rapaz, que não teria mais de 15 anos, sair apressado a caminho da rua de Altamira. Instantes depois, contudo, vi-o infletir em direção à doca comercial. A suspeita criou-se-me: e se ele não fosse buscar a água à Praia Norte, como eu sabia que o meu pai sempre recomendara, e se limitasse a encher a garrafa na doca, onde toda a porcaria dos navios era despejada?

Segui-o à distância, tanto quanto a minha liberdade de movimentos fora de casa, com aquela idade, permitia. Passou a doca comercial (pronto, era um falso alarme!) e vi-o rumar à doca dos pescadores, que, à época, era bem mais batida pelo mar do que é hoje. E, claro, foi aí que ele “despachou” a encomenda, enchendo, num dos acessos de pedra, a garrafa com a água marítima que o meu pai iria usar para essa sua ritual higiene bucal. 

O líquido recolhido seria com certeza bem mais límpido do que o da doca comercial, mas incumensuravelmente mais poluído do que seria se acaso fosse recolhido na Praia Norte, ali entre os rochedos, para onde, em algumas tardes, eu era levado a “apanhar iodo”, terapia preventiva que os pediatras então aconselhavam. O rapaz poupava assim uns bons dois quilómetros, recebendo os trocos como se os tivesse feito.

Fiquei então dividido sobre o que fazer perante a descoberta do truque. Deveria avisar o meu pai, que ficaria bastante desiludido e, talvez, sem outras soluções imediatas para a recolha dessa sua ansiada água do mar? Ou escolher não dizer nada, confiando em que a água batida pelo mar, ali ao pé das traineiras, fosse, apesar de tudo, de uma qualidade aceitável? Optei então por esta última solução, talvez com íntima pena do rapaz, embora interrogando-me muito sobre se estava certo. 

Muitos anos mais tarde, em Vila Real, já no final da vida do meu pai, quando ele já deixara, há muito, de fazer os seus gargarejos marítimos, falou-me das comprovadas virtudes desse exercício passado, lembrando a ajuda do miúdo da Ribeira. Eu, um tanto cobardemente, calei-me sobre o que sabia daquela água, pelos vistos excelente.

Há minutos, ao olhar, da varanda do meu quarto do hotel, as rochas eternas da Praia Norte, ao vê-las surgir à tona, pelo fim da preia-mar, concluí que, afinal, talvez não me tivesse enganado no meu juízo: fiz bem em não ter avisado o meu pai, cuja otorrínica saúde, de facto, nunca sofreu com isso o menor abalo. E foi assim que desfiz, finalmente, o meu dilema.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Sejam possibilistas!



A ideologia liberal contemporânea tem colonizado por cá o pensamento económico. É hoje a matriz quase exclusiva do ensino universitário, em especial nas “business schools”, onde doutrinas divergentes são abordadas como meras curiosidades históricas, contrapontos risíveis face a esse novo normal. Sobram, claro, alguns que não se vergam ao papel absolutizante do mercado e ainda destacam a ação política que releva o papel do Estado. Mas esses são espécies “raras”, de um outro tempo. O pessoal da “mão invisível”, nos dias que correm, anda por aí nas suas sete quintas. Na teoria.

Um certo jornalismo económico também quase que desapareceu. É incomum ver alguém fornecer ao utente mediático chaves alternativas que permitam a este fazer, pela sua própria cabeça, uma leitura da realidade económica. É raríssimo ver um jornalista abordar uma decisão política, com implicação económica, com total equidistância face às diferentes razões que podem explicá-la. O que se observa são leituras assentes numa única perspetiva, diabolizantes do papel do Estado e críticas da sua dimensão, rejeitando modelos intervencionistas, tendo como ‘benchmark” fórmulas de matriz austeritária, de redução obsessiva dos défices, de desregulação e de fé infinita nas virtualidades do mercado. Quando os argumentos escasseiam, vão ao fundo da panela e repescam, sempre sem as detalhar, as tais “reformas estruturais”. Tudo tão previsível!

Os saudosos anos da “troika”, com as fórmulas mágicas que nos trariam um mundo de felicidade terrena, foi, para esse antigo jornalismo - hoje mera opinião, com o “eu” expresso ou subentendido no comentário que, às vezes, se disfarça de notícia -, uma espécie de “jardim do éden” perdido, que a aziaga realidade dos factos não permitiu levar à prática até ao fim (aqui concordo: seria o fim!). Esse pessoal sente-se hoje órfão do extremo rigor perdido lá por Bruxelas e considera laxista o “quantitative easing” do BCE, porque facilitou a vida ao governo que detesta.

Valha a verdade que certos setores económicos navegam nas mesmas águas, razão pela qual algum jornalismo económico (ainda não todo, felizmente) mais não é hoje do que o seu espelho impresso, às vezes por convicção, outras por servilismo. Com uma imensa diferença: na vida das empresas lida-se com a realidade, não com as palavras. 

O papaguear dos liberais do burgo pode até confortar as íntimas convicções de muitos, para quem deve ser cómodo ler colunistas e opinadores televisivos que lhes “dão razão”. Porém, há uma realidade com que, gostem eles ou não (e muito não gostam!), têm de conviver: quem representa politicamente essas ideias que lhes são caras não tem hoje, em Portugal, um suporte maioritário, na hora do voto. Por isso, no fim do dia, por muito que lhes custe (e custa!), estão a ter de aprender a viver com a Geringonça ou outro modelo similar. E, nos próximos quatro anos, devem já ter percebido que, muito provavelmente, e salvo imponderáveis, também não poderão contar com o presidente da República para colocar pauzinhos na engrenagem. Um azar nunca vem só, não é?

Estando muito longe de partilhar a santificação política do mercado, estou convicto de que há espaço para ir melhorando, com diálogo e sem roturas, a competitividade da nossa economia e a eficácia da máquina pública. Tenho para mim que os que tentam “partir a loiça” acabarão afinal por partir a cabeça, podendo sair feridos do exercício. Por isso, só posso recomendar uma atitude realista: a inteligente adoção do “possibilismo”. No passado, essa doutrina gradualista trouxe alguns socialistas à consciência pragmática daquilo que, de facto, era viável fazer, sem saltos radicais, aprendendo a operar sob as condições políticas da conjuntura. Nos dias portugueses de hoje, aconselho uma postura idêntica a quantos trabalham no universo privado. 

Quem vos atasse um arado!


Greve dos combustíveis? Então e o governo não faz nada? Ah! o governo fez? Ó diabo, não estará a atentar contra o direito à greve? Estará a greve mesmo a acabar? Espera aí, não terá sido tudo isto uma grande encenação do governo, para o país lhe ficar agradecido e ganhar votos em outubro? 

Apetece-me dizer, a uma certa gentinha da imprensa e da política, uma frase que se dizia lá na minha terra, mas só quando se queria não ser deselegante: quem vos atasse um arado!

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Contra o vento


Andar ao contrário dos outros é estranhamente cómodo. Hoje de manhã, era um corropio de gente para a praia, connosco a afastarmo-nos dela, dentro do ar condicionado, rumo a outros destinos. O ferry trazia a multidão própria de um feriado de agosto, que logo deixou vazio, quase só para nós, o barco que nos levaria para longe da península. A sala de refeições da pousada estava agradavelmente sem gente, com um serviço que parecia ser-nos dedicado, com pessoal conhecedor dos vinhos do Sado que nos apresentava para acompanhar as ameijoas. A autoestrada estava com pouco trânsito, mas com toda a gasolina necessária para ter já atestado o dia de amanhã. Entrava-se em Lisboa por uma ponte limpa de tráfego. Isso do nosso lado, claro: de Alcântara subiam para ela filas lentas e compactas, em direção às areias da Costa ou aos Algarves do costume. A Lisboa que me interessa está hoje, deliciosamente, sem trânsito, sem gente, confirmando, se necessário fosse, ser o melhor lugar do mundo para se viver. Isso sente-se, em especial, nos dias em que se ruma contra o vento, o qual, aliás, hoje quase que não sopra.

Na cave da vida



Houve um período da minha vida em que me deu para colecionar alguns êxitos de música “country”. Creio que tudo começou na Noruega, depois da frequência de uns shows manhosos onde isso também era tocado, numas caves fumarentas de Oslo, com muita cerveja e aquavit à mistura. Cheguei mesmo a pensar, por algum tempo, incluir Nashville nos meus destinos de visita futura.

Ao final de alguns anos, dei-me conta de que, com exceção de certos nomes mais clássicos, tudo aquilo resultava um pouco primário, repetitivo, em termos musicais, pelo que o meu gosto se foi esbatendo, embora sem desaparecer por completo. Sei, porém, que há muita gente que discorda desta avaliação.

Um dia de 1990, em Londres, vi pelo “Time Out” que a mais mítica figura da “country music” ia atuar na cidade. Ver ao vivo Johnny Cash era algo que eu não podia perder na minha vida. E, claro, não perdi.

O bilhete para o concerto foi, para minha surpresa, surpreendentemente barato. O espetáculo tinha lugar no, até então para mim desconhecido, “National Club”, em Kilburn, uma zona com forte presença de irlandeses, na parte norte de Londres. Recordo que me aconselharam a estacionar o carro num local bem iluminado...

À hora marcada, chegado ao local do concerto, percebi melhor a modesta tabela de preços. Entrámos numa sala de espetáculos antiga, apinhada, com a maioria dos espetadores vestidos “à maneira”, alguns com patuscos chapéus de “cowboy” e camisas de estilo, elas com coletes e saias com fitas de cabedal. Posso imaginar que nós, vestidos à “betos”, devemos ter passado por uma espécie de “ET”. 

Os nossos lugares foram no meio do que me pareceu ser um grande balcão, que recordo com mesas comuns, de vários lugares, para os quais aquele pessoal carreava “baldes” de cerveja quente. Nunca tinha estado, de forma tão isolada, num ambiente idêntico, confesso. Por entre a barulheira, íamos sorrindo para os nossos forçados vizinhos de mesa, todos com ar de se conhecerem entre si, e que, aos berros, perguntavam de onde vínhamos, de certo apenas com vontade de inquirir o que diabo estávamos ali a fazer, tão “fora do baralho” nós éramos.

A entrada de Johnny Cash em cena foi um delírio. Aquecido o ambiente com o clássico “Folson Prison Blues” e meia dúzia de outros êxitos, como seguramente o “Man in Black”, o cantor fez uma pausa e deixou em cena um trio de jovens de guitarra, as quais, logo aos primeiros acordes e mostra de vozes, se percebeu serem de muito fraca qualidade. 

Com justiça, a sala correspondeu, como esperado: uma imensa pateada e um sonoro coro de “uuuhs!” que logo obrigaram Cash a regressar momentaneamente à cena, saindo-se com este comentário esclarecedor: “Don’t panic! I’ll be back!”. 

Lá conseguiu, com isso, uma acalmia provisória nos protestos, mas o ambiente só se recompôs por completo quando, ao fim de uns minutos de um penoso e medíocre show das pequenas, ele regressou, final e definitivamente, ao palco, para o seu espetáculo. 

A noite acabou, claro, num imenso e merecido apogeu a Cash. Os seus melhores anos já tinham passado, mas a sua mística não diminuira. Por mim, considero que ganhei bem aquela noite! 

Lembrei-me disto há minutos, num “zapping” televisivo que, de novo, me trouxe Johnny Cash, numa memória nostálgica numa qualquer televisão estrangeira. 

Na minha coleção de 33 rotações (mais de 800!), creio que tenho bastantes discos de Cash, Loretta Lynn, Willie Nelson e outros nomes clássicos da “country music”. Que já decidi não voltar a ouvir. Está tudo numa cave, lá por Vila Real, ao lado de uns caixotes com milhares de livros. É uma espécie de cave da vida...

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O “malho”


Desde que me conheço que me vejo rodeado de dicionários. O meu pai, em Vila Real, tinha dicionários de tudo e mais alguma coisa, de diversos franceses do século XIX (do Gregoire e os Vapereau ao excelente "de la Politique", de Block) aos clássicos Cândido de Figueiredo e Torrinha, passando pelos Lellos (ilustrados ou não). No meio dessa inumerável coleção, havia lá por casa dicionários espanhóis, ingleses, muitos de tradução entre línguas (algumas que nunca falei) e outros cuja utilidade prática verdadeiramente nunca descortinei. 

Com toda a certeza por via dessa saudável influência, desde cedo que comecei a ter os meus próprios dicionários. Lembro-me que ganhei o meu primeiro "Porto Editora" num concurso de cruzadismo e que foi a (depois) minha mulher quem me ofereceu, há bem mais de 50 anos, um fac-simile do "Littré". Aprendi a andar com eles sempre à mão (até nos carros!), espalhados por todas as mesas onde trabalhei (e continuo a fazê-lo, porque ainda não acredito nos "on-line" e, muito menos, em alguns imbecis corretores ortográficos). 

Tenho dicionários um pouco de tudo: de verbos, de sinónimos, etimológicos, onomásticos, de provérbios e incontáveis volumes temáticos (muitos em inglês, francês e espanhol), para além dos óbvios Larousse e Michaelis. Trouxe, do Brasil, o Aurélio (o "Aurelião"), o Houaiss e, claro, o Caldas Aulete. Também tenho as dezenas de volumes da Encyclopaedia Britanica e a Luso-Brasileira (mas não a da Verbo, com que, desde sempre, embirro), com as respetivas atualizações (até que o bom-senso e a falta de espaço me levaram a parar). E tantos, tantos outros dicionários, enciclopédias e quejandos.

Mas toda esta conversa vem a propósito do "malho". Na minha família o "malho" designa os 12 volumes do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de António de Moraes Silva, na sua 10ª edição, que o meu pai assinara em fascículos durante mais de uma década. 

Desde miúdo que me habituei a consultá-lo, para ajudar o meu pai e o meu avô nos exercícios de palavras cruzadas, nas noites antigas, em que a televisão nos não monopolizava. Quando a dúvida se instalava sobre um determinado significado, o meu pai dizia, em jeito de desempate definitivo: "vamos ao malho". E eu, impante, encarregava-me com ardor dessa tarefa - de um modo que me levou mesmo a saber de cor (até hoje!) as palavras iniciais e finais de cada um dos volumes, inscritas nas lombadas. O "malho*", na sua bela encadernação de couro com ferros dourados, continua a ser o dicionário-rei da minha casa, por mais novos dicionários de língua portuguesa que por aí apareçam - mas que eu não deixo nunca de comprar, sempre...

Mas o (agora) meu "malho" remete para uma historieta curiosa. O meu pai havia mandado encadernar os primeiros seis volumes do "malho" ao sr. Morais (homónimo do autor do dicionário), um dos escassos (mas o melhor dos) encadernadores de Vila Real. Saíu "obra asseada", porque o artesão era excelente, embora um tanto lento.

Uns anos mais tarde, acabada que foi a publicação da totalidade dos fascículos, o meu pai informou o sr. Morais de que estavam prontos para ser encadernados os restantes seis volumes. E aí surgiu uma surpresa desagradável: o homem disse que já não se dedicava a trabalhos tão elaborados, que há muito que havia deixado de utilizar os "ferros" da anterior encadernação e, pedindo embora muita desculpa, informou que não podia levar a cabo a tarefa. O meu pai ficou desolado. Que poderia fazer? A obra ficaria incompleta e não conhecia ninguém capaz de substituir o Morais. Estávamos nos anos 60 e recordo bem do desgosto com que o meu pai falava do assunto em casa.

Na tertúlia diária da Pastelaria Gomes, curiosamente a escassos metros da (então) loja do sr. Morais, o meu pai contou um dia o seu problema a um grupo de amigos. Desse cenáculo fazia parte o comandante da PSP de Vila Real, que logo se prontificou a ajudar: "Não se preocupe. O meu amigo vem comigo ao Morais e o assunto resolve-se já". E lá partiram, o meu pai e o comandante da PSP, rumo ao encadernador. 

A cena que se segue é edificante e bem reveladora dos tempos de então:

- Ó Morais, então o meu amigo não quer acabar a obra que começou?

- Sabe, senhor comandante, já me deixei desses trabalhos mais pesados. Agora estou mais nas revistas e nas encadernações simples.

- Essa agora! Ao iniciar uma obra, um profissional compromete-se a acabá-la. Isso é uma falta grave, ó Morais. Olhe que pode vir a ter problemas...

E, perante o espanto (e o deliciado constrangimento) do meu pai, e graças a este método de (pouco subliminar) convicção, o Morais lá acedeu a acabar o trabalho. Dizia-me o meu pai que ele acabou por se vingar... no preço. Mas o "malho" ficou completo.

(* E na pag. 422 do VI volume, lá está a definição de "malho" como"coisa certa, infalível".)

Confiança


Temos visto diversas leituras sobre a crise de legitimidade das instituições, com impacto na emergência dos populismos e no abalo dos modelos tradicionais de representação política. Só o tempo nos ajudará a perceber que conjugação astral se formou que trouxe ao mundo, quase simultaneamente, Trump e Bolsonaro, por um lado, Salvini e Orbán, por outro, que coloca Marine Le Pen na soleira do poder, que dá à extrema-direita alemã inédita representação política. Foi a crise financeira, foram os efeitos nefastos da globalização, é a quebra de valores, a relativização da verdade?

Alguns, crentes nos ciclos da História, dirão que não há nada de novo, que o fascismo, o “poujadisme” e outros fenómenos congéneres, assentes no desespero pontual e na personalização da esperança, tiveram, noutros tempos, consequências similares. Pode ser que assim seja, mas o determinismo fatalista, além de não explicar porque tudo surgiu quase ao mesmo tempo, ajuda-nos pouco a poder intervir de modo eficaz sobre a realidade. E esse é o verdadeiro objetivo da ação política democrática.

Num raciocínio simples, podemos afirmar que a estabilidade dos sistemas políticos existe quando os cidadãos sentem confiança em que as escolhas que fazem com o seu voto têm consequências concretas na melhoria da sua vida ou, pelo menos, na preservação daquilo que consideram ser-lhes essencial. Por isso, quando as alternativas de poder são muito próximas entre si, em termos de soluções, os cidadãos podem sentir-se tentados a alhearem-se da atividade cívica ou, em caso de desagrado profundo, a enveredarem por formas de expressão à margem do sistema, do terrorismo aos “coletes amarelos”, medidas as devidas diferenças.

A chave da atividade política parece ser a confiança. Elegemos alguém porque investimos a nossa esperança em que essa pessoa, ou esse partido, levará à prática aquilo que nos disse ir fazer se acaso lhe déssemos a oportunidade de chegar ao poder. O incumprimento das promessas, a confissão da impotência para mudar a realidade ou, no limite, o desdizer do proclamado, com mais ou menos cinismo à mistura, não afetam apenas a pessoa em quem havíamos confiado mas repercute-se no sistema político em geral. “São todos iguais” é o que se mais ouve, nos intervalos do exercício de alguma esperança, depois desiludida.

Num tempo de eleições, seria importante que esta simples verdade fosse refletida por quem pretende o nosso voto. As coisas, às vezes, são bem menos sofisticadas do que parecem.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Agostos da vida - Um diplomata atípico


Foi há 44 anos. Éramos 23 os novos diplomatas, com a categoria de "adidos de embaixada", que, nesse dia 11 de agosto de 1975, entraram no Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

Eram 18 homens e cinco mulheres - as primeiras que, na história portuguesa, tiveram acesso à carreira diplomática. Até então, essa era uma profissão fechada ao sexo feminino. Para que conste: foi o novo ministro dos Negócios Estrangeiros quem alterou a legislação. Chamava-se Mário Soares.

O concurso abriu em novembro de 1974. Alguém me falou nele e decidi concorrer. Posso hoje confessar que fi-lo como um mero "desafio" a mim mesmo, muito mais de natureza lúdica do que de particular interesse por aquela específica carreira, embora as questões internacionais me interessassem, desde há muito. (Datam de 1967 os primeiros artigos que escrevi, na "A Voz de Trás-os-Montes”, sobre temas internacionais). 

Estava então a cumprir serviço militar - e estávamos no auge da Revolução, comigo envolvido nela até à exaustão! Fazia ainda algumas horas diárias de trabalho para a Ciesa-NCK, que muito me ajudavam a “arredondar” o fraco pagamento militar. No final da “tropa”, regressaria naturalmente à Caixa Geral de Depósitos, onde tinha entrado por concurso público em 1971, e que, aliás, remunerava bem melhor do que o MNE. Mas achei graça tentar perceber se a “nova diplomacia” do país me aceitaria. (Por muito tempo, pensei intimamente que, feito o concurso, me daria "ao luxo" de não chegar a tomar posse).

Ao longo de todo o primeiro semestre de 1975, comigo engalfinhado profundamente nesses tempos agitados da Revolução, sucederam-se as provas: português, francês, inglês, correspondência diplomática, prova escrita de conhecimentos (lembro-me de que me "calhou", por sorteio, ter de escrever, durante quatro horas, sobre as relações internacionais da China, desde a criação da República Popular até à entrada para a ONU), duas provas orais (duas matérias sorteadas, entre 99 temas de Direito Internacional, História Diplomática, Relações Económicas internacionais) e, finalmente, a “lotaria” que era a prova "de apresentação" -uma conversa eliminatória com três diplomatas séniores, um dos quais o chefe da carreira, secretário-geral do MNE.

Na prova oral, havia-me “saído”, como arguente, um desconhecido professor do então ISCEF que, se bem me lembro, se chamava Aníbal Cavaco Silva. Foi uma hora (medida com ampulheta) nada fácil. Mas "fair"... Quase tão complicada seria a segunda prova oral, horas mais tarde, ainda no mesmo dia. Um sufoco!

Acabadas as provas, dentre as largas centenas de candidatos, fui admitido. Fiquei a meio da tabela. Continuei, por algum tempo, a hesitar muito em aproveitar o ensejo. Não tinha então, admito, o menor interesse em ir viver para o estrangeiro. Seria possível ser diplomata ficando a viver sempre em Lisboa, como eu gostava? Por mais incrível que isto hoje pareça, convenci-me de que talvez fosse. Essa ilusão contribuiu, recordo-me, para que decidisse tomar posse.

Embora estivesse no serviço militar, mas de acordo com "l'air du temps", eu tinha então um cabelame pouco de acordo com as NEP's, coroado por um imponente bigode. (Olhando a minha fotografia da época, imagino a “linda” impressão que devo ter feito!). 

Recordo que a posse foi num dia muito quente. E eu só tinha um fato de inverno! Entrámos no adamascado gabinete do secretário-geral, onde assinámos, um a um, o ato de posse. Um dos colegas levou mesmo o pai para assistir... Todos eles ingressaram, de imediato, nos serviços por onde foram distribuídos (à época, começava aqui a primeira e discreta discriminação entre nós). Eu, contudo, regressei, ainda que por poucas semanas, ao serviço militar, do qual ainda não estava totalmente dispensado. E fui entretanto obrigado demitir-me da Caixa Geral de Depósitos (o que eu hesitei!).

Três dias antes da nossa posse, iniciara funções o V Governo Provisório, o executivo mais à esquerda que Portugal alguma vez teve, presidido por Vasco Gonçalves. Sabia-se que era um governo "de transição", como o presidente Costa Gomes o qualificara no respetivo ato de posse. Duraria pouco mais de um mês.

Era ministro dos Negócios Estrangeiros esse homem notável que se chamou Mário Ruivo, de quem eu viria, anos mais tarde, a tornar-me amigo e admirador. Ele tinha como chefe de gabinete Manuel Braga da Cruz, então meu "camarada" do MES (mas que eu não conhecia pessoalmente) e que, muitos anos mais tarde, viria mais tarde a ser reitor da Universidade Católica Portuguesa. 

Na véspera da minha posse, o Agostinho Roseta, um saudoso amigo que, à época, também fazia serviço militar, disse-me que o ministério informara Mário Ruivo de que nenhum diplomata se mostrara disponível para integrar o seu gabinete, por medo de futuras represálias em termos de carreira. Vinha assim sondar-me, em nome do ministro, para o lugar de "secretário do ministro", como então se designavam os adjuntos do gabinete. 

Em plena e expectável coerência com a minha posição política de então, disse ao Agostinho que era óbvio que Mário Ruivo podia contar comigo. (Para a cultura dominante no MNE, eu começava "bem"!). A minha única limitação era o facto de ter de terminar o meu serviço militar, pelo que não poderia entrar em funções no gabinete antes de 10 de setembro. 

Quando, finalmente, ingressei no MNE, o governo estava já no seu extertor. Vasco Gonçalves seria substituído por Pinheiro de Azevedo em 19 de setembro. Não cheguei a fazer formalmente parte da equipa de Mário Ruivo mas, nem por isso, a disponibilidade que demonstrara para integrar o mais “maldito” de todos os gabinetes ministeriais que o MNE teve deixaria de me ser lembrada, anos mais tarde, por um secretário-geral da casa. O mesmo que, sem o menor sucesso, tentou um dia, dessa vez formalmente, que eu retirasse do meu currículo, publicado no Anuário do MNE, a menção de ter sido assessor da Junta de Salvação Nacional, um ano antes. Recusei. Feitios...

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Há meio século!


Agostos da vida - Os pides


Estávamos em Agosto de 1974 e os agentes da polícia política PIDE/DGS (os “pides”), presos na sequência do 25 de Abril na cadeia penitenciária de Lisboa, haviam iniciado um novo motim. Era um movimento em tudo idêntico ao que tinham desencadeado no início do mês e que dera origem à  constituição de uma “comissão de inquérito”, composta por um representante de cada um dos três ramos das Forças Armadas, da qual eu era relator, enquanto oficial miliciano do Exército. 

Tinha assumido essas funções na qualidade de membro da Comissão de Extinção da ex-Pide/DGS e LP. Para tal, havia sido colocado como assessor do general Galvão de Melo, membro da Junta de Salvação Nacional. Galvão de Melo, da Força Aérea, era um dos sete membros da Junta, que então dirigia o país, e, seguramente, a figura mais à direita dentro daquele órgão. Por uma singular ironia, competia-lhe a tutela da Comissão de Extinção da polícia política do anterior regime, tarefa que o não entusiasmava por aí além. E, por outra singular ironia e fruto de diversas circunstâncias, coube-me em rifa ser seu assessor.

Os pides consideravam então estar a ser vítimas de uma imensa “injustiça”, seriam totalmente infundadas as inúmeras acusações de torturas e atentados aos Direitos Humanos que sobre eles impendiam, a esmagadora maioria jurava nunca ter feito outra coisa que não fosse estar nas fronteiras a pôr carimbos nos passaportes. Uns anjos, em suma! 

Descontentes com o prolongamento da sua detenção e respectivas condições, mobilizados por um qualquer pretexto conjuntural, os pides tomam alguns guardas da Penitenciária como reféns, abrem o “gradão”, a porta de ferro que lhes permite invadir a parte central da prisão, e anunciam que estão “à disposição” do general Galvão de Melo, que acabara de fazer uma polémica e ultraconservadora proclamação televisiva, que lhes terá ressuscitado a esperança de uma libertação rápida. 

No auge desta nova crise, o chefe da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, comandante Conceição e Silva, foi de helicóptero ao Algarve, com o seu adjunto Alfredo Caldeira, para tentar obter orientações de Galvão de Melo. Na conversa, o general, enfadado por ver interrompida a sua estada no concurso hípico da Penina, terá deixado os seus interlocutores de mãos a abanar.

Estávamos assim, num domingo à tarde, reunidos no gabinete do director da Penitenciária, a discutir o que fazer a seguir. 

Esgotadas algumas hipóteses de solução, o José Manuel Costa Neves, chefe de gabinete de Galvão de Melo, decide tomar o assunto em mãos: “Eu vou lá dentro falar com os pides. Quem é que quer vir comigo?”. A idade tem destas coisas e a precipitação é uma delas. Por isso, disse de imediato: “Eu vou contigo”. Arrependi-me no segundo seguinte, mas já era tarde: cinco minutos depois estava a seguir a figura alta e corajosa do então major (hoje general) Costa Neves e a entrar no meio de uma chusma de pides, que sabíamos que tinham armas retiradas aos guardas e desconhecíamos se tinham a intenção de também ficar connosco como reféns. 

Enquanto o mar de pides se abria como as águas do mar Vermelho, para ambos podermos chegar ao centro da prisão, comigo numa taquicardia de tardio bom senso, recebo um leve toque num ombro e volto-me, sobressaltado. Dou de caras com o “Navalhas”*, um colega de escola primária em Vila Real, que eu não via há muito e desconhecia ter escolhido tão distinta opção profissional.

“'Tás porreiro? Então por aqui?”, saiu-me, num registo social, como se o estivesse a encontrar no Rossio, à porta da Suíça. Apertei-lhe a mão, quase caloroso, para me dares ares de confiança bem à vista do grupo, que tinha já cem olhos sobre mim, com o “Navalhas” a retorquir-me: “É verdade! Quem também cá está é o “Bilrau”*, mas não aderiu”. O “Bilrau” era também um antigo colega de liceu que, do mesmo modo, eu desconhecia ter enveredado pela prestigiante carreira de pide. E o meu convívio social-pidesco estendeu-se então, com a maior naturalidade, ao ausente “Bilrau”: “Ó 'Navalhas', dá um abraço meu ao 'Bilrau'… e tive imenso prazer em ver-te, pá!”. 

Esta rápida sequência de vénias de cordialidade passou-se, aparentemente, sem que o Costa Neves nada notasse, entretido que estava já a lidar com os cabecilhas do motim e a transmitir ao selecto auditório as presumidas orientações de Galvão de Melo. Dez minutos depois, para meu imenso alívio, estávamos cá fora, sãos e salvos. Os pides acabaram por não se render na sequência da nossa esforçada diligência e só foram “convencidos”, horas mais tarde, pela chegada de um pelotão de “fuzos”, os Fuzileiros Navais que Conceição e Silva mandou vir do Alfeite. 

Desde esse inesquecível mês de Agosto de 1974, nunca mais vi o “Navalhas” ou o “Bilrau”. Coitados, com o acordo de Schengen, até ficaram sem fronteiras para praticarem a sua nobre profissão. Eles que só punham carimbos em passaportes...

(Estes nomes podem não ser exatamente os reais, mas não aceitarei deixar estes últimos sobreviverem no texto, se acaso vierem a surgir em qualquer comentário’

O tamanho importa

- Posso ser sincero contigo? Acho que alguns dos teus textos estão a tornar-se cada vez mais longos e que há muitos dos teus habituais leitores que não tem paciência para os ler até ao fim. Devias optar por posts mais curtos.

- Tens toda a razão, já tinha concluído isso. Mas não consigo! Desde logo, porque não tenho tempo... para ser breve. Depois, porque cada vez mais sinto necessidade de contextualizar as circunstâncias à volta das historietas, e isso é muito difícil de fazer em escassas palavras.

- Mas tens consciência de que assim perdes bastantes leitores?

- Tenho, claro! E como eu os compreendo! É que eu também nunca li a “Guerra e Paz” ou o “À Procura do Tempo Perdido”, precisamente pela mesma razão...

A fronteira


Não acho que se deva ter saudades das antigas fronteiras europeias, com que Schengen acabou. E é, naturalmente, sem a mais leve das nostalgias que recordo a inquietação pateta que nos invadia quando, num passado felizmente já distante, os carros que atravessavam a fronteira luso-espanhola eram sujeitos ao escrutínio inquisitivo das figuras policiescas (e pidescas) que, com ar de caso, pretendiam saber o que trazíamos do estrangeiro, fosse isso "melocotones", "torrón de Alicante" ou uma simples garrafa de Coca-Cola (sim, é verdade!, Salazar não permitia que se importasse Coca-Cola, para quem não saiba). Era assim, antes de 1974.

Um dia dos anos 60, regressei a Portugal integrado num grupo que estava sob a benévola liderança de um simpático amigo, com grande experiência de travessia de essas e várias outras fronteiras europeias. A prática de muitas viagens tinha-lhe ensinado engenhosos truques. Recordo aqui dois deles, que testemunhei.

Na travessia de Andorra para Espanha, esse amigo preparou a mala do carro por forma a dar a impressão de estar a abarrotar de objetos de uso comum. Por detrás de tudo aquilo, escondiam-se algumas simples mas “proibidas” coisas, com as quais os guardas fronteiriças costumavam implicar. O truque essencial para evitar uma revista criteriosa, que ele havia treinado para não falhar, era colocar um penico de plástico por forma a que, logo que se abrisse a mala do carro, esse objeto caísse no chão. Era um penico com ar de usado (trazido expressamente de Portugal!) e a finalidade era provocar no guarda um subliminar processo de rejeição, quase de nojo, que o desestimulasse de prosseguir a vistoria. Sou testemunha de que, nessa vez em que assisti, o truque funcionou perfeitamente.

Dias depois, em Espanha, chegados perto da nossa fronteira, vi-o decidir estacionar por mais de meia hora, a cerca de um quilómetro de Portugal, sem um aparente propósito. O meu amigo mantinha um sorriso misterioso, quando perguntado por que perdíamos tempo. Minutos depois, chegados à parte portuguesa da fronteira, enquanto alguém tratava dos passaportes, assisti à conversa entre esse amigo e o homem da alfândega:

- Deve ter ser muito cansativo estar aqui o dia todo nesta tarefa! Ainda lhe falta muito tempo de trabalho?

- Não, não! De facto, vou sair de serviço daqui a cerca de dez minutos.

- Ainda bem! Desejo-lhe um bom descanso. O que pretende ver, no carro? 

- Nada. Não é necessário abrir nada. Podem seguir. Boa noite!

Foi só nesse momento que percebi por que razão tínhamos "feito horas" antes da fronteira. O meu amigo sabia dos turnos dos funcionários das alfândegas e, com uma precisão suíça, conseguia sempre chegar uns instantes antes deles abandonarem o posto, num momento em que a respetiva paciência já se tinha esgotado e estavam mais inclinados a ir para casa do que a vasculhar o carro de um simpático cidadão que, além do mais, se preocupava com o seu cansaço.

domingo, 11 de agosto de 2019

Com as mãos no passado


Num livro que escreveu sobre Natália Correia, que eu havia guardado para as férias e que ontem acabei de ler, Fernando Dacosta conta um episódio passado no bar do bairro da Graça que era propriedade da escritora, o conhecido “Botequim”.

Uma noite, alguém “leu” a mão de Natália, tendo depois confidenciado para algumas pessoas: “Esta mulher vai morrer em breve!”. E Natália Correia morreria, de facto, pouco tempo depois, em 1993.

A pessoa que fez a premonição chamava-se Carlos Eurico da Costa. Nos dias de hoje, não haverá muitos que, por estas redes sociais, saibam de quem se trata, pelo que vou apresentá-lo.

Carlos Eurico da Costa foi um jornalista e escritor, além de gestor de empresas. Iniciou a sua atividade no “Diário de Lisboa”, inicialmente como crítico de cinema e depois como jornalista, tendo, depois, feito parte da histórica equipa que criou o efémero “Diário Ilustrado”, de onde seria afastado num processo político que ficou célebre. Com Mário Cesariny, António Maria Lisboa e Cruzeiro Seixas, entre outros, foi membro do Grupo Surrealista de Lisboa, tendo diversa obra de ficção publicada, sendo também autor de “A Caça em Portugal”. Tem igualmente obra gráfica. Fez parte da interessante geração intelectual que se situou na charneira entre a atividade publicitária e a escrita, setor onde se ilustraram nomes importantes da literatura portuguesa. Foi ainda membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores e Secretário-Geral da Associação da Imprensa Diária.

Esteve preso por atividade anti-fascista durante o serviço militar e, politicamente, sempre se manteve próximo do PCP, partido de que nunca seria militante, mas onde tinha muitos amigos. Os seus relatos do treino noturno de pistola, com Zeca Afonso e José Borrego, na foz do Lizandro, “para o que desse e viesse, na Revolução que, mais cedo ou mais tarde, aí viria”, eram deliciosos. O Carlos era, aliás, um extraordinário contador de histórias, que adjetivava com grande criatividade.

Tendo vivido, numa fase da sua vida, com a professora e escritora brasileira Maria Lúcia Lepecki, a casa de ambos, na década de 70, constituiu-se um curioso lugar de encontro de uma certa intelectualidade de Lisboa: de Cardoso Pires a Orlando da Costa, de Maria Velho da Costa a Jacinto Baptista, de Alberto Ferreira a Luís Francisco Rebello, de Urbano Tavares Rodrigues a Jacinto do Prado Coelho, de Júlio Moreira a Alexandre Babo, entre muitos outros que por ali cruzei. Por aquela casa passariam, num dia de 1973, as provas de impressão do “Portugal e o Futuro”, de António de Spínola, trazidas (em segredo) pelo editor, Luis Arouca. Em 1975, com o comandante Costa Correia, recordo-me de por lá ter estado muito tempo a ouvir Carlos Paredes a apresentar as suas propostas para a música que acompanharia os spots televisivos sobre as primeiras eleições livres.

O Carlos, 20 anos mais velho do que eu, morreu em 1998, com 70 anos. Era meu primo direito, filho de um irmão do meu pai, jornalista e bancário em Viana do Castelo. Acolheu-me no seu círculo íntimo, como se eu fosse um seu irmão mais novo, quando, em 1968, fui viver para Lisboa. A seu convite, colaborei, por alguns anos, com empresa de publicidade Ciesa-NCK, que ele dirigia, antes de eu ir viver para o estrangeiro e dele passar a administrador da Sociedade Nacional de Sabões.

Com ele e com a Maria Lúcia, passámos várias deliciosas férias em Monte Clérigo, alugando uma casa de pescadores que se enchia de amigos e conversas, bem amesentados e regados. Em algumas madrugadas, o Carlos partia dali à caça, tal como, de Lisboa (e, mais tarde, da herdade do Pinheiro, onde tinha uma casa), zarpava para a pesca, sempre com os ciclos do dia a revelarem a nossa eterna e única incompatibilidade: a leitura contrastante sobre a bondade dos horários matutinos... Foi com o Carlos Eurico que ajudei a fundar a Associação de Amizade Portugal-Polónia e, mais tarde, a Associação de Cooperação com as Nações Unidas em Portugal. Nesses tempos, se mais horas tivéssemos nos nossos dias, muitas mais coisas teríamos feito juntos por essa Lisboa. O Carlos Eurico ainda hoje me faz muita falta.

Esta apresentação breve da sua figura tem por objetivo introduzir um outro episódio, que se liga àquele que abriu este texto.

Um dia, aí por 1977 ou 1978, fomos, com as nossas respetivas mulheres, visitar um empreendimento turístico, algures no sul do país, que a Ciesa-NCK iria ajudar a publicitar. O diretor que nos recebeu, que acabávamos de conhecer, ofereceu-nos um simpático almoço num restaurante.

A meio da conversa, a Maria Lúcia trouxe à baila as capacidades divinatórias do Carlos, em matéria de “leitura” de mãos. Para mim, foi uma completa surpresa: embora o conhecesse bem, ignorava esse suposto “dom”. Ele mostrava-se, aliás, extremamente relutante em fazer uma “demonstração”. Eu brinquei e ofereci-me para cobaia, o que ele recusou, liminarmente: “Nunca leio as mãos de alguém de quem estou próximo!”.

O tal diretor achou graça e disse não se importar de ser ele a “vítima”. Foi claramente forçado que vi o Carlos aceder a fazer essa experiência. Ao final de uns breves minutos em que olhou as mãos do homem, a sua cara ficou muito séria: “Pronto, já terminei!”. “E então?”, retorquiu o outro, curioso. O Carlos continuava de rosto fechado: “Não vou dizer nada!”. A curiosidade do outro aumentou: “Diga lá! Esteja à vontade! Pode dizer tudo!”

Eu olhava algo divertido, não acreditando em nada daquilo mas não querendo mostrar, por isso poder ser visto como ofensivo, o meu completo ceticismo. A insistência do homem foi tal que o Carlos, olhando-o bem de frente nos olhos, disse: “Quer mesmo que eu diga?”. Sentia-se já alguma tensão à volta da mesa. O homem, sorridente, confirmou: “Claro que sim!”. O Carlos, baixando um pouco a voz, disse: “A sua mão revela que houve um caso de incesto na sua vida”.

Gelámos. O sorriso apagou-se de imediato na cara do nosso anfitrião, que não disse uma palavra. Fez-se um pesado silêncio, por uns instantes. Ao final de um minuto, o homem levantou-se, pálido, aparentemente para ir pagar o almoço. Estávamos todos um pouco incomodados. Para descontrair o ambiente, perguntei ao Carlos: “Já sabias a história do homem, não?”. “Eu?! Nem sei bem o nome dele”, respondeu-me, “quanto mais saber das suas histórias de família!” O homem regressou. A refeição tinha acabado. Despedimo-nos com a possível naturalidade e cada um de nós foi à sua vida. O assunto desapareceu, por completo, da nossa conversa. Para sempre. Creio que a Ciesa-NCK não obteve o contrato.

Ontem, ao ler a nota de Fernando Dacosta sobre Natália Correia, lembrei-me desta historieta. Repito: não acredito, am absoluto, na “leitura” de mãos, como não acredito em horóscopos, crenças religiosas ou coisas similares. Mas que o episódio a que assisti sempre me intrigou, isso não posso negar!

sábado, 10 de agosto de 2019

Um Pardal a sério!


Orwell, Kafka & Cia


Um amigo meu, estrangeiro, funcionário superior de uma organização internacional, notou que o seu passaporte era regularmente retido, nos controlos de fronteira, um pouco mais de tempo do que seria razoável. De início, achou estranho mas não se importou excessivamente. Porém, quando essa espera afetava as filas onde se colocava, levando a movimentos de impaciência dos restantes utentes, começou a ficar irritado e, simultaneamente, preocupado. Das vezes em que inquiriu dos controladores dos passaportes sobre a razão da demora, recebeu respostas vagas e nada esclarecedoras.

Um dia, à chegada aos EUA com a mulher, a situação tornou-se caricata: foi mandado esperar isolado numa sala, foi sujeito a um interrogatório estranho e só foi libertado ao final de mais de uma hora de conversa.

Viajar pelo mundo estava, assim, a tornar-se um pequeno pesadelo. O meu amigo lembrou-se então que tinha um conhecimento nos serviços de “intelligence” do seu país. Procurou-o e explicou o seu embaraço. O homem ficou de estudar o assunto. Semanas depois, conversaram.

E foi então que esse meu amigo ficou a saber o que se passava, ou melhor, recebeu disso algumas ideias. Aparentemente, ele havia estado, por mais de uma vez, no lugar errado no momento errado ou, se tal não acontecera, havia indícios de tal poder ter acontecido. Não podendo ser mais específico, o contacto desse meu amigo deu alguns exemplos: uma foto de multidão, numa manifestação violenta por ocasião de uma reunião do G8, trazia uma cara que podia ser a sua; ele havia pernoitado num determinado hotel, na véspera de uma bomba ter explodido nessa cidade; por duas vezes, viajara num avião que também levava pessoas sobre as quais recaíam fortes suspeitas de ligações radicais, eventualmente de apoio ao terrorismo; etc, etc. Tratava-se de cerca de uma dezena de “infelizes coincidências”.

O meu amigo estava siderado! Todas essas circunstâncias eram facilmente “desconstruíveis”, desde a primeira, em que provaria, com facilidade, que estava noutro lugar, até às restantes, em que as suas deslocações haviam sido feitas por decisões e motivos oficiais a que era alheio. Ao mesmo tempo, sentiu-se aliviado. Tudo era esclarecível. Com quem poderia falar para explicar cada um dos factos, com vista a anular as suspeitas?

O seu conhecido das “secretas” desiludiu-o: não podia falar com ninguém, não havia interlocutor algum com quem ele pudesse discutir o circunstancialismo que lhe afetava a imagem, nem sequer estava autorizado a utilizar publicamente a informação agora recebida. Os dados a seu respeito provinham de “serviços de informação” variados, estavam já cruzados numa rede comum, acessível a muita gente, embora grande parte dos utilizadores apenas tivesse, como nota relevante, a noção de que havia “algo de errado” em torno da pessoa em causa. Não era suspeito de nada, não era acusado de nada, pelo que não havia nada a fazer. Ou melhor: apenas havia que esperar que novos dados “comprometedores” não aparecessem, que pudessem “agravar” a sua situação.

Não tenho falado com esse meu amigo, agora já reformado. Qualquer dia pergunto-lhe se tem tido mais problemas.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Agostos da vida - A reserva



Uma derradeira boleia deixou-me na Porte d’Italie. Nessa manhã, tinha partido de Blois, depois de oito dias com diversas paragens, condicionadas pelas disponibilidades de transporte. Tudo tinha começado na rotunda do Relógio, em Lisboa. Repito, à boleia.

O mapa de Paris que trazia comigo, obtido no turismo francês em Portugal, era o então conhecido “Paris à vol d’oiseau”, com desenhos dos prédios e um recorte do centro da cidade que nos dava a ilusão de podermos “conhecer”, por antecipação, os monumentos e artérias principais. Mal eu sabia, ao chegar à Porte d’Italie, que a capital francesa era muito e muito mais do que isso. E ainda hoje continuo a aprender...

Havia preparado, com extremo cuidado, aquela minha saída de férias pela Europa, depois de um ano académico muito pouco feliz. A boleia era então um método de viagem muito comum, particularmente para quem, à volta dos 20 anos, desejava conhecer o mundo europeu, sem grandes encargos, com uma mochila às costas. O Inter Rail estava ainda para ser inventado e os tempos que se viviam eram então suficientemente calmos para gerar confiança em quem nos abria, com simpatia, as portas das suas viaturas. E, pela parte de quem solicitava boleia, o sentimento de segurança era quase generalizado. Nessa que foi a primeira de três viagens do género que fiz pela Europa, o meu objectivo era ir de Portugal à Noruega, com Paris e Amesterdão como incontornáveis escalas. E cumpri exatamente aquilo a que me tinha proposto.

À chegada a Paris, lembro-me bem de ter apanhado, creio que pela primeira e última vez na minha vida, um daqueles históricos autocarros com uma plataforma aberta nas traseiras, que agora já só se veem nos filmes. Descobrir um lugar para uma dormida compatível com aquilo que tencionava gastar, numa tarde de um Agosto turístico, revelou-se uma tarefa muito difícil. Corri “seca e meca”, mas todos os “auberges de jeunesse” que os meus apontamentos indicavam estavam mais do que cheios. Comecei a ficar inquieto: o final da tarde aproximava-se.

Foi então que alguém me disse que o Centre International de Séjour, que existia na Porte de Vincennes, podia ter ainda vagas. De metro, fui lá parar, defrontando-me logo com uma fila de espera considerável. O processo de registo era assegurado por dois funcionários, cujo gesticular revelava já um certo cansaço, seguramente provocado pela pressão e pelo calor intenso do dia. Longos minutos decorreram e a fila pouco andava. A certo passo, um dos funcionários soltou uma sonora e impublicável imprecação… em castiço português. Não resisti e, lá de trás, do fundo da fila, mandei-lhe, bem alto, um “boa tarde!”.

O homem olhou-me à distância, com cara de poucos amigos, mas logo lançou, num berro, em português: “Você aí! Avance!”. Um tanto atrapalhado, ultrapassei a longa fila, com imensa gente a protestar, a caminho do balcão. O nosso patrício, com uma lata incomensurável, mas bem olímpico no seu desplante, limitou-se a informar os contestatários, bem alto, desta vez em francês, da óbvia evidência: “Este senhor tem reserva!". E tive!

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Miguel


Ficou-se agora a saber que o Miguel Lobo Antunes entra como ator num filme. A fita vai mesmo ao Festival de Locarno! Uáu! A imagem de cima é um fotograma dessa película em que ele faz de caixeiro viajante à beira da reforma, pelos vistos com mau feitio, papel que, como todos os seus amigos sabem, lhe deve ir a matar.

Fui aos meus arquivos e descobri a imagem de um outro filme, mais reflexivo, mais Murnau, em que o Miguel parece ponderar a expressividade de um gesto alheio, o qual, seguramente, suportava uma proposta programática que, se fosse seguida, nos daria a todos prosperidade e felicidades eternas. Outros tempos...



Saudades do Barata


A partir do final dos anos 60, Fernando Barata foi um nome bastante conhecido no setor turístico português. Empreendedor hoteleiro que subiu pela escada da vida, teve relevância no Algarve, onde se especializou no mercado britânico e era proprietário do restaurante “A Ruína”. Aliás, chegou também a ter um outro simpático restaurante em Londres, na Dean Street, por onde passei algumas vezes (chamar-se-ia “Sol e Mar”?). Foi também, creio, presidente do Farense.

Lembrei-me hoje de Fernando Barata ao abrir a janela e ver, tal como ontem, o nevoeiro cair sobre a praia, seguramente para desespero de muitos veraneantes, que não alugaram casa ou hotel para acabarem neste cinzentismo como paisagem. É que tenho ideia de ter lido que, numa das campanhas de promoção da sua atividade hoteleira no Algarve, Barata devolvia dinheiro aos turistas, nos dias em que o sol não surgisse. Que jeito que daria hoje esse sistema!

O senhor comandante


Aquelas longas noites do Hotel Trópico, em Luanda, nos primeiros meses de 1982, eram uma verdadeira "seca". Eu sofria o choque cultural de uma mudança direta, do meu anterior posto, na organizada Noruega. para a então caótica Angola. Por quatro longos e não saudosos meses, por ali me instalei.

Pelas salas do Trópico, fui conhecendo alguns portugueses, parte deles expatriados por razões económicas, às vezes apenas por semanas ou meses, e que atenuavam a sua solidão na conversa, a ouvir música ou em jogos de cartas.

Um dos bons amigos que fiz nesse ambiente, e que só há pouco tempo voltei a reencontrar, foi o Hélder Martins, funcionário da empresa de transportes STAR. Numa dessas noites, o Hélder convenceu-me a alinhar numa mesa de sueca que se criara entre alguns clientes. 

Sou, em regra, avesso a entrar em competições de qualquer natureza e, em matéria de jogos de cartas, o mais “longe” que chego é à sueca, à bisca, às copas ou à lerpa. Mas porque a única atividade lúdica alternativa que por ali havia - o visionamento, numa minúscula televisão a preto-e-branco, de alguns jogos do campeonato do mundo de futebol, que então estava a ter lugar em Espanha - se tinha entretanto esgotado, deixe-me entrar na jogataina. 

No grupo, havia um homem jovial, falador, bem mais velho do que nós, de S. João da Madeira, que representava em Angola uma empresa de calçado. A meio do jogo, ao pedir uma rodada de bebidas, vi que, apontando para mim, disse para o empregado: "Ali para o senhor comandante, é uma cerveja". De facto, eu tinha dito, instantes antes, que “o que agora caía bem era uma "Cuca”!” Estranhei ser qualificado de "senhor comandante", mas nada disse. Olhei para o Hélder Martins, que sabia perfeitamente que eu trabalhava na Embaixada, mas não notei na sua cara nenhuma surpresa. Optei por não reagir e, quando ela chegou, lá bebi a cerveja.

No dia seguinte, ao almoço, perguntei ao Hélder: "Você não achou estranho que aquele tipo, ontem, me tivesse tratado por 'senhor comandante'?". O Hélder retorquiu-me que não. É que, sabendo que eu tinha feito o serviço militar, por conversas anteriores, presumiu que, nessa qualidade, eu tivesse servido na Marinha, pelo que havia deduzido que o homem de S. João da Madeira sabia disso. Expliquei-lhe que a minha "arma" era bem mais prosaica, que eu havia sido oficial de "administração militar" no Exército, onde a minha especialidade era "ação psicológica", que nunca havia sido sequer "comandante de pelotão". E rimo-nos, esquecendo o assunto.

Passou, talvez, um mês. Eu havia, entretanto, deixado de frequentar as salas de estar do Trópico com tanta frequência. Uma noite, voltei a ver por lá o homem de S. João da Madeira, que simpaticamente me saudou, ao longe. 

Um dia ou dois depois, o Hélder Martins foi abordado por ele. Queria que ele me "metesse uma cunha": não tendo confiança comigo para me colocar, pessoalmente, o pedido, aproveitava a intercessão do Hélder, para, junto de mim, conseguir um "OK" para o voo da TAP para Lisboa, no dia seguinte. O avião estava cheio e "aquele seu amigo é que pode ajudar, como ninguém, a desenrascar-me o lugar", disse ele.

O Hélder surpreendeu-se. "Mas porquê ele?", perguntou. "Então, sendo ele comandante da TAP, deve poder conseguir isso, não?". "Comandante da TAP? Ele é diplomata na Embaixada de Portugal!", reagiu o Hélder. "Ai é?! É que, há tempos, vi-o à conversa com uma hospedeira da TAP, no bar do hotel, e fiquei com a ideia que ele fazia parte da tripulação, que sempre ali se aloja...".

("For the record", que fique claro que tenho a certeza de que a minha conversa com a hospedeira foi casual e bem inocente, não me recordando de ter assumido nenhuma particular familiaridade com a "colega"...)

Quando viajo na TAP e ouço, pelo altifalante do avião, aquela "rassurante" mensagem com que os comandantes se dignam saudar os passageiros, a meio do voo, acontece-me frequentemente lembrar-me que também "fui", um dia, "comandante" daquela companhia...