domingo, março 24, 2024

Pollini


Jorge Sampaio ficou deliciado com a possibilidade de ir ouvir o pianista Maurizio Pollini, ao Carnegie Hall, nesse dia de junho de 2001, hipótese que eu lhe sugerira. O problema é que, para o presidente da República poder chegar a tempo de apanhar o avião de regresso a Lisboa, no aeroporto Kennedy, tinha de sair uns minutos mais cedo do que o final do concerto. "Não conseguimos mesmo ficar até ao fim?". Não, assegurou-lhe o embaixador junto da ONU, que na circunstância era eu, que fora o seu anfitrião em três intensos dias na "capital do mundo". E assim foi. Ainda estou a ver Sampaio, de pé, prestes a sair, encostado à parede lateral da sala, a esgotar toda a música que o horário apertado lhe permitiu.

Quatro meses depois, com a cidade na ressaca dos atentados do 11 de setembro, Maurizio Pollini regressou a Nova Iorque. Algo frustrado por não ter terminado o concerto anterior, decidi ir ouvi-lo de novo, nesses tempos convulsos pelos quais a cidade e a América passava. Nesse mesmo dia ou na véspera, os EUA tinham feito o primeiro ataque ao Al-Qaeda, no Afeganistão. O espetáculo, por um qualquer alarme de segurança, começou com meia hora de atraso. Tenho a recordação de que saí desse segundo concerto de Pollini com um bem-estar e serenidade que há muito não sentia.

Maurizio Pollini morreu ontem.

3 comentários:

  1. Anónimo09:06

    Meu caro Francisco,

    Ontem á noite adormeci a contar as vezes em que ouvi Pollini ao vivo. Cheguei ás 32 mas foram mais. Em Lisboa e em Paris, jantei algumas vezes com ele. Sempre interessado nos outros e sempre a fazer perguntas. Vi-o entre o público em Dezembro passado, numa récita no Scala de Milão. Um músico excepcional. Um grande Senhor.

    Um abraço

    JPGarcia

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  2. manuel campos15:44


    Maurizio Pollini, um grande Senhor com um “S” bem grande.
    Um “intérprete exclusivo” (valha o lado popular da expressão) da editora “Deutsche Grammophon” (*), de quem tenho quase todos - e são mesmo muitos - os discos a solo dedicados a Chopin (de quem era o intérprete de referência para mim), bastantes dos dedicados a Beethoven (já noutro nível do meu ponto de vista, ainda que num alto nível) e as obras para piano e orquestra gravadas com o seu grande amigo de sempre, o maestro Claudio Abbado (que incluem concertos para piano de Beethoven, Brahms, Schumann, Schoenberg e Bartók), que aprecio menos que os seus trabalhos a solo.

    Tenho boas condições em Lisboa para ouvir a música de piano, mais que a música orquestral, mas mesmo assim acabo por levar alguns discos e ouvi-los em casa de um filho meu que tem uma Bang & Olufsen (daquelas onde se põe o CD ao alto depois de abrir a janela de acesso passando uma mão em frente do vidro, o que eu classificava de “mariquices” antes de ter sido apanhado em grave infracção pelo politicamente correcto).

    (*) No princípio da carreira gravou dois discos para a EMI com o maestro Paul Kletzki e a Philharmonia Orchestra, que lamentávelmente não tenho, são raros.
    Dirigiu ainda The Chamber Orchestra Of Europe (às vezes dá-lhe para isso, aos pianistas e aos cantores de ópera) numa raríssima interpretação da ópera de Rossini “La donna del lago” com Katia Ricciarelli, editada pela Fonit Cetra e pela CBS Masterworks em 1984 (esta não lamento não ter, não adianta, porque só se lamenta não ter o que na altura esteve ao nosso alcance ter).

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  3. Anónimo22:24

    Senhor Embaixador,
    A propósito de música, um destes dias explique, por favor, a esses comentadores e políticos que falam nas televisões, que o nome da Presidente da Comissão Europeia é “von” der Leyen e não “van” der Leyen. Os meus tímpanos ficar-lhe-iam muito gratos!

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