sábado, 16 de maio de 2020

“Angola é nossa!”


Há uma imagem que me marcou. Um final de tarde, ou uma noite, em frente ao edifício do governo civil de Vila Real, com gente a discursar da varanda central. Eu tinha pouco menos de 13 anos e recordo-me de que fui ali com o meu pai. Era uma manifestação de repúdio pela tomada da então chamada Índia portuguesa, pelas tropas invasoras da União Indiana, ocorrida dias antes. Os discursos eram inflamados e, de entre os oradores, recordo-me do Dr. Carlos Sanches, professor liceal e, ao que creio, presidente da Junta Distrital. O meu pai também ali estava no meio da multidão, solidário com a forte rejeição do país perante a ação violenta que “nos tinha roubado” o Estado da Índia.

Poucos meses eram passados, ainda nesse mesmo ano de 1961, e guardo a imagem de ter visto marchar pela cidade, desde o Regimento de Infantaria 13 até à estação de caminho de ferro, o primeiro contingente que dali partia para Angola, em “missão de soberania”, como então se dizia. Tinham uma farda de caqui bege, com um boné de pala da mesma cor. A cidade aplaudia-os. Provavelmente, também o fiz.

O país tinha ficado visivelmente chocado com as imagens, abundantemente mostradas, de corpos de “brancos, pretos e mulatos” chacinados à catana, no norte de Angola, durante os ataques da UPA. Pela rádio, diariamente, chegavam-nos relatos, em tom épico de reportagem patriótica, através de uma voz inconfundível que descrevia essas atrocidades. “De Angola, Ferreira da Costa”, era assim que terminavam essas reportagens na Emissora Nacional.

Em minha casa havia unanimidade: desde o meu avô, que eu sentia como salazarista, de quem fora “condiscípulo” em Coimbra, até ao meu pai e aos seus cunhados, filhos desse avô, que detestavam o ditador. “Angola é nossa” era então a palavra de ordem indiscutível.

Faço estas notas para sublinhar algo que, às vezes, tem sido esquecido: nesse tempo, podia ser-se ferozmente anti-salazarista e, no entanto, ser-se a favor da manutenção das “possessões portuguesas no Ultramar “. 

Era o caso do meu pai, apoiante de Humberto Delgado, que ficou deliciado com a tomada do Santa Maria por Henrique Galvão, que teve forte pena de que Botelho Moniz não tivesse conseguido derrubar Salazar, que viria a lastimar que o posterior “golpe de Beja” se tivesse gorado. E que, no entanto, ficou indignado com a invasão do Estado da Índia e apoiou a reação militar portuguesa às “ações terroristas” em Angola.

Passados que foram esses primeiros tempos de choque, que foi muito genuíno, a captação emocional do país em favor da “guerra do Ultramar” começou a declinar. Não me recordo de mais nenhum ato de empenhamento “ultramarinista” significativo, lá por Vila Real, embora os deva ter havido, promovidos pelos apoiantes do regime. O início da mobilização militar dos civis, num ambiente político onde a aceitação da exaltação nacionalista já tinha tido melhores dias, viria a tornar a causa da guerra pouco popular em Portugal.

Mas voltemos um pouco atrás. Como é sabido, o republicanismo português havia sido, desde a sua origem, fortemente “colonialista”, tendo a palavra, aliás, uma conotação muito positiva no seu discurso. 

Da crise do Ultimatum à entrada na Grande Guerra, a questão do “Portugal pluricontinental”, por muito tempo, esteve no centro da doutrina republicana e, depois do 28 de Maio de 1926, nunca dividiu as forças oposicionistas da linha que prevalecia na “situação” consagrada pela ditadura. 

Vale a pena lembrar que, no final dos anos 40, a unidade das forças oposicionistas fez-se à volta de Norton de Matos, um general que se orgulhava de ser um criativo “colonialista”, tendo no seu orgulhoso currículo o governo de Angola. E, menos de uma década depois, essa mesma oposição juntou-se para apoiar Humberto Delgado, um general dissidente do salazarismo, que havia defendido desde a primeira hora, e a quem, à época, ninguém tinha ouvido uma palavra de contestação da política colonial do regime.

Só nessa segunda metade dos anos 50, com o surto de independências de antigas colónias europeias e, em especial, depois da Conferência de Bandung, em 1955, que se reuniu em torno dos novos países descolonizados, o PCP, seguindo a linha da URSS, passou a defender o direito à independência dos povos coloniais. Seria, aliás, a primeira força da oposição a fazê-lo. Porém, logo a partir de então, a linha anti-colonial tornou-se rapidamente maioritária no seio da oposição à ditadura, em especial na extrema-esquerda de orientação pró-chinesa, alargando-se depois aos meios católicos radicais, onde começou a germinar um discurso pela “paz” que viria a tornar-se muito popular.

Lembro-me, contudo, que, na Comissão Democrática Eleitoral (CDE) de Vila Real, ainda em 1969, que tinha uma natureza “catch all” de todos quantos se opunham ao Estado Novo, o tema era ainda bastante divisivo. O facto de um dos nossos candidatos ter afirmado que queria “manter o Ultramar português”, num discurso num comício, levou-me, uma noite, a provocar uma “crise” na CDE de Vila Real.

Quase até ao 25 de Abril, subsistiu, na vida política portuguesa, um setor oposicionista mais conservador, em torno do chamado Diretório da Ação Democrato-Social, que sempre se recusou a subscrever a postura anti-colonialista do resto da oposição. Após o 25 de abril, esse setor viria a aderir, quase em bloco, ao então PPD.

Apeteceu-me deixar hoje aqui esta nota memorialística dos tempos em que, também eu, cantei o “Angola é nossa!” Ninguém é perfeito!

17 comentários:

Lúcio Ferro disse...

Como dizia Ortega y Gasset O homem é ele próprio e a sua circunstância. Pior são os homens que, ultrapassados pelo circunstância, permanecem eles próprios. Ainda hoje haverá uns quantos saudosistas do colonialismo e outros tantos que enchem a boca com o "crime" que foi a nossa descolonização, como se a circunstância a que o salazarismo nos conduziu nessa matéria pudesse ter permitido algo de significativamente diferente.

Anónimo disse...

Estando em Angola, em 1971, participei numa operação militar, nos Dembos, comandada e imaginada pelo general Costa Gomes, cujo principal objectivo foi distribuir pelos “turras” latas de ração de combate” e camisolas, hoje chamadas “T-shirt “ e antigamente “de interior” com uma enorme legenda “Angola é Portugal”

João Vieira

Jaime Santos disse...

Cabe lembrar que Roosevelt já tinha exigido a Churchill o fim do Império Britânico: https://en.wikipedia.org/wiki/Atlantic_Charter. Não apenas a URSS, mas também os EUA apostavam no fim do colonialismo europeu e na constituição de esferas de influência ou mesmo na manutenção de Estados clientes (a auto-determinação dos povos tinha limites, bem entendido).

A tentativa de preservar um Império era pois uma esperança quixotesca de uma nação fora do tempo. Para além da manutenção de povos inteiros em servidão ser profundamente injusta, bem entendido.

Mas Salazar sabia que sem o Império, Portugal seria demasiado pequeno do ponto de vista demográfico e económico para não ter que se integrar numa das ditas esferas de influência.

O génio de Mário Soares foi ter percebido, contra as correntes pró-soviéticas e pró-terceiro-mundistas, que não restava a Portugal outra alternativa que não a de seguir um caminho europeu, inédito na nossa História.

A potência hegemónica do ponto de vista económico nessa Europa é naturalmente a Alemanha, que finalmente e após duas guerras destrutivas travadas em prol de uma vã hegemonia imperial, encontrou uma vocação liberal e cosmopolita, isto depois de Bismarck se ter desentendido com o Kaiser porque era contra uma política de expansão colonial (curiosamente, a ortodoxia legalista ordoliberal alemã ameaça hoje essa mesma 'ordem alemã' benevolente).

Não surpreende aliás que o Reino Unido, a outra potência com pretensões hegemónicas no continente, tenha decidido primeiro entrar na CEE quando a sua política de desenvolvimento industrial falhou nos anos 70 e depois decidido sair quando verificou que estava a ser progressivamento marginalizado pelo avanço do processo de construção europeia.

O Brexit pode ser resumido à constatação de que dois galos não podem ocupar o mesmo poleiro :) ...

Resta a Rússia, que aposta na desintegração da influência alemã, mas que deveria preocupar-se antes de tudo com uma gestão interna que a atual pandemia expõe por aquilo que é, corrupta e incompetente.

E da corrupção e incompetência nem os EUA se livram...

Anónimo disse...

Terrível e universal?! os países estão constantemente em luta para se enfraquecerem uns aos outros, até as nações amigas não fazem outra coisa?!
num artigo há algum tempo, um jornalista francês escrevia que em Goa os habitantes locais mantinham um nível de vida duas vezes superior ao nível de vida dos indianos da Índia e mesmo assim não foi possível manter lá a bandeira!
por outro lado me parece que os republicanos seguiam a linha de defender as colónias porque um dos ataques à monarquia foi ter essa cedido ao ultimato inglês, ou não é bem assim?!

Anónimo disse...

Aqui está um relato histórico objectivo e zero ideológico, de quem não quer " reescrever" a História

Anónimo disse...

Os mais esclarecidos do Portugal de 60, incluindo no governo, sabiam perfeitamente que o colonialismo tinha os dias contados e que os países africanos chegariam à independência.
E também sabiam que os chamados movimentos de libertação, na maioria imbuídos do marxismo-leninismo não estavam preparados para a independência imediata,e que se tal acontecesse iriam conduzir as novas nações para guerras civis e retrocesso de toda a ordem. Estavam certos como a história veio a mostrar.

Anónimo disse...

Vê-se mesmo que Lúcio Ferro se está "marimbando" para a nossa "exemplar" descolonização. Acha-a uma coisa menor, ignorando que tirámos aqueles povos de uma servidão e entregámo-los a uma bem pior. E não venham com a treta de que não podia ser de outra maneira, que a culpa foi do Salazar. Não, a culpa foi também ( e principalmente) dos descolonizadores, que eram profundamenente ignaros. A não ser que atribuamos a ignorância deles a Salazar. É uma perspectiva...

Anónimo disse...

O Brasil foi excepção, sem guerra pela independência, nem guerra civil!

aguerreiro disse...

Inesquecível o contacto radiofónico ás 8 da noite, numa emissão cheia de "ratos" "gatos" e "trovoadas" de impossível entendimento provocado pelo "balanço" da Onda Curta em que era transmitido para a Metrópole e que era escutada num rádio de valvulas e de díodos (pois a Sony e os transistores não existiam por cá) e que abria sempre assim:
-Aquiloanda... fala Ferrrreira da Costa! e entrava a marcha soturna de AAAnngooola é Nossssa.
Claro aquilo ia andando como bem dizia o locutor Ferreira da Costa.
A propósito não se lembram da canção "os canhões da velha Goa e as bombardas de Diu são e serão sempre terra portuguesa"
.

alvaro silva disse...

Quanto ás imagens da chacinas ao contrário do que diz elas nunca foram, nessa altura, de domínio público, pois foram censuradas tal como outros casos. Essas imagens eram cedidas apenas aos soldados que iam para Angola já no barco, para irem fazendo o "aquecimento". O regime do Salazar NUNCA mostrou ao povo em geral essas imagens, embora fossem correndo por cá através da tropa

Unknown disse...

Face ao referido pelo anónimo das 19.03
Os esclarecidos sabiam tudo, viam os ventos da história a mudar, por uma razão ou outra as potências coloniais do antigamente a perder/entregar (ou como se quiserem referir) as colónias, a França a perder militarmente a Indochina, a Argélia, a Bélgica a entregar o Congo e os nossos esclarecidos tudo viam.
Eram tão esclarecidos que não pensaram em testar modelos diferentes, em formar os "colonizados", criar quadros a sério, que não pensaram que, até 24 de Abril de 1974 não tínhamos (como outros mais poderosos que nós não não tiveram numa só frente), capacidade para ganhar militarmente em 3 frentes.
Tão esclarecidos que nunca perceberam que a solução nunca podia ser militar.
Tão esclarecidos, inclusive no governo, que nada fizeram.
E a culpa é de quem, depois de 25 de Abril de 1974, teve que fazer à pressa os que os esclarecidos não fizeram nem preparam durante décadas.
Desculpe, Sr. Embaixador, um "desabafo" tão extenso no seu blogue.
Eduardo de Melo Parente

dor em baixa disse...

O que Roosevelt exigiu à Inglaterra foi que abrisse aos EUA os direitos que detinha sobre as suas colónias como mercados exclusi vos. É claro que isso funcionou como o 1o prego no caixão do colonialismo inglês que começou a desfazer-ser no pós-guerra. Os EUA ainda foram a tempo de praticar um último fôlego de colonialismo ao capturar para si duas colónias que conquistaram à Espanha: Cuba e Filipinas.

Jaime Santos disse...

Caro Eduardo Parente, Perfeitamente, mesmo se houve conversações entre o Governo Português e os movimentos de libertação, a política oficial foi sempre a da preservação dos ditos 'territórios ultramarinos'.

Por isso, quem se queixa da descolonização (que convenhamos não correu bem, mas sempre quero saber qual das antigas colónias africanas de potências europeias acabou como um regime democrático), deveria lembrar-se que pouco ou nada foi feito antes do 25 de Abril para que Portugal saísse de África decentemente e de cabeça erguida e possibilitando aos colonos brancos permanecer lá no pós-independência.

Aliás, para Salazar a preservação do Império era essencial. Caetano tinha porventura ideias diferentes, mas perfeitamente inexequíveis.

Portugal recuperou a sua independência em 1640, também graças a uma revolta na Catalunha, esmagada pelos Espanhóis. A Catalunha é uma das regiões mais desenvolvidas de Espanha e no entanto os Catalães insistem na independência. Fica a pergunta a todos os que argumentam que Portugal deveria ter ficado em África porque a situação das antigas colónias é hoje má: gostariam de ser Espanhóis?

A auto-determinação que vale para nós também vale para os povos africanos...

7ze disse...

Permita-me, senhor embaixador, assinalar uma pequena imprecisão, sem importância para o entendimento do texto: a invasão de Goa tendo sido a 18 de Dezembro, a sua memória parece tê-lo atraiçoado quando se situa uns meses depois, nesse "mesmo ano".

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro 7ze. Se há coisa de que sou cioso são as datas. A manifestação, tenho ideia, ocorreu nos primeiros dias de janeiro de 1961, depois de consumada a ocupação. Foi por isso que referi ter sido no mesmo ano. Se foi em dezembro, o texto tem um erro.

Jaime Santos disse...

Caro dor em baixa, a Atlantic Charter fala especificamente no direito dos povos à autodeterminação, ver o artigo na Wikipedia.

E quanto à prática americana de defender uma coisa e praticar outra, fui suficientemente claro. Basta pensar na doutrina Monroe que continuou e continua a ser praticada na actualidade. Casos egrégios nos anos 50 são a Guatemala de Árbenz e a Pérsia de Mosaddegh... Intervenções posteriores são legião. Isto para além dos casos que refere, evidentemente.

A mesma crítica pode ser aplicada à política da URSS, quer de apoio aos movimentos de libertação nas colónias europeias, quer sobretudo no que diz respeito ao estabelecimento de estados clientes no Leste Europeu que invadiu a seu bel-prazer quando este não seguiram a linha de Moscovo: revolta de Berlim-Leste no 17 de Junho de 1953, invasão da Hungria e invasão da Checoslováquia.

Portugal lutava contra a política de dois gigantes, estava condenado ao fracasso.

Mas mais importante do que isso, a causa colonial portuguesa era injusta. Se os Portugueses defendem a auto-determinação para si, também a deveriam defender para os outros.

Por isso é que qualquer cinismo em relação aos motivos das super-potências não serve para justificar coisa nenhuma, porque no limite o que mostra é inveja pela força bruta desses Países.

A falácia que é o argumento do 'fardo do Homem Branco' revela-se no momento em que o caso moral para ele se confronta com a hipocrisia (quando não com o racismo) de quem reclama a liberdade para si e não para os outros.

É tão simples quanto isso.

Anónimo disse...

Alguém aqui escreveu que a independência do Brasil não implicou guerra. É mentira!!!
Houve guerra, sim, entre portugueses e brasileiros. Houve batalhas e até se deu a contratação de um inglês para comandar uma frota brasileira que perseguiu o comboio de navios que trazia as nossas últimas riquezas de São Luís do Maranhão para Lisboa, tendo uma grande parte da nossa frota sido apanhada já à vista de Lisboa.

Essa de independência fraterna é uma das muitas tretas que se contam na nossa História.