sexta-feira, 6 de abril de 2018

Diplomacia democrática


Há dois dias, adquiri no aeroporto de Madrid um livro de memórias de Jorge Dezcallar, um credenciado diplomata espanhol. Ao lê-lo, pude recordar como é diferente a cultura política que se instalou no nosso país, no tocante à gestão da carreira diplomática. No nosso vizinho peninsular, as mudanças drásticas de governo têm muitas vezes consequências dramáticas nas escolhas de chefias internas e na titularidade das representações diplomáticas, num registo que induz fortes tensões e a perspetiva de repetição simétrica no futuro.

Graças a Mário Soares, no pós-25 de abril, a estrutura essencial da nossa máquina diplomática foi preservada, com o novo poder político a ter rápida consciência de que teria ao seu dispor, em geral, um corpo qualificado de funcionários, devotado a servir lealmente o Estado e os interesses nele projetados por quem, a partir daí com total legitimidade, o passava a dirigir. Houve exceções, claro, mas essas baixezas morais acabaram-se por se autoqualificar, na memória deontológica das Necessidades.

Portugal vive hoje tempos de uma diplomacia democrática: os governos mudam, os embaixadores não mudam necessariamente com eles. A rotação destes processa-se, em regra, nos ritmos normais, sem sujeição necessária aos ciclos políticos. 

Mas, para sermos francos, há que dizer que os riscos não desapareceram, por completo. Uma cultura democrática demora muito tempo a impor-se. Vemos que ainda ressurge, a espaços, a tentação, nos fins de ciclo, de colocar à pressa alguns peões, por parte dos executivos que estão de saída. Este, aliás, não é um pecadilho com particular coloração ideológica, persistindo em todos os partidos que passam pelo poder.

Suscito este tema, motivado pelas tais memórias, que têm por título “O antiquário de Teerão”, porque me parece importante que esta questão, tal como recentemente o foi a defesa do exercício exclusivo de cargos de chefia diplomática pelos profissionais que fizeram uma carreira especializada para tal, venha a ser assumida como axial na ação das estruturas sindicais que representam o pessoal diplomático. 

Por isso, porque a independência política da diplomacia é um bem a garantir no nosso serviço público, é imperioso preservar a carreira diplomática profissional da instrumentalização política. Um diplomata não é um eunuco político, pode e deve ter uma ideologia. Mas deve interiorizar que o seu único dever de obediência é perante o interesse do Estado, de que o governo de turno é apenas um ocupante episódico. Convém que se lembre sempre disso e que o recorde aos governos com os quais se cruzar.

5 comentários:

Luís Lavoura disse...

No nosso vizinho peninsular, as mudanças drásticas de governo têm muitas vezes consequências dramáticas nas escolhas de chefias internas e na titularidade das representações diplomáticas, num registo que induz fortes tensões e a perspetiva de repetição simétrica no futuro.

Muito interessante, esta observação...

Anónimo disse...


Sempre pensei que um diplomata apenas cumpria instruções do seu Ministro e quando discordasse com elas, pedia a exoneração do seu posto.

Sabia também que um Embaixador devia e podia esclarecer o seu Ministro quanto a politícas de relacionamento com o país onde se encontrava, para depois receber aquilo a que se chamou as instruções continuadas.

Não sabia que um diplomata, na sua profissão, exercia a sua visão do mundo político.

Ou seja: Fiquei a saber que ao longo da sua carreira o diplomata hoje é também um "Enviado" do seu partido no relacionamento desse partido e o Ministro.

Em algumas épocas, quando os regimes mudavam em Portugal, sejam os militares como os diplomatas solicitavam a sua exonarização para não terem de servir outros governos e ideais.
Agora parece que isso já não acontecerá. Os mesmos funcionários públicos podem servir gregos e troianos sem problemas.
Só quem não conhece por dentro as Necessidades é que não sabe o que lá vai dentro. É como antigamente nos conventos....

Luis Quartin-Graça disse...

Comparando com Espanha, em Portugal a situação é sem qualquer dúvida muito diferente e melhor. Lembro-me sempre do caso de um primo afastado meu, diplomata espanhol muito próximo do PSOE, que quando os socialistas estavam no governo era imediatamente nomeado para postos como a NATO, Londres ou no equivalente espanhol à nossa NUOI (foi representante permanente / embaixador nesses três sítios) mas, quando o PP ganhava o poder, voltava logo para uma qualquer gaveta em Santa Cruz. Como o próprio comentou ao meu pai quando passou da NATO ou da NUOI à direcção do património do MNE espanhol, logo a seguir a uma vitória eleitoral do PP : "Antes contava misiles, ahora son vajillas"

Anónimo disse...

O anónimo das 17:43 não sabe o que diz

Anónimo disse...

Um diplomata é um funcionário público.
Claro que obedece ao governo de turno.
"Só quem não conhece por dentro as Necessidades é que não sabe o que lá vai dentro."

p.s. Alguns são contudo habilidosos!!!