Hoje, no seu artigo regular no “Público”, o deputado europeu Paulo Rangel, atropela com alguma ligeireza a História para uma chicana política. A propósito da atitude do governo de não seguir alguns parceiros na expulsão de diplomatas russos, por virtude do atentado no Reino Unido contra um espião, Paulo Rangel traz à baila a decisão tomada pelo primeiro-ministro Sá Carneiro de expulsar diplomatas soviéticos, acusados de atos de espionagem no nosso país. E vai mais longe: diz também que foi Cavaco Silva quem não reconheceu a invasão soviética dos Estados bálticos, uns meses depois.
Quanto a este último caso, se Paulo Rangel quer dar o crédito exato a alguém (eu poderia ser maldoso e acrescentar “da sua área política”, mas não o farei) por essa decisão terá de o fazer ao dr. António de Oliveira Salazar, que décadas antes havia decidido esse não reconhecimento. Cavaco, alertado pelo MNE para este facto, terá apenas impedido uma delegação de deputados portugueses de se deslocar a um país báltico, o que provocou um sururu político no nosso âmbito pátrio. (O “culpado” por esse alerta foi um leitor habitual deste espaço, que poderá, se assim o entender, esclarecer melhor a história).
Mas a confusão propositada - é que, se o não fosse, seria bem pior ainda - entre a União Soviética desses tempos e a Rússia de hoje é apenas um truque fácil - como se o facto da capital de ambos os países ser Moscovo legitimasse a similitude dos atos.
Recordo que a URSS, quando implodiu, deu origem a 15 países, um dos quais é hohe a Federação Russa. Trazer à colação uma decisão unilateral, tomada no tempo da Guerra Fria, por virtude de uma atitude culposa com impactos bilaterais, como fez Sá Carneiro, durante o período de menos de um ano em que chefiou o governo da AD, é um entorse grave à História. Custa-me ver Paulo Rangel colocar-se ao nível de uma esperteza qualificável como “dos arredores de Lisboa”.