sexta-feira, 6 de abril de 2018

A tia Zé e a Senhora da Agonia


A tia Zé era a irmã mais velha do meu pai. Vivia com a minha avó, em Viana do Castelo, e, após a morte desta, passou os seus últimos anos na casa de irmãos. Era uma pessoa frágil, com uma evidente debilidade psicológica, o que fazia com que, desde sempre, tivesse sido confinada às tarefas domésticas mais simples: a “gestão” do pão e os cafés eram os seus dois indiscutíveis “pelouros”.

Era uma mulher pequena, que o tempo enfeiara, o que era agravado por um persistente buço que ninguém tinha a coragem de lhe pedir para tirar. Tinha um feitio muito irritadiço e, não raramente, vocalizava estados de alma com grande e expressiva facilidade. A deselegância de um “raisteparta!”, que às vezes lhe saía e direção a um sobrinho mais atrevido (e eu fui-o, várias vezes), era nela perdoada pelo estatuto que o seu infortúnio lhe criara.

A tia Zé nunca terá tido um namorado, não tinha amigos ou amigas que não fossem os visitantes da casa da minha avó e, depois, dos meus tios. E, desde os tempos de Ponte de Lima, de onde a família saiu em 1912 e se dizia que convivia com uma filha dos donos da vizinha pensão Clara Penha, nunca saía de casa. 

Havia, contudo, uma exceção. Uma vez por ano, nas vésperas dos dias de Festas da Senhora da Agonia, a tia Zé tirava-se dos seus cuidados e saía da velha casa do largo Vasco da Gama, subia pela rua de Altamira, atravessava o jardim dom Fernando e ia depositar uma esmola à capela da Senhora. A “operação” não demorava muito tempo, mas todos nós sabíamos fazer parte de uma rotina piedosa anual. 

No seu regresso, o meu pai e os irmãos não deixavam de inquirir, curiosos, as impressões da “Maria Zé”, como era tratada, sobre como correra a “expedição” à capela. E queriam saber pormenores, se ela vira a nova montra da loja do Julião, o que achara do arranjo do largo de São Domingos e coisas assim, como que a testarem a atenção que ela prestava a um quotidiano urbano de que era rara visitante. Mas a tia Zé pouco adiantava, recordo-me.

Numa dessas vezes, a Tia Zé contou ter tido dificuldade, dentro da igreja, em encontrar a caixa das esmolas. Tímida e metida em si como era, não inquiriu por algum tempo do paradeiro do recetáculo dos óbulos. Mas a sua hesitação não passou despercebida. Um cavalheiro, “de respeito e muito bem parecido” (palavras dela), aproximou-se e perguntou-lhe se necessitava de alguma ajuda. A tia Zé, à época já bastante idosa, explicou o seu embaraço para poder fazer a oferta anual à santa. O interlocutor revelou-lhe então que o pároco da Senhora da Agonia o tinha “encarregado” de estar por ali a recolher as oferendas. E, “simpático e prestável” (sic), prontificou-se a receber o montante que a tia Zé tinha naquele ano destinado para esse fim, dizendo-lhe que podia “ir descansada”...

E a tia Zé lá regressou a casa, “descansada” e desembolsada, com a certeza absoluta de que o cavalheiro seria um fiel depositário da sua esmola. 

Qualquer que tenha sido o destino do dinheiro, um juízo de razoabilidade, mesmo para quem não é “dessa freguesia”, levará facilmente a concluir que a Senhora da Agonia terá, com toda a certeza, registado o óbulo a desconto dos poucos pecados que a tia Zé devia ter a débito na sua conta-corrente de deveres celestiais. 

Uma coisa ficou claro: a tia Zé nunca colocou em causa a honorabilidade do cavalheiro “de respeito e muito bem parecido”, que tão tocantemente a auxiliara. E ficou famosa a fúria com que recebeu as graçolas dos irmãos, que cruelmente a gozaram pela sua ingenuidade.

(Mal a tia Zé sabia que, muitos anos mais tarde, este seu ímpio sobrinho iria ter o orgulho vianense - em Viana, diz-se “chieira” - de ser presidente da Comissão de Honra das Festas da Senhora de que era tão devota. Como eu gostaria que ela soubesse!)

Lembrei-me há pouco da tia Zé, ao ler no JN que as caixas de esmolas da capela da Senhora da Agonia, lá por Viana, foram assaltadas na noite de ontem. Terá sido obra de parentes do cavalheiro que ajudou a tia Zé? No fundo, bem parecidos ou não, os gatunos são feitos da mesma massa...

(Dedico este texto ao meu primo António, a quem a tia Zé devotava o maior amor dentre os sobrinhos, neste que, por razões que não vêm à conta, não foi para ele um dia fácil.)

1 comentário:

Anónimo disse...


A verdadeira democracia seria assim:

Uns acreditavam na Senhora da Agonía, importante para ajudar a morrer serenamente. Outros, nos serviços médicos do país.
E se fosse assim ficava bem a toddos.

É que uma agonía prolongada até ao estretor não deve ser brinquedo.

Quem não concordar comigo que se explique.