quinta-feira, 14 de maio de 2020

As Seveiros


Há tempos, passei por aquela casa, de traça modernista, a caminho do Pioledo, nas traseiras do Colégio de São José, lá por Vila Real, perto do Núcleo do (meu) Sporting, e lembrei-me delas, das Seveiros.

Quem eram as Seveiros? Não sei, nunca as vi, mas a minha memória de infância guardou para sempre esse plural, algo majestático e misterioso, que designava umas senhoras (imagino que fosse mais do que uma) que eram, à época, as "modistas" mais qualificadas da cidade. "Mandou fazer o vestido nas Seveiros", dizia-se em Vila Real, como selo de qualidade garantida. 

(Vale a pena dizer que, para os homens, os alfaiates "a sério" eram, então, o Batalha e o Pontes. Este último, caprichava mesmo em anunciar os seus méritos nos altifalantes do Campo do Calvário, no intervalo do jogos, ou nas noites de passeio das famílias na Avenida, com duas quadras que ficaram na memória local: "Se quer um fato perfeito / de acabamento ideal / tê-lo-á, mas se for feito / no Pontes, Vila Real" ou "Se deseja no trajar / ser modelo em Trás-os-Montes / seus fatos mande talhar / pelas hábeis mãos do Pontes". Não sei quem foi o poeta, mas reconheçamos que era "inspirado", como então se dizia.)

Nesse tempo, nas cidades, havia as "costureiras" e havia as "modistas". Lembro-me que as primeiras iam "lá a casa". Todos os anos ficavam um dia ou dois, a subir ou descer baínhas, a fazer pequenos arranjos. Já às modistas eram as senhoras quem se deslocava, levando às vezes na mão um modelo tirado da "Modas & Bordados", outras vezes com uma página rasgada da "Flama" ou de alguma revista brasileira.  

De uma cena, que, sei lá porquê, ligo sempre ao final das tardes de sextas-feiras, me recordo bastante bem: as Seveiros enviavam a minha casa o produto do seu trabalho pelas mãos de uma miúda, com um tabuleiro coberto com um pano de linho, tendo no fundo uma nota manuscrita com os seus honorários, sem o IVA que o dr. Cadilhe inventou e que o dr. Centeno não dispensa. Lembro-me da miúda porquê? Porque tinha mais ou menos a minha idade e uns olhos que perdi de vista mas não de memória.

Voltando ao princípio: “as Seveiros” é um grande nome! Posso estar enganado, mas estou convicto de que, se o Eça tivesse "apanhado" o nome das Seveiros, tê-lo-ia usado num qualquer enredo de província.

3 comentários:

" R y k @ r d o " disse...

Bom dia:- Não conhecia. Grato pela partlha.
.
Saudações amigas
Cuide-se

Maria Isabel disse...

Na minha terra eram "as mansas".
Eram 3 irmãs de apelido Manso.
Tinham loja de fazendas e outros tecidos e retrosaria onde estava uma delas e o irmão.
As outras 2 eram as modistas de alta qualidade.
Maria Isabel

Anónimo disse...

O Eça "descobriu "as Gansoso"... em Évora e "levou-as" para Leiria, a frequentarem a casa da Amélia...Eram todas dadas à igreja, "tão finas", mas tão mexeriqueiras"...
Coisas do Eça...
MB