Vou contar um segredo de Polichinelo, que muito jornalista e político sabe, mas que a generalidade do público desconhece. Tem a ver com cerimónias, comícios ou discursos públicos, quando cobertos, em direto, pelas televisões.
A certa altura da sua arenga, quem está a falar para um público restrito recebe um sinal, por parte de uma pessoa da sua assessoria em comunicação social, informando-o de que, a partir desse momento, o que estiver a dizer deixa de ser ouvido apenas por quem está na sala e passa a sê-lo por centenas de milhares de espetadores.
Quase sempre, a partir desse instante, com mais ou menos jeito, o orador muda, subtilmente, de tom. Ele tem guardadas, precisamente para esse auditório exponencialmente alargado, as suas principais mensagens, os "bon mots", os ditos que quer que fiquem na cabeça das pessoas, por todo o país.
Hoje à tarde, por um mero acaso, liguei uma televisão. Fizeram, nesse instante, uma ligação a uma cerimónia onde falava o presidente da República, um evento com empresários.
Voltei-me para a pessoa que estava ao meu lado e disse: "Está atenta. Daqui a muito pouco, o presidente, fingindo que é a propósito daquilo em que está a intervir, vai dizer uma frase que, deliberadamente, ele quer que venha a ser interpretada num contexto mais vasto, aplicando-se à atualidade política". A pessoa não pareceu acreditar, até que ouviu.
Não passou um minuto e Marcelo Rebelo de Sousa, dando ares de que falava da vida dos empresários, lançou a frase de que, minutos depois, todo o país falava: "Quando o poder entra em descolagem em relação ao povo, não é o povo que muda, é o poder que muda".
