segunda-feira, 16 de abril de 2018

Em chávena quente

Vou episodicamente a esse café. Fui lá hoje, ainda não eram nove horas.

De dentro do balcão, vinha uma voz "encarnada", furibunda. A conversa, com um colega adverso que atendia às mesas, ia pesada, ouvida por toda a sala, com indiferença ou com sorrisos, alguns dos quais só íntimos, como era o meu caso. Tratava-se do alegado "roubo" do penalti, ontem. 

Foi então que entrou o "senhor engenheiro". Pediu uma bica e um queque. De trás do balcão, sorridente e solícito, o empregado "encarnado" tinha dito: "Bom dia, senhor engenheiro! O costume?". E para o lado: "Tira aí uma bica curta em chávena aquecida, aqui para o senhor engenheiro". E acrescentou, acolhedor: "Tem ali o "Público", se quiser, senhor engenheiro!"

O senhor engenheiro estava com pressa. Mas não resistiu à conversa cruzada que atravessava o balcão. Enquanto escorropichava a bica, saiu-lhe: "Aquilo ontem, vendo bem, não foi penalti!".

De dentro do balcão, feita súbita trincheira, o empregado urrou: "Não foi penalti? Essa agora! Foi um roubo, uma vigarice, uma falta descarada que ficou por marcar! Querem dar o campeonato àqueles morcões! Isto é tudo um bando de gatunos!"

O senhor engenheiro, não tendo apreciado o "outburst", de cara fechada, já limpava as migalhas do queque no sobretudo quando, imprudente, adiantou, salomónico: "Cada um olha as coisas como lhe parece. Bom dia!" e, moedas postas sobre o balcão, foi saindo.

Foi então que ouviu, gritado, bem alto, de trás da trincheira, com a ousadia da raiva: "Ó senhor engenheiro! Vá mas é ao oculista!"

Fiquei convencido - pelos olhares, eu e vários clientes - que o senhor engenheiro, amanhã, é capaz de mudar de café. 

2 comentários:

APS disse...

Tenha caridade, senhor Embaixador: nós somos um país pequenino... E com uma secular ausência de sentido crítico. E de proporções. Os clientes, nestes cafés "em forma de assim" até são tratados por "amigo" ou "querido", muitas vezes. Profissionalismo, só o vamos encontrar em Palmela.

Anónimo disse...

"E com uma secular ausência de sentido crítico"

A ausência de sentido crítico não é, nem será secular, foi o trabalhinho de muitos, muitas vezes nada parvos, nem acéfalos...

Quanto ao empregado, ninguém se lembrou de pedir o livro de reclamações ou prefiriu-se não sacrificar a bolaria?