Muita gente que conheci “chegou” a marxista passando, quase obrigatoriamente, pelo Zamora ou, em versão um pouco mais sofisticada, pela Marta Harnecker. Outro estádio essencial do acesso à bela teoria absoluta do óbvio sócio-económico era ler os “Princípios Fundamentais de Filosofia”, de Politzer. Os de lágrima fácil estagiavam antes na “Mãe”, do Gorki, ou, para quem fosse dado ao produto local, na “Engrenagem”, de Soeiro Pereira Gomes, mais primário do que os “Esteiros”. Com estas referências, lidos depois o “Manifesto” e uns extratos simplificadores de Marx (“Salário, Preço e Lucro”, “Trabalho assalariado e Capital” e as “Teses sobre Feuerbach”), estava criado o substrato que permitia debitar, com garbo, um mínimo da vulgata marxista. Depois vinha o “resto”: Lenine, Stalin, Trotsky e, para quem fosse dado a coisas mais étnicas, o velho Mao. E tantos e tantos outros, que hoje jazem no meu espólio na Biblioteca Municipal de Vila Real. Se não tivesse passado pelo marxismo, a minha perspetiva da vida tinha sido outra, eu teria sido outro e, “for the record”, gosto de ser como sou. Devo a Juan Clemente Zamora, no seu simplismo às vezes muito maniqueísta, o ter-me ajudado a perceber o mundo. Depois, como dizia Marx, era importante passar à frente e conseguir transformar esse mesmo mundo. Aqui chegados, cada um fez o que pôde ou o que quis.
