Num texto que ficou para a história pela sua genialidade, Eça de Queiroz imaginou um dia uma cena de província, com uma senhora a dar conta, num grupo reunido em sua casa, das notícias que vinham no jornal local, acabado de chegar. Os “horrores” dos vários desastres pelo mundo (o “Correio da Manhã” não nasceu do nada, podem crer!) sucediam-se, com apartes de aborrecimento e ar pesaroso dos circunstantes, mas não muito mais: um terramoto que matara duas mil pessoas na ilha de Java, na Hungria um rio transbordara e causara vítimas e prejuízos sem fim, na Bélgica greves e repressão, um descarrilamento trágico no sul de França, etc.
A senhora sobre quem convergiam as atenções, que permanecia agarrada ao jornal, do qual extraía todas aquelas pouco excitantes notícias, de súbito “solta um grito, leva as mãos à cabeça: Santo Deus!” Eça relata a cena com deliciosos pormenores: “Todos nos erguemos, num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando: ‘foi a Luísa Carneiro, da Bela Vista, torceu um pé!’ Então a sala inteira se alvoroçou, num tumulto de surpresa e desgosto”. É que “todos nós conhecíamos a Luisinha” e ninguém sabia quem eram os javanezes, os húngaros, os belgas ou os franceses atingidos pelas tragédias distantes.
Os meus “javanezes”, ontem, foram os afegãos mortos em Cabul, entretanto já sepultados pela minha indiferença. E a “minha” Luísa Carneiro está, com certeza, numa novidade de proximidade da perna partida de um amogo que alguém me traga, daqui a pouco. Este é um mundo que nunca muda muito.