domingo, 3 de maio de 2020

Os livros da vida (7)

Foi naturalmente a carreira diplomática o motivo pelo qual alguém, um dia, me recomendou que lesse o “Les Ambassades”, de Roger Peyrefitte. O romance tinha ligação com um anterior, que só vim a conhecer mais tarde, “Les Amitiés Particulières”, uma obra de muito melhor qualidade literária. Peyrefitte escrevia primorosamente, embora muitas suas obras posteriores (como “Les Clés de Saint Pierre”, “Les Juifs”, “Les Fils de la Lumière” e, em especial, “Les Américains”, dentre os poucos mais que dele li) acabassem por fazer cedências a um modelo deliberadamente escandaloso, que o transformaram num “escritor maldito”, que a sua assumida pederastia bem justificava. O “Les Ambassades” é um romance divertidíssimo. Passado na Atenas pré-Segunda Guerra, ali se caricatura, com ironia e maestria, o microcosmos da embaixada de França, com os conflitos internos entre os titulares das várias funções internas. Quando entrei para a diplomacia, e por bastantes anos, aquele modelo tinha ainda algumas similitudes com a nossa própria realidade. Peyrefitte viria a escrever uma sequela, “La Fin des Ambassades”, já sem o mesmo fôlego e graça. 

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