quarta-feira, novembro 30, 2022

Fim de tarde em Estremoz

 

12


Não cabem mais de 12 de pessoas em cada uma das salas de qualquer destes dois restaurantes de Évora, que não podem ser mais diferentes um do outro.

Ontem, fui jantar, pela primeira vez, ao “Tua Madre”, uma ousada aposta contemporânea, um “mix” difícil de definir, onde o Alentejo se cruza com influências italianas. Uma oferta surpreendente e criativa, que aconselho. Ambiente solto, propostas líquidas desconhecidas, muito boa onda.

Hoje, optei por ir almoçar a um clássico, à “Tasquinha do Oliveira”, uma casa onde regresso sempre que posso, há mais de 20 anos. Um exemplo de rigor, constância e sempre excelente qualidade. Por lá se exibe o diploma do prémio anual de cozinha tradicional portuguesa que a nossa Academia Portuguesa de Gastronomia, com grande justiça, lhe atribuiu.



(Em tempo: uma nota sobre a oferta gastronómica em Évora: Évora é um paraíso da restauração. Depois de Lisboa e do Porto, é, sem a menor dúvida, a cidade portuguesa com melhor oferta. Além dos dois restaurantes referidos - “Tua Madre” e “Tasquinha do Oliveira” - há muito mais, desde logo o clássico “Fialho”, uma “catedral”, desde há muitos anos. No “Moinho do Cu Torto” come-se bem, no “Guião” também, o “Luar de Janeiro” é um lugar seguro e o “Dom Joaquim” garantiu, em poucos anos, um lugar próprio. Creio que foi o “Origens” que abriu lugar à modernidade culinária na cidade, que está também na “Enoteca” e que me dizem existir, com qualidade, no “Cavalariça” (de que só conheço o original na Comporta, de que gosto). Fui também, um dia, ao atípico “Momentos” e ao “Quarta-Feira”, que não desiludiu. Não conheço o novo “Santo Humberto” (o antigo era um local estimável), mas lá terei de ir um dia. Achei o “Degust’Ar” bom, mas pouco criativo. Falta-me ir à “Bruxa” e ao “Botequim da Mouraria”, mas o fígado não dá para tudo, não é?)

A política externa



Estive hoje em Évora a falar sobre a política externa portuguesa. Num mano-a-mano com Filipe Domingues, notei algumas linhas de evolução - constantes e mudanças - da nossa ação externa, os pontos fortes e as fragilidades de um país que tem conseguido aproveitar as oportunidades para a sua afirmação internacional, partindo das vertentes tradicionais, ditadas pelas determinantes da geopolítica, até chegar a iniciativas que alguma ousadia por vezes converteu em êxitos. Uma audiência atenta e participativa fez-nos ganhar a manhã. Um abraço grato aos nossos anfitriões, os alunos de Relações Internacionais da Universidade de Évora.

Jorge Martins



Se puderem, não percam a excelente exposição de Jorge Martins, na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora.

terça-feira, novembro 29, 2022

“Colina”


No domingo, com amigos, fomos almoçar à “Colina”, numa transversal oblíqua à Duque de Ávila, junto à 5 de Outubro. Há mais de duas décadas que não visitava aquele que é, com toda a certeza (mas estou aberto a ser corrigido), aos fins de semana, um dos últimos clássicos restaurantes lisboetas frequentado por famílias burguesas. 

Não me estou a referir às tascas, com toalhas de papel, travessas metálicas e uma barulheira imensa, que cumprem hoje esse papel, como alternativa popularucha, adequada ao poder da bolsa. Falo de restaurantes serenos, com guardanapos de pano, serviço personalizado à antiga (“O seu esparregado, dona Matilde”), algumas madeiras no cenário e total ausência de pressão para se abandonar a mesa (“Ó senhor Vítor! Por favor, traga-me outro café e uma bagaceira da casa”, dizíamos, quando o nosso fígado era outro). 

No género, ali perto, por muitos anos, existiu o “Funil”, que agora se modernizou e perdeu o propósito. Também havia “O Polícia”, hoje uma sombra do que foi, e a “Adega da Tia Matilde”, que, pela minha última e infeliz experiência, há meses, devia ter ido com o cliente Eusébio para o Panteão. Da mesma natureza, na avenida de Paris, esteve, por muito tempo, o “Isaura”, para onde se entrava por uma escada em caracol, que nos levava a uma cave com estantes, onde existia uma bela “biblioteca” de vinhos. O “Pote”, na João XXI ainda hoje cumpre um pouco essa função. Num registo mais simples, e ainda nas Avenidas que um dia foram novas, tenho grandes memórias da “Imperial do Campo Pequeno”, de que fui vizinho e freguês assíduo.

Quase todos os bairros de Lisboa tiveram restaurantes do género. Aos fins de semana, era vulgar ver avós, pais e filhos, de famílias com algumas posses, em almoçaradas. Até na Baixa, o “Paris” cumpria essa função.

A “Colina” ali estava, igual à que sempre a conheci. Na clientela deste domingo descortinei vários nomes que estiveram na berra nos anos 90, a que a idade trouxe um corfortável anonimato, mas também ali cruzei um poderoso ministro deste governo (como este é um governo sem muitos ministros poderosos, é fácil lá chegar), à espera do seu “take away”.

Como é que se comeu? Bem, embora sem deslumbre. A oferta é a clássica para este tipo de casas, pratos sólidos, sem surpresas nem arrebiques. Com a casa cheia, o serviço teve o ritmo certo, tudo a sair a um custo razoável. Foi bom regressar à “Colina”! 

(“Não fales muito na “Colina”, nas redes sociais!”, alertou-me uma amiga. “Se vai lá muita gente, ficamos sem mesas!”. Arrisco).

Os desafios da China


Na terça-feira, dia 6 de dezembro, pelas 15.00 horas, irei falar sobre “Os Desafios da China”, a convite da Sociedade de Geografia de Lisboa (Rua das Portas de Santo Antão, 100).

A sessão pode ser atendida presencialmente ou por zoom, neste caso através do link


(ID da reunião: 833 1178 2490 - Senha de acesso: 785573).

As civilizações têm uma medida

 


A minha tertúlia verde


Ontem, estive em mais um almoço daquilo que qualifico como a minha “tertúlia verde”. Por ser ecológica? Nem por isso, embora o grupo seja, sem dúvida, bem “sustentável”, atento o facto de já durar há quase cinco décadas. Por ser do Sporting? Não, embora por lá haja leões, águias e outras espécies da natureza. É verde porque foi de farda verde, na tropa, que todos nos conhecemos, e também porque estão lá representados todos os “ramos” - do Exército à Força Aérea e à Marinha, com almirantes e generais pelo meio, ora bem! Ah! E todos ali somos “abrilistas” ferrenhos. Mas isso, aos olhos de alguns “novembristas”, só nos tornaria mais “vermelhos”, não é?

O dono da bola

Ver a nossa federação preocupada com a atribuição de um golo a um ou a outro futebolista é o cúmulo do ridículo, e, ao mesmo tempo, uma irresponsabilidade, por estar a potenciar uma questão, num grupo em que a coesão deveria ser o sentimento essencial a preservar. Que triste!

segunda-feira, novembro 28, 2022

Têvês


Nas Amoreiras. “É o embaixador Seixas da Costa, não é?“ Disse que sim. ”Muitas vezes não concordo com o que diz, lá na televisão”. Sorri: “Fico grato por, mesmo assim, me ouvir. Mas, diga-me uma coisa: se não aprecia o que eu digo, por que é que não muda de canal?“ “Porque há lá umas senhoras com quem estou sempre de acordo”. “Eu aviso-as, pode ficar descansada”. E saí para comprar castanhas.

A Rondónia, a estátua e a memória


Há dias, no restaurante “Solar dos Duques”, um empregado brasileiro disse-me que era da Rondónia (em português do Brasil, da Rondônia). Vir desses confins para Portugal é obra!

Nem lhe perguntei se ouvira falar no Forte do Príncipe da Beira, uma fabulosa construção que os portugueses por lá deixaram, construída no final século XVIII, na fronteira da Rondónia com a Bolívia, num sítio remoto, onde só consegui chegar com a ajuda da Força Aérea brasileira. O nome do Estado homenageia o marechal Rondon, que, em 1911, descobriu o forte, o qual, por muito tempo, havia estado coberto pela forte vegetação amazónica.

Este encontro lembrou-me a minha ida a Porto Velho, capital da Rondónia, há 14 anos. Decidi incluir naquela visita, que depois prolonguei para o Acre, um jantar com as pessoas que, por ali, tinham ligações a Portugal, luso-brasileiros descendentes de portugueses, orgulhosos cidadãos do Brasil, ainda ligados às memórias da “terrinha” (como por lá se diz que os portugueses dizem) dos seus pais.

Quis então saber se não haveria, a viver na Rondónia, nenhum português, nascido em Portugal. Havia um, fui informado. E disseram-me que esse cidadão, com os seus frágeis 93 anos, que lhe não lhe iriam permitir ficar para jantar, tinha manifestado à família interesse em conhecer “o seu embaixador”.

O senhor estava emocionado. E eu, que sou de emoções fáceis, também estava. E o encontro tornou-se ainda mais comovente quando constatei que ele nascera … em Vila Real! Esse meu conterrâneo chegara ao Brasil em 1925, com 20 anos - e nunca mais tinha voltado a Portugal. Não era oriundo exatamente na cidade de Vila Real, nascera numa aldeia próxima, mas lembrava-se bem de ali ter apanhado o comboio, com bilhete só de ida, que o havia de conduzir ao Brasil, como destino final de vida.

Na breve conversa, curioso, perguntei-lhe sobre aquilo de que ainda se lembrava, nas suas idas a Vila Real. De muito pouco, disse-me: apenas “do rio lá no fundo”, das muitas igrejas e do “campo”, um grande terreiro, no meio da cidade. “Deve ser o Campo do Tabolado, hoje a avenida Carvalho Araújo. Recorda-se ainda da grande estátua que existe a meio da avenida?” Não se recordava.

Fiquei com o episódio na cabeça, por uns anos. E a ele associei sempre a minha íntima estranheza pelo facto do meu conterrâneo não identificar aquilo que é um marco identificativo da nossa cidade comum. Até que, um dia, o mistério desfez-se: a estátua a Carvalho Araújo, o heróico marinheiro da Grande Guerra, só foi inaugurada em 1931 e o nosso homem passara pela cidade, onde nunca regressou, em 1925. Imagino que o cavalheiro, que, se fosse vivo, teria hoje uns impossíveis 117 anos, se terá questionado sobre a fiabilidade da sua memória. Ou não.

O que um encontro com um rondoniense, num restaurante de Campo de Ourique, me trouxe à memória! Mas, pensando bem, vir da Rondónia para Lisboa, nos dias de hoje, não é nada comparado com ter mudado de vida, há mais de um século, indo de Vila Real para aquelas remotas paragens.

domingo, novembro 27, 2022

Uma aventura em Queluz de Baixo


Estávamos em outubro de 2021. À saída do seu gabinete, ao qual eu tinha conseguido chegar com alguma ajuda, levado através do dédalo que sempre achei ser o complexo da TVI, disse a Nuno Santos, quando o vi, delicadamente, disposto a levar-me de volta à entrada: "Não se preocupe! Sei o caminho de volta".
 
No primeiro cruzamento de corredores, constatei que a minha confiança era excessiva. Perdi-me! Andei por ali e, de repente, ainda hoje estou para saber como, dei comigo no meio da redação. Uma pessoa que me conhecia, perguntou: "Está à procura de alguém?". Engrolei uma justificação qualquer e lá consegui chegar àquilo a que sempre chamei intimamente o "quadrado", única referência geográfica da casa de onde eu saberia aceder à porta principal.
 
É que a diferença entre as instalações da "velha" TVI e as da CNN, ali prestes a nascer, no mesmo local de Queluz de Baixo, era já imensa. Só com o tempo eu iria ter verdadeira consciência disso.
 
Na TVI 24, durante precisamente um ano, eu tinha colaborado no "Observare", um programa semanal sobre questões relações internacionais. Dentro da mesma temática, o que o Nuno Santos me propôs nesse dia seria fazer comentário, com maior regularidade, na nova CNN. Essa aventura, graças à sua confiança, dura até hoje, as mais das vezes em estúdio, na sede ou no Porto, outras por Skype, de vários locais, do país ou do estrangeiro.

Não tenho a menor dúvida de que foi o modelo CNN Portugal, nascido entre nós a partir da TVI, que suscitou a onda de interesse sobre as relações internacionais que hoje marca os noticiários de outros canais. E não se diga que isso se ficou a dever apenas à guerra na Ucrânia, não obstante o indiscutível efeito potenciador que teve! Muitas outras guerras tinha havido, nas últimas décadas, e, nem por isso, alguma vez se verificou este intenso surto de tratamento televisivo do que se passa no resto do mundo. Basta ver a diferença na abordagem da vida política brasileira que a CNN Portugal conseguiu introduzir e que acabou por "infetar" todas as nossas televisões. Foi a inédita abundância de diretos e de correspondentes e enviados ao estrangeiro, aos locais onde as coisas que importam ocorrem, as imagens e as reportagens de grande qualidade que a marca CNN propicia ao canal, o rigor do trabalho feito em estúdio e uma equipa permanentemente empenhada e entusiasmada - tudo isso é a razão do inegável sucesso desta aposta, a qual, por muito que alguns se recusem a reconhecer, representa um tempo novo na televisão em Portugal.

Por estes dias, tenho um grande prazer em fazer parte da família CNN Portugal. Um ano passado sobre a sua ida para o ar, o canal constitui um imenso êxito. Ao Nuno Santos e a toda a equipa da CNN Portugal, onde diariamente crio novos amigos, num ambiente criativo e entusiasta, deixo um forte abraço de parabéns.

sábado, novembro 26, 2022

Lados

Confesso que nem sempre consigo levar a cabo, com êxito, um exercício íntimo que, desde há muitos anos, tento apurar. Trata-se de evitar, quando vejo jogos de futebol na televisão, tomar partido por qualquer das equipas.

Dou conta de que estou a ter sucesso na consecução da minha atitude quando, ao ver marcar um golo numa baliza, dou por mim a desejar que haja outro na outra baliza, para tornar a partida mais equilibrada, logo, mais competitiva.

É claro que é muito mais fácil fazer isso num Shrewsbury - Barnsley, da liga inglesa, do que num campeonato do mundo entre países, sobre os quais frequentemente temos tentações afetivas.

Vem isto a propósito deste México - Argentina. Tanto me faz que ganhe um ou outro. O mesmo senti com o jogo anterior, o França - Dinamarca, ou o EUA - Inglaterra.

Sinto que estou a refinar nesta minha cultura de "isentão" militante.

A última morte de Fernando Gomes


Era uma figura muito simpática de outro tempo do nosso futebol. Jogador típico de área, com uma elegância "oportunista" (no bom sentido), da sua cabeça saíram golos magníficos, "voando entre os centrais", embora não fosse a ele que Carlos Tê dedicou o poema cantado por Veloso. Francisco José Viegas tinha-o "assassinado" (também no bom sentido ficcional) no "Morte no Estádio", mas Fernando Gomes só hoje morreu, depois de longa doença, enfrentada com muita coragem. Um grande nome do futebol português que merece ser lembrado pela nossa seleção.

sexta-feira, novembro 25, 2022

Três vintes

O 25 de novembro de 1975 foi o dia em que a Revolução chegou ao seu inevitável termo, garantindo a Constituição de 1976, que consagrou a Democracia. Mas é preciso separar muito bem as águas: é que o 25 de novembro também é o “25 de abril” de quantos ainda apreciam o 28 de maio.

quinta-feira, novembro 24, 2022

Zelos

Na Guiné Equatorial, sob o olhar morno da “nossa” CPLP, o partido do presidente vitalício “ganhou” com 99% dos votos, depois de uma campanha eleitoral vergonhosa. Mas o Qatar é que está “a dar” e a mobilizar o nosso zelo.

Monopólio

O Qatar e a Qantas são, a nível mundial, as suas mais agressivas afrontas ao monopólio que a letra U há muito obteve junto de todos os Q que por aí andam.

Ai seleção, seleção!

Com a vitória me enGanas… 

António da Cunha Telles


O cinema português contemporâneo teria uma outra história se este Senhor não tivesse tido a ambição, a coragem, a iniciativa e bom-gosto que teve. António da Cunha Telles, que agora desapareceu, foi uma grande figura da cultura portuguesa.

quarta-feira, novembro 23, 2022

Atlântico


Sexta travessia aérea do Atlântico, duas por mês, desde setembro. O meu velho pai, para as viagens (de automóvel) que então via como longas, costumava dizer: “Com a idade, as viagens saem mais do pelo!”. Como eu hoje o compreendo!

Vista

 


Trabalhar com esta vista da janela é mais fácil.

Finalmente!


Até que enfim que isto fica esclarecido! Há anos que andava a perguntar-me por que razão as coisas eram assim. 

terça-feira, novembro 22, 2022

Obviedades

O Chega não saudou Jerónimo de Sousa, na sua saída do parlamento. Acho que o homenageado deve agradecer. O facto da Iniciativa Liberal se ter comportado como o Chega só comprova que a sua íntima natureza não é muito diferente, o que, para mim, sempre foi óbvio e muito evidente.

Cidade


Ainda não consegui decifrar esta cidade, apesar das várias vezes que por cá tenho passado.

Parabéns, CNN Portugal!


Há um ano, por esta altura, tive de faltar à inauguração da CNN Portugal. Estava a mais de três mil quilómetros de distância. Este ano, por motivos idênticos, falto à celebração do primeiro aniversário do canal onde comento temas internacionais. Azar meu. Desta vez, a mais de sete mil quilómetros de distância. Parabéns, CNN Portugal!

segunda-feira, novembro 21, 2022

domingo, novembro 20, 2022

Memória diplomática



Desde há algumas horas, podem ser consultadas aqui https://memoriaoraldiplomacia.mne.gov.pt/pt/  entrevistas com diversos protagonistas da nossa diplomacia contemporânea. 

Ainda não tive tempo de ler nenhuma mas, conhecendo a qualidade (e a memória crítica) de alguns dos meus colegas, aposto que vai ser um acontecimento...

sábado, novembro 19, 2022

Qatar


Há precisamente uma década, ocupei, por um ano, o cargo de embaixador junto da Unesco, em Paris. Um dia, procurei o meu colega do Qatar, para uma questão de interesse para Portugal. 

Recordo que era um homem simpático e muito cordial. Quando lhe expressei o que dele pretendia, abriu-se num sorriso: “Para Portugal, tudo! Nasci perto de uma fortaleza portuguesa no Qatar e o nome do teu país faz parte da minha vida”. A apoiou logo a nossa pretensão.

O meu colega qatari referia-se à fortaleza de Al Zubarah, situada a cerca de 30 kms de Doha, a capital do país, criada pelos portugueses no final do século XVI.

Talvez aos nossos compatriotas que agora irão a Qatar, para acompanhar a aventura da nossa seleção de futebol, fizesse bem passarem por Al Zubarah.

(Em tempo: As referências oficiais a Al Zubarah não a identificam como tendo origem portuguesa, pelo que admito ter interpretado mal a informação que me foi dada.)

sexta-feira, novembro 18, 2022

Pelosi

No momento em que Nancy Pelosi sai da liderança democrática da Câmara dos Representantes, é justo prestar tributo a uma senhora que, com coragem democrática, soube afrontar Trump, quando tal era necessário. O deslize da sua visita pomposa a Taiwan, contra o parecer dos responsáveis políticos e militares do seu país, é, em tudo isso, apenas um interlúdio infeliz.

O senhor guarda

A polémica dos polícias radicais levou-me, nos últimos dias, a olhar, com atenção curiosa, para os agentes que encontrei por aí. Constatei que a barba e um ar “negligé” são a aparente nova imagem de marca de muitos deles. Logo veremos no que isto dá.

“Off-side”

Até ao fim da sua vida, quase com 100 anos, o meu pai dizia “off-side”, para significar aquilo a que, no futebol, se chama vulgarmente fora-de-jogo. Ontem, ao ouvir Marcelo Rebelo de Sousa pronunciar-se sobre o Qatar, senti que, por lapso de ligeireza, se colocou “off-side”.

A sombra da farda

Só um sentido extremo de compromisso, e o temor de que alguma coisa de grave possa acontecer, estará a travar os democratas brasileiros de denunciarem, com clareza, a linguagem equívoca que os comandos militares do seu país têm vindo a usar, nos textos rebuscados que editaram e subscreveram, nos últimos dias.

Depois do vexame nacional, para um país democrático, que foi o facto de se terem auto-autorizado a fazer uma sindicância ao sistema eleitoral, as chefias militares alimentam agora uma “jonglerie” semântica que acaba por manter acesa a esperança de golpe por parte dos opositores ao regime democrático. 

Se estivessem verdadeiramente determinados a pôr um ponto final no espetáculo grotesco que se mantem em frente aos seus quarteis, afetando a imagem da democracia brasileira e a seriedade das suas instituições, bastaria aos comandos militares brasileiros recusar, de uma vez por todas, todos os apelos anti-democráticos e o ridículo das alegações de fraude eleitoral, que ninguém substanciou.

Os militares brasileiros permitem-se, além disso, enviar farpas escritas aos detentores do poder judicial, sugerindo-se como uma tutela última do sistema político. No fundo, o objetivo parece ser avisar que pretenderão manter um “droit de regard” sobre o futuro político do país.

A pergunta é legítima: depois das escandalosas colocações de militares numa multiplicidade de lugares públicos, feitas durante o consulado de Bolsonaro, estarão eles a procurar condicionar o poder político que aí virá, com vista a evitar algum natural recuo neste domínio?

Em Brasília, existe a Praça dos Três Poderes, onde três edifícios simbolizam os pilares da República: o parlamento, o palácio presidencial e o judiciário. Na sinistra ditadura militar, com ironia, dizia-se que os “três poderes”, no Brasil, eram, na realidade, o exército, a marinha e a força aérea. Será ainda assim?

A luta justa

As coisas parecem-me simples, no tocante ao envolvimento da juventude na luta climática: devemos estimular e apoiar o seu empenhamento na causa e rejeitar, sem complacências, formas de luta que infrinjam as leis da República, que a juventude deve ser ensinada a respeitar.

A guerra justa

Há um lado muito saudável na polémica que envolve o mundial de futebol no Qatar. Desde logo, a constatação de que o mundo “à parte” que o futebol parecia ser está a acabar. Depois, que a universalidade dos Direitos Humanos é uma “guerra justa” que urge difundir e promover.

quinta-feira, novembro 17, 2022

“A Arte da Guerra”


As “midterm elections” nos EUA, a conversa de Joe Biden com Xi Ji Ping e o estado da guerra na Ucrânia - temas analisados em “A Arte da Guerra”, o podcast para o “Jornal Económico”, uma conversa de meia hora com o jornalista António Freitas de Sousa.

Pode ver aqui: https://www.youtube.com/watch?v=4QCpwpqTMrs

Pátria verde

Ouço, de um empregado, no balcão da Versailles, onde fui por um bolo-rei: “4-0 em Alvalade”. Distraído, faço um imenso sorriso. Depois, caio logo em mim: é um amigável da seleção, contra a Nigéria. O sorriso amarelece. O meu patriotismo, de facto, já não é o que era…

De nada…

Tudo o que soe a Ucrânia, Rússia, Putin, Kremlin enche as montras das livrarias. Aconselho a que, antes de comprarem, consultem uma página ímpar, na abertura do livro, e vejam a data da edição. É que está a ser vendido muito gato por lebre, velho e relho por novidade. De nada…

Romance

Vão sair imensos livros de ficção tendo a Ucrânia como pretexto, do género “O Alfaiate do Panamá” ou “O Livreiro de Cabul”. Informo que iniciei a escrita de um romance que terá por título “A Cerzideira de Zaporizhzhia“. Que ninguém se lembre de copiar!

Metáfora

Não tenho nada a certeza de que a metáfora do "cão atiçado", escolhida pelo novo líder do PCP para qualificar o atual estado de espírito da Rússia, caia bem nos ouvidos da Soeiro Pereira Gomes. E não há uma segunda oportunidade para criar uma primeira impressão.

Coisas

Alguém me consegue explicar este mistério? Saramago é imensamente popular no Brasil e Lobo Antunes é bastante menos lido. Em França, passa-se o contrário.

Bom dia?


Nunca consegui levar a sério quando, nos telefonemas de Bruxelas, alguém me diz “Bom dia!”. Sempre que pergunto, de volta, “mas está mesmo um bom dia por aí?”, a resposta, desalentada e saudosa do sol, é quase sempre “não, está a chover” ou coisas assim…

CNN


Portugal tem a sua CNN. A CNN Internacional tem, nos dias de hoje, esta excelente colaboração portuguesa.

É um pouco isto!

 


Estratégia


O prefácio foi de Adriano Moreira. No lançamento, interveio Marcelo Rebelo de Sousa. A Almedina editou o livro há quatro anos. Relendo-o agora, constato que continua muito útil. 

É isto!

A noite de terça-feira provou, nas redes sociais e em algumas televisões, que há por aí um bando de inconscientes que acham que testar uma guerrazita entre a NATO e Rússia, na lógica do “quanto pior melhor”, é uma coisa que vale a pena.

Sara Mago

Uma história verdadeira, juro! Um dia, numa cerimónia, alguém chamou ao palco “a senhora dona Mia Couto”. Ao lado, uma pessoa comentou: “Ainda vão acabar por chamar a Dona Sara Mago”…

quarta-feira, novembro 16, 2022

Saramago

Hoje é o dia em que muitos portugueses que têm opiniões muito firmes sobre a figura de José Saramago deveriam ter a coragem de começar a lê-lo.

Míssil

 Um míssil no pé.

Livro

Ainda antes de ir jantar, comprei o livro de que, por estas horas, muito se fala. Tem 382 páginas. Li, com atenção, 154 delas. Até agora, poucas novidades relevantes. Vou guardar as alardeadas polémicas para amanhã.

Erro

Ontem à noite, durante uma intervenção na CNN Portugal, ao falar e descrever os procedimentos do Artigo 5° do Tratado de Washington, da NATO, referi, por lapso, que ele nunca tinha sido invocado. 

Tratou-se de uma óbvia distração, a pensar no tempo da Guerra Fria e a esquecer a invocação feita em apoio aos EUA, depois do 11 de setembro de 2001. Acresce que, nessa data, eu era precisamente embaixador em Nova Iorque, não muito longe das Torres Gémeas. E como eu me lembro desses dias! 

Ele há coisas…

Bolas

Sou pouco sensível às narrativas explicativas sobre percurso do meu clube. Já o não sou perante os resultados da única modalidade e categoria que me importa. É injusto eu dizer isto? Talvez.

G7


Atenta a crise mundial, o G7 reuniu ontem de emergência (como faz, aliás, todas as semanas), tendo, sobre a mesa, uma agenda de trabalhos muito substancial. 

terça-feira, novembro 15, 2022

O Reino Unido em 30 minutos.

 


Mike Pence


É uma imensa falta de imaginação, mas o título do livro de Pence vai bem com o seu estilo.

“That’s life!”

Lula: a boleia no jatinho e o preço do vestido da mulher. Benvindo ao mundo de 2022, caro presidente!

Pela esquerda

É minha impressão ou o setor conservador da nossa sociedade começa a ficar temeroso de que a crescente militância da juventude em torno das questões ambientais se transforme num “contágio” de ideias mais radicais, que possa vir a configurar a sua adesão a ideais de esquerda?

Pêcêpê

Gostei da conversa do novo secretário-geral do PCP com o Júlio Magalhães, na CNN Portugal. Sem conseguir libertar-se do vazio “contra a guerra”, do recurso ao “coletivo” e a outras fórmulas obrigatórias lá por casa, mostrou desenvoltura e simpatia. Foi uma boa surpresa.

segunda-feira, novembro 14, 2022

Terra (Porto)


Em frente do sempre excelente “Cafeína”, na rua do Padrão, na Foz do Porto, fica o “Terra”, uma casa do mesmo proprietário - e ele ainda tem outras por ali, de diferente natureza. Ontem, chegado ao Porto, escolhi lá ir, com amigos. (Ainda pensei ir ao “Wish”, ao próprio “Cafeína”, mas optei pelo “Terra”). O “Terra” sem ser, como espaço, deslumbrante, tem uma arquitetura interior bastante agradável, numa curiosa casa tradicional da Foz. No primeiro andar, em cuja varanda (cuidado com o perigoso degrau, à entrada!) tinha almoçado, já há anos, existe uma sala simpática (na imagem). O serviço é atento, profissional, competente, informado. (A música anda por ali demasiado alta, vírus que também parece ter afetado o “Cafeína”, o que é escusado. Ontem, pelos ritmos oferecidos, devem ter deduzido simpaticamente que eu tinha menos 40 anos de idade…). As três pessoas à mesa comemos bem, embora, creio poder deduzir, sem direito a um “uáu!” final. Há um menu de cozinha asiática (como não sou competente, aqui passo, mas dizem-me que tem qualidade), outra assente numa lógica predominantemente portuguesa, embora com apontamentos gustativos menos óbvios, o que é sempre de saudar. Os preços? “Preços ucranianos”, isto é, com o “travo” de inflação que esta guerra está a provocar entre nós, um pouco por toda a parte. Tenciono regressar, em breve, ao “Terra”. Pode haver frase mais simpática para acabar um apontamento sobre um restaurante?

Like it or not

Quantas vezes tenho de dizer aos meus amigos que não vivo para os “likes”? Escrevo apenas para que me leiam, dando uma discreta preferência aos que não gostam daquilo que eu penso e a quem irrita muito tudo o que escrevo. E esses, claro, não “laikam” nada…

Voltamos ao “livro único”?

Ao ver, nas redes sociais, os crescentes e adjetivados ataques, às vezes em linguagem soez, a quem não segue a linha predominante sobre a questão russo-ucraniana, gostava de lembrar que já houve um tempo em que, também por cá, só era possível divulgar uma única opinião. Saudades?

O nosso PC

O PCP não consegue ter a coragem de explicar uma coisa muito simples: a sua postura envergonhada pró-Rússia, com o mantra da “paz” a servir de bengala discursiva, é apenas o modo de deixar transparecer que a sua luta é essencialmente contra aquilo que a América representa e, por essa via, contra quem a ela se alia (União Europeia, por exemplo). Isso acontece por um conjunto variado de razões, mas principalmente pelo facto dos Estados Unidos serem os principais culpados históricos pelo fim da União Soviética, que um dia lhes matou de vez o sonho e os deixou sem real propósito estratégico. Ah! Mas uma coisa necessita de ser dita: o PCP tem todo o direito de ter esta posição. Podia é explicitar, alto e bom som, as suas razões, sem se refugiar numa linguagem equívoca.

Trumpices

O que acabou por se passar nas “midterm elections” americanas foi uma bela lição. O tema do aborto acabou por desfavorecer Trump e o anúncio do seu regresso mobilizou os adversários. E como ainda há alguma justiça, a mediocridade de muitos dos seus candidatos foi-lhe(s) fatal.

Pintar o clima

Sem ser tolhidos pelo politicamente correto, devemos condenar frontalmente certo tipo de ações de vandalismo, feitos como protesto sobre a emergência climática. Mas é muito saudável que as novas gerações encabecem a denúncia da irresponsabilidade oficial a que o mundo chegou.

… que las hay…

Não sou dado a teorias da conspiração, mas lá que este atentado na Turquia dá um imenso jeito a Erdogan, lá isso dá!

Xi coração

Uma das excelentes notícias da “saison” é o encontro Xi- Biden. Por muitas razões.

The Crown

Comecei a ver a nova série “The Crown”, na Netflix. Continuo a pensar o que já pensava das anteriores: ao colar a narrativa a realidades que conhemos, a série induz-nos a criar “ideias” sobre as figuras retratadas, esquecendo que estamos perante uma ficção, não um documentário.

Cristiano, Cristiano!

Que pulsão intravável leva Cristiano Ronaldo a querer marcar esta fase da sua carreira por atitudes polémicas, agora envolvendo um clube que lhe proporcionou o palco para algumas das suas glórias? E logo agora, que estamos à porta de um mundial, no qual devia concentrar-se?

Bom regresso, Henrique!


Por razões pessoais ponderosas, Henrique Antunes Ferreira esteve arredado das redes sociais. durante alguns anos. Avisou ontem os seus amigos de que regressou ao cultivo seu blogue “A Nossa Travessa” (https://anossatravessa.blogspot.com/ ). Desejo ao Henrique um feliz retorno às lides blogueiras, embora deva avisá-lo que, nos últimos anos, os blogues praticamente saíram de moda. Este onde agora escrevo existe quase que apenas por mera teimosia pessoal - ou talvez para ir contra a corrente…

Para saudar o regresso do Henrique, vou contar uma pequena história, na qual ele acaba por ser uma involuntária personagem.

Em Junho de 1997, Dominique Strauss-Kahn assumiu as funções de ministro da Economia e Finanças do novo governo socialista francês. A liderança da França, que vivia os tempos da muito recente coabitação Chirac-Jospin, tentou rediscutir o então quase finalizado "pacto de estabilidade", o conjunto de regras para regular o acesso e garantir o comportamento dos países no seio da nova moeda única, o euro. A França conseguiu retocar o "pacto", que mudou de nome e passou a chamar-se "pacto de estabilidade e crescimento", vom o objetivo, simultaneamente, de lhe conferir um toque mais "social" e de garantir que a nova liderança francesa deixava a sua marca na decisão final sobre o assunto, nem que fosse por via semântica.

Mas a decisão ainda tomou o seu tempo. O primeiro conselho de ministros das Finanças, o "Ecofin", posterior à subida ao poder dos socialistas franceses ficou, assim, rodeado de uma grande curiosidade, em torno do que nele iria dizer o novo ministro que Paris tinha na pasta, Strauss-Kahn.

Como é de regra nestas reuniões, as câmaras de televisão entram, por uns minutos, na sala, antes do início dos trabalhos, para filmarem os responsáveis políticos, conversando entre si ou já sentados nas respetivas delegações (já um dia aqui falei de alguns "truques" dessa coreografia). 

A certo passo da cobertura televisiva dessa reunião do Ecofin - feita, entre outros, pela BBC, Sky e CNN -, as câmaras concentraram-se, com toda a naturalidade, no que era a grande novidade do dia, a entrada na sala de Dominique Strauss-Kahn.

O novo ministro, homem de porte pesado, surgiu, de passo firme, seguido de colaboradores, encaminhando-se para a zona onde se iria sentar a delegação francesa. A meio do percurso, porém, a sua cara espelhou um grande sorriso e viu-se a vedeta política do dia abrir os braços para um abraço de grande intimidade com uma outra figura, de compleição física bastante similar, de cara ornada por uma barba, com quem trocou palavras de manifesta cordialidade, fruto seguro de amizade. Quem essa pessoa? Ninguém sabia o seu nome e o mistério era tanto maior quanto, à partida, estava excluída a hipótese de se tratar de um outro ministro das Finanças dos "Quinze".

Ninguém sabia? Não! Nós, um grupo de portugueses que apreciávamos a cena, numa casa particular, em Bruxelas, sabíamos! Era o Henrique Antunes Ferreira, assessor de imprensa do nosso ministro das Finanças, António Sousa Franco.

Nesse e nos dias seguintes, as televisões universais, à falta de outras imagens sobre o novo homem-forte das Finanças francesas, repetiram à saciedade esse magnífico amplexo, que a todo o mundo pareceu selar o acolhimento europeu ao novo governante francês. E, nessas imagens, lá aparecia sempre o nosso Henrique, para eterna perplexidade do mundo da informação, mas para imenso gáudio dos seus amigos, uma legião heteróclita em cujo seio tenho o gosto de me contar.

O Henrique Antunes Ferreira foi jornalista, editou livros e está hoje reformado. Um dia, ele disse-me das razões da sua intimidade com Strauss-Kahn, mas, confesso, já as esqueci. De uma coisa tenho a certeza: o conhecimento do Henrique com o político francês era exclusivamente do domínio da atividade política deste e, claro!, nada tinha a ver com o lado mais lúbrico que veio a descobrir-se ao antigo diretor-geral do FMI. “Honi soit…”

domingo, novembro 13, 2022

Notícias do cozido


Foi ao almoço de hoje, no “Faz Figura”, com o sol a mostrar-nos dali um Tejo soberbo. O cozido do domingo, que o Jorge Dias sempre me recorda numa semanal SMS, lá estava, magnífico, com este tipo de descrição, num dos vários “mostruários”, a ajudar-me a regular o grau de colesterol que pretendo ingerir. Há coisas muito boas nesta Lisboa! 

Notícias da selva


Um amigo, que já se foi há muito, tinha uma tese: ”O nosso estatuto de cidadãos civilizados é aferido pelo modo como deixamos uma casa de banho, pública ou privada, depois de a utilizarmos. Devemos deixá-la como se toda a gente viesse a saber que fomos nós a última pessoa a utilizá-la, mesmo tendo a certeza do anonimato dessa utilização.”

Aprendi, há tempos, uma fórmula ainda mais sintética: utilize uma casa de banho como se tivesse cometido um crime; não deixe vestígios.

Lembrei-me tanto disto, há pouco, ao recorrer a uma casa de banho do Alfa Pendular…

sábado, novembro 12, 2022

O 11 de Novembro


Ontem, acordei com a data - 11 de novembro - na cabeça. À hora de almoço, “caiu a ficha”, como dizem os brasileiros: era a data da independência de Angola, claro!

Ainda há dias, ao preparar a intervenção que, na terça-feira passada, ia fazer no Centro Brasileiro de Relações Internacionais, no Rio de Janeiro, tinha-me lembrado de que, com argúcia e visão estratégica, o Brasil tinha sido o primeiro país a reconhecer a República Popular de Angola, proclamada nessa noite em Luanda. Portugal, a viver o ano da “brasa” de 1975, a 14 dias de um 25 de Novembro que iria desempatar a sua luta política interna, perdeu tempo a perceber por onde ia a História. E isso iria ter o seu preço.

Ao longo da minha carreira, assisti a várias receções comemorativas da data, promovidas por embaixadores angolanos, em diversos lugares do mundo. Mas a mais memorável dessas ocasiões foi mesmo em Luanda, em 1982, poucos meses depois da minha chegada, exatos sete anos depois da independência de Angola.

Nesse dia de há precisamente 40 anos, o embaixador Silva Marques chamou-me para me informar que teria de representá-lo na receção que o governo de Angola oferecia ao corpo diplomático estrangeiro, ao final da tarde, no Hotel Costa do Sol. Não podendo ser o ministro conselheiro, Fernando Cardoso, por uma qualquer razão, a substituí-lo, competia-me a mim a tarefa.

Eu estava na carreira há pouco tempo, aquele era o meu segundo posto. Angola estava em guerra civil, a Luanda política era uma realidade política que eu procurava conhecer, pelo que a ocasião acabava por ser muito interessante para observar os circuitos diplomáticos e oficiais locais.

Em Luanda, os estrangeiros viviam em bolsas de contactos, quase sempre muito diversas e distantes entre si, as entidades políticas locais refugiavam-se em circuitos pouco acessíveis. Romper essas fronteiras era um processo complicado, pelo que encarei a tarefa com grande curiosidade. E, pela tarde, ainda com uma bela luz, lá fui, no meu vetusto Volkswagen “carocha” preto, com um buraco no chão por onde às vezes entravam baratas, que tinha sido herdado da tropa colonial, guiando pela Corimba e pela Samba, a caminho do Costa do Sol, na estrada costeira para sul.

À chegada, como era de regra, depois de uma inspeção de segurança nada rigorosa para os tempos que se viviam, fomos recebidos pelo Protocolo e encaminhados para o que recordo ser um espaço exterior. Por ali estavam os diplomatas estrangeiros e, presumo, gente do Ministério das Relações Exteriores de Angola. Algumas senhoras davam graça à festa, mas poucas.

Numa Luanda tensa, em conflito, não era de estranhar que os convidados se juntassem em grupos, por afinidades óbvias: europeus e outros “like-minded” a um lado, diplomatas dos países socialistas a falarem entre si, com alguns africanos a dividirem-se. Sendo dos mais jovens dos presentes, conhecendo ainda poucos embaixadores, devo ter acostado a alguns “encarregados de negócios” desemparelhados, suplentes como eu era.

Embora recentemente terminado, depois de anos de obras paradas, o Costa do Sol estava longe de ser o principal hotel da cidade. Acima dele, na hierarquia das unidades hoteleiras de então, estavam os hotéis Presidente, Trópico e Panorama. O edifício não deixava de ter a sua graça, situado num lugar cimeiro sobre o mar, um pouco antes do Futungo de Belas, que era o antigo conjunto turístico então ocupado pelo presidente da República.

Naquele hotel, pouco tempo depois, viriam a ser alojados militares portugueses na reserva, que foram para Angola ao serviço da Coteco, que dava treino técnico ao militares angolanos, empresa que creio ligada ao almirante Rosa Coutinho. Um desses oficiais era um amigo pessoal dos tempos do 25 de Abril, o piloto da Força Aérea, Arlindo Ferreira, que infelizmente já lá vai, há muito. Por razões a que a política da época não era alheia, esses militares, por regra, teimaram sempre em evitar todo e qualquer contacto com a nossa embaixada. A exceção era o Arlindo que, com alguma regularidade, vinha jantar a minha casa, comigo a ir uma vez ou duas ao Costa do Sol, a seu convite. Mas isso só iria acontecer meses mais tarde.

A receção oferecida pelas autoridades angolana no Costa do Sol era de pé, um cocktail tradicional. De início, surgiram canapés e, claro, bebidas. Dizia-se que, mais tarde, ia haver um jantar. O convite anunciava isso.

O dia caiu, rápido, como acontece em África. A certo ponto, já na noite, passada mais de uma hora desde que por ali errávamos, de copo na mão, enfardando alguns escassos croquetes e salgados, vagueando entre conversas, detetou-se uma agitação e correrias de pessoal, prenunciando o óbvio: a chegada das autoridades.

Foi então que vimos um grupo de uma boa dúzia de governantes atravessar, com alguma ligeireza, a zona onde nos encontrávamos, para o que abrimos alas. À frente, vinha o presidente José Eduardo dos Santos, que nos saudou com um sorriso e um gesto de cabeça, sem cumprimentar nem dizer nada a ninguém, como aliás sucedeu com todos os que o acompanhavam. Duas ou três senhoras integravam o séquito.

O grupo dirigiu-se de imediato para uma mesa que estava alinhada num dos lados da receção e abancou. Os seus componentes ficaram sentados ao longo da mesa, mas só de um lado, ficando a olhar para as centenas de pessoas presentes, num modelo “última ceia”. Perante a multidão de gente de pé, eram os únicos sentados.

De imediato, do edifício do hotel, como que por milagre, surgiu um batalhão de empregados, que serviu essas pessoas, que começaram logo a comer. Nós, imagino que algumas escassas centenas de convidados, ali ficámos, a olhar a ceia do senhor presidente e do seu grupo, com os nossos copos na mão, quiçá já vazios, porque ninguém cuidava de nós. Não voltávamos as costas à mesa presidencial, por respeito, pelo que ali ficámos impotentes espetadores do voraz assalto feito às vitualhas pelas autoridades. O nosso apetite, valha a verdade, ia crescendo, na constante visão do grupo oficial bem saciado.

E foi assim que tudo se passou durante mais de meia-hora, durante a qual alguns embaixadores, menos preocupados com as consequência de uma saída “à francesa”, foram abandonando discretamente a cena, a caminho dos seus carros, cansados da deselegância a que eram sujeitos. Os diplomatas mais júniores - e, como é natural, o jovem primeiro-secretário de embaixada representante do poder colonial recém-cessante que eu era - mantiveram-se em jogo.

O ágape das autoridades terminou no momento em que o presidente decidiu levantar-se da mesa, com os seus restantes convivas a seguirem-no. Depois de uns instantes com seguranças em correrias, as autoridades abalaram com a prestreza com que tinham chegado, a caminhos dos Mercedes cheios de luzinhas azuis e vermelhas a brilhar que se viam ao fundo.

Finalmente, nós, afinal os convidados para o evento, íamos ter o nosso prémio, embora em modelo de “terminação”, como na lotaria: o tal batalhão de empregados surgiu com pratos e travessas para servir os resistentes que estoicamente tinham aguentado a sessão, diplomatas e pessoal angolano, unidos pela fome. Mas, claro, não tendo direito a mesas e muito menos a cadeiras, contentámo-nos com uma refeição volante, naquele modelo onde se tenta dar garfadas e partir a comida com uma só mão, segurando o prato com a outra, com o copo, em regra, num equilíbrio instável entre dedos sobejantes, na ausência de uma terceira mão com que a natureza, desatenta às das exigências do protocolo, não nos brindou. Mas teve de ser rápido: o recolher obrigatório já vinha a caminho. 

Foi assim o meu primeiro 11 de Novembro oficial.

Eureka!

Estava agora a olhar para o meu teclado e, finalmente, percebi, por que, quando as raízes nortenhas se impõem, troco os “b” pelos “v”: é que ficam lado a lado…

sexta-feira, novembro 11, 2022

Lula e o mercado


Nem tudo começa bem no Lula “parte 3”: declarações do próximo presidente, afetando a imagem de responsabilidade orçamental do futuro governo, deixaram os mercados inquietos. Há quem pense que é errado deixar que os mercados comandem o jogo. Liz Truss (lembram-se?) pensava assim…

e é assim!

 


Constituição

Como documentos estáticos, as constituições sofrem sempre de alguma “décalage” face à realidade. Se, pontualmente, o articulado constranger algumas questões essenciais, elas devem ser revistas, mas sempre por acordo amplamente maioritário. Se não, estejam quietos! É o caso atual.

quinta-feira, novembro 10, 2022

Desgoverno

Um governo com uma das mais confortáveis maiorias absolutas de sempre, com uma oposição de “trazer por casa”, inventa-(se) casos e casinhos, dá regulares tiros nos pés, mantendo um ruído permanente à sua volta. Seria possível fazer pior? Era, mais devia dar muito trabalho.

quarta-feira, novembro 09, 2022

Num Uber

 Num Uber, no Rio de Janeiro. Perante um trânsito intenso, lembrei-me de perguntar:

- Sabe se ainda há pessoas em frente às instalações militares, aqui no Rio? 

- Sim. E está lá muita gente.

Pausa, e continuou:

- O senhor não viu nada nos “mídia”, não é?

- Não vi nada, mas também não segui o assunto com cuidado.

- Mesmo que procurasse, não encontrava nada. As televisões não passam isso.

- Será mesmo assim? 

- É. No Brasil já ninguém acredita na “mídia”. Só acreditamos nas redes sociais. A verdade só está lá. No país do senhor, lá em Portugal, é também assim, não é?

- Nunca pensei muito nisso, mas, em Portugal, se um canal de televisão escondesse um assunto era um escândalo! Outro canal passava logo a notícia. Não me parece que as redes sociais tragam coisas escondidas pelas televisões ou pelos jornais. Ou, se trazem coisas novas, as televisões “pegam” logo nelas.

- Cá não é assim. O brasileiro já não acredita na “mídia”.

E passou a contar-me, com pormenor, uma “live” que tinha visto na internet, em que um argentino (!) descrevia como metade as urnas eletrónicas mais modernas do Brasil não podiam ser auditadas e permitiam fraudes.

- … é por isso que as pessoas acham que houve fraude e que o Bolsonaro devia ter sido reeleito.

Cansei-me:

- Mas se, por acaso, houve mesmo fraude, como é que pode ter a certeza de que a fraude prejudicou o Bolsonaro? Não pode ter havido fraude para prejudicar o Lula?

Silêncio até ao fim da viagem.

“Entre Amigos”


Quando, em 2018, no Rio de Janeiro, desapareceu o afamado restaurante de origem portuguesa “Antiquarius”, a cidade perdeu um ícone social quase sem par. Criado por Carlos Perico, chegado ao Brasil na vaga pós-25 de Abril, o “Antiquarius” passou a ser um “must” carioca, com a Lisboa que detestava a Revolução - mas não só! - a fazer dali um pouso saudosista. Mas quem gostava de Abril também por lá passava, quando podia. Eu, por exemplo.

Hoje, almocei num dos restaurantes que foram criados por gente saída da boa escola do “Antiquarius”, o “Entre Amigos”. O espaço, no meio de Botafogo, é simples, em termos de decoração. Mas tem duas coisas muito importantes: boa comida e um serviço de excelência, com uma imensa simpatia às mesas. Vivesse eu no Rio e por ali faria uma das minhas cantinas.

Carlos Perico chegou ao Brasil vindo daquela que havia sido a primeira pousada portuguesa, a Pousada de Santa Luzia, em Elvas, que tinha sido criada em 1940. Constatei que o “Entre Amigos” mantinha no “cardápio” o famoso bacalhau dourado da pousada de Elvas. Decidi arriscar e não me arrependi. Posso dizer uma coisa? Raramente tenho encontrado, em Portugal, um bacalhau dourado tão bom.

Travessuras

 


Modesta por fora, gloriosa por dentro, a Travessa de Botafogo (e lá vou eu pagar excesso de bagagem!)




“Escama”


Dela ideia dar o nome de “Escama” a um restaurante de peixe, aqui no Rio de Janeiro, junto ao Jardim Botânico. E fazer acompanhar a refeição com um “Alvarinho” local foi uma combinação bem achada.

Educação a sério!


O que se descobre no semanário salazarista “Agora”, em março de 1961!




terça-feira, novembro 08, 2022

Brasil e Portugal


Foi um belo debate aquele que tive o prazer de manter, esta manhã, no Rio de Janeiro, com o embaixador Rubens Ricupero, uma grande figura da diplomacia brasileira, docente universitário e antigo membro do governo. As nossas intervenções foram comentadas pelo embaixador Marcos Azambuja.

O evento, organizado pelo Cebri - Centro Brasileiro de Relações Internacionais, inseriu-se nas comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil. Colaboraram nesta organização a embaixada de Portugal em Brasília e o consulado-Geral de Portugal no Rio de Janeiro.

O embaixador Ricupero desenvolveu uma interessante reflexão sobre a relação entre o tempo da emancipação brasileira e a eclosão da revolução liberal em Portugal. A minha intervenção assentou nos vários olhares portugueses sobre o Brasil, desde a independência do país até aos dias de hoje, na perceção pública e na atitude da elites. A conversa, atravessada por questões do público, evoluiu depois para aspetos relacionados com a situação política atual no Brasil, as eleições intercalares americanas e os desafios da segurança europeia, com o conflito no Leste do continente como pano de fundo.

“La Fiorentina”


A boémia carioca mudou muito, mas o “La Fiorentina” continua a ser um marco histórico, com a praia do Leme ali em frente.

segunda-feira, novembro 07, 2022

“Agora”


Não deve haver muitos leitores deste espaço que se recordem do jornal “Agora”. Foi preciso vir ao Brasil para encontrar uma edição encadernada do melhor que o reacionarismo salazarista sabia produzir. 

Café da manhã


 

Nordstream 1 - Verdade 0

Reabriu a questão sobre quem colocou a carga explosiva no Nordstream 2, o segredo mais mal guardado do mundo, sobre o qual só os cegos ainda...