sábado, 28 de abril de 2018

Franco Charais


Numa livraria, encontrei ontem, a preço reduzido, um livro de memórias do general Franco Charais - ”O Acaso e a História, Vivências de um Militar”. Foi publicado pela Âncora Editora, em 2002. Li-o em algumas horas.

Para as novas gerações, o nome dirá pouco. Franco Charais foi um oficial de Artilharia que esteve envolvido no 25 de abril. Integrou o Conselho de Estado, fez parte do Conselho da Revolução, foi comandante da Região Militar Centro e foi um dos subscritores do chamado “documento dos nove” - um manifesto de nove figuras moderadas do MFA, publicado no auge do “Verão quente” de 1975, de “resistência” ao “gonçalvismo”. Foi uma figura de grande equilíbrio no período revolucionário, com um perfil sóbrio de militar e genericamente apreciado pela sua seriedade.

Cruzei-me com Franco Charais no palácio da Cova da Moura, em maio de 1974. Ele era tenente-coronel e trabalhava com o general Costa Gomes. Eu era então aspirante a oficial miliciano e adjunto da Junta de Salvação Nacional, ligado às questões da extinção da PIDE/DGS, no gabinete do general Galvão de Melo. Recordo-me que Charais ocupava por ali um belo gabinete com azulejos. O mesmo que, precisamente duas décadas depois, em 1994, eu viria a ocupar, por uns meses, como subdiretor-geral dos Assuntos Europeus.

Ainda em 1974, já a Junta tinha sido dissolvida na sequência do 28 de setembro, vim a estar presente (acompanhando o então major Costa Neves, ainda hoje estou para saber a que título, mas esses tempos eram mesmo assim!) numa reunião chefiada por Franco Charais, no edifício que é hoje o Instituto de Defesa Nacional, e que surge descrita no livro, na qual o CDS, em face das dificuldades sentidas para a sua implantação em liberdade, informou a “comissão coordenadora” do MFA de que estava a encarar a possibilidade de se extinguir. O que, claro, não veio a suceder. A certo passo da conversa, Charais disse: “Os senhores não são os únicos a queixarem-se. Outro partido de direita, o PPD tem os mesmos problemas”. A reação do CDS foi a esperada: “Nós somos um partido de centro!”. 

O livro tem uma estrutura narrativa às vezes não muito fácil, porque feita de saltos no tempo, com peças sobre a sua vida pessoal e militar. Para além de alguns registos curiosos sobre o tempo colonial, na perspetiva de um militar no terreno, a principal curiosidade para mim foi apreciar o modo como Franco Charais interpretou o seu papel no xadrez do MFA, como viu e interveio nas relações de força e, muito em especial, como sofreu o “phasing out” do papel político dos militares. Charais chegou a general, mas o livro deixa abundante material para mostrar o revanchismo de uma hierarquia militar conservadora que entretanto ascendeu ao poder e que prejudicou fortemente a carreira de quem fez o 25 de abril (e não estamos a falar apenas de militares tidos por radicais). Tudo isso feito com a cumplicidade objetiva, e deliberada, do PS, do PSD e do CDS, convém que se diga, alto e bom som.

Charais dedica-se hoje à pintura e realiza-se por essa via. Achei interessante ler este seu livro, coincidindo com mais uma celebração do 25 de abril que também lhe devemos.

5 comentários:

Anónimo disse...

Em maio de 74,o então alferes Francisco Seixas da Costa,(incorporação de 1969),era do Q.P.???
-Miliciano com cinco anos de serviço !??
A bota não bate com a perdigotos!!!!!

Francisco Seixas da Costa disse...

Eu entrei para o SMO no 2° turno de 1973.

Francisco Seixas da Costa disse...

Corrijo o lapso. Entrei no SMO no segundo turno de 1973. Era então aspirante a oficial miliciano, não era alferes.

João Cabral disse...

25 de Abril e não abril, senhor embaixador, não seja teimoso e aceite ser corrigido. Que o Ciberdúvidas da Língua Portuguesa o convença:

«Lembrando, ainda, que esta e demais datas históricas, festas ou festividades – tal como prescreve a e) do ponto 2 da Base XIX do Acordo Ortográfico de 1990 – se escrevem com a maiúscula inicial no mês correspondente. Fora deste contexto específico já se empregaria a minúscula inicial. Portanto: o 25 de Abril, o 10 de Junho, 5 de Outubro, o 1.º de Dezembro, etc.; mas: no dia 25 de abril, a 10 de junho, em 5 de outubro, na data de 1 de dezembro, etc.»
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/aberturas/o-caso-da-primeira-mordoma-de-tomar-na-festa-dos-tabuleiros-as-marcas-da-toponimia-portuguesa-e-a-ca/2341

Anónimo disse...

A JSN foi extinta em 1975