terça-feira, 26 de maio de 2020

A política e a Cultura

Os titulares da Cultura são, entre nós, uma espécie governativa com uma esperança de sobrevivência potencialmente escassa. O financiamento orçamental que é alocado ao setor é, desde há muito, bastante inferior às reais necessidades para satisfazer as esperanças dos vários lóbis. Alguns, com capacidade de movimentação nas franjas político-partidárias do poder, ainda conseguem assegurar umas linhas promissoras, mas genéricas, nos programas de governo. Esses grupos de interesses movimentam-se logo que chega um novo titular, na ânsia de serem eles, dessa vez, os beneficiados. Os governantes disfarçam quanto podem o óbvio “bluff” em que atuam e vão ganhando tempo junto dos agentes do setor, até ao momento em que, para alguns destes, fica muito claro que a manta está longe de poder cobrir todos e não vai abranger muitos. Entram então em processos reivindicativos - em si mesmos justos, porque foram iludidos nas suas expetativas - com forte cumplicidade dos media, onde, por natureza, encontram ecos de simpatia, facilitaos pela notoriedade de algumas das personalidades que são a cara do setor. Nessa altura, com um qualquer pretexto ou por desgaste, os titulares acabam por ser mudados e recomeça a dança. Esta é a minha visão. Corresponderá à realidade?

6 comentários:

Anónimo disse...

está erradíssimo. basta começar por chamar lóbi e grupos de interesses (queimando-os e ofendendo-os) a milhares de precários e trabalhadores pontuais que fazem da arte a da cultura a sua vida.

Esquece os milhares de pessoas que são actores, cantores, dançarinos, performistas, aderecistas, costureiras, bilheteiristas, electricistas, carpinteiros, pintores, produtores, realizadores, cenógrafos, fotógrafos, montadores, argumentistas, dramaturgos, escritores, artistas plásticos que não vão à televisão, passam fome e não têm a sorte das joanas vasconcelos.

Anónimo disse...

A grande questão da cultura é esta: há que secar a fonte a agentes cujas atividades estão desfasadas da realidade sócio-cultural que os rodeia e reforçar os apoios àqueles que, de facto, podem fazer a diferença.

O cinema é o caso mais flagrante do desperdício de dinheiro. Enquanto continuamos a financiar um cinema de autor, eminentemente masturbatório, assustadoramente arrogante na forma como os realizadores se julgam donos de fundos públicos devido a uma qualquer superioridade intelectual/artística (um cinema feito para medalhinhas em festivais da "especialidade"), não permitimos que se estabeleça uma indústria audiovisual forte que, à base de tentativa-erro, vá começando a produzir conteúdos "mainstream" que permitam aos portugueses terem o direito de "se verem" no écran.

É arrepiante como qualquer adolescente, hoje em dia, sabe mais da História de Inglaterra ou dos EUA do que da de Portugal, precisamente porque o mundo lhes entra em casa pelo écran e só lhes é fornecido "mundo" em inglês.

Vemos países pequenos como a Dinamarca ou a Noruega produzirem séries (e até filmes), de grande qualidade, nas suas línguas, sem qualquer pressão da ideia do "mercado pequeno". Vemos países anglossaxónicos de pouca população (Canadá, Austrália, Nova Zelândia), competirem ao mais alto nível, vemos o audiovisual espanhol a dar cartas e, depois... o que nos resta? Cinema de autor!

Com o teatro a situação é diferente (o meio também o é), mas o princípio mantém-se: que sentido faz financiar companhias sem brilho, sem público, sem ligação ao todo, só porque se acha que a criação artística é um estado de espírito superior onde o mérito é medido por padrões incompreensíveis e a vontade individual do artista se deve sobrepor ao interesse do coletivo?

Casa Muzambike disse...

Talvez seja uma parte substancial da realidade. No entanto, as atuais movimentações (manifestações) do setor da cultura resultam de uma movimentação (reorganização ) sindical que não deixando de ser um "lobbie" são também uma manifestação das tensões que existem entre a crescente privatização (concentração) dos espaços culturais públicos (na forma de concessões) para exploração comercial (por privados) que "externalizam" o trabalho dos profissionais da cultura, precarizando a relação laboral.
Na leitura sindical. O Estado constrói (teatros, centros culturais, museus, monumentos, bibliotecas, etc.). Depois Concessiona a empresas privadas a exploração. Finalmente financia os espetáculos (às empresas). Com a concessão deixa de haver trabalhadores diretamente contratado (externalização) e o "bolo" fica mais escasso (porque exige uma maquina administrativa que pequenas empresas não dispõe).
As Nações Unidas (através do PNUD) tem andando a vender estas ideia sobre a Economia ou Criativa em África.

Anónimo disse...


então como a cultura também se poderá associar à arquitetura
li com interesse o artigo na internet
Assim serão as casas no pós-Covid - lições aprendidas com a pandemia
onde são sugeridas várias alterações por exemplo
2. Terraço ou varanda, sim ou sim. “Os terraços devem ser incluídos no programa mínimo de habitação.
3. Áreas de desinfecção na entrada….Isso significa que seria uma zona livre de vírus. O piso deve ser de porcelana ou um material poroso baixo, resistente a produtos abrasivos. E deve ser pensado um armário para roupas e sapatos para ficar nesse ponto antes de entrar na casa. Incluir um lavatório para lavar as mãos…

diria que seria muito importante repensar a maneira como são construídos varandas e terraços
atualmente totalmente inimigos das crianças e potencialmente perigosos porque com as respetivas grades permitem as quedas mortais, simplesmente porque a curiosidade natural das crianças as leva a debruçarem-se e/ou a trepar por cima de cardeiras que lá são colocadas, etc
sendo que as construções são concebidas por arquitetos, confirmadas por engenheiros, e autorizadas por serviços públicos
e não vemos ninguém a por em causa essas armadilhas
e só não acontecerão mais desgraças porque as crianças passam muito tempo nas creches e nas escolas

Francisco Seixas da Costa disse...

O Anónimo das 9:14 não entende que um lóbi ou um grupo de interesses são perfeitamente legítimos, como forma de representação?

Francisco Seixas da Costa disse...

O Anónimo das 9:14 enviou um comentário complementar insultuoso. Tem um problema de literacia: não percebe que o meu post é favorável ao pessoal da cultura que, sistematicamente, é iludido pelas promessas dos partidos políticos.