segunda-feira, 2 de abril de 2018

Madrid


Vou contar uma história dos anos 90. Um dia, no governo, desloquei-me à capital espanhola, para um encontro bilateral sobre assuntos da União Europeia. Era então meu contraparte Ramón de Miguel, também secretário de Estado dos Assuntos Europeus.

Ao longo da minha carreira, nas conversas informais com os meus amigos e interlocutores espanhóis, habituei-me a usar sempre o meu “portuñol”, porque entendo sempre muito bem o castelhano deles.

A reunião de Madrid, que tinha um caráter formal, começou com uma proposta de Ramón de que eu, tal como os colaboradores que me acompanhavam, falássemos em português, com os espanhóis a usarem sua própria língua. O meu interlocutor percebia muito bem o português, porque fora diplomata em Lisboa. Mostrava-se convencido de que tudo correria bem, dessa forma. Eu, confesso, não estava, mas aceitei o desafio.

A conversa até começou bem. Porém, a certo passo, comecei a dar-me conta de que os integrantes da delegação espanhola, com exceção de Ramón de Miguel, davam claras mostras de não estarem a conseguir seguir aquilo que eu dizia, muito embora eu me esforçasse para falar lentamente e com frases simples (o que, aliás, me dava um trabalho acrescido). E, embora em menor escala, verifiquei que, do nosso lado, a compreensão da língua de Cervantes e dos nossos interlocutores estava também longe de ser total. A situação ameaçava, assim, tornar-se embaraçosa.

Não sei se foi Ramón de Miguel se fui eu quem, num determinado momento, interrompeu a reunião, propondo mudarmos ambos de língua, para que toda a gente entendesse tudo bem. Julgo que teremos passado para o francês. De um momento para o outro, o ambiente mudou, para melhor, com a angústia de alguns visivelmente a atenuar-se, de ambos os lados da mesa. 

Para quem, como todos nós naquela sala, andava pelos corredores comunitários de Bruxelas, onde então o francês e o inglês se equiparavam no uso, e até se misturavam algumas vezes (o chamado “franglais”), foi de grande comodidade recuperar o léxico do “europês”, que fazia parte do nosso dia-a-dia. Mas não deixava de ser estranho que delegações de dois países com línguas muito similares se vissem forçadas a usar um terceiro idioma para se fazerem compreender plenamente.

Hoje, daqui a umas horas, vou estar em Madrid, para reuniões de trabalho. Como acontece, muitas vezes, em todas as empresas multinacionais com as quais trabalho, essas reuniões vão passar-se exclusivamente em inglês, única língua veicular comum a todas as pessoas que vão estar presentes na sala (ou intervenientes por video ou audioconferência). 

Mas há que reconhecer que esta “ditadura” do inglês é terrível! Nos últimos anos, no âmbito de reuniões dessas empresas, já tem sucedido ficarmos, por algum tempo, apenas portugueses na sala de uma reunião. E é bizarro verificar que, em regra, mesmo nessa circunstância, continuamos a falar inglês, porque toda a documentação em que nos apoiamos está exclusivamente escrita nessa língua, pelo que é muito mais fácil continuar a operar com base em conceitos cuja tradução portuguesa seria difícil - e, pior do que isso, completamente desnecessária para a finalidade do nosso trabalho.

Os britânicos estão prestes a sair da União Europeia. Mas, na língua, já nos “colonizaram” para sempre.

10 comentários:

Anónimo disse...

O para sempre é uma coisa que não existe.

A Nossa Travessa disse...

Meu caro Franciscamigo

Com o meu inglês arranhado qual rabeca de cego velho pelas esquinas sentado e com a caixa de esmolas pendurada sobre o peito fui-me safando pelo Justus Lipsius e pouco mais, pois o Berlaymont estava em obras or causa do amianto. Mas muitas vezes usei o castelhano em que sou barra, o francês em que também sou, o italiano e o alemão em que digo "coisas" e o Romeno em que me "arrisco". Enfim, eu pecador me confesso...

Um abração deste teu amigo e admirador
Henrique, o Leãozão

NB - Se já não bastasse o criminoso BdeC, na "Pedreira" foi um vê-se-avias...

Joaquim de Freitas disse...

Basta entrar num hotel de standing no Algarve ou Estoril e Cascais, ter 1,84 e olhos azuis, e jà temos o direito ao "Good Morning" habitual, ao qual respondo sempre com um "Bom dia" e pergunto se o Português ainda se fala em Portugal... Irrita-me esta subserviência ! Como me entristece os esforços de muitos Portugueses da classe média ou quase, para manter as "aparências" custe o que custar. O tal "para inglês ver", expressão da qual não conheço a origem !

Anónimo disse...

Essa voluntária colonização pelo inglês e a subserviência aos espanhóis é uma das coisas que impede tanta gente por cá de aceitar a luta dos Catalães.

Ana Vasconcelos disse...

Quando comecei a ir a reuniões na Comissão no inicio dos anos 90, estas ainda eram conduzidas ou em inglês ou em francês, dependendo de quem coordenava a reunião. Passados muitos poucos anos (talvez em 95/96) reparei que já só se falava inglês nas reuniões. Mas na altura brincávamos com o facto de que os que pareciam ter mais dificuldade em seguir os outros eram os próprios nativos da língua ...

Anónimo disse...

Ai que o Freitas tem olhos azuis, é alto e louro! Que homem!

Se um dia quiser descer da nuvem, aperceber-se-á que isso acontece a qualquer um. O que interessa é a expetativa relativa aos clientes e não o aspeto de cada um.

Anónimo disse...

A língua internacional ao longo dos tempos foi variando conforme a utilidade e as razões.
Dizem que o português foi uma das linguas interncionais nos primeiros tempos de navegação no Atlantico devido ao nosso avanço técnico.

O latim foi a forma dos países do norte da Europa de fugirem à predominância do francês no século XVII, na linguagem diplomática.
A partir do século XVIII toda a Europa falava em francês em tudo que era lugar e também nos países do norte da Europa até ao fim da 1ª guerra mundial. Foi no congresso de Versailles que os americanos introduziram o inglês como lingua obrigatória nas relações internacionais mas que só foi aplicado a partir da instalação da ONU em Nova York .

Como se vê as línguas vão-se adaptando ao temppo e às razões.

Tudo isto não começou ontem.

Ainda me recordo de em Portugal nos finais dos anos 60 quase ninguém falar inglês em Portugal seja nas grandes cidades ou na província. Podiam até conhecer algumas palavras mas não conseguiam ter uma conversa seguida. Já o francês sendo uma linguagem mais intelectual podia ser conhecido, mas a pronúncia era detestável. O francês e o inglês nos liceus não dava para mais.
Na Faculdade de Letras de Lisboa tive a ocasião de frequentar uma cadeira de Frnacês do 3º ano de românicas. Quando os alunos tiveram de expor oralmente um trabalho em francês foi o desastre total. O único que expos devidamente fui eu que nem era de românicas, isto nos principios dos anos 80.

Anónimo disse...

Vocês de Portugal, utilizam muita bem a língua portuguesa, dando preferencia a termos em português para designar notoriamente palavras que são utilizadas em inglês, tal como Centro Comercial ao invés de Shopping. O Português do Brasil está tão poluído com anglicismos, sendo que os brasileiros mal sabem falar o português, quiçá entender o inglês. Os brasileiros tem muita dificuldade em aprender idiomas, já o português fala fluente o inglês e o francês, quase todos da nova geração. Usamos termos em inglês por acharmos pretensamente mois importantes e chique!!! Hahahaha!

Anónimo disse...

bem, o inglês já nos colonizou. e onde é que são as reuniões das multinacionais a que pertence? a madrid, evidentemente. aí tem outra colonização a que adere de bom grado.

João Cabral disse...

Verifico no entanto que o senhor embaixador abusa frequentemente de termos anglo-saxónicos nos seus escritos, sem necessidade alguma. Será de começar a estar mais atento e de os eliminar.