quarta-feira, 4 de abril de 2018

As Pedras


O prazer que a minha mãe teria ao ver servir, na cafetaria de um museu madrileno, uma garrafa de água das suas Pedras! 

As Pedras Salgadas, as recordações da sua infância, as tias por lá, o chá no terraço, os hóspedes do Colonial, os picnics de família com retrato a preto-e-branco, a vinha pequena que o meu avô lhe ofereceu pelos anos, o pontapé inaugural do primeiro campo de futebol, o parque, os jantares no Avelames, as tardes na Casa de Chá, os bailes no Chalet e no Casino, os cavalos nas Romanas, as horas do acontecimento que era a chegada do comboio da linha do Corgo, a fumegar as janelas e a trazer os parentes e os amigos, o deslumbre do Verão, com a loja de rendas do Flores, as “artes” da exposição sazonal no Botelho, lá na Pensão do Parque, os nomes de toda a gente que conhecia pelas ruas, casa a casa, como se dali não tivesse já saído há muitas décadas, as compras no Frutuoso, o café no Rogério, o Franco dos Correios (tinha uma bela filha, lembro-me bem!). 

E, claro, o conforto do caminho eterno para Bornes! E, também, a igreja de São Martinho, o padre Domingos, os casamentos, os batizados e, ao lado, o cemitério, com muitos já por lá, as tristezas sem as quais as alegrias da vida, se calhar, não se apreciavam.

E, sempre, as águas, as fontes, a ”Companhia”, que empregava meia aldeia, as garrafas que dela se recebiam, em caixas grandes de madeira, testemunho do gosto imenso de fazer parte daquela terra única, daquele mundo simples e magnífico.

E, aqui em Madrid, aqui estão elas, as águas das Pedras, agora já sem o orgulho, no rótulo, de serem “radioativas”...

As Pedras, sempre!

2 comentários:

Ricardo disse...

Misturar Água das Pedras com Água da torneira, é "crime". A menos, claro, que seja gelo "radioactivo". Abraço. :)

avelino leite araujo disse...

Sou de Bornes e vivi tudo isso. A casa da minha família fica no Cruzeiro, em frente da Quinta das “Meninas Mesquitas”. A Casa dos Leites de seu nome. Saudades
Os meus cumprimentos