Após a queda das ditaduras ibéricas, gerou-se a ideia de que Espanha e Portugal estavam imunes ao surgimento de partidos de extrema-direita, graças à vacina do autoritarismo vivido. Pensava-se que os partidos da direita democrática seria capazes de seduzir, ainda que "by default", os votantes mais propensos a soluções radicais do extremo político discriminatório - fossem elas securitárias, xenófobas ou racistas, anti-identitárias ou de moralismo saloio-machista. Quem assim pensou enganou-se.
Costuma dizer-se que a extrema-direita propõe respostas erradas para problemas reais. Nem sempre é assim, nem sempre os problemas existem realmente. Muitas vezes eles são meras caricaturas, trajadas de mal-estar e de um discurso javardo, sobre temáticas defensivas de certos grupos.
No Vox e no Chega encontramos tudo isso, mas também encontramos diferenças que derivam de especificidades próprias.
Sendo a Espanha um país onde as tensões regionalistas há muito colocam riscos para a unidade do país, o Vox soube cavalgar a nostalgia unitarista, a que somou a bandeira de defesa do país retrógrado, aturdido pelos avanços das agendas identitárias.
O reaccionarismo do Vox, com laivos fascistóides iniludíveis, tem assim raízes muito próprias, que o diferenciam do Chega. Contudo, um bom resultado do Vox nestas eleições será naturalmente um alento para o Chega, sendo embora males que não se confundem.
(Texto publicado no semanário Novo, escrito em meados da semana passada, como resposta à pergunta sobre se um bom resultado para o Vox espanhol teria consequências favoráveis para o seu congénere português).
