sexta-feira, 27 de abril de 2018

A Avenida


No 25 de abril, estive e sempre estarei de cravo vermelho ao peito.

A data da Revolução, para a qual, há 44 anos, dei o meu ínfimo contributo pessoal, é por mim comemorada, desde então, com uma sinceridade que não tem par com outros eventos a que me associo. Vivi-a em oito países diferentes, às vezes em família, outras com amigos, algumas vezes com cerimónias de permeio.

Fui, em algumas ocasiões, sempre por dever de ofício, à cerimónia na Assembleia da República. Nesses momentos, para além da observação coletiva de quem levava ou não um cravo ao peito, assisti à cansativa sucessão de discursos políticos e partidários, que, invariável e oportunisticamente, utilizavam a comemoração para tratar da conjuntura do momento.

Aquilo que poderia ser um espaço de proclamação de elegias à liberdade conquistada naquela data acabava por se transformar numa arena de severo combate político, com as diversas leituras de "abril" a servirem de arma de arremesso, de forma quase sempre pouco subliminar.

Com sinceridade, ninguém acreditará que essa maratona declaratória contribuía, minimamente, para levar as virtualidades da Revolução às novas gerações, para nelas ajudar a construir o culto desse momento fundacional da nossa democracia. Nos últimos dois anos, parece que este vício terá sido um pouco corrigido.

Depois, há a Avenida. Do Marquês ao Rossio, um certo país político-militar faz à tarde a sua festa. De início, parecia que essa romaria laica poderia vir a ter o caráter daquilo que foi o primeiro 1° de Maio: uma festa plural, em que a bandeira comum fosse vermelha, claro, mas com o verde da nossa República.

Cedo se percebeu que não ia ser assim, que uma certa lateralização ideológica ia prevalecer. E a Avenida logo passou a uma manifestação com com bandeiras sectárias e slogans, uma espécie de comício ambulante, onde certas forças políticas, com os seus apêndices multiplicadores de imagem, ganharam um espaço claramente desproporcionado face àquilo que vontade do povo regularmente expressa nas urnas.

Comemorar o 25 de Abril, celebrar essa magnífica Revolução que, por uma vez, quase que fez o milagre impossível de unir o país, deveria passar por uma despartidarização e consubstanciar-se na organização de festas populares - com música, com juventude, com alegria. E sem discursos, sem desfiles políticos, sem slogans. Como, em França se faz com o "14 juillet". Ah! Mas sempre, claro, com muitos cravos.

É que, no 25 de abril, estive e sempre estarei de cravo vermelho ao peito.

5 comentários:

Luís Lavoura disse...

O Francisco vê mal as coisas. A manif na avenida da Liberdade é organizada pela Associação 25 de Abril e está aberta a todos os que se revejam na liberdade. Todos são livres de irem para lá mostrar-se e cantar os seus slogans. Se algumas pessoas e grupos políticos não vão lá, é problema deles. Não se trata de uma manif de um grupo político.
Eu estive lá conjuntamente com a Iniciativa Liberal. Gritámos slogans, exibimos uma faixa e cartazes. Ninguém nos fez mal. A nossa particpação foi bem acolhida pela Associação 25 de Abril. Tal como nós, outros partidos não esquerdistas (pelo menos, o MPT) participaram ou puderam participar.

Anónimo disse...

O que eu gosto é dos comunas a festejar o Quase.

Quase que mandavamos´
Quase que tinhamos uma nova ditadura.

A verdadeira Liberdade foi no 25 de Novembro.

Liberdade sempre, ditaduras nunca mais, (é que o prec foi uma espécie de pré-ditadura comunista).

A direita não é saudosista do prec.

A Direita é liberdade, económica e pessoal.

A Esquerda é sempre fascista e reaccionária.

dor em baixa disse...

Quem quer ir à comemoração vai, quem não quer não vai. É por isso que os que são contra o 25 de Abril e os que são a favor envergonhadamente, não vão.
O mesmo para os cravos ao peito (que também dão jeito, como dizia o cantor). Os que são a favor põem-nos, os que são contra não os põem e os que são a favor envergonhadamente põem-nos de cor azul.

Joaquim de Freitas disse...

Ao Anónimo de 27 Abril 11:15, que escreve:

« A Direita é liberdade, económica e pessoal.”

Portugal foi uma monarquia até 1910. Por essência, de direita. Depois seguiu-se meio século de direita fascista das mais reaccionárias, até à Revolução dos Cravos.

Foi durante este meio século de ditadura e obscurantismo que Portugal ganhou o lugar que é o seu na cauda da Europa.

E que perdeu 2 milhões de cidadãos, por falta de liberdade, vítimas da repressão policial e duma injustiça social desesperante, e que, sem oportunidades no seu país foram obrigados, por vezes ilegalmente, a escolher a emigração.

Depois, foi e é uma Republica, dirigida durante 13 anos pelo centro esquerda, e 17 anos de centro direita.

Se a Revolução trouxe a Liberdade, e indesmentíveis avanços económicos e sociais, tal não se pode dizer da direita, que jogou mais a carta da austeridade e da regressão social.

A direita governou, ou desgovernou, portanto, durante 17 anos, salvo erro.
Ela pesou incontestavelmente sobre a política e é responsável pela sociedade como a conhecemos hoje, quanto mais não seja o esbanjamento dos dinheiros comunitários durante o governo e a presidência de Cavaco Silva, que se caracterizou pela ascendência da lógica do mercado e o euro sobre o mandato confiado ao nível nacional pelos eleitores e não se atreveu a pôr em causa esta situação e propor alternativas, como o fez recentemente António Costa.

A direita e o liberalismo são os responsáveis das crises que abanaram o sistema económico internacional em 2008 e levaram o Mundo à beira do abismo, onde se encontra ainda hoje, com uma agravante militar no Médio Oriente.

Anónimo disse...

Foram 44 anos de mentira, de falsa sensação de liberdade só porque agora podemos dizer quase tudo o que pensamos sem ir preso.


Por enquanto. E a prova está na abstenção que a seguir à revolução foi quase nula, no ano seguinte passou para 16,5% e a partir de 83, disparou para 44%.

A fraude não tardou a manifestar-se.

Hoje, temos a terceira maior dívida do Mundo, o segundo maior défice da Europa, o país mais corrupto da média europeia e estamos no ranking com maior carga fiscal. Esta é a “bela liberdade” que ganhamos: o aprisionamento financeiro – por dívida e corrupção – que nos empobrece e impede de ter vida condigna.