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quarta-feira, março 06, 2024

APV


Há uns anos, o António Pedro de Vasconcelos realizou o filme "Parque Mayer". Convidou-me duas vezes para exibições particulares do filme mas, por coisas da vida, nunca pude ir. Telefonou-me, zangado. O APV tinha uma forma muito amigável de se zangar. Tempos depois, o filme passou na televisão. No final, ao ler a ficha técnica, vi que ele próprio tinha participado. Surgia, segundo essa ficha, a representar o papel de "ministro". Voltei atrás, revi as imagens e procurei um ministro no filme. Nada. Eram 11 horas da noite. Telefonei-lhe: "Olha lá! Onde é que entra o "ministro", que tu supostamente representas?". O APV deu uma gargalhada, lá do outro lado do nosso bairro: "Vai ver melhor. Há uma cena em que há um tipo de chapéu a sair de uma 'casa de meninas'. Não se percebe mesmo que era um ministro, discreto, depois de uma noitada?"

Acabo de saber que o APV morreu. Da última vez que falámos foi sobre uma outra morte, a de um seu filho, que o deixou de rastos. Antes, tenho dele um email, outra vez furioso, ao ter sido alertado de que eu seguia o Acordo Ortográfico. E, algures por esse tempo, vi-o remobilizado contra a ideia de reprivatização da TAP. O António-Pedro era um homem de causas, intenso, empenhado, com um sentido cívico muito apurado. Ele foi a cara, além disso, de um certo e quase único cinema português, contemporâneo sem ser chato, que gostava de ter público sem necessitar de fazer concessões. Nunca fomos muito próximos, para além de sermos quase vizinhos, mas tínhamos uma excelente e sempre divertida relação, que se reforçava nos reencontros. Guardo gratas recordações do APV, delas destacando uma noitada de discussão em Paris, com o Kiko Castro Neves, e duas jantaradas no Nobre, com gente bem diversa, em conversas animadas. O António-Pedro de Vasconcelos que conheci era um homem grande e era um grande homem. Sinto bastante a sua morte. O meu pesar à família.

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