quarta-feira, 6 de maio de 2020

Os portugueses e o medo


Julgo que o comportamento dos portugueses, sob pressão desta pandemia, quer no modo como auto-regularam de imediato o seu quotidiano, quer na sua posterior interação com as determinações saídas do poder político, é talvez, a grande distância, o melhor retrato coletivo que o país deu de si mesmo, desde há muitos anos. Posso imaginar a “mina” que isto pode vir a ser para os nossos cientistas sociais.

Muitos de nós temos relutância em aceitar, sem a questionar, a ideia generalizadora de que “os portugueses” são “ assim” ou “assado”, embora também não resistamos, de quando em vez, a cair nessa caricatura, em especial por contraponto a outras nacionalidades - e os espanhóis são os que estão, quase sempre, mais à mão para essa comparação. Esse escrúpulo em fugir à generalização baseia-se na constatação de que essa imagem assenta bastante em preconceitos, o que os franceses qualificam com a bela fórmula de “ideias recebidas”.

Essa leitura estática do modo de “ser português” não beneficia, por exemplo, da influência das novas gerações, sujeitas a uma exposição sem precedentes às ideias exteriores, a referenciais e modelos cada vez mais comuns, através de um mundo digital que entra por todos os poros da sociedade. Teoricamente, essa influência, porque é transportada por uma linguagem idêntica, assente nas mesmas plataformas de informação, deveria tender a ser uniformizadora e a conduzir a formas de reação basicamente similares, independentemente das fronteiras, em especial em sociedades marcadas por padrões civilizacionais com grande aproximação.

Ora não foi isso que aconteceu. Nesta crise, cada país reagiu de forma diferente, as suas estruturas políticas tiveram atitudes e hesitações muito variadas, o mundo mostrou que, por muito que a sociedade global tenha hoje uma grande força, o modo de agir nacional continua ainda a ser, no final de contas, o referente essencial para o comportamento dos povos, em especial quando expostos a medos existenciais.

Entre nós, esta pandemia, mesmo que tenha carreado para o dia a dia atitudes em alguns casos contrastantes, desde um tropismo para a submissão temerosa até a atos de rebeldia libertária, projetou, no entanto, um modelo comportamental maioritário muito claro, do qual - aí sim! - podem extrair-se, com inteligência e métodos sociológicos apurados, conclusões muito interessantes sobre o que são, afinal “os portugueses”.

Será que é sob a influência dos medos coletivos que acabamos por nos conhecer melhor?

5 comentários:

Anónimo disse...

O seu texto beneficiava bastante de uma simplificação. Tem um estilo muito formal, como de quem quer parecer que está noutro nível. Tive de ler algumas passagens mais do que uma vez...

VRijo disse...

Escreve livremente, como pensa. Lê quem quer ler, entende quem quer entender. À primeira ou apenas depois de (re)ler algumas passagens.
O senhor embaixador, está de facto intelectual e moralmente num patamar distinto de muitos.
Nutro uma profunda admiração pelo senhor e desejo que continue a partilhar com quem o deseje, os seus pensamentos e reflexões.
Obrigado.

Vitor Rijo.

Anónimo disse...

Quando não se percebe à primeira, não é proibido ler mais umas vezes, até perceber melhor. Mas se tiver desenho, é ainda melhor.

Anónimo disse...

Que se queira ou não, estamos numa fase da vida do país onde é evidente e necessário que exista o sentido da poupança, que não se desperdice nada, porque há muita gente que tem falta de tudo,
portanto um grande esforço na distribuição dos equipamentos e dos produtos
e que se utilizem os recursos do continente e das ilhas para o bem de todos,
que se fabrique no país esses equipamentos e produtos de que precisamos
- por exemplo, ninguém fabrica termómetros?!

José Figueiredo disse...

Senhor Embaixador,
Concordo com a sua opinião.
Também me deixou agradavelmente impressionado - e igualmente orgulhoso - o modo como toda a estrutura técnico-científica do país tem ajudado. E, já agora, sem esquecer pequenos detalhes evitáveis, o poder político tem estado à altura. Tivemos sorte ter o António Costa ao comando nesta fase. Eu sou seu eleitor e apoiante mas não acrítico, e julgo que foi o melhor homem na hora certa.

José Figueiredo
Braga