Jorge Sampaio ficou deliciado com a possibilidade de ir ouvir o pianista Maurizio Pollini, ao Carnegie Hall, nesse dia de junho de 2001, hipótese que eu lhe sugerira. O problema é que, para o presidente da República poder chegar a tempo de apanhar o avião de regresso a Lisboa, no aeroporto Kennedy, tinha de sair uns minutos mais cedo do que o final do concerto. "Não conseguimos mesmo ficar até ao fim?". Não, assegurou-lhe o embaixador junto da ONU, que na circunstância era eu, que fora o seu anfitrião em três intensos dias na "capital do mundo". E assim foi. Ainda estou a ver Sampaio, de pé, prestes a sair, encostado à parede lateral da sala, a esgotar toda a música que o horário apertado lhe permitiu.
Quatro meses depois, com a cidade na ressaca dos atentados do 11 de setembro, Maurizio Pollini regressou a Nova Iorque. Algo frustrado por não ter terminado o concerto anterior, decidi ir ouvi-lo de novo, nesses tempos convulsos pelos quais a cidade e a América passava. Nesse mesmo dia ou na véspera, os EUA tinham feito o primeiro ataque ao Al-Qaeda, no Afeganistão. O espetáculo, por um qualquer alarme de segurança, começou com meia hora de atraso. Tenho a recordação de que saí desse segundo concerto de Pollini com um bem-estar e serenidade que há muito não sentia.
Maurizio Pollini morreu ontem.