domingo, 31 de janeiro de 2021

Uma entrevista de vida


Quem nisso tiver interesse, pode assistir a uma conversa, talvez mais do que a uma entrevista, onde se fala da vida e do papel que a diplomacia nela teve.

Pode ver, clicando aqui.

“Observare”


O último programa “Observare”, na TVI 24, onde se fala da Venezuela, do Brasil, das Primaveras Árabes e de alguns outros temas, pode ser visto clicando aqui.

Amândio Silva


Foi há menos de oito dias. Tinha no meu telefone nota de um telefonema do Amândio Silva. Como, muito pouco tempo antes, numa conversa com o Carlos Cristo, eu tinha perguntado se o Amândio não tinha ainda escrito as suas memórias - um relato, por mínimo que fosse, sobre a sua extraordinária vida - pensei que o circuito se tivesse “fechado” e ele me viesse falar disso mesmo. Foi nessa convicção que lhe liguei de volta!

Mas não! O telefonema era para me transmitir um convite para estar presente num debate ... que iria ter lugar em 10 julho próximo! Uma iniciativa organizada pelo seu querido “Mares Navegados”, um belo grupo de gente com farta memória democrática, para cujas publicações o Amândio já me tinha desafiado por várias vezes, ao longo dos últimos anos. Sem sucesso, porque a minha vida, feliz ou infelizmente, é o que é.

Depois do detalhe sobre o objeto da conversa, perguntei-lhe pela sua saúde. Senti-o hesitante, vago, como se fosse tema que não lhe interessava abordar. Respeitei e não insisti. Horas depois, relatei o episódio ao Carlos Cristo, seu grande amigo. E, comungando na pena de sentirmos o Amândio bastante “em baixo”, mudámos de conversa, porque a falta de saúde daqueles que estimamos é o pior assunto que se pode abordar.

Conheci o Amândio Silva no Brasil, numa visita que me fez na embaixada, depois da minha chegada, estimulado por amigos comuns. E amigos ficámos. Eu tinha o seu nome registado desde há muito, da História, da coragem da LUAR, do belo assalto ao avião da Tap entre Casablanca e Lisboa, de tantas outras saudáveis e corajosas aventuras contra a ditadura. O Amândio Silva fazia parte da minha memória admirativa dos combatentes pela liberdade. Pela nossa liberdade.

Pode dizer-se que o Brasil, que o tinha recolhido em tempos convulsos, nunca verdadeiramente tinha abandonado o Amândio. Ficara-lhe na fala, na fonética e na sintaxe. E na muita e vasta vida que teve por lá, que muitas vezes era evocada por quem o conhecia.

O Amândio era um homem grande, cordial, com um abraço apertado, imenso. Fazia parte de uma geração que, depois do 25 de abril, nunca se fixou bem nas prateleiras ideológicas com que o regime político se institucionalizou. Na luta contra o fascismo, houve alguma, não muita, gente assim. O Amândio era um democrata desalinhado. A LUAR, a sua LUAR, foi também isso mesmo. E ele tinha toda essa graça heterodoxa, a pairar sobre as convições profundas que o alimentavam. Como ele, houve várias outras pessoas que acabaram por ficar numa espécie de terra de ninguém, às vezes sujeita às diatribes dos ortodoxos e, claro, dos caluniadores daqueles que lutaram de armas na mão pela democracia. Tenho, porém, uma coisa por muito segura: ele esteve sempre do lado certo da História!

Passou uma semana sobre aquela minha conversa com o Amândio. Numa limpeza ao meu email, encontrei um texto que ele me tinha mandado, já há cinco anos. Era uma carta a José Pedro Castanheira, sobre uma questão de 1975, sobre a LUAR e a FUR. Um testemunho muito interessante, que não vem agora ao caso.

O texto ali ficou, sobre a minha mesa. Até hoje! Até à data em que soube, pelo Carlos Cristo, que o Amândio tinha morrido Apetece-me dizer um palavrão! Vou resistir. Vou apenas dizer o que agora me apetecia dizer-lhe: Adeus, Amândio! Muito obrigado por tudo quanto fez para que pudéssemos ser livres. E quem nos dera a nós ser tão livres como você sempre conseguiu ser.

O lixo político

As eleições presidenciais tiveram lugar há uma semana.

Acabaram mesmo? Anda-se pelas ruas do país e aí estão cartazes e mais cartazes, a poluir a paisagem, uns em cima dos outros. Ninguém obriga ninguém a retirar esse lixo. Há uma cobardia política coletiva que impede que acabe com esta vergonha!

Em Lisboa, no Marquês, no Saldanha ou no Campo Pequeno, é um mar de placards políticos. Já experimentaram ver se isso acontece na Praça da Concórdia, em Paris, na Trafalgar Square, em Londres, na Times Square, em Nova Iorque, ou junto ás portas de Brandeburgo, em Berlim?

Num livro há semanas publicado, um dirigente de um grupúsculo confessou que passou horas a andar de carro, para tentar encontrar um lugar “vago” para colocar um cartaz do seu bando. E até escreveu que achava a lei atual, na matéria, demasiado permissiva. Acabou por pôr o cartaz numa via rápida, embora com receio manifesto de criar acidentes.

Noutro episódio, contou que encontrou um lugar que achou adequado mas que a empresa de publicidade achou dasagradável ter de cortar vegatação para permitir a implantação do placard. 

Aconteceu-lhe alguma coisa? Foi multado? Qual quê! A selva da propaganda política permite isto! E o conluio objetivo das autoridades faz o resto.

Platitudes


Mais do que o cansaço que sinto nas pessoas, preocupa-me o desânimo. É que a falta de perspetivas não é boa conselheira.

Esta pandemia tem vários tempos e já percebemos que nenhum nos garante o sentido do seguinte. Todos experimentámos a descompressão que o fim do primeiro grande confinamento nos trouxe. O ar livre, as esplanadas, com mais ou menos erros. Os restaurantes abriram, o negócio retomou, adaptámo-nos a um tempo que, longe de ser livre, parecia promissor.

Depois, de súbito, surgiram números pouco sossegantes. Dados contraditórios. E novas preocupações. Fechámo-nos mais. Em muitos casos, (confessem lá!), já com menos uso de gel nas mãos, com menor cuidado com o calçado.

A esperança na vacina que aí vinha dava-nos, contudo, um horizonte, embora sem datas. (Mas a vacina, salvo para alguns poucos, já se percebeu, vai demorar. Há que saber viver sem ela, até ver. Até vir.)

Depois foram as festas, o Natal, o discurso voluntarista sobre o prazer da reunião, com cuidados ao sabor do bom senso de cada um. (Confesso que tive logo um mau pressentimento). E o amigo que nos dizia que a prima chegava ao aeroporto sem lhe perguntarem nada.

Agora, isto. E o presidente já avisou: está para durar. Imagino que alguns digam: ele sabe tanto como nós. Esse enfraquecimento nas certezas que o poder nos comunica também não ajuda muito. Não ajuda nada!

Olho para a cara das pessoas e, por detrás das máscaras, imagino empregos perdidos ou em risco, negócios arruinados ou em desespero, empréstimos com prestações apenas adiadas, miúdos em casa, em casas pequenas, sem condições, com nervos em franja, vontade de sair, o medo à doença, tensões à flor da pele. E, sempre e até ver, a falta de um horizonte, a reforçar o tal desânimo.

Isto não está fácil! (Ora bolas, ele está para aqui a escrever o óbvio! Filosofia barata, como antes se dizia, é o que isto é!). Caramba! Também tenho direito às minhas platitudes, ou não? Durmam bem, se puderem.

sábado, 30 de janeiro de 2021

“Observare”


Na TVI, depois do jornal da meia noite, de sábado para domingo, poderá ver o ”Observare”, um programa sobre temas internacionais.

Com uma convidada especial, iremos falar da Venezuela, do Brasil, dos 10 anos das primeiras “primaveras” árabes. Eu lembrarei ainda a crise política na Itália e a luta dos democratas na Bielorrúsia.

Chinas

Ninguém de bom senso pode dizer que o sonho chinês de unificação com aquilo que é hoje Taiwan é uma ideia ilegítima. Ninguém com um mínimo de respeito pela democracia deve aceitar que isso possa ser feito sem ter em conta a vontade expressa de quem vive hoje em Taiwan.

Lei eleitoral

Quando não se quer fazer uma coisa, utiliza-se o estafado argumento de que há coisas mais prioritárias para fazer. José Magalhães já denunciou: os partidos vão uma vez mais arrastar os pés para não rever a lei eleitoral: voto da emigração, voto eletrónico, etc. Ninguém reclama?

Salvação?

Miguel Sousa Tavares, que tem muitas vezes razão, desta vez, no “Expresso”, não tem nenhuma: o PR criar um “governo de salvação nacional” é uma péssima ideia. Daria, a quem dele ficasse de fora, à esquerda ou à direita, uma arma demagógica e populista muito perigosa.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Já agora...

Nos Bilhetes de Colares, José Cutileiro falava muito do seu amigo Lowater, o “sábio de Kew”, um liberal que andava cá por Portugal, sem sucesso aparente, a sugerir a privatização dos cemitérios. Estranho muito que nenhum liberal da nova fornada tenha ainda avançado com a ideia.

Vacinas

Devo confessar que estou espantado - para dizer pouco - com a decisão de alargar a vacinação a um tão largo número de cargos públicos. Quem decidiu isso não se deu conta da polémica que ia criar? Não há um mínimo de bom senso?

Lei do mercado

Se Adolfo Mesquita Nunes assumir a liderança do CDS, uma “start-up” política que por aí anda vai entrar em falência rápida.

Decência

Gente que tenho por decente diz esta barbaridade: a única maneira de afastar o PS é, por muito que custe ter de concluir isso, fazer uma aliança com o “diabo”, isto é, com o Chega. É falta de confiança em conseguir vir a conquistar o eleitorado do PS e falta de ética política.

Escumalha

A melhor punição para a escumalha que “fura fila” na hierarquia de aplicação das vacinas é muito simples: assegurar que não tomam a segunda dose. Ficariam depois à espera da sua vez...

Liberais

Na história das ideias, o liberalismo foi uma doutrina política muito estimável e bem útil à fundação das democracias. Desde há uns anos, a sua filosofia foi praticamente capturada pela direita e vive um percurso extremado e radical, muito distante dos seus princípios fundadores.

Governo

Já aqui disse que tenho a profunda convicção de que, nas atuais circunstâncias, ninguém faria melhor à frente do governo do que António Costa. Mas não quero deixar de lamentar que o governo não assuma abertamente onde falhou e por que falhou, pedindo desculpa por isso.

“Pega na lancheira...”

A um comentário “escandalizado” por os deputados terem refeições, quando trabalham fora de horas, perguntei por aqui se se esperava que levassem lancheiras. Caiu o Carmo e a Trindade, como se fosse um insulto a quem usa lancheira! O miserabilismo é a doença infantil da demagogia.

Alertas

Àqueles “alertas” na internet do género “já há um golo na Mata Real”, com a espertalhice de nos quererem obrigar a abrir o link, para poderem contabilizar o clickbait, já tenho uma resposta: desligo a origem dos alertas. Há mais quem nos diga de quem foi o golo.

Eutanásia

Há questões, óbvias para muitos, que para mim o não são. A eutanásia é uma delas. Aceito sem dificuldade o princípio, mas interrogo-me sobre os possíveis abusos. Porque não sei, confio em quem tem obrigação de saber ou toma decisões bem informado. E não mando “bitaites”.

Liberdade, liberdade...

Olhando a comunicação social, fica a ideia de que qualquer titular de uma chefia no SNS se sente como o inalienável direito se queixar dos meios de que dispõe ou das orientações oficiais. Um embaixador ou um cônsul que experimente atuar assim e logo verá que há uns mais iguais do que outros...

Ainda Marcelo

Marcelo Rebelo de Sousa deu-se ao luxo de se “estar nas tintas” para aqueles que, sendo embora do campo político de onde ele era oriundo, estavam imensamente furiosos com o seu primeiro mandato. Não é segredo revelar que foi também por isso que muita gente de esquerda votou nele.

Brasil

Atenção à política brasileira: para Bolsonaro conseguir “emplacar”, como por lá se diz, o seu candidato à presidência da Câmara de Deputados, garantindo alguém que não aceitará o processo do seu “impeachment”, terá de abrir o governo à “velha política”, renegando o prometido.

Venezuela

Há um tema de aberta dissonância entre a UE e os EUA. O novo “MNE” americano, Blinken, anunciou, no Senado, que Washington continua a considerar Juan Guaidó “chefe de Estado“. A Europa já não lhe reconhece esse estatuto e trata-o apenas como “interlocutor privilegiado”. A seguir.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

A vida relativa


Eu andava nos últimos anos do liceu. Uma noite, a rádio, no dia seguinte a televisão, no outro dia ainda os jornais do Porto que se liam lá por casa, em Vila Real, trouxeram o relato dramático do desastre. 

As fotografias, no preto e branco da época, mostravam as imagens de uma parte de um comboio que embatera contra uma ponte. Era em Custóias, junto ao Porto. Morreram 90 pessoas, que vinham da Póvoa e de Vila do Conde, depois de um domingo de praia.

Para mim, esse número pareceu-me sempre uma monstruosidade. Quase 100 pessoas! Caramba!

No ano anterior, a cobertura de cimento da estação do Cais do Sodré, em Lisboa, tinha caído, provocando meia centena de mortos. Um número impressionante! Mais ou menos o mesmo número de pessoas (o número exato nunca se soube, ao certo) que, duas décadas depois, não muito longe de Viseu, em Alcafache, viriam a morrer num acidente com o Sud Expresso, a caminho de França.

Trago comigo na cabeça esses números, desde sempre, como uma espécie de “benchmark” negativo das nossas tragédias coletivas. 

Hoje, ao ouvir que, só no dia de ontem, a pandemia levou mais de 300 vidas, não tive nenhum arrepio, só senti imensa pena. Como a gente se habitua às coisas, como tudo se torna tão relativo!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Um outro país que aí existe


Numa destas noites, para escapar ao debate político nas televisões, nas margens das regras de confinamento, saí a pé uns quarteirões. Deparei, numa porta iluminada, com uma loja de produtos de alimentação e de primeira necessidade. Não precisava de nada, mas entrei. Uma cara escura, com uma máscara negra, deu-me um “boa noite” com sotaque. Para justificar a incursão, comprei qualquer coisa, de que, verdadeiramente, não sentia falta. Ao contrário do que costumo fazer com os estrangeiros com quem calha cruzar-me no mundo do comércio, nos restaurantes ou nos Uber, não perguntei de onde era. Sri Lanka ou Bangladesh ou Paquistão seria, com certeza, a resposta. Mas podia ser o Nepal, mas raramente a Índia.

Desde que me conheço, tenho um sentimento muito sincero de simpatia pelos estrangeiros que trabalham entre nós. Sinto-me feliz por ser parte de um país que acolhe gente vinda um pouco de todo o mundo, fazendo nós assim, sem o assumirmos, uma espécie de retribuição pelo facto de, desde há séculos, muitos compatriotas nossos terem andado fora de fronteiras à procura de melhor vida e de aí terem tido, com maior ou menos dificuldade, oportunidades para navegar o seu destino.

Quando por aí me cruzo com caboverdeanos ou angolanos ou santomenses, a esses quase que os não coloco nesse mundo de forasteiros imigrados. São “da casa”, tal como muitos brasileiros. Mas acho imensa graça ao facto de haver chineses um pouco por todo o lado, de ter migrantes do Leste europeu quase confundidos connosco, de poder ter gente do Industão no nosso comércio de bairro. Encontrar gente diversa a partilhar a nossa vida, saber interagir com eles, respeitá-los e dar-lhes oportunidades de mostrar que são bem vindos e que gostamos de os ter por cá torna-nos um país melhor.

Por que é que falo disto agora? Porque Portugal, gostemos ou não de ouvir isto, vai entrar numa crise económica, e que, por muitas “bazucas” que houver, elas só terão efeitos a prazo pelo que, no imediato, virá por aí algum desemprego. E o desemprego que, como é sabido, afeta, em prioridade, os imigrantes, cria pobreza, instabilidade social e criminalidade, não sendo de excluir que alguns estrangeiros possam ser apanhados nessa malha. E como sabemos que a imprensa do crime não tem a menor ética anti-xenofóbica ou anti-racista, sendo mesmo atiçada pela onda nacionalista que agora chega, as pessoas decentes vão ter a obrigação de assumir uma resposta política a uma rejeição dos estrangeiros, que pode estar aí ao virar da esquina.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Já é azar!


Conseguir um estacionamento perto do oculista, com uma farmácia em frente, onde “aviei” uma receita que trazia à mão desde ontem, prenunciava um bom início de tarde. Esta Lisboa pandémica, tem uma vaga em cada esquina. Função executada, regresso ao carro. Não abre! Não abre? Não abre! Ó diabo! Será a pilha?

O Smart tem 10 anos, 20 mil quilómetros e faço trinta por uma linha com ele, nesta quarentena, pelos altos e baixos da cidade. A chave tem essa idade e a pilha, imagino, não é, com certeza, mais nova. Comprei-o em Paris, um ano e pouco antes de regressar a Lisboa. Foi num stand junto ao Trocadéro, a um luso-descendente simpático e falador (em francês), satisfeito por vender um carro ao embaixador da terra dos pais. Nunca nos deu problemas. Só hoje!

Ainda bem que a EMEL está de férias! Se o carro não arrancar, fica mesmo ali. Há, lá por casa, outra chave. Se não, avança o reboque do ACP. De qualquer forma, é uma chatice! Agora, lá tenho de ir à vida de Uber ou de táxi. Usar o mínimo possível transportes alheios tem sido a minha regra nesta época. Mas lá terá de ser!

À lisboeta clássica, chega-se um transeunte, pelo passeio. “Então não abre, é? Deve ser da humidade”. Sei lá se é! Só sei que o carro não dá sinal! Vou à porta contrária, forço a fechadura. Nada! Passaram-se, entretanto, cinco minutos, comigo a hesitar sobre o que fazer.

Aproxima-se, entretanto, outro cidadão, este atravessando a Avenida António Augusto de Aguiar: “É capaz de ser da chave!”. Olha o espertalhote! Até aí chegou o Neves! “Com esta deve dar!”, diz o homem, com o que devia ser um sorriso por detrás da máscara: “É que este é o meu carro. O seu deve ser aquele, que está ali, um pouco mais acima, farto de acender as luzes...”

E lá fui para o meu carro.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Rosalina Machado


Era uma mulher-sorriso, uma presença muito agradável, a simpatia em pessoa. Conheci-a, há muitos anos, através de amigos comuns. Era uma figura solidária, uma empresária corajosa. Na última década, encontrámo-nos na tertúlia “Grupo Amizade”, sob o simpático acolhimento do João Flores, que há meses desapareceu. A Rosalina, no dia seguinte ao seu marido Francisco, sai hoje de cena. Muito triste.

Para os próximos anos

Já muita gente disse isso, mas acho que é importante repetir que os fascismos e populismos são respostas erradas para problemas reais. Se não se perceber isto, os Venturas e quejandos continuarão a progredir e a ser vistos como a solução.

Uma leitura (útil) de Paulo Querido

“A recomposição da direita portuguesa não se fica pelo Chega. O partido Iniciativa Liberal tem feito um caminho praticamente simultâneo. 

Ambos nasceram dentro de um período de dois anos a tempo de disputar as eleições de 2019, ambos elegeram um deputado à Assembleia da República, ambos sangram os outros dois partidos da direita, ambos têm crescido em reconhecimento e em intenções de voto. 

O IL tem tido uma subida menos acentuada, refletindo a diferença entre populismo e responsabilidade, bem como a diferença entre grunhice e educação. Por cada eleitor educado que o IL tirou ao CDS, o Chega tirou três eleitores arrivistas e topa-tudo ao PSD. 

Mas o IL é um poço de equívocos. Muitos vêem nele uma movimentação tão ou mais perigosa para a democracia que o Chega. A hiper-valorização do capitalismo enquanto valor é a principal responsável por essa visão redutora. Os valores sociais que estão presentes no IL raramente ou nunca afloram no confronto de argumentos. Os mantras do “mercado”, do “capitalismo” e da meritocracia e a aversão, ódio mesmo, ao setor público conspurcam de tal forma as conversas que o liberalismo de costumes não tem a menor hipótese de comparecer na mesa. 

Socorro-me da Wikipedia para estabelecer que as ideias e partidos que adotam o liberalismo social são considerados de centro. Assim, os liberais sociais encontram-se entre os mais fortes defensores dos direitos humanos e das liberdades civis, embora combinando esta vertente com o apoio a uma economia em que o Estado desempenha essencialmente um papel de regulador e de garante do acesso de todos (independentemente da sua capacidade económica), aos serviços públicos que asseguram os direitos sociais considerados fundamentais. Todavia no liberalismo social, o Estado não tem obrigatoriamente de ser o fornecedor do serviço público, tendo apenas de garantir que todos os cidadãos têm acesso a serviços públicos básicos, independentemente da sua capacidade económica. 

Ora, o Iniciativa Liberal nasceu agrupando liberais puros e impuros. Estes dois grupos têm um passado pouco recomendável: ambos estiveram na fissão do PSD, empurrando o cabide sublimemente formado na juventude do partido para todas as ideologias, Pedro Passos Coelho, para a liderança, encomendando-lhe uma cartilha neo-liberal bem robusta. (A troika diz mata? Meninos do coro! Moles! Nós dizemos esfola! Nem mais um feriado para a corja!)

O neo-liberalismo — a desregulação selvagem somada à destruição de direitos do trabalho e, em países sem tradição liberal como Portugal, à canalização dos recursos públicos para a iniciativa privada — dominou os primeiros passos da geração de liberais impuros, empolgados com o empoderamento que a blogosfera lhes concedeu no início do século.

Os que andaram com Passos ao colo nos media e chegaram ao tristemente célebre governo de desnorte nacional de Passos/Portas, entre ministros, secretários de Estado, gabinetes e comissões de serviço na Imprensa, eram mais thatcheristas e reaganistas que os próprios mãe e pai do neo-liberalismo. Finda, com traumático estrondo, a irrepetível deriva neo-liberal do PSD, os que não se tinham comprometido demasiado na aventura foram à procura de nova saída. Como deviam. 

À sua espera de braços bem abertos estavam os liberais puros — tão puros que não se tinham metido no comboio de assalto ao PSD e à Assembleia da República. Outros nem sequer andaram alguma vez com o crachá da esfinge de Reagan nem com o pullover estampado com o icónico rosto de Thatcher a vermelho e azul. 

Um pouco como o Bloco de Esquerda a reunir tribos com práticas divergentes, o partido Iniciativa Liberal reuniu tribos liberais com passados divergentes: liberais sociais misturados com neo-liberais duros. 

Ora, enquanto na direção (da fundação aos atuais corpos) pontificam os puros, o combate nas ruas tem estado a cargo dos impuros, muitos dos quais não conseguiram despir a tempo o fato-macaco passista. O grosso da imagem do partido resulta da atividade destes nas redes sociais. Os cartazes irreverentes não se sobrepõem, muito menos o discurso ponderado do presidente do partido e deputado à AR — e do candidato à Presidência da República, já agora. 

Não admira, portanto, a confusão. E a desconfiança.”


https://pauloquerido.medium.com/

10 “tweets” da noite eleitoral


* A direita não ganhou esta eleição. O vencedor matemático desta eleição chama-se bloco central e concorreu sob o heterónimo de Marcelo Rebelo de Sousa.

* Muito a sério: é importante que Ana Gomes tenha ficado à frente de André Ventura. (Porque há prioridades em política, não contribuí para isso). Pode ser só simbolismo, mas o simbolismo é significativo em política.

* Marcelo Rebelo de Sousa (31.5.19). ”Há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos. (Por isso é que) “o Presidente (...) é importante para equilibrar os poderes”.

* No dia em que Rio sair (o que pode acontecer com um resultado desastroso nas autárquicas), o “passismo” (com o próprio ou alguém por ele) regressará. Nessa altura, a IL desaparecerá e o balão Ventura desinflará. Mas o Chega veio para ficar e será com certeza aliado desse PSD.

* Com sincera pena o digo: o CDS é, nos dias de hoje, uma mera realidade virtual.

* O discurso de Rui Rio é das maiores ficções políticas desta temporada.

* Ventura teve um excelente resultado mas isso não deve ser lido em termos de eleições legislativas. Nele votou muita gente PSD que quis punir não só Rio mas também Marcelo, na certeza que tinha de que este último ganharia. Em legislativas, tudo será diferente.

* O PCP tem hoje um dia histórico, mas não pelas melhores razões.

* Ventura deve fazer parte dos “homens de bem” que o slogan do Chega apregoa. E, como é sabido, as pessoas de bem cumprem sempre a sua palavra. Assim, se ficar atrás de Ana Gomes, o seu partido fica esta noite sem líder, porque vai demitir-se, não é?

* Brinquem, brinquem, mas se não fosse o apoio do CDS, Marcelo estava agora a lutar pelo segundo lugar. Essa é que é essa!

domingo, 24 de janeiro de 2021

“Observare”


Pode ver aqui o último “Observare”, o programa de relações internacionais da TVI 24.

Dias de presidenciais


Baptista-Bastos tinha, como pergunta sacramental das suas entrevistas, o “onde é que você estava no 25 de Abril?”. Hoje, deu-me para perguntar a mim mesmo onde estava nas datas das nove eleições presidenciais até hoje realizadas em democracia.

Em 1976, estava em Lisboa, já era funcionário diplomático, e a vitória de Eanes não me sossegou nada. Achei que poderia vir aí o pior. O futuro veio a provar que estava errado! Cinco anos depois, votei nele, sem entusiasmo mas com convicção, contra um Soares Carneiro que - esse sim! - me assustou muito. Hoje, tenho grande consideração por Ramalho Eanes, não obstante algumas críticas que nunca escondo.

Com Mário Soares, em 1986, na disputa contra Freitas do Amaral, a noite da sua vitória foi uma imensa alegria. O pessoal de chapelinhos de palha à volta do candidato da AD causava-me forte urticária política. Eu, que nem sequer era então um soarista, senti um grande alívio ao vê-lo entrar em Belém. Não tenho memória de ter tido a menor reação aquando da sua natural reeleição, em 1991, comigo já a viver em Londres.

Verdadeiramente empolgante foi, para mim, a campanha de Jorge Sampaio, em 1995/96. Tinha-me envolvido no lançamento da candidatura, entrara entretanto para o governo e lembro-me bem da grande satisfação que senti nessa noite! Se a vitória de Soares, uma década antes, era quase “existencial” (porque achei, sem razão, que a democracia podia estar a correr riscos), a de Sampaio representava colocar mais uma pedra sobre o cavaquismo, o qual, três meses antes, já tinha sido afastado do poder executivo. Para pessoas como eu, eleger Sampaio era o culminar de um projeto geracional. Mais tarde, a sua reeleição, em 2001, foi um “passeio”. Nem recordo essa noite, num tempo em que eu estava a mudar de vida e de geografia, com problemas familares graves a preocuparem-me muito.

Em 2006, estava embaixador no Brasil quando Cavaco Silva chegou a Belém. Não era uma data feliz, mas era a democracia a ser cumprida. Recordo, nessa tarde, ter encerrado as urnas, na embaixada em Brasília, e ter partido para o Amapá, no extremo norte do país, onde tinha uma cerimónia no dia seguinte. Cheguei lá de madrugada e esqueci o sufrágio. Meses depois, passei por Lisboa, e fui o primeiro embaixador a ser recebido por Cavaco Silva, com quem tive um relacionamento sempre muito correto, durante a sua década em Belém. Mas não esqueço, em 2011, comigo embaixador em Paris, o incrível discurso azedo de Cavaco no CCB, na noite da sua reeleição. Costuma dizer-se que há candidatos que não sabem perder. Cavaco provou, nessa noite, que não sabia ter grandeza na vitória.

Em 2015, não votei em Marcelo Rebelo de Sousa. A minha aposta foi Sampaio da Nóvoa, que fez uma campanha com grande dignidade, tal como a minha amiga Maria de Belém Roseira. Nunca tive dúvidas sobre o sentido de Estado de Marcelo, pelo que, sem hesitação, lhe dei o benefício da dúvida, desde a posse. E ele mereceu em pleno essa minha confiança, por muitas críticas que se possam fazer ao exercício do seu mandato. Por isso, é com satisfação que hoje vejo a sua reeleição.

Carlos Antunes


Não sei exatamente quando conheci o Carlos Antunes. Ele era, para mim, uma figura quase mítica, desde antes do 25 de abril, na oposição violenta contra a ditadura.

Nos “anos da brasa” de 1974/75, não me recordo de nos termos cruzado alguma vez, embora isso pudesse ter acontecido. 

Tenho, assim, quase a certeza de que foi o Nuno Brederode Santos quem nos apresentou, numa noite dos anos 80, na Mesa Dois do Procópio, na primeira das vezes em que o encontrei por lá, quase sempre com a Isabel do Carmo.

A partir daí, nas ocasiões em que por acaso nos juntávamos, belas conversas pela noite dentro fomos tendo! O Carlos era um conversador magnífico, tinha um estilo, ao mesmo tempo empolgado mas com grande serenidade, de contar histórias, sempre com um sorriso a acompanhá-las! E que vida para contar que ele tinha!

Seria também no Procópio, em inícios de 1995, e isso recordo muito bem, que o Carlos se envolveu numa discussão acesa com o Agostinho Roseta, a propósito de um episódio passado em 1975, cujos pormenores não vêm para o caso. Seria essa, aliás, a última noite em que eu vi o Agostinho, um grande amigo, antes dele morrer.

O Carlos e a Isabel passaram a fazer parte da lista de convivas que, desde 2004, eu convocava para o jantar anual da Mesa Dois, uma organização que assegurei por uma década. Lembro-me de, por duas vezes (no “Manel” e no “Vírgula”), o ter deliberadamente colocado ao lado do Caetano da Cunha Reis, testando assim a convivialidade obrigatória do grupo: o Carlos vinha das pontas extremas da esquerda política, o Caetano havia sido fundador da Juventude Centrista. Deram-se lindamente! Tenho prova fotográfica disso! Essa era uma das “artes” da Dois!

Guardo, em especial, um almoço magnífico com o Carlos, organizado pelo António Dias, também com o José Manuel Correia Pinto, no restaurante do Teatro Aberto, numa data do início do século que não consigo precisar. Foram quase três horas memoráveis (o restaurante queria fechar e nós continuávamos vidrados na conversa), com o Carlos, naquele seu jeito suave e envolvente, a contar-nos os seus tempos da clandestinidade, de Bucareste a Paris, de Argel a Moscovo, com histórias passadas em reuniões com Álvaro Cunhal, em países do Leste europeu, quando ainda andava nas águas do PCP. Fiquei com pena de não ter ali um gravador, porque só aquilo tinha dado um livro muito interessante. Depois disso, várias vezes o estimulei a um exercício desse género, com o qual a história da oposição à ditadura e das dissidência do PCP muito ganhariam. Não sei se o fez.

Vi o Carlos, pela última vez, no Chiado, já há uns tempos. Meia hora de conversa na rua do Carmo soube a pouco. Ficámos de marcar, para um dia futuro, mais um almoço. Afinal, não há futuro para esse almoço. Acabo de saber que o meu amigo Carlos Antunes morreu do vírus que por aí anda. Começo a ficar muito chateado com o destino!

“Casa Carlucci”


Não tinha notado que, à residência do embaixador americano em Portugal, havia sido dado o nome de “Casa Carlucci”, como se vê num azulejo na parede. (Passei por lá há pouco).

Constato que essa foi uma decisão do representante diplomático que Trump manteve por cá nestes quatro anos.

Daqui a uns meses, chegará a Lisboa um novo embaixador americano.

Depois de escolhido pela nova administração, o novo representante passará por um escrutínio parlamentar, como é de regra em algumas democracias presidencialistas, e por um “curso” acelerado de diplomacia no “State Department”. Oriundo da sociedade civil, o novo nome será uma escolha política da equipa do novo presidente. Será, como é de regra, acolitado por uma equipa competente de profissionais, na excelente escola da diplomacia americana, que o ajudarão à sua tarefa em Lisboa.

Dada a importância do país que vai representar, o novo embaixador americano vai encontrar, no seio da sociedade portuguesa, todas as portas abertas, desde logo começando pelas institucionais.

Se souber transmitir uma mensagem de simpatia e respeito pelo país onde está acreditado, pode vir a criar um terreno muito positivo de trabalho. Muitos dos seus antecessores souberam fazer isso, criaram uma excelente relação com Portugal, ganharam aqui amigos, prestigiaram o nome dos Estados Unidos entre nós e, dessa forma, foram muito eficazes.

Se, pelo contrário, o futuro embaixador, a exemplo de outros de quem não ficam saudades, optar por uma outra atitude, as coisas não se passarão assim.

Ao seu lado (geograficamente, quase em frente, como se vê na outra fotografia, também de há pouco), a embaixada e o seu titular terão a FLAD, a Fundação Luso-Americana, uma instituição que liga os dois países e que pode ter um papel muito interessante na relação bilateral. Nenhum outro Estado tem, por cá, uma instituição similar, com o prestígio que a Fundação tem sabido ganhar, embora apenas em alguns dos seus ciclos, como é o caso atual. Aproveitar bem a FLAD é algo que muito poderá contribuir para uma sã e proveitosa relação bilateral.

Termino com um mistério, na presença diplomática americana em Lisboa, que nunca consegui desvendar.

Com muito raras exceções, nunca vi os representantes diplomáticos americanos a associar-se à promoção da fantástica literatura que se produz no seu país, nunca ligamos a sua imagem à divulgação dos artistas plásticos americanos, nunca os colamos à sua extraordinária produção musical, da música clássica ao jazz e a tudo o resto. E o cinema? Onde é que vemos a embaixada americana dar nota de interesse pelo ímpar cinema que se produz no seu país? Onde para a cultura na ação diplomática americana em Portugal? Digo isto também na qualidade de frequentador do Centro Cultural Americano que existia na Avenida Duque de Loulé, em Lisboa, nos anos 70.

A América oficial que por aqui, em regra, se mostra parece sempre muito longe disso. Fala de comércio e de investimento, fala da NATO e das Lajes, refere-se à nossa diáspora por lá e aos políticos com origem portuguesa que vão emergindo. E de pouco mais. Os amigos portugueses da embaixada são, por regra, gente ligada à política, raramente à cultura. Será que o futuro embaixador (ou embaixadora, como já aconteceu no passado) nos vai surpreender?



sábado, 23 de janeiro de 2021

 


“Observare”



Depois do noticiário da meia-noite, de sábado para domingo, na TVI 24, Carlos Gaspar, Luís Tomé e eu, sob a moderação de Filipe Caetano, estaremos em mais um “Observare”, onde analisaremos a posse e o início da presidência Biden, a prisão de Alexei Navalvy e o que isso pode revelar da atual situação política na Rússia.

Pela minha parte, salientarei também duas questões africanas: a possível recandidatura presidencial de Sassou Nguesso, no Congo-Brazaville, depois de 37 anos de exercício do cargo, e a deslocação do MNE português, Augusto Santos Silva, a Moçambique, representando a União Europeia, com vista a dialogar sobre o que a Europa poderá fazer para acorrer às dificuldades humanitárias e securitárias no norte daquele país.

Por razões óbvias, mas muito especialmente para enviar um sinal público para a necessidade de prudência nos contactos físicos, o programa foi feito com meios telemáticos.

Máscaras de pano

Não sei se já notaram que, em vários países europeus, começaram a ser desaconselhadas as máscaras de pano. Desde há muito que gente qualificada afirmava que esses trapos de cores, às vezes a “rimar” com a roupa, eram um adereço pouco eficaz. Agora, ao que parece, essa ineficácia tende a confirmar-se!

Reconhecimento

Seria justo que as autoridades manifestassem publicamente o reconhecimento da comunidade aos cidadãos que fazem parte das mesas de voto, neste momento complexo. Por muitos cuidados que existam, atendendo à exiguidade de muitos espaços, alguns vão correr riscos. 

Eu agradeço-lhes.

Incivilidade espertalhota

Devia ser tornado público o “quadro negro” dos espertalhões que, usando abusivamente as suas funções, “furaram a fila” para se poderem vacinar antes de quem tinha prioridade.

Neste tempo difícil para todos, não me repugnaria ver legislação de exceção para punir essa gente.

Larry King


Aprendi muito sobre o mundo e a política a assistir às entrevistas de Larry King na CNN. Vou ter saudades daqueles suspensórios. A pandemia levou agora Larry King.

Olrik por Védrine



Para parte da geração portuguesa que teve a infância ou juventude nos anos 50 do século passado (por alguma razão, custa-me sempre escrever a expressão "do século passado"), as aventuras de "Blake et Mortimer", da autoria de Edgar P. Jacobs, são, ainda hoje, uma recordação muito viva.

Figura importante da excelente escola belga de banda desenhada, de que Hergé é, sem a menor dúvida, o maior expoente, Jacobs abria-nos o mundo através de álbuns de uma fantástica qualidade e fruto de cuidado estudo, que agarravam a nossa imaginação e nos transportavam para cenários muito realistas, às vezes quase plausíveis.

Quando vivi em Londres, não resisti a reproduzir a pé os percursos do "Marca Amarela" e do Dr. Septimus. Ao entrar, um dia, no museu do Cairo, no Egito, a figura do Professor Grossgrabenstein (que só pode ter sido inspirada, "avant la lettre", no meu amigo Caetano da Cunha Reis) veio-me logo à memória - este último saído desses dois álbuns sem par que constituem "O Mistério da Grande Pirâmide". Até os Açores passaram pelas histórias de Jacobs, no "Enigma da Atlântida".

A trama jacobiana centra-se sempre numa dupla de amigos, um militar e um cientista, envolvidos na luta eterna, pelo lado do "bem", contra um inimigo permanente, Olrik, que encarna os vários males e que tem uma capacidade de sobrevivência que acaba por nos causar mesmo alguma admiração. As mulheres, confirmando uma misoginia muito própria de um certo período da banda desenhada europeia (mas não, curiosamente, dos "comics" americanos, sendo embora da mesma época), têm sempre um papel muito escasso nestas tramas, surgindo apenas com algum relevo nos álbuns desenhados pelos seguidores de Jacobs, já após a sua morte, em 1987.

A que propósito vem esta evocação? É que, há dias, dei conta de que tinha sido publicada uma “biografia” dessa “infamous” figura que é Olrik. E quem é que a escreve? O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Hubert Védrine e o seu filho Laurent, cineasta.

A Amazon fez-me hoje chegar o livro, num pacote de “takeaway” livresco que, às vezes, me dou ao luxo de consumir, nestes tempos de confinamento.

Hubert Védrine foi ministro dos Negócios Estrangeiros de França, durante o governo Jospin. Antes, havia sido íntimo colaborador de François Mitterrand, em torno de cuja figura fez um livro que considero essencial para melhor se perceber o antigo presidente - "Les Mondes de François Mitterrand".

É um homem sereno, que pensa a política externa com grande cuidado, sublinhando as vantagens de olhar os tempos em perspetiva, evitando juízos radicais ou moralistas, mas não caindo nunca num relativismo de "realpolitik".

Conheci-o bem quando, ao tempo em que ele era homólogo de Jaime Gama, nos cruzámos em dezenas de horas de reuniões, nos idos de 90, e, em especial, no processo de sucessão das presidências portuguesa e francesa, em 2000.

Foram tempos complexos, em que nem sempre estivemos de acordo, antes pelo contrário. Mas guardámos uma excelente relação pessoal, que prolongámos em encontros em Nova Iorque e, mais tarde, por várias vezes, em Paris. Falámos de muitas coisas, mas nunca calhou falarmos de Olrik...

Aproveito para contar um episódio passado com Védrine, há 21 anos, quase dia por dia, em Paris. 

Estávamos em finais de janeiro de 2000. Como secretário de Estado dos Assuntos Europeus, eu tinha ido a Paris, a convite do meu contraparte Pierre Moscovici, ministro-delegado para os Assuntos Europeus. Reuni com ele no Quai d’Orsay, onde almoçámos. Durante a refeição, chegou a indicação de que Hubert Védrine queria ver-me, no final da refeição.

Notei que Moscovici ficou intrigado. Védrine era o seu chefe, mas não era segredo para ninguém que as relações entre ambos eram muito difíceis. Imagino que, no momento, lhe tivesse passado pela cabeça que o ministro, que ele sabia que me conhecia pessoalmente muito bem, quisesse dizer-me algo à sua revelia, em particular. Porque sempre gostei de jogar com as cartas em cima da mesa, Lancei-lhe, de chofre: “Não queres vir comigo?” Hesitou, mas foi.

Quando entrámos no gabinete de Védrine, ainda nos não tínhamos sentado, este, sorrindo, disse-me: “Sabes que este é um momento quase histórico?”. Não percebi, mas ele explicou, com o esgar “mitterrandiano” que tinha: “Porque esta é uma das muito raras ocasiões em que o Pierre aqui veio, desde que ambos estamos no governo.” Moscovici riu, mas o riso foi bastante amarelo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O novo amigo americano


Os Estados Unidos da América são um país amigo de Portugal. A nossa relação é muito assimétrica: para Portugal, a ligação transatlântica é um eixo central da nossa postura externa - o único que sobreviveu ao 25 de abril. Para os Estados Unidos, Portugal tem uma escassa importância como aliado. Pelo meio, estão, claro, as Lajes, mas até aí as coisas são o que são: para Washington já não é um dossiê vital, para Lisboa é um tema com diversos impactos, em especial internos. Por isso, existe sempre a expetativa de que uma nova administração o venha a tratar de uma forma que leve em conta os interesses que temos por relevantes. As desilusões, neste domínio, costumam ser bastantes, vale a pena dizer.

Não estou no segredo dos deuses, mas posso crer que foi imensa a satisfação, nas Necessidades e em S. Bento, pela saída de cena de Trump. E, em Belém, não deve ter havido luto.

Para aquilo que é a aposta externa portuguesa, o multilateralismo é uma doutrina que Lisboa de há muito cultiva. Ora Trump tinha enterrado essa via. Por isso, e porque a reeleição de Guterres é algo que agora também renasce com grande plausibilidade, a chegada de Biden é mais do que bem vinda. Custa-me dizer isto com estas palavras, mas, para nós, é muito confortável ver um país amigo, com a importância dos Estados Unidos, chefiados por um homem decente.

A administração Biden, muito “graças” a Trump, criou grandes expetativas por todo o mundo. Muito provavelmente muito maiores do que aquelas que conseguirá concretizar. A América de Trump não é a mesma de Biden, mas é importante ter presente que muitos dos interesses americanos, que a este vai cumprir defender, são precisamente os mesmos s que, de uma outra forma, Trump prosseguia. Por isso, para além do imenso mundo de mudanças que uma nova e constrastante administração acarretará, há “adquiridos” consagrados nos último ciclo político que não serão deixados cair nos anos que aí vêm. E a área das relações externas é, muito provavelmente, aquela onde isso poderá ser mais sensível. Posso estar equivocado, mas o Médio Oriente é o terreno onde, provavelmente sob uma nova linguagem, a fórmula clássica de Lampedusa tem mais condições para ser aplicada.

A Europa sofreu um trauma profundo com Trump. A Alemanha, em especial, ficou muito marcada pelo descaso a que foi votada pelos EUA, nos últimos anos. Enquanto que, num país como a França, Macron pode ter tido ainda a ilusão fátua de que poderia ser singularizado como o interlocutor europeu - como único poder nuclear e com capacidade militar significativa, depois do Brexit -, na Alemanha, a atitude de Trump foi sentida como uma rutura com os EUA. Há a sensação de que, mesmo que Biden possa tentar recolar o que se partiu, nada será igual no futuro. A menos que um pós-Merkel nos possa trazer sinais diferentes. A pressão alemã para fechar, mesmo à pressa, o acordo económico europeu com a China, sabida a importância que ao assunto seria sempre dada pela futura administração Biden, parece revelar que a ferida é muito profunda. 

Quando se acorda de um pesadelo, há uma sensação imediata de bem estar. Depois, damo-nos conta de que, embora tudo podendo ser pior, como no pesadelo, afinal, no dia a dia, também temos de reduzir ou atenuar as nossas ambições, porque a vida é o que é e não aquilo para que os sonhos apontam. A América de Biden é, antes de tudo, a América. Mas, para já, os aliados dos EUA parece terem ganho um novo amigo americano. E isso, aconteça o que vier a acontecer, é uma excelente notícia!

Lembrei-me do Luís


O Luís morava num primeiro andar na esquina da rua das Trinas com a rua das Praças, por cima do Berimbar. (Passei lá, há pouco, na minha caminhada noturna). O Luís era arquiteto e vivia com o Afonso, um brasileiro divertido, amigo de Malú Futscher Pereira. Com eles e com ela, algumas vezes, fomos jantar à “Adega dos Macacos”, uma tasca na praça dom Luís, que, por razões misteriosas (e gastronomicamente injustificáveis), a todos eles, que não a mim, caíra no goto. 

Um dia, em Angola, nos anos 80, o José Guilherme Stichini Vilela, que, como eu, era diplomata na embaixada, revelou-me que conhecera, já não sei por que luas, um arquiteto, a quem tinha encarregado da renovação de um velho apartamento que comprara, em Lisboa (e que, curiosamente, fica hoje a menos de 100 metros da minha casa, porque isto é uma aldeia). Olhei os desenhos e vi que estava perante um homem de extremo bom gosto. Chamava-se Luís Gomes de Abreu.

Nesse entretanto, também eu acabei por comprar um apartamento antigo, para os lados do Campo Pequeno, que queria remodelar. Escrevi ao Luís uma carta com 27 páginas dactilografadas, dizendo, com precisão, o que queria fazer na casa, que visitara por um quarto de hora e de que apenas tinha uma planta e fotografias. Respondeu-me com uma de 15, manuscrita, com uma letra curiosa. (Ele, entretanto, também escreveu ao Zé Guilherme, perguntando se “o seu amigo por acaso não é maluco”. Eu tinha era tempo!).

Fiz de conta que não sabia do comentário. Numa vinda a Portugal, conhecemo-nos e acordei tudo quanto ao trabalho. O vai e vem da mala diplomática já tinha arrumado todos os pormenores.

Não podia ter feito melhor opção. O seu profissionalismo era imenso, a sua engenhosidade era inesgotável, embora o seu preço não fosse nada barato. A obra saiu mesmo muito bem.

O Luís era uma figura interessante. Pesado, jovial, com um sorriso aberto, um pouco sarcástico, o que me dava justificação para o provocar. Andava sempre impecavelmente vestido. Não tinha um feitio fácil, era muito teimoso, muito orgulhoso daquilo que fazia, renitente, até à exaustão, às sugestões dos "donos das obras". Mas eu conseguia ser ainda mais obstinado e, como cliente, era “chatíssimo” (expressão dele, assumida). Exigi-lhe pormenores impensáveis: "nunca encontrei um cliente que me pedisse um desenho de uma sanca em tamanho natural, sem aceitar um desenho em escala", disse-me um dia: "só você!".

Tinha um atelier no Bairro Alto, ao lado de um dos mais sinistros restaurantes de Lisboa, o “Pucherus”, pouso de dias pouco abonados no final dos anos 60. Às vezes, partíamos do ateliê para jornadas bem divertidas. Ah! E, politicamente, o Luís era um reacionário “de primeira”. Discutíamos imenso e acho que ele se vingava cobrando caro. Mas as nossas "pegas" foram sempre cordiais, em noites de conversa e copos, divertidíssimas, em que ficámos amigos e, depois, quase vizinhos.

Recordo uma noite nossa com o Luís, no velho "Botequim", da Graça. Havia eleições uns dias depois, e, a certa altura, ele disse, em voz alta, que se ia abster. O que ele foi dizer! A boquilha da Natália avançou logo para nós, com o Luís a envolver-se numa homérica discussão com ela, que acabou por se mudar para a nossa mesa. A certa altura, o Luís disse para a Natália: “Mas nós até estamos de acordo na política! Este meu amigo é que é de esquerda!” Desastre! De repente, passei a alvo de Natália Correia, com o Luís divertido e o meu argumentário já um pouco debilitado pelo consumo líquido da noite. Já nem sei como aquilo acabou, lá para as quatro da manhã! Até o Dórdio a veio chamar várias vezes!

Voltei a ter o Luís como arquiteto, na casa onde hoje vivo. E, claro, voltámos a "pegar-nos" sobre a obra... Mas continuámos amigos. E ele continuava a fazer as coisas sempre muito bem.

Desde sempre, o Luís tinha uma rotina ímpar: era a primeira pessoa a mandar-nos boas-festas. Chegavam sempre no início de Dezembro. Já não chegam. O Luís morreu em 2012. A casa lá está, como a fotografia, de há minutos, mostra. Lembrei-me dele.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Dez “tweets” para uma posse


* Acho que a única pessoa que respeitou bem o distanciamento social na posse do presidente dos EUA foi Trump.


* Este é o dia em que devemos ter um pensamento para o pessoal de limpeza que, desde a saída de Trump, operou na Casa Branca. Que desinfeção não terá havido por lá em poucas horas!


* O dia ofereceu, finalmente, algum sol em Washington. Que tempo fará na Flórida? “Who cares?”, responde-me alguém ao meu lado.


* Lá vi na posse de Biden uma figura da pequena História americana a quem só Trump faria subir na hierarquia da competência política: Dan Quayle.


* Mike Pence foi o que foi e é o que é. Mas há que reconhecer que teve alguma dignidade, e não menor jogo de cintura, na pilotagem da transição. E não deve ter sido fácil.


* Na perspetiva do “establishment” republicano dos EUA, o preenchimento dos lugares do Supremo Tribunal feito por Trump passou a constituir uma imensa ajuda para a proteção futura da sua agenda ideológica.


*Quando ouço as marchas nas cerimónias americanas, não consigo desligar-me da “Tarde Desportiva da Emissora Nacional”: “Alô Nuno! Passo às Antas!”. Mas isso sou eu que tenho tempo para ter memória!


* Raramente vi tanta incompetência na gestão do protocolo de uma cerimónia desta envergadura. As pessoas andavam perdidas, as esperas foram imensas, até o tipo que desinfetava o podium dos oradores parecia tirado de uma comédia.


* A inabilidade política de Trump ficou demonstrada no seu patético discurso de despedida. Fazê-lo de improviso foi um imenso erro histórico. Foi uma mensagem errática, com referência ridículas e a adjetivação habitual. Não conseguiu roubar minimamente o “show” a Biden.


* O discurso de Biden foi bom, mas sem nenhum rasgo. Biden não “diz” bem, nem empolga, mas transpira decência e desejo de fazer bem. E não é Trump!


Bom senso e bom gosto


A experiência demonstra que o sistema político, instituído em 1976, privilegia a reeleição do presidente em exercício. A cada inquilino que colocou em Belém, o eleitorado concedeu sempre uma década no cargo.

A eleição intercalar nem sequer obrigou nenhum incumbente a uma segunda volta. Acaba por funcionar apenas como um retrato do estado da arte no mundo político. Estando o resultado determinado, o exercício permite, contudo, testar a fidelidade dos eleitorados partidários.

Em 1981, Eanes foi quem teve a tarefa mais complexa, ao ser confrontado por um desafio conservador que, no entanto, já havia morrido, de véspera, em Camarate. Soares viria a ter pela frente, em 1991, um Basílio Horta surpreendentemente radical. Isso nem sequer se repetiria em 2001, quando Ferreira do Amaral se prestou a marcar apenas o ponto contra Sampaio. Alguma exasperação face a esta inevitabilidade da recondução automática foi notória no confronto a Cavaco por Manuel Alegre, em 2011. Mas acabou por ter o grau habitual de sucesso, isto é, nenhum. E o mesmo vai suceder no domingo.

Por que será que as coisas se passam sempre assim? Não há a quem perguntar, mas, muito provavelmente, isso deve-se ao facto do presidente que “já” está em Belém ser visto pelos eleitores como um fator de estabilidade do sistema. Mais do que isso: pela circunstância da maioria dos votantes parecer não descortinar razões para introduzir, com a afirmação de uma nova cara, uma rutura com essa normalidade instalada.

Um observador exterior será levado a questionar-se sobre se, afinal, neste meio século, o eleitorado apenas fez escolhas quando isso se tornou constitucionalmente inevitável. No fundo - e já estamos a ver o olho guloso de alguns monárquicos a reluzir - o país dá sinais de pretender preservar o máximo de estabilidade possível na chefia do Estado.

Olhadas as escolhas feitas, o eleitorado deu sempre mostras de querer ter, nessa função superior, senadores políticos.

Eanes terá sido um caso especial, porque trazia já os galões de ser um dos fundadores militares da democracia.

Marcelo Rebelo de Sousa era, de há muito, um estadista em construção e, sem que isso seja passível da menor contestação, confirmou sê-lo, nos cinco anos que agora se concluem. A preservação da estabilidade em democracia, o primado do diálogo e um forte sentido de responsabilidade de Estado foram sempre a sua imagem de marca. Por essa razão, a sua reeleição consagra-se como um ato não apenas de bom senso mas igualmente de bom gosto democráticos.

No dia em que...



 ... até a imagem histórica de Richard Nixon sai reforçada na História.

Nem gato!


Dei a minha volta noturna. Perto de casa, claro. Lisboa está com imensa humidade, mas o frio, mesmo com algum vento, faz-me sentir bem. Estar encafuado o dia inteiro, como as circunstâncias obrigam, entre zooms e telefonemas, faz com que o fresco do ar da rua, agora bem menos poluído, me revigore. Tal como nas noites anteriores, nestas peregrinações solitárias a que já me habituei, cruzo-me com muito pouca gente, mesmo muito pouca. Quase todas essas pessoas trazem cães pela trela. Ora eu nem gato tenho, mas, se tivesse, numa interpretação extensiva da lei (como parece que está na moda incívica fazer, durante a pandemia), poderia passeá-lo? Creio que não. Pensando bem, não me lembro de ter visto alguém passear um gato, alguma vez, pelas noites de Lisboa. E, no entanto, interrogo-me: os gatos não passeiam? Tenho de perguntar à minha sobrinha, que os não dispensa por companhia, mas que nunca vi andar com eles no Jardim da Parada. Com o que a gente finge que se preocupa, quando queremos “assobiar para o ar”, a afugentar as reais questões da vida em que agora andamos! Boa noite.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

“Trump ganhou!”

Quando disse a alguém que ia publicar o texto que vem a seguir, ela tentou dissuadir-me: “Não publiques! Há pessoas que podem não perceber.” Decidi correr o risco.

Na noite de 4 para 5 de novembro de 2020, quando estava a ver os resultados das eleições nos Estados Unidos, houve um momento em que me convenci de que Trump ia ser reeleito.

Para encher o tempo, entre a irritação e alguns nervos, coloquei rapidamente no papel (falso, no iPad) um texto de comentário à “vitória” de Trump. Não o publiquei, por prudência. E fui-me deitar. Acordei, surpreendido, umas horas depois, com a possibilidade de uma vitória de Joe Biden. Mal eu sabia a “novela” que essa eleição ainda iria ser.

Trump perdeu, Biden ganhou. Há dias, ao fazer uma limpeza dos rascunhos que tinha “em caixa”, dei com isto. Achei que era curioso publicar este texto contrafactual, precisamente na véspera da posse de Joe Biden. É que é tão raro ficarmos felizes por nos termos enganado. 

Trump, again!

Contra o mundo, contra a pandemia, uma vez mais contra as sondagens, Trump renova o seu mandato. É obra!

Biden, mesmo com a novidade de ter Kamala Harris a seu lado, revelou-se um candidato pouco mobilizador. E vai desaparecer rapidamente, na reciclagem da História.

É a vida!, como costumava dizer um cidadão português, hoje em Manhattan, que tem razões para ver a vida da organização que dirige a andar para trás.

Com esta nova vitória de Trump, com grande probabilidade, vamos ver ruir, com fragor, um sistema multilateral no qual grande parte do mundo colocou, por décadas, as suas esperanças de paz e de progresso. Dossiês vitais para a sustentabilidade global, como o das alterações climáticas, vão ter um destino previsivelmente adverso e trágico para toda a humanidade.

Mas o que tem de ser tem muita força, e o mundo tem de se adaptar à realidade de ter de viver com Trump por mais quatro anos: com a sua megalomania, com as suas mentiras, com o seu autoritarismo, com as suas bizarras opções políticas. O anti-americanismo, que por cá tem raízes profundas, que partiram do salazarismo bafiento para chegarem ao esquerdismo auto-iluminado, vai encontrar novas razões para prosperar. 

A América pode vir a ter ainda um outro desafio: a reconstrução de uma alternativa, no período pós-Trump. É que o Partido Democrático, que tinha encontrado em Biden, conjunturalmente, um denominador comum centrista, de natureza tática, pode vir a ser tentado a uma deriva radical, o que reduzirá ainda mais as suas hipóteses de um regresso futuro ao poder.

Para o que mais diretamente nos importa, a Europa terá de fazer pela vida e aprender a conviver com a continuação de um aliado hostil na Casa Branca. Restará saber se o laço transatlântico conseguirá resistir a mais estes anos de Trump. Imagino mesmo os sorrisos no Kremlin, esta madrugada. E algo me faz pensar que os chineses preferem Trump a uma alternativa democrática, que teria uma muito maior capacidade para gizar uma frente de democracias contra os interesses da China.

Finalmente, sejamos justos: há que dar os parabéns aos populistas, aos demagogos, aos Bolsonaros e toda a casta de autoritários que, neste dia, saem reforçados nas suas agendas.

Valha-nos, porém, uma certeza: com ou sem Trump, a vida continua! Não vai ser fácil, mas na História não há becos: há sempre saídas! Pode é ser mais difícil e demorar mais tempo a encontrá-las.”

Uma pátria de sábios

O tanto que por aqui se aprende sobre o que “se deve fazer” para combater a pandemia! Terá havido cursos, nestes meses, para toda esta gente?

A minha dúvida é já a minha pena: quando a pandemia acabar, o que irão fazer estes grandes especialistas? Incêndios? Novo aeroporto? TGV?

Mesas perdidas




Foi no início deste século. Tinha tido o cuidado de telefonar para aquele restaurante, nas cercanias de Vila Real, por terras por onde Camilo tinha andado, pedindo para terem preparado um determinado prato, para ser servido logo que chegássemos.

A pressa era justificada pelo facto do levarmos connosco uma pessoa muito idosa, cujo tempo de permanência à mesa queríamos encurtar, por razões de saúde. Explicámos isso mesmo. Foi-nos prometido que tudo seria feito como desejávamos.

Chegámos, naturalmente, à hora acordada. Era um domingo soalheiro, com uma luminosidade que entrava pelo envidraçado da sala, já com alguns clientes. A nossa mesa lá estava, indicada pelo empregado que nos recebia, que constatei ser a pessoa com quem eu havia combinado as coisas. Era, aliás, o único empregado visível no restaurante.

Notei-o, desde o início, um tanto tenso. O tempo foi passando e começámos a perceber que o pedido que eu tivera o cuidado antecipado de fazer afinal não estava pronto. Chamei o empregado e fiz notar o meu desagrado. Já não sei como, percebi que comungava do meu mal-estar, com uma atitude que revelava a sua impotência.

Não tinha passado um minuto quando, entre a sala e a cozinha, entre o empregado e um cavalheiro de dava ares de dono, se criou uma altercação ruidosa. Os nossos pedidos estariam, ao que parece, no centro da polémica: o empregado havia-os transmitido, a tempo e horas, mas não fora dada sequência útil à sua indicação. Agora, era a sua cara, perante o cliente, que estava em causa. Daí a indignação, pelo descaso que afetava a imagem profissional do seu serviço.

Os olhares das mesas convergiam para a troca de argumentos, a qual, na lógica habitual destas coisas, sabíamos que acabaria por ser resolvida a favor do patrão.

Naquele dia, porém, as coisas passaram-se de forma diferente. O incidente com o nosso pedido fora, aparentemente, a gota de água que faz transbordar o copo. Mas, com toda a certeza, haveria por ali muitas coisas acumuladas do passado. A voz do empregado foi subindo de tom, sem que o que dizia o seu interlocutor acabasse por prevalecer: “Sabe que mais? O senhor não sabe dirigir um restaurante! Estou farto! Vou-me embora!” - e a sala, incrédula, viu aquele que era o único empregado atirar o avental para um balcão e sair porta fora.

O patrão, desautorizado, de cara fechada, teve de tomar conta das mesas, Da cozinha, em emergência, avançou, para o ajudar, uma figura feminina, como último recurso. Já nem recordo como se comeu, embora tenha, na memória acumulada de todas as vezes em que por ali passei, a ideia de um declínio inexorável da oferta. Há restaurantes que passam, perdidos no tempo.

Devo ser um recordista mundial de cenas similares. Por duas vezes, ambas nos anos 70, assisti a episódios com idênticos contornos, uma vez num restaurante de Loures, outra, não muito longe, na Flamenga, junto a Santo António dos Cavaleiros, onde então vivia. Da segunda vez, houve mesmo pugilato à mistura, somando uma coreografia de espetáculo à refeição. Sem preço acrescido, diga-se.

Passaram alguns anos. Estava num grande jantar de aniversário, na sala do único hotel de Vila Real. Já tínhamos ouvido o Abreu ao piano e a refeição corria normalmente. A certo passo, o empregado que me servia perguntou-me, em tom baixo, com um sorriso: “Já não se lembra de mim, pois não?”. Olhei para ele e, de facto, a cara nada me dizia. Ele adiantou: “Não está recordado de uma cena num restaurante, aqui perto da cidade, com o empregado a ir-se embora a meio de uma refeição?” Fez-se-me luz! Era ele! Ali estava, felizmente com emprego! Fiquei com uma grande simpatia por aquele homem. Afinal, eu estivera na origem imediata de um capítulo marcante da sua vida.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Pandemia

Gostei bastante da prestação de hoje de António Costa. Quase tanto quanto me tinha desagradado o modo de apresentação demasiado improvisado na passada quinta-feira.

Sei que isto vai irritar muita gente, mas, numa crise desta gravidade, sinto grande segurança em tê-lo como primeiro-ministro.

Hipocrisia

Não é popular dizer isto, mas exonerar os cidadãos das suas responsabilidades cívicas, pelo seu comportamento na pandemia, fazendo do governo o bode expiatório de todas as culpas - por não forçar os portugueses a fazer aquilo que eles não querem fazer - é uma imensa hipocrisia.

Voto eletrónico

Num mundo em que a necessidade da deslocação física tenderá a ser progressivamente atenuada pelo recurso aos meios digitais, não seria sensato começar a discutir - com serenidade, sem preconceitos e sem teorias conspiratórias à mistura - a questão do voto eletrónico?

domingo, 17 de janeiro de 2021

Então e a reflexão?


Há anos que ando a dizer que o “dia de reflexão”, as 24 horas sem campanha antes do dia do voto, é uma coisa ridícula, um atestado de menorização da capacidade dos eleitores decidirem por si próprios.

A possibilidade do voto antecipado revela ainda melhor o contrasenso da medida.

sábado, 16 de janeiro de 2021

“Observare”


Nesta altura em que passam 30 anos desde a primeira Guerra do Golfo, na qual uma coligação de 35 países, liderada pelos Estados Unidos, munida de um mandato do Conselho de Segurança da ONU, reagiu militarmente à invasão do Kuwait pelo Iraque, o “Observare” convidou a professora Patrícia Galvão Teles para connosco analisar o estado do multilateralismo. E também abordaremos a diplomacia das vacinas. Por ali falarei também da tomada de posição coletiva dos chefes militares americanos e da recandidatura de António Guterres a secretário-geral da ONU.

Pode ver este programa na TVI 24, de sábado para domingo, depois do noticiário da meia-noite.

Confinamento ?

Ontem, o anunciado confinamento claramente falhou.

Hoje, ao que consta, há imensa gente por aí a gozar o sol, “nas tintas” para a lei de exceção.

Quando um governo dramatiza uma situação - e bem, em função de uma tragédia coletiva cada vez mais evidente - e aquilo que esse governo determina não é cumprido, ao que parece por uma utilização abusiva das exceções que se pensava irem ser utilizadas com honestidade e bom senso, somos obrigados a concluir que estamos perante uma diluição perigosa da autoridade do Estado. 

Ao contrário do que se possa pensar, a democracia não concede aos cidadãos o direito individual de decidir sobre aquilo que devem cumprir, dentro daquilo que lhe é indicado como devendo ser cumprido. A lei não é “facultativa”.

Como cidadão, tenho o direito de ver respeitado pelos outros aquilo que a autoridade democrática - isto é, o poder legítimo, que o nosso voto coletivo escolheu - determinou que deva ser feito.

Ao contrário do que uma leitura primária - mas também saloia e egoísta - pode concluir, cada um poder fazer “o que lhe der na real gana” não significa liberdade, representa apenas o primado de um arbítrio que acaba por limitar os nossos direitos cívicos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

A Europa e o unanimismo


Deve uma Presidência portuguesa da União Europeia obrigar todas as forças políticas a um compromisso de lealdade, ocultando divergências, para não pôr em causa a imagem externa do país, no semestre de exercício?

Sendo desejável que todos possam remar para o mesmo lado, creio que, nos dias de hoje, num ambiente político tão tenso como o que se vive, será pedir demais que essa tendencial regra possa ser aceite como incontroversa.

Daí que não tenha ficado surpreendido ao ver a denúncia política, feita lá fora pela oposição interna, a propósito do nome de um magistrado indicado pelo governo para um cargo europeu.

Embora num registo bem diferente, decidi lembrar hoje um episódio antigo.

Há mais de duas décadas, quando, no governo, me coube coordenar a fixação do programa da Presidência europeia que iria ser exercida por Portugal, fui a Estrasburgo, para reuniões preparatórias no Parlamento Europeu.

Para além do “caminho das pedras” dos diversos órgãos da instituição, pedi para ver, em privado, os líderes parlamentares dos deputados portugueses.

Expliquei a cada um, com pormenor, a racionalidade das escolhas que o governo tinha feito, na elaboração da agenda para o semestre. (Escusado será dizer que a nossa margem de manobra era então muito maior, encontrando-se hoje as presidências mais limitadas na sua liberdade de ação).

Nas conversas, revelei que não tínhamos colocado no texto do nosso programa a realização de uma Cimeira UE-África, que era nossa intenção organizar e que, aliás, acabaria por vir a constituir um grande sucesso da nossa Presidência.

Porquê essa omissão? Porque, naquele momento, não tínhamos ainda a certeza de poder organizar esse evento. A então Organização da Unidade Africana (OUA) , interlocutor africano da UE, não admitia que Marrocos - país que estava fora da organização - estivesse presente na reunião. Para Portugal, por razões óbvias, era impensável organizá-lo sem um parceiro como Marrocos. Em confidência, dei então a conhecer as diligências que estávamos a empreender, mas não me comprometi com um eventual sucesso dessa nossa atividade.

Tinha seguido esse procedimento - uma partilha no pressuposto do sentido de Estado dos meus interlocutores, que julguei unidos pelo desejo de ajudarem ao sucesso da Presidência do seu país - porque me pareceu ser, da minha parte, a assunção de um mínimo de lealdade: os deputados ficariam surpreendidos se um dia tal cimeira viesse a surgir e eu os não tivesse alertado para tal, naquela conversa.

Fui ingénuo. No dia seguinte, um dos responsáveis políticos da oposição em Estrasburgo não resistiu e comentou com os correspondentes da nossa imprensa que sabia que o governo português estava a ter dificuldades em organizar uma cimeira euro-africana.

Os jornalistas, claro, caíram logo sobre mim, inquirindo sobre esse ponto, do qual, na conversa que com eles tivera, eu lhes não havia falado. Felizmente que foi possível concretizar a reunião, caso contrário a grande notícia iria ser esse “falhanço” da nossa Presidência...