terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Um CDS novo a cheirar a velho


Acaba de se demitir da direção do CDS uma figura que, além de abertos elogios a Salazar e à Pide, tinha escrito esta ”pérola” sobre o 25 de abril: “Era preciso uma Revolução? O país crescia mais de 6 pontos percentuais por ano, a guerra do Ultramar estava ganha, havia emprego e estabilidade, Portugal era reconhecido internacionalmente, tudo estava calmo!”.

A mesma criatura chamou também a Aristides Sousa Mendes “agiota de judeus”, ecoando a raiva que a ditadura tinha ao diplomata que, contrariando as ordens de Salazar, decidiu salvar a vida a milhares de refugiados que procuravam fugir da França, sob o terror alemão.

Longe de mim negar a quem quer que seja o direito a ter aquelas ideias. Foi para isso que se fez o 25 de abril... aliás, contra a vontade dessa mesma gente! Mas um partido que se afirma democrático não pode ter, na sua direção de topo, uma figura daquele jaez. Ou, se a mantém, autoqualifica-se por simbiose.

Ora o CDS, o “novo” CDS, procurou até ao fim proteger politicamente aquele seu dirigente, claramente com o “olho” no eleitorado que pensa da mesma forma que aquela figura. Fica a suspeita, bem fundamentada, de que pretende concorrer no mesmo “mercado” político do Chega.

Com este incidente, o “novo” CDS ficou muito mal na fotografia. Se, ao ser confrontada com o conjunto de afirmações do tal cavalheiro, a direção (ia a escrever “centrista”, mas tive receio de que considerassem isso um insulto!) o tivesse logo posto com dono, teria dado um sinal de aberto repúdio face àquele tipo de posições. Pelo contrário, ao ser apenas “empurrada” pelo escândalo público instalado, procurando mesmo confortar a retirada da figura, deu a ideia de que, afinal, podia viver bem com ela na direção - não fora a circunstância do assunto ter tido a amplitude que teve.

Fica assim provado que o “jeunisme”, em si mesmo, não é uma qualidade, mas apenas uma deriva de sectarismo etário. E quando a isso se soma uma visível misoginia, disfarçada de opção por uma melhor “adequação” às funções, tudo fica ainda pior.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

O carregador de bananas


“Só vou levar pão. Não preciso de cesto”. Comprar pão era a única tarefa da qual tinha sido encarregado por quem manda nestas coisas, lá por casa. Saco pequeno na mão, lá fui eu, corredores adiante, mas de olho guloso nas prateleiras. “Olha que belo shampoo em promoção!” Dava para segurar, mesmo sem cesto! Andei mais um pouco por ali. “E bananas? Ainda haverá, lá em casa? Pelo sim, pelo não...”. Coloquei-as junto ao peito. Estava quase a chegar à caixa, quando vi uma garrafa de “Rola” e pensei: “Este tinto vai lindamente com as alheiras do almoço!” 

E foi assim que fiquei na fila, uns minutos que pareceram imensos, atulhado de coisas que repousavam sobre mim, tudo já num equilíbrio mais do que duvidoso, com as mãos a abarrotar, sem um dedo livre para sequer poder vir a colocar a placa do “Próximo cliente”, depois da tralha da anterior cliente que, como todas as anteriores clientes, nos parece sempre levarem meia loja com elas, não se despachando como deviam.

Algumas senhoras da fila olhavam-me com uma ironia pouco discreta, num leve sorriso piedoso, a pensarem, lá para elas: “Este vem pouco ao Pingo Doce!” (Nem elas sabem da minha missa a metade!).

Foi então que aquele meu conhecido se aproximou. É um vizinho do bairro, reformado, figura que foi histórica nos meios ultra-conservadores lusitanos. Disse-me, com voz que se ouviu por ali: “Há uma teoria segundo a qual os homens são os mais renitentes a usar os cestos nos supermercados”. Ele ia de cesto, claro. Ainda pensei explicar os apelos consumistas cumulativos que me tinham conduzido àquela ridícula figura. Mas era tarde! Ali estava eu, a imagem viva a confirmar a sábia doutrina empírica!

Leões


Um verdadeiro sportinguista não leva a sério o facto de ontem ter perdido aquilo a que alguns chamam o terceiro lugar. O terceiro lugar não é coisa que nos incomode. O Sporting está bem acima disso. Os tempos não nos correm de feição? O Sporting tem todo o tempo do mundo à sua frente. Os clubes eternos são diferentes dos outros! Esses outros não percebem? Claro que não! Por isso é que essa gente não é do Sporting! E ainda bem!

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Tolos

 
Estacionei o carro (Aleluia! Havia um lugar!), peguei no Ipad e no livro com fitinha elástica da Moleskine e dirigi-me ao escritório da empresa onde ia ter uma reunião. Esperavam-me, pelo menos, três horas de trabalho. Estava exatamente em cima da hora. Era raro acontecer-me ser tão pontual!

Foi a meio da tarde da passada sexta-feira. Perguntei pelo “dono” da casa. A simpática jovem da receção disse-me duas coisas, definitivas: que ele não estava e que não havia nenhuma reunião prevista.

Fui então à minha agenda eletrónica. Tinha-me distraído. De facto, a reunião era só na próxima semana. A data daquela sexta-feira tinha sido uma espécie de pré-reserva que eu tinha anotado, mas que não fora necessário utilizar e que eu me esquecera de “deletar”, como dizem os brasileiros. Erro meu! Má fortuna? Nem por isso!

Um imenso banho de felicidade caiu sobre mim. Ali estava eu, sem ter nada para fazer, com três horas livres à minha frente - rigorosamente livres! Três horas sem tarefas para cumprir eram uma vida! Feliz!

A menina que me atendia ficou estupefacta. Em lugar da minha reação ser de expectável aborrecimento, pelo trabalho que tinha tido de me deslocar até ali, de constatar que me tinha enganado e, por isso, de ter de mudar de planos, afinal, eu, pelo contrário, exibia um sorriso rasgado. Deve ter achado bem estranho!

Senti-me na obrigação de lhe dizer: “Perceba que acabo de conseguir ter três horas livres na minha vida, que as vou aproveitar para ir a lojas, comprar livros, beber um copo ou sentar-me num café a ler, sem pressas, um jornal ou uma revista“.

Ela olhava-me, um pouco incrédula perante a minha alegria, tentando interpretar se eu não estaria, afinal, a “fazer um número”. E, em desespero de convição, tentou atenuá-la: “Mas está a chover!” 

A jovem não me conhecia. Avancei então com um argumento de sabedoria, tributário da idade: “Nunca experimentou o prazer que é, com uma chuva miúda como a que por aí está, num dia como o de hoje, sem frio e sem vento, fazer um passeio sereno a pé, sem pressas, a apreciar o brilho giro que a chuva dá às ruas, ao cair da noite, juntamente com o “barulho” das luzes dos carros e das montras? Faça um dia isso e verá que não se vai arrepender!”

Olhei-a nos olhos e, mesmo assim, fiquei sem saber se ela tinha percebido. Infelizmente, acho que não. E imaginei que, dela para ela, deve ter dito: “Se calhar é por causa de tipos como este, que, pelos vistos, gostam de apanhar desta chuva, que chamam a isto “chuva de molhar tolos” “.

Blogues & ofícios correlativos


Entre nós, creio que os blogues entraram verdadeiramente “na moda” na viragem do século. Tratava-se de uma nova plataforma de escrita, que federava amigos e gente interessada no que os outros escreviam, estimulando o comentário e o debate. Tinha a vantagem de poder tornar-se graficamente atrativa, mesmo para os não iniciados nas artes informáticas.

Muita gente surgiu então pelos blogues: intelectuais, escritores, um mundo de pessoas anónimas. Nomes da imprensa apareceram a escrever em blogues, às vezes num registo de Dr. Jeckyll and Mr. Hyde. Outros, pouco conhecidos, viriam a criar aí a sua imagem, e a imprensa viria, posteriormente, a “apanhá-los”. Os blogues foram uma curiosa montra de talentos. A boa escrita de muitas pessoas só me foi acessível graças a eles.

Em Portugal, uma certa opinião de direita, mais radical e liberal, então menos opinativa na imprensa, encontrou o seu espaço no que então se convencionou chamar a “blogosfera”. Muitas figuras do neoconservadorismo partiram dos blogues. Alguns foram mesmo dos blogues para governos. Mas também a esquerda não desprezou a plataforma, longe disso. Verdade seja que os blogues e o seu estilo tiveram então muito a ver com os ciclos políticos e, em alguns casos, tornaram-se interessantes trincheiras da luta partidária: cáusticos, duros, até cruéis. Como os tempos impunham.

Chegou a haver bastantes blogues coletivos, com gente mais ou menos conhecida. Hoje restam poucos. Neles foi interessante observar os “desistentes”, muitas vezes cooptados para funções menos compatíveis com a continuidade naquele tipo de escrita. Ficaram os “resistentes”, algumas almas saudavelmente persistentes, empunhando com teimosia a bandeira.

E, claro, pulularam os blogues individuais, feitos para “solitários”, para quem não quer qualquer confusão com a escrita alheia ou se sente menos cómodo ao ver-se publicado ao lado de quem tem ideias em que se não revê. Conheço alguns! Muitos desses espaços individuais de escrita foram entretanto fenecendo: escrever para si próprio é escassamente estimulante...

Falando apenas de Portugal, acho legítimo concluir que chegou a haver por cá blogues de grande qualidade, alguns tendo dado mesmo origem a livros. E, para ser justo, ainda há por aí blogues bem interessantes, embora não muitos.

Há, porém, uma realidade, que é preciso assumir sem reticências: os blogues passaram de moda. Já ninguém fala nos blogues. E tempos houve em que os próprios jornais, recordam-se?, os citavam. Há uns anos, começava o meu dia pela consulta do que vinha publicado nos meus blogues favoritos. Hoje, passam-se dias em que não visito nenhum blogue, revendo alguns, e muito poucos, quase por atacado, aos fins de semana.

O mundo dos blogues mudou, entretanto, de natureza. Chama-se hoje blogue àquilo que mais não é do que uma montra de produtos comerciais, em lugar de ser uma montra de escrita. Se falarmos da palavra “bloguista” em certos meios, vêm logo à baila as divulgadoras de roupa ou acessórios, promovedoras de conselhos maternais, receitas culinárias e coisas assim. Mulheres, na maioria dos casos. Foi esta a evolução da blogosfera. 

Termino fazendo notar que resistem alguns blogues do passado - uns bons, outros maus, outros péssimos. A maioria dos que ficaram são apenas fonte de opinião, outros são puras tribunas de “fake news”, outros ainda são espaços de insídia e “vendetta”. Há blogues serenos, da mesma forma que há blogues excitados. Há blogues bem escritos, como há blogues escritos com os pés. Há por aqui de tudo, como na farmácia...

11 anos


Olhei há pouco para a data e era isso mesmo: 2 de fevereiro. Foi nesta data, em 2009, há precisamente 11 anos, que iniciei a escrita deste blogue. Fui agora ver as estatísticas. Mais de 4000 dias, nenhum dia sem publicar, pelo menos, um post. Foram mais de 7500 publicações, que originaram mais de 60 mil comentários, cerca de seis milhões e 500 mil visitas, oriundas de 185 países, numa média diária de leitores que hoje anda pelos 1400, dos quais 967 seguidores que recebem os posts à medida que são publicados. Até ver, vamos andando...

Arrependidos


O conceito de “arrependidos” tem várias conotações, algumas aceitáveis, outras à margem da decência. É destes últimos que quero falar.

Aqueles que, entre nós, tinham a idade de todas as aventuras ao tempo do 25 de abril frequentaram, por essa altura, algumas das “capelinhas” radicais em que, à época, a sociedade política se fraturou. A maioria era à esquerda, mas a direita teve também as suas.

O radicalismo de direita, do MDLP ao ELP, que eu desse conta, não trouxe ninguém para a esquerda. Quando muito, essas pessoas moderaram os seus “azeites” e passaram para o CDS ou para o PSD, e parece que ainda os há lá pelo Chega.

À esquerda, as coisas foram diferentes. Alguma gente que andou pelo extremismo dos tempos aúreos da Revolução distribuiu-se por diversos destinos.

Uma parte, parece que maioritária, ingressou na esquerda moderada, com o PS a ser a “casa” de acolhimento mais comum. (Sei do que falo).

Ao PCP, que nem faz parte da esquerda que aqui cuido em caricaturar, só “regressou” quem já lá estava ou, por algum tempo, se fazia de “amigo” no MDP-CDE.

Outros, menos complacentes, recusando-se a enterrar com facilidade a rebeldia que os cabelos brancos lhes aconselhava, tributários do maoísmo, do trotskismo ou saídos do PCP por via crítica, juntamente com alguns “vencidos do catolicismo”, com um certo “pintasilguismo” à mistura, acharam graça à ideia de andar pelo Bloco ou pelas suas franjas. Um amigo meu chama-lhes os “velhoquistas”.

Muita outra dessa gente dos “anos da brasa”, deixou-se de políticas e foi à sua vida, com o voto à esquerda como destino regular mais normal, embora com respeitáveis exceções.

Ah! Ninguém, de toda essa gente de quem aqui falo, tem hoje menos de 60 anos, note-se!

Houve também um número considerável de pessoas oriundas do extremismo de esquerda desses dias que decidiu seguir o caminho da direita. Quase todos, no entanto, eram militantes depois de abril, onde a luta contra o PCP lhes marcou fortemente os genes politicos. Nada a dizer dessa opção. A democracia é isso mesmo e a mudança de ideias, desde que feita por convicção e com sinceridade, é extremamente respeitável. Ver hoje pessoas saídas de grupos radicais dos tempos “de Abril” no PSD e até no CDS não me choca rigorosamente nada. Há-os bem estimáveis, tenho amigos entre eles!

Mas então, perguntará o leitor, a que propósito vem este texto e, em especial, o seu título? É que eu quero distinguir quem, com naturalidade, transitou para a direita democrática, mais ou menos conservadora ou liberal, e aquele núcleo de figuras que, não apenas fizeram essa deriva, mas que hoje se abespinham num novo e ácido radicalismo, numa fúria escrita ou vocal constante contra toda a esquerda, desde logo contra aquela onde empenhadamente começaram o seu percurso político ou a que evoluiu para registos mais moderados, nomeadamente na área socialista.

Esses são os tais “arrependidos”! Eles falam hoje da esquerda, em cujas catacumbas radicais estiveram e prosperaram nesse tempo, com uma espécie de assumido asco, com a falta de pudor com que um divorciado revela segredos de alcova de quem com ele se deitou. São cáusticos para com os antigos amigos que os não seguiram, têm o zelo feroz dos recém-convertidos, são os cristãos-novos do conservadorismo radical. Alguns tentam passar mesmo o rubicão filosófico, adotam, com fervor, os clássicos que em tempos zurziram, ficam extasiados perante os novoS “amanhãs que cantam” (agora os do liberalismo), bebem à pressa (é que eles já não vão para novos...) os teóricos que fazem as delícias de algumas “business schools” e da filosofia política que se ensina onde nós sabemos, amen!

Com o PSD caído nas mãos de Rio, com Passos Coelho em casa, com Marcelo imprestável para o seu projeto, com a “troika” que era a sua esperança posta com dono, com as agências de “rating” a parecerem ”feitas” com a Geringonça, com o diabo atrasado e Bruxelas a sorrir ao país, esses “arrependidos”, angustiados e deserdados do futuro, hoje mergulhados, de forma melancólica, em “blues” de alma que lhes atazanam o sono, estão agora a aproximar-se, ainda a medo, do que lhes chega do Chega, mas ainda não se decidiram se vale a pena ou não investir no Chicão.

Eles vão observando. Nós vamos topando-os.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Adeus, Caixa!


A minha primeira conta na Caixa Geral de Depósitos foi criada quando eu tinha creio que 13 anos. O meu pai era gerente de uma filial da Caixa, em Vila Real. Foi funcionário 47 anos. A Caixa era a sua vida e o seu orgulho. Morávamos no edifício da Caixa.

Era um tempo em que a Caixa era vista pelos seus depositantes como o banco mais seguro do país, onde os mais humildes depositavam, não apenas os seus bens mas, igualmente, a sua confiança. A Caixa era uma imensa pessoa de bem.

Em 1971, fazendo uma surpresa ao meu pai, fiz um concurso público e, a meio do meu curso universitário, entrei para funcionário da Caixa. Foi o meu primeiro emprego no serviço público, onde fiquei, com imenso gosto, 42 anos da minha vida. Creio que data dessa altura uma nova conta que por lá ainda tenho, onde, desde então, os meus salários e a minha reforma sempre foram depositados. Até ao final deste mês.

Durante anos, a Caixa Geral de Depósitos (que então se chamava também “Crédito e Previdência“) foi, para mim, o sinónimo de banco. A minha afetividade pela Caixa era imensa.

Até um dia, até ter começado a ser “agredido” pela Caixa.

Há uns anos, assisti ao espetáculo degradante de ver uma pobre senhora de aldeia gritar, numa dependência da Caixa, em Vila Real. Queria levantar um dinheiro que tinha depositado mas, afinal, tinha-lhe sido impingido, anos antes, um “produto” e, para o movimentar no final da maturidade, tinha de perder parte do capital. A senhora não tinha lido o “small print”. Desmaiou e foi necessário chamar o 112, perante a revolta de quem por ali estava. Fiquei escandalizado, saí dali e queixei-me a pessoas que conhecia na administração da Caixa. Nada aconteceu! Meses mais tarde, um funcionário, a quem contei o episódio, comentou: “Se soubesse o que somos obrigados a induzir os clientes a comprar. Às vezes, até tenho vergonha...”

A Caixa, nos últimos anos, tornou-se, a meu ver, nos dias que correm num dos piores bancos portugueses. Se não mesmo o pior. As suas comissões são obscenas e a qualidade dos serviços bateu no fundo. Há muito tempo que não tenho uma experiência medíocre sempre que recorro aos serviços da Caixa: são todas más!

A Caixa foi recapitalizada pelo Estado (isto é, também por mim e por si, que me lê). Em troca, a Caixa comprometeu-se a comportar-se exatamente como qualquer outro banco. Logo, a Caixa não pode financiar, com quaisquer vantagens, as políticas públicas, nem se sente na obrigação de manter uma rede de âmbito nacional, nomeadamente em locais de onde não extrai lucros, mas onde se pensava que pudesse exercer uma presença de serviço público. Tem de reduzir balcões e pessoal. Mas então, se a lógica é a Caixa funcionar como qualquer outro banco, por que diabo o erário público tem de colocar lá dinheiro? Eu, como contribuinte, não quero ser banqueiro. Mas, dizem alguns, é importante ter um banco do Estado! A mim, confesso, não me apetece ver a Caixa privatizada, apenas por um reflexo ideológico. Mas, intimamente, por muito que puxe pela cabeça, não consigo vislumbrar, com o atual modelo de funcionamento da Caixa, qualquer vantagem em tê-la pública. Para me explorarem nas comissões e depois darem parte dos lucros ao Estado? Talvez preferisse que me baixassem as comissões e os impostos. Mas estou aberto a ser convencido.

Nos dias de hoje, chega-se a uma dependência da Caixa e as filas desestimulam-nos logo dessa triste ideia que tivemos. Ligar pelo telefone para lá é uma missão impossível. Há semanas, estive numa dependência e os telefones tocavam, sob a olímpica desatenção geral. Dizem-me que é a regra. Uma das chamadas desse dia era minha, ali ao lado. Nunca foi atendida. Alguma rapaziada, entretanto, conversava jovialmente e uma parte saía para almoçar...

Há meses, cansado de mudar de “meninas“ que me vinham a impor, sucessivamente, como “gestoras de conta”, tentei mudar de local de agência. Fui ignorado, mesmo depois de vários pedidos. Ando nisto há quase um ano! A Caixa anda a gozar comigo...

Hoje, dia em que a Caixa anuncia que teve lucros de 776 milhões de euros, estive aí uns 45 minutos à espera, numa linha telefónica 707. No final, ninguém me atendeu. Paguei quase seis euros. A Caixa não tem vergonha de sujeitar os seus clientes à exploração das chamadas de valor acrescentado? Vale tudo para ganhar dinheiro, é?

Tenho imensa consideração pessoal pelo Dr. Paulo Macedo, um qualificado gestor graças a quem, noutras funções que exerceu, o fisco é hoje mais eficiente e todos pagamos os medicamentos mais baratos. Mas tenho que confessar que perdi, por completo, a confiança na instituição que hoje dirige.

Depois de quase seis décadas de cliente da Caixa, daqui a dias vou encerrar a minha conta, vou pedir à Caixa Geral de Aposentações para alterar o destino da minha reforma e vou mudar de banco. E levo a família comigo. E alertarei os meus amigos.

Pelos vistos, a Caixa acha que lhe não faço falta, como cliente. Eu, como cliente, também acho que a Caixa, a ”minha” Caixa de sempre, deixou de me fazer falta. Estamos quites. Podemos “desquitar-nos”

Deixo assim de ter “dinheiro em Caixa”. Creio que o meu pai, que entrou para a Caixa em 1929 e saiu em 1976, me perceberia. Talvez com alguma tristeza, como é hoje a minha.

No comments!


Brexit


Ontem à noite, debate na TVI com o presidente da Confederação Empresarial Portuguesa, António Saraiva, moderado por Carla Moita, sobre as questões suscitadas pelo Brexit

Pode ver extratos aqui

Gente Livre


O Livre afastou Joacine Katar Moreira, que passa a deputada independente. Joacine nunca teria sido eleita se o Livre a não tivesse apoiado e o Livre, pela certa, não teria elegido ninguém se não tivesse escolhido uma pessoa como Joacine. Ambos pensaram ter acertado. Enganaram-se. É a vida! Que importância é que isto tem?

O reino


Foi em 2016, em Londres, no caminho para o aeroporto, num “mini-cab”. Viviam-se os tempos anteriores ao referendo sobre o Brexit.

Perguntei ao motorista o que é que ele pensava da possibilidade do Reino Unido vir a sair da União Europeia.

O homem, de tez escura e sotaque iniludível, tinha ideias firmes sobre o assunto: nas últimas eleições tinha votado pelo partido anti-europeu UKIP, por achar que havia toda a vantagem em que o país abandonasse “essa coisa de Bruxelas”. E logo acrescentou: “Não sei de que país o senhor é, mas nós já estamos cheios de estrangeiros, não queremos cá mais”.

Expliquei que era português, mas que não vivia no Reino Unido. Ele comentou, pouco afável: “Há já cá muitos portugueses”.

Deixei “pousar” a conversa. “Onde é que nasceu?”, perguntei, minutos depois. O homem: “No Sri Lanka. Vim há 11 anos para cá. Tenho nacionalidade britânica”. Não me enganara e não resisti a comentar: “Como a raínha...”

Um cidadão da Comunidade britânica, como era aquele motorista, sentia-se “um deles” (lembrei-me da expressão clássica de Margareth Thatcher: “one of us”). E “eles”, sentiriam o mesmo?

Estrangeiro, para aquele homem, era um português ou um grego que, graças a “essa coisa de Bruxelas”, andava a disputar-lhe os postos de trabalho.

Semanas depois, no referendo, esse meu motorista ocasional iria votar “leave”. Ao seu lado, exatamente com o mesmo sentido de voto, iriam estar milhões de cidadãos nascidos e residentes fora das grandes cidades do Reino Unido. Essa sua atitude era, entre outras razões, o resultado dos crescentes receios contra a imigração, nomeadamente de pessoas como o meu motorista, o qual, por outro motivo, iria também ser favorável ao Brexit.

A graça do mundo é que ele nunca é linear.

As cidades sob a chuva


Se não me engano, aqui por Lisboa, ao longo de todo o dia que agora acabou, não parou praticamente de chover, numas horas mais, noutras menos, às vezes uma chuva miudinha, outras apenas “de molhar tolos”. Como foi o meu caso...

Em geral, não gosto de Lisboa com chuva. Lisboa é uma cidade que rima mais com o sol. Já o Porto, pelo contrário, tem uma beleza muito rara quando chove. Por isso, nunca concordei com a “tese” geral daquele poema de Manuel Alegre de que “são tristes as cidades sob a chuva”. Há de tudo, há cidades bem alegres sob a chuva.

Tudo isto para chegar a Londres, a cidade que amanhã se despede da União Europeia, embora os cidadãos dessa cidade - aliás, como os de Manchester, de Liverpool, de Brighton, de Leeds, de York, de Edimburgo, de Glasgow, de Cardiff, de Bristol ou de Belfast - tenham votado maioritariamente para continuar no clube europeu. 

Não sei se amanhã vai chover em Londres, mas, mesmo que assim aconteça, é bom que se note que a capital britânica é das mais belas cidades do mundo precisamente quando chove. E nunca é uma cidade triste. Ou talvez o seja, amanhã.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Brexit


Pelas 21.30 de hoje, vou estar na TVI 24 a discutir o Brexit.

Os novos privatizadores


Andam por aí uns patuscos a querer a RTP em mãos privadas. A ideia regressou, outra vez.

Nos “Bilhetes de Colares”, A.B. Kotter (aliás, José Cutileiro) tinha uma personagem com uma monomania: um projeto para a privatização dos cemitérios. Por que não vão por aí? Sugiro mesmo que comecem pelo do Vimieiro, lá para Santa Comba. Pelo menos, o debate sobre o tema teria a vantagem de ser feito dentro da mesma família política.

A oportunidade

Agora que estão a vir “à tona” alguns notórios fascistas, a direita democrática portuguesa tem uma oportunidade para “limpar a casa” e deixar claro que não se deixa confundir com essa escumalha política. Vários amigos meus desse setor já marcaram as suas distâncias. Excelente!

Os bens

Eu até nem faço parte de quantos acham que se deve entrar num processo de devolução daquilo que saiu das antigas colónias. Mas gostava de notar, para quem parece andar distraído, que isto é um debate internacional com largas décadas. E também não ouviram falar dos Elgin marbles?

A saudade

Não é irónico constatar que a malta que diz "vão para a terra deles" é a mesma que dizia que a terra deles era nossa?

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Nacionalidades


Há muitos anos, na Noruega, exerci as funções de cônsul de Cabo Verde. Através de um protocolo de cooperação entre Portugal e Cabo Verde, a secção consular da nossa embaixada prestava assistência aos muitos cabo-verdeanos que viviam naquele país, que eram aliás muitos mais do que a comunidade portuguesa, que não chegava a duzentas pessoas.

Fui então a muitas festas de Cabo Verde, dei “pontapés de saída” em jogos de futebol entre diferentes equipas dessa comunidade e, principalmente, fiz ótimas amizades no seu seio e ganhei, para sempre, um grande respeito pela diáspora de Cabo Verde, bem como pela singularidade daquele fantástico país africano e atlântico.

O “chefe” da comunidade cabo-verdeana era então um jovem operário, com imenso prestígio entre os seus compatriotas, que tinha obtido, ao final de alguns anos de residência, a nacionalidade norueguesa.

Um dia, procurou-me na embaixada e entrou no meu gabinete de lágrimas nos olhos. Tinha ido a uma repartição norueguesa e, por um motivo qualquer, havia tido um dissídio com um funcionário, constatando que estava a ser tratado como se fosse estrangeiro. Mostrou então o seu cartão de nacional norueguês, recebendo do interlocutor a seguinte resposta: “Você pode ter cidadania norueguesa, mas a sua pele é a mesma”. Aconselhei-o a apresentar queixa e ajudei-o nessa diligência.

Lembrei-me disso, por estes dias. Podemos ou não gostar de Joacine Katar Moreira (eu, em regra, não gosto das atitudes da senhora e não dispenso o meu pleno direito de não gostar e de contestar que, por essa razão, algum imbecil me chame racista), podemos concordar ou não com as suas ideias e propostas (eu raramente concordo), mas configura uma atitude de abjeta xenofobia, indigna da nossa democracia, insinuar que ela “não é bem” portuguesa, no usufruto que faz dos direitos que a sua nacionalidade lhe atribui. Direitos em que se inclui, vale a pena lembrar, a liberdade de ela dizer todas as barbaridades que lhe venham à cabeça, desde que o faça dentro da lei. Chama-se a isto, para quem não souber, Estado de direito.

O preconceito anda por aí à solta, cada vez com uma cara mais política. Devemos estar bem alerta.

A classe política


Recordo-me que Jorge Sampaio detesta o conceito de "classe política" e se irrita quando ouve a expressão. Percebo esta reação, na perspetiva de que um grupo de pessoas que, por via eletiva, ocupa cargos públicos ou aspira a fazê-lo está longe de configurar uma ideia de "classe", ainda que numa perspetiva apenas homóloga das categorias a que a ciência política nos habituou.

Quando por vezes se fala dos atuais ocupantes do nosso Parlamento, surge à memória coletiva de alguns uma espécie de nostalgia sobre a qualidade dos integrantes da Assembleia Constituinte, em 1975/76. Refere-se a circunstância de figuras de forte prestígio nas suas profissões terem então feito parte dessa histórica formação parlamentar. E faz-se logo um paralelo com os deputados dos tempos de hoje, num tom, em regra, depreciativo para estes últimos.

Acho isto de uma profunda injustiça. O momento pós-revolucionário foi uma conjuntura única. Com as escassíssimas exceções de quantos, tendo estado na assembleia da ditadura aí ganharam esporas de atitude democrática que lhes garantiu uma justa cooptação para o novo regime, para a esmagadora maioria dos integrantes do areópago que desenhou a nova ordem constitucional tratava-se de dar um primeiro contributo em liberdade. Tal como aconteceu com o chamado I Governo Provisório, estavam por ali os "talentos" que a jovem democracia tinha conseguido convocar, teoricamente dentre o melhor que o país tinha, o que, para muitos deles, foi mesmo uma primeira experiência política.

Mas as coisas mudaram muito, desde então. A vida política passou a ser feita por gente comum. O desenvolvimento dos partidos, o ciclo dos governos e a vida autárquica deram origem à entrada na vida pública de gente que apenas nessas funções viria a ganhar alguma experiência. Dir-se-á que é pena que muitas dessas pessoas não tivessem, à partida, uma formação profissional própria, para onde pudessem regressar no termo das suas funções políticas. Mas a realidade é o que é. Muita gente deu ao serviço público alguns dos melhores anos da sua vida, desde novo. Se optam por continuar na política - no Parlamento, no Governo ou nas autarquias -, passam a integrar a tal "classe política" e, aos olhos de alguns, são uma espécie de "funcionários" do sistema. Se, ao invés, decidem ingressar na sociedade civil, assumindo funções privadas, são frequentemente vistos como utilizando esses seus conhecimentos para usufruir vantagens.

Não deve ser cómodo, ao contrário do que muitos pensam, fazer parte da "classe política".

Operação de normalização

Um dos deputados da direita radical assumiu ontem no parlamento uma atitude democraticamente inaceitável e abertamente racista. Nada que nos deva admirar, vindo de quem vem. Aguardemos, contudo, nas próximas horas, nas redes sociais e nos media, as “atenuantes”. Estejam atentos.

Um livro

Havia por aí um livro de capa azul, com ideias radicalmente diferentes das minhas, que tinha alguma curiosidade em ler, mas que, por uma questão de princípio, me recusava a comprar. Ontem, uma amiga ofereceu-mo. Agora, está tudo certo.

Rui Pinto

É minha impressão ou na abordagem desta história do Rui Pinto, para além de muita demagogia, anda por aí bastante sectarismo clubista, às vezes disfarçado de argumentário a armar ao sério?

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Confissão

 
Abomino gelatina. Nunca achei a menor graça àquela coisa tremelicante, de gosto duvidoso, que alguns se obstinam em servir, em certas ocasiões. O aspeto até pode ter a sua graça, mas eu não me alimento de graças.

Quando era miúdo, a minha mãe, nas festas que organizava para os meus aniversários, tinha por hábito rechear de gelatina colorida metades de laranja, retirando antes o seu interior, que imagino ia parar a sumos ou a saladas de fruta, partindo depois aos gomos essas metades. Eu nem tocava naquilo! Vivia na esperança de que os meus amigos de escola primária, convidados para aqueles lanches, se deliciassem e atulhassem com aquela coisa de cor viva, deixando-me a mim um maior usufruto das sandwiches, das bolachas, dos pudins, dos bolos, dos chocolates e de outras coisas verdadeiramente sérias.

Sei lá bem porquê, precisamente na data que é a de hoje, senti uma forte vontade de comer uns gomos de gelatina colorida em casca de laranja, como aqueles que a minha mãe preparava nesses dias que então eram de festa. Às tantas, isto deve ser da idade!

Rui Ramos


A colonização, no caso de África, não consistiu apenas na tutela e na presença de europeus. Assentou na menorização das populações nativas, através de constrangimentos de todo o tipo, dos quais a escravatura foi o pior, mas que incluíram também o trabalho forçado, as culturas obrigatórias e os estatutos especiais, como o do “indigenato”, que de facto excluía os nativos de uma comunidade legal e cívica reservada aos europeus e aos “assimilados” “.

Há dias, mesmo no “Observador”, em que o comentarista Rui Ramos se lembra de que também é o historiador Rui Ramos. E é um gosto lê-lo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O (meu) Sporting

Deve haver uma boa razão (mas, por mais que me esforce, não consigo descobri-la) pela qual esta subida do Sporting ao terceiro lugar da tabela classificativa, ultrapassando essa potência do futebol que é o Famalicão, não me entusiasma como devia. Mas o defeito é meu, com certeza

Ainda o CDS

Achei particular graça a uma passagem do discurso final do novo presidente do CDS no encerramento do congresso do partido: “No CDS nós não nos apoquentamos com as caricaturas que uma determinada elitezinha “gourmet”, bem pensante, intelectual de esquerda, nos quer colar”. Tomei boa nota. Apesar de tudo, foi elegante.

Luís Santos Ferro


Por muitos anos, não fui sócio do Grémio Literário. Sucessivas estadas no estrangeiro e uma vida ocupada quando em Lisboa não me dariam para gozar, com calma, as delícias da Rua Ivens, pelo que, por muitos anos, fui apenas um visitante episódico daquela bela casa.

Um dia, já não sei bem quando, deixei cair, numa conversa com o Luís Santos Ferro, essa minha qualidade de não-sócio. “O quê!? Você, um queiroziano de mérito, não é dos nossos?”. O “queiroziano de mérito” tocou-me a corda da vaidade e lá entrei eu para associado do Grémio, com a absoluta certeza de ter sido proposto por ele.

Quando e onde eu tinha conhecido o Luís Santos Ferro foi sempre, para mim, um mistério. Lisboa é uma aldeia feita cidade e, tendo nós muitos amigos, interesses e tarefas que se cruzavam, terá sido algures por aí. O importante é que em boa hora o conheci, estabelecendo com ele, desde o primeiro minuto, uma forte empatia.

O Luís era a boa disposição feita pessoa, que recordo com aquele sorriso franco, que se abria quando nos encontrávamos. Divertido, com histórias magníficas, amigo do seu amigo, sempre disponível, com uma cultura multifacetada, diziam-me ser uma extraordinária mais valia no Conselho Literário do clube. “Foi o Eça quem me trouxe para o Grémio. Só estou cá por causa dele”, disse-me, um dia.

E assim era. Com o prolífico arquiteto Campos Matos, Luis Santos Ferro, um engenheiro que foi diretor da Fundação Luso-Americana, era, no meu modesto entender, das pessoas que, em Portugal, mais sabia sobre a vida e obra de Eça de Queiroz.

Grandes “estudos” fizemos para tentar perceber, à luz da interpretação de pequenos pormenores, em que casa da Rua de S. Domingos à Lapa “viveu” esse “distinto sportsman” que, em “Os Maias”, se chamou Dâmaso Salcede. Figura a que o Luís sempre se referia como “o seu vizinho”, porque moro por lá.

Quando fui para embaixador em Paris, cidade onde havíamos de nos encontrar em belas jantaradas à roda da mesa de gente amiga, o Luís tinha um pedido a fazer-me: procurar substituir a já ilegível placa colocada no local onde antes estivera a casa em que Eça tinha morrido, colocada, nos anos 50, pelo meu longínquo antecessor, o embaixador Marcello Mathias. Empenhei-me, falei com autoridades e proprietários, e, um dia, para seu imenso contentamento, consegui levar a cabo aquilo que o Luís me pedira.

Mas fiz mais: num aniversário do Eça, ainda antes de abandonar a embaixada, consegui instalar uma placa comemorativa na primeira casa em que o escritor tinha vivido, logo que acabado de chegar a Paris. Foi o Luís, claro!, a primeira pessoa a quem dei conta desta nova iniciativa de um diplomata que “conspirava” pelo escritor. “O Altíssimo nos agradecerá”, sendo que o “Altíssimo” era o Eça, porque sempre soube que o Luís era pouco dado a outros.

Há semanas, num qualquer evento, cruzei-o nas salas do Grémio. “Estive bastante doente, sabia?”. Não sabia e, sem estar a mentir, disse-lhe que, pelo contrário, o achava com excelente aspeto. “Vivo do aspeto”, retorquiu-me, com uma das suas costumeiras gargalhadas. Mas reparei que aquelas escadas já lhe estavam a ser pesadas.

Recebi há pouco a notícia de que o Luís Santos Ferro tinha morrido. Fiquei muito chocado, provavelmente até bastante mais do que a nossa limitada intimidade justificaria. Só que o Luís era já uma parte integrante e querida do mundo de amigos e conhecidos que tenho vindo a criar ou recriar, desde que, faz amanhã sete exatos anos, regressei em definitivo a Lisboa.

Agora, para mim, o Grémio, sem ele, passa a ter metade da graça. As conversas sobre o grande Eça vão tornar-se numa caturreira enfadonha. O nosso sempre adiado almoço com o arquiteto Campos Matos nunca mais se fará.

De que terá morrido o Luís? Ainda não sei. Mas, se acaso lhe tivesse perguntado sobre aquilo de que padecia, ter-me-ia talvez respondido, imitando o sentenciosismo do Conselheiro Acácio, “não há doenças, há doentes”. Desta vez, aos 80 anos, o doente era ele. Adeus, Luís!

Jantar no Porto


Fui lá, pela primeira fez, nos anos 70. O local não mudou muito, mas a sala pareceu-me ontem bastante mais pequena do que a minha recordação tinha fixado.

A vista é deslumbrante, de longe a melhor do Porto, daquele 13° andar. A noite de ontem estava límpida, mas, de dia, o panorama deve ser ainda bastante melhor. À minha volta, só havia turistas.

Aquele edificio, hoje muito datado e já bastante decadente, era conhecido como a “Cooperativa dos Pedreiros”. O nome do restaurante é “Portucale”. A decoração permanece exatamente a mesma, com madeiras e cadeiras de couro, uma espécie de Gambrinus à moda do Porto, mas apenas no estilo. Hoje, no género, creio que está sozinho no mercado, depois que o velho Escondidinho se foi.

No final dos anos 80, fui ali acompanhar um membro do governo de então, num almoço com o presidente do Futebol Clube do Porto, para tratar de uma questão oficial. A certa altura, entrou na sala um pequeno grupo de pessoas, em que vislumbrei um grande amigo meu. Ele olhou para a mesa, fiquei com a sensação de que me tinha visto, saudei-o, mas ele não reagiu. Minutos depois, intrigado, levantei-me e fui à mesa em que ele estava sentado. “Ah! Estavas ali? De facto, pareceu-me ver-te, mas não acreditei que estivesses com aquela companhia...” O meu amigo é um furioso adepto do Leixões e o Futebol Clube do Porto continua, até hoje, a ser um dos seus ódios de estimação.

Foi simpático voltar ontem ao “Portucale”. A comida esteve longe de deslumbrar, mas o serviço foi muito atento, com empregados antigos e sabedores, num ambiente com um “charme” burguês que nos faz regressar algumas décadas atrás.


domingo, 26 de janeiro de 2020

Conversas globais

Conversa com Pedro Pinto na TVI. Pode ver aqui.

Os meus amigos


Há cerca de dois anos, numa festa pelo meu aniversário, um amigo que tinha vindo propositadamente a Lisboa para a ocasião, ao olhar o conjunto das pessoas presentes, algumas figuras publicamente conhecidas, exclamou: “Mas, afinal, tu tens quase tantos amigos de direita como de esquerda!”

Lembrei-me disso, há poucos dias, quando vi uma conhecida personalidade da “esquerda da esquerda”, numa entrevista na televisão, “meter os pés pelas mãos” quando lhe perguntaram se tinha amigos de direita. E, esforçando-se para contextualizar uma razão justificativa, lá conseguiu avançar com um nome.

Não faço a menor ideia se tenho mais amigos de direita do que de esquerda. As amizades que fui fazendo ao longo da minha vida, e são felizmente muitas, nunca foram determinadas pela minha identidade ou dessemelhança ideológica com as pessoas.

Tenho amigos, alguns com décadas de convivência e forte intimidade, de quem não faço a menor ideia do seu sentido de voto, nem alguma vez nos passou pela cabeça que isso viesse à baila nas nossas conversas.

A outros, que sei de certeza segura que vivem em mundos ideológicos em absoluto contrastantes com o meu, a única coisa que sempre “exijo” é que estejam dispostos a aturar a minhas ironias e graçolas sobre as suas idiosincrasias. E estou sempre aberto, claro, a que façam o mesmo comigo.

A maioria dos amigos que, basicamente, pensam politicamente tem normalmente alguma dificuldade em entender quando lhes digo que não tenho a menor paciência para acompanhar blogues “de esquerda”, que só com grande sacrifício consigo ler artigos de gente que se situa na minha área ideológica. Quando lhes afirmo, com total verdade, que o que me diverte é ler “fachos”, que me regalo com colunas de opinião de “indignados” direitolas, que sou fiel seguidor de tudo o que escrevem alguns reacionários encartados, ficam com um ar surpreendido. Já desisti de os catequizar para esta minha bizarria.

Tenho ótimos amigos que são monárquicos ferrenhos, sendo eu um republicano quase jacobino. Crentes à quinta potência convivem, creio que muito bem, com o indefectível ateu que sempre fui. Vivo rodeado de amantes de touradas, espetáculo que eu proibiria se acaso tivesse poder para tal. Ah! E detesto a caça (exceto na mesa)! Ouço divertido as teorias dos liberais, comigo a ter vontade de decepar a “mão invisível” e de reforçar mesmo alguns poderes do Estado que eles diabolizam. Gozo imenso com os saudosos do Estado Novo e até do colonialismo, mas estou com eles e com outros, mesmo os “machistas-leninistas”, nas graças (algumas delas impublicáveis) que desafiam o “politicamente correto”, juntado-nos (clandestinamente) em gargalhadas na troca de algum anedotário e léxico qualificante hoje muito pouco em voga (e mais não digo!).

Optar por ler e ouvir aquilo que conforta o que penso poderia ser muito cómodo, mas há muito que isso deixou de ter para mim a menor graça. O que me estimula, cada vez mais, é ser confrontado com as ideias radicalmente contrárias às que eu tenho, o que só ajuda a reforçá-las. E, obviamente, não me inibo de as zurzir e causticar, quando me apetece, como é público e notório para quem me lê por aqui.

Vivo a minha vida rodeado de amigos e conhecidos bem diversos, muitos dos quais, se acaso se conhecessem entre si, acabariam, pela certa, por se detestarem - e alguns detestam-se mesmo. Tenho um assumido gozo egoísta, mas que até acho saudável, de ser eu único fator que é comum a todos - sejam eles de direita, de esquerda ou adeptos do Cascalheira. E vivo lindamente assim!

E lá se foi o CDS!

Leiam bem o que se escreve na moção que venceu o congresso do CDS, ouçam o que disse António Pires de Lima na sua intervenção e atentem no que significa para o partido que foi de Freitas do Amaral e de Amaro da Costa a vitória do berreiro demagógico e sectário, a rondar a linguagem da extrema-direita. Adeus, CDS!

Novo olhar no “Olhar o Mundo”


O “Olhar o Mundo”, para quem eventualmente não saiba, é um programa sobre política internacional que, todas as semanas, o jornalista António Mateus dirige na RTP, sendo atualmente emitido na RTP 3 e repetido em outros canais. Há vários anos que António Mateus assegura o programa, que antes teve a direção de Márcia Rodrigues e, depois, de Manuel Menezes.

Desde que António Mateus orienta o “Olhar o Mundo”, vários especialistas em relações internacionais conversam semanalmente com o jornalista sobre dois ou três temas de atualidade, num diálogo apoiado em peças televisivas (reportagens ou entrevistas), fazendo também uma análise sobre a semana anterior e deixando algumas pistas sobre a que se seguirá. Gravado à sexta-feira, cada “Olhar o Mundo” permanece atual apenas por escassos dias, porquanto a realidade internacional muda muito rapidamente. 

O que só poucas pessoas talvez saibam é que, desde sempre, todos os especialistas convidados fazem o programa sem a menor retribuição, o que julgo tornar o “Olhar o Mundo” num dos menos dispendiosos programas da empresa. Numa relação “qualidade/custo” deve ser difícil encontrar na programação da RTP algo mais eficaz.

Eu próprio fiz parte da equipa do programa durante alguns anos, tendo deixado de colaborar com regularidade no “Olhar o Mundo” a partir do momento em que assumi as funções que hoje ocupo na RTP (também sem qualquer retribuição, diga-se), como um dos seis membros do seu Conselho Geral Independente (CGI) - a entidade que escolhe a administração da empresa, que define as orientações estratégicas para a sua ação e que, em permanência, vela pelo cumprimento das obrigações de serviço público da rádio e da televisão públicas. Em princípio, nenhuma incompatibilidade existia entre as duas tarefas, mas senti-me mais cómodo ao não acumular ambas as funções.

A minha anterior ligação ao “Olhar o Mundo” torna-me assim algo “suspeito” na avaliação, altamente positiva, que faço do trabalho da equipa do programa. Assumo, sem o menor problema, esse viés, mas isso não condiciona a minha atividade na RTP, porquanto o CGI em nada interfere nos programas e na informação da estação.

É por essa razão que hoje me sinto totalmente à vontade para afirmar que o novo “recrutamento” feito por António Mateus, a professora Ana Santos Pinto, que esta semana se estreou no ”Olhar o Mundo”, constitui uma extraordinária mais-valia, por se tratar de alguém muito qualificado, com um grande rigor analítico e uma capacidade de exposição muito rara.

Todos os que, como espetadores, seguimos semanalmente o “Olhar o Mundo” estamos de parabéns por este valioso reforço da sua equipa. Ao António e à Ana deixo um abraço amigo, com votos de bom trabalho.

sábado, 25 de janeiro de 2020

Tempos interessantes


A um ano de distância, ninguém parece ter a menor dúvida de que Marcelo Rebelo de Sousa só não verá renovado o seu mandato como presidente da República se acaso decidir não se recandidatar. A sua extraordinária popularidade, mesmo que possa vir a sofrer entretanto alguma erosão, garante-lhe uma posição mais do que confortável face a qualquer putativo concorrente. Além disso, prevalece maioritário no país o sentimento de que a sua prestação, por muitas críticas que a alguns possa merecer, em especial no tocante à forma excessiva como por vezes se expõe no exercício do cargo, tem-se constituído como um contributo positivo para a estabilidade e para o apaziguamento de tensões, sempre num registo de rigor institucional.

Não anunciando por ora a sua recandidatura, o que tem toda a lógica à luz dos precedentes, o presidente tem igualmente sublinhado que a ponderação dessa decisão não está concluída, como que deixando claro que um juízo sobre as suas condições de saúde poderá sobrepor-se à sua evidente vontade de vir a exercer um segundo mandato. Neste domínio, porém, como alguém já assinalou, Marcelo Rebelo de Sousa não está totalmente “livre”. É que, no caso da decisão vir a ser negativa, o atraso no respetivo anúncio tem óbvios impactos sobre o processo de constituição tempestiva de uma alternativa no seio da sua própria família política. E todos podemos imaginar o que por aí viria, num cenário de não recandidatura do presidente! Por isso, o tempo de anúncio de uma não recandidatura terá de ser diferente do de uma decisão em sentido oposto.

Partamos, contudo, do princípio de que Marcelo Rebelo de Sousa anunciará, quando lhe aprouver, que será candidato a sucessor de si mesmo. Nem por isso as eleições deixarão de ser um tempo precioso para medir a temperatura política do país.

A quase certa vitória de Marcelo Rebelo de Sousa arrasta, aliás, consequências interessantes, em especial no lado direito do espetro político. Tal como nas últimas eleições legislativas, em que já se dava por adquirida a derrota do PSD e do CDS, muitos dos seus eleitores tradicionais se sentiram livres para fazer escolhas em novas alternativas, também em 2021 alguns dos potenciais votantes (mesmo que, no fundo, não muito entusiastas) no atual presidente poderão ser tentados a dar-se ao “luxo” de vir a oferecer o seu voto a outros candidatos da direita política.

Um partido como o “Chega” terá, como é quase certo, o seu líder como candidato, mas podemos perguntar-nos o que acontecerá àqueles eleitores de direita que, tendo justificado pudor em ir por esse caminho, mas querendo mostrar o seu desagrado face ao atual presidente (mas com a antecipada certeza de que este será reeleito), desejem robustecer com o seu voto o surgimento de um outro nome? Podemos imaginar que uma ala mais liberal (como o tempo altera os conceitos...) dentro do PSD, bem como quantos se revêem numa explícita direita política, possam ser tentados a seguir uma candidatura conservadora, com uma matriz “justicialista”, protagonizada por alguém que faça da luta contra a corrupção o seu “cavalo de batalha” (os nomes já andam por aí...). Refiro-me não apenas a quantos, num passado não tão longínquo como isso, apoiaram com o seu voto os governos Passos-Portas, mas igualmente a novos eleitores, tributários da doutrinação liberal ou capturados pelo neo-conservadorismo.

Está já muito claro que a temática do combate à corrupção, com razões justificadas pelo apelo muito forte que ela hoje tem na sociedade portuguesa, vai continuar muito presente no debate político futuro. Não é, assim, de excluir que a próxima campanha presidencial possa abrir uma discussão sobre se o papel do chefe de Estado, num regime semi-presidencialista como a “plasticidade” do nosso, em que parte do recorte funcional depende da vontade do próprio e da existência de condições políticas conjunturais para o seu exercício, não deverá colar-se a um perfil mais pró-activo no combate à corrupção. O clamor por uma maior intervenção do chefe de Estado junto do executivo, para reforço e independência das estruturas policiais e das instituições judiciais pode vir a figurar nessa agenda política de campanha.

Há boas razões para pensar que este tipo de abordagem, cujo grau de racionalidade e objetividade política sempre dependerá do nível de populismo que lhe esteja ou não associado, possa vira projetar-se transversalmente às várias áreas político-partidárias, quiçá procurando transcendê-las. Quero com isto dizer que será expectável que, ao lado de uma ou várias candidaturas de direita, que surjam com este “leit motiv” no centro da sua campanha, possam emergir candidaturas oriundas da esquerda, esperando colher apoios em terrenos próximos do PS (que, tudo o indica, não irá ter candidato próprio, mas onde se sabe haver gente relutante em votar no atual presidente), mas igualmente em outros setores políticos, como a área de votantes do Bloco de Esquerda e do Livre. A lógica explicativa da emergência de tais candidatos será muito simples: evitar que a bandeira da luta contra a corrupção fique monopolizada pela direita.

Se acrescentarmos a estes possíveis candidatos aquele que o PCP e outras formações não deixarão de apresentar, com vista a fixar, como habitualmente, o seu eleitorado, bem como os “espontâneos” do costume, está desenhado um cenário em que, ao contrário daquilo para que uma visão simplista poderia apontar, a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa não terá a expressão estratosférica, em termos de números, que alguns vaticinavam.

Estou mais do que certo de que o atual presidente não vive com fantasmas de emulação virtual com o passado, agradando-lhe mesmo o facto de poder vir a ser o protagonista central de um momento eleitoral que coincide com um tempo político que, em face da fragmentação partidária reinante no parlamento, será de uma muito maior exigência política. E, por isso, para ele, muito mais estimulante.

Vão ser tempos interessantes para viver, pedindo de empréstimo uma velha expressão chinesa.

(Artigo que hoje publico a convite do “Expresso”)

O CDS

 

Será que o CDS perdeu, de vez, o seu lugar na sociedade política portuguesa? Depois do resultado catastrófico nas últimas eleições, a luta pela liderança, que se consumará neste fim de semana, pode, afinal, acabar num debate autofágico e autoflagelatório, que ajudará a dar cabo do que ainda resta do partido. Se assim acontecer, o novo líder que dali sair pode vir a ter uma vitória pírrica.

Pode parecer estranho que esteja aqui a preocupar-me com o CDS, mas a verdade é que se trata de um partido onde tenho alguns (e bons) amigos, cujo papel histórico no pós-25 de abril não subestimo. Não me é indiferente o futuro da direita em Portugal, porque o regime político democrático, que quero ver preservado, tem de a ter em conta, por muito que a cegueira sectária de alguma esquerda o não perceba. Por isso, o saldo do congresso do CDS interessa-me.

Se o CDS, para evitar que a direita radical se refugie no Chega, passar a mimetizar as suas causas populistas de medo e de ódio, estará condenado: os nostálgicos fascistas, os reacionários trauliteiros, preferem o original a um genérico com gente mais urbana e educada. 

Se o CDS pretende vir a ser a casa dos liberais, uma elite fina e modernaça, de camisa desapertada até ao quarto botão, pode acabar por conquistar algum do neoconservadorismo que anda pelo Twitter e por blogues residuais, bem como alguma da direita que polula na opinião do Observador e debita em certas “business schools”. Mas é claro que tudo isso, por muito barulho que faça, por muitas colunas de jornais que alimente, por muitos comentadores que promova, não enche muito mais do que um estádio de futebol. E, muito menos, o parlamento.

O CDS, que creio que há muito já percebeu que não poderá nunca titular o poder no país (quantas vezes Paulo Portas não se terá já arrependido de ter deixado a JSD?) e que só regressará ao governo como “muleta” do PSD ou em outras inimagináveis conjunturas, parece, contudo, não ter ainda entendido que, para continuar a ter um lugar minimamente relevante no espaço político, só lhe resta regressar à sua matriz ideológica original, trabalhando-a de forma contemporânea, educada, criativa, serena e dialogante. 

Para isso, o CDS não pode ser um partido “caceteiro” e ultramontano, deve largar a demagogia barata que o fez afundar nas duas últimas eleições, deixar-se de slogans demagógicos e de atitudes histéricas, e, acima de tudo, deve manter um respeito por si próprio, pela sua história, pelo que foi nos tempos em que chegou a ter um papel significativo na democracia portuguesa. E nestes não incluo os tempos da “troika”, bem entendido.

Domingo, logo se verá por onde o CDS quer ir. Ou se, afinal, não irá a parte nenhuma.

Conversas globais



 

Durante 25 minutos, estarei na TVI 24 à conversa com o jornalista Pedro Pinto, no programa “Conversas Globais”.

Falaremos da “guerra” EUA-China, da globalização, dos desafios da competitividade europeia, das oportunidades para Portugal no mercado global, etc.

O programa será transmitido na TVI 24 no domingo, dia 26 janeiro, à 01:10 e às 17:30, estando depois disponível no TVI Player.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Aniversários


Nos idos de 1980, colocado na embaixada em Oslo, coube-me preparar a visita de Estado de Ramalho Eanes, então presidente da República, à Noruega.

Personalizo a frase porque, durante alguns meses, estive quase “home alone” na função: o anterior embaixador, Fernando Reino, tinha sido transferido para Lisboa (onde passou a ser, precisamente, chefe da casa civil de Eanes), e o novo embaixador, Cabrita Matias, só chegaria a Oslo poucas semanas antes da chegada do presidente. Assim, por ali estive sozinho, ainda com limitada experiência diplomática, com escassíssimo apoio, numa embaixada “microscópica”, como “encarregado de negócios”, a ter de acordar com os noruegueses todos os pormenores da organização de uma visita presidencial. Mal eu sabia que, no futuro, me caberia ter de organizar outras visitas presidenciais, bem mais complexas.

O meu interlocutor no palácio real norueguês foi Magne Hagen, um militar que, à época, era chefe de gabinete do rei Olavo V. Os noruegueses cedo tinham percebido a minha relativa “solidão” nas discussões sobre os temas em análise, que iam da clássica “marchandage” das trocas de condecorações aos pormenores protocolares e à agenda de conversas. A situação era tanto mais complexa quanto, em Lisboa, havia então uma forte conflitualidade entre o presidente e o governo, comigo a receber, por vezes, instruções contraditórias, umas das Necessidades, outras de Belém. Mas os noruegueses foram sempre de uma extrema simpatia.

Um jovem colega e amigo do nosso Protocolo seria entretanto enviado de Lisboa, por uns dias, a poucas semanas do evento, para nos ajudar a fixar os últimos pormenores: chamava-se José de Bouza Serrano, viria a ser embaixador e chefe do protocolo do Estado português. Sei que ele se lembra bem desses tempos.

Como resultado do frequentes contactos profissionais que fui mantendo com Hagen, acabámos por nos transformar em bons amigos. Da parte dele, uma prova dessa amizade seria o convite, no ano seguinte, para passarmos os dias da Páscoa com a sua família, na sua “hytte”, as cabanas de madeira nas montanhas que os noruegueses gostam sempre de ter. Não é muito fácil entrar na intimidade dos nórdicos mas, uma vez franqueado esse passo, revelam-se quase sempre gente de uma imensa franqueza e generosidade.

Por que é que me lembrei disto agora? Porque amanhã é 25 de janeiro. Nesses dias de junho de 1980, durante a estada de Eanes em Oslo, num dos intervalos do programa, apresentei-lhe Magne Hagen, sublinhando o papel decisivo que ele tivera na impecável organização da visita. Eanes agradeceu-lhe e eu aproveitei para assinar a coincidência do presidente e de Hagen fazerem anos no mesmo dia, 25 de janeiro.

(Meses depois, no final de 1980, Eanes iria disputar uma tensa campanha política para a sua reeleição, marcada pela morte de Sá Carneiro, com um adversário oriundo da direita militar, Soares Carneiro, que morreu em 2014. Curiosamente, Soares Carneiro tinha nascido... a 25 de janeiro.)

António Ramalho Eanes faz amanhã 85 anos e a História contemporânea do nosso país consagra já dele uma imagem de estadista e de uma personalidade de imensa probidade, muito por cima de todas as divergências que a sua ação, em determinados momentos, possa ter suscitado em vários setores, comigo incluído. O melhor elogio que lhe posso fazer é dizer que fazem muita falta a Portugal figuras com a sua estatura e integridade política.

Magne Hagen, o meu grande amigo norueguês, teve os últimos tempos da sua vida marcados por ocorrências de saúde que lhe tornam o quotidiano bastante difícil. Ainda há poucos anos, fomos visitá-lo à sua casa em Strømmen, perto de Oslo. Amanhã, telefonar-lhe-ei para o felicitar pelos seus 82 anos.

Curiosidades da vida.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Discutir Trump em Lisboa



Jerusalem


Vai por França uma forte polémica pelo facto de Emannuel Macron ter tido hoje uma altercação com a polícia israelita, em Jerusalem, que pretendia impedi-lo de seguir numa determinada direção. Alguns acusam o presidente francês de ter artificialmente construído um “remake” de uma cena similar passada na mesma cidade, mas com Jacques Chirac, em 1996.

Quem sabe se Chirac não se terá inspirado num episódio ocorrido com Mário Soares, meses antes, em novembro de 1995, quando este insistiu em subir o percurso do Monte das Oliveiras, não obstante a tentativa de uns imensos “bodyguards” de óculos escuros de o impedirem de prosseguir? Soares deu dois berros em português, afastou os polícias e fez, com toda a delegação, o caminho que lhe apeteceu fazer.

Afinal, Macron não só copiou Chirac, como Chirac já tinha copiado Soares.

(Uma imagem desses dias)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Que raio de país este!

Há gente já com netos que nasceu depois de ter sido anunciado que o novo aeroporto de Lisboa seria na Ota. Foram estudos e mais estudos, especialistas e mais especialistas, debates intermináveis e contestações múltiplas. Um dia, a ideia da Ota acabou. Depois foi o projeto de Alcochete. A “novela” foi parecida, embora mais breve. Caiu-se, finalmente, na solução Montijo, embora por aí agora se fale também da ideia de Portela + Alverca. Não sei se me esqueci de alguma coisa mais. Quando os estudos acabam e todas as audições terminam, quando parece estar prestes a surgir uma decisão final, lá recomeça a contestação. E, como regra, os governos acobardam-se e, como nos jogos de tabuleiro, tudo regressa à primeira casa.

Que raio de país este!

Uma oportunidade perdida



A imagem deprimente que passou para a opinião pública do congresso do Livre, com o que daí parece ir resultar para a eficácia da sua ação futura no parlamento, terá arruinado, pelo menos por algum tempo, a capacidade de afirmação nacional do partido. Nunca se terá ouvido falar tanto no Livre, mas, com toda a certeza, quem o apoia dispensaria bem o modo como o partido surgiu em evidência mediática.

Em política, como dizia o outro, o que parece é. E, por muito tempo, o Livre pareceu ser um partido “unipessoal”, criado em torno de Rui Tavares, um historiador que o Bloco de Esquerda fez um dia eleger para o Parlamento Europeu, mas com quem viria a entrar em posterior conflito.

O Livre surgiu com um discurso de esquerda culta e inventiva, aberto às temáticas de modernidade, do ambiente às questões de género. Do PS, o Livre distinguia-se por assumir uma agenda um tanto radical, bem mais estatizante, contrastando com a matriz “aggiornata” da social-democracia que hoje prevalece no Rato. Do Bloco de Esquerda, além da herança conflitual do passado, separava-o um muito maior pendor europeísta.

A personalidade suave e dialogante de Rui Tavares, que conquistara, com inegável mérito, um alargado espaço comunicacional, grangeava ao Livre uma promissora simpatia em diversos setores. Mas Tavares e o partido cedo terão entendido que seria necessário algo mais para conseguir ter acesso à Assembleia da República.

A escolha, por sufrágio alargado de simpatizantes, de uma mulher negra para representar o partido no parlamento parecia ser uma “trouvaille” interessante, ao mesmo tempo carregada de simbolismo. A condição para o sucesso do empreendimento era, naturalmente, que a figura escolhida estivesse em consonância plena com a linha partidária que representava. Ora, como já se viu, as coisas não se passam assim.

A deputada acha, provavelmente com razão, que, sem ela, o Livre não teria conseguido eleger ninguém. E reivindica uma forte autonomia decisória. O partido, por seu turno, entende que a única pessoa que tem em S. Bento em seu nome deve defender a sua orientação política, o que também tem algum sentido.

Não parecendo possível um compromisso entre estas duas perspetivas, o resultado é uma imagem de confusão política muito pouco dignificante. No fundo, estamos perante uma oportunidade perdida para afirmar uma mensagem parlamentar diferente, no âmbito de uma esquerda que, um pouco por todo o mundo, vive, nos dias de hoje, numa crise de imaginação e de ideias criativas.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Médio Oriente


Hoje, terça-feira, 21 de janeiro, pelas 14 horas, estarei no programa “Sociedade Civil”, na RTP 2, dirigido por Luís Castro, a discutir a situação no Médio Oriente com Ana Santos Pinto, Armando Marques Guedes e Francisco Caramelo.

Regina Duarte


Foi em julho de 1992. Eu vivia então em Londres e fui uns dias, em férias, a Nova Iorque. Na Broadway, estava uma peça teatral de grande sucesso, “Death and the Maiden”, para a qual tive a sorte de conseguir arranjar bilhetes. Era a história de uma mulher que encontra, em sua própria casa, trazido casualmente pelo seu marido, o homem que a tinha torturado e violado, anos antes, durante um período de ditadura política. Sem que isso fosse explicitado, tudo apontava para situar o episódio no Chile de Pinochet, tanto mais que o autor da peça era dessa nacionalidade. O elenco era de luxo: Glenn Close, Gene Hackman e Richard Dreyfuss.

Sentámo-nos no teatro e, por uma imensa coincidência, ao meu lado ficou Regina Duarte, a excelente atriz brasileira, que tinha entrado em várias novelas que tínhamos visto na televisão. Não sou muito dado a esse tipo de gestos, mas não resisti a falar-lhe, expressando a minha admiração pelo seu trabalho como atriz. Foi muito simpática.

No final da peça, Regina Duarte chorava. Fiquei com grande respeito por aquelas lágrimas. O peso insuportável das ditaduras latino-americanas de extrema direita estava ali todo, naquela sala. Percebi que uma mulher e atriz brasileira, que também tinha passado por um regime similar àquele, sentia, como ninguém, a situação que ali via retratada.

Há horas, foi anunciado que Regina Duarte aceitou ser secretária da Cultura de Jair Bolsonaro.

Às vezes, há coisas que não rimam.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Unidos por Trump


Muitos dão a Stalin o crédito de ser um dos “cimentos” da construção europeia. Na mesma lógica, foi Trump, cujos três anos de mandato hoje se “comemoram”, a razão que reuniu esta manhã, no Salão Nobre da Universidade de Lisboa, um conjunto de palestrantes, convidados por Eduardo Paz Ferrreira, presidente do Instituto Europeu da Faculdade de Direito, para fazerem, cada um a seu modo, o “saldo” do mandato presidente americano e as perspetivas que isso traz para o nosso futuro.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Alentejo




Nunca fui um fã da paisagem alentejana, devo confessar. O campo “a sério”, para mim, tem de ter montes e vales pronunciados, penhascos, imensas subidas e descidas, coisas agrestes, rochedos. Como acontece em Trás-os-Montes, claro.

E, dito isto, o Alentejo (já Alto, é verdade) estava soberbo, como eu nunca o tinha visto, neste fim de semana que por lá passei. Talvez pela chuva recente, os verdes estavam imbatíveis, as planuras até me fizeram esquecer o meu Marão. E não sou fácil de contentar!

Justiças

Quando o processo Manuel Vicente transitou para Angola, ao abrigo dos acordos bilaterais existentes, muitos por cá afirmaram não confiar na justiça angolana. Agora que essa mesma justiça pode vir a acusar Isabel dos Santos, essa justiça, afinal, já merece confiança?

Isabel dos Santos


Um grupo de órgãos de comunicação internacional de vários países começou hoje a divulgar documentos que transmitem fortes indícios de que a conhecida fortuna de Isabel dos Santos poderá ter assentado em benefícios ilegítimos, proporcionados pelo apoio do seu pai, durante o imenso tempo em que este presidiu aos destinos de Angola.

A confirmarem-se essas suspeitas, elas apenas virão confortar a perceção, muito generalizada, naquele país e fora dele, de que tão imenso património dificilmente poderia ter crescido, da forma como cresceu, se não tivesse tido “impulsos” políticos muito fortes. A documentação que já se conhece vai, contudo, mais longe, ao adiantar elementos que, na perspetiva dos jornalistas, podem configurar, não apenas privilégios, mas igualmente a prática de delitos de diversa natureza. Essa é agora uma questão para a justiça angolana, que já tinha procedido ao arresto de muitos dos bens de Isabel dos Santos.

As últimas semanas tinham já mostrado Isabel dos Santos num esforço para contestar publicamente as ações da justiça angolana face ao seu “império” económico-financeiro. Perante o detalhe destas últimas acusações e a montanha documental avassaladora que deve vir por aí, o caso promete poder entreter-nos por muito tempo.

Na África descolonizada, o cíclico rodar dos “alcratruzes da nora”, em matéria política, criando contrastes entre os ciclos sucessivos de poder, com consequências judiciais, é quase uma regra. Mas, a acreditar nos vultuosos valores que parece estarem envolvidos neste caso particular, a questão Isabel dos Santos tem uma tal dimensão que arrisca tornar-se jm “modelo” histórico quase sem precedentes.