domingo, 3 de maio de 2020

Das mães



Há bastantes anos, telefonei a um amigo para lhe dar um abraço de pesar pela morte da sua mãe. Recordo-me de ele me ter dito que uma das coisas de que mais se arrependia era do facto de não ter conversado com ela, até ao fim, tanto quanto deveria ter feito. Fiquei com isto na cabeça e prometi a mim mesmo vir a ter isso em atenção, no futuro. Não tive. A minha mãe morreu há quase vinte anos. Até hoje, penitencio-me regularmente por não ter falado com ela tudo aquilo que deveria ter feito, o que sempre ponho à conta da vida algo errante (e, quando o não era, muito ocupada) que fui tendo. Mas, pensando melhor, esta é talvez uma ideia sem sentido: falamos com as pessoas, antes delas partirem de nós, exatamente aquilo que teria de ser. Alterar isso, forçar conversas só para as ter, seria artificializar o que, afinal, é apenas a coisa mais natural das nossas vidas.

Há uns meses, associei-me a uma iniciativa pública onde cada pessoa lia um poema sobre mulheres. Na altura, escolhi um texto de Eugénio de Andrade, chamado “Pequena Elegia de Setembro”, que aqui publiquei.

Repito-o, lembrando-me bastante, neste dia (embora, para mim, o dia da Mãe continue a ser o 8 de dezembro), da minha mãe: 


Não sei como vieste,

mas deve haver um caminho

para regressar da morte.



Estás sentada no jardim,

as mãos no regaço cheias de doçura,

os olhos pousados nas últimas rosas

dos grandes e calmos dias de setembro.



Que música escutas tão atentamente

que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?

Ou é dentro de ti

que tudo canta ainda?



Queria falar contigo,

Dizer-te apenas que estou aqui,

mas tenho medo,

medo que toda a música cesse

e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio

com que teces os dias sem memória.



Com que palavras

ou beijos ou lágrimas

se acordam os mortos sem os ferir,

sem os trazer a esta espuma negra

onde corpos e corpos se repetem,

parcimoniosamente, no meio de sombras?



Deixa-te estar assim,

ó cheia de doçura,

sentada, olhando as rosas,

e tão alheia

que nem dás por mim.

3 comentários:

Anónimo disse...

Tão bonito! Que linda homenagem à sua, e atrevo-me a dizer, a todas as mães. Bem haja, Ana Paula

Joaquim de Freitas disse...

De facto é todos os dias , o Dia da Mae. Quem nao pensa na sua no decorer das horas, até ao pôr do sol?

Julieta disse...

Poema lindo, tocante, emocionou-me.
Bem Eugénio de Andrade. Bem Setembro. Bem jardim das Mães, de todas as Mães, porque as Mães não morrem.
E todas, todas, amam as rosas.
Obrigada.