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sábado, julho 15, 2023

"Bonne adresse"


Nesses idos de 80 do século que há muito se foi, estando de passagem pela cidade onde ele estava colocado, bastante longe de Portugal, passei a visitá-lo, para lhe dar um abraço. Não era um amigo íntimo, mas tínhamos construído um cordial entendimento pessoal. Tratávamo-nos por "você", talvez fruto da diferença de idades ou daquelas irrecuperáveis casualidades que fazem com que, no primeiro contacto, não tivéssemos desformalizado totalmente o relacionamento.

Era um homem simpático, disponível, embora um pouco "afetado" e - mesmo muito! - preocupado com aquilo que se costuma qualificar como os "sinais exteriores da carreira".

Essa é a auto-caricatura em que alguns profissionais da "casa" se deixam cair: uma certa forma de vestir, o desenho de uma rede de conhecimentos "certos", convites a quem mais convém, carro adequado ao seu estatuto, férias com grupos selecionados, opção por desportos típicos das elites com que se querem identificar, um discurso sempre cuidadoso, na política como no resto, para não criar arestas nem suscitar rejeições, etc.

Só não casou "bem", para completar aquele perfil, porque é dos que não estão para aí virados. E, verdade seja, depois de todo esse esforço, mas também fruto de alguns erros próprios, a sorte profissional acabou por lhe não sorrir. Mas, sempre que o encontrei, não me parecia infeliz. Parecia-me viver bem acomodado àquilo que tinha conseguido. 

A certa altura daquelo nosso encontro, a conversa derivou, já nem sei bem porquê, para a zona onde, quando em Lisboa, cada um de nós vivia.

Disse-me que necessitava de trocar urgentemente de casa. Estava insatisfeito com o lugar apartamento que então possuía. "Imagine você que moro numa rua Capitão Félix, em Benfica! Acha que posso dizer isso a um colega estrangeiro?"

Dei uma gargalhada. E, sem a menor relutância, expliquei que vivia em Santo António dos Cavaleiros, num andar barato, alugado desde os meus tempos de tropa.

Olhou-me com uma espécie de horror social! "Mas isso é quase em Loures! Não é "bonne adresse"!

Não levei a mal. Achei mesmo delicioso o francófono comentário, que me ficou para sempre na memória e que muitas vezes tenho citado, sempre sem o nomear.

Anos mais tarde, vi-o sair de carro de uma agradável moradia, numa zona socialmente prestigiada de Lisboa. Já reformado, tinha, finalmente, "une bonne adresse", concluí.

Soube que morreu. Será o seu último "adresse".

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...