quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Ordem do dia




Mentiria se não dissesse que tenho a certeza de que houve pessoas que, à vista do anúncio do imenso dinheiro que aí virá da Europa, terão exclamado, desanimadas, para si mesmas ou para os seus próximos: “Agora é que ninguém os tira de lá!”. Alguns, no limiar do masoquismo, terão mesmo lamentado que o país tivesse tido essa inesperada bênção, por entenderem que esse choque financeiro contribuirá para a solidificação de um desequilíbrio político que detestam - e que acham tanto ou mais nefasto do que os males económicos do país. Muitas dessas pessoas, que estão a ler-me agora, assumam-no ou não, sabem que o que escrevo é pura verdade.

Não sou politólogo para conseguir explicar como chegámos aqui, a este entrincheiramento, que se tem vindo a agravar na última década, criando dois mundos antagónicos, alimentados por muita acidez, servidos por palavras ofensivas, pela perda de respeito pelos adversários, pelo enfraquecimento da moderação e do bom senso. 

Muito desse confronto já vinha de trás, quase desde o 25 de Abril. Mas data da última crise financeira o acantonamento que colocou aqueles que viram na “troika” uma oportunidade para queimar etapas, para um choque de reforma liberal, frente a quantos recusavam ver subvertida a ordem da sociedade em que se haviam habituado a viver. Perante a arrogância dos primeiros, muitas vezes insensível e cruel, foi-se enquistando, do outro lado do espetro, uma resistência desesperada que, no limite, conduziu a um entendimento à esquerda, que nada fazia prever como possível. A “geringonça” foi a expressão para-institucional dessa realidade, mas todos já percebemos que continua a haver mais vida à esquerda, para além dela.

O que talvez ninguém estivesse à espera é que, na outra margem política, o desvario viesse a tomar conta das hostes. Apoiado num tremendismo que raia a insanidade, campeia por aí um discurso de “finis patriae“, como se o país estivesse à beira da catástrofe. O alarmismo diário dos títulos da imprensa e da demagogia das televisões, somado ao azedume nas redes sociais, tudo isso gera um caldo de imaginária instabilidade e crise, que as sondagens, sempre ingratas, se encarregam de desmentir.

O atual pessimismo do campo conservador sobre o seu próprio futuro esquece, contudo, uma realidade que o passado nos ensinou: nunca devemos subestimar a capacidade da esquerda de dar tiros nos seus próprios pés. Um dia, mesmo sem saber como, a direita lá regressará ao poder. Aliás, chama-se a isso democracia, para os que não saibam.

Interpretações


Ontem, numa conversa de praia, veio à baila, já nem sei bem porquê, a figura do antigo presidente da Guiné-Bissau, Kumba Yalá, que faleceu em 2014. Lembrei-me de uma história que costumo contar.

Um dia de 2001, na ONU, em Nova Iorque, estive presente, em representação de Portugal, numa reunião do “grupo de amigos da Guiné-Bissau". Os “grupos de amigos” são estruturas informais que agregam vários países com o desejo comum de acompanharem uma determinada situação ou prosseguirem um particular objetivo temático, no quadro das atribuições das Nações Unidas.

O novo presidente guineense fora convidado a fazer uma apresentação sobre a situação que se vivia no seu atribulado país, com vista a mobilizar a boa vontade e a ajuda da comunidade internacional. 

O tempo que lhe fora destinado para intervir foi largamente excedido, mas o seu discurso tinha coerência e demonstrava uma determinação no sentido da correção de algumas políticas, tudo envolvido num registo expressivo que lhe era muito típico, desde logo marcado pelo barrete de lã vermelha que nunca o abandonava.

Com o meu colega brasileiro, Gelson Fonseca, e para potenciar o efeito positivo da reunião, combinei duas intervenções sucessivas de apoio à declaração do presidente, procurando dar ênfase à sua declarada vontade de mudança. 

Outros embaixadores, em especial de países "do Sul", seguiram uma linha idêntica e, a meio da reunião, o ambiente podia considerar-se globalmente positivo, quiçá apenas sobrando as tradicionais reticências face à sustentabilidade das políticas anunciadas, que algumas lideranças africanas, em especial oriundas de países mais frágeis, nunca deixam de suscitar.

O delegado de um país do Norte da Europa abordou, entretanto, a sensível questão da corrupção. 

Notei que Kumba Yalá ficou muito atento à intervenção e, no imediato, pediu para responder. Com muita ênfase, marcou a sua firme determinação em pôr fim ao flagelo da corrupção no seu país. E, a certo passo, agarrando firmemente o ombro da ministra dos Negócios Estrangeiros guineense, que estava a seu lado, disse, bem alto:

- Vou ser muito duro, podem acreditar. Por exemplo: aqui a senhora ministra. Se eu vier a descobrir que ela rouba, que é corrupta, podia mandar matá-la. Mas não, não a vou mandar matar! Mas vai levar tanta porrada, tanta pancada, que nunca mais vai querer roubar. Mas ela não rouba, não! - e dizia isto, rindo-se, contemporizador, abanando a constrangida ministra, que afivelava um sorriso que quero crer que seria amarelo...

Kumba Yalá falava em português e, na sala, para além do embaixador brasileiro e de mim próprio, que tínhamos olhado um para o outro algo preocupados com o facto do presidente poder ter "estragado tudo" com aquelas palavras, creio que só a intérprete, que ia traduzindo as intervenções do presidente, se inteirara do teor da embaraçante declaração. 

Contudo, a coreografia e o tom de Yalá tinham criado uma particular curiosidade nas restantes pessoas à roda da mesa, que aguardavam com expetativa a interpretação.

A intérprete, consciente da delicadeza do momento, olhou para mim, em busca de "ajuda" para superar o problema. Fiz-lhe um gesto discreto, a pretender significar a necessidade de "adocicar" fortemente as frases do presidente. 

E foi então que assisti a uma magnífica demonstração de profissionalismo, com a senhora a dizer algo como: "Mr. President wants to emphasize that corruption, in his country, is not punished with death penalty. Nevertheless, under his leadership strong mesures will be taken against those who may incur in such practices, even if they are members of his own government" (O senhor presidente deseja sublinhar que a corrupção, no seu país, não é punida com pena de morte. No entanto, sob a sua liderança, serão tomadas fortes medidas contra quantos venham a incorrer em tais práticas, mesmo que se trate de membros do seu governo).

Olhei para o meu colega brasileiro e demos um suspiro de alívio. No final, dei uma palavra de parabéns (e gratidão) à intérprete. Tinha-nos ajudado a salvar a sessão. Uhf!

terça-feira, 11 de agosto de 2020

O “Cavaleiro Andante”


Há dias, na estante de uma casa onde passo férias, encontrei o livro “Beau Geste”. Não sei se vou ter tempo para o ler, mas recordei épocas em que, em banda desenhada, devorei aquela magnífica história no “Cavaleiro Andante”.

O "Cavaleiro Andante" moldou para sempre o meu imaginário. Algumas memórias fortes que me marcaram a infância e juventude foram fixadas a partir dessa incomparável revista de banda desenhada (na altura, dizia-se "de quadradinhos"), que acolhia preferentemente os autores tributários da "escola belga" de BD, e que abriu caminho aos primeiros desenhos portugueses dessa natureza.

A revista falava-nos de História, de desporto, de literatura, trazia jogos e promovia a interação com os seus jovens leitores. Quando o "Cavaleiro Andante" nasceu eu tinha eu quatro anos. A revista durou dez anos. Observando alguns números mais antigos e o facto de várias histórias neles inseridas permanecerem bem vivas na minha memória, concluo que, muito provavelmente, eu tenha então lido restrospetivamente toda a coleção.

Durante anos, pela casa dos meus pais, havia números dispersos dessa revista semanal que tão importante fora para a minha formação. Fui assim matutando na possibilidade de vir a reconstituir a coleção completa da revista.

Um dia, em 1986, decidi colocar um pequeno anúncio em "A Capital", onde dizia estar interessado em adquirir a coleção completa do "Cavaleiro Andante". Surgiu uma única resposta. Numa noite, fui a uma cave na avenida Dom Carlos, em Lisboa, onde vivia o vendedor.

Era um homem bastante mais velho do que eu. Tinha à venda uma excecional coleção, a que faltavam apenas meia dúzia de números, o que me satisfazia por completo. A conversa nunca a esquecerei. O homem mantinha as revistas embrulhadas em jornais e deixou claro que desfazer-se delas lhe custava bastante. Os olhos brilhavam-lhe enquanto me contava que, ao longo dos anos, tinha conservado cuidadosamente essa publicação que, também para ele, fora da maior importância. A partir de certa altura, a sua ideia fora completar a coleção para a oferecer ao filho. Porém, para sua grande desilusão, o filho, ao chegar o momento em que o pai se aprestava para lha oferecer, não manifestara o menor interesse. Agora, ele próprio tinha escasso espaço para a manter. Por isso, ao ver o meu anúncio, decidira-se a vendê-la. Não tive coragem para regatear o preço que me pedia: 15 contos. Era dinheiro! Mas valeu bem a pena!

É assim que hoje sou um feliz proprietário da coleção completa do "Cavaleiro Andante". Encadernei-a, preservo-a com cuidado e abro-a com alguma frequência, com um prazer que só aqueles que foram leitores fiéis da revista conseguirão perceber.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

As horas da Bielorrússia


Um dia de 1996, o Ministério dos Negócios Estrangeiros português recebeu uma nota da embaixada da Bielorrússia em Londres, cujo titular estava acreditado em Lisboa, pedindo "as melhores diligências" para que, de futuro, em língua portuguesa, o nome do país fosse designado por "Belarus" e não por "Bielorrússia". A ideia, ao que parece, era distanciar o país da imagem da Rússia. Em russo, a palavra "Bielorrússia" significa "Rússia branca". Recordo-me de ter tido cuidado de mandar explicar ao governo de Minsk que, em Portugal, o Estado não se arrogava o direito de controlar a tradução dos topónimos. Não insistiram.

A Bielorrússia é um estado encravado entre a Rússia, a Ucrânia, a Polónia, a Letónia e a Lituânia, com uma democracia de "faz-de-conta", muito típica de alguns Estados que emergiram após a eclosão da União Soviética. Desde 1994, é dirigida com mão de ferro por Alexander Lukashenko, que se mantém à frente de um regime que limita as liberdades essenciais dos cerca de 10 milhões de cidadãos do país. 

Ontem, houve por lá eleições que, sem surpresas, renovaram o mandato do sempiterno presidente. A esta hora, as ruas de Minsk não estão nada sossegadas.

Lukashenko teve artes de conseguir que a sua capital, Minsk, fosse escolhida para os encontros tendentes a discutir a pacificação da Ucrânia e, com alguma regularidade, lá o temos visto, impante, abrir caminho às negociações entre a Alemanha, França, Rússia e Ucrânia. Este papel "mediador" de Minsk já havia sido reconhecido em 1992, quando foi criado o "grupo de Minsk", que tem a seu cargo, no âmbito da OSCE, o acompanhamento da questão do Nagorno-Karabakh, entre a Arménia e o Azerbaijão. Não deixa de ser irónico que seja necessário sediar na capital de um país liderado por um autocrata encontros de paz. Mas é a vida...

Em 2002, a Bielorrússia cruzou-se no meu caminho. No âmbito da presidência portuguesa da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa), ao tempo em que representava diplomaticamente Portugal junto da organização, em Viena, coube-me gerir um caso interessante com a Bielorrússia. Descontente com o teor dos relatórios que a "Missão" (já explicarei porque coloco a palavra entre aspas) da OSCE em Minsk produzia, que punham a nu as arbitrariedades anti-democráticas das suas autoridades, o governo de Lukashenko optou por um procedimento hábil: forçou discretamente os trabalhadores bielorrussos a desvincularem-se da Missão e não renovou os vistos aos elementos estrangeiros que nela trabalhavam. Assim, ao final de alguns meses após esta ação ter sido desencadeada, a Missão deixou de ter condições para funcionar. E o governo de Minsk anunciou unilateralmente a data de 31 de dezembro de 2002 como limite às suas atividades, argumentando que se tinha "esgotado o seu objeto". Para a Bielorrússia, as coisas eram imperativas: a Missão da OSCE em Minsk tinha de encerrar naquela data.

Como presidente do Conselho Permanente da OSCE, em Viena, fiquei com a "batata quente" na mão. Portugal iria ficar na pequena história da organização como o país que "deixara encerrar" a Missão em Minsk, facto que podia vir a ser um precedente muito perigoso para outros Estados membros da OSCE, eles próprios pouco satisfeitos com o que a OSCE reportava sobre as fragilidades da sua vida política interna. Os meus colegas ocidentais - com destaque para os EUA, França, Reino Unido e Alemanha - pressionavam-me para que eu tentasse encontrar uma solução para que a OSCE pudesse continuar em Minsk. A Holanda, que nos sucederia na presidência no dia 1 de janeiro de 2003, preparava-se já para "lamentar" ter o início do seu mandato marcado por esse facto.

Portugal "portara-se bem" com a Bielorrússia até então. Contra a vontade da União Europeia, trabalhara para que o seu ministro dos Negócios Estrangeiros viesse a cimeira da organização no Porto, no início do mês de dezembro, a fim de que fosse possível tentar que os então 55 Estados da OSCE conseguissem acordar conclusões consensuais (isso foi possível, pela última vez, nessa cimeira do Porto, em 2002, e nunca mais o seria na história posterior da OSCE, e já passaram 18 anos). Simultaneamente, eu próprio cuidara em manter sempre uma relação cordial com o meu colega bielorrusso em Viena. Era um homem grande, um cientista feito embaixador, que percebia claramente que a "bofetada"que a Bielorrússia estava prestes a dar à OSCE não deixaria de ter consequências negativas para o seu país, que já se defrontava com sanções por parte da União Europeia e com um ambiente de isolamento e hostilidade crescente. Ser embaixador da Bielorrússia era (e nunca deixou de ser) uma tarefa muito difícil.

Com o meu colega e meu “deputy", embaixador Carlos Pais, embora sem a menor instrução orientadora de Lisboa, decidimos propor ao Secretário-Geral da OSCE e, posteriormente, à Bielorrússia uma saída para a organização manter uma presença em Minsk, com um mútuo "face-saving". Nos termos desse "deal", a "Missão OSCE em Minsk", que tinha um mandato próprio, aprovado anos antes do Conselho Permanente da OSCE, encerraria formalmente, como os bielorrussos desejavam, no fim do ano. Entretanto, Em contrapartida, propúnhamos a instalação de um "Escritório OSCE em Minsk", com um novo mandato, que tentaríamos negociar com Minsk e fazer aprovar pela OSCE até ao final do ano, para entrar em vigor no primeiro dia do ano seguinte.

Depois de alguma hesitação, a Bielorrússia "comprou" a nossa ideia e fez deslocar a Viena, por duas vezes, uma delegação chefiada por um representante pessoal de Alexander Lukashenko, com o qual discuti, durante horas intermináveis, por cerca de quatro dias, o texto do novo mandato, que seria depois vertido num "memorandum of understanding". Posso hoje revelar que os quatro países ocidentais, que, com a Rússia, eram vulgarmente referidos como os "major players" dentro da organização, "fizeram-nos a vida negra" até ao último instante, com exigências nas funções futuras do "Escritório" de que os bielorrussos nem queriam ouvir falar.

No termo de uma presidência que, por razões que não vêm aqui para o caso, já havia sido muito difícil, este trabalho de "go-betweener" revelou-se de extrema complexidade e o ter-se conseguido um resultado positivo muito se ficou a dever ao meu colega Carlos Pais que, com uma "paciência de santo", me ajudou a inventar fórmulas de texto imaginativas que combinassem um mínimo de eficácia operacional futura do Escritório, com uma "ambiguidade criativa" que conseguisse fazer a ponte. E tivemos sucesso: a "Missão" encerrou em 31.12.02 e o "Escritório" iniciou a sua existência em 1.1.03.

A prova provada da eficácia do Escritório seria dada, oito anos mais tarde, pela própria Bielorrússia, que decidiu impor a data de 31.12.10 como data limite para a atividade daquela presença da OSCE, obrigando então, e definitivamente, à saída da OSCE de Minsk, ao que parece descontente com o facto da organização ter denunciado, por intermédio daquele Escritório, mais uma vaga das tradicionais irregularidades eleitorais praticadas pelo governo de Lukashenko. A prazo, veio assim a constatara-se que o mandato que Portugal desenhou foi mesmo incomodamente eficaz.

domingo, 9 de agosto de 2020

Apenas uma precisão


Michel Barnier e Pierre de Boissieu são duas figuras importantes da vida europeia.

Barnier é o atual negociador do Brexit, em nome dos 27, lugar que tem desempenhado com uma competência unanimemente reconhecida. Foi comissário europeu e, por um breve período, ministro dos Negócios Estrangeiros do seu país. Em 1996, data em que ocorre a historieta que vou contar, ele era o representante da França, como ministro adjunto para os Assuntos Europeus, na Conferência Intergovernamental para a revisão do Tratado de Maastrich. Eu tinha então essa mesma tarefa, por Portugal.

De Boissieu, hoje aposentado, era representante permanente (nome dado aos embaixadores nas estruturas multilaterais) francês junto da União Europeia. Era um profundo conhecedor das matérias europeias e iria chegar, anos mais tarde, a secretário-geral adjunto do Conselho de Ministros da UE. O seu poder derivava, não apenas da sua inteligência e conhecimentos, mas, dizia-se, da sua pertença à família De Gaulle, que lhe garantia um apoio constante em Paris, independentemente da rotação dos governos. Foi um extraordinário servidor público francês, com quem tive algumas “accrochages”, mas por quem ganhei um imenso respeito.

Entre Barnier e De Boissieu a corrente não passava de todo. Fui testemunha de vários episódios, que muito animaram esses tempos negociais. Apesar de ministro, Barnier não conseguia impedir a impertinência iconoclasta de De Boissieu, que divertia toda a gente à volta da mesa. 

Um dia, durante uma reunião negocial em Bruxelas, o ministro, com o embaixador a seu lado, decidiu citar uma opinião que recolhera de François Mitterrand, que tinha morrido meses antes. Tratava-se de uma qualquer ideia sobre o futuro ou o sobre passado da Europa, já não recordo bem.

Barnier, como era seu timbre, foi algo pomposo ao fazer a confidência. Mitterrand era de um campo político oposto ao seu (e ao de De Boissieu, já agora), o que dava foros de alguma singularidade à sua invocação. A sala estava silenciosa, talvez menos por reverência e mais por curiosidade. Foi enfático, solene, ao repetir: “Mitterrand disse-me isso, na conversa que tivemos, só nós dois, em sua casa”. 

Ora isto era "demais" para o embaixador, o qual, de viés, olhava Barnier com visível ironia, desde o início da intervenção. E não resistiu. Chegou-se à frente, com o seu eterno pullover azul com um furo do cotovelo, inclinou-se para o microfone que partilhava com o ministro, o qual gozava um segundo de pausa, explorando o efeito da sua frase, e "esclareceu", sobre o momento da conversa com Mitterrand:
- “Avant sa mort, bien sûr!”, não fosse alguém suspeitar de qualquer diálogo do governante com os espíritos...

A sala soltou-se em gargalhadas. Todo o efeito pretendido por Barnier se esvaiu, naquele instante. Já ninguém se lembrava mais o que de tão decisivo teria dito o ilustre falecido. 

Olhávamos para a cara furiosa do ministro, que se entaramelava a tentar recolar o discurso perante um fundo sussurrante de risotas contidas, e para o ar divertido do embaixador, ao seu lado, ciente de que tinha ganho o seu dia...


sábado, 8 de agosto de 2020

Falhado

Por que será que a comunidade internacional, que frequentemente designa a Guiné-Bissau como um “estado falhado”, nunca o faz no caso do Líbano?

Já chegámos à Madeira?

O líder madeirense do PSD defende uma aliança com o Chega, com o argumento de que Sá Carneiro também se associou ao CDS na AD.

Equiparar o Chega ao CDS, partido com o qual o PSD se coligou na Madeira, é um belo “elogio” para o CSD, não é?

Já chega!

Querer um Chega “moderado” é como querer um PCP “moderno” e “aberto”. O PCP ainda existe porque não é nada disso (ao contrário dos seus homólogos noutros países, que desapareceram por completo). Se o Chega se “moderasse”, não era o Chega e o seu líder regressava a Loures...

Juan Carlos

Curiosamente, Juan Carlos passou a ter nas mãos o futuro da monarquia em Espanha. Se acaso lhe passasse pela cabeça refugiar-se num país sem tratado de extradição com a Espanha, o trono de Filipe VI, com o qual pactou o seu exílio, ficaria por um fio.

Desventura

O deputado do Chega quer ser candidato à presidência da República. Está no seu direito. Para isso tem de prescindir, em definitivo, da função de deputado. Nem a mais benevolente interpretação extensiva das exceções para a supressão do mandato permitiria o seu regresso. É a vida!

E se Trump perder?

Não se sabe se Donald Trump vai ou não conseguir manter-se no poder, depois das eleições de novembro. Mas todos sabemos que, no caso de ele vir a abandonar a Casa Branca, isso se terá ficado a dever à gestão caótica que fez da pandemia, que é, visivelmente, a principal causa da forte erosão registada na sua popularidade. A não ter ocorrido esta crise, a probabilidade de Trump ser reeleito era muito elevada - hipótese que, aliás, não pode ainda ser descartada.

Todos também já perceberam, a começar pelos americanos, que, se Joe Biden vier a suceder-lhe, sê-lo-á menos por um entusiasmo popular ao seu projeto alternativo e, muito mais, pelos erros cometidos por alguém que, já é quase uma certeza, a História virá a consagrar como o pior presidente que a América alguma vez teve.

As hipóteses de sucesso de Biden, um político decente sem um brilho particular, assentam na continuidade do processo de desgaste político do seu adversário e na esperança de que, nos próximos meses, a imagem do candidato democrático não vir a degradar-se. Isso passa também por uma boa seleção da sua parceira (será uma mulher) no “ticket” presidencial, a qual também estará, até ao último momento, sob um forte escrutínio.

O lugar de presidente do EUA, como os anos de Trump mostraram à saciedade, é uma fonte extraordinária de poder. Pode dizer-se que, em regimes democráticos, em termos de personalização, o caso americano é quase único. A legitimidade oriunda das urnas (e é uma mera “technicality”, que não olha à singularidade do sistema federal, a questão de um presidente poder ser eleito sem ter sido o candidato mais votado) concede ao chefe do Estado americano uma discricionaridade dificilmente admissível noutros regimes. O modo como Trump tem vindo a exercer essa liberalidade dá ainda mais evidência ao facto. No passado, com presidentes “normais”, com os mecanismos equilibradores do Estado a funcionarem, podiam notar-se alguns exageros. Mas Trump levou tudo isso ao absurdo.

Um presidente americano, contudo, não é apenas presidente do seu país. A expressão global dos EUA converte qualquer gesto do líder americano, com implicações externas, num vetor de influência sobre toda a sociedade internacional. E se, em condições regulares, o mundo sabe que tem de contar com a atitude americana como um fator condicionante, e muitas vezes constrangente, Trump representa uma realidade verdadeiramente nova. Ao colocar em causa a ordem internacional que estava pactuada, Trump provocou uma subversão traumática nos instrumentos de regulação global, abalando equilíbrios que os próprios EUA tinham ajudado a dar por adquiridos.

O caráter “revisionista” (como a teoria política gosta de designar) de algumas das suas posturas abriu sérias feridas e trouxe ao mundo, pela primeira vez em mais de sete décadas, uma América imprevisível, egoísta, abertamente não solidária, que colocou em causa a sua autoridade moral, como maior potência ocidental. Ao rejeitar abertamente o diálogo e o compromisso, como fórmulas reguladoras da estabilidade do mundo internacional, substituindo esse entendimento por uma lógica de pura afirmação do seu poder nacional, esta nova América transmitiu um sinal negativo a outros Estados cujos regimes ansiavam há muito por uma libertação do espartilho multilateral. Nenhuma ordem internacional pode sobreviver se os seus principais atores se considerarem isentos dos mecanismos que a regulam. Esse terá sido um dos aspetos mais nefastos do período Trump.

E se Biden ganhar? Há uma perigosa ilusão de que, se Trump vier a ser derrotado, haverá como que um “reset”, uma espécie de idílico regresso à ordem do tempo de Obama.

Ora política não funciona assim. É claro que é expectável, nesse cenário, uma retoma da atenção face à Europa, uma atitude mais simpática face ao mundo multilateral. Mas não se espere um regresso à “square one”, no jogo internacional. Muitos dos interesses americanos, protegidos por Trump, procurarão acolhimento numa eventual administração Biden. E tê-lo-ão.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O chato

- Ó diabo! Vem ali o Castanheira!

O comentário feito pelo chefe de repartição, voltando-se para o diretor-geral, quando ambos saíam para o almoço, alertava para um perfil rotundo, algo bamboleante, que, ao fundo, vindo da rua, se aprestava para circundar o jardim central do pátio das Necessidades.

O Castanheira era um daqueles funcionários, entre o caricato e o patético, que o ministério, para não ter de enfrentar a óbvia inadequação para ocupar lugares de responsabilidade na sede, optava por expatriar em serviço, esquecendo-o em consulados longínquos, na ilusão de que isso os tornaria inóquos para a imagem de uma carreira que, por incompetência e irresponsabilidade, os havia deixado entrar no quadro e, por cobardia e descuidada gestão de recursos humanos, não era capaz de isolar numa prateleira interna, para evitar piores males.

Os "Castanheiras" existem em todos os tempos do MNE, ganham lugares no quadro externo num qualquer "movimento diplomático" que deles acaba por ter piedade ("Coitado! Tem filhos..." ou "O homem já anda por aí há tanto tempo...") e, não raramente, transmitem uma medíocre imagem do país que lhes caberia saber representar. Não são muitos, felizmente, mas, por muitos poucos se sejam, são em número demasiado. Quem conhece bem a carreira sabe do que estou a falar.

Vindo de férias a Lisboa, do lugar distante para onde o "conselho" o tinha mandado já há anos, o Castanheira avançava então, nesse dia de verão do final dos anos 70, com um fato claro de mau corte, que denunciava os tristes trópicos por onde agora pairava, em direção às duas figuras da hierarquia que saíam do palácio. Era um homem conhecido pelo verbo balofo, pelo caráter prolixo dos seus comentários, enfim, para sintetizar, por ser um inenarrável chato, uma lapa oral, daqueles que nos agarram a manga do casaco e colocam a mão sapuda no ombro, que aproximam a cara para reforçar a cumplicidade, fazendo-nos partilhar a riqueza odorífera do seu bafo, coisa agora mais perigosa, em tempos de pandemia.

Ora o diretor-geral, um embaixador da velha escola, era um exemplo conhecido de quantos, na sua consabida snobeira e pesporrência, não tinham a menor paciência para conviver com esse estilo de figuras, algo untuosas e fátuas. Tinha apenas uma vaguíssima ideia do tal Castanheira, fruto de anedotas que dele ouvira, na tradição oral de escárnio em que o MNE é useiro, vezeiro e cruel. Nunca tinha falado com ele e, francamente, não era agora que isso iria acontecer, como desde logo avisou o amigo com quem ia almoçar. Este, por uma infeliz coincidência para o momento, tinha entrado para a carreira no concurso do Castanheira, o que o não dispensava de uma saudação mínima ao colega expatriado e que há muito não via.

- É pá! Vê lá se nos libertas logo do homem! Dizem-me que é um cretino de altíssimo coturno... - sussurrou o embaixador, com o Castanheira já quase à distância de um cumprimento.

O encontro deu-se à saída do pórtico de acesso ao palácio, sob o olhar atento, venerador e obrigado do Matos, o digno porteiro que, à época, por aí oficiava, no lugar onde, nos dias de hoje, pairam umas fardas anónimas da Securitas ou coisa parecida, uma espécie de genérico funcional, em tempos de seca orçamental.

Ao abraço entre o Castanheira e o chefe de repartição, seguiu-se o inevitável:

- ... não sei se se conhecem: o Castanheira, que anda agora pela América Latina, e o senhor embaixador...

O Castanheira nem deixou o amigo terminar a frase:

- O senhor embaixador?! Essa agora! Quem o não conhece?! Tenho imenso prazer em encontrar vossa excelência. O senhor embaixador é uma figura referencial da carreira, é - permita-me que lho diga!- uma das personalidades que mais honra a nossa diplomacia. Tenho por vossa excelência uma incontida admiração e andava, há anos, por ter o ensejo de lho expressar em pessoa. É para mim um imenso privilégio poder conhecê-lo e cumprimentá-lo. E diria mesmo, agradecer-lhe o que tem feito por nós, pela nossa casa, pelo prestígio da nossa profissão. Vossa excelência é um exemplo que todos procuramos seguir.

E o Castanheira, sempre ditirâmbico, continuou numa elegia gongórica sobre a figura do diretor-geral, lembrando os seus postos anteriores e os alegados feitos profissionais relevantes que bem ilustravam esse percurso. O amigo chefe de repartição só a custo conseguiu pôr cobro, ao final de uns minutos, a essa inesgotável verborreia.

Finalmente, lá se descolaram do Castanheira, que anunciou que ia ver umas "senhoras" ao "quarto andar", para tratar do telhado do consulado. "O senhor embaixador sabe, melhor do que ninguém, o que são essas coisas", deixou no ar, profissionalmente cúmplice, afastando-se, não sem uma respeitosa vénia ao superior hierárquico.

O chefe de repartição, aliviado, olhou para o diretor-geral e comentou:

- Ó pá! Desculpa lá teres tido que aturar este tipo. É um chato, nunca mais nos desamparava a loja...

- Essa agora! Até te digo mais: fiquei bem impressionado com o rapaz! Este Castanheira pareceu-me simpático e articulado. Mudei a ideia que me tinham criado dele. Como é que ele está na lista de antiguidade? Não lhe podemos dar uma mão, na reunião do "conselho" para as promoções, para a semana?

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

As cartas de Paihama

Só há pouco soube da morte de Kundi Paihama, uma figura política, e depois militar, angolana que, nos tempos de José Eduardo dos Santos, ocupou diversas e importantes funções ministeriais, tendo também sido governador de várias províncias.

Kundi Paihama era vulgarmente tido por ser de etnia cuanhama (embora ele contrariasse essa ideia), que fugia à tradicional dicotomia entre quimbundos, como José Eduardo dos Santos, e ovimbundos, como Jonas Savimbi, que polarizou a vida angolana.

Acompanhei António Pinto da França, embaixador português em Angola, na visita que este lhe fez, em junho de 1984 (recordo bem, porque comemorávamos o 10 de junho), ao tempo em que Paihama era governador de Benguela.

Recordo-me que o António descreve, com a imensa graça que era a sua, no livro “Diário de Angola”, a audiência que Paihama lhe concedeu no fausto possível do palácio do governo do tempo colonial. Não tendo agora o livro à mão, não registei se ele também fixa a cena que se passou, nessa noite, na casa do nosso cônsul em Benguela, Fernando Coelho.

O Fernando, um bom amigo já falecido há muito, era uma figura extremamente simpática, popular, que conseguira garantir um grau de interlocução muito raro com as autoridades locais. Embora as relações de Angola com Portugal atravessassem então um tempo complexo, em Benguela elas viviam no melhor dos mundos. Fernando Coelho conhecia toda a gente, dava-se lindamente com todas as entidades da província, a começar pelo governador, assim conseguindo resolver muitos problemas. Embora frequentemente pouco ortodoxo, provou ser ali o homem certo no tempo certo.

A confirmá-lo, depois do jantar no dia da nossa chegada, Kundi Paihama bateu à porta da residência do cônsul, onde o embaixador e eu estávamos alojados, dizendo que vinha “beber um copo” com o seu “novo amigo português”. A hipótese dessa visita tinha-me já sido aventada pelo Fernando Coelho, mas não lhe conferi grande plausibilidade.

Mas ali estava o poderoso Paihama, para umas horas de boa conversa, em que nos falou do seu amor acrisolado pelo Futebol Clube do Porto e nos revelou a troca de mensagens que, no “jogo de espelhos” daquela infindável guerra civil, trocava, por vias travessas, com Savimbi, em cuja eliminação - física, militar e política -, duas décadas mais tarde, viria a estar diretamente envolvido.

A imagem mais impressiva que guardo dessa noite é, porém, o momento em que Paihama se volta para o Fernando Coelho e pergunta, com a maior naturalidade: “O senhor cônsul não tem um baralho de cartas, para jogarmos uma partida de sueca? O senhor embaixador sabe jogar sueca, não sabe?” O António Pinto da França sabia e ali formámos nós uma mesa de sueca, bem regada a cerveja.

Não tendo isso registado na memória, de uma coisa tenho a certeza: Kundi Paihama não perdeu aquela partida de sueca. Deixar ganhar o outro em coisas secundárias é uma arte que os diplomatas se habituaram a cultivar.

Destinos


Com a pandemia a colocar nuvens sobre o nosso futuro, dei comigo a pensar que, agora mais do que nunca, há lugares onde já não poderei ir. Nunca fui um viajante compulsivo, nos últimos anos aportuguesei imenso as minhas viagens, mas, claro!, há lugares que tenho pena de nunca ter conhecido. Não falo dos destinos óbvios, do turismo glamoroso. Desse, fiquei bem “servido”!

Há cidades, contudo, que, continuando a existir, deixaram de ser o que eram quando a minha imaginação me motivava para as visitar: Sana, no Iemen, Cabul, no Afeganistão, Cartum, no Sudão, ou Aleppo, na Síria. A vida que hoje por lá se vive deixou de me entusiasmar. Ainda serão visitáveis, há excursões de risco que se podem tomar, mas que graça pode ter ir numa viatura blindada entre um aeroporto e um hotel muralhado, passar a correr, dentro de um carro, por uma rua onde podemos ser assaltados, onde uma bomba pode estourar, um “rocket” pode cair, a qualquer momento? É que uma cidade, para mim, são passeios a pé, são lojas, é olhar a gente, entrar num café, numa casa de velharias, visitar, com calma, igrejas ou monumentos, experimentar (boa) comida local. E, agora, com a pandemia, como irá ser?

Certas paragens, na minha curiosidade contemporânea, deixaram de ter a menor prioridade. Quis ir e nunca fui a Pristina, no Kosovo, nem a Anchorage, no Alasca, nem a Ulan Bator, na Mongólia. Noutros tempos, tive essas cidades no meu potencial mapa de visitas, embora, devo confessar, nunca tenha feito um grande esforço para concretizar esses sonhos. Outras, como Juba, no Sudão do Sul, ou Skopje, na Macedónia, sobre as quais tenho alguma curiosidade, não me animam a uma deslocação.

Durante muito tempo, tive intenções de ir a Alexandria, mas desisti, por ter pouca graça, ao que me dizem, salvo a nova biblioteca. Nada me mobiliza ir hoje a Hanói, que já fez parte da minha mitologia, tal como aconteceu com Katmandu, no Nepal. E admito, sem dificuldade, que já não tenho paciência para ir a Alice Springs, na Austrália, que achava “o máximo” visitar. Mas, estranhamente, e ali ao lado, confesso que ainda gostava de ir a Hobbart, na Tasmânia. E também a Novosibirsk, na Rússia. E a El Aaiun, no Saara Ocidental. E a Stepanakert, no Nagorno-Karabakh. E ainda sonho ir um dia ao Okussi, em Timor-Leste, ou a Tete, em Moçambique, ou a Svalvard, na Noruega, e, talvez ainda, a Thimphu, no Butão, a Salem, no Oregon dos EUA, ou a Punta Arenas, no Chile. Terei tempo? E pachorra? Se calhar, não. Fica a nota, sem qualquer melancolia.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Ibérico


Olhando esta fotografia, tirada no “El Corte Inglés” de Lisboa, pode entender-se melhor por que razão havia, na diplomacia portuguesa, uma escola de pensamento que sempre se recusou a usar o termo “ibérico”, preferindo-lhe “peninsular”.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

O menino

Até ter sido colocado na embaixada em Luanda, em 1982, a minha experiência com africanos era muito escassa. Na minha terra, em Vila Real, havia um único negro, jogador de futebol. Na universidade tive vários colegas, negros e mulatos. (Já terão dado conta que não vou enveredar por um léxico politicamente correto). Eram oriundos de famílias das colónias com óbvias posses e, na sua relação com os restantes colegas, nunca detetetei a menor diferenciação ou discriminação. Alguns desses amigos ficaram-me, aliás, para sempre - em Cabo Verde, em S. Tomé, em Angola e em Moçambique. 

Tive o privilégio de viver um ambiente, familiar e social, que, por completo, me imunizou de quaisquer pulsões racistas. Mas mentiria se dissesse que nunca na vida contei anedotas “de pretos” e graçolas congéneres. Claro que contei, como as contei sexistas e de género. Não sou nenhum anjo!

Como diplomata, chegado a Luanda, fiz, entretanto, vários outros bons amigos, muitos dos quais de cor. Alguns conservo-os até hoje e, dentre todos eles, há um, orgulhosamente negro, que permanece como um dos meus mais íntimos amigos, que tenho para a vida. 

Cheguei a essa Angola num tempo tenso, quer na vida política interna, com guerra civil à volta, quer na relação com Portugal, que atravessava um dos seus piores períodos. Por um “milagre” que tem muito a ver com a cumplicidade de uma língua comum, mas igualmente de uma matriz comportamental com muitas proximidades, sendo um diplomata estrangeiro isso nunca me vedou minimamente o convívio com pessoas locais - negros, mulatos ou brancos. Devo aliás dizer, porque é pura verdade, que tive maiores dificuldades com alguns brancos angolanos, que pareciam pretender “fazer esquecer” a sua cor, do que com pessoas de outra cor, que viviam de forma descomplexada a independência do seu país. Às vezes, podia notar-se, aqui ou ali, a emergência de alguma arrogância, mas tudo era superável com diálogo e frontalidade respeitosa.

Com exceção do pessoal diplomático ou com estatuto equiparado, a generalidade dos funcionários da nossa embaixada em Luanda, nesse ano de 1982, era oriunda da administração ultramarina. O mesmo acontecia, aliás, nas restantes embaixadas nas antigas colónias.

Muita dessa gente sofrera o período de transição política, com guerra aberta nas ruas da capital do novo país. A maioria mandara a família para a “metrópole” e ficara para trás, a tentar ainda amealhar alguns tostões. Vivia, às vezes de forma precária, numa Luanda tensa, sem comércio, com “esquemas” para a sobrevivência, numa convivência complexa com o novo poder, muitas vezes titulado por pessoas com quem, menos de uma década antes, esses agora “expatriados” haviam partilhado uma diferente relação de forças. Era gente com sentimentos racistas? Muitos tinham amigos negros, mas em outros detetavam-se reações que relevavam de velhos vícios comportamentais.

Um dia, ao passar junto à sala de espera da embaixada, ouvi um diálogo entre um contínuo, homem já de uma certa idade, com décadas de Angola, e alguém que esperava por uma reunião e que terá inquirido sobre se o encontro ainda estava muito demorado. Foi isto que ouvi: “Ó menino! Tu vais esperar, está bem?” Voltei atrás, olhei de relance para dentro da sala e constatei que o “menino” a quem o contínuo se dirigira era um homem negro, de quarenta e tal anos, que se mantivera impávido.

Fui para o meu gabinete e mandei chamar o contínuo. Perguntei-lhe se conhecia a pessoa que estava na sala de espera. Disse-me que não, que era a primeira vez que a via, que ela estava à espera de ser recebido por outro funcionário. “Então o senhor não o conhece e trata-o por tu?”, perguntei. O contínuo sorriu, olhando para o jovem diplomata que eu era, recém-chegado de uma embaixada num país nórdico, “maçarico” nas questões africanas, e foi “pedagógico”: “Ó senhor doutor! Isto cá é assim! Eles estão habituados, já não estranham”.

Fiz uma cara séria e retorqui: “O senhor fica a saber que se me chega aos ouvidos que volta a tratar desta forma alguém - preto, mulato, branco ou às riscas - que venha à embaixada, participo imediatamente de si. E convém que se saiba que qualquer colega seu, que se comporte dessa maneira, terá uma participação idêntica”. O contínuo embatucou e saiu. Nem era mau homem, ao que vim a constatar nos tempos seguintes. Era, apenas, um produto de outros tempos.

Quando, nos anos que se sucederam, os administrativos, contínuos e porteiros da embaixada constataram que alguns dos amigos dos novo cônsul-geral, do novo ministro-conselheiro e de mim próprio afinal não eram só “caucasianos” (acho uma graça imensa à expressão, que, estou certo, à época ninguém ousava usar, com risco de ter uma gargalhada como reação!), devem ter aprendido alguma coisa. Podem não ter aceite, com sinceridade, o comportamento que lhes era imposto, mas lembro-me que as coisas, a partir dessa altura, melhoraram bastante.

Mas “old habits die hard”, como se viu em Moscavide.

domingo, 2 de agosto de 2020

Allen


Lembro-me como se fosse hoje, e já lá vão quase duas décadas. O meu pai, com 91 anos, que tinha ido passar uns meses connosco a Nova Iorque, anunciou-me, antes do jantar: “Hoje, com a tua mulher, vimos no Central Park aquele ator cómico de que vocês gostam muito. Como é que ele se chama? Allen, não é?”

Por mais estranho que isso pareça, pensei em Dave Allen, um fantástico intérprete irlandês de “stand-up comedy”, que tinha “sketches” televisivos magníficos e que víramos uma vez num espetáculo em Londres. Se toda a gente ia a Nova Iorque, por que diabo Dave Allen não estaria por lá? E esqueci o assunto, até que, minutos depois, a minha mulher me esmagou de inveja: “Sabes que nos cruzámos esta tarde com o Woody Allen?”

Nos Estados Unidos, por muito tempo, Allen estava longe de ter a popularidade que tinha na Europa. Talvez porque, para muitos americanos, ele fosse demasiado nova-iorquino. Para essas pessoas, Nova Iorque é a cidade mais “estrangeira”, quase europeia, do país. Além disso, aquele autor e ator é conhecido como um “liberal” (palavra que por lá tem o significado contrário ao que por cá tem, isto é, significa progressista e de esquerda), o que está longe de corresponder a um certificado automático de popularidade na América.

Lembro-me de, uma noite, em casa de um médico americano amigo, ter-se falado de Woody Allen. O jantar reunia gente rica (eu era o “pobre” do grupo, tendo apenas o “anel” de embaixador, o que sempre constitui um certificado de acesso conjuntural ao elevador social), na maioria judeus, votantes democratas, que apreciavam Allen. Mas conheciam mal a sua filmografia. Eu atrevi-me a dizer que, muito provavelmente, devia ter visto toda a obra de Woody Allen (o que não é invulgar, para algumas pessoas da minha geração portuguesa). Ficou tudo a olhar para mim, com ar espantado, tomando-me ou por mentiroso ou por um obcecado. Até que um deles “explicou”: “O Francisco é europeu e lá há uma ‘mania’ do Woody Allen.” Era isso mesmo!

Tinha visto Allen ao vivo, pela primeira vez, em 1992, também em Nova Iorque, naquelas que eram, ao tempo, as suas apresentações semanais no Michael’s Pub, tocando clarinete integrado numa orquestra. Sei pouco de música, mas pareceu-me um intérprete banal, o que não impediu, depois de um solo que fez, que a sala tivesse estourado de aplausos. Tenho na memória que, na mesa ao lado da nossa, visivelmente entusiasmado com Allen, estava o intéprete preferido de François Truffaut, Jean-Pierre Léaud. Na noite seguinte, fui encontrar este, de novo, desta vez a jantar no Elaine’s - o que prova que seguia o roteiro de uma Nova Iorque de turismo “intelectual” que estava na moda. Estranhei mesmo, na noite seguinte, não o ver no Blue Note...

Nesses anos mais tarde, em que vivi em Nova Iorque, um amigo português, de visita, quis ir ver Woddy Allen. Os shows semanais já eram então no Hotel Carlyle e lá fomos: para o meu incompetente ouvido de amante de jazz, o clarinetista não evoluíra nada.

Na sua autobiografia, que estou a acabar de ler, Allen reconhece, talvez com esforçada modéstia, que é um músico apenas banal. E conta que um amigo um dia lhe perguntou: “Não tens vergonha?” O amigo referia-se ao facto de, nas “tournées” do conjunto onde Allen se integra, um pouco por todo o mundo, as salas se encherem, não pela qualidade musical do produto oferecido mas, muito simplesmente, pelo desejo das pessoas de irem ver tocar (sofrivelmente) jazz um (genial) autor e intérprete de cinema. Allen não respondeu e, pelos vistos, continua a dar-lhe muito prazer esse vício musical.

Sobre as trapalhadas em que Woody Allen anda agora metido não falo aqui.

sábado, 1 de agosto de 2020

Europa explicada


Vale a pena ler o artigo de Fernando Neves, no “Público”, onde se explica, com clareza, a questão dos dinheiros europeus.

Jornaleiros

Nos últimos dias, por um conjunto variado e não uniforme de razões, tenho vindo a dar razão a Baptista-Bastos, quando falava de “algumas pessoas injustamente acusadas de serem jornalistas”.

Crise

Antes que as notícias da queda do PIB sejam apropriadas pelo tremendismo de um discurso cuja titularidade se conhece, gostava de lembrar que houve e há por aí uma coisa chamada pandemia. Só lembro isso!

Bom feitio

A prova provada de que tenho bom feitio é não ter emitido imprecações ao constatar que me esqueci dos carregadores do iPhone e do iPad em Lisboa. Talvez o facto da culpa ser minha e de poder carregar um deles no isqueiro do carro possa justificar esta relativa bonomia.

Posso começar a ler?


sexta-feira, 31 de julho de 2020

Os claustros


Bárbara Reis, jornalista do “Público” que conhece bem os corredores das Necessidades, está a publicar no seu jornal um interessante relato sobre os tempos de mudança, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, com o surgimento da democracia, em 1974. Hoje saiu o segundo desses artigos. Vale a pena ler!

Saudades do senhor Aguieira


Ontem, perto de minha casa, ocorria uma mudança. Uma camioneta recolhia caixas de cartão, com os pertences de alguém. Estou numa idade em que já me permito o luxo de fazer coisas menos curiais. Abri o vidro do carro e perguntei: “Na vossa empresa, ainda alguém se lembra do senhor Aguieira?”

Três funcionários suspenderam, por momentos, o trabalho e olharam-me, como que surprendidos pela questão, sem a menor reação. Aproximou-se então um quarto membro do grupo, mais velho, a quem repeti a pergunta e que respondeu: “Quando entrei para a empresa, ainda se falava muito dele. Mas nunca o cheguei a conhecer”. Nem eles sabem o que o nome daquela companhia deve ao senhor Agueira! 

No MNE, em matéria de embalagem dos nossos haveres, quando partíamos de Lisboa ou mudávamos de posto, houve duas épocas distintas: o tempo do senhor Aguieira e o tempo que lhe sucedeu. Não sou do tempo antes do senhor Aguieira.

O senhor Aguieira pertencia a uma empresa de transportes que, por um daqueles mistérios que já não vale a pena tentar esclarecer, em outros tempos ganhava, com insistente regularidade, quase todos os concursos para o transporte dos bens dos diplomatas. 

Meses antes da viagem, ainda antes dos decretos da nossa nomeação "saírem", quando a nova colocação era apenas um rumor consistente pelos claustros das Necessidades, os diplomatas eram aproximados, pessoalmente ou por carta, pela empresa a que pertencia o senhor Aguieira, com o objetivo de pôr à disposição os respetivos serviços. Outras surgiam, mais tarde, mas quase todos acabávamos por preferir a empresa onde o senhor Agueira trabalhava.

O senhor Aguieira circulava pelos corredores do MNE, sempre de pasta na mão, como se fosse dos quadros da casa. Tinha o ar daquilo a que, em certa época, se qualificava como "um velho ministro de segunda" (sendo que "ministro" significa, no nosso jargão interno, "ministro plenipotenciário", bem entendido!, e “de segunda”, era sinónimo de “2ª classe”, ou melhor, que não era de “1ª classe”, o que fazia toda a diferença). Sempre a caminho ou a sair do "quarto andar" (a área administrativa da casa), o senhor Aguieira distribuía cumprimentos a muitos que ia encontrando pelos corredores, porque era estimado e apreciado genuinamente naquela casa. 

Em situações complicadas, o senhor Aguieira "desenrascava" tudo, colocando-nos no estrangeiro, sem custo, caixotes com coisas de que só muito tarde nos tínhamos apercebido que necessitávamos e deixáramos para trás. E, em Lisboa, guardava em armazem, por meses, pacotes ou móveis que não tínhamos onde deixar. 

Entrar em contacto pessoal com o senhor Aguieira era uma experiência magnífica. Homem de grande cordialidade e muito educado, tinha toda a rede necessária para nos facilitar a vida. 

Na minha primeira mudança para o estrangeiro, não tínhamos a noção da importância de contactar diretamente o senhor Aguieira. A minha mulher ligou um dia para a empresa, para tratar de uma qualquer questão relacionada com esse transporte. Por minutos, a chamada andou de um lado para o outro. Até que, esclarecidos de que se tratava da mulher de um diplomata, a puseram em contacto com o senhor Aguieira. A reação deste foi extraordinária: "Ó minha senhora! Porque não falou logo comigo? Andou aqui pela casa a ser tratada como "louça de Sacavém" quando, afinal, se tratava de "porcelana da Vista Alegre"!". E logo resolveu tudo. De forma inexcedível.

Quando, ainda nessa primeira saída, os meus livros chegaram a Oslo, embrulhados dois a dois, antes de serem colocados nos caixotes de cartão, recordo os olhos dos abrutalhados vikings encarregados da desembalagem, surpreendidos com o esmero do empacotamento do pessoal do senhor Aguieira. 

Na minha derradeira mudança, saindo de Paris, tive imensas saudades do pessoal do senhor Aguieira, ao observar o modo primário como por ali se embalavam os livros (“só ligas aos livros”, ouvi alguém queixar-se), sem cuidar da delicadeza de alguns. Tudo a esmo!

O senhor Aguieira já não é vivo. Conhecendo razoavelmente muitos dos meus antigos colegas, tenho a certeza de não estar só neste meu sentimento de simpatia para com a sua memória. O MNE de hoje, mesmo não o sabendo, tem saudades do senhor Aguieira, podem crer.

quinta-feira, 30 de julho de 2020

A vida de cada um

Ontem, fui desafiado para um novo projeto. Era uma aposta muito interessante, estimulante, compensadora. Quem me convidou, fê-lo com genuíno empenho e simpatia. Tinha todas as condições para ser uma bela aventura. Pedi uns dias para pensar, mas acabei por responder ao final de escassas horas. E recusei, agradecendo, o que me foi proposto. Fi-lo com total convicção, sem hesitações, embora com a plena consciência de que o projeto “era a minha cara”, que me ia divertir imenso a fazê-lo e que o desenvolveria sem a menor dificuldade. Ao fim do dia, interroguei-me, intimamente: estarei eu já a desistir das coisas? A rapidez com que tomei a decisão poderia significar ter eu entrado numa espécie de “phasing out” de algumas das tarefas profissionais que, com gosto e convicção, tenho vindo a aceitar no mundo privado, desde que me reformei do serviço público? Concluí que não, embora também essas coisas tenham o seu tempo de validade e, em alguns casos, já tenha posto um ponto final em certas tarefas que vinha a desempenhar, embora outras tenham entretanto surgido, porque continuo a ter a rara sorte de poder escolher o que quero fazer. E dei comigo a pensar que também não era para evitar ser acusado de ir ter mais um “tacho”, porque esse é o lado para que durmo melhor - e, aqui entre nós, confesso que até me agrada provocar a matilha dos invejosos e dos “polícias” raivosos do sucesso dos outros. Não, a razão por que não aceitei aquilo que me era proposto foi muito simples: porque criava constrangimentos à minha vida atual, à minha liberdade temporal, aos meus dias, às minhas prioridades, ao meu lazer. A vida de cada um é de cada um. Aprendi isto com ela, com a vida.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Graça e desgraça


Estamos no auge da “época da caça“ à ministra da Cultura. Como todos já percebemos, os titulares da Cultura duram enquanto durar a ilusão de que podem satisfazer todas as clientelas.

Os políticos, nos cargos que ocupam, têm dois tempos. Um tempo de graça em que, por muitas asneiras que digam, são poupados pela comunicação social e um tempo de desgraça, em que, mal lhes saia da boca uma palavra menos sensata ou oportuna, é logo um pé de vento.

Abril


Chegou ontem, a cheirar a tipografia, numa edição da Colibri. É uma antologia de textos, dos mais diversos autores, contando a sua experiência do 25 de Abril ou a propósito da data. Por lá figuram 12 páginas minhas, com o texto “Abril no meio da vida”. Quando esgotarem os exemplares à venda, colocarei o seu conteúdo por aqui...

Civismo e alegria

Perde-se uma caixa com óculos, bem caros. Passam 15 dias. Hoje, lembrei-me: “E se ligássemos ao parque de estacionamento, onde estivemos nessa tarde?”. Ligámos. Estavam lá. Um cidadão cuidou em ir entregá-los na receção. E depois não querem que eu ande bem disposto e otimista!

Adeus, meu capitão!


O capitão Teófilo Bento surgiu um dia na parada do quartel com um megafone. Estávamos nos primeiros meses de 1974, na Escola Prática de Administração Militar (EPAM), na Alameda das Linhas de Torres, em Lisboa, a unidade que, tempos depois, na madrugada de 25 de abril, iria ser a primeira a sair para a rua, para tomar o objetivo estratégico que eram os estúdios da RTP.

Lembro-me de alguns de nós termos estranhado o inusitado uso daquele aparelho nas mãos do Bento, porque nada em particular o justificava. Creio que a ninguém passou pela cabeça ligar o uso do aparelho a uma revolução que estivesse ao virar da esquina. Porém, esse megafone iria ser a sua imagem de marca no 25 de abril.

À época, eu era, simultaneamente, bibliotecário, diretor do jornal “O Intendente”, oficial de Ação Psicológica da EPAM e instrutor dos cursos da oficiais e sargentos milicianos. Uma tarde de fevereiro de 1974, no meio da parada da unidade, Bento, com quem eu tinha uma relação simpática, mas respeitosamente distante, dirigiu-se-me:

“Ó Seixas da Costa, preciso de falar consigo!” E como se fosse a coisa mais natural do mundo, foi adiantando: “Você estaria disponível para entrar numa ação militar para deitar abaixo o regime?” ou uma frase parecida.

Caí das nuvens! Tinha algum conhecimento da agitação que atravessava os meios militares, tinha estado presente em duas reuniões clandestinas de milicianos, onde se procurava acompanhar essas movimenrações, mas não tinha a menor ideia de que Teófilo Bento tivesse um papel relevante nesse contexto. Reagi, por isso, com grande prudência, não fosse tratar-se de uma provocação:

“Ó meu capitão! Isso é um assunto que não pode ser tratado assim! Tenho de ter mais informações para pensar nele”.

“Muito bem. Um destes dias falamos melhor”, respondeu-me Bento.

Ainda nessa tarde, falei com António Reis, aspirante como eu, que politicamente “bebia do fino” e que, rindo-se da inabilidade conspirativa do Bento, me confirmou que o capitão era a figura central da EPAM para uma organização do que estava em curso. E que falaria com ele sobre o “incidente”. 

Depois, as coisas aceleraram. Veio o 16 de março e, pelo modo como as pessoas na unidade reagiram a esse golpe frustrado, ficou mais claro de lado estava cada um e com quem era possível contar para uma eventual nova ação.

Na madrugada de 25 de abril, o capitão Teófilo Bento, acompanhado do alferes Geraldes e do António Reis, iriam ter um papel destacado na sublevação da unidade e na organização da coluna que iria tomar a RTP.

Ainda na noite desse dia, foi Teófilo Bento quem, com todos nós a seu lado, fez as “honras da casa”, na RTP, a Spínola e à Junta de Salvação Nacional, que dali se dirigiu ao país.

Dois dias depois, a 27 de Abril, Teófilo Bento, que interinamente passou a chefiar a RTP, coordenou, na sala da biblioteca da EPAM, um encontro com um impressionante grupo de intelectuais, num "brainstorming" em que foi acolitado por António Reis e por mim. Pela sala espalhavam-se figuras como Luís de Sttau Monteiro, Mário Castrim, Luís Filipe Costa, Luís Francisco Rebelo, Álvaro Guerra, Manuel Jorge Veloso, Manuel Ferreira, Adelino Gomes, Orlando da Costa e creio que cerca de duas dezenas mais de figuras cimeiras da nossa vida cultural e jornalística.

Spínola tinha entretanto outras ideias para a RTP e elas não passavam pela manutenção de Teófilo Bento e dos militares da EPAM por lá, em funções que ultrapassassem a segurança das instalações. Teófilo Bento viria a sair da EPAM. Iria mais tarde dirigir o empreendimento agrícola do Cachão, perto de Mirandela. 

Perdemo-nos de vista por muitos anos. Cruzámo-nos episodicamente e mantivemos sempre uma relação solidária de camaradagem, fruto desses dias únicos que vivemos em conjunto.

O Bento foi um “puro”, um homem bom, com grande humor e forte sentido solidário. Estava, desde há não muitos anos, recolhido num lar, de onde um dia me telefonou, quando por aqui o referi num texto.

Teófilo Bento morreu hoje. Deixo esta nota de saudade

O país das trincheiras


A anunciada decisão de algumas televisões de virem a evitar, no futuro, debates com comentadores abertamente vinculados a emblemas clubistas pode ser uma excelente notícia. Prouvera que a conversa sobre futebol, que polui o nosso panorama televisivo, venha a ganhar alguma dignidade com essa depuração, já que a sua redução drástica não parece, infelizmente, estar nas cartas.

Muita da crispação que hoje marca o ambiente futebolístico nacional releva de alguns incendiários da palavra, que excitam o sectarismo, garantindo a pés juntos que “foi penálti”, mas apenas quando tal corresponde aos interesses do seu clube e, claro, nada disso tendo a ver com a verdade objetiva dos factos, que é o que menos lhes importa.

As nossas televisões, à cata desesperada de audiências, enchem, por horas, esse circo de polémica, que é relativamente barato de sustentar e se sabe ter um mundo ululante de seguidores. Com mais ou menos adjetivos e decibéis, todos os canais televisivos seguem o mesmo caminho, mesmo aqueles que, pagos por todos nós, tinham obrigação de evitar esses vícios, assumindo a função pedagógica que o serviço público lhes deveria impor. Projetar verdades relativas, opiniões sobre factos que se sabe apenas motivadas por clubismo, às vezes com cartilhas de apoio, é um péssimo serviço prestado à educação cívica. A alguns media deveria ser a deontologia a impor essa obrigação, outros têm-na mesmo na sua natureza.

Mas fica-se por aqui esse mundo de trincheiras, a preto e branco, de factos relativos? Não fica. A política é também pasto para esse ambiente sectário, que sai das telas para se projetar nos jornais e, também, um pouco nas rádios.

Não conheço – mas admito poder estar enganado, se alguém mo provar – nenhuma democracia em que figuras eleitas ou dirigentes partidários disponham de colunas ou de outros espaços privativos de expressão mediática, com caráter regular, em órgãos de comunicação social, salvo naqueles que são, abertamente, folhas de propaganda das formações a que pertencem.

Por cá, contudo, há personalidades na política ativa que alimentam verdadeiros “tempos de antena” – nos jornais, rádios ou televisões. O que se pode esperar de alguém que foi eleito por uma certa cor, cujo futuro depende, em muito, da formação a que pertencem? Que critiquem os seus partidos? Multiplicando os atores, os media absolvem-se de acusação de sectarismo e alimentam a cacofonia, enchendo assim as horas e as páginas.

Isto já não muda, dizem alguns. São capazes de ter razão.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Abecedário de Salazar


“Então hoje não escreves nada sobre o Salazar?”. O que é eu hei-de escrever sobre o Salazar? Antes que passe a data do passamento, há meio século, deixo um abecedário, ao correr rápido da memória:

- Américo Tomás, António Ferro, Aljube, Álvaro Cunhal, Angola

- Bissaia Barreto, Barbieri Cardoso, Baixa do Cassange, Beja, Bispo do Porto, Botelho Moniz, Botas, Batepá, “Ballets Rose”

- Censura, Cadeira, Craveiro Lopes, Caxias, Catarina Eufémia, Cunha Leal, Christine Garnier

- Dona Maria, Duarte Pacheco, Diário da Manhã

- Ezequiel de Campos, “Estátua”, “Eleições”, Emídio Santana

- Francisco Franco, Franco Nogueira, “Frigideira”

- Guerra colonial, Godinho (general), Gonçalves Cerejeira

- Humberto Delgado, Henrique Galvão

- Índia

- José Gonçalves, Jorge Jardim, Júlio Dantas

- Kaúlza de Arriaga

- Legião Portuguesa, “Leninha” (Madalena Oliveira), Lajes

- Marcelo Caetano, Maria Lamas, Mocidade Portuguesa, Mueda, Mário de Figueiredo, MUD, Maltez (capitão), Maria Guardiola

- Norton de Matos

- Oscar Carmona 

- Pide, PCP, Peniche, Pidjiguiti, Palma Inácio 

- Quirino de Jesus, Quintão Meireles

- Rolão Preto, Rosa Casaco, Raul Lino

- Supico Pinto, Santos Costa, “Santa Maria”, Sousa Mendes, São Nicolau

- Tarrafal, Teotónio Pereira

- União Nacional 

- Viscondessa de Asseca, Viriatos, Volfrâmio, Vimieiro, Villanueva del Fresno

E, como imagem, deixo esta (roubada a Luís Pinheiro de Almeida), que vale por todos os retratos da ditadura.

Turismo


Pela fotografia, pode não parecer, mas o turismo no Porto dá mostras evidentes de alguma recuperação.

E hoje?


Ontem, foi assim.

Memória

Alguns acham que a nossa memória coletiva procura esconder os tempos colonialismo e da escravatura. Outros acham que estamos sempre a lembrar o fascismo e o Salazar. No fundo, o que divide o país é a memória?

Ronaldo


“Nenhum outro jogador ganhou as três ligas (inglesa, espanhola e italiana). Não importa o país, quando vens de outro planeta”, escreveu hoje a Fifa, no que pretendeu ser um elogio a Cristiano Ronaldo. 

Ora essa! Claro que importa o país! Ronaldo veio de Portugal, campeão da Europa. Anotem, para o caso de não saberem!

sábado, 25 de julho de 2020

Ferreira Fernandes

José Ferreira Fernandes reinicia hoje a sua colaboração com o “Público” com uma belíssima carta de amor a Angola.

(Uma vez, sem exemplo, permito-me reproduzir um artigo de um jornal que, para ser lido, deve ser pago)

Bom senso e bom gosto


sexta-feira, 24 de julho de 2020

É isso!

Acho que o país está a precisar de férias. De tudo.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Corredoura


No início dos anos 80 do século passado, vivi por alguns meses no Hotel Trópico, em Luanda. Tendo misteriosamente “desaparecido”, antes da minha chegada, por artes mágicas e nunca investigadas, o apartamento que albergara os meus antecessores na embaixada, num edifício na marginal de Luanda, não tive outro remédio senão ocupar, por esse período que me pareceu bem longo, um quarto no hotel, então já bastante degradado.

Era no Trópico que se acolhiam muitos estrangeiros, em especial portugueses em negócios e tripulações de aviões, numa mescla cuja convivência até poderia ter alguma graça, não fossem as dificuldades do abastecimento, nesses dias de guerra civil e recolher obrigatório.

Com o nosso cônsul-geral (este também por lá aboletado, embora por menos tempo do que eu), Fernando Andresen Guimarães, e o ministro-conselheiro da embaixada, José Stichini Vilela, eu almoçava e jantava, quase por regra, no "grill" do hotel, uma facilidade rara, que não era estranha à nossa, localmente muito invejada, condição diplomática.

Nesse tempo, obter uma "reserva" para comer no "grill" era uma benesse pouco comum, muito apreciada pelos portugueses e angolanos que para lá convidávamos. Diga-se que esse privilégio acontecia não obstante as tensões políticas que, à época, marcavam fortemente as relações entre Lisboa e Luanda, o que só revela que alguma afetividade, fruto de certas cumplicidades, se sobrepunha à difícil conjuntura política bilateral que se vivia. Por essas e por outras é que, ainda hoje, tenho amigos lá por Luanda.

Com algum exagero, o humor local corrente afirmava que, no outro restaurante do Trópico, no topo do edifício, que era bem menos sofisticado, havia, ao almoço, "arroz com peixe frito" e, ao jantar, "peixe frito com arroz"... No "grill", as coisas era ligeiramente melhores, mas a variedade de menus também não ia muito longe. Longe, sim, iam os tempos em que os grelhados teriam dado nome ao local. Recordo apenas o cíclico "émincé" de vitela, que nos pousava na mesa várias vezes por semana, e o sempre presente bolo Trópico, uma espécie de pão-de-ló coberto com claras de ovos, com que fechava a maioria das refeições.

O "chefe de sala" era um velho e simpático angolano que havia trabalhado no "Café de Paris", em Lisboa, o Smith. Quando perguntado sobre o menu do dia, costumava ironizar, sabiamente, respondendo coisas como: "Eu hoje aconselhava um magnífico caldo verde, seguido de um bacalhau à lagareiro. Depois, teremos um bife à Marrare. E fecharemos com um pudim abade de Priscos, que está "de truz" ". Esses e outros pratos virtuais, que se deliciava a relembrar, com expressões do léxico luso, fruto da sua longínqua memória da culinária e da vida lisboeta, logo contrastavam com as limitações do pobre menu do dia, a única realidade a que iríamos ter direito.

O vinho era, invariavelmente, o mesmo: português, de uma marca que nunca esquecerei, de que nunca mais ouvi falar - Corredoura. Não o retive, contudo, na minha memória sensorial como um néctar digno de figurar na história vinícola portuguesa, embora, nas condições locais da época, a minha escala de valores em matéria de consumo tivesse então atingido generosos limites de complacência.

O serviço às mesas do "grill", chefiado pelo Smith, coadjuvado pelo excelente Sambo, era feito por alunos da escola de hotelaria local, que rodavam com grande frequência. Eram jovens muito simples, alguns vindos das províncias, inexperientes, terreno fácil para ensaiarmos algumas graças.

A piada cíclica mais fácil era perguntar ao jovens alunos: "Há vinho?". A resposta era sempre positiva, como antecipadamente sabíamos. Essa era então a oportunidade para que um de nós lançasse, variando cada dia de fórmula, uma coisa assim: "Hoje, estava-me a apetecer um vinho português. Talvez um maduro tinto. Por acaso não tem um Corredoura, não?". Ou assim: "Para acompanhar o almoço, traga-me um tinto. Podia ser, por exemplo, Corredoura. Tem?"

Os olhos dos ingénuos e solícitos rapazes brilhavam de felicidade. "Por acaso", tinham - esse que era o único vinho existente, à época, em toda a Angola, "de Cabinda ao Cunene", para utilizar um lema então em voga. E, minutos depois, a uma temperatura sempre sinistra, lá surgia, saído da cave, um Corredoura tinto.

Consumimos então o que me pareceram serem hectolitros de Corredoura. Provavelmente esgotámo-lo. Deve ser por isso que nunca mais ouvi falar desse vinho. Tenho ideia que era dele este rótulo, que hoje encontrei.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Legalidades

A necessidade de mudar a lei, que até agora exige a luz verde municipal, para a construção do aeroporto do Montijo, lembrou-me a clássica frase atribuída a Correia de Oliveira, ministro de Salazar: o que é legal faz-se por despacho, o que é ilegal faz-se por decreto.

Rir no fim


Poucas pessoas desprezaram mais as instituições europeias do que Margareth Thatcher. A antiga primeira-ministra britânica olhava o projeto que tinha Bruxelas por eixo como uma perfídia institucional destinada a sabotar as soberanias nacionais, em proveito de uma burocracia que a si mesmo se tinha por iluminada, ao serviço de um objetivo centralista, fruto de um conluio de potências que, no fim do dia, eram adversas dos interesses britânicos. Via isso como uma espécie de “socialismo pelas portas traseiras”, como alguns por cá também ecoaram.

O Reino Unido, que historicamente começara por recusar a integração europeia, rendera-se, com íntima relutância, a ter de dele fazer parte, pelas desvantagens que resultavam da sua ausência. Fugiu, depois, a todos os compromissos que pôde evitar. Até um dia. Thatcher teria rejubilado, se tivesse assistido ao Brexit.

Lembrei-me ontem dela. As cinzas não riem, mas dei-me ao luxo de imaginar algumas gargalhadas a saírem do sítio onde as de Thatcher repousam, no Royal Hospital, em Chelsea. Mas teria ela razão para rir?

Ao assistir à feroz barganha das últimas horas, em especial à multiplicação dos “cheques” para compensação de alguns parceiros que mais avessos se tinham mostrado ao compromisso, lembrei-me do célebre “I want my money back!” (Quero o meu dinheiro de volta!), que sintetizava a sua postura reivindicativa dentro da Europa.

O processo financeiro europeu embrulhou-se ontem num modelo da maior complexidade, com algumas incoerências, induzindo dúvidas sobre a racionalidade de algumas soluções.

Mas isso importa para alguma coisa? Ontem, a Europa foi capaz, com todos esses defeitos processuais, de levar à prática exatamente aquilo para que foi criada: resolver os problemas dos cidadãos.

Há uns meses, falar da mutualização da dívida era um tabu. O tabu desfez-se. Por anos, era inviável a criação de “novos recursos”, isto é, novas fontes de financiamento orçamental. Agora, são inevitáveis.

A Europa é lenta no processo, hesitante nas decisões, complexa nos mecanismos. É defeito? Talvez seja, mas é um defeito democrático. Quem se senta à roda daquela mesa tem um mandato a cumprir. Uns foram votados para serem avaros, com a solidariedade no fundo das prioridades. Outros clamam por compensações pela abertura dos seus mercados, arrostando com a imagem de pedinchões. Cada um tem a sua legitimidade. Discutem e resolvem.

Thatcher pode ter-se rido, ontem. Mas, na Europa, ri melhor quem ri no fim.