terça-feira, 24 de abril de 2018

A cidade de Ontem


Neste dia 24 de abril, lembrei-me de reeditar um post antigo. 

“Ao ler que a Santos Júnior, polícia-mor de um dos períodos mais sinistros da ditadura, foi atribuído o nome de uma rua em Coja (se fosse em Corja, não me admirava), dei comigo a pensar se, de facto, não seria justo, para cultivo de uma certa memória afetiva, ser criada, algures no nosso país, uma cidade que tivesse o nome de Ontem. Para aí irem viver poderiam ser convidados, em prioridade, todos quantos, nas redes sociais e nas caixas de comentários dos sites e jornais, permanecem fiéis a um saudoso passado em que, pelos vistos, se sentiam tão felizes. Mas muitos outros seriam elegíveis, como se intui em colunas de jornais e até em certas tribunas políticas residuais. Em Ontem, o Diário da Manhã e o Novidades dariam, ao alvorecer, as notícias a que os seus cidadãos tinham direito - mas nem mais uma, ou, então, "factos alternativos", como fazem as relações públicas de Trump! E iríamos vê-los felizes, cara ao sol, sentados na esplanada do Café do Aljube, com vistas para a Praça do Tarrafal (no centro da praça, em dias de calor haveria um lugar a que chamariam "frigideira"), à qual se acederia pela grande Avenida Oliveira Salazar, de sentido único, que, lá bem ao fundo, conduzia ao Beco Américo Tomaz (com Z). No Centro Social Silva Pais, não muito distante, ouvir-se-ia a Emissora Nacional que os "senhores óvintes" quisessem, obrigatoriamente abrindo com "Uma Casa Portuguesa" ("a alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente"). Na Alameda Barbieri Cardoso, ficaria a Livraria Lápis Azul, que só venderia livros rigorosamente conformes aos cânones do antigo e benquisto regime, sendo de todo excluídos aqueles em que as palavras "liberdade", "democracia" e "povo" pudessem surgir. Em Ontem, Pide seria o nome de uma associação de beneficência, com o Centro de Artes "Estátua", recuperando a tradição de uma instituição com uma benéfica ação que tão deturpada tem sido - embora, felizmente, já haja por estes dias um grupo dedicado de rapazes da historiografia que começa a tentar mudar tais erróneas perceções. O fotógrafo oficial da cidade de Ontem, um tal Rosa Casaco, faria os retratos à maneira, de preferência um "photomathon" com frente e duas laterais, numa moda estética lamentavelmente caída em desuso. E, por falar em "casaco", iria ser com certeza um sucesso o alfaite o local, o conhecido "Vira Casacas", que tanto trabalho tinha tido no 25 de abril. Perguntará o leitor: E a Justiça? E a Saúde? Quem assistiria nesses domínios os habitantes de Ontem? A Justiça, ora essa!, estaria a cargo dessas vestais do direito que eram os juízes dos Tribunais Plenários! E a Saúde, essa não poderia ficar em melhores mãos do que de esses dignos seguidores de Hipócrates que eram os médicos do Tarrafal, de Peniche e de Caxias. Mas não se fala da Educação? Não, porque em Ontem ela não seria necessária, orgulhosa do analfabetismo sadio que outrora imperava. E, sejamos óbvios, os que fossem educados só por engano é que iram viver para Ontem. Resta a ordem pública? Nem por isso! Bastava ficar por lá o capitão Maltez (nunca percebi porque nunca foi promovido, ou, se calhar, foi, depois do 25 de abril e ninguém nos avisou) e nem uma agulha bulia na serena melancolia da paz dos cemitérios. Ah! E, em Ontem, haveria também uma Colónia de Férias (então eles passavam lá sem ter uma coloniazita...). Pela certa, finalmente, a cidade não enjeitaria uma geminação com Santa Comba ou com a angolana São Nicolau, porque há memórias que calam fundo - e calar é algo que Ontem saberia sempre fazer. Um ponto muito importante seria permitir que os cidadãos pudessem sair de Ontem sempre que lhes apetecesse. Não há, porém, a certeza de que isso, necessariamente, lhes agradasse, porque a liberdade é, no fundo, aquilo que eles menos apreciam. Enfim, Ontem é, talvez, o futuro que alguns desejariam. Por que não fazer-lhes a vontade? Será que para a criação desta urbe da saudade se arranja, finalmente, uma maioria decente na Assembleia da República?.”

6 comentários:

Anónimo disse...

Também se devia conhecer a Cidade de Anteontem:
De 1908 a 1928.
Seria tão interessante saber sobre as revoluções expontâneas em cada bairro ou freguesia, a qual acabava com as prisões dos revoltosos da cabonária e outras ideologias.
Enfim este país tem uma "estória" muito interessante desde 1821[sic].

Anónimo disse...

Qual é a diferença entre portugueses presos por serem comunistas, angolanos presos por serem independentistas e catalães presos por organizarem um referendo pacífico?

Reaça disse...

As saudades são tantas, que anualmente aparecem gabarolas a recontar as vezes que foi preso, para demonstrar que o "record é meu não daquele outro".

Tal a adrenalina e a pica que aqueles tempos davam.

Anónimo disse...

Cenário aterrador ... para alguns. Mas.
Senhor Embaixador já reparou que na Rua Hoje, por cá, o triste cenário não deixaria de merecer uma desempoeirada petição, como esta ?.

Petição sobre uma das Casas da Democracia, hoje, no Reino de Sua Majestade Queen Elizabeth II.
"The description of the petition states: “The House of Lords is a place of patronage where unelected and unaccountable individuals hold a disproportionate amount of influence and power which can be used to frustrate the elected representatives of the people.” "

Por cá não existe (ainda ?) uma House of Commons, com "elected representatives of the people" como Vexa. bem sabe. Não seria justo, e democrático, organizar uma tal petição na Rua Hoje ?.JS

PSICANALISTA disse...

Ontem,o governador civil proporcionou liberdades a muito chico-esperto, não contabilizadas neste post !!!

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

É exatamente este texto que há uns dias me veio à ideia para publicar em celebração deste dia maior.
Logo à noite ou amanhã lá irá para o Facebook.
Obrigado pelo "repost".