quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Jorge Galamba


Acabo de saber que morreu o Jorge Galamba, para nós o Jójó. Há muito que a vida o tinha retirado do nosso convívio. Recordo bem as suas entradas triunfais no Procópio de outros tempos, a alegria e graça constantes, com a voz e gargalhadas fortes a atravessarem a sala. Ah! E os seus inevitáveis derriços, se acaso descortinava por ali uma beldade inesperada e despernada. Porque o Jójó, nesse domínio, não perdia tempo e era um galanteador emérito.

O Jójó estava connosco em Nova Iorque, a passar uns dias, quando as torres gémeas cairam, no dia 11 de setembro de 2001. E por ali ficaria, por quase uma semana, enquanto a cidade não teve aviões. 

Nessa noite, com tudo em polvorosa e as ambulâncias a sirenarem pelas avenidas, ainda mais do que o habitual, o ar a cheirar a algo indefinível, dos fumos que o vento nos trazia da tragédia acabada de acontecer no fundo de Manhattan, um odor que pairaria por dias, acabei por ter a bizarra ideia de irmos cear fora. 

Estava muito cansado, pelo dia extremamente pesado que tivera, e achei que sairmos era uma boa solução para espairecer um pouco. A pé, nessa noite aturdida e de ruas quase fantasmas, fomos andando até ao Elaine’s, na Segunda Avenida com a rua 88. Sem surpresas, estava às moscas. 

“Não é por aqui que costuma aparecer o Woody Allen?”, perguntou o Jojó, que conhecia de ouvido a fama boémia da casa, retratada em tantos filmes. De facto, constava que Allen pousava pelo Elaine’s, mas eu, confesso, nunca o encontrei, nem às tantas outras vedetas que se dizia serem clientes, nas várias vezes que por lá passei. 

A própria Elaine Kaufman, dona da casa, que não nos conhecia, veio nessa noite à nossa mesa, uma das poucas ocupadas, comungar daquele sentimento muito estranho que atravessava os nova-iorquinos e quem por lá andava, nessa data fatídica para mais de três mil ocupantes do World Trade Center. 

Era uma mulher pesada, com um sorriso divertido. Trocámos umas banalidades sobre a trágica circunstância que se vivia por essas horas. Logo que ela se afastou da nossa mesa, o Jójó lançou-me, em tom baixo: ”Deve ter sido um bom pedaço, no seu tempo!”. O tempo áureo da Elaine já tinha passado, visivelmente, mas o Jojó ainda foi a tempo de lhe celebrar a glória física perdida. Só ele, com aquele comentário, foi capaz de me alegrar a noite, naquele dia bem triste. Era assim, o meu amigo Jójó.

Em Lisboa, nos jantares natalícios da Mesa Dois do Procópio, que durante uma década organizei em diversos locais da cidade, o Jójó, além de me ajudar a “juntar o rebanho”, como ele dizia, tinha a decisiva tarefa de “tratar das massas”, de “recolher o bago”, como mandava o João da Ega ao Palma Cavalão. Era o nosso “ministro das Finanças”, no final dos repastos, nunca os deixando cair em défices. Quiçá era ungido dessas funções por virtude da sua longa experiência empresarial, como homem de confiança de Francisco Pinto Balsemão, nos tempos heróicos do “Expresso”. 

Com a passagem dos anos, fui vendo o Jojó cada vez mais triste. Dele guardo alguns emails ainda divertidos, ao tempo em que trabalhava no Tribunal Constitucional, o derradeiro paradeiro profissional que lhe conheci.

Esta fotografia, que lhe tirei no jantar da Dois, no Vírgula, há mais de uma década, era já a de um “outro” Jójó. 

Um abraço de pesar ao João Galamba e à restante família.

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Quem ganhou?


Os últimos dias têm trazido o Bloco de Esquerda para a ribalta política. Ao mostrar a sua oposição a um orçamento de crise, contrastando com o sentido de compromisso demonstrado pelo PCP, o Bloco quis sinalizar que, à esquerda, havia quem defendesse um outro pacote de medidas, com forte impacto social, que o executivo havia decidido não acolher.

Com o estrondo mediático da sua atitude, os bloquistas acabaram por transformar o debate orçamental num espetáculo de esquerda vs esquerda, com a direita nas bancadas.

Quem ganhou com esta quase crise?

O PCP não foi, com certeza. Os comunistas nunca se recompuseram da incomodidade de 2011, quando, ao votarem ao lado da direita, ajudaram a abrir caminho a quatro anos que saíram caro aos seus eleitores. Se há coisa que não falta àquele partido é memória e a inédita disponibilidade de Jerónimo de Sousa, em 2015, para a dar a mão ao regresso do PS ao poder, foi disso cabal mostra. Agora, ao ver-se ultrapassado pela esquerda, em matéria de exigência perante o governo socialista, o PCP ganha em sentido de responsabilidade aquilo que perde em imagem reivindicativa. A ver vamos como António Costa os recompensará.

Para o PS, uma Geringonça informal era o cenário ideal, com o PSD a dar a mão em questões “de Estado”. Assim, esta turbulência em torno do Orçamento apenas contribui para adensar a ideia de que o governo terá entrado numa onda de “trapalhadas”. O resultado dos Açores, episódios como o da App, bem como a gestão atribulada da questão presidencial, cria em muita gente a perceção de que o PS está a iniciar o fim deste seu ciclo político. Sendo ou não verdade – e não julgo que o seja, longe disso – essa é uma imagem que pode espalhar-se com facilidade, no contexto de incerteza e de navegação à vista a que a pandemia obriga o governo.

E o Bloco? Como sai disto? Vale a pena refletir num ponto: o Bloco ou tem uma ligação operativa aos socialistas, que lhe permita influenciar, pela positiva, a conduta das políticas públicas, ou arrisca continuar a ser um despiciendo partido de “bate-pé”. O Bloco, fora do parlamento, não é quase nada - salvo na comunicação social complacente que lhe magnifica desmesuradamente a voz política. O Bloco não tem autarquias, não tem implantação sindical significativa, vive dos “sound bites” mediáticos e de agendas sociais excessivas, simpáticas (SNS) ou demagógicas (Novo Banco).

Ninguém, à esquerda, ganhou com esta tensão política. Mas a direita, no estado em que está, nem sequer isso aproveita.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Caetano e os portugueses no Brasil


Faz hoje quarenta anos que morreu, no Rio de Janeiro, Marcelo Caetano. Por vontade expressa em vida, os restos mortais do chefe do governo derrubado em 25 de abril de 1974 permanecem no Brasil.

Há pouco mais de quinze anos, assumi funções como embaixador português no Brasil. Algumas semanas passadas sobre o início das minhas funções, fui recebido numa sessão solene, como sempre acontece a todos os embaixadores portugueses, no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. Fez as honras da casa o Dr. António Gomes da Costa, à época presidente daquela instituição.

O Real Gabinete é, muito provavelmente, a mais emblemática instituição da comunidade portuguesa e luso-brasileira. Outras importantes e prestigiadas estruturas com esta raiz existem no Brasil, mas o simbolismo do Real Gabinete é reconhecidamente único.

O Dr. António Gomes da Costa era um homem que eu sabia bastante conservador. Ele, aliás, não o escondia, nomeadamente nos artigos que regularmente publicava em “A Voz de Trás-os-Montes”, o jornal da minha terra. 

Posso imaginar que alguma desconfiança sobre o novo embaixador pudesse pairar no seu espírito. De facto, eu afirmava com orgulho ter estado “implicado” no 25 de Abril, sabendo nós que em importantes setores da comunidade lusíada no Brasil essa continua a não ser uma data demasiado reverenciada, e estou a ser irónico. 

Nas palavras que deixei nessa cerimónia, traduzindo exatamente o que pensava e sentia, afirmei, deliberadamente, estar ali como representante oficial do Estado - e não do governo de turno em Portugal -, logo, ao serviço de todos os portugueses residentes no Brasil, independentemente das respetivas ideias. Imagino que, para alguns ouvintes, o que disse tenha sido entendido como uma flor de retórica. Julgo que o saldo dos meus quatro anos no Brasil provou que estava a falar a sério.

Mas não é isso que hoje importa. No final da sessão, sob a sombra tutelar do busto de Salazar, que continua a decorar politicamente uma das salas do Real Gabinete, chamei o Dr. Gomes da Costa à parte e perguntei-lhe se ele sabia em que estado estava o túmulo do professor Marcelo Caetano. Notei a sua cara de surpresa. Mas continuei. Pretendia saber se estava cuidado, bem tratado, preservado. Sendo o lugar onde estavam os restos mortais de uma figura de Estado portuguesa, entendia que devia ser prestado um permanente cuidado ao local, pelo que lhe pedia o favor de tentar saber se isso estava assegurado. Se necessário, a embaixada tentaria providenciar meios para tal.

Recordo-me de António Gomes da Costa continuar um pouco espantado. A última coisa de que deveria estar à espera é que aquele diplomata, que ali havia chegado precedido de uma imagem de esquerda, mostrasse preocupação com o túmulo de um político que, com visível gosto, ajudara a derrubar. Mal ele sabia que eu, que não nutria a menor admiração política pela figura de Caetano, estava a ser muito sincero nos meus propósitos.

António Gomes da Costa disse-me ter conhecimento de que um grupo de nossos compatriotas residentes no Rio mantinha a sepultura a seu cargo. Mas que não deixaria de contactar-me, se acaso soubesse haver algum problema. Nunca me voltou a falar no assunto, pelo que presumi que a questão nunca se colocou.

Ao final da minha estada no Brasil, fiquei amigo de António Gomes da Costa. Trocámos cartas já depois desse período. Lamentei a sua morte, ocorrida há já algum tempo, num artigo publicado da imprensa portuguesa local. Era um patriota à sua maneira, que estava nos antípodas da minha, mas em quem reconheci a extrema dedicação que devotava ao Real Gabinete e às outras estruturas associativas a que estava ligado. Tenho por regra não medir as amizades pela bitola das ideias políticas. Este foi apenas mais um caso.

Neste que é o dia da morte de Marcelo Caetano, lembrei-me de contar este episódio.

O (anti) ciclone dos Açores

As eleições nos Açores eram, até ontem, um não-assunto, no resto do país. Agora, para além do problema da governabilidade, importa perceber: o que ali se passou teve a ver, exclusivamente, com questões políticas locais ou trata-se de um efeito colateral da situação que se vive no poder central? Se for uma mistura das duas coisas, qual terá sido o fator mais importante? 

domingo, 25 de outubro de 2020

Corridas

Sei que, para o ano, há eleições autárquicas e dá jeito ter os titulares da região algarvia em odor de santidade com o seu eleitorado potencial. Mas, depois da criminosa irresponsabilidade na F1 em Portimão, ninguém venha dizer que foi apanhado de surpresa com novos focos.

Maluquinhos & doenças correlativas

Depois de ver o espetáculo dos negacionistas, somados aos maluquinhos das teorias da conspiração, manifestando-se na baixa lisboeta, passei a ficar convencido, definitivamente, de que a pandemia afetou mais gente, psicologicamente, do que afinal se julgava ter acontecido.

Será assim?

“Os jovens estão insatisfeitos com a democracia. Mais preocupante ainda é o facto de eles estarem mais insatisfeitos com a democracia do que, com a mesma idade, as gerações anteriores estavam. Isto faz com que se inclinem para políticas extremistas, de esquerda ou de direita - o que, por sua vez, ameaça fortemente, no futuro, a democracia.” - do editorial do “Financial Times” deste fim de semana.

sábado, 24 de outubro de 2020

“Geographia” do Portugal colonial


Na sua imperdível página de crítica gastronómica - uma permanente bússola para mim - na revista do “Expresso”, Fortunato da Câmara faz hoje uma análise a um dos restaurantes da minha vizinhança próxima, o “Geographia”.

O “Geographia” situa-se na rua do Conde, numa das alas laterais ao chafariz que dá para o Museu Nacional de Arte Antiga, junto às Janelas Verdes.

De quando em vez, passo por lá, embora sem uma regularidade que faça a devida justiça à qualidade da casa. A oferta do “Geographia” é muito interessante e original, porque deliberadamente percorre os sabores do percurso da expansão portuguesa pelo mundo. Isso mesmo é sublinhado por invejáveis mapas antigos que ali estão espalhados pelas paredes.

No seu texto, Fortunato da Câmara refere, a propósito, que a sensibilidade do “politicamente correto” terá inviabilizado uma referência à palavra “colonial” na designação de outro recente projeto restaurativo em Lisboa. A palermice que por aí anda não tem limites!

Ao ler isso, veio-me à memória o “Colonial”, um clássico café da Almirante Reis, nos Anjos, a que um dia cheguei, no final dos anos 60, pela mão do meu amigo portuense (mas, portista, nunca!, ele é do Leixões!) Manuel Amorim de Carvalho, um eterno “expert” em locais exóticos - desde um endereço que não revelo, na Alferes Malheiro, no Porto, até coisas lisboetas como o “Calhau”, “Rancho Grande”, o “Cabeça de Touro” ou um snack-bar abrilhantado por uma tal Marta de la Cranche. Com ele, com o Alexandre Chaves e o Daniel Polónio, aportei algumas tardes ao “Colonial”, na transição dos anos 60 para 70, tentando estudar mas acabando sempre numas cervejolas com tremoços, a meio da tarde.

No “Colonial” comia-se, por esses tempos, um bacalhau à braz que o José Cardoso Pires me disse um dia ser “único, em Portugal & colónias”. O Zé, noutros tempos, tinha parado por lá e alimentava a tese de que o café “estava sempre infestado de fascistas”, pelo que uma ida ali era “apenas para comer o bacalhau e zarpar”. Nunca percebi se tinha razão, mas ele normalmente tinha.

As colónias já se foram, o Cardoso Pires e o “Colonial” também. Existe agora o “Geographia”, que “vaut le détour”, posso garantir, como dizem os guias verdes da Michelin.

Pelé



Quando fui viver para o Brasil, em 2005, levava comigo o projeto de conhecer três figuras - Pelé, Niemeyer e Chico Buarque. Também queria conhecer Lula, mas isso viria “with the job".

Conheci e falei bastante com Oscar Niemeyer. Não conheci Chico Buarque, embora, de facto, nunca me tivesse esforçado muito para isso. Mas conheci Pelé, uma das figuras que, desde sempre, mais me fascinaram no mundo do futebol - com Beckenbauer, Cruyff, Platini e Di Stefano.

Falei com ele pouco tempo, a poucos dias de abandonar o Brasil, no intervalo de um famigerado Brasil-Portugal, onde uma seleção desenhada pelo senhor Queirós, com atores da profissão a fazerem o frete de estar em campo a fingir que competiam, foi batida por uns humilhantes 6-2.

Pelé acaba de fazer 80 anos. Nunca pensei que, depois daquela noite em Brasília, se voltasse a lembrar de mim. Mas lembrou. Semanas mais tarde, num restaurante de Nova Iorque, o meu futuro sucessor em Brasília viu Pelé e decidiu apresentar-se, revelando que seria o novo embaixador português no Brasil, para onde partiria dentro em pouco.

Pelé foi simpático e, na conversa, perguntou-lhe: "Vai substituir aquele embaixador de cabelos brancos, que eu conheci, muito triste!, em Brasília, na noite em que Portugal perdeu por 6-2 connosco?". O meu colega confirmou.

Eu estava, de facto, bastante triste e isso não deve ter escapado a Pelé. O que ele não sabia é que tê-lo conhecido terá sido a minha única alegria daquela noite.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Guantanamo


Há qualquer coisa de doentio na política americana, republicana ou democrática: ninguém se interroga sobre o destino de pessoas detidas em Guantanamo, até hoje sem serem acusadas e muito menos julgadas, num vergonhoso limbo jurídico. E até o resto do mundo delas se esqueceu.

Outono


É nestes dias que, mesmo procurando por todos os escaninhos, nos damos conta da tragédia que é não ter em casa nem água-pé nem jeropiga. Lá teve de avançar um tinto...

Empate


O debate presidencial americano desta noite foi de muito maior qualidade do que o anterior. Ambos os candidatos estiveram melhor. 

Trump, sem deixar de ser truculento, ”portou-se” com normalidade. Biden foi mais firme, melhorou na assertividade e fez passar a sua mensagem. 

Foi um empate e, por isso, favoreceu Biden.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Eleições nos Estados Unidos


Daqui a pouco, à uma hora da manhã, estarei na TVI 24 para ajudar a analisar o cenário político em que, uma hora depois, decorrerá o debate entre Donald Trump e Joe Biden, pela presidência dos Estados Unidos.

Compatriotas


Hoje, dia em que João Almeida perdeu a liderança do Giro de Itália, é o dia certo para honrar a sua fantástica prestação na competição e, de caminho, saudar a prestação de Rúben Guerreiro, que se sagrou já líder da montanha.

Keith Jarrett


Keith Jarrett anuncia que deixou de tocar, por razões de saúde. Vi dois espetáculos seus. Um, em Londres, em julho de 1991, de que deixo uma imagem tirada agora da net, dois dias antes do seu famoso Concerto de Viena. Outra vez, ouvi-o em trio com DeJohnette e Peacock, não consigo lembrar onde (e eu tenho muito boa memória). Por muita graça que esses momentos tenham tido, e tiveram, a verdade é que o “bem” que a música de Jarrett me fez em toda a minha vida, a companhia que o seu jazz me proporcionou, nos momentos (felizmente raros) dos meus próprios “blues”, foi usufruída através dos seus CDs. Um dia, li Paul McCartney a dizer que a boa música se ouve sozinho, a guiar um carro silencioso, numa longa autoestrada (agora, teria de acrescentar, com o telemóvel desligado). Viajo muito com Jarrett em eventuais jornadas solitárias. O “Concerto de Colónia” é aí indispensável, mas também gosto do fabuloso “Bye Bye Blackbird”, que o trio dedicou a Miles Davies. E do resto, caramba! Não percebo muito de jazz, mas fico grato a Jarrett por ter existido.

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Vírus de mel

É boato ou será verdade que há aí pelo país, nos fins de semana, casamentos onde as máscaras são mentira após umas horas de copos, com bastante mais de 50 pessoas, aproveitando-se da exceção para eventos “já antes programados”? Não pode haver um Polígrafo para isto, SIC Notícias? 

O sexo e a igreja

Sendo de outra “freguesia”, não posso senão olhar com admiração a coragem demonstrada por este papa, na atitude agora tomada face aos homossexuais.

Conseguirá ele a liberdade necessária para acabar com o celibato dos padres?

A “saúde” da questão sexual na igreja católica ganharia imenso.

Ganhe o seu dia em meia hora

 


https://twitter.com/clubedelisboa/status/1318862092041179136?s=20

Conversas à esquerda


António Costa quer que este Orçamento, a exemplo do que tem vindo a passar-se desde 2016, seja viabilizado à esquerda. Se a entronização do governo minoritário do PS foi garantida pelos partidos à sua esquerda, parece natural, em principio, que os diplomas de receitas e gastos do Estado sigam a mesma lógica.

Recorde-se que foram os partidos que suportaram a Geringonça, no primeiro mandato, que recusaram renovar o compromisso escrito na base da qual o PS governou. Presume-se que o terão feito por forma a ensaiarem um novo caminho, depois do saldo da anterior experiência, não obstante ter contribuído para manter a direita fora do poder, ter sido maioritariamente "faturado" pelo PS.

A necessidade do PCP e do Bloco sublinharem ao eleitorado que as medidas mais progressistas decididas pelo governo PS (porque o governo continua a ser PS, convém não esquecer) se devem à sua barganha negocial converte os orçamentos num "happening" anual. Além de que esses partidos não rivalizam apenas com os socialistas: disputam também entre si, o que os obriga a uma esforçada coreografia verbal e mediática.

Para António Costa, o processo deve ser muito difícil de gerir, o que faz com que, por vezes, lhe escapem frases de alguma irritação, onde se nota uma maior contemporização com o PCP e uma menor paciência com o Bloco. Em abono da verdade, tem alguma razão, neste sublinhar de diferenças: o PCP é reconhecidamente mais fiável.

Passados estes anos de cooptação dos partidos mais à esquerda para a esfera da influência na governação, parece evidente haver dois efeitos.

O primeiro tem a ver com a própria matriz funcional do regime. Ao trazer a esquerda da esquerda para um diálogo com consequências nas políticas de Estado, mantendo sempre bem firmes os compromissos essenciais no plano europeu - este ano conjunturalmente flexibilizados pelas decisões tomadas durante a pandemia - pode dizer-se que se processou uma subliminar aculturação desse setor a uma prática de compromisso e de realismo, arrancando-o da postura de reivindicação inconsequente que marcava o seu discurso. E a esse efeito nos partidos corresponderá uma evolução nos próprios eleitorados. 

O próprio PS, contudo, não ficou imune a essa prática. Ao tomar como suas medidas a que a pressão dos parceiros à esquerda o foi conduzindo, o PS consumou um processo de evolução programática interna, assim acalmando, até ver, um seu setor que sempre viveu mal com derivas "centristas", como as que a liderança de Seguro parecia preconizar.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Parece, não é?

“A menos de um ano depois das últimas legislativas, o sistema político e partidário está tão frenético que até parece que vamos ser chamados a votos para eleger um novo Governo no prazo de semanas“. Manuel Carvalho, “Público”

Amarelos

Todos nos recordamos da barulheira que por aí andou quando o Ministério da Educação decidiu o que decidiu no tocante aos contratos com o ensino privado.

Afinal, a justiça veio provar, reiteradamente, que o Estado tinha toda a razão do seu lado. É que a lei ”é a base, a basezinha”, como diria o Eça para o latim.

Haverá agora algum pedido de desculpa dos imensos colunistas excitados que, à época, alertavam para a “venezuelização” do país?

Ou o sorriso dessa gente fica agora tão amarelo como a cor que usaram nos seus protestos, instrumentalizando crianças nessas manifestações?

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

O meu direito


Vou exercer o direito a ter a minha opinião: a cada dia que passa, cada vez tenho maior respeito e consideração por estas duas senhoras. E gratidão.

A sério!

O país ainda agradecerá um dia ao PS o facto de, ao longo destes anos de negociação de OGEs, ter vindo a aculturar o PC e o Bloco a patamares de razoabilidade revindicativa, respeitadores dos nossos compromissos europeus

domingo, 18 de outubro de 2020

A síndroma do fim de semana


Não sei quantos diplomatas, do meu tempo ou atuais, frequentam, para leitura, este espaço. Alguns serão e, dentre eles, pode haver os que em nada se reconheçam no que vou dizer. Mas vou arriscar.

Quase quatro décadas de carreira ensinaram-me que os fins de semana são o temível momento do “desastre”. Eu explico. Passada a metade da tarde das sextas-feiras, com os sábados como tempo glorioso, é o tempo para surgir o telefonema: “Olha lá! Conheces alguém na nossa embaixada na Sildávia? É que o meu cunhado foi assaltado, numa rua de Klow, a capital, perdeu o passaporte e não sabe o que há-de fazer.”

Pela minha experiência, raramente isto acontece numa terça ou numa quarta-feira. É quase sempre ao fim de semana.

É ainda nos fins de semana que a prima de um amigo fica sem dinheiro nas ruas de Szohôd, na Bordúria, e não sabe o que fazer. Era nos fins de semana que um ministro qualquer aterrava, num desvio por razões climáticas, com larga comitiva, numa cidade de província do país onde eu era embaixador e, de madrugada, tinha de lhe arranjar hotel adequado, com transporte, com um escasso obrigado no final. Era nos fins de semana que morria, subitamente, alguém “conhecido” e, de Lisboa, me pediam para “tratar do assunto”, numa ignota localidade onde só tinhamos um vago cônsul honorário. É nos fins de semana que há um acidente numa excursão algures, com “portugueses feridos” e uma mãe amiga de um amigo quer saber se um deles foi o filho.

Serei só eu que terei sofrido essa síndrome das ocorrências, em geral nos fins de semana? Por que é que me lembrei hoje disto? Ora essa! Porque estamos num fim de semana e passei horas ao telefone a tentar “safar” uma situação dessas. É que, ao contrário do que se pode julgar, um diplomata, para esse tipo de diligências, nunca se reforma. E tenho o gosto de registar que nunca - “repito, nunca”, como antigamente escrevíamos, para sublinhar, nos “telegramas” da carreira - apanhei, do outro lado da linha, um colega que, nem por também estar sossegado no seu fim de semana, deixou de tratar o assunto com empenhamento e simpatia.

Olhó Natal!

Estava a olhar o calendário e a dar-me conta: estamos aqui, estamos no Natal, seja lá ele o que vier a ser, neste ano aziago.

sábado, 17 de outubro de 2020

Depois, queixem-se!

Vi, esta tarde, à distância, no Campo de Santana, uma manifestação, não sei bem sobre quê, com dezenas de pessoas, sem a menor distanciação social, enquadradas pela PSP. A irresponsabilidade teve luz verde da DGS? Depois queixem-se que as pessoas não levam a sério as recomendações!

Agradecer a Trump

Devo a Trump o circunstancial facto de me sentir de acordo com muita gente que, em condições normais, teria uma posição diferente da minha no tocante às atitudes da América. O regresso a essas “trincheiras” seria uma muito boa notícia: significaria que Trump tinha ido à vida!

Os cromos da matrícula

Estão a ver os cromos que, num semáforo fechado, ao nosso lado, aceleram “em seco” e, no vislumbre do verde, arrancam “à malandro”, a “dar-se ares”? Não há nenhum que não tenha uma chapa de matrícula “das novas”. Nunca falha!

Chamar nomes

O governo deveria ter tido um reflexo latino e, em lugar de se deixar colonizar pelo anglo-saxónico “StayAway Covid”, deveria ter lançado uma Aplicação (nunca uma modernaça App) com o nome de “Vade retro, Covid”.

Só a Covid...

 ... me faria citar João Manuel Tavares: “Compreendo mal que enchamos a boca com frases do género “uma vida não tem preço”, e depois não estejamos dispostos a pagar o baixíssimo preço de instalar uma app cheia de garantias de privacidade se ela puder ajudar a salvar vidas.”

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Curioso...

É curioso ver gente que sempre achou que o fascismo e a ditadura salazarista - com suspensão de liberdades, prisões e tortura - era uma treta magnificada pelos “comunas” ficar agora muito indignada perante medidas excecionais, democraticamente controladas, durante uma pandemia trágica.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

É assim!

Na tarde de terça-feira, escrevi no JN um artigo, que foi publicado no dia seguinte, que terminava assim:

“A minha preocupação, olhando os últimos números mas, principalmente, lendo as tendências em vários países europeus, é saber se, perante a constatação de que podem vir a ser necessárias novas e mais fortes medidas limitativas, existe ambiente público para conseguir impor esse novo pacote de restrições, em condições de garantir a sua obediência generalizada.

É que um eventual incumprimento dessas novas medidas emergiria como um fator de corrosão da autoridade do Estado. E esse seria um drama a somar à tragédia.”

Nem eu pensava no que agora por aí vai, em termos de discussão pública.

O país que somos

Um bom teste à nossa cidadania, bem como ao grau de adesão a um sentimento de solidariedade coletiva digno de uma sociedade decente, é avaliar as reações aos constrangimentos decididos pelo poder democrático para fazer face a imperativos de segurança sanitária.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Tempos de dúvida

 

Portugal atravessa aquele que é, porventura, o momento mais delicado da gestão da pandemia. Não me refiro à questão médica e sanitária, assunto que deixo a quem dele sabe.

O ponto que aqui me importa é a dimensão cívica e política do tema. Como questão de cidadania, essa é uma questão sobre a qual é legítimo que todos tenhamos opinião.

Em março, o país tomou um susto e confinou-se. O governo esteve bem no modo como atuou e as medidas impostas, com maiores ou menores reticências de alguns, foram genericamente bem aceites. A tragédia italiana, somada ao agravamento da situação em Espanha, criou o caldo de temor que permitiu que se tivesse ido mesmo bastante longe nas medidas coercivas.

António Costa mostrou então uma autoridade equilibrada e o país reconheceu o valor dessa liderança. No seu estilo, o presidente fez o que lhe competia, na solidariedade institucional que era indispensável. Rui Rio, acompanhado pelo país político responsável, mostrou-se à altura do momento. Os resultados eram animadores e isso ajudou, se não ao consenso, pelo menos a uma maioria de adesão.

Depois, vieram as “exceções”, para todos os gostos – das datas institucionais às manifestações cívicas, por causas ou por causa de algum partido. E, claro, Fátima. Com o progressivo retorno a alguma normalidade, surgiu o natural agravamento dos números.

O discurso oficial, que, compreensivelmente, sempre navegou um pouco à vista, entre os exemplos alheios e os números pátrios, ressentiu-se, muitas vezes, em termos de coerência. Nunca se assumiram nem se confessaram os erros praticados, o que, de certo modo, debilitou a confiança nas caras que titulavam a orientação seguida. Foi injusto, mas foi assim. E a chicana política foi encontrando espaço para operar.

Do quase consenso, algum país descolou então da narrativa oficial, duvidando da proporcionalidade de algumas medidas, ironizando de outras. Com a segunda vaga, muitas pessoas sentem-se inquietas e duvidosas do saber de quem as deve orientar.

A minha preocupação, olhando os últimos números mas, principalmente, lendo as tendências em vários países europeus, é saber se, perante a constatação de que podem vir a ser necessárias novas e mais fortes medidas limitativas, existe ambiente público para conseguir impor esse novo pacote de restrições, em condições de garantir a sua obediência generalizada.

É que um eventual incumprimento dessas novas medidas emergiria como um fator de corrosão da autoridade do Estado. E esse seria um drama a somar à tragédia.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Não foi suficiente

 


Verdes


Tinha uns olhos verdes lindíssimos, que rimavam muito bem com a farda do restaurante. Seria bonita? Pela voz, devia ser. Nunca mais acaba este mundo das máscaras! Ou só agora começou?

Das Portas do Sol, ontem

 




Antigamente...

 


... era por ali o poder.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Taberna Ó Balcão



Chama-se “Taberna Ó Balcão”. É um caso sério, em matéria de restauração, em Santarém. Uma bela surpresa.

Soares


A construção e preservação da unidade europeia foi uma das tarefas de vida de Mário Soares. 

Neste ano letivo em que o Colégio da Europa, em Bruges, tem o nome do antigo presidente como seu patrono, a Fundação Mário Soares e Maria Barroso disponibilizam um valioso acervo documental, consultável on-line. 

Podem visitá-lo aqui: soares-europa.fmsoares.pt

O enrascanço


A palestra matinal, em Évora, a convite de uma determinada entidade, fora algo cansativa. Ou era eu quem estava muito cansado.

Por esses tempos, andava num vai-e-vem entre o país e o estrangeiro, com saídas todas as semanas, com os meus sonos ao deus-dará. Acordava, sobressaltado, em hoteis ignotos, caía como uma pedra nos assentos dos aviões, fazia refeições incaraterísticas.

Ir a Évora, essa bela capital gastronómica do Alentejo, e ir almoçar em bando, numa determinada instituição, com os integrantes do colóquio, era uma ideia que me parecia menos simpática. Inventei, assim, um pretexto qualquer, a ter lugar de seguida em Lisboa, e consegui libertar-me. 

Mas esse expediente tinha um inconveniente: não podia correr o risco de ser visto “desenfiado” no Fialho, na Tasquinha do Oliveira, no Luar de Janeiro ou no Cozinha de Santo Humberto, ou mesmo, na muralha, no Moínho do Cu Torto. (E ainda não existiam, à época, o Dom Joaquim, o Origens ou o Degust’Ar). Havia que sair da cidade. As opções eram só duas: o Chico, em São Mansos, ou o Manuel Azinheirinha, em Santiago do Escoural.

Com o meu motorista, Alberto Delgado, comparsa para a refeição, zarpámos para o Azinheirinha. Estava cheio, mas arranjou dois lugares para nós. Comeu-se bem, com o Alberto a poupar-se nos álcoóis, porque tinha de conduzir. Depois da ameixa da sericaia, que imagino tenha deglutido com acompanhamento de JB, com que, à época, ainda me dava o luxo de terminar os repastos, preparei-me para pagar e avançar para Lisboa, sonhando com uma hora de sesta, no carro.

Veio a conta, abri a carteira e saíram-me notas de francos belgas, que era então a minha segunda moeda, depois do escudo, patrioticamente ainda em vigor. Saquei do meu cartão de crédito e o Manuel Azinheirinha, com cara impassível, disse-me que não tinha cartões. O Alberto Delgado não tinha levado dinheiro consigo. Não há azar, vou ali ao banco levantar dinheiro, pensei e disse. “Não há Multibanco, cá no Escoural”, ouvi. Ó diabo!

Da mesa ao lado, onde presidia a um divertido grupo, o meu amigo António Franco, que cruzáramos à entrada e que podia ajudar-me, já tinha abalado, há muito. E abalado, ou melhor, enrascado, estava eu a começar a ficar, pela situação em que me colocara. 

O Manuel Azinheirinha não me conhecia de parte alguma e, por um momento, tive a sensação de que dizer-lhe que era membro do governo podia não ser, necessariamente, um fator credibilizante. Ter de pedir-lhe para nos “fiar” o almoço era algo que não me apetecia nada, mas foi o que tive de fazer, à falta de melhor solução. E ele, sem problema aparente, aceitou. A alternativa seria “chamar a Guarda”, mas eu teria, provavelmente, cara de quem o não iria enganar. 

E, claro, não enganei. No dia seguinte, lá foi um cheque meu para Santiago do Escoural. 

A história tem, porém, um não-evento embaraçante. No mesmo dia do almoço, passei por um Multibanco em Lisboa, para levantar dinheiro. O meu cartão de crédito estava caducado... 

Voltei ao Manuel Azinheirinha algumas vezes, nos anos seguintes. Nos últimos tempos, por várias razões, tenho ido menos. Uma nota do José-Paulo Fafe, no seu portal do Facebook, hoje lembrou-me este amável “dissidente” do Fialho. Que confiou em mim.

sábado, 10 de outubro de 2020

Os filhos ilegítimos de Trump


Não sei como se chamam, nem sei como chamar-lhes. É uma raça política estranha, que vive num registo cheio de contradições, se calhar em sintonia com este estranho e novo tempo – o qual, no discurso ácido de que agora se alimentam, chega a parecer velho. Às vezes, parecem de uma esquerda radical, outras vezes chegam a tresandar a uma direita velha e relha.

O fim do mito soviético, enterrado nas pedras do muro derrubado em Berlim, tornou muitos deles órfãos de um passado político do qual, curiosamente, nem sempre haviam sido seguidores incondicionais. Mas a desaparição ou falência de um certo tipo de partidos, em países onde a esperança já teve melhores dias, acabou por conduzi-los à “terra de ninguém” onde hoje vivem.

É difícil catalogá-los numa mesma prateleira, sendo que o único denominador comum entre todos parece ser a sua sedução por modelos autoritários, a recusa da globalização e a identificação caricatural que fazem das democracias liberais com o neo-liberalismo mais maléfico. Têm dois alvos de eleição: a Europa integrada, tida como símbolo do regresso da Alemanha ao lugar de comando, e um mundo ocidental sob a matriz da NATO.

O principal farol que os ilumina é a figura de Vladimir Putin, visto como o chefe da resistência a um mundo que diabolizam. Alguns alimentam uma discreta sedução por figuras como Orbán. Se lhes perguntarem por Lukashenko, dirão que é para manter no lugar, quase apenas e só porque o líder bielorrusso desagrada àqueles que eles detestam. O Donbass é um seu lugar de culto e o teste do algodão é a resposta à pergunta sobre se a Crimeia é ou não legitimamente russa.

Erdogan é simpático a muitos. Maduro a outros tantos. Apoiam quem mantiver Cuba “do outro lado”. Olham com bonomia divertida a Coreia do Norte, pela irritação que provoca em quem eles não gostam. No Médio Oriente, protegem Assad e o Irão. Mas não é isso contraditório com a simpatia por Ancara? A lógica não é o seu forte e mandam às urtigas a coerência.

A irónica novidade é que Donald Trump é o grande culpado da sua reconciliação episódica com os Estados Unidos – depois de uma vida que alimentaram contra o satã yankee. Por isso, detestam a América de Biden, os democratas, tidos por cúmplices de uma Europa feita à medida dos interesses que desprezam. Se pudessem, davam cabo de Schengen, recuperavam o sentido nacional, último bastião do novo “no passarán”. Por essa razão, bateram palmas ao Brexit, vendo o afastamento do Reino Unido como uma oportunidade para diluir uma União Europeia que já não têm como projeto redentor.

É bem revelador do estado a que chegaram as coisas ouvir e ler esse discurso de sobrolho cerrado, adjetivando duramente os adversários, numa onda de desespero que, há que reconhecer, deixou de ter um porto político seguro de abrigo. Alguns andam pelas graves trincheiras das redes sociais, outros palestram declarações chocantes.

Uma coisa me parece evidente. Esses órfãos políticos são hoje os filhos ilegítimos de Trump. Pelo menos, até ver.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Os sucessores


Raramente, numa eleição presidencial americana, se olhou tanto para os candidatos à vice-presidência. O único debate entre Mike Pence e Kemala Harris foi observado à luz do que seria a eventualidade de qualquer deles poder vir a chegar à titularidade da Casa Branca.

Verdade seja que nunca, como hoje, a questão da idade de um presidente dos Estados Unidos tinha assumido uma tão grande importância. Com a evidente fragilidade física de Joe Biden, somada à questão da pandemia que atingiu Donald Trump, suscitou-se como que uma atenção pouco usual às figuras que, em caso de uma crise limite do estado físico dos presidentes, poderiam ser colocadas no seu lugar.

Como observadores exteriores, só poderemos imaginar o que significa, em termos humanos, o exercício das funções de um presidente dos Estados Unidos. Sendo um Chefe do Estado que acumula com a direção executiva do país, qualquer líder americano concentra em si, além de responsabilidades globais que usualmente têm vindo a ser as suas no quadro internacional, um poder de recorte muito singular.

Lendo-se os muitos livros que relatam o dia a dia da Casa Branca, em várias encarnações presidenciais, pressente-se as tensões que por ali habitam, os jogos políticos, as mais das vezes de natureza nacional, que nele recaem. Nos Estados Unidos não existe um governo, no sentido colegial do termo. A gestão sectorial do pais é assegurada por figuras designadas pelo presidente, mas é este que surge como a cara do poder político.

Serve isto para dizer que num presidente americano assenta um peso de responsabilidades que, muito dificilmente, pode ser exercido por alguém que não esteja na plenitude de uma condição físico-anímica forte e capaz.

O primeiro debate Trump-Biden revelou um contraste. O antigo vice-presidente de Obama, que joga nestes tempos a necessidade de se mostrar como uma alternativa credível a Trump, revelando um perfil presidenciável, deu de si mesmo uma imagem frágil, aqui e ali hesitante no discurso, suscitando legítimas interrogações sobre a sua capacidade para estar à altura de um exigente mandato de quatro anos.

Trump, por seu turno, ao assumir o seu estilo “bully”, terá confortado os seus tradicionais apoiantes. Em face de um Biden fraco, com voz débil, com um fácies onde as marcas da idade não iludem, Trump foi ali a afirmação da força e do vigor.

Só que a vida traz surpresas: pouco tempo depois, Trump viu-se afetado pela pandemia e, de um instante para o outro, o forte passou a fraco. Trump percebeu este reverter de posições, pelo que o modo quase “macho” com que procurou sair daquela situação revelou que a dimensão física do poder faz parte integrante da sua imagem de marca. Se acaso viesse a ser vencido pela pandemia, isso seria muito mais do que uma doença: seria um estilo e uma presidência que estariam em causa. O que os factos e os debates subsequentes nos trouxerem será, assim, algo de decisivo.

Numa segunda linha, Harris e Pence tentaram mostrar-se como opções dignas no “banco” dos suplentes, para usar uma imagem do futebol, no caso de uma substituição vir a ser necessária.

Para os democratas, a prestação de Kemala Harris pode ter ficado um pouco aquém daquilo que estariam à espera: um “arrasar” do vice-presidente, colando-o à imagem desastrosa do presidente, ao mesmo tempo apresentando-se com uma imagem de alternativa, não apenas a Trump mas, igualmente, ao próprio Biden. Sem ter sido excecional, Harris esteve bem.

Pence não apresenta a imagem “afetiva” de Kemala Harris. É um politico profissional, com um discurso conservador estruturado, passando, embora de forma monocórdica e inexpressiva, uma mensagem coerente e arrumada. Quem tiver visto o debate terá reparado que, ao contrário de Harris, nunca por ali se falou de Pence, da sua figura. O vice-presidente desapareceu no debate, por detrás de Trump. Nada mais ficámos a saber dele. Cumpriu o seu papel.

O “banco” de suplentes das presidenciais americanas apresenta, ao que parece, dois “safe pair of hands”, como os anglo-saxónicos costumam dizer.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

A Nobel

Querem que seja sincero? Só li dois livros de Louise Glück. Ou querem que eu seja ainda mais sincero? Nesse caso, confesso que nunca tinha ouvido falar da nova Nobel da Literatura.

A mosca


Uma mosca bem preta pousou sobre o cabelo bem branco de Pence quando ele falava de George Floyd.

Um belo silêncio


Ontem, estive, por mais de uma hora, num local onde, por lei, é em absoluto interdita a entrada de telemóveis, iPad e coisas similares.

À entrada, um envelope selado recolhe esses nossos pertences eletrónicos, que devem ficar em “modo de voo” e são guardados num cofre.

Que magnífico período de silêncio! Que bom foi ter de “puxar pela cabeça” para me lembrar de alguma coisa, sem ir ao Google! Que bela a sensação de ter a certeza de que a conversa não seria interrompida, de que, nem eu nem os meus interlocutores, teríamos a tentação de olhar os emails ou as SMS!

É claro que, à saída, no parque de estacionamento, passei um bom bocado a pôr a escrita em dia. Mas lá que foi agradável aquele intervalo digital, lá isso foi.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Deixei de sorrir


Se a América, em ano de eleição presidencial, prometia já um tempo fascinante de observação, a pandemia deu uma inesperada ajuda a um teatro político que, com uma figura como Trump em cena, acabaria sempre por ter caraterísticas ímpares.

Vou confessar uma fraqueza: às vezes, ao longo destes últimos quatro anos, dei comigo numa atitude de divertida atenção à “performance” daquele que, não tenho a menor dúvida, a História virá a consagrar como o mais irresponsável presidente que alguma vez saiu em rifa à América.

Quando o via na televisão, ao mesmo tempo que ficava assustado com a tragédia de ter uma personalidade deste jaez à frente de destinos que condicionam os nossos, raramente conseguia não esboçar um sorriso.

Aquela figura caricata, que parece sempre estar aos ombros de si próprio, onde quer que esteja, que se acha “o máximo” e não mede o ridículo de afirmá-lo, protagoniza um arremedo de presidente que tinha o condão de, ao irritar-me, simultaneamente me divertir.

Ao vê-lo fazer aqueles “carões”, com gestos de afirmação machista, a sua pulsão por um exercício quase físico de autoridade, sentia estar a assistir a um “show” que, nem por ser de série B em termos políticos, deixava de ser curioso observar. Em alguns momentos, tinha a sensação de que Trump mimava as suas próprias imitações, numa emulação do “boneco” de Alec Baldwin.

Trump é autor do “script” para o seu monólogo de poder, carimba um registo que todos reconhecem e esquissa, a traço sempre grosso, o retrato que, a todo o momento, projeta de si mesmo. Trump é transparente: com as suas mentiras e exageros, só engana quem se dispõe a ser enganado.

O que mais impressiona é ele estar visivelmente sozinho em toda a encenação. É talvez a orgulhosa consciência dessa solidão que lhe potencia a força anímica para sustentar o espetáculo. Ele sabe que consegue obrigar-nos a assistir, como espetadores impotentes, àquela peça porque, à partida, sabe ser titular de um poder que o converte no homem conjunturalmente mais poderoso do mundo.

Na noite de segunda-feira, porém, parei de sorrir, por completo. Quando vi Trump chegar à Casa Branca e tirar, quase com violência, a máscara, metê-la no bolso com um ar de desprezo, num gesto – vou usar a palavra, porque é essa – criminoso, enviando um sinal para a morte a muitos seguidores, pensei que não tenho, afinal, o direito a usufruir de um olhar lúdico sobre uma personagem que, na sua irresponsabilidade arrogante, encarna o pior que a política nos pode trazer de maléfico.

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Regresso aos restaurantes


Com todos os cuidados, pode e deve-se regressar aos restaurantes, que, em geral, então a fazer um esforço magnífico para manterem as portas abertas, garantir empregos e satisfazer os seus clientes.

No meu blogue “Ponto Come”, estou a assinalar a retoma da normalidade em muitas casas. Hoje, faço uma apreciação a cinco restaurantes visitados na zona de Sintra. Podem ler aqui.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Aqui, Eça é que é essa!


“- E onde onde estás tu, Alencar? - perguntou logo Carlos.

- Pois onde queres tu que eu esteja, filho? Lá estou com a minha velha Lawrence. “

(...)

”Então concordaram em jantar ali na Lawrence”.

(...)

”Eu vou-me entender lá abaixo à cozinha com a velha Lawrence, e preparar-vos um “bacalhau à Alencar”, récipe meu... E vocês verão o que é um bacalhau. Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outros melhor; bacalhau, não!”

Viva a República!

 




Os dias do HLPG


O Azerbaijão e a Arménia mantêm entre si, desde a sua autonomização como Estados, após o fim da União Soviética, uma situação de tensão político-militar, por virtude do Nagorno-Karabakh. Trata-se de um território em disputa, que já motivou uma guerra muito sangrenta entre os dois países, no início dos anos 90, com regular sucessão posterior de incidentes, mais ou menos graves. Nos últimos dias, o conflito armado reacendeu-se, ainda sem fim à vista.

O território é hoje ocupado por populações e forças arménias (há uma perigosíssima estrada da Arménia até lá, que o mapa não mostra), que reclamam um estatuto de independência, situação que os azeris, que rodeiam aquela “ilha”, não reconhecem. 

A questão tem vindo a ser tratada, desde 1994, pelo chamado "grupo de Minsk", uma entidade internacional composta por 11 países (de que Portugal faz parte, embora eu não tenha visto isto sublinhado em nenhuma notícia), cujo trabalho negocial não tem dado resultados muito visíveis, "to say the least". 

(Faço notar que há um outro “grupo de Minsk”, que nada tem a ver com este e que trata do conflito na zona leste da Ucrânia).

O Nagorno-Karabakh constitui um dos clássicos "conflitos congelados" que derivaram do fim da União Soviética, sendo os restantes a Transnístria, a Ossétia do Sul e a Abcásia. E com o Donbass a caminho de o ser.

No ano 2002, coube-me titular, em Viena, a presidência portuguesa da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), razão pela qual passei a seguir estes temas com alguma curiosidade e interesse. E participei em várias reuniões desse “grupo de Minsk”, entre 2002 e 2004.

Um dia, ainda na segunda metade de 2002, o diplomata português que seguia o dossiê na nossa presidência, José Manuel Carneiro Mendes, transmitiu-me o convite do chefe do chamado "High Level Planning Group" (HLPG), dependente do "grupo de Minsk", para que eu visitasse essa estrutura. 

Mas o que era o HLPG? A função - potencial, está bem de ver - do HLPG seria montar uma operação de "peacekeeping" posterior ao estabelecimento de um qualquer acordo entre as partes, eventualmente a ser obtido pelo "grupo de Minsk". 

Fui simpaticamente acolhido por um grupo multinacional de dez oficiais (idealmente serão 13), secretariados por uma simpática senhora, que me fizeram um "briefing" sobre a situação no terreno, a qual nada diferia das informações que o "Conflict Prevention Centre" da OSCE regularmente me transmitia. Dei-me conta de que havia uma imensa frustração naqueles militares, que ali estavam, sem fazer nada de útil.

Com exceção de algumas raras missões de observação no terreno, quando as partes assim o consentiam, o grupo vivia (e vive) encerrado num andar em Viena, com mapas desatualizados, sem um serviço mínimo de "intelligence" que o abasteça de dados relevantes, sendo as "missões" da OSCE na Arménia e no Azerbaijão os seus escassos suportes informativos. E as coisas seguiam assim desde 1994...

O encontro acabou com chá e bolos, recebi uma placa comemorativa da minha visita e um vistoso canivete suíço oferecido por um coronel dessa nacionalidade, que então chefiava o HLPG.

Na ingenuidade de que a razão podia prevalecer, sondei discretamente os "major players" da OSCE, bem como as duas partes diretamente interessadas, com vista a tentar perceber se não seria possível fazer "destroçar" a tropa acantonada naquele dispendioso andar da capital austríaca. A minha ideia era fazê-los regressar aos respetivos países, reconstituindo-se o HLPG se e quando uma hipótese remota de acordo viesse a ser viável. A poupança orçamental seria significativa, fosse para os cofres da OSCE (que gasta cerca de 200 mil euros por ano com o HLPG), fosse para os países de onde os militares (de várias patentes) eram "seconded" (que custeiam os seus salários).

O que eu fui dizer! Com maior ou menor ênfase, não houve um só dos meus interlocutores que desse a menor abertura a essa minha "bizarra" ideia, desde logo a começar pela Arménia e pelo Azerbaijão. Para todos eles, se levada à prática, a minha proposta indiciaria um menor empenhamento internacional na resolução do conflito. E assim a minha ideia foi por água abaixo.

O HLPG permanece ainda hoje, galhardamente, no seu posto em Viena. Celebram-se assim 26 anos desde que esse grupo de oficiais, regularmente renovado, foi criado e se mantém em "funções", encerrado naquele andar, fantasiando uma "operação de paz" que terá lugar lá para as calendas gregas. A mim, queixaram-se de que nem mapas decentes tinham!

domingo, 4 de outubro de 2020

Há 25 anos

Tinha regressado da embaixada em Londres, um ano antes. No Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde era subdiretor-geral, coordenava, entre outras coisas, as questões institucionais da União Europeia, a caminho da revisão do Tratado de Maastricht. Esse era então um dos dossiês mais delicados da nossa ação europeia.

Um dia, creio que de maio ou junho, desse ano de 1995, o meu colega João Lima Pimentel, que eu sabia muito próximo do líder socialista, António Guterres, disse-me que este gostaria de ter uma conversa comigo. Eu não o conhecia.

Não tinha, aliás, qualquer proximidade com o Partido Socialista. Nem sequer tivera curiosidade de assistir aos Estados Gerais, um exercício de abertura que acolhera muitos independentes, preparando o partido para as eleições legislativas de outubro desse ano, onde tudo indicava que poderia vir a obter um bom resultado. 

Era patente, pelo país, um cansaço da solução política que consagrara uma década de governação de Cavaco Silva. E a imagem de António Guterres surgia cada vez mais prestigiada e eleitoralmente apelativa, sugerindo-se como alternativa possível para a chefia do governo.

Numa tarde de sábado, encontrámo-nos em casa de José Lamego, figura de relevo do PS para a área externa, pessoa que eu também não conhecia. Na conversa, constatei que, tal como o João Lima Pimentel, Guterres tinha, sobre a Europa, uma ideia federalizante que se afastava substancialmente da minha. 

Começou por me dizer algo que me agradou bastante: “A mim não me interessam nada papéis do MNE, quero apenas saber as suas ideias”. Não creio ter-lhe dito logo tudo o que pensava sobre o “sonho federal” europeu que ele acalentava. À época, eu achava aquelas ideias muito perigosas...

Semanas depois, o João pediu que ajudasse a colocar, por escrito, algumas propostas sobre as relações internacionais de Portugal, para serem tidas em conta no programa eleitoral socialista. Lembro-me de, com dois amigos, ter preparado, durante um longo fim de semana de trabalho, um texto bastante completo, cobrindo toda área externa. Foi, aliás, muito fácil de construir: a política externa e europeia não era, como em geral continua a não ser, uma área politicamente muito divisiva. E também recordo o desagrado com que, logo que foi publicado o programa, vim a constatar que não havia por ali uma linha sequer daquilo que nos tinha levado essas horas de trabalho. Tomei nota, mas não pensei mais no assunto.

No dia 1 de outubro de 1995, votei no PS, claro. Era a opção de que me sentia mais próximo.

Os socialistas ganharam as eleições, embora apenas com maioria relativa. Recordo-me que essa foi uma noite em que me senti particularmente feliz. Quase tanto como na noite mais bela da minha vivência democrática: a vitória de Soares sobre Freitas do Amaral, cerca de uma década antes. Em ambas, senti um imenso alívio. 

Ao final dessa noite, três casais fomos a Sintra dar um abraço a Ernesto Melo Antunes. Sentíamos que tínhamos de partilhar com aquele amigo essa hora de boa disposição. E de esperança.

Entretanto, a vida continuava, lá pelo MNE. Entre as eleições e a posse do governo mediaram 27 dias. Havia uma compreensível curiosidade sobre quem seria o ministro. Ajudei a preparar os dossiês para serem entregues ao futuro governo. 

Com o passar dos dias, começaram a chegar-me rumores de que o meu nome estaria a ser considerado para os Assuntos Europeus. Mas também corriam outros nomes, bem mais “pesados” do que o meu.

Comecei por não levar esses boatos muito a sério: eu não era militante do PS, tinha ideias um pouco “recuadas” na questão europeia, além de algumas outras, menos relevantes, divergências doutrinárias. Contudo, o conhecimento que tinha dos temas europeus não me conduzia à “modéstia’ de pensar não ser capaz de exercer essas funções. Achei que podia mesmo achar graça ao desafio. Mas deixei-me ficar no meu lugar, sem “mexer uma palha”, sem falar com ninguém. O que fosse, soaria!

Uma noite, quando jantava num restaurante na Pontinha, com a minha mulher e uma amiga, o João Pimentel avisou-me, pelo telefone: “O ministro vai ser o Jaime Gama. Amanhã, vais ser convidado para o governo!”. 

Falei, ainda nessa noite, com três grandes amigos, nenhum deles ligado ao PS, dois deles conservadores, perguntando o que achavam da ideia: todos foram unânimes em dizer-me que devia aceitar. A minha mulher, contudo, era muito refratária à ideia. Cada um desses amigos teve de falar com ela, convencendo-a a deixar-me aceitar o lugar, se acaso viesse a confirmar-se o convite. Se a não tivessem feito mudar de ideias, eu não teria entrado para o governo, claro.

No dia seguinte, ao fim da tarde, Jaime Gama telefonou a convidar-me. Aceitei. 

Logo se seguida, pedi para ver o secretário de Estado cessante, Vitor Martins, que tinha sido meu chefe até esse momento e com quem tinha uma muito boa relação. Recebeu-me no seu gabinete, surpreendido pelo inesperado da minha visita tardia. Disse-lhe que não queria que soubesse da minha nomeação pela imprensa. Recordo-me que foi com prazer que o ouvi dizer: “Fico muito satisfeito por ser você a substituir-me”. Viríamos a fazer uma transição exemplar. 

Por ali fiquei cinco anos e meio, tendo pedido para sair em 2001, em momento acordado meses antes e sem o menor drama, e apenas porque queria regressar à minha carreira profissional. Em perspetiva, acho que foi uma bela aventura política, embora talvez um pouco longa demais. Mas nunca me arrependi da opção que tomei nesse mês de outubro de 1995.

sábado, 3 de outubro de 2020

O papel dos jornais


“Jornais?! Isso só lá para a estação. Aqui já ninguém vende, nem jornais nem revistas”.

Tinha acabado de fazer uma visita ao News Museum, o excelente museu que, no centro de Sintra, no local onde já foi um museu do brinquedo, nos mostra hoje, com uma rara qualidade de apresentação, o mundo e a história contemporânea da informação - em Portugal e no mundo. E, como grande ironia, não conseguia comprar, por ali perto, um único jornal.

Zarpei para a estação. “Já houve, já! Agora, só lá para a Portela!”, disseram-me na bilheteira. Estava a ser uma fantástica e triste aventura comprar um jornal em Sintra. 

Até que me lembrei de ir a uma bomba da BP. Pronto! Aviei-me de quatro jornais, finalmente! O brasileiro de Goiânia que ali me atendeu deu-me outra dica: “Também há no Pingo Doce”. Ainda há casas de confiança, felizmente! E dali segui para Colares, onde encontrei à venda o róseo “Financial Times”. 

Pelo andar das modas, desconfio que, dentro em pouco, nem a estimável “Corneta do Diabo” se vende já em papel. Vislumbrei, aliás, o Palma Cavalão a sair do Nunes com a Concha, mas não tenho suficiente confiança com ele para lhe perguntar se é mesmo verdade o boato que ouvi de que vai passar a online o jornal de que é diretor. Nesse dia, o “Observador” que se ponha a pau!

Eça


“Com a paz das grandes sombras, envolvia- os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos. Através da folhagem faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai sas penedias e o repouso fidalgo das quintas de Verão.”


Está tudo mais ou menos igual!

O mundo é pequeno e cruel

Ontem à noite, um programa televisivo elaborou sobre a tragédia de uma senhora, viúva de um antigo embaixador de Portugal em Brasilia, ao que parece vítima de uma burla que arruinou toda a sua vida.

Lembrei-me de como conheci aquela senhora.

Naquele tempo, antes de Schengen, chegados a Lisboa de avião, tínhamos de preencher aqueles irritantes papelinhos de entrada, com identificação pessoal e número do passaporte. Eu vivia ainda no encantamento "maçarico" de ter um passaporte diplomático (azul, de carneira, com os dados insertos à mão, com a letra magnífica de uma senhora do Protocolo). 

Antes da aterragem na Portela, comecei a preencher a ficha. O cavalheiro e a senhora que estavam sentados ao meu lado, com quem viajara desde Genebra, que notei acompanhado de um imensa família, nessa véspera de Natal de 1977 (eu regressava de uma visita de trabalho à Líbia), dedicava-se à mesma tarefa e tinha um passaporte idêntico. 

Olhámos um para o outro e demo-nos a conhecer: ele era o embaixador Adriano de Carvalho, nosso representante permanente junto das Organizações Internacionais, em Genebra. Apresentou-me a senhora, uma mulher bastante bonita, creio que muito mais nova do que ele.

Adriano de Carvalho era um nome consagrado na carreira. Especialista em questões económicas e multilaterais, tinha um historial de grande negociador. Três anos depois, voltaria a encontrá-lo em Oslo, quando por ali foi por questões da EFTA, a acompanhar o ministro português do Comércio. Tinha uma figura avantajada, um ar impositivo mas cordial, um à-vontade e uma autoridade profissional com que dominava claramente a delegação portuguesa. Ao que às vezes recordo, por uma imagem que guardo da ocasião, tinha o vício da fotografia. 

Uns anos mais tarde, estava eu colocado em Lisboa, Adriano de Carvalho, ia acabar a sua missão no Brasil. Creio que estávamos em 1988. Solicitou ao ministério que lhe fosse concedido o estatuto de “disponibilidade em serviço”, financeiramente um pouco mais vantajoso, que tinha de ser decidido pelo “Conselho do Ministério”, um órgão onde eu era um representante eleito da minha categoria. O secretário-geral de então informou-nos que o ministro de serviço, que tinha tido um dissídio com o embaixador, desejava que lhe não atribuíssemos esse estatuto. Achei aquilo um escândalo, atendendo à qualidade do diplomata em causa, comparativamente com outras propostas que tínhamos de discutir. 

Com o apoio de outros colegas, que concitei, informei o secretário-geral de que não podia contar com o nosso voto positivo para nenhuma outra proposta idêntica enquanto o caso de Adriano de Carvalho (que, aliás, eu nunca mais vira, desde o encontro no avião e da visita a Oslo) não fosse decidido. O assunto foi polémico, mas levámo-lo de vencida. Recebi mais tarde uma nota simpática de Adriano de Carvalho, agradecendo o meu empenhamento. Nunca o voltei a encontrar.

Passaram-se muitos anos. Cheguei a Brasília em 2005. Adriano de Carvalho saíra do cargo de embaixador no Brasil quase 20 anos antes. E, no entanto, não obstante muitos qualificados colegas que lhe sucederam e me haviam antecedido nesse posto, ele era, de longe, aquele de que mais pessoas ainda falavam, que havia deixado uma marca de qualidade e prestígio associado ao nome de Portugal. Fora, aliás, o primeiro do escasso número de portugueses a quem a Universidade de Brasília tinha atribuído um doutoramento "honoris causa". 

Em 2008, quando saí do Brasil para França, de passagem por Lisboa, com ele já bastante doente e impedido de receber visitas, tive um grande gosto em ir entregar em sua casa um livro que aí publiquei, sobre os meus quatro anos no Brasil, que depois me agradeceu com uma carta muito amável. Soube que morreu em 2014.

Ontem, ao ver a reportagem na televisão, constatei que o embaixador ainda era vivo quando parte da tragédia que se abateu sobre a sua mulher se desenrolava. 

Este mundo é pequeno. E cruel.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

IV Conferência de Lisboa


Prossegue hoje, a partir das 14.30, a IV Conferência de Lisboa, dedicada este ano à Aceleração das Mudanças Globais, tendo a Pandemia como pano de fundo.

Depois de ontem terem sido debatidas a questão demográfica e as transições energéticas, esta tarde estarão em análise as mudanças tecnológicas, os problemas do crescimento e das desigualdades, bem como as ameaças ao sistema multilateral e à democracia.

A Conferência processa-se, este ano, exclusivamente por via telemática, sendo ainda possível proceder a inscrições no site www.clubelisboa.pt .

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Quino


Confessados ou não, todos temos os nossos heróis. Eu tinha um, cuja foto não conhecia nem sabia por onde andava. Nem, ao certo, se ainda era vivo. Assim, nem queiram imaginar qual não foi o meu espanto quando, um dia de junho de 2009, num evento público na Comédie Française, em Paris, numa entrega de prémios sobre livros, ouvi ser chamado ao palco Quino, o inventor dessa magnífica Mafalda da banda desenhada. 

Devo ter sido das primeiras pessoas que, na sala, se levantaram, de imediato, a dar-lhe merecidas palmas. Não por aquilo por que era premiado, mas como agradecimento a quem tanto prazer me proporcionou. É que, para mim, se havia por aí alguns génios, Quino era um deles. 

Escrevi “era”, porque acabo de saber que morreu. A Mafalda deve estar muito triste. E eu partilho essa tristeza.