quarta-feira, 27 de maio de 2020

Nós por lá


Quando era embaixador em França, foi-me um dia chamada a atenção para o facto de um comediante, Patrick Timsit, ter feito comentários depreciativos sobre a comunidade portuguesa.

No meu anterior posto no Brasil, tinha-me defrontado, por mais de uma ocasião, com situações idênticas. Algumas vezes houve em que achei oportuno responder a esses comentários, às vezes com “estrondo” mediático. Outras, decidi não reagir.

Este é um problema que se coloca, de forma recorrente, aos embaixadores: avaliar se devem ou não atuar, em face de ataques públicos ao seu país ou aos seus cidadãos. Há que ponderar se tal reacção não acabará por ter um efeito desproporcionado, isto é, se não ajudará a chamar mais atenção para a questão do que aquela que ela teve no momento em que ocorreu. E, depois, nos casos em que decidirmos intervir, há que ainda que escolher e medir o tom que essa intervenção deve ter. Podem crer que é uma questão nada fácil.

No caso de Timsit, optei por aguardar, com vista a perceber se a questão tinha repercussão. Não teve e o assunto morreu.

Há dias, surgiu num canal televisivo um filme que tinha fados de Amália como banda sonora. Parei o zapping por ali. Era uma comédia francesa, com alguma graça, “Marie-Francine” - por cá seria chamada “50 são os novos 30” - assente num romance entre uma técnica de laboratório e um cozinheiro, cuja mãe era uma porteira portuguesa. O papel desse franco-português era desempenhado por Patrick Timsit.

Apetece-me dizer que tudo está bem quando acaba bem.

5 comentários:

Anónimo disse...

Esses comentários "depreciativos", se fossem feitos a pretos ou ciganos ou mexicanos ou lá que "espécie protegida", tinham acabado com a carreira do indivíduo.

https://www.youtube.com/watch?v=8c5zQ7IUg5A

Luís Lavoura disse...

Os comediantes, ou seja quem fôr, tem o direito de fazer comentários depreciativos sobre quem quiser, sem ser objeto de censuras ou críticas por esse facto. A isso chama-se liberdade de expressão.
O embaixador de Portugal pode e deve intervir se uma instituição pública do país estrangeiro fizer comentários depreciativos. Não deve, de forma nenhuma, intervir se um cidadão particular do país estrangeiro fizer tais comentários.

Anónimo disse...

No exercício dos meus direitos de livre expressão e proteção contra quaisquer críticas ou censuras desejo aqui manifestar que considero o Luís Lavoura um perfeito cabeça de abóbora.

Anónimo disse...

Recomendação : ver ( e rever ) o magnífico filme de Ruben Alves “ A gaiola dourada “ , com a excelente interpretação de Rita Blanco ...
À bon entendeur ...

Anónimo disse...

O racismo anti-português manifesta-se de outras formas. Por exemplo, tenho reparado que os produtos que compro na cadeia Leroy Merlin/AKI (francesa) vêm com indicações em português e... brasileiro. Sim, não é, sequer PT-BR, é mesmo "BR". A coisa vai ao ponto de as instruções virem distanciadas (não vá alguém aperceber-se de que o texto está repetido).

Ora... uma pessoa fica a pensar (quem se der ao trabalho), para que servem as embaixadas e as CPLP da vida permitindo que num país (para já), se vá consolidando a ideia de que do outro lado do Atlântico não se fala português. Mas, como bem diz FSC, tudo está bem quando acaba bem e, calculo, todos entenderão as instruções dos produtos.

Já o tipo maquiavélico (e que não seja deslumbrado por francesices), talvez se lembre do "forcing" francês junto de algumas ex-colónias nossas e de que "partir" a família lusófona é uma boa forma de, a seguir, desmerecer Portugal em África, amaciando os poderes locais para uma aproximação à francofonia.

Mas isto sou eu que tenho mau feitio...