segunda-feira, 11 de maio de 2020

A Aspirina do Jorge


“Ainda não sou médico! Mas já posso receitar Aspirinas!” 

Num final de tarde de 1967, o meu amigo Albano Tamegão, que comigo partilhava um quarto de estudante no Porto, preocupado com um febrão que me apoquentava os dias, decidiu pedir a um colega mais velho, do curso de Medicina que ambos frequentavam, para ir “consultar-me”, lá a casa. 

O “quase médico” era o Jorge Ginja. Todos éramos integrantes do Teatro Universitário do Porto, onde passávamos as horas livres dos nossos dias, num ambiente de camaradagem cultural que ajudava a compor uma vida de estudante que começava nas diferentes escolas universitárias que frequentávamos e que acabava no mundo que existia no fundo daquele esconso corredor, entalado entre a GNR e o que então era a Faculdade de Letras, antes ou depois passando, quase obrigatoriamente, pelas mesas do Piolho, onde cruzávamos o pessoal do Orfeão e do Coral. 

O Jorge lá me “receitou” a Aspirina e estou vivo, até hoje. Não é o caso dele, que acabo de saber que morreu, na terra onde eu nasci, em Vila Real.

Um dia, já há muitos anos, no guarda-vento da Gomes, dei de caras com o Jorge Ginja. “O que é que andas a fazer pela minha terra?”, perguntei-lhe.  Desde esses anos no Porto, em que fizéramos digressões teatrais pelo país, de Coimbra à Covilhã, passando por Amarante e Vila Real, tinha-lhe perdido o rasto. O Jorge, com aquele sorriso nervoso que era sempre o seu, disse-me: “Trabalho cá. Agora vivo em Vila Real.” Fiquei contente.

Depois, com os anos, assisti ao Jorge transformar-se num “vila-realense” adotivo. Não apenas como médico, mas também como figura da nossa Cultura, que passou a representar no Norte. Ligavam-me a ele, como logo entendi, algumas cumplicidades políticas, embora ele viesse de raízes ideológicas que se tinham mantido, até bem mais tarde do que eu, num terreno radical. Alguém, um dia, me disse, numa caraterização política que me agrada, que o Jorge Ginja era uma “voz grossa”. Era isso mesmo! E ainda bem!

Recordo-me do abraço forte que me deu, creio que em 2013, numa tarde pardacenta, no fundo da Avenida, numa manifestação contra o vírus que então se chamava “troika”. “Fico muito contente por te ver por aqui”, disse-me, talvez porque achasse menos curial que um embaixador reformado se juntasse àquele repúdio público à indecência política.

O Jorge Ginja era um puro, um homem com o sentimento à flor da pele. Um bom sentimento. Vou sentir falta dele - das mesas da Gomes ao balcão da Tosta Fina, passando pelos almoços no Lameirão, onde nos vimos pela última vez. Fico com a sensação de que nunca falámos tanto como talvez devêssemos ter falado, caro Jorge! Mas a tua Aspirina curou-me. Para sempre!

(Artigo que hoje publico no “Jornal de Notícias”)

4 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Bela homenagem à amizade e às convicçoes , para là dos tempos, com um toque de nostalgia.

Lúcio Ferro disse...

Lamento pela sua perda. Esse Jorge parece-me um tipo que mereceria imenso a pena conhecer. De qualquer modo, fiquei deliciado com a sua referência ao teatro e às tertúlias no Café Piolho. Vai na volta o senhor embaixador terá conhecido o meu avô, Fernando Gaspar, que foi director do Teatro Experimental do Porto, andou na Árvore e na Seiva Trupe. Ainda cheguei, muito menino, a ir com ele ao Piolho e recordo com nostalgia aquelas acaloradas discussões artístico-políticas no final da década de 70, por entre mesas repletas de bicas e com gigantes nuvens de fumo dos cigarros a transmitirem uma magia que me parecia sobrenatural. Grande bem haja.

" R y k @ r d o " disse...

Olá:- Com aspirina ou sem aspirina a amizade é assim mesmo. Nem sempre, mas muitas vezes, eterna.
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Feliz inicio de semana
Proteja-se

Rui C. Marques disse...

Grande sábio , o Jorge .