quarta-feira, 6 de maio de 2020

Os livros da vida (10)


Depois da sua implosão, a União Soviética deu origem a 15 diferentes Estados. Por motivos profissionais, tive o privilégio de visitar quase todo esse mundo que, nos dias de hoje, tem com Moscovo relações muito diversas - de algum amor a um imenso, e até crescente, ódio. Dos Bálticos aos Cáucasos e à Ásia Central, a antiga URSS deixou um mar de nacionalidades díspares. Um dia, sabendo do meu grande interesse por esta área do mundo, alguém me falou deste livro de uma autora bielorrussa, que havia sido, em 2015, Prémio Nobel da Literatura. O livro foi, para mim, um verdadeiro “murro no estômago”. É difícil classificá-lo. Nele se cruzam conversas com vítimas e nostálgicos da União Soviética, trazendo-nos a memória (ia escrever “sofrida”, mas a palavra não chega) dos tempos de Stalin, da 2ª Guerra Mundial, da invasão nazi, dos horrores, das fomes, das humilhações, mas também das grandes e pequenas alegrias de um povo muitas vezes mártir, outras vezes bárbaro, hoje “apátridas” de um passado, ao mesmo tempo glorioso e trágico, que o fim da Guerra Fria transformou num magma de frustrações e num palco de oportunismos. Fica a perceber-se melhor, acabada a leitura, a razão pela qual a Rússia é hoje dirigida por Putin. Saí deste livro, que me marcou imenso, com um respeito muito grande pela tragédia de quem passou pelo inimaginável. Lê-lo foi uma experiência única. E não digo isto de muitos livros.

2 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Parece evidente que os povos da antiga União Soviética, os tais “15 diferentes Estados,” que menciona, ainda lá estão. Com a implosão da União Soviética, mudaram de regime político. Mas os povos existem.

Como muito bem escreve, podem ter “ nos dias de hoje, com Moscovo relações muito diversas - de algum amor a um imenso, e até crescente, ódio”. Isso é verdade, Senhor Embaixador. Mas pelos menos, todas essas “nacionalidades” existem.

Não se pode dizer a mesma coisa, dos antigos vizinhos destes, essas outras “nacionalidades”, que emigraram pelo Estreito de Bering, para o continente contíguo, ao qual se chamou América.

Os chamados povos ameríndios, ou tribos “índias” assim chamados por engano por Colombo, desapareceram todos, alguns completamente, massacrados pelos colonizadores europeus que construíram sobre os seus ossos a Great América…E se alguns vestígios subsistem de alguns povos, o ódio também lá está.

Não sei se o Senhor Embaixador, teve a oportunidade de passar alguns dias na Florida e foi visitar o Povo Seminola, que, ainda hoje, são o único povo em guerra contra o governo dos Estados Unidos. Porque nunca se renderam e não assinaram nenhum armistício e continuam a viver no meio dos jacarés.

Também li o livro do “Fim do Homem Soviético”. Não tirei as mesmas conclusões. Sempre me questionei, o que teria resultado da Revolução de Outubro 1917, se as potências europeias, em nome do capitalismo, amedrontado pela nova ideologia proletária, não tinham estrangulado a revolução com as suas forças militares e embargos.

E não tinham provocado a Primeira Guerra Mundial, que pôs a Rússia de joelhos, faísca da Revolução de Outubro.

Penso nisso cada vez que passo Boulevard de Sebastopol, ou Rue Malakoff, ou Rue de Odessa, ou de Crimeia, em Paris…

Washington teve mais sorte quando lançou a guerra de libertação da colónia, contra os Britânicos. Lafayette veio ao seu socorro. Mas também é verdade que nessa época e talvez ainda hoje, para os Franceses, os Britânicos eram o “cordial inimigo”…

Não existe nenhum povo no mundo que tenha sofrido tanto como o russo, excepto talvez o chinês, contra os japoneses e os europeus, (Guerra dos Boxers), e durante a guerra civil, contra Tchang Kai Chek, aliado aos americanos… e aos japoneses…

E é bem por isso, que contrariamente ao Senhor Embaixador, respeito mais Mao que este traidor que fugiu para Taiwan…

José Figueiredo disse...

Também o tenho.
José Figueiredo