sexta-feira, 13 de abril de 2018

A guerra dos outros


Anteontem, ao final do dia, alguém me dizia: “Vamos ver se já há imagens do ataque à Síria”, que se presumia para essa noite. Mas a pessoa ia fazer “zapping”, para ver o resumo alargado do Real-Juve.

É impressionante o modo quase indiferente como o nosso mundo olha, nos dias de hoje, para o risco real de guerra que se perfila no Médio Oriente. 

Leem-se as notícias, as bravatas twitadas pelo presidente americano e tudo nos parece uma realidade quase virtual, que nunca nos afetará. Ouviu-se Putin anunciar, com deslumbre tecnológico, um mar de armas “inteligentes” e ficou-nos a sensação de estar a ver um documentário de conquistas científicas. 

As gerações europeias que aí estão perderam, por completo, a memória da guerra e, por isso, nem sequer a imaginam plausível. A guerra, para os europeus contemporâneos, é sempre a guerra dos outros. O mais próximo que a sentiram, foi nos Balcãs ou no leste da Ucrânia. Banalizaram, pela televisão, os mortos alheios no Iraque ou no Afeganistão, a tragédia síria, o caos líbio. E, por terem visto os Estados Unidos e a Rússia a lançar mísseis à distância, e a enviar drones para proceder a “extra-judicial killings”, acham que tudo se passará sempre com essa “limpeza” estratégica. E, claro, com as vítimas de que nunca conhecerão os nomes.

E, no entanto, de há muito que uma guerra não estava tão próxima. Não sabemos que tipo de guerra, não sabemos mesmo se haverá alguma, e, se houver, o que ela poderá vir a ser. Pensamo-la sempre limitada, distante de nós, como se houvesse um escudo protetor que dela nos afastasse. E, inconscientemente, excluímos um conflito nuclear, pensamos que a dissuasão o afasta do cenário de hipóteses. Damos por adquirido que o poder militar limite está sempre em mãos responsáveis.

Ora, no caso americano, a guerra ou a sua ausência estão nas mãos de um megalómano desequilibrado, cada vez mais rodeado de belicistas. No terreno russo, num autocrata que tem menos fatores de controlo do que tinham os dirigentes soviéticos ao tempo da Guerra Fria. Em seu torno, para além de um assassino sanguinário que, na Síria, segue as passadas criminosas do pai, encontramos hoje um líder turco com ambições desmedidas e incontroladas e aquele que é, talvez, o mais radical dirigente na história de Israel. A isso se soma a tensão extremada entre o Irão e a Arábia Saudita.

O mundo está perigoso. Com sorte, a guerra não virá. Sem ela, poderá surgir. Com grande azar, poderá envolver-nos. Em qualquer caso, não a vemos chegar.

3 comentários:

Anónimo disse...

Caro embaixador

Estou bem de acordo com o que diz.

O seu outro texto sobre a Russia também me parece muito correcto.

Tenho pena que o seu twitter tenha passado a ser privado, que não tendo intenção de ter conta não posso ler o que escreve ou sugere.

cmpts

Francisco Seixas da Costa disse...

O meu twitter passou a ser privado? Não sabia! Apenas quis introduzir um filtro antes de autorizar um novo seguidor, porque me dei conta que havia perfis falsos, criados só para “chatear”, eles próprios sem seguidores ou posts. Mas vou pensar no assunto...

Anónimo disse...

Os seguidores é para quem também twita. Agora experimente carregar a sua página estando fora da sua conta https://twitter.com/seixasdacosta

A mensagem que a mim me aparece é

Les Tweets de ce compte sont protégés.
Seuls les abonnés confirmés ont accès aux Tweets et au profil complet de @seixasdacosta. Cliquez sur le bouton "Suivre" pour envoyer une demande d'abonnement.

o que para não tem conta no twitter não dá muito jeito

cumpts