domingo, 26 de janeiro de 2020

Os meus amigos


Há cerca de dois anos, numa festa pelo meu aniversário, um amigo que tinha vindo propositadamente a Lisboa para a ocasião, ao olhar o conjunto das pessoas presentes, algumas figuras publicamente conhecidas, exclamou: “Mas, afinal, tu tens quase tantos amigos de direita como de esquerda!”

Lembrei-me disso, há poucos dias, quando vi uma conhecida personalidade da “esquerda da esquerda”, numa entrevista na televisão, “meter os pés pelas mãos” quando lhe perguntaram se tinha amigos de direita. E, esforçando-se para contextualizar uma razão justificativa, lá conseguiu avançar com um nome.

Não faço a menor ideia se tenho mais amigos de direita do que de esquerda. As amizades que fui fazendo ao longo da minha vida, e são felizmente muitas, nunca foram determinadas pela minha identidade ou dessemelhança ideológica com as pessoas.

Tenho amigos, alguns com décadas de convivência e forte intimidade, de quem não faço a menor ideia do seu sentido de voto, nem alguma vez nos passou pela cabeça que isso viesse à baila nas nossas conversas.

A outros, que sei de certeza segura que vivem em mundos ideológicos em absoluto contrastantes com o meu, a única coisa que sempre “exijo” é que estejam dispostos a aturar a minhas ironias e graçolas sobre as suas idiosincrasias. E estou sempre aberto, claro, a que façam o mesmo comigo.

A maioria dos amigos que, basicamente, pensam politicamente tem normalmente alguma dificuldade em entender quando lhes digo que não tenho a menor paciência para acompanhar blogues “de esquerda”, que só com grande sacrifício consigo ler artigos de gente que se situa na minha área ideológica. Quando lhes afirmo, com total verdade, que o que me diverte é ler “fachos”, que me regalo com colunas de opinião de “indignados” direitolas, que sou fiel seguidor de tudo o que escrevem alguns reacionários encartados, ficam com um ar surpreendido. Já desisti de os catequizar para esta minha bizarria.

Tenho ótimos amigos que são monárquicos ferrenhos, sendo eu um republicano quase jacobino. Crentes à quinta potência convivem, creio que muito bem, com o indefectível ateu que sempre fui. Vivo rodeado de amantes de touradas, espetáculo que eu proibiria se acaso tivesse poder para tal. Ah! E detesto a caça (exceto na mesa)! Ouço divertido as teorias dos liberais, comigo a ter vontade de decepar a “mão invisível” e de reforçar mesmo alguns poderes do Estado que eles diabolizam. Gozo imenso com os saudosos do Estado Novo e até do colonialismo, mas estou com eles e com outros, mesmo os “machistas-leninistas”, nas graças (algumas delas impublicáveis) que desafiam o “politicamente correto”, juntado-nos (clandestinamente) em gargalhadas na troca de algum anedotário e léxico qualificante hoje muito pouco em voga (e mais não digo!).

Optar por ler e ouvir aquilo que conforta o que penso poderia ser muito cómodo, mas há muito que isso deixou de ter para mim a menor graça. O que me estimula, cada vez mais, é ser confrontado com as ideias radicalmente contrárias às que eu tenho, o que só ajuda a reforçá-las. E, obviamente, não me inibo de as zurzir e causticar, quando me apetece, como é público e notório para quem me lê por aqui.

Vivo a minha vida rodeado de amigos e conhecidos bem diversos, muitos dos quais, se acaso se conhecessem entre si, acabariam, pela certa, por se detestarem - e alguns detestam-se mesmo. Tenho um assumido gozo egoísta, mas que até acho saudável, de ser eu único fator que é comum a todos - sejam eles de direita, de esquerda ou adeptos do Cascalheira. E vivo lindamente assim!

7 comentários:

Rui C.Marques disse...

Meu Caro Francisco ,as minhas felicitações num abraço amigo.

Lúcio Ferro disse...

Futebol Clube do Porto sempre! :)

Joaquim de Freitas disse...

Também é raro que um Embaixador, apoiante dum governo duma maioria "socialo-comunista", como dizem os outros” direitolas”, consiga “navegar” em águas tão turvas como aquelas que caracterizam o sistema político português.

Pensei no Senhor Embaixador precisamente esta tarde, recordando-me do seu apoio ao MNE português, quando li acerca da visita de Juan Guaido a Emmanuel Macron em Paris, onde as águas do Sena são da mesma qualidade que as do Tejo.

Na verdade, ninguém prestou atenção, mas o Presidente Emmanuel Macron recebeu no Eliseu Juan Guaido, o líder do putsch fracassado na Venezuela. Que o Sr. Santos Silva apoia , claro !

O que quer que se pense da Venezuela e do seu governo, uma tal recepção interroga.Como em Lisboa. É normal estender a passadeira vermelha a um homem que fez uma tentativa de golpe de Estado no seu país? Um homem que diz viver sob uma ditadura mas que ainda está à solta depois de uma tentativa de revolta e de uma tentativa de putsch militar? Um homem que entra e sai do país sem obstáculos depois de tudo isto? É aceitável que ele seja recebido com grande fanfarra quando já não é presidente da Assembleia Nacional do seu país depois de ter sido derrotado por outro opositor de direita do governo chavista?

E em muitos outros temas, o Senhor Embaixador tem essa qualidade, que lhe permite uma grande cultura e profissionalismo, e sem duvida uma grande experiência do mundo, para abrigar no seu seio tantas ideias opostas e gozar com o espectáculo.

“Tenho um assumido gozo egoísta” escreveu o Senhor Embaixador. Gostei muito desta confissão…

Anónimo disse...

Mais uma vez Joaquim de Freitas tem razão.
A Europa e os seus líderes de joelhos perante os EUA. Só assim se comprrende a atitude patética de Macron! Um fantoche.

Anónimo disse...

Este Joaquim de Freitas é mesmo um tipo de "vistas largas". Se houvesse um Nobel para o Faciosismo estava garantido.

Anónimo disse...


Porra, este anonimo das é um « stradivirus corona » , ataca sempre o homem e nunca o que ele escreve.

Anónimo disse...

Já sei que não gosta. É recorrente nestas afirmações. Quando se sabe perfeitamente que rejeita tudo que seja eurocrítico, euroatlantista, etc. Natural que encontre afinidades com a direita toda e com a maioria do PS. Nunca o vejo é dizer que gosta de ler coisas ou que convive com gente da esquerda que lhe ponha essas crenças em causa. Não se ufane desse ecumenismo, mesmo que se auto-convença. Joaquim Freitas exemplifica.