domingo, 17 de maio de 2020

José Cutileiro


Hesito sempre, quando penso em José Cutileiro, se destacar mais o genial criador dos “Bilhetes de Colares”, essas pequenas crónicas ficcionadas, supostamente da autoria de um inglês residente na Várzea, reformado dos serviços secretos e com um “caso” subliminar com um cabo do Exército, que lhe traduzia os textos e aconchegava os lençóis, escritos num português límpido e enriquecido por uma memória culta, atento como poucos às nossas idiossincrasias, ali refletidas de forma por vezes cruel mas, nem por isso, menos verdadeira, típica de quem, estando cá dentro, manteve o seu olhar por fora, se a figura pública, misto de interventor político e de personalidade académica, que terá ficado na memória da maioria de quantos apenas o conheciam pelo nome, em especial pelas suas informadas análises da situação internacional, para onde decantara anos de uma vivência atenta ao terreno global, com especial relevo para o trabalho mediador desempenhado nos Balcãs, ao lado de lorde Carrington, visão que nele sempre refletia um realismo cético, marcado por um sentido assumidamente pessimista dos rumos do mundo, quiçá fruto da sua passagem pela diplomacia, onde um dia acedeu por escolha política, para uma casa que o aceitou e que indiscutivelmente beneficiou da válida contribuição que ele lhe prestou, e que acabou por lhe induzir uma espécie de sentido do que é possível fazer com as coisas tais como elas estão, a ele que vinha de uma afetividade e de uma nostalgia óbvia pelos tempos em que a relação transatlântica fora o centro incontestado do equilíbrio geopolítico que protegia a nossa segurança, a que o fim da Guerra Fria começou por introduzir muita esperança para acabar por se consagrar, como hoje está, num ambiente de desconfiança, criando alguma orfandade não resolvida à Europa, de cujo instrumento político-militar formal, a UEO, ele foi o derradeiro secretário-geral, tarefa da qual saiu, com prestígio, para uma experiência universitária breve, cumulada ao seu sempre inteligente comentário público sobre os rumos do mundo, para as nótulas sobre o quotidiano e as suas histórias com os outros que deliciam no seu “Inventário” bloguista, bem como para os ricos obituários de figuras, algumas ignotas para quantos não faziam parte do mundo anglo-saxónico que era a sua nunca desmentida “praia”, escritas semanalmente no “Expresso”, num estilo que se distinguia por não usar pontos finais a sincopar o texto, o que, em jeito de homenagem, arremedo neste que aqui lhe dedico, na hora da sua morte, que hoje foi anunciada, com um beijo de pesar à Myriam.

9 comentários:

joana gaivota disse...

Sr embaixador.que texto!!li-o de um fôlego. nem um ponto final. lembrei aquele texto maravilhoso do Almada, "A flor " que eramos obrigados a ler no liceu e que detestávamos porque com dez doze anos , era quase um labirinto. ficamos mais pobres sem aquela visão com que todos os domingos ele iluminava o "Estado do sitio da TSF",. Notava-se a cada semana uma debilidade crescente no modo como se expressava. curioso estive a ouvir o programa antes de saber da sua partida e essa sensação de fragilidade foi muito evidente.

AV disse...

Que bela homenagem, até no estilo. Gostava de ler José Cutileiro. Excelentes obituários, algo que cultivamos pouco, e que o autor deste blog também faz exemplarmente.

Anónimo disse...

Caro Francisco,

Belo texto.

Tenho muito para dizer sobre um homem que me viu no dia em que nasci, e que foi meu amigo até hoje, mas não consigo.

Estou a dedicar-lhe uma garrafa de vinho tinto, em memória das muitas que bebemos juntas, de Paris a Cape Town e do Robuchon ao English Bar.

Um abraço de longe

JPGarcia

J.Barreto disse...

Parabéns, bateste o record nacional de comprimento de período.
Abraço

Anónimo disse...

A homenagem do Sr. Embaixador não é apenas às qualidades intelectuais de José Cutileiro mas também ao estilo do falecido nos obituários que fazia para o expresso, que eram um dos pontos altos do jornal. Uma pena, mas é a vida.

Cícero Catilinária disse...

As nossas referências, as boas, estão a desaparecer, sr. Embaixador. Tristes tempos.

josé ricardo disse...

Estava a ler o post e a pensar no comentário que iria fazer não relativamente a José Cutileiro, mas ao autor do post, o qual passaria, obrigatoriamente, pelo estilo da prosa, à José Cutileiro, prosa essa que nem todos conseguem conceber, ainda para mais quando nos ensinam, na escola, que se deve escrever frases curtas, para uma melhor inteligibilidade da mensagem, o que é errado, pois no alicerce dos períodos corretamente longos campeia um sabedor manuseamento da língua e foi por isso que antecipei o seu panegírico ao antigo embaixador que hoje faleceu (relativamente à estrutura do texto, claro), que é extraordinariamente merecido, aliás, eu também, com este comentário, tento seguir, modestamente, a mesma linha laudatória, tentando esboçar um texto em que o ponto final esteja só no final da frase, que é este que aqui se encontra mesmo à frente.

Anónimo disse...

O grande Marcel Proust escrevia páginas inteiras sem nenhuma pontuação , quantas vezes voltei ao princípio da página pois começava a esquecer o sentido daquilo que estava a ler , mas que delícia e que prazer chegar ao fim , quase sem fôlego ...

Renato Rodrigues Pousada disse...

O Saramago fazia coisa semelhante, senão pior... A minha avó materna que tinha sido professora da escola primária dizia-me "Que malandro que ele é não mete pontuação..." Mas isso não a impediu de o ler avidamente enquanto a sua cabeça funcionou...
Não conheci Cutileiro mas a prosa escrita não precisa de pontuação se o que está escrito é "travolgente" como dizem em italiano...