quarta-feira, 20 de maio de 2020

Os medos da Europa


Há dias, ao selecionar livros para entregar a uma biblioteca, dei-me conta de que começava a dispensar dezenas de volumes sobre questões europeias. Tendo encerrado anos de experiência diplomática, e depois académica, a utilidade daqueles livros tinha desaparecido. Por ali estavam coisas desde os primórdios a tempos mais recentes da construção europeia. Alguns desses textos, na sua época, foram tidos como “definitivos”, pelo que, se houvesse tempo, teria graça serem comparados com a realidade superveniente. Mas não há tempo.

A Europa integrada é um ser mutante. Vai-se adaptando e procurando encontrar medidas capazes de protegerem os seus interesses, mas apenas pode fazê-lo quando constata ter condições para as consensualizar, o que se tem revelado cada vez mais difícil. Tem uma evolução não uniforme, aos “saltos” e por ciclos. Por isso, quando se fala do projeto integrador europeu, estamos, ano após ano, a referir-nos a coisas que vão sendo sempre diferentes. 

Do mesmo modo, as ambições iniciais nada têm a ver com aquilo que os Estados membros querem da atual União Europeia - e é hoje muito claro que nem todos querem a mesma coisa e, em certos casos, querem mesmo coisas que, não sendo à partida opostas, acabam por se opor. O aumento do corpo de políticas e da cobertura geográfica, esta com uma imensa diversidade introduzida, desenham uma realidade que torna o processo decisório muito mais complexo.

A experiência provou que, ao lado do grande catalisador de opiniões que foi o seu inegável sucesso como projeto de paz e de desenvolvimento, os temores – isso mesmo, os medos – tiveram um papel não despiciendo na construção europeia, pela positiva e pela negativa. 

Desde os receios que fundaram a Guerra Fria até às dúvidas traumáticas que se instalaram aquando da crise financeira, passando pelas tempestades de opinião criadas em torno do terrorismo, mas também dos debates sobre refugiados e migrantes, tudo mostra que, sempre de modo não linear, a Europa reage motivada por ciclos de temores. Foram esses temores que levaram os britânicos ao Brexit, foi o medo do Brexit que levou os restantes 27 a criarem uma eficaz frente negocial face a Londres.

Nos últimos dias, através da força motriz que, mesmo com altos e baixos, sempre foi o eixo franco-alemão, terá ficado gizada uma possível resposta aos efeitos devastadores da pandemia, num tempo político global que já era de extrema complexidade. Uma vez mais, a Europa parece ter acordado à beira do precipício. 

4 comentários:

Anónimo disse...

Há quem diga que se trata de mais um remendo num trapo roto, usado e abusado. Ou seja, de Tratado em Tratado até onde, até o quê?.

aamgvieira disse...

Neste momento um português com netos já têm de:

Pagar as facturas da guerra colonial.

Pagar as facturas do PREC

Pagar as facturas da governação socialista

Pagar os três resgates

Pagar o próximo resgate

Pagar o custo da pandemia

Portanto o futuro está sempre garantido com as maravilhas do socialismo, que governa sempre com o dinheiro dos outros países !





do PREC, da governação socialista e dos quatro resgates. Porque não juntar-lhes a da pandemia?

Anónimo disse...

Normalmente as pessoas que não fazem nada pela sociedade vivem da dizer mal dos que ao menos tentam fazer. Deve ser a gente dessa que o anónimo das 01:30foi buscar S frase que reproduz

carlos cardoso disse...

Esquecemos muitas vezes (outros nunca as souberam) as origens da construção europeia e é pena, pois elas ajudam a perceber a situação atual, mesmo que, como diz o Embaixador, “as ambições iniciais nada têm a ver com aquilo que os Estados membros querem da atual União Europeia”.

Esquecemos, por exemplo, que a ideia foi lançada por Churchill, ainda durante a guerra. Esquecemos que o primeiro passo foi dado em 1949 pela criação do Conselho da Europa, à época com 10 estados membros; que 10 anos depois foi considerado que, para evitar uma nova guerra (entre a França e a Alemanha), as industrias de guerra - carvão e aço - deveriam ser geridas em comum e apareceu a CECA, depois seguida pelo Euratom; que, para relançar a agricultura francesa e a industria alemã foi depois lançado o que seria mais tarde a CEE, à volta do que se chamou a política agrícola comum (PAC); que durante muitas décadas a construção europeia resumiu-se ao eixo franco-alemão impor aos outros estados membros essa política (a troco de outras benesses, bem entendido); enfim que esta situação só começou a mudar com a queda do muro de Berlin para se tornar no que é hoje, onde cada governante europeu quer a Europa que lhe convém.