sexta-feira, maio 31, 2024

Feira


Algumas pessoas perguntaram-me quando estarei na Feira do Livro de Lisboa para assinar o "Antes que me esqueça", que vai na sua terceira edição. Infelizmente, a minha vida não me permite ter tempo para tal. Mas espero que quem estiver interessado adquira o livro no espaço da Leya, onde esta edição da Dom Quixote está à venda. E que se divirta ao lê-lo. 

Eleições na África do Sul


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A Ucrânia e nós


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Gaza


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Isto

 


Decidam-se!

E estamos assim: ou é "desde o início da invasão que o Seixas da Costa parece pender para a Rússia" até a "comentário de um ex-embaixador todo pró-Ucrânia". 

Trump

Trump diz que está "muito inocente". Interessante fórmula, se pensarmos que, num modelo gradativo similar, não é possível uma mulher estar apenas "um pouco grávida"...

Opiniões

O senhor ministro da Defesa Nacional - seja sobre SMO, seja sobre uso de material ocidental no ataque à Rússia - tem o direito a ter a sua opinião pessoal, mas deve guardá-la lá para casa ou para os amigos, ao chá. Ao senhor ministro alguém deve lembrar que tomou posse.

Tempos serenos


Como é sabido, nas regiões autónomas, existe a figura do Representante da República, antes designada Ministro da República. Veio-me há pouco à memória um episódio já com quase 30 anos - e é essa memória que me permite aproveitar as horas que tenho até à partida do avião das Lajes para Lisboa para o descrever aqui -, envolvendo um desses então Ministros da República.

Nas hostes do governo socialista recém-empossado, nessas semanas finais de 1995, vivia-se um ambiente de imenso otimismo. Embora não dispondo de uma maioria absoluta no parlamento, António Guterres chefiava um executivo que revelava uma grande unidade e projetava uma imagem de eficácia e de poder vir a apresentar soluções para a maioria dos problemas. O país, que tinha deixado uma década de cavaquismo, do qual se cansara, parecia conquistado pela dinâmica da nova equipa e a própria imprensa deu a esta, por muito tempo, o benefício da dúvida. 

Nesses primeiros meses, por razões de natureza técnica e política, que se prendiam com as implicações europeias de várias decisões e diplomas, e embora fosse apenas secretário de Estado, eu era chamado com frequência para estar presente nas reuniões do Conselho de Ministros. Elas começaram por ter lugar numa sala do primeiro-andar da residência oficial de S. Bento, antes de se transferirem para o edifício da Presidência do Conselho de Ministros, na rua Gomes Teixeira, aos Prazeres, com recurso alternativo a uma outra sala existente na cave de S. Bento, criada ao tempo de Cavaco Silva. 

O ambiente que se vivia no Conselho era de grande camaradagem, embora António Guterres, de forma discreta, tivesse cuidado em pôr um travão a formas de tratamento demasiado informais entre os membros do governo, à mesa do conselho. Recordo-me de um ministro, numa dessas primeiras reuniões, ter feito uma observação que começava por "Ó António, eu acho que tu devias...", com o chefe do governo, sorridente mas pedagógico, a retorquir-lhe: "Eu concordo com o senhor ministro quando diz que...". Sem um mínimo de formalismo, o ambiente de qualquer governo torna-se muito difícil de gerir, tanto mais que os episódicos momentos tensos criam a necessidade de alguma implícita disciplina, a que a familiaridade não ajuda. Guterres, que dispunha de uma autoridade natural que ninguém contestava, reforçada por um extraordinário domínio dos dossiês, mesmo os mais técnicos, rapidamente foi capaz de estabelecer um incontestado padrão de trabalho. 

Num determinado dia, desses primeiros tempos, o conselho tinha uma agenda muito carregada e teve que se prolongar pela noite dentro. À hora de jantar, foi feita uma pausa para sanduíches, cervejas e café, que se terá prolongado por uns bons 20 minutos. Durante esse tempo, embora cada um continuasse no seu lugar, a conversa soltou-se. 

Recordo-me das graças de António Vitorino, então "número dois" do governo, como ministro da Presidência e da Defesa, a que se somava o humor tonitruante de Fernando Gomes da Silva, os ditos humorísticos de Jorge Coelho, a fina ironia de José Mariano Gago, bem como as fabulosas intervenções, com sotaque inconfundível, do secretário de Estado da Justiça, José Matos Fernandes. Todos enchiam a sala de boa disposição, nesses intervalos de um trabalho intenso, gerando um ambiente alegre e barulhento. 

Ora acontece que, nesses primeiros tempos do governo socialista, havia dois convidados à mesa, remanescentes do governo de Cavaco Silva. Tratava-se dos dois Ministros da República para os Açores e para a Madeira, respetivamente o professor Mário Pinto e o vice-almirante Rodrigues Consolado. Todas as semanas, e até que uma decisão em contrário foi tomada, essas duas figuras iam sendo convidadas a estar nos Conselhos de Ministros das quintas-feiras, prolongando uma prática que vinha dos governos de Cavaco Silva, aliás o proponente dos seus nomes. Eram duas figuras muito respeitáveis, discretíssimas e com grande sentido de serviço público. Mas, obviamente, naquele ambiente de camaradagem e cumplicidade política, num outro tempo de governo, a sua presença destoava um pouco. 

Nesse intervalo do Conselho de Ministros, com as graças, as anedotas e alguns dichotes a atravessarem a mesa e a preencherem o ambiente na sala, essas duas personagens pareciam um pouco perdidas. Eu, que substituía Jaime Gama, estava sentado ao lado de Rodrigues Consolado, o qual, por sua vez, ocupava a cadeira à esquerda de Guterres. Para desanuviar o ambiente, ia falando com o vice-almirante, atenuando o seu isolamento, tanto mais que Guterres tendia a falar mais com Mário Pinto, que estava à sua direita e que, de há muito, conhecia bem. 

Rodrigues Consolado estava em funções nos Açores desde 1991. Durante quatro anos, os Conselhos de Ministro a que assistia eram presididos por Cavaco Silva. "Senhor Almirante. Posso fazer-lhe uma pergunta, um tanto indiscreta: como era o ambiente dos Conselhos no tempo do professor Cavaco Silva? Havia pausas e um ambiente solto deste género?", perguntei, consciente de que ele estaria um tanto surpreendido por aquele ambiente de "turma", em que muitos de nós nos tratávamos por tu. 

O nosso militar, sem entrar no detalhe, pela lealdade que entendia devida àquilo a que assistira por dever de ofício, retorquiu-me, em voz baixa, com um ligeiro sorriso: "Não, senhor Secretário de Estado, não me recordo de alguma vez se ter gerado um ambiente destes. Longe disso! Naquele tempo, era tudo muito mais sereno." E concluiu, com uma frase que pretendeu fazer soar como uma constatação de facto, da qual não consegui depreender uma crítica, mas também não o seu contrário: "Cada primeiro-ministro tem o seu estilo, não é?". E mais não disse.

A guerra e a democracia

Numa intervenção que fiz na CNN Portugal, chamei a atenção para alguns aspectos da guerra na Ucrânia que, em minha opinião, têm sido pouco sublinhados. Vou desenvolvê-los aqui.

O primeiro é dizer, com todas as letras, que a NATO não está em guerra com a Rússia. Isto não é uma "technicality", é uma realidade. E, que eu saiba, também nenhum Estado membro da NATO, muito menos Portugal, está em guerra com a Rússia. Se outro país NATO se considerar como tal, tem de avisar, porque, nesse caso, todos os restantes Estados devem avaliar se são obrigados a mostrarem-se solidários com esse eventual estado de guerra.

A segunda é que não é por acaso que uma entidade chamada NATO não está, enquanto instituição de defesa coletiva, a dar qualquer apoio material à Ucrânia, embora o recorrente jingoísmo verbal do seu secretário-geral possa induzir o contrário. Quem o faz, à medida decidida por cada um, sob um compromisso político, são os diferentes países NATO. Esses países, tal como s NATO, também não estão em guerra com a Rússia, mas, ao contrário da NATO, podem prestar ajuda material a um país estrangeiro. E há algo muito importante que também tem sido pouco dito: nenhum país NATO é um aliado militar da Ucrânia, com um compromisso de solidariedade de defesa com a Ucrânia. Quem não conseguir perceber isto deve perguntar-se por que razão os EUA são, a grande distância, o país mais cuidadoso com a ideia da entrada da Ucrânia para a NATO.

A terceira é uma coisa que alguns hesitam em dizer alto: a Rússia, até hoje, nunca ameaçou nenhuma fronteira da NATO. E não o faz porquê? Não é por "bondade". É porque sabe que, se acaso o fizer, terá de enfrentar a cláusula de defesa coletiva inscrita no artigo 5° do Tratado de Washington. Ou, para sermos mais claros: teria de haver-se com os EUA. Se há país que sabe isso bem é a Rússia.

A quarta é um mito urbano recorrente: se a Ucrânia caísse nas mãos da Rússia, toda a Europa ficaria ameaçada, nenhum país europeu ficaria isento da possibilidade de uma invasão russa. Trata-se de um mito, por várias razões. Desde logo porque nenhum dos pressupostos subjacentes às ambições russas sobre o território ucraniano se verifica face a qualquer outro país europeu. Mas, dando de barato que a Rússia poderia ter essa ambição escondida, gostava que alguém respondesse a esta questão: se a Rússia não é capaz de tomar Kharkiv e, muito menos, Kiev, se, ao fim de dois anos e tal, se arrasta penosamente com avanços e recuos de algumas centenas de quilómetros no território ucraniano, há alguma plausibilidade de que venha a conseguir obter, por milagre, um poder militar que lhe permita chegar a países protegidos pela cláusula de defesa coletiva da NATO? Percebo que esta "ameaça" possa ser um argumento para a manutenção de um "estado de alerta" em todo o espaço da aliança, para um maior empenhamento de todos e de cada um em matéria de defesa e segurança, mas não nos tomem por parvos: não há um mínimo de verdade de que a Rússia seja uma real ameaça militar para o espaço NATO. O que não significa, bem entendido, que seja indiferente à NATO o destino da Ucrânia, cuja queda na tutela russa seria muito negativa para os seus interesses.

A quinta é o facto deste sucessivo "deslizar" da guerra da Ucrânia para patamares de mais profundo envolvimento do ocidente no conflito, em casos mais recentes configurando o uso de meios que pressupõem uma mais direta intervenção na guerra (hipótese de criação de uma zona de exclusão aérea, pessoal de forças armadas NATO no terreno de luta ucraniano, etc.) dever ter um escrutínio democrático a níveis nacionais. Se alguns países NATO, com a complacência ou sob o silêncio de outros, tomarem iniciativas que, a prazo, possam vir a envolver a organização e os seus Estados num eventual conflito, eu, como cidadão português, quero que a Constituição da República seja respeitada: se Portugal pode vir a entrar numa guerra, se essa possibilidade existe, então a Assembleia da República tem de dar o seu aval. Portugal não pode "ir entrando" numa guerra "devagarinho", mesmo que por uma iniciativa de outros, até ao dia em que isso seja um facto, sem que as intituições da República se tenham previamente - repito, previamente - pronunciado nesse sentido. Até lá, nenhum governo português tem mandato para concordar com decisões que possam levar o país a um estado de guerra. Mais: o governo não pode dar o seu aval a decisões que contribuam para um agravamento de tensões, que possam vir a redundar numa guerra que envolva o país. O presidente da República, mais do que ninguém, tem de estar muito atento a isto. E a oposição também. 

Gostava que se pensasse a sério nisto, fora de ambientes emocionais.

quarta-feira, maio 29, 2024

Senhor do tempo

Hoje, aqui em Angra do Heroísmo, tive uma sensação similar à que, por vezes, me ocorre em Vila Real. Levantei-me sem pressas, fiz três coisas que tinha para fazer durante a manhã e, de repente, dei-me conta de que ainda me faltava imenso tempo, antes da hora do almoço. Agora, com essa refeição acabada, sei que tenho uma boa pausa até ao primeiro dos dois compromissos que hoje ainda tenho, se bem que um deles seja algo distante, na Praia da Vitória.

Imagino que, para quem aqui vive em Angra ou para quem habita em Vila Real, isto seja uma conversa completamente sem sentido. Mas posso dizer que quem vive em Lisboa, com o estado atual do trânsito, percebe muito bem o meu sentimento. Aqui, nesta terra, parece haver tempo para tudo. Até o ritmo das pessoas parece adaptado a este doce deixa-andar. E, contudo, esteja eu onde estiver, Lisboa faz-me falta. Que coisa!

Zelensky e a vontade portuguesa

Zelensky esteve seis horas em Portugal. Foi recebido com inédita atenção institucional e, de tudo quanto ouviu dos seus interlocutores, pôde levar uma certeza: Portugal é, no seio dos Estados europeus, um dos que se afirmam politicamente mais empenhados no apoio ao seu país. Nesse aspeto, Montenegro e Marcelo estiveram impecáveis, na forma e na substância. Para esta última, teria feito falta um pacote financeiro mais forte. Mas a vida é o que é e cada um dá o que pode - e Portugal avançou com um envelope simpático, à sua medida. Em síntese: face ao compromisso político assumido desde o início desta guerra, Portugal foi coerente, com a mudança de governo a não afetar minimamente a posição do país. Pode dizer-se que, por parte deste governo, Zelensky tem vindo a poder contar com uma atitude talvez mesmo um pouco mais aberta no tocante ao apoio à adesão à União Europeia e à NATO. António Costa tinha sempre usado uma linguagem mais cautelosa. Luís Montenegro deixou cair as cautelas. Verdade seja que pouco passará por nós, se e quando essas decisões vierem a ser tomadas. Mas Zelensky ficou a saber que, em qualquer circunstância, Lisboa não fará parte do problema, no que depender de quem atualmente fala pelo nosso país. Valeu a pena a Zelensky ter vindo a Lisboa? Valeu, num tempo em que todos os apoios não são demais para a cada vez mais difícil aposta nacional que titula. Valeu a pena toda a coreografia de apoio político que governo e presidente desenvolveram, embora com um eco mediático que chegou a roçar algum ridículo pelo exagero? Politicamente, Portugal aproveitou para sublinhar bem a sua inequívoca postura - repito, coerente com a opção política tomada, e sem falhas, desde o primeiro momento. Além disso, na perspetiva dos interesses dos nossos atores institucionais, sim, com certeza, porque é sempre interessante para líderes políticos colarem-se a causas que sabem ser populares - e o apoio à Ucrânia, manifestamente, é, nos dias de hoje, uma causa popular e uma indiscutível tendência maioritária em Portugal. Ficaram todos muito bem na fotografia. 

terça-feira, maio 28, 2024

Zelensky

Sente-se uma despropositada excitação em torno da deslocação de Zelensky a Portugal. A visita tem uma importância apenas relativa. Insere-se no périplo ritual do líder ucraniano aos países que têm apoiado a sua luta. E o que vai ser assinado será mais simbólico do que relevante para essa mesma luta.

A paz interrompida


Entrevista hoje concedida ao “Diário Insular”, de Angra do Heroísmo, cidade onde amanhã vou proferir uma conferência sobre “Portugal e a paz interrompida" .


O mundo parece desassossegado em níveis muito elevados. É o costume ou estaremos perante tempos particularmente perigosos? 

Não é o costume. No caso da invasão da Ucrânia, estamos perante uma rotura grave no sistema internacional. Um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, órgão decisivo para a credibilidade de uma organização que se assume como a plataforma reguladora da paz internacional, abandonou o terreno do diálogo e optou pela guerra, afrontando o Direito Internacional. Não é a primeira vez que isso acontece – e nem sempre foi a Rússia a fazê-lo, relembro. Contudo, o modo muito particular como o desafio colocado por esta ação russa se projeta no equilíbrio estratégico global não tem comparação com qualquer caso anterior. Até por que, no momento atual, constatamos estar-se perante uma óbvia guerra de cariz expansionista. Basta ver o modo como a generalidade dos países europeus se sentiram face a esta ameaça para se constatar os riscos novos que esta crise trouxe ao mundo. Já o caso da Palestina é uma recorrência, embora com uma inédita brutalidade bilateral, num conflito que é tão antigo quanto antiga é a ausência de vontade política internacional para impor uma solução política sustentável na região.


A Rússia anda a invadir a Ucrânia há muitos anos, mas parece que o Ocidente só acordou em Fevereiro de 2022 e mesmo assim revelando alguma incapacidade - ou falta de vontade - para um apoio decisivo. Ainda será possível a Ucrânia acreditar no Ocidente em geral e em particular nos EUA e na NATO? 

O mundo ocidental, no termo da Guerra Fria, não terá percebido que a derrota da URSS nunca foi completamente digerida em Moscovo. A verdadeira Rússia não eram Gorbachev ou Ieltsin, a quem, do lado de cá, se achava alguma graça. Isso era assim porque essa era a Rússia que parecia estar a fazer “hara-kiri”, enterrando o passado comunista e mergulhando num liberalismo furioso, que encantou muita gente ocidental, que aliás disso bastante usufruiu. A Rússia que se propôs resgatar a humilhação sofrida depois da queda do muro de Berlim tinha outro nome: Putin. O crescente desequilíbrio da Ucrânia para o lado ocidental, com um deslizar para os braços da NATO, não era aceite por quem estava determinado em refazer, revendo-as por todos os meios possíveis, as novas fronteiras de segurança e de influência que a dura realidade dos factos, posterior à implosão da URSS, lhe havia imposto. Moscovo não quis aceitar uma regra: que perde uma guerra tem sofrer efeitos disso. E a URSS foi a grande derrotada da Guerra Fria. A Ucrânia acabou por ser a vítima colateral deste processo, porque o poder prevalecente em Kiev arriscou levar até ao fim o seu sonho de desafiar a geografia e contou que, deste lado, a iriam ajudá-la a isso. O mundo ocidental fez pouco? Fez aquilo que os seus progressivos consensos lhe permitiram fazer. É muito mais difícil reagir às coisas em democracia do que num estado autocrático, mobilizado pelo despeito e por um movimento, quase religioso, de regeneração nacional, como sucede na Rússia. No nosso mundo, a vontade política, com expressão na força que projeta, passa por um processo de convicção das opiniões públicas, que demora o seu tempo. Além do mais, temos de gerir a diversidade dos vários poderes e as suas diferenciadas sensibilidades geopolíticas. Basta olhar para o processo decisório na União Europeia para entender isto. Por isso, acho que não nos devemos auto-flagelar. 


"Espaço vital", uma designação de má memória, já foi utilizado para definir o que estará por detrás das movimentações russas. Há historiadores e analistas que já falam abertamente um clima pré-guerra generalizada, bebendo o exemplo do que se passou na Europa antes da II Guerra Mundial. Qual a sua visão? 

Não creio que a Rússia esteja interessada numa guerra global. E, do lado de cá, acho que os Estados Unidos também não desejam isso. Até porque, goste-se ou não, esta não é uma guerra vital para Washington, a menos que nesse sentido vital se incorpore o orgulho que ficaria ferido por um recuo na Ucrânia. Mas a América já passou por muitas humilhações e nem por isso deixou de aprender e ir em frente: o Vietnam, o Iraque, o Afeganistão foram guerras que correram muito mal aos EUA. E o mundo não deixou de observar isso. Para os EUA, o verdadeiro desafio – estratégico, em todos os sentidos – chama-se China. A agressividade de Putin na Ucrânia, não terá sido de todo inesperada, atendendo ao que já se tinha passado na Geórgia e no posterior “meter ao bolso” da Crimeia. Contudo, imagino que o desafio terá sido maior do que Washington esperava. E julgo que a ideia americana é a de que esta é, no fundo, uma guerra que a Europa deveria conseguir tratar. Mas reconheço que falar de “ideia americana” é um conceito um pouco vago, é esquecer que, no dia 5 de novembro, podemos ter outra América, um filme de terror de que já vimos o “trailer”.


Estarão criadas as condições para um conflito que oponha democracias a regimes totalitários, tendo como pano de fundo, por exemplo, uma disputa pela alteração e pela liderança da ordem mundial ainda vigente? 

Julgo que ninguém cairá na asneira de arriscar um conflito nuclear para tentar impor a democracia no mundo. Até porque, no Direito Internacional – e isto é uma realidade, mesmo que desagradável de ouvir - as democracias não têm um estatuto e uma dignidade institucional superior às autocracias. Basta olhar para a composição da ONU. Dividir o mundo entre “bons” e “maus” deu-nos décadas de Guerra Fria. E, no fim, isso não resultou num “mundo de bons”. E convém lembrar que, nesse tempo, os “bons” acomodaram muitas vezes o seu interesse em cumplicidade com sinistras ditaduras, com “maus” que davam jeito. O mundo ideal, com todos em paz, liberdade e pombas brancas a voarem, não existe nem existirá. A solução para uma paz possível é sempre alargar e conseguir a convivência entre regimes de sinal diferente. As Nações Unidas eram isso mesmo. O ótimo é sempre inimigo do bom. 


O conflito na Terra Santa parece eterno e reacende-se sempre com grande crueldade. O conflito em curso será "mais um" ou, pelo contrário, poderá ser enquadrado num movimento mais vasto que envolva uma disputa estratégica por parte de grandes potências globais, com apetência para tal ou meramente regionais? 

Não parece haver sinais de que estejamos perante um conflito com um forte potencial de alastramento. O mundo, aliás, parece viver confortável com o papel relevante que os EUA ali desempenham, o que muito limita esse risco. Para a América, para além de ser uma questão de política interna, Israel é um “asset” geopolítico. Trata-se de uma espécie de “enclave” ocidental que, no fim do dia, Washington utilizou, mais ou menos discretamente, para intervir, sem demasiadas “boots on the ground”, numa região que é vital, quer para a América quer para o mundo ocidental, a vários títulos - do campo energético ao logístico, passando pelo controlo do terrorismo islamista. O que se passou nos últimos meses, contudo, acarretou efeitos no relacionamento israelo-americano que pode vir a alterar alguns dos pressupostos tradicionais que ali vigoravam. 


Parece que a paz entre os homens não é possível... Podemos arrolar conflitos desde os caçadores-recolectores até ao dia de hoje. Como vê um diplomata um mundo (um ser humano...) tão violente e em permanência? 

Um diplomata é sempre um “possibilista”, isto é, é alguém que olha a realidade internacional sob uma perspetiva um tanto fatalista, tentando descortinar o que, no fim de contas, é possível fazer para tornar as coisas melhores. Os conflitos, ao que a experiência nos ensina, fazem parte eterna da vida dos homens e dos Estados, dado que os interesses raramente se acomodam em definitivo. Assim, para a minha profissão, fazer “pontes”, sugerir compromissos e tentar a todo o custo evitar ou suspender conflitos, ou mantê-los com baixa intensidade, é a regra eterna do nosso jogo. Muitas vezes somos mal compreendidos, acham-nos demasiado propensos a posições realistas. Ora nós não fomos votados por ninguém, não temos legitimidade democrática direta. Somos simplesmente uma profissão que ajuda quem tem a legitimidade que lhe foi dada pelo sufrágio a encontrar soluções para que todos possamos sobreviver, na paz que for viável.

Falar claro

Em países onde há eleições basicamente livres, é enganador personalizar a culpa nos líderes: não é Trump quem leva a América a agir de uma certa forma. É a América que escolhe Trump para assim proceder. É a Israel e não a Netanyahu que o mundo deve pedir contas.

segunda-feira, maio 27, 2024

Ainda sem anticiclone

 

Há quartos de hotel com pior vista, não há?

Viajar na TAP com as cores antigas


A fronteira moral

O que se passa em Gaza, com campos de refugiados bombardeados e mais algumas dezenas de civis mortos, começa a estabelecer uma fronteira moral pelo mundo: entre quem não aceita isto e quem, contra toda a evidência, não se escandaliza e acaba sempre por ficar do lado de Israel.

CPLP para quê?


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"Ainda não chegámos à Madeira!"

Um dia, o Partido Socialista vai ter de refletir seriamente sobre as razões pela quais, há quase 50 anos, tem sempre um resultado no máximo sofrível na vida política da Madeira. O PS também já devia ter aprendido que insistir num erro não é o caminho para o sucesso. 

domingo, maio 26, 2024

É só isto

Repito o que digo desde o início. Israel não combate o Hamas, combate o povo palestino. Para Israel, um cidadão palestino tem, claramente, uma dignidade, como ser humano, inferior à de um cidadão israelita. E alguns que se vão indignar com este post pensam exatamente isso mesmo.

Às três da tarde


Sou do tempo do futebol às três da tarde, sempre e só aos domingos. À noite, apenas os jogos internacionais dos clubes, porque até os das seleções (seleção A, seleção B e seleção militar) respeitavam o ritual dominical. Esta modernice de ter jogos a toda a hora e em dias diversos não existia. 

Os relatos na rádio cobriam apenas os dois jogos mais importantes, com saltos na emissão: "Alô, Nuno! Passo às Antas!", dizia Artur Agostinho para Nuno Brás. E lá chegava, alambicada de vez em quando, a "evolução do marcador" nos outros "prélios".

Nos relatos, ia-se sabendo da sorte do "esférico", que os "backs" (béques, dizia-se) tentavam travar, se o "liner" não tivesse marcado "off side" (ainda digo assim...), antes de chegar ao "keeper". 

Querem recordar como começava a "Tarde Desportiva" da Emissora Nacional? Cliquem aqui.

Era um país arrumadinho, era, mas muito chato, convenhamos.

Do Irão a Israel


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A beleza de Lamarr


Esta senhora, se fosse viva, teria 110 anos. Chamava-se Hedy Lamarr, era austríaca, atriz e, a meu ver, tinha uma beleza única e quase intemporal. Posso dizer isto? Ao fazê-lo, não estarei a ser sexista, a sublinhar meras e discutíveis dimensões estéticas, a praticar um ato de discriminação face a todas as mulheres que não têm estes traços?

Manchester


Quando, nos anos 90, fui viver para Londres, o futebol britânico, que sempre foi dos melhores do mundo, entusiasmou-me. Não ganhava o dinheiro suficiente para ir ver muitos jogos, mas, apesar disso, tive o ensejo de estar várias vezes dentro de alguns daqueles estádios apinhados, com cânticos permanentes, multidões ululantes, às vezes quase ameaçadoras para quem ia para ali sozinho, sem cachecol nem óbvia preferência. 

Eu era um moderado fã do Arsenal, apreciava também o Tottenham e não gostava do Chelsea, sei lá bem porquê, cujo estádio, aliás, era bem próximo de minha casa. Tive o privilégio de assistir a duas "Cup Final" no velho estádio de Wembley e acompanhei jogos do Benfica, do Porto e do Sporting contra adversários britânicos, em provas europeias. Quatro anos e tal de Londres deram-me muito bom futebol, além de outras alegrias.

Lembrei-me disto ontem, ao ver a emocionante final da Taça, entre o Manchester City e o Manchester United. Contra a corrente dos dias, o United ganhou ao City, que tem tido muitos dos seus últimos anos cobertos de glória, interna e internacional, sob a batuta de Josep Guardiola. As coisas não eram assim naquele meu tempo britânico. Por essa altura, o City era o "parente pobre" da cidade de Manchester, uma espécie de Atletico de Madrid face ao Real, ou do Español face ao Barça. O Manchester United, com uma história gloriosa, e até com uma tragédia pelo meio, era então o clube mais importante, com forte projeção internacional. Nos últimos anos, contudo, o United tem andado "debaixo de água". Ontem, na final da Taça, renasceu por uma vez das cinzas (em 2023/24 ficou em 8° na Premier League) e bateu o rival City por 2-1, assegurando assim um lugar nas competições europeias.

O bom futebol, para quem dele gosta - e eu gosto -, é um imenso prazer.

Reino Unido. As eleições serão em julho.


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Ucrânia. As últimas da guerra


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sábado, maio 25, 2024

Vidas

Os sonhos são tramados. A maioria não recordamos, poucos ficam. Há dias, no confuso contexto de um sonho, cruzei-me com um amigo que já morreu há vários anos. Ele estava concentrado a fazer qualquer coisa e eu abordei-o. Sabia que ele tinha andado doente, tinha consciência e culpa de que não acompanhava como devia o seu estado de saúde, pelo que recordo ter hesitado na forma de o abordar: "Tens andado melhor?", perguntei, a medo. Estaria aborrecido comigo? Não fixei a resposta que me deu, mas apenas anotei que saí da conversa aliviado. É um pouco egoísta pensar assim, mas estar em paz com os mortos é essencial para a nossa vida.

Paulo Lourenço


Tinha 52 anos e a perspetiva de uma bela carreira diplomática, de muitos mais anos, à sua frente. Paulo Lourenço, embaixador de Portugal em Cabo Verde, morreu agora, de forma súbita. 

Os meus sinceros sentimentos à sua família.

House of Windsor

A linguagem e a "coreografia" da casa real britânica, em torno da saúde da mulher do príncipe herdeiro, não prenunciam nada de bom.

Logo se verá


20% menos do que os Trabalhistas é o resultado que as sondagens atribuem aos Conservadores, a caminho das próximas eleições legislativas britânicas, em 4 de julho. Aqui fica o quadro, para compararmos depois com o resultado efetivo. 

A lebre

Há algo que o mundo aprendeu: quando o Reino Unido anuncia a possibilidade de dar um novo passo em termos de ajuda a Kiev, sem que atitude idêntica tenha ainda sido anunciada pelos EUA, isso significa que, cedo ou tarde, Washington fará o mesmo. O RU é apenas uma "lebre" dos EUA.

Fascistas à linha

Os conservadores europeus vão ser proximamente sujeitos a um belo teste: se serão ou não capazes de resistir à sedução de uma aliança com a extrema-direita "apresentável". Quando se começa a pescar fascistas à linha, só porque dão jeito para certas políticas, é o oportunismo a prevalecer sobra a decência. Se assim procederem, adotarão o mais miserável princípio rooseveltiano: "He is a son of a bitch, but he is our son of a bitch".

Aveiro!

A Universidade de Aveiro atribuiu um doutoramento "honoris causa" a Sérgio Godinho. Grande, grande é a universidade que decide tomar uma decisão destas ! Sérgio Godinho projeta-se em várias gerações portuguesas, com liberdade, alegria, sensibilidade e cultura. Viva a Universidade de Aveiro!

Qual é a pressa?

Meses depois do parágrafo ("qual é a pressa?"), António Costa foi ouvido. Confirmando as expetativas, saiu do DIAP ("ainda", acrescenta, hábil, uma folha digital) sem qualquer medida de coação. "Mas isso agora não interessa nada" (como diz alguém). O importante está feito, não é?

sexta-feira, maio 24, 2024

A mancha poupada

Se houve um efeito colateral positivo na convocação antecipada de eleições legislativas no Reino Unido foi o arquivar definitivo da celerada ideia de "exportar" para o Ruanda os candidatos a asilo. Pelo menos, os britânicos ficarão sem essa mancha moral no currículo do país. 

Putin (2)

Viktor Yanukovych, o presidente ucraniano forçado a abandonar país depois de Maiden, em 2014, juntou-se hoje a Putin em Minsk. Será que Putin pretender explorar o argumento do termo formal do mandato presidencial de Zelensky? E irá alegar a "legitimidade" residual de Yanukovych? Seria bizarro, mas, naquele mundo, tudo pode acontecer.

Putin

Segundo várias fontes do Kremlin, ouvidas pela Reuters, Putin poderia estar aberto a um cessar-fogo na Ucrânia, com "congelamento" da atuais linhas de frente. A ver vamos.

A Ucrânia...


... e os riscos que a Rússia e o ocidente fazem correr. 

Ver aqui.

Açores

 


quinta-feira, maio 23, 2024

Já não há


Quem havia de dizer que Nikki Haley surgiria a dizer que vai votar Trump! Há meses, Haley personificava, para uma certa América, a dignidade do combate a Trump. A sua linha de rotura não ia ao extremo de Liz Cheney, mas a notável persistência em campanha, forçando Trump a um dispendioso prolongamento das primárias, mostrava que havia um "outro" Partido Republicano. Decente, caramba!

Havia? Já não há.

quarta-feira, maio 22, 2024

Ubiquidade afetiva


Marcello Duarte Mathias é um diplomata português, reformado. Politicamente, é um homem assumidamente conservador, tendo Franco Nogueira como uma das suas grandes referências. Era diplomata na embaixada de Portugal no Brasil, ao tempo do 25 de Abril. Integra uma família que tem diplomatas em várias gerações, a começar no seu pai, ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar. Tem vasta obra publicada e é, reconhecidamente, uma das melhores "penas" oriundas do Palácio das Necessidades. 

Amândio Silva, que nos deixou há três anos, vivia exilado no Brasil, ao tempo do 25 de Abril. Havia sido combatente na luta contra a ditadura, tendo estado envolvido na Revolta da Sé e feito parte da LUAR, sendo um dos operacionais do sequestro político do voo da TAP entre Casablanca-Lisboa, em 1961. Nos anos 80, foi conselheiro social na embaixada de Portugal em Brasília. Até ao fim dos seus dias, em 2021, esteve envolvido numa multiplicidade de iniciativas para a promoção das relações luso-brasileiras. 

Não sei se Marcello Mathias alguma vez se cruzou com Amândio Silva. Conhecendo-os a ambos, de uma coisa estou em absoluto seguro: em termos políticos, não podiam ser duas pessoas mais diferentes. 

Marcello Mathias lançou hoje, em Cascais, mais um volume de seu diário, que foi apresentado por José Pena do Amaral. As memórias de Amândio Silva foram hoje apresentadas em Lisboa, por Manuel Pedroso Marques. Os lançamentos ocorreram quase à mesma hora. Tinha-me comprometido a ir ao lançamento do livro do Marcello, quando soube da publicação do livro do Amândio, pelo que, naturalmente, me vi obrigado a faltar ao lançamento deste último. 

Em toda esta história, noto que sou amigo do Marcello, que fui amigo do Amândio e que se dá ainda o caso dos apresentadores de ambos os livros serem também bons amigos meus. 

Constatei hoje, uma vez mais, uma insuperável limitação: não consigo atingir a ubiquidade física, isto é, estar em dois lugares ao mesmo tempo. Mas registo, com gosto, que tenho andado por esta vida com uma orgulhosa ubiquidade afetiva.


Portugal e a Palestina


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Congratulations

Antes que as coisas se estraguem mais, o primeiro-ministro britânico convocou eleições gerais para 4 de julho. 

Podem começar a enviar desde já parabéns a Sir Keir Rodney Starmer KCB, 10 Downing Street SW1A 2AA, London, United Kingdom.

A coreografia do governo

Posso perceber que este governo queira afirmar bem a sua diferença face ao anterior. O que me parece mais misterioso é que não opte por fazê-lo adotando uma capa dialogante, não confrontacional, sem arrogância, correspondendo à escassez da maioria que tem na Assembleia da República.

Se assim procedesse, dando um ar, verdadeiro ou falso, de estar aberto ao compromisso, julgo que teria uma muito maior possibilidade de, um dia, poder vir a argumentar de que, não obstante toda a sua boa vontade, não consegue governar, por obstrução sistemática por parte da oposição.

O país reconheceria então que o governo se tinha esforçado, mas que a falta de uma sólida maioria parlamentar o tinha impedido de fazer melhor. E isso sublinharia melhor o contraste entre a sua postura e o comportamento "negativo" da oposição. Deste modo, se viesse a ocorrer uma crise institucional, com impacto da funcionalidade do executivo, com necessidade de recurso a eleições, o governo poderia vir a surgir como uma "vítima" aos olhos do país, com a "recompensa" que isso lhe poderia render em termos de votos numa eleição.

Por que razão o governo não se comporta de forma diferente?

Coloquei esta questão, há dias, a uma figura histórica do PSD, por quem tenho grande respeito. A sua resposta foi, no mínimo, desconcertante. Concordando comigo em que uma atitude dialogante poderia ser mais vantajosa, disse-me ser sua opinião que o PSD dos dias de hoje, naquilo que é relevante em termos de decisão política, quase não dispõe de personalidades de outro género do que as que foram aculturadas num clima de agressividade verbal, de quebra de pontes políticas, de "trincheiras" mediáticas e parlamentares. O "jejum" de poder nos últimos oito anos terá agravado esta postura, pelo que, ao lado de Luís Montenegro, há hoje um grupo de assanhados e intraváveis "jeunes loups", muitos com alguma qualidade política, mas todos marcador por essa inescapável atitude "guerrilheira". O PSD do passado, na perspetiva dessa figura, já quase não existe e, em especial, não tem influência na condução do partido. Mesmo o atual governo parece ter sido escolhido para fazer uma política assim, mantendo esta atitude como doutrina.

Será mesmo assim?

terça-feira, maio 21, 2024

AGAVI


Sabem o que é a Agavi? É a Associação para a Promoção da Gastronomia, Vinhos, Produtos Regionais e Biodiversidade, uma associação empresarial sem fins lucrativos, com sede no Porto. Sou membro fundador e integro o Conselho Superior da Agavi desde 2010.

Ontem, no quadro da iniciativa da Agavi "Ideias à Prova", falei por lá de Portugal e do estado do mundo, para umas dezenas de associados. Mais sobre a Agavi aqui.

Deixo o menu do jantar. A inveja é um sentimento pouco nobre, sabiam?

segunda-feira, maio 20, 2024

Gaudin


Um dia de 2010, quando era embaixador em França, fui alertado para o facto de uma empresa portuguesa de construção civil, sedeada em Braga e que operava em Marselha, se queixar de estar a ser objeto de uma persistente perseguição por parte da inspeção do trabalho municipal. As obras que executava eram também municipais.

Constantes visitas dos inspetores aos locais de trabalho e várias multas indiciavam, na perspetiva da empresa, que estava a ser vítima de uma espécie de "bullying", desincentivador da continuidade das suas operações. Conhecido que era o ambiente algo "mafioso" que existia nos meios sindicais de Marselha, tudo era possível. Não podia excluir-se que sl guns dos competidores franceses da empresa no pudessem estar por detrás desta operação intimidatória. A AICEP tinha recebido a queixa e pedia-me para intervir. 

Que fazer? Há algo que aprendi do exercício da diplomacia: nunca devemos tomar por verdadeira uma qualquer queixa só pelo facto do queixoso ser português. Algumas vezes caí nessa asneira e arrependi-me Mas, naturalmente, estando uma empresa nacional na origem de uma reclamação, o embaixador tinha a estrita obrigação de averiguar e atuar, até ao limite do possível e do razoável.

Sabia que uma discriminação como aquela que era denunciada seria sempre muito difícil de provar. A menos que tivesse havido acusações depois infirmadas pela justiça, era complicado arguir que se tratava de uma deliberada perseguição. Mas não custava tentar. Olho sempre para este tipo de situações como para os "cartões amarelos" que alguns árbitros de futebol mostram, com vista a atemorizar as equipas que pretendem pressionar.

Dramatizar politicamente o problema, para apelar ao reconhecimento oficial de uma possível discriminação, era a única solução que via como possível. Através da nossa Cônsul-Geral em Marselha, pedi que fosse marcada um reunião minha, com caráter de urgência, com o poderoso presidente da câmara municipal de Marselha, Jean-Claude Gaudin.

Gaudin era uma figura bastante conhecida na política francesa. Havia sido o frustrado mas histórico competidor do socialista Gaston Deferre na liderança política da cidade. Tendo chegado a vice-presidente do Senado, chefiou interinamente o partido gaullista, UMP, no período de transição entre Alain Juppé e Nicolas Sarkozy. Viria finalmente a presidir ao município de Marselha por um longo tempo, entre 1995 e 2020. 

Não posso esconder que, muito mais do que algumas vedetas com projeção internacional, tive sempre grande curiosidade em conhecer este tipo de figuras intermédias da política, em especial aqueles que acabaram por ficar na soleira da glória.

Chegado a Marselha, comecei por ter uma primeira reunião com a nossa cônsul-Geral e com a empresa portuguesa, com vista a apurar queixas desta. Fiz depois uma visita às obras. Finalmente, fui recebido por Gaudin.

O gabinete de Gaudin, recordo, era imenso. A varanda sobre a cidade, sobre o magnífico Vieux Port, de que guardo algures uma fotografia com ele, era imponente. Tudo aquilo ressoava a poder.

A série televisiva "Marseille", que está na Netflix, com Gérard Depardieu como protagonista, lembra fisicamente Gaudin e, na amoralidade representada na personagem, recorda o ambicioso político Bernard Tapie, que chegou a proprietário do "Olimpique de Marseille".

Velha raposa, mas pessoalmente muito agradável, Gaudin ouviu-me com uma delicada atenção. Perguntou-me, naturalmente, se acaso eu tinha algumas provas concretas no tocante a ameaças sobre a empresa portuguesa. Disse-lhe o óbvio: que não, que apenas tinha relatos e a listagem de insistentes inspeções sucessivas. E acrescentei que sabia que isso não constituía prova, mas apelava a um seu juízo de equidade. Gaudin não reagiu. Ao seu lado, notei que assessores se agitavam, talvez temerosos de que ele viesse a atender às minhas razões.

Como não guardo papéis, a esta distância temporal, não faço ideia de como o assunto se resolveu. Terá a empresa de Braga tido vencimento na sua causa? Só posso esperar que sim. Por mim, fiz o que pude.

Acabo de saber que Jean-Claude Gaudin morreu hoje, com 84 anos. Cada vez mais, as histórias que por aqui conto, estão recheadas de gente que já se foi. Que chatice!

Ponto

A ver se nos entendemos. O presidente da AR, pelo regimento, não pode impedir um deputado de dizer dislates. Mas, pela ética e pela decência, se for um democrata (e tenho Aguiar Branco por um democrata), deve sempre intervir e denunciar quem ataca os valores da República. Ponto.

domingo, maio 19, 2024

Luxos

Hoje, o Alfa Pendular em direção ao Porto parou no apeadeiro de Vila Nova de Anços. Há dias, foi a aurora boreal. Ontem foi o meteorito. Qualquer dia oferecem-nos lua cheia! Este governo estraga-nos com mimos! Não será demais? Vejam lá as contas públicas...

Vida nova

Para que se não diga que não comemoro a vitória do (meu) Sporting no campeonato, mudei, por algum tempo, a cor do título. Alguns dirão: só isso? Exatamente. Eu sou de júbilos sóbrios.

A máscara


Fiquei sem muitas palavras. Um amigo, daqueles que me conhecem "de gingeira", disse-me, há pouco, com uma crueldade nada compatível com o que se esperaria de uma chamada telefónica, para saber da vida, num fim de semana: "Passas o tempo a falar dos livros, mas a verdade - confessa lá! - é que o teu grande vício são os écrans, de vídeo ou da internet!" E não é que ele tem toda a razão, embora eu não lha reconheça?! 

Tudologia

Hoje, lembrei-me de um amigo, frequentemente convidado para falar em público de "tudo e mais um par de botas", que um dia me disse, com ironia: "Com a idade que tenho, já falo de quase tudo, exceto de algumas ciências exatas". Não o convidaram "sobre o meteorito", espero!

Nota da noite


Quando miúdo, lembro-me de o meu pai se irritar quando, no início dos oficiosos noticiários da Emissora Nacional, surgia a "Nota do Dia". "Lá vem o recado do Botas! O que é que ele quer hoje?", exclamava, referindo-se a Salazar. 

A Nota era como que um editorial, creio que com pouco mais de um minuto, escrito por um plumitivo qualificado, lido com a voz solene e grave adequada à emissora do regime. Eram textos num português gongórico, laudatórios para o poder e implacáveis na denúncia dos inimigos da "situação" - como então se designava o ambiente político que tutelava o país. Recordo-me, em especial, das virulentas diatribes contra os "terroristas" que então ameaçavam "as nossas possessões ultramarinas".

Homem que sempre senti do "reviralho", saudável vício de toda a minha família oriunda de Viana do Castelo, o que me influenciou para a vida, as manifestações de desagrado político por parte do meu pai, funcionário público sem outros meios de fortuna para sustentar a família, ficavam-se, naturalmente, pelo ambiente doméstico e por conversas tidas num grupo de amigos mais próximos, com o qual, ao final da tarde, quando o tempo de Vila Real ajudava, dava umas voltas à Avenida Carvalho Araújo.

Era assim o país que então "vivia habitualmente", como Salazar dizia que o país gostava de viver, até ao 25 de Abril, uma das datas de maior felicidade na vida do meu pai. 

Por que diabo me terei lembrado agora das "Notas do Dia" da Emissora Nacional? 

(Em tempo: Já foi azar! A escrever isto, perdi o meteorito de Castro Daire!)

Na mãe das democracias

Quem se escandaliza pelo facto de se exigir ao presidente da Assembleia da República que evite linguagem ofensiva, talvez devesse visitar a Câmara dos Comuns britânica, onde, sob ordens do "speaker", o "serjeant-at-arms" pode expulsar deputados que usem palavras impróprias.

sábado, maio 18, 2024

O poder da China

O "red carpet treatment" dado a Putin por Xi Jiping, depois da visita que fez à Sérvia e Hungria, parece ser um sinal claro, e definitivo, para os EUA. Na mesma lógica, a China não irá à cimeira na Suiça. Putin rejubila, claro. 

Justi$$a

Acho delicioso o eufemismo sindical dos oficiais de justiça perante a oferta salarial: pedem ao governo para "robustecer a proposta" em termos financeiros. Raramente pedir "mais massa" foi expresso de forma tão elegante.

A direita e a liberdade

Alguns vieram a jogo dizer que Aguiar Branco defendeu a liberdade e que essa é uma atitude própria da sua área política. Só podem estar a brincar. A ideia de que é a direita que, predominantemente, pratica a liberdade tem apenas um pequeno mas imenso senão: a História.

Leiam

Foi divulgado pelo "Die Welt" e pelo "Le Figaro" o acordo de paz que esteve prestes a ser assinado entre a Ucrânia e a Rússia, em março de 2022, com intermediação da Turquia. Nada está igual. Muita gente morreu entretanto, muito ódio se gerou. Importa, contudo, ler o texto.

A ameaça russa


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Sánchez ou a vitória de um refém


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Os EUA, Israel e o futuro de Gaza


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sexta-feira, maio 17, 2024

Embaixadores - a função e o título

Tem-se vindo a falar por aí do título de "embaixador". 

Embaixador designa uma função que se exerce, mas pode ser também uma categoria profissional que se atinge. Trata-se de duas realidades que nem sempre são coincidentes.

A maioria das embaixadas portuguesas são chefiadas por diplomatas que exercem essa função "com credenciais de embaixador". Na hierarquia do Ministério dos Negócios Estrangeiros, essas pessoas ascenderam à penúltima categoria da carreira, a de "ministros plenipotenciários", e, como tal, tiveram a possibilidade de vir a ser escolhidas para dirigir uma missão diplomática. São "embaixadores de Portugal em ...", são tratados por "embaixadores" e manda a tradição que, a partir de então, no seio do MNE, passem a ser designados para sempre como tal.

Esse período de exercício, que frequentemente acontece sucessivamente em mais do que um posto, permite apurar quem, de entre esses "ministros plenipotenciários", se distingue no desempenho da chefia das missões diplomáticas ou de consulados-gerais. De entre esses diplomatas, alguns - muito poucos - virão mais tarde a ser escolhidos para ascenderem ao topo da carreira, isto é, a uma categoria chamada de "embaixador". 

Essa categoria, superior e máxima na hierarquia, tem um número muito limitado de vagas, representando menos de 10% da totalidade dos diplomatas da carreira diplomática portuguesa. Os diplomatas que ascendem a essa categoria têm, neste caso por direito próprio e não apenas por tradição, como nos casos anteriores, direito a usar o título permanente e vitalício de "embaixador". Antigamente, era vulgar distinguir estes diplomatas designando-os como "embaixadores de número", precisamente para sublinhar a escassez dos lugares a que tinham ascendido. Os britânicos chamam aos diplomatas que chegaram ao topo da sua carreira "full rank ambassadors" e os franceses designam-nos como "ambassadeurs de France".

Não sei se ocorreram outros casos, mas, curiosamente, houve pelo menos dois "embaixadores de número" que nunca exerceram funções de chefia de uma embaixada, em ambos os casos durante o Estado Novo. O primeiro foi o embaixador Teixeira de Sampaio, que foi secretário-geral do MNE, e o outro o embaixador Franco Nogueira, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros.

Bom senso e bom gosto

Aguiar Branco faria bem se se retratasse muito rapidamente, em face do que disse sobre as tomadas de posição racistas. Ele não pode pensar isso e, seguramente, foi uma afirmação precipitada. Se a mantiver, colar-se-lhe-á à pele para o resto da vida.

Botão errado


Foi ontem à tarde, na Fundação José Saramago. A homenagem ao Nuno Júdice era no 4° andar. Distraidamente, carreguei no botão do 3° andar. Ia a sair ali, quando fui avisado do erro. Travei a tempo! Nesse andar é a livraria da Fundação e, conhecendo-me, não passava sem comprar algum livro. Não julguem que estou a brincar! Não estou. Tenho uma compulsão doentia para a compra de livros, quando eles me aparecem pela frente. Estive na Hungria em meados de abril e, claro, fui visitar uma livraria que conhecia em Budapeste. Comprei lá um guia da Holanda, país onde fui por uns dias no fim do mesmo mês. Na Haia, abasteci-me numa livraria em saldos, na rua principal da cidade. Há dias, na Universidade Católica, onde ia moderar uma palestra, enganei-me e entrei pelo piso de baixo. O que eu fui fazer! À esquerda, existe uma ótima livraria e, claro, não saí de lá sem três livros. Há anos que me sinto embaraçado (ia escrever envergonhado, mas já perdi a vergonha) quando chego a casa e os sacos que trago na mão são olhados com ar crítico por quem acha que viver com 132 livros no quarto de dormir (contei-os hoje) é talvez um exagero. Além, claro, de alguns milhares em outras estantes pela casa, fora os incontáveis que estão em Vila Real e os muitos que a biblioteca municipal da cidade já guarda no Fundo Bibliográfico com o meu nome. Este fim de semana vou ao Porto e, à ida e à volta, vou encontrar nas estações de caminhos de ferro umas tentadoras lojas, com fundos de edição ao preço da chuva. Já estou a imaginar o que vai suceder... Daqui a dias, vou palestrar aos Açores: qual é a melhor livraria de Angra do Heroísmo? Logo de seguida, vou a França. Vai ser um "desastre"! A propósito: quando é que abre a Feira do Livro? 

(A imagem é só para ilustrar o texto, não é da minha casa, juro!)

quinta-feira, maio 16, 2024

É só saúde!

É fantástica a súbita "onda de saúde" que se espalhou pelo país. Em poucos meses, não são mostradas filas nas urgências dos hospitais e os telejornais já não abrem com as tragédias no SNS. Se calhar, até as listas de espera para operações diminuiram! Tudo sem crise nem vergonha!

Russos

A porta-voz do governo russo pronunciou-se sobre as relações do seu país com Portugal: estão no mais baixo nível de sempre. A menos que Portugal tenha feito algo (muito improvável) de especificamente anti-russo, quero crer que essa deverá ser a resposta "standard" relativa aos aliados da Ucrânia. Ou estarei enganado e haverá algo que desconheço?  

O futuro da diplomacia


A convite de Jaime Quesado, que dirige a iniciativa "Sharing Knowledge", tive ontem o gosto de fazer uma palestra, no Palácio Galveias, em Lisboa, sob o tema "O futuro da diplomacia". 

Falei dos desafios técnicos da diplomacia contemporânea mas, essencialmente, do quadro de tensões internacionais que serve de moldura à atual ação diplomática. 

O debate que se seguiu, por mais de uma hora, numa sala que se encheu, foi muito animado e participado.

O meu sincero agradecimento ao Jaime Quesado por esta ocasião e pelo seu já longo empenhamento no utilíssimo "Sharing Knowledge".

quarta-feira, maio 15, 2024

Não nos desiludam!

Já há abaixo-assinados contra a decisão sobre o novo aeroporto? E providências cautelares? Então e as objeções ambientais, de invejas locais, de natureza financeira e toda a lista de problemas que os cultores do imobilismo vinham a acumular há décadas? Não nos desiludam!

Mostrar o periscópio

Pressentindo que o país, nas próximas eleições presidenciais, pode preferir um estilo mais sóbrio, o senhor almirante começa a alambicar declarações patrióticas, ao jeito jingoísta dos dias. É tudo tão óbvio!

Notícias do comércio livre

Com a aproximação das eleições, Biden "faz peito" e reforça o protecionismo americano face à China. Verdade seja que, historicamente, os democratas foram quase sempre mais restritivos em matéria de comércio externo, por virtude de neles os sindicatos terem uma maior influência.

A pax chinesa

Putin diz que apoia o plano de paz apresentado pela China, em 2023, para o conflito com a Ucrânia. O texto chinês, se bem recordo, era um monte de ambíguas obviedades, algumas incompatíveis entre si. Dito isto, é bom ver Pequim (não, não escrevo Beijing) de regresso ao tema.

Reforma


Mais 50 pessoas (clique na imagem), de origens bem diferenciadas, assinaram o manifesto para a reforma da Justiça. 

Sabemos que isto vai irritar alguma gente, o que é ótimo.

Ah! Por favor, não comentem sem antes lerem o texto.

Falando de acordos


Ontem, na CNN Portugal, a propósito dos instrumentos jurídicos que, seguramente, estariam a ser preparados para a deslocação - afinal, ainda não será desta! - de Zelensky a Portugal, ouvi-me dizer algo como isto: "Nestas ocasiões, tem sempre de ser assinada qualquer coisa.."

E lembrei-me de uma cena passada, algures na segunda metade do ano de 1976.

Estávamos numa reunião entre delegações presididas pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Medeiros Ferreira, e pelo primeiro-ministro e ministro da Cooperação de S. Tomé e Príncipe, Miguel Trovoada, na Sala dos Embaixadores do palácio das Necessidades. 

A discussão tinha uma longa agenda, nesses tempos de resolução de algum contencioso residual da transição pós-colonial e do início dos primeiros modelos de cooperação. Os trabalhos prolongar-se-iam pelo dia seguinte, culminando com uma conferência de imprensa.

Medeiros Ferreira, que, por qualquer misteriosa razão, tinha a seu lado António Sousa Gomes, ministro do Plano e Coordenação Económica (do que eu agora me lembro!), voltou-se para trás, para o adjunto do diretor-geral dos Negócios Económicos (era assim que, à época, se designavam, no MNE, os subdiretores-gerais), Paulo Ennes, e perguntou:

- Não há nada para assinar?

A assinatura de um acordo, ou de um outro instrumento jurídico bilateral, ajuda sempre a "compor" uma visita oficial, produzindo, no imaginário público, resultados mais concretos. Durante muitos anos, quando não havia nada para assinar, era vulgar rubricar-se um "acordo de supressão de vistos em passaportes diplomáticos". Hoje, como esses acordos têm consequências mais sérias, é comum o recurso a "protocolos de cooperação", entre instituições da mais variada natureza. Alguns úteis, outros inócuos.

Paulo Ennes olhou para mim, que tinha o pelouro, passando-me implicitamente "a bola".

- Não, senhor ministro, não vai haver nada para assinar, respondi. 

No ano anterior, após a independência de S. Tomé e Príncipe, tinha sido firmada uma montanha de acordos e protolocos entre os dois países. Estava praticamente tudo concluído. Vi Medeiros ficar com cara de caso. 

Subitamente, lembrei-me:

- Bom, há um texto que está em estudo no ministério da Saúde. É um protocolo de cooperação que permite prolongar, para a época depois da independência, a possibilidade dos funcionários públicos de S. Tomé terem acesso ao antigo hospital do Ultramar, bem como outras facilidades. Mas não sei em que pé está essa apreciação...

Pouco tempo antes, eu tinha sido mandado pelo governo a S. Tomé e Príncipe, durante uma semana, numa rara missão de serviço para ser executada por um "adido de embaixada" com menos de seis meses de casa, e recebera pessoalmente esse pedido do ministro da Saúde santomense, Carlos Graça.

Medeiros Ferreira ficou interessado.

- Veja isso já com o gabinete do ministro da Saúde! Era bom termos algo para assinar amanhã, disse, voltando-se para a frente, prosseguindo a reunião.

Paulo Ennes, excelente amigo e magnífico diplomata, olhou-me e sorriu, como que a dizer: "Já que 'abriu a porta', agora amanhe-se...". E eu fiquei com a "batata quente". 

Arranquei para o meu local de trabalho e falei para o Ministério da Saúde. O meu interlocutor foi um adjunto do ministro, de seu nome Paulo Mendo, o qual, anos mais tarde, viria a ser ministro da pasta.

Por um milagre, daqueles que acontecem uma vez na nossa vida burocrática, o assunto já estava desbloqueado, com parecer positivo. No meu carro, fui pessoalmente ao Ministério da Saúde buscar o texto e conferi-o, minutos depois, com alguém da embaixada santomense, que, sem problemas, anuiu a tudo, tanto mais que o protocolo só tinha efeitos unilaterais a seu favor.

Regressei às Necessidade e mandei dactilografar o acordo, um texto curto, de duas páginas. Disse à senhora (as dactilógrafas eram, nesse tempo, todas mulheres) para fazer dois exemplares: um para nós, que abria com "A República Portuguesa e a República Democrática de S. Tomé e Príncipe..." e outro para S. Tomé, em que a ordem dos países era trocada. 

Para quem não saiba, a regra é que, num acordo, cada país fique com a cópia que começa com o seu nome. O mesmo se passa no lugar das assinaturas, na última página, onde, na nossa cópia, a assinatura do nosso responsável se situa do lado esquerdo. Normalmente, cada país tem o seu próprio papel e capas para os acordos, bem como as suas próprias fitas coloridas, que entrançam as folhas, além de usar um sinete próprio, para firmar o lacre. Liturgias da diplomacia universal...

No dia seguinte, na tarde da cerimónia da assinatura, que antecedia a conferência de imprensa, tudo correu impecavelmente. Ainda tenho uma fotografia dessa cena publicada no "Diário de Notícias", comigo num inenarrável e inadequado blazer cinza, de cara grave, com um cabelo bastante comprido, largo bigode tipo mexicano e gravata com um nó imenso. A notícia do jornal fala de um "importante instrumento jurídico" assinado nesse dia. O pior foi, no entanto, o dia que estava para vir..

Nessa manhã, fui acordado bem cedo, em casa, pelo meu interlocutor da embaixada santomense, quase em pânico. É que, na cópia santomense, o nome do seu país não estava apenas trocado no início do texto: em vários pontos do articulado, onde, por exemplo, na cópia portuguesa, se lia que "Portugal compromete-se a facilitar o acesso às suas unidades hospitalares aos funcionários públicos de S. Tomé e Príncipe", surgia "S. Tomé e Príncipe compromete-se a facilitar o acesso às suas unidades hospitalares aos funcionários públicos de Portugal"... As "responsabilidades" para S. Tomé passavam a ser imensas!

O que é que acontecera? A dactilógrafa havia feito uma leitura "extensiva" da instrução que eu lhe dera para a troca dos nomes dos países, decidindo mudá-los ao longo de todo o texto do acordo. A culpa do que acontecera era, claro, totalmente minha, que, com a precipitação, não tinha tido o cuidado de fazer a verificação cuidada dos dois exemplares do acordo.

Levei algum tempo a acalmar o meu colega santomense, explicando-lhe que, mesmo depois de assinado pelo seu primeiro-ministro, o texto só seria válido após publicado e, naturalmente, isso nunca aconteceria antes de estarem feitas as devidas correções. E, logo nessa tarde, fez-se um novo exemplar, que se pediu, já não sei bem com que argumentário, que o nosso ministro assinasse. E tudo se resolveu, claro. 

Por muito tempo, guardei esse extraordinário exemplar, subscrito por Miguel Trovoada e Medeiros Ferreira, onde S. Tomé se "comprometia", por exemplo, a "facilitar o envio para Portugal de medicamentos" e outros modelos similares, mas impraticáveis, de cooperação recíproca!

Passados muitos anos, numa noite na nossa comum tertúlia na Mesa Dois do "Procópio", contei a história ao José Medeiros Ferreira - o qual, recorde-se, nos deixou faz agora uma década. Ainda tenho no ouvido a sua imensa gargalhada!

Retratos


O rei britânico tem um novo retrato. Terá demorado quatro anos a executar. Eu gosto. Quem fará o retrato oficial do presidente Marcelo Rebelo de Sousa?

Que rico spam!

Passei agora pelo "spam" do meu email. Nem imaginam o dinheiro que tenho para receber! Milhares e milhares de euros e dólares. Só boas notícias! O mundo é tão generoso!

Extraordinário!

Acho extraordinário - não estou a exagerar, acho mesmo extraordinário! - que o ministro das Finanças não tenha falado à comunicação social no final da reunião do Eurogrupo. Passa-se alguma coisa que o país não saiba?

Que Praga!

Ainda bem que o jogo acabou. Estava farto de ouvir chamar Chéquia à República Checa.