segunda-feira, 10 de maio de 2021

Mitterrand e a moda


Caramba! Passaram já 40 anos! Lembro bem a noite de 10 de maio de 1981, dia da vitória de François Mitterrand nas eleições presidenciais francesas.

Vivia então na Noruega e organizámos um jantar em casa para acompanhar as notícias, que nos iam chegar pela rádio de ondas curtas e pelas televisões norueguesa e sueca, as únicas que nos eram acessíveis. Convidei amigos que nos podiam ajudar a "decifrar" os noticiários naquelas línguas, além de outros que o acaso juntou nessa noite nórdica.

A esmagadora maioria dos nossos convivas, onde se contavam alguns diplomatas estrangeiros, muitos temerosos da anunciada chegada dos comunistas ao poder, acabava por alinhar num "giscardianismo" de oportunidade. Tudo menos Mitterrand! 

Nada de estranho, se pensarmos que a Guerra Fria estava ainda muito presente na vida internacional e que a experiência francesa assustava então muita gente. Estas coisas hoje parecem ridículas, mas, à época, havia quem falasse, sem rir, na possibilidade de tanques russos não tardarem na place de la Concorde.

Quando as notícias da vitória de François Mitterrand se confirmaram, esse núcleo de amigos conservadores entrou numa aberta depressão. As teses sobre o que iria suceder em França eram catastróficas: de desordens públicas a um conjunto de malfeitorias que a nova maioria, que forçosamente sairia das eleições legislativas subsequentes, seguramente iria desencadear, tudo era de esperar da "révanche" da chegada da esquerda ao poder.

Num certo casal estrangeiro, em que ela era bastante mais nova, notei que o marido, que trabalhava num banco, estava a ser carinhosamente consolado pela mulher, solidária na conjuntural desventura política do cônjuge. Mas era por demais evidente que ela tinha muito pouca consciência da complexidade do que estava a ocorrer. O marido, com a gravidade expressa no rosto fechado, disse, a certa altura: "Isto vai provocar uma desvalorização fortíssima do franco, vai ser gravíssimo!".

Eu não me continha e lançava umas piadas, em jeito de provocação. A certa altura, saiu-me esta: "Bom, há que perceber as vantagens de uma desvalorização do franco. Por exemplo, a roupa que se vende em França vai ficar muito mais acessível, a moda francesa vai embaratecer, agora é que vai valer a pena ir a Paris, às compras".

O que eu fui dizer! Mal eu tinha acabado de falar, vejo os olhos da jovem brilharem, a cara abrir-se-lhe num esgar de felicidade, como que por uma súbita descoberta das virtualidades da vitória da esquerda. Voltou-se então para o marido e, numa voz bastante audível, tanto mais que ele era meio surdo, disse-lhe: "Ouviste? É verdade que os vestidos vão ficar mais baratos? Não podíamos ir agora a França?".

Parte da sala sorriu. O meu amigo ignorou-a, olimpicamente, e fuzilou-me com o olhar. 

Eu ria, abertamente, feliz da vida com o resultado, olhando na televisão a place de la Bastille apinhada de gente. Com imensa pena de lá não estar!

4 comentários:

Jaime Santos disse...

Pois, e graças aos disparates do Governo Mauroy, o Franco entrou mesmo em curva descendente, Mitterrand teve que chamar Delors e o resto, como dizem os anglo-saxónicos, é História.

Mas eles não tinham os exemplos português e britânico para mostrar que isso da estatização da Economia era chão que já tinha dado uvas?

Tony disse...

E o Dr. Mário Soares, "tous satisfaits et heureux, avec la victoire de son ami Mitterrand"!.

carlos cardoso disse...

"Isto vai provocar uma desvalorização fortíssima do franco, vai ser gravíssimo!"

Por acaso o seu convidado não se chamava Steinbroken?

Francisco Seixas da Costa disse...

Não não era finlandês! E, como se pressente de “Os Maias”, o Steinbroken era sexualmente abstémio.